Universo da obra
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À DerivaO homem pisou na trilha estreita sem perceber o perigo escondido entre as folhas. Sentiu apenas o golpe seco, uma dor aguda no pé e, logo depois, viu a cobra fugir para o mato. A princípio acreditou que ainda dominava a situação. Era homem de rio e de selva; conhecia ferimentos, febres, distâncias.
Mas o veneno começou a subir. Primeiro veio o ardor. Depois a perna pareceu engrossar, pesada, estranha, como se já não lhe pertencesse. O homem apertou os dentes, improvisou cuidados, chamou pela mulher. Bebeu alguma coisa forte, tentou enganar o medo com gestos rápidos, mas o corpo já obedecia a outra lei.
Precisava chegar ao povoado. Ali talvez houvesse socorro, remédio, mãos capazes de deter aquilo que corria por dentro dele. Entrou na canoa e se deixou levar pelo rio. As margens passavam verdes, densas, indiferentes. A água seguia seu curso com uma calma quase cruel.
No começo, ainda remava. Depois, cada movimento exigia mais do que possuía. A dor se misturou ao torpor. O sol, a vegetação, o brilho do rio, tudo parecia afastar-se e aproximar-se ao mesmo tempo. Ele pensava na vida recente, em antigas amizades, em encontros que talvez pudesse retomar se chegasse vivo.
A canoa descia. O rio, que para outros seria caminho, tornava-se relógio. Cada curva prometia salvação e adiava a chegada. O homem olhava as barrancas, reconhecia sinais, calculava distâncias. Mas a lucidez vinha em ondas, cada vez mais fracas.
Por momentos, acreditou melhorar. A dor diminuiu, o corpo pareceu leve, quase em paz. Essa falsa trégua lhe trouxe lembranças doces: conversas, rostos, dias comuns que de repente pareciam preciosos. Pensou que talvez ainda pudesse alcançar o destino.
Então a selva fechou-se em silêncio. A canoa continuou descendo sozinha, entregue ao movimento da corrente. O homem já não lutava contra o rio nem contra o veneno. À deriva, o corpo acompanhava a água, e a água acompanhava aquilo que nenhum esforço humano podia suspender.
Quiroga escreve esse conto com a secura de quem sabe que a natureza não explica nem consola. O horror está justamente na simplicidade: uma picada, um rio, uma tentativa de chegar a tempo. Nada é melodramático; tudo é inevitável.
Nesta versão Literunico, À Deriva permanece como uma pequena tragédia de movimento contínuo. A vida se estreita enquanto a canoa avança, e o leitor percebe que há destinos que não chegam como tempestade, mas como correnteza.
Um conto seco e implacável de Horacio Quiroga, publicado em Cuentos de amor de locura y de muerte, sobre veneno, rio, memória e destino.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 13507, Cuentos de Amor de Locura y de Muerte, Horacio Quiroga; conto A la deriva. https://www.gutenberg.org/ebooks/13507
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