Universo da obra
Universo da obra
O Horla8 de maio. Que dia admirável. Passei a manhã diante de minha casa, olhando o Sena correr sob as árvores. Tudo parecia limpo, calmo, familiar. A vida, em certas horas, dá a impressão de que nada pode feri-la.
Poucos dias depois, porém, começou em mim uma inquietação sem nome. Eu dormia mal. Acordava com a sensação de que alguém se inclinara sobre meu rosto. A água desaparecia da garrafa durante a noite; o leite também. Eu me dizia que era sonho, febre, nervos. Mas o medo, uma vez instalado, encontra provas em tudo.
Havia em minha casa uma presença. Não a via, mas ela pesava no ar. Passava junto de mim como vento sem janela. Tocava objetos. Bebia. Observava. E, pior que tudo, parecia compreender-me.
Tentei viajar. Longe dali, senti-me melhor, como se a criatura estivesse presa à casa ou ao vale do rio. Mas, ao retornar, a opressão voltou. O invisível esperava. Compreendi então que o mundo talvez não pertencesse apenas aos homens. Há seres que não percebemos porque nossos sentidos são pobres; há domínios inteiros colados ao nosso, tão próximos que nos atravessam.
A razão resistia. Eu fazia experiências, fechava portas, marcava garrafas, vigiava sombras. Cada teste me aproximava do horror. O Horla existia, e sua existência diminuía a minha.
Um dia vi, no espelho, o impossível: minha própria imagem desaparecer, coberta por aquilo que estava entre mim e o vidro. Não era loucura. Ou, se era, a loucura tinha corpo, vontade e sede.
Pensei em destruí-lo. Incendiei a casa. As chamas subiram, devoraram quartos, móveis, paredes. Mas logo uma pergunta me esmagou: se o Horla é superior a nós, se vive onde não podemos tocar, o fogo bastaria?
Depois do homem virá outro ser. Talvez já tenha vindo. E eu, último prisioneiro de mim mesmo, compreendi que só havia uma porta que ele talvez não pudesse atravessar comigo.
O célebre conto fantástico de Maupassant em versão breve: um diário de medo, invisibilidade e dissolução da razão.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 10775, Le Horla, by Guy de Maupassant
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.