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Caramuru

Universo da obra

Caramuru

Capítulo 1 · Caramuru

Canto 1

I D

e hum Varão em mil caſos agitado,

Que as praias diſcorrendo do Occidente,

Descubrio o Reconcavo affamado

Da Capital Brazilica potente:

Do Filho do Trovão denominado,

Que o peito domar ſoube á fera gente;

O valor cantarei na adverſa ſorte,

Pois ſó conheço Heróe quem nella he forte.

II Santo Eſplendor, que do Grão Padre manas

Ao ſeio intacto de huma Virgem bella,

Se da enchente de luzes Soberanas

Tudo diſpenſas pela Mãi Donzella;

Rompendo as ſombras de illusões humanas,

Tu do grão caſo a pura luz revéla;

Faze que em ti comece, e em ti conclua

Eſta grande Obra, que por fim foi tua.

III E vós, Principe excelſo, do Ceo dado

Para baſe immortal do Luſo Throno;

Vós, que do aureo Brazil no Principado

Da Real ſuceſsão ſois alto abono:

Em quanto o Imperio tendes deſcançado

Sobre o ſeio da paz com doce ſonno,

Não queirais dedignar-vos no meu metro

De pôr os olhos, e admitillo ao ſcetro.

IV Nelle vereis Nações deſconhecidas,

Que em meio dos Sertões a Fé não doma;

E que pudérão ſervos convertidas

Maior Imperio, q̃ houve em Gracia, ou Roma:

Gentes vereis, e Terras eſcondidas,

Onde, ſe hum raio da verdade aſſoma,

Amanſando-as, tereis na turba immenſa,

Outro Reino maior que a Europa extenſa.

V Devora-ſe a infeliz, miſera Gente;

E ſempre reduzida a menos terra,

Virá toda a extinguir-ſe infelizmente;

Sendo em campo menor maior a guerra.

Olhai, Senhor, com reflexão clemente

Para tantos Mortaes, que a brenha encerra;

E que, livrando deſſe abyſmo fundo,

Vireis a ſer Monarca de outro Mundo.

VI Príncipe, do Brasil, futuro dono,

Á Mãi da Patria, que adminiſtra o mando,

Ponde, excelſo Senhor, aos pés do Throno

As deſgraças do Povo miſerando:

Para tanta eſperança he o juſto abono,

Voſſo titulo, e nome, que invocando,

Chamará, como a outro o Egypcio Povo,

D. Joſé Salvador de hum Mundo novo.

VII Nem podereis temer, que ao ſanto intento

Não ſe nutrão Heróes no Luſo povo,

Que o antigo Portugal vos apreſento

No Brasil renaſcido, como em novo.

Vereis do domador do Indico aſſento

Nas guerras do Brazil alto renovo,

E que os ſeguem nas bellicas idéias

Os Vieiras, Barretos, e os Correas.

VIII Dai por tanto, Senhor, potente impulſo,

Com que poſſa entoar ſonoro o metro

Da Brazilica gente o invicto pulſo,

Que aumenta tanto império ao voſſo Scetro;

E em quanto o povo do Brazil convulſo

Em nova lyra canto, em novo pletro,

Fazei que fideliſſimo ſe veja

O vosso Throno em propagar-ſe a Igreja.

IX Da nova Luſitania o vaſto eſpaço

Hia a povoar Diogo, a quem biſonho

Chama o Brazil, temendo o forte braço,

Horrivel filho do trovão medonho:

Quando do abyſmo por cortar-lhe o paſſo

Eſſa Furia ſahio, como ſupponho,

A quem do Inferno o Paganiſmo aluno,

Dando o Imperio das aguas, fez Neptuno.

X O grão Tridente, com que o mar commove,

Cravou dos Orgãos na montanha horrẽda,

E na eſcura caverna, adonde Jove

(Outro eſpirito) eſpalha a luz tremenda,

Relampagos mil faz, coriſcos chove;

Bate-ſe o vento em horrida contenda:

Arde o Ceo, zune o ar, treme a montanha,

E ergue-lhe o mar em frente outra tamanha.

XI O Filho do trovão, que em baixel hia

Por paſſadas tormentas ruinoſo,

Vê que do groſſo mar na traveſſia

Se ſorve o lenho pelo pégo undoſo;

Bem que conſtante, a morte não temia,

Invoca no perigo o Ceo piedoſo;

Ao ver que a furia horrivel da procélla

Rompe a náo, quebra o leme, e arranca a véla.

XII Lança-ſe ao fundo o ignivomo inſtrumento,

Todo o pezo ſe alija; o paſſageiro,

Para nadar no tumido Elemento,

A taboa abraça, que encontrou primeiro;

Quem ſe arroja no mar temendo o vento;

Qual ſe fia a hum batel; quem a hũ madeiro,

Até que ſobre a penha, que a embaraça,

A quilha bate e a náo ſe deſpedaça.

XIII Sete ſómente do batel perdido

Vem á praia cruel, luctando a nado;

Offerece-lhe hum ſoccorro fementido

Barbara multidão, que acode ao brado:

E ao ver na praia o Bemfeitor fingido,

Rende-lhe as mãos o naufrago enganado:

Triſtes! que a ver algum, qual fim o eſpera

Com quanta ſede a morte não bebêra!

XIV Já eſtava em terra o infauſto naufragante,

Rodeado da turba Americana;

Vem-ſe com paſmo ao pôrem-ſe diante,

E huns aos outros não crem da eſpecie humana:

Os cabellos, a côr, barba, e ſemblante

Fazião crer aquella Gente inſana,

Que alguma eſpecie de animal ſeria,

Deſſes, que no ſeu ſeio o mar trazia.

XV Algum chegando aos miſeros, que a arêa

O mar arroja extinctos, nota o vulto;

Ora o tenta deſpir, e ora recea

Não ſeja aſtucia, com que o aſſalte occulto.

Outros do Jacaré tomando a idéa

Temem que acorde com violento inſulto;

Ou que o ſomno fingindo os arrebate,

E entre as prezas crueis no fundo os mate.

XVI Mas vendo a Sancho, hum naufrago que eſpira,

Rota a cabeça n’huma penha aguda,

Que hia tremulo a erguer-ſe, e que cahira,

Que com voz laſtimoſa implora ajuda:

E vendo os olhos, que elle em branco vira;

Cadaverica a face, a boca muda,

Pela experiencia da commua sorte

Reconhecem tambem que aquillo he morte.

XVII Correm depois de crello ao paſto horrendo;

E retalhando o corpo em mil pedaços,

Vai cada hum famelico trazendo,

Qual hum pé, qual a máo, qual outro os braços:

Outros da crua carne hião comendo;

Tanto na infame gula erão devaſſos:

Taes ha, que as aſsão nos ardentes foſſos,

Alguns torrando eſtão na chamma os oſſos.

XVIII Que horror da Humanidade! ver tragada

Da propria eſpecie a carne já corrupta!

Quanto não deve a Europa abençoada

Á Fé do Redemptor, que humilde eſcuta?

Não era aquella infamia praticada

Só deſſa gente miſeranda, e bruta;

Roma, e Carthago o ſabe no nocturno

Horrivel ſacrificio de Saturno.

XIX Os ſete em tanto, que do mar com vida

Chegárão a tocar na infame arêa,

Paſmão de ver na turba recreſcida

A brutal catadura, horrida, e fea:

A côr vermelha em ſi, moſtrão tingida

De outra côr differente, que os affèa:

Pedras, e páos de embiras enfiados,

Que na face, e nariz trazem furados.

XX Na boca em carne humana enſanguentada

Anda o beiço inferior todo cahido;

Porque a, tem toda em roda esburacada,

E o labro de vís pedras embutido:

Os dentes (que he belleza que lhe agrada)

Hum ſobre outro deſponta recreſcido:

Nem ſe lhe vê naſcer na barba o pello,

Chata a cara, e nariz, rijo o cabello.

XXI Vê-ſe no ſexo recatado o pejo,

Sem mais que a antiga gala que Eva uſava,

Quando por pena de hum voraz desejo

Da ſêa a deſnudez ſe envergonhava:

Vão ſem pudor com barbaro deſpejo

Os homens, como Adão ſem culpa andava;

Mas vê-ſe, alma Natura, o que lhe ordenas;

Porque no Sacrificio usão de penas.

XXII Qual das bellas Araras traz viſtoſas

Louras, brancas, purpureas, verdes plumas:

Outros põem, como tunicas luſtroſas,

Hum verniz de balſamicas eſcumas:

Nem temem nelle as chuvas procelloſas,

Nem o frio rigor de aſperas brumas;

Nem ſe receão do mordaz biſouro,

Qual Anta, ou qual Tatú dentro em ſeu couro.

XXIII Por armas, fréchas, arcos, pedras, béſtas;

A eſpada do pao ferro, e por eſcudo

As redes de algodão nada moleſtas,

Onde a ponta ſe embace ao dardo agudo:

Por capacete nas guerreiras teſtas

Cintos de pennas com galhardo eſtudo; braço.

Mas o vulgo no belico ameaço

Não tem mais q̃ unha ou dente, ou punho ou

XXIV Deſta arte armada a multidão confuſa

Inveſte o naufragante enfraquecido,

Que ao ver ſe deſpojar, nada recuſa;

Porque ſe enxugue o madido. veſtido:

Tanto mais pelo mimo, que ſe lhe uſa,

Quando a barbara gente o vê rendido:

Trouxerão-lhe abatata, o coco, o inhame;

Mas o que crem piedade he gula infame.

XXV Cevavão deſta fórma os deſditoſos

Das fadigas maritimas desfeitos:

Por pingues ter os paſtos horroroſos,

Sendo nas carnes miſeras refeitos:

Feras! mas feras não; que mais monſtruoſos

São da noſſa alma os barbaros effeitos:

E em corrupta razão mais furor cabe,

Que tanto hum bruto īmaginar não ſabe.

XXVI Não mui longe do mar na penha dura

A boca eſta de hum antro mal aberta,

Que horri vel dentro pela ſombra eſcura,

Toda he fora de ramas encuberta:

Alli com guarda á viſta ſe clauſura

A infeliz companhia, eſtando alerta,

E por cevallos mais, dão-lhe o recreio

De ir pela praia em placido paſſeio.

XXVII Diogo então, que á gente miſeranda,

Por ſer de nobre ſangue precedia,

Vendo que nada entende a turba infanda,

Nem do ferreo moſquete uſar ſabia;

Da rota náo, que ſe deſcobre á banda,

Polvora, e bala em copia recolhia;

E como enfermo, que no paſſo tarda,

Servio-ſe por baſtão de huma eſpingarda.

XXVIII Forte ſim, mas de tempra delicada,

Aguda febre traz deſde a tormenta;

Pállido o roſto, e a côr toda mudada;

A carne ſobre os oſſos macilenta:

Mas foi-lhe aquella doença affortunada,

Porque a gente cruel guardallo intenta,

Até que ſendo a ſi reſtituido,

Como os mais vão comer, ſeja comido.

XXIX Barbarie foi (ſe crê) da antiga idade

A propria prole devorar naſcida;

Deſde que eſſa cruel voracidade

Fora ao velho Saturno attribuida:

Fingimento por fim, mas he em verdade,

Invenção do diabolico homicida,

Que huns cá ſe matão, e outros lá ſe comem:

Tanto aborrece aquella furia ao homem.

XXX Mas já tres veres tinha a Lua enchido

Do vaſto globo o luminoſo aſpecto,

Quando o Chefe dos barbaros temido

Fulmina contra os ſeis o atroz decreto:

Ordena que no altar ſeja offrecido

O brutal ſacrificio em ſangue infecto,

Sendo a cabeça ás victimas quebrada,

E a gula infanda de os comer ſaciada.

XXXI Em tanto que ſe ordena a brutal feſta,

Nada ſabião na marinha gruta

Os habitantes da prizão funeſta;

Que ardiloſa lho eſconde a gente bruta:

E em quanto a feral pompa já ſe apreſta,

Toda a pena em fayor ſe lhe commuta;

Nem parecem ter dado a menor ordem,

Senão que comão, e comendo engordom.

XXXII Mimoſas carnes mandão, doces frutas

O araças, o cajû, coco, e mangaba;

Do bom maracuia lhe enchem as grutas

Sobre rimas, e rimas de Guaiaba:

Vaſilhas põem de vinho nunca enxutas,

E a immunda catimpocira, que da baba

Fazer coſtuma a barbara patrulha,

Que ſó ds ouvillo o eſtomago ſe embrulha.

XXXIII Hum dia pois que a ſombra deſeiada

Se repousão, paſſando a calma ardente,

Por dar alli vio á dor reconcentrada,

De ver-ſe oſcrayos de tão fera gente;

Fernando, hum delles, diz, que aos mais agrada

Por cantigas, que entoa docemente,

Que em cithara, que o mar na terra langa,

Se divirtão da funebre lembrança.

XXXIV Mancebo era Fernando mui polido,

Douto em Letras, e em̄ prendas celebrado,

Que nas Ilhas do Atlantico naſcido,

Tinha mnuito co’as Muſas converſado:

Tinha elle os rumos do Brazil ſeguido,

Por ver o monumento celebrado

De huma Eſtatua famoſa, q̃ n’hum pico

Aponta do Brazil ao Paiz rico.

XXXV Pedíra-lhe Luiz, que iſto eſcutára,

Da profetica Eſtatua o conto inteiro,

Se fōi verdade, ſe invencão foi clara

De gente rude, ou poyo nō veleiro:

Fernando entao, que em metro ja cantára

O ſucceſſo, que atteſta verdadeiro,

Toma nas mãos a cithara ſuave,

E entoando, comega em canto grave.

XXXVI Occulto o tempo foi, incerta a éra,

Em que o grão caſo contão ſuccedido;

Mas em parte he ſem dúvida ſincera

A bella Hiſtoria, que a eſcutar convido;

Felis foi o ditoſo, e feliz era

Quem tanto foi do Ceo favorecido.

Pois em meio ao corrupto Gentiliſmo

Merecer ſonbe a Deos o ſeu Baptiſmo.

XXXVII Incerto pelas brenhas caminha va

Hum Varão ſanto, que perdera a via,

Quando pelos cabellos o elevava

Q Anio. adonde o Sol já ſe eſcondia;

E hum ſalvagem lhe moſtra, q̃ ſe achava,

Quaſi Iuctando em ultima agonia:

Ouve (lhe diz) o juſto agonizante,

E huma eſtrada de Iuz tomoū brilhante.

XXXVIII Auréo (que aſſim ſe chama o Sacro Enviado)

Encoſtando-ſe ao Velho titubante,

Por ignorar-lhe o idioma não fallado.

No ſeu diz, de que o enfermo era ignorante:

E ouve-ſe reſponder (caſo admirado!)

N’huma lingua de todo eſtravagante,

Que ſendo em tudo extraordinaria, e bruta,

Faz-ſe entender, e entende-o no que eſcuta.

XXXIX Do grande Creador por menſageiro

A benção (diz) te offereço, homem ditoſo;

Neſte Mundo ignorado em o primeiro,

Quer que o ſeu Nome eſcutes glorioſo:

Do Eterno Pai, de hum Filho verdadeiro,

Do Eſpirito tambem, laço amoroſo,

Quer que o Myſterio ſaibas da Verdade:

São tres Peſſoas n'huma ſó Unidade.

XL Hum ſó Senhor, que todo o ſer governa,

Que ſó com dizer

ſeja

o fez de nada;

Que á Natureza deſde a idade eterna,

Certa época fixou de ſer ercada:

Que abrindo liberal a mão paterna,

Toda a couſa abençoa, que he animada:

Que ſua imagem nos fez; e ſem ſegundo,

Quer q̃ o homem reine ſobre o vaſto Mundo.

XLI Que havendo em mil delicias collocado

Noſſos primeiros Pais n'hum Paraiſo,

Por homenagem deſſe Imperio dado,

Privou de hum pomo com ſevero aviſo;

Que, vendo o ſeu reſpeito profanado,

E igual ſatisfação ſendo preciſo,

No duro lenho a poz, no ferreo cravo,

E deo o filho por ſalvar o eſcravo.

XLII Eſte no ſeio pois de Virgem pura,

Invocada no nome de Maria,

Redemptor, Meſtre, e Luz da Creatura,

Naſceu, pregou, morreo na Cruz impia:

Rompeo do abyſmo a immovel fechadura;

Depois reſurge no terceiro dia;

E ao Ceo ſubindo em fim, donde commanda,

Aos fins da Terra os menſageiros manda.

XLIII Hum deſtes venho a ti: lavar-te intento,

Se queres aceitar meu Cateciſmo;

E ſervindo de porta o Sacramento,

Incorporar-te ao ſanto Chriſtianiſmo.

Purga o teu coração, teu penſamento,

Por chegar puro ás aguas do Baptiſmo,

Onde ſe entras com dor do mal primeiro,

De Jeſus Chriſto morrerás coherdeiro.

XLIV Aos primeiros accentos que eſcutára,

Guaçú (q̃ eſte he ſeu nome) a frente empena;

Attenda ao que ouve a orelha, e fixa a cara,

Senão que co'a cabeça a tudo acena:

Dos olhos mal ſe ſerve, que cegára,

Bem que a viſta pareça ter ſerena;

As mãos de quando em quando eſtende, e toca,

E pende attento da Sagrada boca.

XLV Bom Ministro (reſponde) do Piedoſo

Excelſo grão Tupá, que o Ceo modera,

Não me vens novo, não: que tive o goſo

De ouvir-te em ſonho já; quem ver pudera!

Se a imagem tens, que o ſono fabuloſo

Ha muito, que de ti na mente gera!

Serás, diſſe, (e na barba o vai tocando)

Homem com barbas, branco e venerando.

XLVI Louvores a Tupá, que em fim chegaſte;

Que o caminho me enſinas, donde elejo

Buſcar logo o Graõ Deos, que m'annunciaſte,

Que deſde a infancia com ardor deſejo:

Nunca ſoube, aſſim he, quanto contaſte;

Mas não ſei, como o que ouço, e quaſi vejo

Sentia, como em ſombra mal formada;

Não que o creſſe ainda aſſim, mas por toada.

XLVII Vendo deſſe Univerſo a mole immenſa,

Sem ſer de ainda maior entendimento

Fabricada a não cri: que ele o diſpensa,

Tem, rege, e guarda, infere o penſamento:

Que repugna á creatura eſtar ſuſpenſa,

Sem ultimo fim ter notava attento:

E eſte Ente, que me fez hum Deos ſegundo,

He o grão Tupá, fabricador do Mundo.

XLVIII Vi as chagas da própria natureza,

A ignorância, a malicia, a variedade,

E bem reconheci, que eſta torpeza

Naſcer não pode da eternal bondade.

Onde, ſem o ſaber, cri, que era acceza

Neſte incendio commum da humanidade

Antiga chamma, donde o mal nos veio;

Crer que taes nos fez Deos.. eu tal não creio.

XLIX Também vi q̃ o Grão Deus, q̃ o Mundo cria,

Deixar nunca quizera em tanto eſtrago

A humana Natureza; e que a mão pia

De taes miſerias ao profundo lago

Havia de estender; como o faria?

Suſpenſo fiquei ſempre incerto, e vago;

Mas nunca duvidei que alguém ſe viſſe,

Que de tantas miſerias nos remiſſe.

L E como era a maior, que experimentava,

O ver que livremente o mal ſeguia;

Que a Suprema Bondade ſe aggravava,

Donde hum homem de bem ſe aggravaria:

Vendo que a affronta, que eſta acção cauſava,

Só ſe houvera outro Deos, ſe pagaria;

E impoſſivel mais de hum reconhecendo...

Daqui não paſſo, e cégo me ſuſpendo.

Agora sim, que entendo a grã-verdade,

Que um só Deus se fez homem sem defeito;

E, sendo três pessoas na Unidade,

Do Filho ao Pai podia haver respeito.

A pessoa segunda da Trindade,

Novo homem, como nós, de terra feito,

A paz do homem com Deus fundar procura,

Redentor pio da mortal criatura.

Este creio, este adoro, este confesso;

E esta santa mensagem venerando

Por meu Deus e Senhor firme o conheço,

A quem da terra e céu pertence o mando.

Deste o batismo santo hoje te peço,

Onde, na porta celestial entrando,

Suba o espírito à glória que deseja

E com estes meus olhos ainda o veja."

Disse o ditoso velho; e, acompanhando

Com devoto suspiro a voz que exprime,

Bem mostra que no peito o está tocando

A oculta unção do Espírito sublime,

As mãos ao céu levanta lagrimando;

E tanto ardor na face se lhe imprime,

Que acompanhar parece o humilde rogo

Um dilúvio de água, outro de fogo.

Então o bom ministro: "É justo, amigo,

Que chores (lhe dizia) o teu pecado,

Por não amar a Deus; ser-lhe inimigo,

Se o blasfemaste: de o não ter honrado;

De não servir teus pais; de um ódio antigo;

E se não foste honesto, ou tens roubado;

Se em mulher, bens ou fama em caso feio

Fizeste dano, ou cobiçaste o alheio.

Esta a lei santa é, que em nós impressa

Ninguém ofende que mereça escusa,

Onde no que faltaste a Deus confessa,

Que tanto deve quem pecando abusa.

Quer se a satisfação com a promessa

De melhor vida, no que a lei te acusa;

Pois quem quer que pecou, que assim não faça,

Recebe o sacramento, mas não graça."

"Eu, disse o americano, antes de tudo,

Amei do coração quem ser me dera:

Seu nome ignoro, mas honrá-lo estudo,

E com fé o adorei sempre sincera;

Em certos dias, recolhido e mudo,

Cuidava em venerar quem tudo impera;

Matar não quis, nem morto algum comia,

Pois que a mim mo fizessem não queria.

Mulher tive, mas uma, persuadido

Que com uma se pode; ação impura

Meteu-me sempre horror, tendo entendido

Que só no matrimônio era segura;

Qualquer outro prazer fora proibido,

Porque, se entanto abuso se conjura,

Quem, seguindo esse instinto do demônio,

Se pudera lembrar do matrimônio?

Nunca roubei, temendo ser roubado;

Por conservar a fama, honrei a alheia;

Não me lembra de ter caluniado,

Nem de outrem disse mal, que é coisa feia:

E quem houvesse de outro murmurado

Que outro tanto lhe façam certo creia;

Não tive inveja do que alguém consiga,

Por ver que quem a tem seu mal castiga.

Enfim, corri meus anos desde a infância

Sem ofender (que eu saiba) esta lei justa,

Sem ter à coisa boa repugnância,

Tudo mercê da mão de Deus augusta.

Nos meus males somente a tolerância

Mos fazia passar a menor custa:

Esta a minha ânsia foi, este o meu zelo,

Saber quem era Deus, tratá-lo e vê-lo."

Dizendo o velho assim, tanto se acende,

Como se n'alma se lhe ateara um fogo.

Reclina a humilde fronte e a voz suspende,

E, caindo em delíquio neste afogo,

Corre o ministro, que ao sucesso atende,

E buscando água que o batize logo;

Apenas "Félix, diz, eu te batizo,"

Partiu feliz dum vôo ao paraíso.

Cuidava em sepultá-lo Auréo saudoso;

Porém de espessa névoa, que o ar condensa,

Ouve um coro entoando harmonioso

Louvor eterno majestade imensa;

E na atmosfera ali do ar nebuloso

Luz arraiando, que a alumia intensa

Viu Félix, que na glória que o vestia

A graça batismal lhe agradecia.

"Que te conceda Deus, ministro justo,

(Diz-lhe a alma venturosa) o prêmio eterno;

Pois vens do antigo mundo a tanto custo

A libertar-me do poder do inferno.

Dos céus entanto o Dominante augusto

Que tornes manda ao ninho teu paterno,

E sobre a névoa em nuvem levantada

Vás navegando pela aérea estrada.

E quer na nuvem própria, que te indico

Que esse cadáver meu vá transportado,

E na ilha do Corvo, de alto pico

O vejam numa ponta colocado.

Onde acene ao país do metal rico,

Que o ambicioso europeu vendo indicado

Dará lugar que ouvida nele seja

A doutrina do céu e a voz da igreja."

Disse, e, cessando a voz e a visão bela,

Viu da nuvem Auréo, que o rodeava,

Transformar-se a bela alma em clara estrela,

E viu, que a nuvem sobre o mar voava;

O cadáver também sublime nela

Ao cume do grão-pico já chegava,

Onde a névoa, que no alto se sublima,

Depõe como uma estátua o corpo em cima.

Ali batido do nevado vento,

De sol, de gelo e chuva penetrado,

Efeito natural, e não portento,

É vê-lo, qual se vê, petrificado.

Um arco tem por bélico instrumento,

De pluma um cinto sobre a frente ornado,

Outro onde era decente, em cor vermelho,

Sem pêlo a barba tem, no aspecto é velho.

Voltado estava às partes do ocidente,

Donde o áureo Brasil mostrava a dedo,

Como ensinando à lusitana gente

Que ali devia navegar bem cedo.

Destino foi do Céu onipotente,

A fim que sem receio, ou torpe medo,

A piedosa empresa o povo corra,

E que quem morrer nela alegre morra."

Calou então Fernando, mas não cala

Na cítara dourada outra harmonia,

Onde parece a mão que também fala,

E que quanto a voz disse repetia.

Saíra entanto um bárbaro a escutá-la,

Que, encantado da doce melodia,

Toma nas mãos o músico instrumento,

Toca-o sem arte e salta de contento.

Não pode ver dos nossos o congresso

Tanta rudeza sem tentar-se a riso,

Que, por mais que um pesar se tenha impresso,

Não da lugar a prevenção ao siso;

E, sendo inopinado algum sucesso,

Onde é nos homens quase o rir preciso,

Tal pessoa há que chora apaixonada

E passa do gemido a uma risada.

Diogo então, que dentro em si media

Da cruel gente a condição danosa,

Não sossega de noite nem de dia,

Antevendo a desgraça lastimosa;

E, vendo rir os mais com alegria,

Pela ação do selvagem graciosa,

Estranhou-lhe o prazer mal concebido,

Arrancando do peito este gemido:

"Oh triste condição da humana vida,

Que tanto em breve do seu mal se esquece!

Pois vendo a liberdade enfim perdida,

Sentimos menos quando a dor mais cresce!

Vemos desde a água às praias despedida

A Infeliz gente que no mar perece,

E que o brutal gentio na mesm’hora,

Ainda bem os não vê, logo os devora.

Quem sabe se o cuidado que destina

Pôr-nos assim mimosos de sustento

Não é por ter de nós grata chacina

Nesse horrível, barbárico alimento?

Tanta atenção que têm mal se combina,

Sem mostrar-se o maligno pensamento;

Que quem os próprios mortos brutal come

Como é crível que aos vivos mate à fome?

Tempo fora, afligidos companheiros,

De levantar dos céus ao Rei supremo

Humildes vozes, votos verdadeiros,

Como quem luta no perigo extremo.

Mas vós que agora rides prazenteiros,

Oh quanto, amigos meus, oh quanto temo

Que essa gente cruel só nos namore,

Por cevar mais a presa que devore!

Voltemos antes com fervor piedoso

Os tristes olhos ao etéreo espaço,

Esperando de Deus um fim ditoso,

Onde a morte se avista a cada passo.

Contrito o peito, o coração choroso,

Implore a proteção do excelso braço;

Que o coração me diz que, por desdita,

O cruel sacrifício se medita."

Enquanto assim dizia, o herói prudente,

Comovido qualquer do temor justo,

Levanta humilde as mãos ao céu clemente,

Vendo o futuro com pressago susto:

Já cuida a cruel morte ver presente;

Já vê sobre a cabeça o golpe injusto;

Batem no peito e, levantando as palmas,

Fazem vítima a Deus das próprias almas.

turba às praias vinha

E os seis levam ao corro miserando,

Onde a plebe cruel formada tinha

A pompa do espetáculo execrando;

E mal a gente bruta se continha,

Que, enquanto as tristes mãos lhe vão ligando,

No humano corpo pelo susto exangue,

Não vão vivo sorvendo o infeliz sangue.

Qual se da Líbia pelo campo estende

O mouro caçador um leão vasto,

Em longa nuvem devorá-lo emprende

O sagaz corvo, sempre atento ao pasto;

Negro parece o chão, negro, onde pende

A planta, em que do sangue explora o rasto;

Até que avista a presa e em chusma voa,

Nem deixa parte que voraz não roa:

Tal do caboclo foi a fúria infanda;

E o fanatismo, que na mente o cega,

Faz que, tendo esta ação por veneranda,

Invoque o grão-Tupá que o raio emprega.

No meio vê-se que em mil voltas anda

O eleito matador, como quem prega

A brados, exortando o povo insano

A ensopar toda a mão no sangue humano.

A roda, à roda! a multidão fremente

Com gritos corresponde à infame idéia;

Enquanto o fero em gesto de valente

Bate o pé, fere o ar e um pau maneia,

Ergue-se um e outro lenho, onde o paciente

Entre prisões de embira se encadeia;

Fogo se acende nos profundos fossos,

Em que se torrem com a carne os ossos.

Dentro de uma estacada extensa e vasta,

Que a numerosa plebe em torno borda,

Entram os principais de cada casta

Com belas plumas, onde a cor discorda;

Outros, que a grenha têm com feral pasta

Do sangue humano, que ao matar transborda.

Os nigromantes são, que em. vão conjuro,

Chamam as sombras desde o Averno escuro.

Companheiras de ofício tão nefando,

Seguem de um cabo a turma e de outro cabo,

Seis torpíssimas velhas, aparando

O sangue sem um leve menoscabo.

Tão feias são, que a face está pintando

A imagem propriíssima do diabo;

Tinto o corpo em verniz todo amarelo,

Rosto tal, que a Medusa o faz ter belo.

Têm no colo as cruéis sacerdotisas,

Por conta dos funestos sacrifícios,

Fios de dentes, que lhes são divisas

De mais ou menos tempo em tais ofícios.

Gratas ao céu se crêem de que indivisas

Se inculcam por tartáreos malefícios

E um testemunho do mister nefando,

Nos seus cocos com facas vêm tocando.

Quem pode reputar que dor trespassa

A miseranda infausta companhia,

Vendo tais feras rodear a praça,

Que o sangue com os olhos lhe bebia?

Ver que os dentes lhe range por negaça,

Senão é que os agita a fome ímpia,

E dizer la consigo. "Em poucas horas

Sou pasto destas feras tragadoras".

Mas põe-lhe a vista o Padre Onipotente,

Da desgraça cruel compadecido,

E envia um anjo desde o Céu clemente,

Que deixe tanto horror desvanecido

E faça que o espetáculo presente

Venha por fim a ser sonho fingido;

Que quem recorre ao céu no mal que geme,

Logo que teme a Deus, nada mais teme.

Seis então dos infames Nigromantes

Lançaram mão das vítimas pacientes,

E a seis lenhos fatais, que ergueram d’antes,

Atam cruéis as mãos dos inocentes:

Postos no céu os olhos lacrimantes,

Com lembrar-se das penas veementes

Que sofreu Deus na cruz, nele fiados

Pediam-lhe o perdão dos seus pecados.

Fernando ali, que em discrição precede,

Com voz sonora a companhia anima,

Cheio de viva fé, socorro pede;

E, quando a dor permite que se exprima:

"Grão-Senhor (diz) de quem tudo procede,

A glória, a pena, a confusão e a estima,

Que justo dás as graças e os castigos,

Na dor alívio, amparo nos perigos;

Vida não peço aqui, morte não temo,

Nem menos choro o caso desgraçado.

O que me dói, que sinto, o que só gemo

É, piedoso Deus, o meu pecado!

Feliz serei, Grão-Padre, se no extremo

For da tua bondade perdoado,

Pelo cálix amargo que aqui bebo,

Pela morte cruel que hoje recebo.

Mas, grande Deus, que vês nossa fraqueza

No duro transe desta cruel hora,

Não sofras que essas feras com crueza

Hajam de devorar a quem te adora;

Porque estremece a frágil natureza

Vendo a gula brutal, que emprende agora

Sacrifício fazer ao torpe abismo

Destas carnes tingidas no batismo!"

Ouviu o céu piedoso a infeliz gente;

E, quando o fero a maça já levanta,

Que esmaga a fronte ao mísero paciente,

Trovão se ouve fatal, que tudo espanta.

Treme a montanha e cai a roca ingente

E na ruína as árvores quebranta;

Mas o que mais os brutos confundia,

Era o rumor marcial que se então ouvia.

Pedras, frechas e dardos de arremesso

Cobriam tudo o ar; porque o inimigo,

Que atrás se pôs de am próximo cabeço,

Aguarda expressamente aquele artigo.

De um lado e outro deste um mato espesso

Ameaça o furor, cerca o perigo;

E a gente crua, transformada a sorte,

Quanto cuidou matar, padece a morte.

Era Sergipe, o príncipe valente,

Na esquadra valorosa, que atacava;

Verão entre os seus bom, manso e prudente,

Que com justiça os povos comandava.

Armava o forte chefe de presente

Contra Gupeva, que cruel reinava

Sobre as aldeias, que em tal tempo havia

No recôncavo ameno, da Bahia.

Por toda a parte o baiense é preso;

É trucidado o bruto nigromante;

Muitos lançados são no fogo aceso,

Rendem-se os mais ao vencedor possante.

Ficara em vida, todavia ileso

O mísero europeu, que ali em flagrante

Fez desatar o bom Sergipe e manda

À escravidão no seu país mais branda.

Mas a gente infeliz, no sertão vasto,

Por matos e montanhas dividida,

É fama que uns de tigres foram pasto,

Outra parte dos bárbaros comida.

Nem mais houve notícia ou leve rasto

Como houvessem perdido a amada vida;

Mas há boa suspeita e firme indício

Que evadiram o infame sacrifício.

Caramuru

Sinopse

Publicado em 1781, Caramuru é o poema épico de Santa Rita Durão sobre Diogo Álvares Correia e a formação mítica da Bahia colonial. Esta edição Literunico oferece leitura gratuita online, em capítulos, com texto em domínio público preparado para busca, redes sociais, pesquisa por IA e leitura no leitor v4.

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