Universo da obra
Universo da obra
EXODO I O mez de novembro é sempre calmoso nas provincias do Brazil mais proximas do equador. Mesmo no littoral, que é bafejado pelas brizas do mar, os dias são quentes, a temperatura, á sombra, chega a 33º centigrados. Foi na tarde de um d'esses dias, no anno de 1877, o anno da fome, que na Jacarecanga, um dos arrabaldes tristes da Fortaleza, arranchava-se á sombra de um cajueiro uma familia de retirantes, de infelizes, que, depois das torturas de uma viagem penosa de cem leguas, vinham augmentar a onda dos famintos. Sentado em um toro de madeira, na primeira manhã, ao lado da palhoça, meditava um homem de pouco mais de cincoenta annos : era o chefe da
familia. Profundamente triste olhava para os alojamentos dos companheiros de infortunio, abrigados tambem á sombra de velhos cajueiros. A fome com o cortejo de dôres não podéra apagar os traços d'aquella carnação athletica. A musculatura estava reduzida a um terço ; mesmo assim ninguem duvidaria que os braços d'aquelle homem podessem suster um touro pelos cornos. A caixa thoracica bastante larga e bem conformada guardava os orgãos mais importantes da vida todos sãos e vigorosos. N'aquellas fórmas não havia um traço que não denotasse virilidade. Os tons de tristeza carregando-se até ás nuances da nostalgia assentavam mal n'aquella figura mascula. O gigante, entretanto, absorvido todo em cavar o passado e desvendar o futuro, meio desalentado, deixava as tristezas, que havia escondido dentro d'alma, sahirem e se collocarem em frente das retinas, como imagens lutuosas e immoveis. Era digna de reverencia a postura meditativa do retirante a procurar seguir as miragens, que fugiam pela imaginação fóra. D'aquella apparente morte do espirito, estado apathico e quasi comatoso, bastava para uma prompta resurreição ouvir o gemido de um filho, um ai da esposa. A physionomia dolente vestiria então a vizeira da energia, a musculatura entraria em acção, e ai de quem com elle se batesse. A par da energia inherente á inteireza do caracter estava a bondade do coração, a dôce expansibilidade no lar entre a familia e os amigos. Aquella
figura de aço, cuja espinhajámais dobrou a curva da bajulação, desfazia-se em carinhos no berço dos filhos, em serviços junto dos opprimidos. Manoel de Freitas é o seu nome. Descendente de uma das mais antigas e importantes familias do alto sertão, herdára do pae modesta fortuna e a influencia eleitoral na localidade. Sua educação havia sido completa para o tempo e estado do interior da provincia. Sabia as primeiras letras e um pouco de latim, lingua esta com que os sertanejos ricos costumavam prendar os filhos. O vigario da freguezia, que fora seu mestre, tinha orgulho do discipulo, que em tres annos traduzia bem o Cornelio. Emancipado ainda em vida de seu pae, fez-se criador, como todos os seus ascendentes. Era estreito o circulo em que vivia; não procurára conhecer um meio mais culto, como a capital da provincia, embora para isso tivesse convites instantes dos chefes politicos, convites que precediam sempre os pleitos eleitoraes. Era geralmente estimado e considerado por seus conterraneos. A moderação como chefe de partido na época em que as luctas politicas eram decididas pelo bacamarte, o havia tornado crédor do respeito dos proprios adversarios. Casára aos quarenta annos com D. Josepha Maciel, senhora pobre, porém bella e de familia respeitavel. As estações foram regulares durante trinta e um annos ; a fortuna de Manoel de Freitas, que augmentava annualmente, estava toda empregada em gados e escravos. Em começo de 1877 os amigos, preven-
do os effeitos desastrados de uma sêcca, aconselharam-no de vender uma parte dos rebanhos. Freitas se oppoz a isso, acreditando que haveria um inverno tardio. Os prejuizos que lhe causára a sêcca de 1845 não lhe serviram de lição. Obstinado se recusava a acreditar que estivesse proxima a calamidade. A idéa de inverno preconcebida quando os signaes meteorologicos deixavam prevêr um anno senão sêcco, ao menos escasso, foi-lhe muito fatal. A crise foi accentuando-se e o mal tomando de dia a dia maiores proporções. Os campos seccavam e as aguas desappareciam das fontes. As searas por terra não tinham produzido uma espiga ! O arado se oxydava encostado na senzala. Na casa de farinha o caitatú cegava-se ralando a raiz estopenta da mucună. O aspecto da floresta era lugubre e desolador. Apenas alguns joazeiros enfolhados vegetavam como representantes da vida, que havia cessado n'aquelles sitios. O sólo tinha uma physionomia particular. Juncado de folhas torradas e enroladas em espiral, como embuás adormecidos, servia de domicilio a lacraus e aranhas caranguejeiras. A floresta, reduzida a esqueletos ennegrecidos, bracejava desfolhada no espaço, estendia-se, e pouco a pouco se diluindo no ether confundia-se muito além com o firmamento, que se arqueava sobre ella azul e puro. As tristezas da terra faziam contraste com as
alegrias do céo, que lhe servia de cupula. Nem um nimbo toldava a limpidez d'aquelle immenso plano de saphira ! Apenas alguns cirrus de uma alvura argentina, tendo a fórma de uma aza de gaivota, immoveis nas alturas, escapavam do vento de léste, que soprava rijo em outro quadrante. Os raios do sol cahindo verticalmente sobre a terra aqueciam as rochas e os vegetaes mortos como um fôrno de reverbero. O calor emittido por aquelles fócos era, á sombra, de 38° centigrados. Os homens e os rebanhos erravam á tôa n'aquella natureza tocada de morte, procurando a vida. As searas não tinham criado um grão para os celeiros. Manoelde Freitas e a familia estavam tambem sujeitos áquellas duras contingencias. Os seus rebanhos eram dizimados pela fome. Os prodromos de uma calamidade terribilissima se accentuavam cada vez mais. A energia do fazendeiro posta em campo nada conseguia em favor de sua fortuna, que se aniquilava. As fontes não vertiam mais uma gotta d'agua ! Os gados mortos de sêde urravam á beira dos bebedoiros com um sentimento que commovia ! Era necessario rasgar a terra e arrancar-lhe agua das entranhas. Freitas empenha-se na lucta, reune todos os elementos de que dispõe, e resoluto decide-se a arcar contra o flagello. De alvião ás costas e acompanhado dos escravos vai dar combate aos elementos. Desce á primeira cacimba, que encontra sêcca, e, com
uma coragem heroica, é elle quem começa o trabalho. Os alviões retalham a rocha e as pás atiramna para longe da excavação. Os escravos, a exemplo do senhor, redobram de esforços, de actividade. Duas horas depois d'aquelle trabalho arduo e penoso retarda-se o compasso dos ferros contra o sólo, a respiração dos trabalhadores torna-se mais curta e offegante, a amalgama de suor e pó, que cobria-lhes a pelle núa como uma camada de verniz, corre arrastada por uma onda mais abundante, que se extravasa dos póros e agua não apparece ! O calor do sol, e o cançaço extenua-os. Os gazes rejeitados pelos pulmões escaldam-lhes as narinas, como se sahissem de uma caldeira a ferver ! Manoel de Freitas não desacoroçõa com as difficuldades que se levantam. Sua pertinacia recrudesce com a chegada de algumas rezes, que ouvindo de longe o som dos ferros, vêm instinctivamente á cacimba. O gado cerca o bebedoiro e chora cavando a terra como se pranteasse a morte de um companheiro. Aquelle côro de gemidos commove o fazendeiro, que procura redobrar de esforços. O seu alvião, entretanto, torna-se cada vez menos aguçoso, retalha a terra com menor afan. A fadiga retarda a marcha do serviço, mas não o interrompe. Freitas estava quasi sem esperança de encontrar agua, quando sentiu que pisava terra humida. Estava proximo o termo d'aquelle trabalho insano. A rocha cada vez mais se humedecia. Já não ha-
via mais que fazer para o alvião, a camada de argilla tinha sido substituida por uma de areia grossa, que as pás moviam para longe. Misturadas ao salão estavam algumas pedras de origem plutonica, que pelo pequeno volume não embaraçavam o serviço. O cheiro da terra humida attrahiu o gado, que a estalar de sêde, com a lingua aspera e longa lambia a areia molhada com um frenesi de allucinado. Os touros tristes e abatidos nem ciumes sentiam dos rivaes d'outr'ora, nem amor ás novilhas, cuja magreza apagára quasi os traços sexuaes, e todos juntos cambaleavam nas pulverulentas malhadas. Freitas continuava a trabalhar com perseverança. As pás com difficuldade sustinham nas superficies concavas a rocha, que em consistencia de papa esboroava-se pelos bordos. Julgavam a veia proxima, ella porém não apparecia com a franqueza que desejavam. A camada pastosa foi-se rarefazendo e em breve tocavam os ferros no dorso de uma rocha de granito. Os olhos de Freitas faiscaram de colera. Tomou ainda o alvião e golpeou a pedra, que immovel parecia assentar a extremidade inferior na arcada que fecha o centro da terra. O fazendeiro sem proferir palavra pôz a picareta ás costas e voltou para a vivenda seguido dos escra VOS. No dia seguinte logo pela manhã Freitas continuou a tarefa. Desprezado o primeiro bebedoiro, procurou outros, e assim n'uma lucta sem treguas com
a sêcca, ora vencedor, ora vencido, assistia ao aniquilamento de seus rebanhos. Já não era sómente a sêde que os matava, era agora tambem a fome e a peste ! As folhas sêccas de que o gado se alimentava o vento levára. Era necessario decotar os joazeiros e com elles alimentar os rebanhos. Todos os dias pela manhã Freitas com os vaqueiros e escravos sahia, e todos armados de machados iam deitar rama ao gado. O aspecto da floresta se tornava cada vez mais lutuoso. D'aquelle panorama escuro desappareciam pouco a pouco os pontos verdes. Os urubús, pousados aos milhares nos galhos das arvores n'um crocitar constante, tornavam aquella solidão mais tetrica e pavorosa. De uma gula insaciavel espreitavam as victimas, que cahiam aos centos mortas de fome e de peste, e banqueteavam-se n'aquelle repasto de pelangas, de podridão. A atmosphera que enchia os campos era deleteria e pôdre. Freitas luctou até ser de todo vencido. Não foi a fome que o desarmou, foi a peste. Epizootias de diversas naturezas se desenvolveram e faziam diariamente centenas de victimas. O microbio da pustula maligna, o Bacillus anthracis, reproduzia-se de uma maneira assombrosa. Aquelles infimos sêres geravam-se á custa do calor e da podridão. Manoel de Freitas, cançado e pobre, entregou á
furia do flagello as poucas rezes que lhe restavam. Mais de doze mil cabeças de gado havia perdido em poucos mezes ! Fechados os curraes das fazendas e sem outros recursos que não fossem terras e escravos, Freitas reflectia nas providencias, que deveria tomar. A despeza com a mallograda tentativa da salvação dos rebanhos o arruinára de todo. Já poucas eram as joias que restavam a sua mulher e filha. Todos os dias sahia mais uma para a gaveta do usurario e a preço de quinhentos reis por quatro grammas de ouro de lei. O producto dajoia nem entrava em casa, ia para o mercado e era empregado em farinha de mandioca, importada do sul do Brazil por via da Fortaleza e levada ao sertão por mascates italianos, que vendiam-na a mil reis o litro ! Não havia dinheiro que chegasse para sustentar uma familia grande com generos tão caros. A ração dos escravos havia já sido reduzida a um terço e a mesa da familia era muito pobre ; mesmo assim nada chegava, e a penuria a se aproximar sempre. Uma manhã Freitas pediu á mulher algum ouro para as despezas e ella trouxe-lhe a Cruz do santo lenho, que entregou chorando. O fazendeiro recebeu com mão tremula a cruz da familia, o talisman, que havia passado a cinco gerações e que provavelmente agora a necessidade obrigaria a passar a outra familia. Desenrolou da cruz o grosso cordão de ouro, de cujas extremidades abriu os colchetes, e pôz o santo lenho ao pescoço. N'esse
dia não foi ao mercado e o fogão quasi não se accendeu. Os mascates italianos eram tambem traficantes de escravos. O seu grande negocio não era a farinha de mandioca vendida com lucro fabuloso, era o commercio de escravos feito do modo mais illicito. Magarefes de gado humano tinham presentido um curral com boas peças e que se esvasiaria com algumas saccas de farinha. Espreitavam com interesse a vida de Freitas, aguardando o momento opportuno para a negociação. A fome, pensavam elles, estava encarregada de rendel-o. Freitas vivia de portas fechadas no mais completo anojamento. Havia deixado de ir ao mercado, o que não passou desapercebido aos mascates. A occasião era opportuna e os traficantes não a perderam. Eram elles dois calabrezes, que pelos gestos e figura pareciam descender da mais vil canalha da Calabria. Foram a casa do fazendeiro sondar-lhe o animo. Freitas recebeu-os e logo á primeira vista conheceu que tratava com os vendedores de farinha, e adivinhou o motivo da visita. Em poucas palavras despediu-os se recusando a aceitar as propostas. A noticia da visita dos italianos chegou á senzala e pôl-a em sobresalto. Na noite d'esse dia, depois que a familia se recolheu, os escravos se reuniram e resolveram procurar a liberdade. A fuga effectuou-se muito antes de romper o dia. Foram caminho do Piauhy, guiados por um captivo, filho d'aquella provincia. Apenas cin
co escravos por cumulo de lealdade se recusaram obstinadamente a seguir os companheiros. Pela manhã a senzala estava deserta e Freitas inteirado do que havia acontecido. Não os maldisse e muito menos perseguiu-os. De si para si lastimou que não tivessem fugido todos. Os mascates com a noticia da fuga dos escravos voltaram á casa de Freitas; este porém não quiz recebel-os. Crescia a penuria, já o fazendeiro vivia do soccorro de amigos e parentes, soccorro escasso e que em face das circumstancias em breve não teria : a miseria o levaria de vencida. Apenas lhe restavam terras sem cotação, cinco escravos e a Cruz do santo lenho. Freitas passava os dias meditando ; estudava os planos de batalha, que procurava acertar o mais possivel para depois executal-os. A emigração para a capital era a unica taboa de salvação que lhe restava do naufragio. Decidiu-se por ella; mas era preciso viveres ou dinheiro, e onde havel-os ? A Cruz do santo lenho vendida ao usurario pouco produziria. Os escravos dariam um producto sufficiente ás necessidades da viagem, mas quem os compraria n'aquellas paragens, se os mascates desenganados de qualquer negocio tinham sahido para outra localidade ? O fazendeiro comprehendia o perigo da situação. Algumas semanas mais de espectativa tornariam impossivel qualquer tentativa de salvação. Estava resolvidó a emigrar, mas não sabia onde achar forças para vender os escravos e a cruz da familia. Os seus
parentes tinham sahido todos, excepto seu primo Ignacio da Paixão, que vindo-se despedir para no dia seguinte emigrar para a capital, despertou em Freitas uma idéa que encheu-lhe o cerebro, se transformou depois em aspiração, e no fim de algumas horas em necessidade imperiosa. A venda dos escravos estava resolvida. Ignacio da Paixão não partiria para a Fortaleza acompanhado da familia e sim dos captivos, que lá seriam vendidos, e o producto empregado em viveres. Essa nova commissão, entretanto, não lhe adiaria a partida, que seria na manhã seguinte. Eram necessarios viveres para a caravana e não os havia em casa, e nem dinheiro para compral-os. Freitas estava resolvido a tudo. Jogava a ultima carta a favor da vida dos filhos. Para augmentar as probabilidades de ganhar, era necessario a Cruz do santo lenho ; com muito constrangimento vendeu-a ao usurario, e o producto quasi todo empregou em viveres. Assignada a procuração e preparadas as matriculas e mais documentos, tudo foi entregue a Ignacio da Paixão, que prometteu executar fielmente as ordens de Freitas . Á noite, reunidos pela ultima vez no quarto do oratorio, senhores e escravos, depois de rezado o terço com o maior respeito e devoção em frente de uma imagem de Christo morto, Freitas communicou a todos o seu acto . Os captivos tremeram de pasmo e o sentimento explodiu. Um côro de prantos entrecortado de solu
ços tornava aquelle recinto lugubre e pavoroso. A claridade das velas dava ao Crucificado uma côr mortiça, que contrastava com o rubro do sangue, tão vivo que parecia verter de uma ferida recente. Todos estavam commovidos e choravam, excepto Freitas, que retinha as lagrimas á custadas contracções espasmodicas, que, como um annel de aço, constringiamlhe a garganta. Os captivos deveriam partir ao alvorecer do dia. Fizeram-se as despedidas, mas na mudez imposta pelas grandes dôres. Uma palavra não foi articulada. As ultimas lagrimas dos escravos cahiram quentes nos pés de Freitas e de Josepha, não como uma supplica humilde, porém como um grito de revolta contra a deshumanidade d'elles. Feitas as despedidas, os escravos seguiram um após outro até o altar, e cada um por sua vez beijou os pés do Crucificado com profundo recolhimento. Os olhos que se levantavam supplices a se encontrarem com o olhar amortecido de Christo, baixavam-se, e cravados no chão guiavam os infelizes á senzala. Freitas sentia-se humilhado. Teve impetos de reconsiderar o seu acto, mas isso era arriscar á sorte a vida dos filhos. Pôde emfim vencer a tentação, e uma vez traçado o plano de conducta teria a coragem precisa de cumpril-o á risca. Josepha chorava em silencio ; seu espirito timorato recolhia-se e meditava. Essas scenas a impressionavam como prodromos de uma grande desgraça. As velas se gastavam alimentando a chamma, *
que alumiava a pequena sala com uma luz baça e triste. A figura lacrimosa de Josepha ao lado do marido, cujo semblante taciturno deixava perceber nos traços que o crispavam as luctas intimas, dava áquelle quadro os tons da piedade. A sala tinha uma physionomia funebre. Parecia que se guardava alli um morto. As luzes já bruxuleavam em agudos estalidos, que o silencio e a acustica do quarto tornavam mais percebiveis. Freitas avisado da proxima escuridão se aproxima de uma das velas e apaga-a. Josepha comprehende que vai ficar ás escuras e sae. O fazendeiro em seguida extinguiu a outra luz e se encaminhou ás apalpadellas para a alcova. Lá já encontrou Josepha e ainda chorando. O resto da noite passou-se em afflictiva vigilia. Na senzala o pranto havia estancado, mas de quando em vez um gemido profundo, como o estertor da ultima agonia, quebrava aquelle silencio, velado por alguns homens e mulheres, cuja vida moral começava a ser uma angustia cruciante. Aquelle tecto respeitado pela adversidade desde o dia do levantamento, aquelle tecto que havia abrigado cinco gerações, sem nunca ouvir uma maldição a sorte, assistia n'aquella noite terrivel a todas as phases de uma dôr sem cura, a uma angustia para que não existe lenitivo. Aos primeiros clarões crepusculares, os escravos de maca ás costas deixaram a senzala e seguiram para a casa de Ignacio da Paixão .
Quando Freitas levantou-se pela manhã já iam longe os malaventurados. Um mez era o praso fatal e improrogavel dentro do qual regressaria Ignacio com o producto dos captivos. Trinta dias ainda a passar quando restavam poucos mil reis da ultima joia! Na despensa havia sómente carne de gado magro e doente, e tão coberta de bolor que nem os vermes queriam-na para repasto ! Freitas empregou todo o dinheiro, que possuia, em viveres, que dividiu em trinta rações e recolheu á despensa. Desde esse dia fez-se despenseiro e embora fossem escassas as refeições, não ouvia a mulher e filhos quando pediam que augmentasse a mesa . Josepha não encontrava explicação ao procedimento do marido, elle que fazia alarde de sua liberalidade. Por vezes exprobrou-lhe a mesquinharia pondo debaixo de chave migalhas, quando não tardava a chegar o primo com grande partida de viveres. Freitas ouvia-a sem colera e não procurava justificar-se. No praso marcado acabaram-se as rações e Ignacio não chegou. Freitas estava justificado. A alimentação passou a ser exclusivamente de carne ardida. Alguns litros de farinha de longe em longe mandados por amigos abastados iam-se oppondo á inappetencia. Mais um mez e Ignacio da Paixão não chegava !
A cidade estava quasi deserta. Apenas o vigario e muito poucas familias tinham ficado, na esperança dos soccorros do governo. A travessia, entretanto, ia-se tornando impraticavel, e Freitas decidido a emigrar para a Fortaleza devia seguir emquanto havia alguma probabilidade de vencer a distancia. A carne assim mesmo pessima estava acabada. Uma manhã Manoel de Freitas se levantou mais cedo e chamando a mulher ordenou-lhe : - Acorda os filhos, reune depois a roupa indispensavel a cada um em uma maca, que vamos deixar esta terra antes de sahir o sol .
II Josepha de Freitas ouviu a ordem do marido e não replicou. Arrumadas na mala as roupas indispensaveis, uma muda para cada um e rêdes para os adultos, distribuidas alpercatas a todos, fechou-se a porta e seguiu a caravana. Eram sete os viajantes. Freitas caminhava na frente, levando ás costas a maca da roupa, um sacco com um resto de carne, uma borracha de agua presa ao cabo de um machado, e na cinta uma grande faca dentro de uma bainha de sola. Seguiam-no tres creanças,- ainda somnolentas, e todas de menos de dez annos . Fechavam o pequeno prestito duas mulheres, Josepha e sua filha Carolina.
Josepha caminhava chorosa levando nos braços uma creança, que ainda amamentava. Ignorante das vicissitudes d'aquella peregrinação e agourando mal de seu exito, deixava na imaginação tomarem vulto as idéas mais terrorosas. gia. Era a primeira vez que punha á prova sua ener Afeita unicamente aos gozos de uma vida tranquilla e abastada, sem outra responsabilidade a não ser a educação physica da familia, em parte dirigida pelo marido, estranhava os primeiros embates com a adversidade. Carolina seguia os paes com uma passibilidade de automato. Aquellas scenas não deixavam de impressional-a ; mas eram transmittidas ao cerebro como se ella estivesse adormecida, como em um sonho agitado. Tinha quinze annos e o vigor das naturezas completamente sadias. O seu todo denotava a saude dos organismos desenvolvidos ao ar do campo, não contaminados pelas nevroses endemicas nas cidades populosas, frequentemente em publico sob as fórmas mais caprichosas. Havia em seu corpo uma perfeita harmonia de fórmas, todas obedecendo ás leis de uma rigorosa esthetica, e não o rachitismo das chloroticas ou as fórmas pesadas e grosseiras da mulher do povo. Tinha ella um aspecto nobre que se percebia no rosto, logo á primeira vista. Os olhos grandes e de um azul celeste tinham a
suavidade das almas puras e castissimas. Elles davam uma expressão de bondade á physionomia expandida em um rosto do mais correcto oval, emmoldurado por uma sanefa de cabellos louros. O nariz era longo e aquilino. A boca formada pelos labios unidos em uma linha recta, conservava a castidade dos primeiros annos, e nunca fôra maculada pela malicia ou desdem. A rosea côr dos labios diluia-se até confundir-se com a tez alva do rosto, que tinha a macieza do arminho e era de uma serenidade indescriptivel. O clima equatorial com o seu sol de fogo creára aquella flor loura e de olhos azues. A caravana seguia acompanhando a marcha vagarosa das creanças. Andavam kilometros e kilometros sem dizer palavra ; o silencio era apenas interrompido pelo tacotaco das alpercatas, que, em pés não habituados, faziam retardar o passo. Dos viajantes era Josepha quem mais soffria. Seu corpo pesado de gordura resentia-se muito da soalheira, e a musculatura dos membros inferiores em manifesto desaccordo com os preceitos esculpturaes, cambaleava com o peso da armação do tronco. No primeiro dia de viagem foi preciso descançar quatro vezes menos pelos meninos do que por Josepha. Á noite dormiram á beira da estrada e ao amanhecer continuaram a caminhar. Na tarde do quinto dia de viagem, a vinte leguas da cidade natal, Freitas batia á porta de uma casa
na margem do caminho e pedia agasalho. Nem uma voz respondeu ás suas interrogações. Julgando aquella habitação uma das muitas abandonadas, forçou a porta, que cedeu, partindo-se a taramela. Entrou a caravana e se aboletou na primeira sala. Havia alli o ar pesado das atmospheras confinadas . Nem um movel descançava no pavimento sem ladrilho. As paredes em preto faziam mais escura a sala, que era o domicilio de centenas de morcegos. O fedor dos cheiropteros tresandava e mais se diffundia pelo movimento do ar, que percutia o vôo de muitas azas em precipite agitação. Espantados da caravana e medrosos da luz descreviam rectas e curvas no estreito espaço em um voar adoudado. Do pello côr de rato cahia uma chuva de pulgas, que em saltos descommunaes procuravam os emigrantes e um logar onde se esconderem nas pregas dos vestidos. Josepha achou que a sala tinha a tristeza d'um necroterio. As pulgas em breve começaram a lhe fervilhar pelo corpo ainda molhado de suor. Não era a dôr da sucção que a irritava, era a cocega dos pellos dos aphanipteros a roçar-lhe nos pellos do corpo. O crepusculo da tarde chegava ao fim ; a natureza como n'um desmaio recolhia-se e esperava a noite, que não tardaria a chegar. Freitas aproveitava as derradeiras ondulações da luz crepuscular para fazer a lenha necessaria ao fogo, que deveria alumial-os toda aquella noite. Quando voltou ao rancho ainda encontrou a mulher a se coçar e a maldizer os morcegos e as pulgas. Já as crean
ças dormiam todas deitadas em um lençol estendido no chão . Carolina sentada na rêde rezava o rosario quasi a dormir. Freitas accendeu o fogo em um canto da sala, fechou depois a porta, armou a rêde, e, dando boa noite a Josepha, deitou-se. Não dormiria, entretanto, antes de resolver um problema, que desde a manhã d'aquelle dia lhe estava fixo na mente : era o meio de se refazer de viveres para continuar ajornada. Não existia mais uma gramma de carne no sacco da matalotagem. Havia horas que Freitas meditava, mas sem encontrar uma idéa que o alentasse, uma esperança de salvação. Por cumulo de desgraça a borracha estava secca. Encontraria fonte alli e onde seria ella n'aquelle logar em que nunca havia andado ? Pensava seriamente no dia de ámanhã e nos elementos a congregar para resistir ás contrariedades que se levantassem, e quasi consternado conheceu que não havia arma e nem braços capazes de pôr o inimigo em debandada. Para aquella casa haveria uma fonte e a mucuna vegeta em todos os terrenos : estas idéas o alentaram um pouco, e ancioso esperava o raiar da aurora, quando ouviu vagidos de creança no interior da casa. Josepha toda ouvidos levantou-se e correu para junto do marido. Freitas sentou-se e esperou. Novos vagidos se fizeram ouvir. -Que horas são, Manoel?
-Meia noite, disse Freitas depois de ter aberto a porta e olhado a via lactea. -É choro de pagão, que sete annos depois de enterrado, á hora da meia noite, vem pedir a agua do baptismo, disse Josepha, que era tão supersticiosa como um fetichista . Freitas se aproximou do fogo e tirando alguns tições fez d'elles um facho, que o alumiaria ao interior da casa. Josepha benzendo-se perguntou : - Queres procurar o logar sem uma cuia d'agua e uma pedra de sal na bôca? Sempre a acreditar em bruxarias, Josepha ! -A tia Antonia era uma mulher séria e devota, e dizia que baptisar pagão enterrado sem sal na boca era caso de assombramento ! ... -Veremos . E Freitas seguiu pelo extenso corredor ao interior da casa. Josepha, medrosa de ficar só, acompanhou o marido. Os vagidos foram-se tornando mais audiveis, até que mui distinctamente ouviam-se que sahiam de um quarto á esquerda. A porta, que estava cerrada, a um leve impulso do braço de Freitas girou nas dobradiças e abriu-se. A chamma do facho triplicou de intensidade alimentada por uma série de sopros de Freitas e encheu de luz o estreito aposento. Á visão succedeu a claridade e deixou patente um quadro medonho. Deitado sobre uma cama de talos de carnahubeira es
tava o cadaver de uma mulher branca reduzido á magreza de mumia; o corpo de uma infeliz, que succumbira no acto da maternidade e não havia muitas horas. Os lochios tinham corrido, e misturados com o sanguè e a placenta começavam a apodrecer. O ar tresandava a parto. O cadaver tinha ao regaço e na postura em que as mães aleitam os filhos uma creança, cuja pelle estava collada ao esqueleto. A bôca esfomeada do recemnascido instinctivamente procurava os mamillões, mas embalde ; as mamas estavam reduzidas a murchas pelangas, que se collavam ás costellas. A frieza do cadaver se transmittia á creança, que tambem recebia a frialdade da placenta, a um canto da cama em uma poça de sangue e lochios, e ainda presa á extremidade do cordão umbilical. A vida estava alli em perigo imminente. As fontes de calor eram fracas para se oppôrem á invasão do frio. O estomago vasio n'aquelle organismo era o mesmo que um fogão apagado em uma cozinha. Manoel de Freitas e a mulher cercaram o leito e cada vez mais o quadro os surprehendia. Os vagidos da creança iam pouco a pouco enfraquecendo. Era necessario um soccorro, um alento áquella vida que se extinguia. Freitas entregou o facho a Josepha e procurou ageitar entre os dedos o corpo franzino do recemnascido. A debil creaturinha sente-se bem em contacto com a pelle aquecida do sertanejo. A piedade do ve-
lho proporciona-lhe todo o aconchego de suas mãos callosas. Era necessario, entretanto, levar d'alli o pequenino e aquecel-o, mas o cadaver apertava-o ao regaço em um abraço estreito e de mãe, e que mais apertado fazia agora a rigidez cadaverica. Foi difficil a separação. Livre a creança, Freitas suppõe podel-a levarlogo á sala e aquecel-a ao fogo ; porém illudiu-se, ella continuava presa ao leito da morta pelo cordão umbilical . Era preciso cortar aquella amarra da morte. Freitas deita a creança sobre o cadaver e prepara uma ligadura com os fios de seus vestidos ; depois ata com apertado nó o cordão umbilical acima da inserção na região do abdomen. Certo da constricção dos vasos, sacca a faca da bainha e com seguro golpe decepa o cordão, que cae vertendo sangue, mas um sangue pobre, quasi incolor, sobre o peito da defunta. Estava livre o pequenino d'aquella amarra morbida, á custa da qual se havia alimentado durante a vida uterina. Freitas, com toda a piedade, toma a creança nos braços e seguido da mulher volta á sala, que estava quasi ás escuras. Josepha alimenta o fogo com os tições que trazia e pede depois o menino para amamentar. A creança arquejava, os labios já se abriam ao estertor da agonia dos ultimos momentos. Josepha commovida desmamava solicita um dos peitos com a sofreguidão dos perigos eminentes. O leite esguichava do mamillão e cahindo na boca da creança descia á garganta, onde ficava sem poder
mais ser engulido a gargarejar movido pelo ar que sahia dos pulmões. -Já fez o primeiro termo, Manoel, baptisa-o, disse Josepha. Com que agua ? A da borracha. -Está sêcca ! - Sêcca ? !! -Sim, sêcca ! ... Freitas estava embaraçado. Atheologia não havia previsto aquelle caso. Catholico, apostolico, romano, sem agua teria de deixar aquella alma ir para o limbo. O segundo termo, Manoel ! E agua, minha mulher?... N'esta casa havia gente, deve haver agua lá por dentro. Freitas tomando um tição vai ao interior da casa. Percorre todos os aposentos e encontra um pote debaixo da cama da defunta. Lança mão d'elle com sofreguidão ; estava vasio. Apenas no fundo uma camada de lama. Leva-o assim mesmo á sala, e enchendo a mão d'aquella papa de argilla e agua, besunta com ella a cabeça da creança proferindo em latim as palavras sacramentaes. Ao terceiro termo annunciado por Josepha o pequenino deixou de existir.
III Ao clarear do dia Manoelde Freitas e a mulher, carregando os mortos, foram dar-lhes sepultura. Difficil foi-lhes abrir a cova, embora em uma rocha de areia, e segundo a pragmatica mortuaria do sertão com sete palmos de profundidade e á beira de um caminho. Os cadaveres postos na excavação, os-coveiros atiraram sobre elles alguns punhados de terra e rezaram um Padre-Nosso. A areia cahiu depois em massa sobre os corpos com um ruido lugubre. Aterrada a cova viria o malho obrigal-a a receber o excesso de terra, que a fazia convexa. Estupida ceremonia e ainda em uso ! Um tronco de carnahubeira serviu de instrumento. As pancadas do malho a socar a cova echoavam no silencio d'aquella solidão de um modo pavoroso. Recebida toda a terra pela se4
pultura, Freitas deu por concluida a tarefa, e voltou com Josepha ao seu rancho. Eram sete horas, e Carolina com os irmãos dormia somno tão profundo, que parecia uma syncope. Freitas recommendou a Josepha que os deixasse acordar por si, e tomando o machado, a faca e duas borrachas sahiu para a matta a procurar alimento e achar a fonte. A floresta tocada de morte bracejava no espaço. Compunha-se de plantas dicotyledoneas e leguminosas na maior parte. A perspectiva era desoladora. A sêcca havia torrado e despovoado os campos. Freitas caminhava por aquelle labyrintho de veredas confiado em seu tino de bussola. Não se ouvia o trinar de uma ave, o voar de um insecto ! Apenas as rajadas dos aliseos, quentes já áquella hora, faziam uma orchestra nos esqueletos das arvores, e n'um diapasão lamentoso gemiam, rangiam e assobiavam. Freitas seguia com pressa, mas observando tudo. Não perdia um só dos traços physionomicos do sólo. A vegetação, entretanto, não podia servir-lhe de orientação : semi-morta, era a mesma por onde passava. O terreno, ora baixo, ora accidentado, nú ou coberto de seixos rolados, não dava indicios de fonte proxima. Freitas inquiria tudo que o cercava e continuava no silencio da espectativa. Havia andado alguns kilometros em todos os rumos e sempre a natureza com um aspecto morbido a desilludil-o ! Sentou-se
para descançar, e olhando para o sul notou que ao longe, lá onde a terra parece limitar com o céo, haviaum ponto mais saliente como um capacete sobre a linha da floresta. Um outeiro, acreditou elle, e ancioso de uma eminencia de onde visse os horisontes se abrirem, encaminhou-se para lá. Acostumado desde menino a excursões pelas mattas, tinha tão grande tino, que seus passos pareciam guiados por uma agulha magnetica. Em pouco tempo chegou ao sopé do outeiro, que era formado por quatro grandes rochas plutonicas, umas sobre as outras. Aquella mole de granito de milhares de toneladas era uma prova geologicados cataclysmos por que passou o globo . A força que as collocou superpostas, fel-as tambem inaccessiveis. Talhadas a pique em todas as faces, eram de ascensão difficilima senão impossivel. A superficie superior era eriçada de alguns arbustos sêccos. Freitas examinou com attenção e interesse a muralha a escalar. Nem um ponto vulneravel ! A mole tinha a fórma de um enorme polvo, cujos tentaculos eram grossos cipós e desciam do vertice ladeando-a até o sólo. As hastes sarmentosas lhe serviriam de escada. Avaliou da resistencia d'ellas balançando com força a que achou mais forte, pendurando-se n'ella e executando alguns movimentos de vai-vem. Estava presa á rocha como se fizesse parte de seus elementos. A altura a galgar era de vinte metros. Freitas pendurou-se ao cipó e sua musculatura agil e forte como a de um acrobata, em um instante *
pôl-o no vertice da rocha. Os musculos não precisavam do apoio da pedra ; os braços guindavam o corpo e, para ostentarem força durante a ascensão, a cabeça esteve sempre no nivel dos punhos. Quando a musculatura se contrahia, via-se a manga da camisa no terço superior do braço se estiraçar com o volume do novello de musculos. Freitas chega ao vertice da pedra, mas difficil é agora galgar-lhe a superficie.' Dez vezes esteve quasi perdido, quasi se precipitou, emfim por um esforço supremo pisou com firmeza a rocha. Livre do perigo foi que viu o risco em que estivera : o cipó, que lhe servira de escada, estava em parte decepado pela quina da pedra ; apenas parte do cortical e algumas camadas lenhosas haviamno aguentado . De pé sobre tão alto pedestal, descortinava um panorama immenso ; os horisontes se alargavam e a vista perdia-se nos espaços habitados pela floresta ou pelo ether. N'aquella enorme tela o azul do céo era o tom alegre sombreado pelas tristezas, pelas côres sombrias dos campos. Freitas perscrutava com um olhar intelligente tudo que o cercava. As pesquizas, entretanto, eram improficuas, as qualidades investigadoras de seu espirito se nullificavam no descobrimento de um rumo que o levasse feliz ao porto do destino. Nenhuma orientação descobria ! As retinas deslumbradas por tanta luz e cançadas de tanto vêr, descançaram um pouco, veladas pelas palpebras. De olhos fechados Manoel de Freitas reunia pelo effeito miraculoso da reflexão no estreito espaço do
cerebro o enorme panorama que descortinára. Sentindo dentro de si todo aquelle mundo mais palpavel ainda do que ha pouco, julgou assim poder melhor auscultar o sólo e ouvir a pulsação de alguma arteria d'agua. Recolheu-se mais e meditou. Nada ouviu que o guiasse á fonte ! Abriu os olhos e uma surpreza agradavel deu-lhe novas esperanças. As retinas transmittiam agora ao cerebro as imagens de mais longe. Entre ellas percebeu um ponto verde, um pequeno oasis cravado no seio de uma floresta de arvores mortas. Freitas esfregou os olhos pretendendo assim activar o sentido da visão. A imagem continuou a se desenhar nas retinas e o cerebro a recebel-a com os tons ainda mais vivos do que da vez primeira. Era um pedaço de terra que a secca havia respeitado. Manoel de Freitas tomou a direcção do oasis, e tendo a precaução de matar com folhas sêccas a quina da pedra em que dobrava o cipó, que o desceria, pendurou-se á haste e em poucos segundos pisava o sólo. Movido de justa curiosidade, o fazendeiro caminhava em rumo do ponto verde desejoso de expandir a vista em um campo coberto de verdura. Não pensava em outra coisa senão em vêr d'ahi a minutos resurgir de entre a enorme multidão de esqueletos vegetaes uma colonia de individuos fortes e sadios com todos os attractivos e bellezas da vida campezina. Uma gotta d'agua e uma folha verde n'aquellas paragens teria o encanto de uma resurreição. Foi-lhe
preciso, entretanto, caminhar alguns kilometros para chegar ao oasis . Um grupo de oiticicas seculares sadias e vigorosas, opulentamente enfolhadas, enchiam uma área de alguns decametros. Cada arvore era um colosso vestido de verdura a ostentar todo o luxo da vegetação tropical. Sentiam-se alli as manifestações de vida e a harmonia dos sêres da natureza. Os fetos que bordavam o sólo com as folhas arrendadas viviam bem á custa da humidade e da sombra, livres das rajadas do vento da sêcca, que com seu halito quente tudo crestava. A briza, que ciciava alli, era fresca e perfumosa. Lianas e aristolochias se balançavam em flôr entrelaçadas nas oiticicas. Manoel de Freitas contemplava absorto aquelle sitio e procurava saber a causa da vida alli. Era a agua, a agua, que entra na composição de tudo o que vive. Mas como escaparia ella á acção da sêcca e deixou de se evaporar ? O fazendeiro não encontrava explicação ao milagre, só a vista da fonte, que não vira ainda, podia explical-o. Elle se achava tão bem n'aquelle sitio ! ... Os pulmões se dilatavam em inspirações plenas e profundas n'aquella atmosphera leve e pura. As fadigas da ascensão e do caminho haviam desapparecido. O velho sentia-se remoçar com aquellas libações sadias. A temperatura agradavel do oasis, a sombra das arvores, unica que o abrigou até alli, reparavamlhe as forças. Tinha sêde, mas acreditava estar perto d'agua. Aquelles vegetaes sem ella estariam reduzi
dos aos esqueletos. Havia agua, elle ouvia nos rumores da briza o som de um liquido a gottejar sobre uma superficie tambem liquida. Decidiu-se a procural-a, e a passo lento seguiu a percorrer todo o sitio. Caminhava para o sul quando em um declive do terreno encontrou-se inesperadamente com uma rocha, que fechava o caminho. O som d'agua a gottejar se percebia distinctamente e parecia sahir de dentro da pedra. O fazendeiro encostou o ouvido ao granito, auscultou as entranhas da rocha e notou que lá por dentro não reinava o silencio dos corpos inanimados, havia murmurios de liquidos e de gazes que se moviam. Estava sem duvida no dorso de uma gruta, mas do lado opposto á entrada. Quiz rodeal-a á direita e á esquerda, mas não conseguiu romper os balseiros de unha de gato e nem com o terçado fazer caminho. Voltar com sêde ouvindo agua gottejar tão perto não era para o genio de Freitas. Não podendo rodear a pedra decidiu-se galgar-lhe o cume. A ascensão foi difficil. Os musgos e os lichens fugiam-lhe sob os pés e a escorregadela seria mortal se não encontrasse pontos de apoio, que eram quasi sempre grupos de bromeliaceas. O sitio tornava-se cada vez mais aprazivel. As jurilys gemiam nos massiços de verdura, os insectos volitavam no espaço, as ras coaxavam baixinho comendo as algas das fontes. Freitas encontra na superficie da rocha, que julgava inteiriça, uma fenda com sufficiente espaço á vista. Deita-se na pedra e olha através da abertura. Uma
fonte crystallina alimentada por um fio d'agua, que desce do alto da rocha e n'ella cae gotta a gotta e no centro de uma pequena sala francamente illuminada pelo sol, vêem os seus olhos. As estalagmites que se erguiam do sólo, quasi encontravam-se com as estalactites que desciam do tecto reflectindo a luz que decompunham, e então os tons do iris offereciam a Freitas um espectaculo, para elle, novo e que devéras o maravilhava. Era uma gruta digna de uma lenda. O fazendeiro quiz vêr de mais perto aquelles crystaes, cuja lapidação refrangia tão bem os raios luminosos, e arrastando-se pelo dorso da rocha, logrou, sem accidente, chegar á entrada da gruta. Mal os olhos recebem a primeira impressão do recinto, a perspectiva do local, um espasmo veloz como o raio abala-lhe o systema nervoso, e é seguido de uma situação difficil, a de um perigo imminente. Uma onça pintada, tão grande, que media quasi dois metros da ponta do focinho á extremidade da cauda, de pé no fundo da gruta, balançando aquelle prolongamento da espinha, como fazem os gatos quando têm ao alcance a victima appetecida, olhava para Freitas . Os olhos do fazendeiro fitaram os da fera como ordenando-lhe que se rendesse. O carnivoro e o homem não perdiam um movimento do seu contrario. Manoel de Freitas tinha a lucta como travada. Em taes condições era a vida pela vida. Teve uma idéa, cuja elaboração foi rapida e o absorveu com todos os seus sentidos. D'essa sahiu a resolução
imprescindivel de atacar promptamente a fera. Anima-o a convicção de que a onça não resistirá á sua musculatura e ao seu terçado, e prepara-se para o ataque, o qual deve ser subito e terrivel. Sem tirar os olhos de sobre o animal, com todo o vagar e não menos precaução, lança no sólo as borrachas que pendiam-lhe do cabo do machado e da mão esquerda ; com a direita arranca da bainha o terçado e corre sobre a fera. Esta encabrita-se e com a boca escancarada espera o aggressor. Freitas introduz-lhe entre as arcadas das mandibulas o machado, cujo cabo aperta com a mão esquerda; a onça morde o ferro que, impellido com força, obriga-lhe a nuca a se collar á rocha, e levantando as patas anteriores, já vai cravar nas espadoas de Freitas suas aduncas e temiveis garras ; mas o valente fazendeiro, mais agil do que ella, atravessa-lhe o coração com o terçado. A fera urra e cae estrebuxando na lage sobre a qual recebe ainda alguns golpes nas carotidas e cessou de viver.
IV Era meio dia e na sala do rancho conversavam Josepha e Carolina em derredor do leito das creanças ainda adormecidas. Não havia em casa alimento de especie alguma. Carolina sentia fome, sabia-se pela pallidez das feições, não porque ella se queixasse : herdára de seu pae muitas de suas qualidades psychologicas e physicas ; a fibra de seus musculos não se abatia com qualquer jejum. Josepha tinha um ar desalentado, não podia dominar a impressão de qualquer dôr do corpo ou d'alma. Enfraquecida com a má qualidade de alimentos e exiguidade das refeições, era-lhe uma tortura o jejum. Qualquer demora na satisfação das exigencias do estomago excitava-lhe os centros nervosos e as desordens se manifestavam pelos phenomenos mais ex-
quisitos. Ás vezes era o ouvido a séde das perturbações ; um murmurio de cascata percebia o nervo acustico ; outras vezes era uma bala que subia-lhe do estomago á garganta e produzia uma sensação de estrangulamento ; agora era um grande vagalume que passava-lhe em frente ao olho esquerdo, repassando muitas vezes n'um segundo. Josepha esfregava o olho, fechava-o, mas logo que a retina funccionava, a primeira imagem percebida era a do pyrilampo . Carolina de quando em quando olhava para a mãe e notava-lhe o desassocego. Era necessario soccorrel-a ; e como não tinha alimento a dar-lhe, tratou de tirar-lhe d'alli o espirito ; procurou, cavando o passado , leval-a aos logares queridos da infancia. Esta noite, mamãe, sonhei com Filippa, e que sonho triste ! Ella pedia esmolas pelas ruas da Fortaleza, cega e esfarrapada. Infeliz creatura! disse Josepha deixando cahirem dos olhos duas lagrimas. -N'aquella noite horrivel, depois do terço, ella foi ao meu quarto e acordou-me para despedir-se de mim. Eu ignorava tudo. Aquella mesma hora quiz ir ter com o papá e pedir-lhe justiça ; mas ella se oppoz, dizendo-me que não era mais tempo, que estava no seu brio rejeitar todo e qualquer favor nosso. As suas palavras humilharam-me, porque ella tinha razão ; eu procederia do mesmo modo. -Eu lhe havia promettido a liberdade em recompensa de seus sacrificios. Ella nunca te fallou de minha promessa ?
- Nunca, mamãe. No dia que succedeu á fuga dos escravos, ella pediu-me que obtivesse do papá, caso elle quizesse vendel-a, deixar a filha em nossa companhia. -E fallaste n'isso ? -Não, porque julguei que Filippa era livre desde o dia em que amamentou-me. -Eu o havia dito. Amamentou não só a ti como ainda a tres de teus irmãos, e durante vinte annos prestou a mim os serviços de uma amiga incansavel, dedicada e verdadeira. E que grande coração tinha ! Dava a propria liberdade pela da filha ! Josepha não via mais o vagalume ; tinha o espirito todo preoccupado com a desgraça de Filippa. Os meninos tinham acordado, e, sentados no leito, olhavam com desgosto e piedade para a mãe, que, entregue a outros pensamentos, não via o ar desalentado das creanças pallidas como figuras de cera. A imaginação de Josepha errava muito longe d'alli ; acompanhava a idéa em seu curso phantastico, sentindo todas as impressões do meio em que a mente estacionava. O silencio da filha, que, recolhida em si, tambem pensava em Filippa, amorteceu-lhe algum tanto as lembranças do passado, e seu espirito foi pouco a pouco acordando da lethargia e pondo-se em communicação mais intima com tudo o que a cercava. Doloroso foi-lhe o despertar ; já não eram o vagalume, a bala, a cascata, o tormento com que a torturavam seus nervos, mas a fome dos filhos que ella
phantasiava em quadro lugubre sob o dominio da nevrose. Julgava-se abandonada com a familia á discrição da miseria ; pois que Freitas, perdido no matto, não voltaria. Este e outros pensamentos aterravam-na e dominavam-na de tal modo que ella os seguia com uma passividade de sombra. Essas visões pavorosas succediam-se com incrivel rapidez, dando logar a crises repetidas. Não tinha forças para repellil-as, para afastal-as de si. Depois de uma crise mais forte, Josepha apertando a cabeça com as mãos, exclamou : - Quem me soccorre ?! Meu Deus ! Reze, minha mãe, disse Carolina com voz dôce e resignada. As palavras da moça produziram o effeito miraculoso de um calmante applicado opportunamente. Josepha ajoelhou-se e cruzando as mãos sobre o peito, e extatica, olhando para o tecto, em fervorosa oração, pediu ao céo protecção e lenitivo ás suas afflicções. O scenographo mudára o scenario ; a fome com todas as suas dôres e a morte seguida de todos os seus espectros haviam desapparecido do palco ; agora das sombras hediondas surgiam mysticas visões. Deus apparecia, não impalpavel em espirito, mas encarnado no Christo macilento e suppliciado. O seu olhar amortecido e terno, Josepha acreditava uma promessa muda de soccorro, de salvação, e n'um extasis d'alma, que se absorvia toda na contemplação da vida celestial, sentia-se desprendida da terra, e como n'um espasmo cataleptico.
Manoel de Freitas, cuja energia e valor o haviam feito triumphar da morte quando, affrontando-a em frente da fera, a esta disputou peito a peito a vida, chegava á porta da sala do rancho sem ser presentido e com tamanha carga, que difficil lhe era caminhar. Josepha em extasis orava ainda, Carolina scismava e os meninos sentiam-se devorados de tedio e fome. Freitas comprehendeu pelo ar e postura das figuras a scena que se passava. Um pouco de carne a elles e voltaria a paz ao coração, e ao semblante a tranquillidade. Estava-o torturando a contemplação d'aquellas tristezas, e pondo o pé no limiar, exclamou: -A paz esteja n'esta casa. Carolina levantou-se e em seguida os meninos que, com algum alvoroço, acercaram-se do velho. Todos reanimaram-se : a presença de Freitas fortalecia-os, tinha um effeito todo moral. A carne da onça e as borrachas d'agua completavam o conforto ; em breve saciariam a fome e matariam a sêde. Josepha, alheia ao que se passava perto de si, continuaria a vagar pelas regiões celestes, se Freitas, depois de alijar a carga, não a despertasse batendo-lhe no hombro. N'ella foram iguaes a surpreza e o contentamento. Tanta carne, tanta agua só por milagre. A promessa muda de Christo havia-se cumprido, cria ella firmemente. Prompta a refeição e por todos aceita com especial agrado, foi o resto da carne posto ao sol para seccar. Havia ração para oito dias e agua para qua-
tro. Aquelle incidente feliz augmentava as probabilidades de chegarem ao porto do destino, pois que proporcionou-lhes o indispensavel para percorrerem a extensão de vinte leguas do ponto onde estavam até á Varzea do Meio, logar destinado por Freitas para refazerem-se de viveres, que consistiam na fecula extrahida da mucună e da carnahubeira, e depois continuarem a viagem. A refeição havia acalmado os nervos de Josepha ; por ella descera dos desconhecidos páramos celestes, e muito humana se achava agora ao pé dos filhos e do marido. Inteirada de que proseguiriam a jornada na madrugada do dia seguinte, lembrou a Freitas a falta em que estavam para com a defunta proprietaria d'aquella casa ; haviam dado-lhe sepultura ; mas não botaram a cruz na cova, a cruz, o signal do christão e o chamariz das rezas dos viajantes pelos mortos enterrados á beira do caminho. Assim não terá ella um Padre-Nosso nem uma Ave-Maria do caminheiro e menos ainda um raminho verde como lembrança dos vivos, accrescentou meia contrariada por lhe parecer que seu marido tinha má vontade ao seu pedido . Freitas não a tinha ; mas fadiga tinha elle demais para não desculpar-se da falta d'aquella homenagem á morta ; fez porém a cruz para satisfazer a Josepha, levando a tarde inteira a preparar a obra a machado . Antes de sahir o sol, iria collocal-a. A noite passou-se sem incidente algum. Aos primeiros clarões d'alva Freitas levantou-se, acordou Josepha, e, fazendo-se acompanhar d'ella, pôz
a cruz ao hombro e encaminhou-se para o sitio da cova. Muito perto da sepultura notou Josepha que estava um vulto branco. Eriçaram-se-lhe os cabellos com a idéa de um encontro com a alma da defunta, e, com as pernas já a tremer, chamou a attenção do marido para o phantasma visivel a mui pequena distancia. Freitas viu effectivamente um vulto branco, e sobre a cova. -Voltemos, Manoel, disse Josepha cada vez mais apavorada. - O que for soará. Se voltas, eu vou só, tornou The Freitas. O vulto de repente duplicou de volume. Josepha, que não o perdia de vista, não sustinha os queixos, que em tremor nervoso batiam um contra o outro. A quatro metros de distancia o vulto disparou em carreira vertiginosa pela estrada fóra. Josepha, assombrada, soltou um grito agudo e agarrou-se ao marido de um modo tão violento e brusco, que deitou-o por terra em risco de contundil-o, e até matal-o a cruz que trazia. O vulto era um retirante, que emigrára para a Fortaleza, e havendo pernoitado sobre aquelle monticulo de terra que achou bom para cama, de madrugada ao acordar, avistou Freitas e Josepha, que á primeira vista pareceram-lhe companheiros de viagem; achando, porém, exquisita a fórma do guia, poz-se de pé para melhor observal-o. Aproximaramse, e quando elle reconheceu um homem de compridas barbas brancas carregando volumosa cruz e como
avançando ao seu encontro, suppoz uma alma penada e fugiu a bom correr. Freitas conseguiu levantar-se, e chegando á cova, convenceu a Josepha de seu engano : alli estavam a maca do retirante e o seu cacete. Erguida a cruz voltaram para o rancho e cuidaram de despertar a familia e de arrumar a bagagem. Ás seis horas da manhã seguia a caravana caminho da Varzea do Meio. Manoel de Freitas havia encarregado sua filha de conduzir a maca de roupa, e comtudo o sacco da matalotagem, o machado e as borrachas que elle reservou para si, eram uma carga quasi superior ás suas forças. Ao meio dia tomaram rancho em uma casa abandonada ; e sendo o sol muito quente, a luz intensa e insupportavel, as rajadas de vento um tormento para os olhos e bronchios, e já estando todos muito tostados, Freitas resolveu aproveitar as noites, que eram de um luar esplendido, para viajar.
V Manoel de Freitas, por mais esforços que empregasse, não conseguiu acostumar as creanças a caminhar á noite. Tropegas e somnolentas, protestavam chorando contra a vigilia imposta pelo pae. Bastaram duas noites de experiencia para convencer a Freitas da impossibilidade de trocar a noite pelo dia. A viagem tinha-se atrazado e isto seria causa de grandes transtornos. A estrada, que até aquelle ponto recebia un caminho ou outro, servia agora de grossa arteria a milhares de veredas, que n'ella desembocavam. O prestito dos famintos era agora consideravel. N'aquella immensa procissão viam-se individuos de todas as idades e tendo em vista o mesmo fim. Acossados pela fome, seguiam caminho da Fortaleza a reclamar a assistencia publica. *
Freitas achava-se mal com sua caravana n'aquelle meio. Individuos de todas as castas se confundiam alli. Haviam perdido o senso intimo e deixavam-se dominar pelas necessidades da animalidade. Poucos eram os que não estavam reduzidos a magreza extrema. No leito da estrada encontravam-se, a cada passo, ossos humanos, cuja pelle sêcca e collada a elles os conservava articulados. Freitas comprehendia o perigo da situação. Precavia-se á hora das refeições, deixando a estrada e se internando com a familia pela matta. Trazia as borrachas d'agua escondidas no sacco da matalotagem. Ainda assim os famintos, com o instincto de animal esfomeado, presentiam que elle levava alimento e cercavam-no pedindo de joelhos uma migalha pelo amor de Deus. Freitas fechava o coração aos rogos, e procurava convencel-os de que nada tinha tambem para comer. Havia cinco dias que a caravana caminhava em sobresalto entre aquella turbamulta. A agua havia-se acabado e a Varzea do Meio ainda ficava distante cinco leguas. Freitas afastou-se da estrada e arranchou-se por traz de um barranco. Estavam livres da vista dos viandantes. Era necessario agua e onde encontral-a ? O sol ainda estava alto, e Freitas, arrostando a sêde, a fadiga, o calor, decidiu-se, animado por um supremo esforço, a procurar a fonte. Tomou o machado e as borrachas, e sahiu.
O sólo tinha um aspecto de deserto. Arvores desfolhadas enchiam áreas de leguas e leguas comuma monotonia de cemiterio. Freitas errava pela matta. Examinava o terreno, procurava indicios de aguada e nem uma esperança ! Sentia-se desalentar cada vez mais quando notou que o firmamento se cobria de pesados nimbos, o vento emmudecia e os vapores se condensando mais escureciam o ar. Julgou-se salvo, a chuva em breve regaria a terra e mataria a sêde dos filhos. Afagava tão dôce illusão, quando ouviu que o vento da sêcca desencadeava-se impetuoso e varria a terra e o espaço. Os esqueletos das arvores rangiam batidos pelas rajadas, ao mesmo tempo que as nuvens em vertiginosa desfilada corriam para oeste deixando após si o espaço limpido e azul. Freitas olhou desilludido o firmamento e continuou a caminhar á tôa. Suppunha-se longe do rancho quando inesperadamente o descobriu. ---Estamos salvos ! teu pae, meus filhos !! ... Mal Josepha acabava de pronunciar estas palavras, notou que as borrachas estavam sêccas como foram. Um gesto expressivo de desgosto contrahiulhe todos os musculos do rosto e sem articular mais phrase alguma fitou o marido, que a seu lado tinha o coração despedaçado de dôr. Freitas sentia-se esmorecer. O quadro que tinha diante de si representava a sêde com todas as suas angustias. Havia dezoito horas que não bebiam ! O exercicio muscular, o calor, haviam gasto quasi a
agua do sangue ! Os adultos ainda resistiam, mas as creanças deitadas no sólo, entorpecidas no mais completo marasmo, com os olhos a saltar das orbitas, immoveis, e com as pupillas muito dilatadas olhavam inconscientes para o espaço. Tinham a boca aberta, e a lingua sêcca sahia e pendurava-se sobre a arcada dentaria inferior ; assim exposta fendia-se a mucosa com o calor da atmosphera e o halito quente dos pulmões, que agora trabalhavam mais em movimentos accelerados pela febre. Carolina tinha um ar triste, mas resignado. No olhar vago deixava vêr o somno dos sentidos e que seu espirito vivia n'aquelle momento das recordações do passado. Era a hora das saudades. A luz crepuscular baça e triste em morbidos reflexos, derramava a mornidão pela natureza, que parecia em extasis, nos primeiros transportes de um desmaio. O vento emmudecera, e alguns nimbos, que elles tangiam para oeste enfileirados e immoveis no zenith, coloriam-se de rubro, reflectindo os ultimos raios do sol, que se escondia na fimbria do horisonte. Manoel de Freitas viu-se perdido. A contemplação das dôres da familia quasi superava-lhe a energia, e temendo o aniquilamento de todos os meios de acção afastou-se do rancho. -É tarde, Manoel !! ... Freitas deu alguns passos e paroujunto ao tronco de uma arvore. Immovel, com o rosto coberto com as mãos, esteve alguns minutos. O seu espirito reco
lhia-se e meditava. O cerebro elaborava uma idéa preconcebida entre uma multidão de pensamentos tristes. Elaborada que foi, o fazendeiro olhou com attenção as arvores que o cercavam, e se aproximando de uma, que tinha enrolada ao tronco uma haste sarmentosa, feriu de leve com o terçado o cortical do cipó. Algumas gottas de um liquido côr de sangue brotaram da ferida. Tinha achado o que procurava, a mucunā lisa, a planta que tantas vezes lhe matára a sêde quando, embrenhado pelas florestas, caçava abelhas e veados. A familia morria á falta d'agua, porque os seus pensamentos, todos os seus esforços convergiam para um ponto : acharuma fonte potavel e abundante como a da gruta da onça. Agora que, desilludido, não pensava em encontrar bebedoiro, mas em salvar-se com a mulher e filhos, avivaram-se as reminiscencias e entre ellas uma impressionou-o agradavelmente : era a mucună a verter agua como o rochedo do deserto tocado por Moysés. Freitas, reanimado, decepa a haste de um só golpe a pouca altura do sólo, agua não corre, mas isso não o surprehende. Introduz depois a extremidade superior do caule decepado dentro da bôca da borracha, que ageita apoiando-a ao tronco da arvore, e depois marinhando pelos galhos em que se enrolava o cipó, vai ter á extremidade d'elle. O sarmento tinha mais de cinco metros de comprimento, bom diametro e era vivaz e annoso. Freitas chegando ao ponto terminal da haste decepa-a pouco abaixo do olho. A pressão atmospherica
se exerce sobre o liquido que circula nos vasos, e ouve-se o murmurio d'agua que desce e despeja-se na borracha. Aquelle susurro suave enche de contentamento a alma do fazendeiro. Deseja chegar a terra ao mesmo tempo que a agua, mas não póde. Quando pisou no chão já a borracha regorgitava de cheia. Sem demorar-se, levou-a ao rancho. Josepha recebeu o marido com exclamações. Carolina comprehendeu que primeiro se devia soccorrer as creanças e se aproximou d'ellas levando uma cuia e uma colhér. Cheio o vaso começou a medicação. As primeiras colheres d'agua foram engulidas com difficuldade. Foram-se reanimando aos poucos, até que no fim de duas horas sentados conversavam. Freitas, Josepha e Carolina tinham-se saciado d'agua, que embora tivesse um ligeiro travo, comtudo matava a sêde e era agradavel ao paladar. Estavam a cinco leguas do ponto escolhido para estação, estação que duraria o tempo necessario a se refazerem de alimento para o resto do caminho. Freitas temia novos transes, não pela sêde, contra a qual estava armado, mas pela fome. Havia carne sómente para uma refeição e escassa! Era preciso empregar esforços e até sacrificios, afim de amanhecerem na Varzea do Meio. Lá teriam agua necessaria á extracção da gomma da carnahubeira e da mucună. Em face de necessidades tão palpitantes, Freitas resolveu continuar a viagem depois da meia noite. Agasalhada, a familia dormia, em
quanto elle, sem somno, passeiava em derredor do rancho. A lua nos ultimos dias do crescente mostrava á terra a face argentina e fazia a trajectoria no espaço, que, desnublado, tornava pela sua mortecôr mais brilhante a superficie do astro. Os seus raios illuminavam a terra, mas com um brilho morbido que deleitava. Os tons da tela representando aquelle pedaço de sólo com os sêres que o povoavam, confundiam-se em uma nuance escura. As rochas e os areaes brancos se diluiam na pretidão da floresta em uma aguarella desmaiada e sombria. Freitas, como sentinella perdida, guardava o caminho do rancho. Com a alma abalada ainda pelas impressões da ultima tarde, sentia-se fatigado e os musculos participavam do cançaço que lhe tolhia o espirito. Era necessario que os sentidos dormitassem ; o somno o tornaria incommunicavel com o mundo e suas miserias. O fazendeiro conheceu que tinha necessidade de dormir, não só para recuperar as forças perdidas pelo corpo, como para descançar o espirito e tornal-o apto a enfrentar com energia os futuros transes. Parapoder tranquillamente repousar, alargou a área da vistoria afim de se convencer de que além de sua caravana ninguem mais alli pernoitava. Ia deitar-se quando notou o apparecimento d'um vulto um pouco distante do rancho. Algum infeliz que nos espreita e aguarda o meu somno para vir furtar migalhas como fazem os cães sem dono a deshoras nas cozinhas alheias, pensou Freitas. Deitou-se e fingiu
dormir. Mais de uma hora esteve assim e o vulto sempre immovel. Sentindo que as palpebras pesavam cada vez mais, pôz-se de pé decidido a fazer um reconhecimento. Encaminhou-se para o vulto, mas antes de enfrental-o reconheceu a figura de um homem. Quem está ahi ? perguntou Freitas. O echo das palavras repercutiu com monotonia além nos mais proximos outeiros, e voltou o silencio a dominar outra vez aquelles logares ermos. Freitas adverte ao desconhecido que vai-se aproximar, e animoso segue até ficar cara a cara com elle. Surpreza horrivel ! O fazendeiro, sem querer, recúa um passo e procura dominar-se. Tinha diante de si uma mumia de pé e encostada ao tronco de uma arvore. A figura era horripilante. Uma caveira coberta de pelle sêcca e lustrosa eriçada de cabellos duros como as sêdas do caitatú, de orbitas vazias, as fossas nazaes abertas e sem nariz, a boca cerrada pelas filas de dentes de branco esmalte, articulava-se ao esqueleto, que se conservava na posição vertical, devido ao equilibrio mantido pelos membros superiores agarrados á arvore. Pendente das vertebras do pescoço cahia um rosario de vidro formando uma curva oval. Mirrados todos os musculos, as visceras se collaram aos ossos, dispensando o concurso da fermentação putrida, o banquete dos vermes . Freitas commovido contemplava aquella victima da fome. Desejou sepultal-a, mas com que ferros
abriria a cova? Pelo corpo nada podia fazer, pela alma sim, se é que as orações servem-lhe de consolo, tinha que rezar, e ajoelhou-se com muita devoção, como se alli houvesse alguma coisa mais que uma retorta em que durante um periodo de annos deram-se muitos e diversos actos chimicos ; as peças de uma machina que activa funccionou mantendo e regulando a vida. Freitas rezava, mas com certo pavor. Antes de concluir a oração foi surprehendido por um estremeção do esqueleto ; assustado ergue os olhos e fere-lhe as retinas o fogo em chispas vomitado pela caveira. Sente-se amedrontar, mas em tempo pôde vencer o medo e terminar a reza. Concluida a oração levanta-se ; não havia mais fogo e nem o esqueleto estremecia. O vidro das contas do rosario refrangia á luz da lua, e visto de baixo para cima illudia collocando fócos luminosos na boca da caveira. Freitas convencido da illusão e certo de que o esqueleto estremecera agitado pelo vento que balançava a arvore, volta ao rancho dizendo comsigo : É assim que se contam as historias de almas - do outro mundo.
VI Manoel de Freitas chegou com a caravana a Varzea do Meio logo ao amanhecer do dia. O sólo tinha alli outro aspecto e a natureza um ar mais sadio. Uma área de mais de dois kilometros de extensão arborisada de carnahubeiras seculares, todas verdes, limitada com a floresta semi-morta, constituia a varzea, aprazivel pela vida de suas palmeiras. As brumas crepusculares rarefaziam-se e os vapores subtis desappareciam diluidos pelos raios solares, que chegavam á terra. Algumas espiraes de fumo ennovelavam-se nos leques das carnahubeiras, desprendidas dos fogos nos ranchos dos retirantes. Havia alli algumas centenas de viajantes fazendo
estação. Todos estavam magros, cançados, e grande numero enfermos de anasarca. Freitas notou com desgosto o crescido numero de companheiros. Era-lhe necessario agora maior somma de trabalho. Era grande perigo viver no meio d'aquella onda de infelizes, que a perversão moral havia reduzido sómente ao instincto da animalidade. Freitas procurou um logar mais retirado e arranchou-se. O local escolhido era magnifico. Um grupo de carnahubeiras, cujas hastes marcavam no sólo uma circumferencia, sustentando como columnas um tecto de folhas verdes, formava um kiosque natural com proporções sufficientes a accommodar a caravana. O fazendeiro depois de riscar o logar do rancho installou-se com a familia. O movimento dos famintos era alli consideravel. Entravam e sahiam centenas todos os dias. Os recursos naturaes, como a fecula da mucună, a gomma da carnahubeira e agua em abundancia, faziam da varzea estação obrigada. Freitas quiz logo se pôr a par das aguadas, e sahiu a colher informações. As fontes ficavam a duzentos metros do rancho. Eram tres grandes caldeirões, que estavam sempre cheios, alimentados por alguma veia d'agua do subsólo. A agua era clara, mas tinha a superficie velada por uma tenue nata de saes de ferro. Freitas encheu as borrachas e sem provar o li
quido levou-as ao rancho, certo de que elle continha muita caparrosa. As creanças sequiosas quasi esvaziaram uma das borrachas, mas o effeito da agua não se fez esperar e foram atacadas de cólicas e diarrhea. O fazendeiro previa isto, tanto que preveniu-as do resultado, recommendando-lhes que bebessem pouca agua. Era necessario procurar outra fonte, aquella serviria para a extracção das feculas. Indagando do mais proximo visinho de algum bebedoiro menos salgado, soube que a oeste da varzea havia uma fonte d'agua dôce, chamada a encantada, pois só enchia de tres em tres dias. Tratava-se de uma fonte intermittente, cuja causa Freitas não comprehendia e cujos phenomenos muito menos podia explicar por lhe faltarem conhecimentos de hydrostatica. A nova fonte era mais potavel, mas comtudo não deixava de ser um pouco alcalina. O fazendeiro achou a agua soffrivel e apanhou-a para uso da caravana. Freitas resolveu que a estação alli seria de tres dias, e para não perder tempo, cuidou logo em tirar o palmito dos mais viçosos quandús, que em grande numero cercavam o kiosque, reduzil-o a massa esmagando-o entre duas pedras, e depois entregal-o a Josepha para com a filha laval-o e tirar-lhe a gomma. Começado o trabalho, depois de tomada a primeira e unica refeição d'aquelle dia, Freitas ancioso de explorar aquelles sitios e desejoso da carne de
um animal de sangue quente, sahiu da varzea fóra com o machado ao hombro e terçado á cinta. Seguia rumo de léste. A terra era núa. As malvas, os marmeleiros, as sensitivas tinham morrido e o vento derrubado os esqueletos. Nem uma habitação, um rancho d'aquelle lado ! Freitas entrou no extremo da varzea para a matta e começou a ouvir muito ao longe o ladrar de um cão. Tomou o rumo e seguiu por uma vereda. Depois de andar muito e já sem esperança de carne n'aquelles sitios mortos, avistou uma casa, que além fechava a vereda. O caminho morreu no pateo da vivenda, que de telhas, caiada, com porta e janella para o nascente, era a habitação da familia e ao mesmo tempo um pequeno estabelecimento rural. Nos outões sahiam duas azas, dois grandes alpendres, occupados um pelos toscos machinismos de madeira do fabrico da farinha de mandioca e o outro por uma engenhoca tambem de pau e mais pertences destinados ao fazimento de rapaduras. Ao lado do sul um curral de pau a pique, com a porteira fechada, e pousado em um dos mourões jejuava um grande carcará faminto olhando o sitio onde outr'ora viveu luzido gado. A janella da casa estava aberta, e a porta fechada deixava vêr bem riscos a carvão formando innumeras e diversas figuras. Á primeira vista parecia uma pagina de hierogliphos. Aproximando-se, via-se que eram desenhos de marcas de tamanho e fórmas differentes não só das fazendas da visinhança como das mais distantes, cujos vaqueiros na pista de animaes fugidos
deixavam os ferros alli desenhados, afim de não se apagarem da memoria. Manoel de Freitas chegando á janella se debruça no peitoril e diz para dentro : - Ó da casa ! O echo de suas palavras repercutiu nos escuros aposentos, e foi respondido pelo ladrar do cão. Freitas notou que de quando em vez um ruido semelhante ao vôo de aves se fazia ouvir. Não se conteve e pulou a janella, mas antes de chegar ao corredor o cão sahiu-lhe ao encontro. Foi difficil defender-se sem o auxilio do terçado. O animal, levemente ferido, cedeu o caminho á sala de jantar. Antes de entrar n'ella, Freitas começou a sentir um cheiro insupportavel de carniça. A atmosphera parecia pôdre. Havia pouca luz. Aberta a porta renovouse o ar e fez-se a claridade. Os raios do sol bateram em cheio no pavimento e um espectaculo horrivel viu o fazendeiro. Apodrecia alli o cadaver de um homem, cujo rosto já estava medonho pela decomposição. A pelle cyanotica estilhava a putrefacção, que fazia a cara disforme e horripilante. A physionomia mais horrida tornava o nariz, que, diluido em uma amalgama de pús e vermes, cahia sobre a bôca, já sem labios, e em parte cobria os dentes alvos e sãos. Os olhos arregalados a saltar das orbitas, n'um olhar de morto sem luz e consciencia, pareciam fitar-se no fazendeiro. O cadaver estava vestido de camisa e calça de algodão. O habito, entretanto, na altura do ventre estava rasgado, e rasgado tambem
estava o abdomen pelo cão, que cevava-se nos intestinos e visceras do morto. O terreno onde descançava o corpo estava revolvido. Parecia ter havido alli uma lucta. Manoel de Freitas aproxima-se mais da carniça para melhor observal-a, quando o cão, vendo-o junto do seu repasto, ataca-o de novo. O animal vinha furioso. Para se livrar d'elle o fazendeiro mata-o a golpes de machado . Parecia a Freitas que o morto não era uma victima da fome. Quasi putrefacto se percebia assim mesmo gordura nos tecidos, gordura que a fome teria gasto antes de tudo. O fazendeiro examinava o cadaver com interesse quando notou signaes de um crime : um suicidio por estrangulamento. O pescoço do defunto ainda apertava o mortifero laço. Prescindindo de mais conjecturas, Freitas voltava á sala pelo corredor quando ao passar pela porta de um quarto foi vivamente impressionado por um ruido de vôo que vinha de dentro. Parou, forçou a porta e entrou no escuro aposento. Uma nuvem de morcegos pairava no ar. Freitas vai ás apalpadellas á porta fronteira guiado pelas estreitas frestas abertas entre as taboas e por onde a luz se coava descrevendo linhas verticaes e parallelas. Aberta a porta, entra a luz em feixes e os cheiropteros deslumbra- . dos esvoaçam doudamente pelo quarto. A um canto estava uma rêde armada, que oscillava brandamente como impellida pelos movimentos respiratorios de
animal que vive. O fazendeiro se aproxima e não vê senão uma massa preta a mover-se ; olha com mais attenção e vê que centenas de morcegos se ennovelam alli grunhindo. Observa attentamente e com surpreza divulga encravadas na pretidão da nuvem dois pontos azues aureolados de branco. Eram olhos, e olhos humanos. Aproxima-se mais e tocando o pello dos animaes com a mão procura assim enxotal-os. Poucos foram os que voaram deixando o repasto de sangue. Rarefeito o véo negro percebe o fazendeiro as fórmas de um corpo de creança. Os morcegos agarrados a ellé sugavam o sangue, embora de cheios já não podessem voar. Freitas toma a creança nos braços com uma piedade paternal. Alguns dos cheiropteros soltaram o corpo e pesados de sangue arrastavam-se no chão como reptis ou animaes apteros. Outros mais gulosos do sabor do sangue e n'um delirio famelico não viam o fazendeiro, que tomava a indifferença d'elles pelo mais requintado atrevimento. Pagariam com a vida os instinctos carniceiros e a audacia. Manoel de Freitas arrancava os morcegos um a um e ia-os estrangulando entre os dedos, que a colera havia tornado capazes da pressão de uma prensa hydraulica. O animal obrigado a despegar-se da victima, raivoso batia com os dentes uns contra os outros, mas era logo esmagado, o corpo sem fórma era atirado para longe emquanto debaixo da rêde ficava uma poça de sangue. O ultimo morcego se enchia de sangue, indifferente á matança dos companheiros, *
agarrado ao labio inferior da menina. Freitas segura-o, mas elle resiste agarrando-se mais com os dentes á macia carne, que chupava. O fazendeiro emprega mais força, aperta-o entre os dedos a ponto de quebrar-lhe todos os ossos de uma vez, do sangue esguichar por todos os póros, mas o cheiroptero nas convulsões da morte cravou mais ainda os dentes no labio da creança. Freitas procura arrancal-o e o cadaver cede, porém trazendo entre as arcadas dentarias quasi todo o beiço da menina. Mortos e em fuga todos os morcegos, o fazendeiro pergunta a si mesmo que soccorro ha a prestar áquella creaturinha. Uma só ferida cobria-lhe o corpo. Já se lhe ouve a agonia. O velho com toda a piedade assiste á morte da creança que se annuncia pela frialdade da pelle, pelas ultimas contracções dos musculos. A vida cessa n'um suspiro, que os labios entre-abertos deixam passar. Freitas estava commovido. A frieza do cadaver chegava-lhe ás carnes impressionando-o desagradavelmente. Compadecido olha ainda uma vez para a creança e, deitando-a na rêde, voltou ao rancho.
VII No rancho Josepha e a filha concluiam a tarefa. Os meninos, depois de repetidas dejecções, dormiam a somno solto. O kiosque dava-lhes o conforto de uma excellente sombra e o ar puro dos sitios arborisados. Estavam bem alli. Agomma da carnahubeira enchia uma grande cuia com uma alvura de neve. Como a tamareira dos desertos africanos, a carnahubeira nos sertões do Ceará abriga as caravanas de retirantes á sombra das frondes e dá-lhes para comer a fecula das hastes novas. O sol já cahia muito para o occaso quando Freitas chegou ao rancho. Fervia uma panella de mingau e Josepha de vez em quando atiçava o fogo, aguilhoada pelo appetite que o laxante aguçára : depois こ
do effeito da agua ferrea, convinha apressar o ponto do mingau. Freitas louvou-lhe a diligencia e admirou a quantidade de gomma extrahida de tão pouco palmito. Preparada a refeição, foi servida a todos. Aquella gomma dava excellente papa e tão sadia como a de araruta. Arvore utilissima, a carnahubeira desde a raiz até o pó das folhas é aproveitada pelo homem. É o boi vegetal. Manoel de Freitas, cercado da familia, no dôce conchego da vida intima, sentia-se mais feliz e mostrava-se mais expansivo n'aquella tarde. Ás lagrimas succedem os risos como á noite o dia. A sua alegria resultava da comparação da scena de hoje com a scena de hontem. O meio era outro e as condições de vida mais favoraveis. A felicidade consistia alli na posse da sombra de algumas arvores e em uma alimentação muito frugal. Conversavam todos animados pelo ar que circumdava livre e purificado pela vegetação d'aquelle sitio. Chegou a noite e ainda fatigados da viagem da vespera e mal satisfeita a necessidade de dormir, cedo se recolheram ás rêdes . Freitas fez um fogo valente, que duraria até pela manhã, e deu depois uma volta para certificar-se de que estavam sós. Quando voltou, já todos dormiam. Deitou-se e procurou conciliar o somno, mas a scena do enforcado impedia-o de dormir, não o apavorando, porém dando á imaginação o trabalho de muitas horas de conjecturas. Virava-se de um para o outro pu
nho da rêde parafusando sempre, e nada de somno. O silencio da noite e a solidão do descampado avolumavam-lhe no cerebro a figura horrenda do estrangulado, cujo olhar mortiço e immovel fitava-se em suas retinas, muito embora veladas pelas palpebras somnolentas. Os nervos crispavam-se e os póros em arripio medroso distillavam gelado suor que molhava-lhe os cabellos do corpo hirtos pelo calefrio. Aquella scena estacionada sempre diante dos olhos começava a incommodal-o, a elle que os mais perigosos transes nunca tinham podido deixar perceber-lhe na physionomia um traço meticuloso. Contra a visão que pretendia dominal-o, elle reage abrindo os olhos e procurando novas e reaes impressões. A sombra desappareceu, mas quando as palpebras fecharam-se, eil-a de novo : os olhos do estrangulado a saltar das orbitas, com uma rigidez de carne petrificada, um olhar sem vida e luz vêem os seus sentidos. Um pesadelo, uma allucinação, pensou o fazendeiro, e dispoz-se a esperar o somno de olhos abertos. Immovel na rêde, com uma das entradas do kiosque debaixo de vista, continuava a parafusar no enforcado, quando notou á sua frente o apparecimento de uma sombra, que interceptava a luz em um espaço limitado do pavimento do rancho. A imagem era imperfeita, e a confusão de fórmas não permittia conhecer o corpo que a projectava. Freitas não perdeu mais de vista a sombra, que immovel e sem augmentar e nem diminuir de extensão, se conservava inteiriça, dando ao logar que oc-
cupava uma mortecôr escura e sem gradações de tons. O fazendeiro decidiu-se a fazer um reconhecimento, e quando ia levantar-se viu que a sombra caminhava para si. Ficou immovel e esperou. A sombra continuava a se projectar e a seguir, porém informe, até que parou, e á entrada do kiosque assomou um vulto escuro, caminhando lentamente e como um quadrupede. A atmosphera do rancho de inodora que era, tresandava a maritacaca, tinha um fedor que embebedava. Freitas, por mais attenção que prestasse ao vulto, não divulgava-lhe as fórmas e muito menos as feições ; não sabia que especie de animal elle era. Parecia-lhe onça, raposa ou cão de monturo. O facto é que elle ou farejava ou espreitava. O fazendeiro apercebeu a espectativa do bicho e se lembrou dos famintos. Um homem a andar de gatinhas no ultimo periodo da fome, a farejar migalhas, seria possivel. Freitas não perdia um só movimento do vulto, e com a mão no cabo do terçado esperou. Elle se aproximou mais e pôde ser reconhecido. Não era um bicho mas um homem que a fome reduzira a bicho. Chegado ao centro do kiosque poz-se de pé. Do chão alevantou-se o esqueleto, que media mais de um metro e meio, e tinha a tetrica morbidez dos espectros. O tronco largo e bem desenvolvido mostrava ter sido vestido de uma carnação vigorosa, que havia consumido a fome e deixado núas
as vertebras e as costellas. O espinhaço, como uma columna de nós, apenas coberto de pelle, deixava contar todos os ossos. A elle se articulava a cabeça, um pouco mais vestida que uma caveira, com um rosto esqualido e a physionomia carregada da ferocidade de animal carnivoro e faminto. Os dentes completos e de branco esmalte, sem labios mais que os cobrissem, n'um riso de ironia e mofa, brilhavam em lugubres scintillações e mais horripilante tornava-lhe a figura. O olhar era vago. As pupillas dilatadas quasi tocavam o disco do iris, que lhes servia de debrum, e sepultadas no fundo das orbitas davam á caveira uma expressão de vida, mas de vida de besta. Os braços se estiravam ao longo do tronco envolvidos na pelle, que tendo perdido a frescura e macieza, enrugada e aspera, parecia de amarrotado pergaminho. As pernas magras, apenas os ossos e um quinto da musculatura, cambaleavam com o peso da carga, pelangas e ossos. O abdomen retrahido e collado á espinha deixava perceber as cristas dos illiacos e a fórma da bacia. Manoel de Freitas, temendo pelo pudor da filha, cuja virgindade moral se macularia percebendo os seus sentidos as fórmas de um homem todo nú, levantou-se e poz-se á frente do faminto. Aquella nudez obscena que o delirio famelico expunha sem rebuço, sem consciencia, mas tambem sem sensualidade ; a vista de um esqueleto, mas de um esqueleto com sexo o aterrava, porque iria violentar a castidade dos sentidos de Carolina. Era necessario retirar
já d'alli aquelle homem, fazel-o sahir emquanto o somno da filha, como um véo pesado e negro, cobria a figura impudica do retirante. O fazendeiro aproximando-se do faminto fitou-o com energia e com um gesto ordenou-lhe que sahisse. O infeliz coçou-se, roeu as unhas com gula e desespero, rangeu os dentes, mastigou a saliva e articulou com difficuldade-fome abafado e todo guttural. mas em um som Freitas ouviu-o e com um leve movimento mostrou-se entendido, ordenando-lhe depois com um gesto ainda mais imperioso que se retirasse. O faminto não obedecia e continuava a roer as unhas e a comer as escharas que se desaggregavam da epiderme. Agora fitava elle o rosto de Carolina perto de si e completamente exposto e alumiado em cheio pela luz da fogueira. Percebia os tons d'aquella carnação, mas com o appetite de besta esfomeada. As narinas dilatam-se-lhe mais, fareja, procura o cheiro d'aquella carne sadia na qual tem impetos de saciar a fome, de resgal-a a dentadas. O delirio augmenta, os musculos das faces retezam-se, relaxam-se, executam emfim uma série de movimentos desordenados, de contracções espasmodicas e, na esperança de mastigar as faces da moça, o faminto dá um passo para ella, vacilla, mas depois firma-se melhor nas pernas, que cambaleiam . Freitas se colloca entre elle e a filha, e para intimidal-o mostra-lhe a faca que lhe aponta ao coração. No delirio famelico que o domina, o outro não
vê o ferro nem quem o brande, só enxerga a carne, que a imaginação lhe mostra sangrenta, e deseja mordel-a até de todo saciar-se. Mais um passo vacillante dá o esqueleto, que não é varado pelo terçado, porque Freitas pôde retiral-o em tempo. O fazendeiro comprehendeu que estava na frente de uma besta humana e procurou ainda dominal-a. Põe-lhe a mão no hombro, que balança, e indica-lhe uma das entradas do kiosque com um gesto. Com o sacalão os ossos do esqueleto rangeram dentro do involucro de pelle, mas o faminto nem ouviu e muito menos obedeceu á ordem. A frialdadedo retirante impressionou desagradavélmente o fazendeiro, que retirando a mão tratou de fazer sahir d'alli aquelle homem, fossem quaes fossem os meios. N'um impeto de colera e irritado pela teimosia do bruto, fere-o no ante-braço. O faminto leva a ferida á bôca e, com uma avidez que desarma e commove a Freitas, suga o sangue que sae do ferimento, mas um sangue quasi incolor como o dos echinodermes. A sucção era feita com uma gula infrene. O faminto parecia querer sugar pelaferida todos os liquidos do corpo. Nem uma gotta mais vertendo o ferimento, começou elle a comer as proprias carnes! Freitas com surpreza e magoa notou que o desgraçado se devorava em vida. Era preciso retiral-o do rancho e procurar alimental-o. Como conduzil-o se o contacto de seu corpo era tão repugnante como uma cobra? Se fedia tanto como uma carniça ? Pôde
dominar a repugnancia de seus nervos, e largando o terçado tomou o faminto nos braços e levou-o a vinte metros do rancho. Ahi deixou-o e voltando ao kiosque preparou um pouco de mingau, que levou ao retirante . O infeliz tinha cahido no marasmo depois de ter comido as carnes de todo o antebraço. Agonisava. O fazendeiro assim mesmo procurou alimental-o , mas embalde ; os queixos cerrados não permittiam a passagem de corpo algum. A morte foi immediatamente precedida de uma horrivel convulsão. Distendidos e contrahidos os musculos em um espasmo violento, em um minuto, a vida cessou com todas as suas miserias . Freitas abandonou o cadaver por não poder supportar o fedor que elle exalava. Voltou ao rancho, mas lá a atmosphera tresandava ainda a carniça. Deitou-se, mas não dormiu. Pela madrugada acordou a mulher, que deixou de conta da familia, e foi procurar esconder o cadaver em alguma gruta.
VIII Manoel de Freitas tomou o cadaver do faminto ás costas e sahiu de matta fóra. O peso da carga era pequeno para a sua musculatura de acrobata, mas a repugnancia ao defunto era para elle uma tortura. A frialdadedo morto transia-lhe a carne das espadoas e se irradiava a todos os nervos do corpo crispando-os em um arripio tetanico. O fedor que exhalava o cadaver nauseava. O fazendeiro esforçava-se por dominar a excitação nervosa, em grande parte augmentada pelas impressões do olfato. Quasi esmoreceu e atirou o corpo ao chão, mas um resto de energia fêl-o triumphar, e conseguiu chegar á beira de um formigueiro. Abriase alli uma funda excavação, uma grande toca, um casarão abandonado de formigas e cujos comparti-
mentos subterraneos a agua de alguns invernos havia demolido e reduzido a uma só e profunda cavidade. Freitas achou aquelle logar optimo para descanço eterno e atirou á valla o cadaver. Livre da carga, mas sempre a tresandar a carniça, decidiu-se a ir-se desinfectar na fonte encantada e para lá seguiu. Não quiz o caminho da varzea e continuou a romper a floresta. Havia amanhecido e a luz do sol não reanimava aquella vegetação moribunda. Os esqueletos bracejavam no espaço procurando a luz, que devia alimentar-lhes nos tecidos um resto de vida latente, de vida de animal hibernante no periodo da lethargia. As arvores tinham o aspecto dos individuos de sua raça nos climas frios e no rigor do inverno. Nem uma folha viva, um gomo, uma bractea ! O panasco desfeito em pó, era levantado pelo vento e em nuvens espessas atufava-se na matta. As hastes sarmentosas das parasitas, quebradas as gavinhas, estendidas desenrolavam as espiraes na terra quente, como serpentes, que adormecidas fossem lançadas no rescaldo de um fôrno. Nem um insecto se aquecia ao sol nascente. A vida animal desapparecera d'aquelles sitios ; só os infimos sêres talvez habitassem aquelles logares desolados . Freitas caminhava somnolento. Duas noites de completa vigilia a testemunhar scenas commovedoras haviam-lhe abalado os nervos. Tinha necessidade do somno, do modificador por excellencia do systema nervoso e não devia dormir. Era preciso se prover
de alimento e repousar algumas horas, mas uma parcella do dia perdida podia diminuir as probabilidades de triumphar da fome. Seguia caminho da fonte, quando, ao passar pela ribanceira de um riacho sêcco, ouviu alguns gemidos. Parou e pensou logo em alguma nova desgraça. Os gemidos se repetiram ; tomando o rumo de onde elles lhe pareciam vir, Freitas caminhou. Não foi preciso andar muito para ser espectador de uma scena terrivel. Um grande lagedo estirado ao rez do chão, guardado por um grupo de angicos desfolhados, servia de palco a um drama da fome. Deitada sobre a pedra, na postura de crucificada, uma mulher tão magra como uma mumia, era devorada ainda viva pelos urubús. Banquete horrivel! Como o Prometheu da mythologia, immovel e sem acção, ella sente rasgarem-lhe as entranhas as garras e os bicos acerados das aves malditas ! Vivia ainda quando gulosos urubús, que das alturas devassavam a terra procurando repasto á fome, vêem-na e descem sobre ella. O crocitar tetrico das aves disputando o melhor quinhão da presa, seu passo lento e grave, e a vestidura negra, como os convivas de um prestito funebre, aterram a desgraçada, sem forças para reagir, mas ainda com consciencia para temer e sentir, e como o unico e derradeiro esforço da vontade, que se aniquila, ella lança um olhar supplice para o céo, um olhar cuja luz vacillante reflectem duas lagrimas que tremem entre as palpebras mal cerradas. Os urubús crocitando sempre, alternando o canto
pavoroso com pios agudos e longos, aproximam-se da victima e o banquete começa. Os bicos compridos e aguçados rasgam o ventre e puxam o intestino que se desenrola á mercê da gula das aves. As visceras são arrancadas do tronco e devoradas com gula famelica ! Os mais fracos receiam disputar aos companheiros um pedaço de intestino, e, covardes, cercam a cabeça da victima e lhe vasam os olhos ás bicadas ! Ella vivia ainda ; suas pupillas se fitavam no azul do céo, quando a luz se apaga de repente e nas agonias de dôr tão cruciante sente que a vida foge com as ultimas ondas da do dia que para sempre desapparece de seus olhos. Freitas chegou a tempo de ouvir-lhe o ultimo arquejo. Enxotou as aves, que voam crocitando com pedaços de tripa nos bicos pendurados. Voam, porém pousam logo nas grandes arvores a espreitar a presa. O fazendeiro procura sepultar os restos da morta n'uma fenda do lagedo, o que consegue com alguma difficuldade, e continuou o caminho. O mesmo céo azul a se arquear sobre um sólo esteril ! As scenas se succediam n'uma monotonia crescente. A sequidão da terra a constringir as raizes das plantas, que morrem de fome, porque não têm agua que tire do humus a vida de seus orgãos. O fazendeiro deixa as tristezas da matta pelas alegrias da varzea, que, com as verdes carnahubeiras, tinha os attractivos e a louçania de um oasis resurgido de um campo torrado pela secca. As retinas excitadas pela luz, que superficies brilhantes refran-
giam, descançavam agora nos massiços verde-escuros das frondes, que coroavam o vertice dos estipes das palmeiras. Á sombra do palmeiral, n'um perfeito contraste com a vida d'aquelle sitio, fervilha uma onda de famintos carregando agua ou procurando raizes silvestres para comer. Aquella procissão de esqueletos n'um formigar incessante, enche de profunda melancolia aquelle pedaço de terra ainda fecundo, ainda habitado. A physionomia dos retirantes tinha uma gravidade particular ; nas linhas do rosto escaveirado e macilento se distinguia uma gradação de tons morbidos. Não se percebia um traço alegre, uma expressão de contentamento intimo. O fazendeiro atravessou a turma de esfomeados e continuou caminho da fonte. Ainda fedia a carniça. Para melhor se desinfectar havia colhido alguns fructos de uma sapindacea, o saboneteiro. Estavam sêccos; porém, mesmo assim faziam o effeito de um bom sabão. A fonte estava cheia de uma agua tão crystallina que deixava vêr o fundo da bacia. Ninguem havia por alli perto. O fazendeiro despiu-se muito á vontade. E' que o vissem as famintas, não arderiam em desejos sensuaes, a vista resvalando nas fórmas núas, na carnação ainda vigorosa do velho. Ensaboou a roupa, que deitou ao sol a córar, e fez depois o mesmo em si. A loção abria-lhe os póros ao ar, tonificava-lhe os nervos, restaurava-lhe a força muscular gasta em excesso nas luctas pela existencia. Depois do banho, Freitas sentiu-se mais novo e mais forte. Enxaguou
a roupa, que estendeu a seccar. O calor gastaria pouco tempo em evaporar a agua da vestimenta, mas não fazer coisa alguma durante esse tempo era esperdiçar o dia e Freitas aproveitava-o com a maior usura. Sentia-se disposto e limpo. Um pedaço de sabão e uma batega d'agua produzem ás vezes os effeitos miraculosos de uma resurreição. Emquanto a roupa enxugava, o fazendeiro foi á matta proxima e cortou uma vergontea forte de jucá, um espeque, que tratou de aguçar. Tinha necessidade de um instrumento para cavar a terra e aproveitou aquella madeira, rija como o aço, no fazimento de um ferro de cova. Preparado o cavador, Freitas vestiu a roupa e lepido voltou ao rancho. Ia mais moço. A pelle do rosto tinha menos rugas e os nervos não se resentiam mais das crispações da noite anterior. No kiosque a familia, depois da refeição de mingau, reunida conversava sobre o mau cheiro que se sentia alli. Alguma carniça perto, pensava Josepha. Ignoravam as scenas que se tinham passado durante a noite. Freitas chegou ao rancho e saudou-os com bondade. Carolina e os irmãos, com respeito e ternura, beijaram as mãos callosas do velho. Josepha serviu uma copiosa refeição de mingau ao marido, que, com o appetite aguçado pelo banho, comeu em alguns instantes. - -É preciso começarmos hoje uma farinhada de
mucuna, Josepha; eu vou procurar as raizes, emquanto ficas preparando o necessario para o trabalho, disse Freitas sahindo de varzea fóra com o machado, espeque e terçado. Ia procurar a mucunā lisa, planta tradicional e figura obrigada de todas as sêccas. Logo que o fazendeiro entrou na matta, achou a leguminosa papilionacea que procurava. Estendida ao sólo, sem orgãos apprehensores e entrelaçadanasgrandes arvores, ella compartilhava da sorte das companheiras : havia perdido as folhas e o viço. Reduzida ao cipó, sem os verdes foliolos trifoliados e as flôres roxas de corolla papilionacea, a mucună parecia hibernar até que voltasse o inverno. Freitas examinou a haste da leguminosa e lhe pareceu ter ella muita raiz. Entretanto o terreno era de argilla, e de uma argilla tão compacta, que seria muito penoso revolvel-o, embora em pequena profundidade. Temeu o massapez pela pouca resistencia do seu ferro de cova e foi procurar mucună vivendo em chão arenoso. Não lhe foi custoso encontral-a. Ella parece ter sido semeada por mão previdente. Vegeta nas Indias e na America, mas sómente nas regiões assoladas pelas sêccas. Freitas achou entre outros pés de mucună, um, que pelo diametro da haste pareceu-lhe annoso e por isso rico de raiz. Cavou a rocha, que, de silica, se desaggregava com facilidade. Meia hora de trabalho a escarnar a terra onde as raizes da mucună se irradiavam do tronco lateralmente, e apparece á luz do *
dia o thesouro vegetal, avaramente escondido no subsólo. N'uma circumferencia, cujo raio media dois metros, as raizes dispostas como os raios de uma roda, unidas pelos bordos, enchiam toda a área com seus corpos vermelhos . Freitas estava maravilhado de tanta abundancia. Mais de duas dezenas de raizes e algumas tão desenvolvidas, que um homem forçoso não podia com uma ! Separadas dos colletos, o fazendeiro, empregando o espeque como alavanca, virou-as para fóra da cava e foi conduzindo-as uma a uma para o rancho. O trajecto era curto, e por isso pouco depois de meio dia chegava elle ao rancho com a ultima raiz. Tinha mais de quinhentas kilogrammas de materia vegetal, que daria dez por cento de fecula, de uma substancia alimenticia, a gomma da mucunā. Josepha recebeu mal a leguminosa. A sua presença acordára-lhe na mente adormecidas reminiscencias ; causára-lhe a mesma impressão que a chegada do ultimo conviva de um enterro, após a qual foi-lhe arrancado dos braços o feretro do filho amado. Freitas via a mucună por prisma differente. Tinha certeza de ser ella muito venenosa e, como tal, a maior assassina que o Ceará tem tido durante as sêccas ; mas tambem sabia que a acção toxica póde ser modificada ou mesmo destruida segundo o processo empregado na extracção da fecula. Preparada por mãos ignorantes é sempre um veneno e nunca um alimento. Convencido d'isso, dispõe-se a preparal-a com o maximo escrupulo. Faltavam-lhe, entretanto, !
certos aprestos e entre elles um indispensavel : um deposito para repousarem as lavagens da mucunā. Era, senão impossivel, ao menos difficil encontrar aquelle aviamento, sem o qual a extracção da fecula seria inexequivel. <<Tantas raizes perdidas e tambem o meu trabalho ! >> pensou Freitas. Não podia-se conformar com a idéa d'aquelle prejuizo. A inacção para elle eraum crime, quando havia necessidades a prover. Se fosse possivel obter o vaso de que precisava á custa mesmo de uma fadiga de horas, se resignaria a soffrel-a, mas por maior que fosse o esforço não poderia adquiril-o com a presteza do momento. O dia seguia o curso e Freitas via pezaroso o sol descambar para o occaso, e com elle a esperança de remediar-se a falta do aviamento. Estava resolvido a perder as raizes quando teve uma idéa que julgou salvar a situação : havia uma casa proxima, a do enforcado, e n'ella aviamentos de farinha. Dois kilometros era a distancia a vencer, e sem mais reflectir o fazendeiro pôz-se a caminho. Josepha não tirava os olhos da tulha de raizes. A partida do marido convenceu-a de que elle havia resolvido as difficuldades, e pezarosa esperava que elle voltasse. Freitas fez a viagem com incrivel rapidez. Sua mulher ainda se conservava na mesma posição fitando a mucuna, quando elle assomou na extremidade da varzea. Vinha com passo firme, apesar da carga que trazia ás costas. Achára o indispensavel á fari-
nhada, um grande côcho de mulungú, que na casa de farinha abandonada servira outr'ora nos dias festivos da desmancha para aparar a manipoeira, que corria da prensa. O côcho tinha uma capacidade de duzentos litros. O fazendeiro alijou a carga perto do kiosque е entrou no rancho. A familia ia tomar a segunda refeição de mingau, uma papa sadia e nutritiva, mas á custa só da qual não se podia viver. Uma alimentação aquella que, embora copiosa, não dispensava o organismo de gastar as reservas reparando as perdas dos tecidos. Assim em breve estariam inanidos e morreriam á mingoa de alimentos plasticos. Os conhecimentos de Freitas eram resumidos, nada sabia de physiologia. Para elle a vida se mantinha á custa de qualquer alimentação. Pensando assim, a mucună era a mais util de todas as plantas indigenas . Tudo preparado para a extracção da fecula, Freitas deu começo ao trabalho. As raizes seriam primeiramente reduzidas a massa, o que fez com muita intelligencia e facilidade machucando-as a cacete sobre um plano de pedra. Em pouco tempo estava concluido o primeiro processo. As fibras vegetaes foram depois lavadas e as lavagens postas no côcho, afim de se depositar a fecula em suspensão n'agua. O vaso transbordava de um liquido vermelho, côr que lhe havia communicado um principio córante da raiz. O fazendeiro deu por concluida a tarefa, deixando as outras lavagens da fecula para o sol vindouro. :
O dia findava-se, as ondulações crepusculares esmoreciam nas cristas dos outeiros, e as sombras, se elevando da terra, em breve dominariam tudo. Freitas estava morto de somno. A claridade baça do pôr do sol e a mornidão da natureza quasi n'um desmaio, incitavam o descanço, a quietação. O fazendeiro quasi não podia suspender as palpebras. A necessidade que tinha de dormir era invencivel. Aos coxillos e tropeções preparou lenha para a fogueira e voltando ao rancho disse á mulher : -Vou dormir. Tu ficarás de guarda; á meia noite me acorda.
IX Josepha cumpriu fielmente a ordem do marido. Sentada na rêde, de onde só levantava-se para atiçar o fogo, rezava com um grande rosario de contas de côco. Freitas dormia a somno solto. Duas noites de vigilia e um dia de pesada lida tinham-no amarrotado. Ámeia noite pouco mais oumenos, Josepha despertou o marido com muito trabalho. O fazendeiro parecia em syncope, tão profundo era o somno. Ouvia a mulher chamal-o, comprehendia a necessidade de acordar, mas tão agradavel era-lhe a quietação do leito, tão salutar o descanço aos membros fatigados, que foi preciso grande esforço para se erguer da rêde. Finalmente, depois de alguns sacalões, Freitas levantou-se gemendo de somno,
e a mulher rendida da sentinella deitou-se immediatamente para dormir. O silencio dominava tudo ; apenas de vez em quando ouvia-se a aragem da madrugada farfalhar nos verdes leques das carnahubeiras. O fazendeiro acocorado junto ao fogo, ainda somnolento, olhava os tições roídos pela labareda, cavando o passado. Pensava na fortuna perdida e na sorte dos filhos. A secca e a emigração trouxeram-lhe mui logicamente a idéa da mucună. Rediviva ella, Freitas levantou-se e foi ter ao côcho. Todas as materias solidas estavam depositadas. A claridade da fogueira deixava vêr a agua ligeiramente córada de rosa . O fazendeiro para ganhar tempo decantou o liquido e ficou surprehendido da quantidade de sedimento. Uma massa côr de carne enchia mais de metade do côcho ; era a gomma de mucună ainda imprestavel aos usos da vida, porque só havia sido lavada uma vez e deveria sel-o nove, afim de se despojar nas repetidas lavagens do principio venenoso associado á fecula. Era necessario nova agua e antes de amanhecer seria impossivel carregal-a. Freitas esperava a manhã passeiando em derredor do rancho tonificando os musculos com as libações sadias, que os pulmões faziam do puro ar do campo. Sentia-se alentar com aquellas inspirações, inspirações tão profundas que chegavam-lhe até ás ultimas ramificações bronchicas. Tinha restaurado as forças gastas pela lida e vigilia.
O fazendeiro continuava a pensar no passado, quando a viração do norte traz-lhe, entre outros sons, um que devéras o impressionou: era o tilintar de chocalhos. Todo ouvidos ao rumo de onde vinham as ondulações sonoras, percebia outros sons, e novos horisontes mentalmente descortinava. A idéa de um comboio associou-se logo á da volta de Ignacio da Paixão. Era possivel ser elle o comboieiro arranchado alli com os viveres comprados em Fortaleza. Convencido da possibilidade de se encontrar com o primo, prestava toda a attenção aos rumores que o vento trazia. O tilintar dos chocalhos se misturava agora ao som de uma confusa vozeria alternado com o echo de gemidos e prantos. As ondas sonoras vibravam n'aquelle meio elastico em uma confusão de barathro, impossivel de diapasão. Freitas pretendia ouvir o tinir de ferros em renhida lucta. Ignacio da Paixão sem duvida estava sendo atacado pelos famintos e corria perigo o pão da familia. Cumpria-lhe o dever de ir em soccorro, e, despertando a mulher e filha, deixou-as de guarda ao rancho e partiu de terçado em punho para o logar onde lhe parecia travado o conflicto. Seguia para o extremo da varzea ao norte. A lua já pendida para o poente alumiava com feixes de argentina luz a natureza completamente adormecida. Freitas ia com pressa. A vozeria tornava-se mais audivel e os sons cada vez mais distinctos ; percebiam-se já as palavras, umas de supplica, outras de ameaça.
O fazendeiro poucos minutos gastou para lá chegar e se inteirar de tudo. Uma grande área coalhada de famintos de todas as idades e soffrendo o supplicio de Tantalo foi o que Freitas encontrou. Mais de mil infelizes magros e esfarrapados, cercando a distancia um comboio de viveres, pediam aos comboieiros punhados de farinha para matar a fome. O fazendeiro condoído dos desgraçados indagou d'elles o que faziam alli. Disseram-lhe que esperavam que o freteiro se compadecesse d'elles e distribuisse ao menos uma sacca de farinha das vinte do governo que levava para o interior da provincia ; que o freteiro os tinha já maltratado esmurrando alguns, mas que a fome os prendia áquelle sitio. O fazendeiro espreitou o comboio e ficou convencido de que os generos, eram do governo ; as saccas tinham a marca S. P. (soccorros publicos) ; eram tres os freteiros, e pelas palavras e gestos estavam dispostos a levar os retirantes a murro e a ferro . Freitas pensava no desenlace d'aquella scena já a poucos metros dos freteiros, quando uma retirante se aproxima d'estes e de joelhos apresenta o filho, uma creancinha a expirar de fome, e pede um pouco de farinha pelo amor de Deus. Uma bofetada tremenda dada por um dos comboieiros fal-a rolar no chão por cima do filho. Freitas, indignado com aquelle acto de barbaria, decide-se pelos infelizes e se prepara para luctar. Entre todos aquelles retirantes muito poucos encontra
ria com forças para auxilial-o ; sem contar muito com o valor d'elles vai á matta proxima e volta armado de cacete e terçado. O freteiro vociferava contra os famintos ameaçando de leval-os á faca se persistissem em matar a fome com os generos do governo. Freitas não esteve pelas ameaças, e, atravessando a turbamulta, põe-se rosto a rosto com os freteiros e pergunta-lhes : Com que direito esmurram estes infelizes? Os comboieiros surprehendidos com a ousadia de Freitas e com sua attitude energica e ameaçadora, desembainham as facas, e responde-lhe o patrão quasi convencido da derrota do fazendeiro : Não espanco ninguem, garanto è defendo os viveres, que me foram entregues e pelos quaes sou responsavel. As palavras de Freitas acordaram nos famintos um resto de energia, um ultimo esforço da vontade, e a onda de creaturas immoveis e supplices moveuse na direcção dos contendores. A multidão se evolucionava, seguia movida unicamente pelo instincto da conservação. Todos avançavam tendo em mira a farinha defendida pelos comboieiros. Os mais fortes vociferavam contra os freteiros; os mais fracos os seguiam tambem, mas de gatinhas ou de rastos como reptis. Depois de uma marcha de minutos, uma confusão infrene, como se delirio famelico houvesse accommettido a todos e allucinado, tornava mais revolta a onda dos famintos, que se movia sempre
ao som de gritos, gemidos e prantos. Em crescente allucinação seguiam, acotovelando-se ; os que sem forças cahiam, morriam pisados ou asphyxiados em uma atmosphera quasi solida, quasi poeira. O fazendeiro comprehendeu o perigo que os ameaçava. A sua voz havia levantado um exercito de esfomeados, que uma vez em operação ninguem mais immobilisaria. Não viam senão o alimento e não ouviam palavras que não fossem estas : avancemos á farinha, que é do rei e tambem nossa- . Freitas, receioso de ser envolvido na onda e obrigado depois, para salvar-se, a abrir caminho com o terçado, dispoz-se a ultimar com o freteiro as suas negociações : O perigo está imminente ; se prezam a vida abandonem o campo. Miseravel, amotinaste o povo e agora me aconselhas a fuga, disse o patrão n'um impeto de colera, se lançando com os companheiros sobre o fazendeiro para feril-o. Freitas, que jogava cacete com muita destreza e arte, esperou a aggressão e antes de alcançarem-no as facas dos comboieiros, como uma intimação ao dono do comboio desarmou-o com um golpe n'um abrir e fechar de olhos. Aquelle acto de bravura intimidou os freteiros, que, temendo mais a colera e o terçado de Freitas do que o prejuizo de metade do frete dos viveres, cederam o campo já á ultima hora, quando as bestas de carga, que perto do rancho comiam a ração de alfafa, espantadas com o motim e medrosas
do cêrco que mais e mais se apertava, dispararam de varzea fóra. A carreira dos animaes foi um desastre para a multidão que se agrupava em derredor do rancho. As bestas perseguidas pelos freteiros corriam desembestadas deixando na massa compacta de famintos um grande claro. Dezenas de infelizes, com os membros fracturados pelas patas dos animaes, rolavam no chão estorcendo-se em dôres atrozes. Manoel de Freitas, surprehendido com o triste incidente e vendo que o cêrco não tardava a se restabelecer, sahiu pelo caminho que as bestas tinham aberto. Custava-lhe supportar o cheiro que sahia dos famintos. Aquella atmosphera era quasi irrespiravel. Antes do fazendeiro vencer o acampamento, era o rancho invadido pelos famintos. Uma algazarra horrivel ouvia-se e era repercutida ao longe pelos mais proximos outeiros. Travou-se uma lucta tremenda, uma briga de feras esfomeadas sobre um minguado repasto. Os viveres seriam dos mais fortes e não dos mais necessitados. Os que podiam aggredir eram em muito pequeno numero. Tomaram conta das saccas, que abriram, e começou a lucta. Os mais esfomeados precipitavamse sobre a farinha com uma gula e teimosia para as quaes não havia opposição possivel. Eram repellidos a empuxões, a murros ; cahiam, mas voltavam de gatinhas gemendo ou praguejando. Não havia meio de debandal-os. Os que sustentavam apeleja não tardariam a enfraquecer, pois os fracos eram cem vezes
mais. As turmas de famintos augmentavam e a confusão crescia sempre. A victoria seria do mais forte, e entre os que defendiam os viveres travou-se uma lucta, mas uma lucta impossivel de termo. Pelejavam corpo a corpo. Não se ouvia o tinir de um ferro, mas percebia-se que as carnes dos luctadores eram rasgadas a dentadas. Emquanto os contendores rolavam no chão ennovelados n'um amplexo fratricida, o sitio foi invadido pela onda que avançava sempre, e com uma gula difficil de descrever comiam a farinha a mãos cheias. Freitas observava compungido aquella lucta pela existencia. Lembrou-se ainda de pôr termo a ella, mas como, se no delirio famelico embota-se o senso intimo e homem fica reduzido a bruto, a animal carnivoro, e que se vê faminto ? Havia alli uma multidão de homens em tudo semelhantes a uma manada de porcos esfomeados a disputar o maior quinhão da ceva. Manoel de Freitas deixou-os e voltou ao rancho. A luz crepuscular em ondulações suaves chegava á terra. No oriente alguns nimbos azues franjavam-se de ouro, precediam o sol, que não tardaria a assomar com o seu disco luminoso.
O fazendeiro entrou no kiosque. Reinava alli a paz da vida tranquilla. As creanças dormiam ainda. Freitas olhou-as com ternura e foi cuidar da mucunã. Era preciso agua para lavar ainda oito vezes o sedimento ; tomando as borrachas seguiu para a fonte. Todo esse dia gastou elle em carregar agua para as lavagens da fecula. Ao pôr do sol tinha concluido o
trabalho . A substancia alimenticia extrahida da mucună, depois de lavada nove vezes, ficou depositada no fundo do côcho sob a fórma de uma massa côr de rosa. No outro dia seria secca ao sol e então utilisada como alimento . A noite passou-se sem incidentes. Pela manhã o fazendeiro, depois da refeição de mingau e de ordenar á mulher que pozesse a gomma a seccar, sahiu a explorar a varzea. Os acontecimentos da madrugada pintaram-se-lhe na imaginação, e elle se dirigiu ao rancho dos freteiros do governo. Consummava-se alli o drama da fome. Na arena da lucta mais de trinta cadaveres apodreciam ao sol e serviam de repasto a centenas de urubús, que, em lugubre crocitar cevavam-se n'aquelle repasto de podridão. Nem um fragmento de farinha misturado á argilla do sólo ! Freitas olhou compungido para os restos mortaes das victimas da fome e continuou o seu caminho. Andou por toda a varzea, passou por quasi todos os ranchos e nada viu entre os retirantes que denotasse pezar pela morte dos parentes ou companheiros. O fazendeiro entrou na matta, na esperança de encontrar alguma caça, carne de algum animal de sangue vermelho que restaurasse-lhe as forças depauperadas pela alimentação de gomma. Não sabia que o homem não póde viver se alimentando exclusivamente de carne, assucar ou gomma, mas por instincto procurava carne para comer, como sentindo que ella estava fazendo-lhe falta ás funcções e conserva8
ção dos orgãos. Errou pela matta e nada encontrou para se alimentar. Despovoada e solitaria, tinha ella um aspecto desolador. Nem um insecto, uma revoada dos verdes papagaios, que cantarolavam outr'ora pousados nas frondes das palmeiras. O pastio torrado parecia ter sido lavado por uma inundação de lavas e tinha agora ares de uma solfatára. Ao tronco das arvores o vento havia encostado medas de capim sêcco . O sol tostára tudo ! A terra coberta de uma floresta de esqueletos, com os tons da tristeza, vestiase de uma expressão lutuosa e desoladora, e além o seu perfil sombrio esbatia-se na transparencia do firmamento azul, todo nú e sereno, como a superficie de um lago tranquillo. Nem um vivente n'aquelle sitio ! As proprias aranhas caranguejeiras recolhidas ás tocas morriam de fome, não sahiam mais a caçar os insectos, que tinham morrido ou emigrado. Cançado de vêr tantas tristezas, Freitas voltou á varzea. Antes, porém, de sahir da matta, foi surprehendido com estas palavras : Passageiro , soccorrei-nos pelo amor de Deus. O fazendeiro parou immediatamente e procurou quem lhe fallava. Á direita, por traz de um tufo de cactaceas, viu um rancho de retirantes e para lá seguiu : um casal de emigrantes com seis filhos, todos menores , tostados do sol e magros, fugiam da sêcca, quando alli uma desgraça sem nome surprehendeu-os e fêl-os parar. O chefe da familia, percebendo que Freitas se aproximava, ajoelhou-se e com as mãos supplices a elle se dirigiu :
: -Valha-nos pelo amor de Deus, irmão. -Levante-se, meu filho, disse-lhe o fazendeiro pegando-lhe no braço e fazendo-o levantar. O que deseja de mim? -É mui grande a nossa infelicidade, meu bom senhor. Ha tres dias chegamos aqui e nos arranchamos. Iamos para a capital afim de escapar da fome. No primeiro dia de rancho passamos sem comer nada ; no segundo dia era quasi ao pôr do sol e os meninos desde manhã que choravam com fome ; afflicto, quasi desesperado com o soffrimento d'elles sahi procurando com que alimental-os, e aqui bem perto do rancho encontrei uma plantatrepadeira muito delicada, com a rama verde e em flôr, vivendo bem n'esta sequidão e á sombra de um balseiro de macambira. Em nada pensei : atirei-me a ella com sofreguidão para arrancar-lhe as folhas e leval-as ao rancho para a familia comer. A um dos cipós veio agarrado um pedaço de batata. Alegrei-me, abria-se uma fonte de recursos naturaes que nos garantiria a vida. Escarnei a terra com as unhas, e tirei todas as batatas sentindo no meu estomago a fome de todos os meus filhos. Chegando ao rancho não perdemos tempo em cozinhal-as e comel-as. Sua massa era côr de carne, o sabor suave e adocicado, e os tecidos de uma macieza que muito agradava o paladar. Comemos até a saciedade. Á noite dormimos sem incommodo algum. Nenhum de nós suspeitava que na doçura do alimento, que tomamos, se mascarasse o mais horrido veneno. Acordamos pela manhã e já a mim e a alguns de *
meus filhos não foi permittido mais vêr a luz do dia ! Quasi enlouqueci ! Chamei minha mulher em meu soccorro, mas ella, tão desgraçada como eu, não me ouvia : estava muda e surda ! Dos filhos, o menor estava paralytico ; emfim não havia um de nós que não tivesse perdido um dos sentidos ! Agora, senhor, que a historia de nossa desgraça não lhe é estranha, deixe que lhe supplique piedade para estes innocentes. Leve-nos ao primeiro povoado, que fica d'aqui a cinco leguas, e ahi nos deixe entregues á caridade publica. Compadeça-se d'estas creanças nascidas e acostumadas aos gozos da abastança e que pela primeira vez sentem o frio da desgraça ! -Eu os levarei commigo, meus filhos ; podem crêr que os não abandonarei. O fazendeiro conduziu o cego com a familia ao rancho, seriamente preoccupado com tão horrendo facto. Aquelle acontecimento, entretanto, não lhe era estranho ; crescera ouvindo o pae contar factos estupendos e semelhantes, episodios contristadores durante as fomes de que fôra contemporaneo. Em sua cidade natal conhecera duas mulheres, já velhas, uma cega e a outra muda e surda, que haviam perdido aquelles sentidos na secca de 1825, depois da refeição de umas batatas tambem vermelhas e vivazes. Não havia duvida que era um vegetal semelhante, e cuja acção se fazia directamente sobre os centros nervosos ; talvez um grande agente therapeutico para combater as nevroses até hoje incuraveis . Freitas, chegando com os hospedes ao rancho, deu1
lhes todo o agasalho que lhe permittiam seus recur SOS. Ás seis horas da tarde o fazendeiro preparou a fogueira, e com a familia e hospedes se recolheram ás rêdes para dormir algumas horas. Á meia noite em ponto Freitas acordou e deu signal de partida. Difficil foi despertar as creanças, que, somnolentas, se levantavam e tornavam a cahir no leito. Depois de algum trabalho conseguiram pôr a caravana a caminho em rumo do norte. Na mais proxima cidade, a cinco leguas da Varzea do Meio, devia fazer ella estação.
X A caravana chegou ás portas da cidade ao clarear do dia. A estrada estava deserta ; nem um passageiro encontravam e não ouviam o trinar de uma ave. As arvores despidas de folhas, reduzidas aos esqueletos, enfileiradas nas orlas do caminho, parecia que abriam alas a um prestito funebre. A briza que ciciava não trazia um perfume : movia uma nuvem de pó impalpavel que atirava aos olhos dos viandantes, ou na inspiração levava aos bronchios e irritava-os. A ala esquerda dos vegetaes foi rareando até deixar na linha um grande claro. Esta parte da avenida cortava um dos flancos da cidade, edificada em terreno muito accidentado e composto de rochas de argilla.
A luz já permittia apreciar a tortuosidade das ruas, todas de casas terreas e de taipa. Os telhados ennegrecidos pelo tempo serviam de tela ás poucas frentes caiadas que se destacavam d'aquelle panorama côr de barro. Os passeios das casas acompanhavam' as sinuosidades das ruas, fazendo uma curva em cada esquina, que era marcada por um esteio de aroeira fincado abaixo do cordão da calçada. No centro destacava-se um edificio, cujas fórmas brancas tornavam mais saliente a côr azul do céo : era amatriz, que, edificada contra as leis da architectura moderna, tinha o cunho portuguez, e, documento do estylo, attestava a arte lusitana de pouco mais de um seculo . Uma pesada massa de alvenaria formando um quadrilongo enfrentado por duas torres e um frontispicio triangular, tendo no vertice do angulo superior uma cruz de ferro, eis o templo. No centro do triangulo, que era decorado com uma sanefa azul, via-se um quadro em relevo e muito original : uma personagem biblica, o anjo do sacrificio, cujo esboço havia sido feito pelo cura de então e dado ao esculptor, que em esthetica com elle podia correr parelhas. Da ignorancia das regras d'arte resultou a originalidade do quadro ; o anjo do sacrificio manifestava perfeita discrepancia nas proporções do thorax e membros superiores e inferiores. As enormes azas de corvo presas em parte na tunica branca estiraçada pelo volume de um abdomen obeso, faziam contraste com os braços, cujo humero tinha mais de duas vezes o comprimento do antebraço. As mãos
terminavam-se, uma por cinco e outra por seis dedos, todos iguaes, segurando um calice, que em attitude supplice o anjo offerecia ao céo, mas seu olhar estrabico não correspondia á postura e muito menos aos traços physionomicos, que reunidos davam ao rosto uma expressão de ferocidade perceptivel á primeira vista. Manoel de Freitas, logo que avistou a matriz, encaminhou para lá a caravana. A cidade tinha um aspecto lugubre ! As portas estavam fechadas e nos passeios das casas dormiam ainda os infelizes, que a fome fizera emigrar. No trajecto até á igreja encontraram dezenas de corpos estirados a fio comprido nas calçadas, avassallados pelo somno ou vencidos pela fome. Freitas, chegando ao adro da matriz, prostrou-se com os companheiros diante do cruzeiro e depois oraram por algum tempo. Levantaram-se e o fazendeiro ficou surprehendido vendo tanta miseria alli reunida. A turma dos famintos começava-se a mover-se. Havia n'ella creaturas de todas as idades. A magreza de todos era extrema ! Não se via um rosto que não fosse uma caveira, um corpo que não fosse um esqueleto ! Era dia, mas ainda era aluz crepuscular que em ondulações suaves se transmittia ao ether e alumiava a terra. A maioria dos famintos sentada no adro esperava raios mais vivos do sol, que impressionando The mais a retina dissipassem a cegueira nocturna, a hemeralopia.
Voltados para o oriente affligia vêl-os de olhos extremamente abertos, as pupillas muito dilatadas a esperar a luz, a luz que em excesso e reflectida por superficies brilhantes cegou-os, impossibilitou a retina de funccionar quando na terra ha pouca claridade. N'aquella onda maltrapilha e esfomeada, que revolvia-se como os vermes da podridão, havia dôres cruciantes, mas que não podiam ser todas percebidas ; não havia n'elles mais sensibilidade moral para avalial-as . O senso intimo havia-se embotado e com elle a maioria das faculdades d'alma. As mães aleitavam os filhos ou fingiam aleital-os, pois os murchos peitos nem mais uma gotta vertiam. As mamas reduzidas a pelangas, presas nas costellas, com os mamillões atrophiados, assim mesmo eram sugadas pelas creanças com uma avidez famelica ! Os vagidos dos filhos desalentados por não encontrarem uma gotta de leite irritava-as em vez de commovel-as ; irritava-as a mamadura anormal, porque produzia-lhes um frenesi que as desesperava e que em parte era excitado pela presença do sangue, um sangue côr de salmoira, sahido dos orificios dos mamillões e que tingia os labios dos pequeninos . As mães não têm mais uma lagrima para lastimar os filhos ; avaras de sangue que elles tiravamlhes dos magros seios, arrancavam-lhes com impeto feroz da boca o murcho peito como se desarmassem um assassino que tentasse contra a existencia d'ellas ! O sol chegava e nem por isso a luz reanimava-os !
Apenas a dilatação das pupillas permittia a entrada de maior somma de raios luminosos, a impressão mais viva da retina e portanto a dissipação da cegueira, que voltaria de novo quando o sol esconderse no horisonte. A luz vinha, mas não podia tonificar-lhes os musculos depauperados pela inanição, relaxados pela atonia, pela fome ! Nas physionomias macilentas percebiam-se as torturas impostas pela profunda dyscrasia do sangue. A miseria e os dias de jejum gastaram as reservas nutritivas accumuladas no organismo, comeram os globulos vermelhos do sangue, e, uma vez desapparecidos estes da corrente da circulação, o liquido nutritivo desfibrinado perdera uma das qualidades mecanicas, a densidade, e a vida tornou-se penosa e afflictiva. O apparelho digestivo redobrava de esforços, gastava as forças em digerir a mucuna e outras raizes silvestres, para depois assimilar algumas grammas de um producto pouco alimenticio e ás vezes venenoso. Os famintos foram pouco a pouco se levantando do adro da igreja. Os seus movimentos eram morosos. Os musculos tinham perdido a agilidade, a força, tornando assim difficil a locomoção. Não era sómente o abatimento muscular que os privava de caminhar depressa, era o desfallecimento que sentiam estando mesmo em repouso. Caminhavam, mas com que sacrificio ?! Quanto lhes custava procurar as migalhas que lhes prolongariam um pouco aquella vida de miserias, de afflicções ?! A marcha era vagorosa, e
ainda assim uma respiração offegante lhes dilatava as narinas, o thorax crescia e diminuia de volume mais de trinta vezes em um minuto, augmentandolhes a fadiga, desalentando-os mais ! N'aquelles organismos a desordem era completa. O coração, que a pouca densidade do sangue, a abundancia de leucocytos tornára irregular e tumultuoso, os affligia com soffrimentos atrozes. A systole e diastole eram incompletas, accelerados os movimentos do motor da circulação, as valvulas funccionando mal, deixavam refluir em parte a onda sanguinea, já bastante reduzida, determinando a anemia do cerebro, causando vertigens, fortes zumbidos nos ouvidos, que os flagellava a todos os instantes. Por cumulo de infelicidade não era pequeno o numero de infelizes que se aproximavam do termo da cruel jornada. A anasarca, consequencia immediata d'aquella vida de fome, chegava como a ultima tortura. Entre os famintos conheciam-se os enfermos d'aquella molestia pelo aspecto ainda mais triste e doentio das physionomias. Marchavam com passo lento, pois os membros inferiores infiltrados pesavam como chumbo, e ainda por excesso de carga sustentavam um abdomen obeso, mas obeso d'agua, que em tempo deixou de ser eliminada . E como era repugnante o aspecto da pelle dos famintos ! As funcções da epiderme profundamente alteradas modificavam as qualidades physicas do involucro cutaneo, tornando-se improficuo contra aquelle estado physiologico o maior asseio. A pelle, de lisa
que era, se tornára aspera e suja ; desaggregavam-se escharas de tamanho irregular, ao mesmo tempo que uma secreção fetida distillavam os póros ! Áproporção que no adro da igreja moviam-se os retirantes, mais se impressionava o olfato com o mau cheiro que exalavam seus corpos sujos e vestidos de nojentos trapos. Freitas, pasmado diante do quadro que tinha á vista, deixou a matriz e foi com os companheiros procurar a commissão de soccorros publicos.
XI Manoel de Freitas não precisou que lhe dissessem onde era a commissão de soccorros publicos. Seguiu com a caravana acompanhando o lento caminhar do prestito da miseria. Mais de trinta minutos levaram para vencer uma distancia de cem metros. As portas das casas começavam a se abrir e os habitantes ainda somnolentos olhavam com indifferença o cortejo de mendigos que pelas ruas desfilava. Um pouco mais nutridos do que os retirantes, comtudo os seus rostos, de uma côr mortiça, attestavam de um modo vehemente a pobreza da mesa. Muito raros eram os que tinham physionomia sadia. A turba dos famintos parou em frente á casa do vigario, que, embora fosse uma das habitações melhores da cidade, comtudo não se podia dizer confor-
tavel. Os retirantes ahi fizeram alto e sentaram-se na rua esperando que se distribuisse a ração. A sua impaciencia percebia-se em todas as linhas do rosto. A fome roía-lhes o estomago, que não podia-se habituar com tão grande jejum. Uma febre nervosa exasperava-os sem comtudo se denunciar pela temperatura da epiderme, que profundamente alterada se conservava fria. O calor do sol não os aquecia, nem uma gotta de suor eliminavam os póros ; os liquidos se accumulavam como elemento necessario a um estado morbido que se accentuava . Eram já nove horas da manhã e a ração não chegava. Os famintos resignavam-se com a demora, porque não tinham forças para reagir. Gemiam, suspiravam, porém não blasphemavam. As lagrimas ou haviam seccado, ou desviadas de seu curso seguiam caminho diverso. De quando em vez os mais esfomeados erguiam-se e olhavam de esguelha para a sala do padre. O cura se conservava sentado a lêr o breviario. Sentavam-se outra vez e procuravam illudir a fome roendo as unhas ou comendo as escharas, que se desaggregavam da epiderme . Manoel de Freitas, que havia mais de tres horas esperava que o vigario distribuisse os soccorros publicos, foi-se impacientando e guiou a caravana á porta do cura. A obesa figura do padre fazia um contraste perfeito com a magreza dos retirantes. Repotreado em uma cadeira de braços de espaldar de sola, lia com muita calma. Nas pausas da leitura lançava um
olhar de piedade para um crucifixo, que a poucos passos pendia da parede, e, carregando depois os sobrolhos, olhava de soslaio os retirantes que o espreitavam. Freitas havia chegado á porta precisamente quando o cura concluia um periodo. Christo teve, como das outras vezes, um olhar supplice e terno, e o fazendeiro recebeu uma olhadella de tedio e reprehensão . Freitas não desacoroçoou e continuou de pé impedindo um pouco a luz, que penetrava na sala sómente pela porta em que se havia postado. O fazendeiro esperava impaciente que o padre o fitasse outra vez para dirigir-lhe a palavra ; mas embalde, as paginas do breviario não tinham mais pontuação. Sabia que elle continuava a lêr, porque de quando em vez a mão gorda e cabelluda até ás phalangetas volvia as folhas do livro e com tanta preguiça, que deixava distinguir os caracteres vermelhos dos pretos . Eram já dez horas e não havia esperança de termo á leitura e nem de um periodo com ponto. Freitas não se conteve e adiantou-se para o sacerdote. Mal a sombra do fazendeiro lança na penumbra o corpo obeso do cura, este marcando o breviario com o index, olha-o com severidade e desdem, dizendo-lhe ao mesmo tempo : -Entrou, perdeu a ração. E depois de olhar com piedade o crucifixo continuou a lêr.
Sou passageiro, senhor ; trago em minha caravana uma familia de cegos que encontrei a morrer de fome nos caminhos, e desejava deixal-a debaixo da protecção de v. rev.ma, disse Freitas. O vigario fez que não ouvia e continuou a lêr. O fazendeiro, exasperado com a indifferença do padre, teve impetos de arrancar-lhe o livro da mão e obrigal-o a attendel-o. Conteve-se, e resignado esperou o desfecho d'aquella entrevista. Meia hora ainda levou o padre a lêr ; depois levantou-se, poz as mãos sobre o peito, fitou com humildade o crucifixo e persignou-se com recolhimento. Freitas olhou -o com attenção, e antes de fallarlhe diz-lhe o sacerdote : Serva te ipsum! Caritas super omnia. A resposta adequada de Freitas e no mesmo idioma fez voltar o vigario, que havia-se encaminhado para o interior da casa. Serva te ipsum, repito, meu filho, conduze sem demora a tua caravana a porto seguro antes que ella seja sepultada nas estradas desertas. E entrou para o interior da casa. Freitas ouviu as palavras do vigario ditas em tom prophetico e incorporou-se aos companheiros. Minutos depois voltava o cura trazendo ás costas uma sacca de farinha, que encostou á porta da entrada. Um frenesi indescriptivel contaminou em um instante os famintos. Nenhum sahiu de seu logar, mas
movimentos desordenados agitavam-lhes os membros. Moviam os labios, lambiam os beiços, coçavam-se, roíam as unhas, mastigavam a saliva, arregalavam os olhos, moviam o nariz como os coelhos, emfim uma excitação nervosa determinada pela presença do alimento tornava-lhes a razão dependente da animalidade, que sómente os dominava. Freitas ficava alli desejoso de vêr o fim d'aquella scena. O vigario, depois de ter collocado a sacca de farinha em posição de ser aberta, levou parajunto d'ella a sua cadeira de espaldar, sentou-se e tirou do bolso da batina uma chicara pequena e uma folha de papel escripta a lapis. O frenesi dos famintos quasi chegou ao delirio. Os membros thoracicos e os musculos do rosto em movimentos desordenados pareciam executar a dança de S. Guido. O vigario olhou-os com severidade e disse-lhes : -Aquietem-se ! e abriu a folha de papel, dobrada em fórma de requerimento, e já bastante manchada de gordura e pó. N'ella estava escripta a relação dos chefes d'aquellas malaventuradas familias. O cura começou a chamada e a distribuição com preguiça e calma. Uma chicara de farinha dava a cada faminto adulto e meia ás creanças. A ração era alli mesmo devorada com uma esfomeação que commovia ! Muitos ingeriam-na com tal avidez que não davam tempo á saliva humedecer o *
bolo alimenticio, que, penetrando fóra de tempo na pharynge, encontrava a glotte mal fechada e determinava um accesso de tosse violento e suffocante. Parte do bolo era rejeitado e sahia pelas fossas nasaes e bôca, misturando-se á areia. Avaros das migalhas cahidas no pó, apanhavam-nas uma por uma e ingeriam-nas de novo cobertas de terra . Distribuidas as rações, o vigario disse aos retirantes : Vão agora para a matta procurar a vida ; ainda ha muita mucună na beira do rio. Os soccorros que manda o rei, eu já tenho dito, meus filhos, são para os pobres d'aqui e não para os que vêm de fóra. Esta pratica fazia o vigario todos os dias quando concluia a distribuição dos soccorros . Freitas não se animou a pedir um grão de farinha e nem o padre se lembrou de dar-lh'a. Pediu sómente para ser incluido na relação o nome do chefe da familia de cegos, o que obteve. O fazendeiro deixou a essa mesma hora a cidade ouvindo ainda do vigario como despedida : Serva te ipsum.
XII Havia seis dias que a caravana havia deixado a cidade. Durante esse tempo nenhum incidente interrompeu a viagem, que continuava a ser de pouco mais de vinte kilometros por dia. Todos estavam magros e tostados do sol. Freitas havia encanecido mais ; os cabellos brancos tinham duplicado em duas semanas . Josepha estava resignada ; a esperança do proximo termo da viagem e as orações a todos os instantes tinham-na armado um pouco contra a adversidade. Beata por indole, e em face de difficuldades imprevistas, o seu espirito voltava-se para o céo pedindo soccorro e não seria impossivel que se declarasse uma monomania religiosa, e ella começasse a conversar com mysticas visões. Carolina era dos peregrinos a que mais soffria.
A natureza a creára muito fraca para aquellas vicissitudes. A refracção da luz nos areaes molestavalhe os olhos a ponto de se fecharem lacrimosos. O pó das estradas, que o vento levantava em nuvens espessas, irritava-lhe os bronchios, produzia-lhe uma titillação na pharynge, titillação que provocava uma tosse sêcca e importuna. As noites eram para ella de pesadelos e vigilias. O leito e o dormitorio eram muito rudes para a delicadeza de suas fórmas, de sua sensibilidade moral. Desde que sahira de casa nunca mais tivera um somno tranquillo . As creanças tinham tambem um ar doentio. Nos rostos accentuava-se a cor mortiça dos estados morbidos. Tinham os malleolos infiltrados e a pelle já se ia tornando aspera. Dos viandantes só Freitas e a mulher gozavam mais ou menos saude. Todos cançados da penosa jornada almejavam o porto do destino. Já não estava longe. Seis dias e algumas horas depois que deixaram a cidade chegavam á povoação de Arronches e avistavam ao longe as alvas torres da matriz da Fortaleza. A natureza era mais sadia ; cajueiros seculares bracejavam opulentamente enfolhados, formando massiços de verdura, a cuja sombra se abrigavam os retirantes que viviam dos soccorros publicos. Circulando a antiga villa alguns abarracamentos que regorgitavam tambem de famintos. Abarracados ou não, era a sua vida de miserias, humilhações e doenças.
A povoação era pequena ; duas ruas calçadas de seixos formando um T, uma igreja ainda construida pelos padres da Companhia de Jesus, e uma velha casa de camara onde se reuniam os edis da antiga villa, em frente a ella um pellourinho ; eis como era Arronches. A oeste da povoação o terreno deprimia-se formando a bacia da lagoa da Porangaba, que, completamente sêcca, recebia no leito o calor de um sol abrazador, e que abria aquella enorme rocha de argilla cinzenta em extensos sulcos mais ou menos profundos. Manoel de Freitas parou com a caravana á porta de uma taverna a pedir o rumo da Fortaleza. A taverna era da tia Ignacia, octogenaria e a mais antiga creatura da povoação. Os visinhos tinham-na em boa conta e os mais cultos acatavam-na como um precioso documento historico. Conservava perfeitas as faculdades intellectuaes e uma reminiscencia feliz quanto podia ser. A sua taverna era a que tinha maior numero de freguezes, não só por contar os seus cincoenta annos de existencia, como pelo dom da proprietaria de attrahil-os com suas lendas e historias. Conhecia todos os episodios do Ceará nos ultimos setenta annos, e de muitos fallava como testemunha ocular. Havia assistido a todas as sêccas d'este seculo, e da de 1792 referia muitos factos que lhe contaram seus paes. Dizia-se descendente dos Algodões, tribu que habitava a Porangaba, e por isso tinha natural antipathia aos portuguezes. Quando referia-se aos governadores da capitania, espe-
cialmente a Robim, seus olhos faiscavam de cólera. Freitas chegou á porta da taverna, que estava repleta de freguezes, uns a comprar e outros a palestrar. O Cachimbo, artista funileiro, bebado por indole e figura obrigada das ruas de Arronches, escarrapachado em um canto sobre um feixe de lenha, de quando em vez com uma risada epileptica, mais desconcertada do que o zurro de um asno, interrompia a palestra. Um dos palradores aproximava-se d'elle e ameaçava-o com o punho cerrado. Continuava a animar-se a conversação, a aguardente corria a roda, quando interrompia a tagarellice, não a risada do Cachimbo, mas um bemdito cantado á queima-roupa pela S. Damiana, idiota que se cria santa e não se alimentava de comida que tivesse padecido morte, mas bebia aguardente como um cassaco. Davam-lhe caxaça, e emquanto o alcool aquecia-lhe a garganta, os tagarellas fallavam sem interrupção. A palestra attingia o maximo da animação. A tia Ignacia toda ouvidos, encostada ao balcão, archivava mais aquelle caso para contar nas horas vagas aos freguezes. Todos reunidos em um grupo cercavam e escutavam a creada do sub-delegado, que a meia voz contava um facto, que ouvira por bôcas pequenas em casa do amo. O Cachimbo não riu mais e nem a S. Damiana cantou ; aproximaram-se tambem e curiosos escutavam a historia. Freitas entrou na taverna e com pasmo ouviu que se tratava de um crime commettido nas imme
diações da povoação. Commentavam o assassinato d'um retirante, que entrando em uma roça furtou um pau de macaxeira, e foi preso pelo lavrador, amarrado e surrado até morrer, e o cadaver enterrado no cannavial. A cozinheira do vigario, depois de ouvir a creada do sub-delegado, tomou a palavra e disse que tambem por sua casa já ouvira rosnar aquella historia, mas com uma differença : o corpo do morto foi sepultado na casa do engenho ; o que foi visto pela Quiteria do sacristão no responso que fez a Santo Antonio. Freitas ouviu a historia do crime, e vendo que os commentarios dos palradores continuavam, e sem esperança de um termo a elles, sahiu e esperou um transeunte que lhe indicasse a direcção da Fortaleza. - Siga por esta estrada de pedra que irá ter á capital, quer queira, quer não. Assim orientado, Freitas pôz-se a caminho com a caravana. Oito kilometros era a distancia a vencer. O povoamento da estrada tornava difficil o transito. N'aquella grossa arteria desembocavam os innumeros caminhos do sul e parte dos de leste e oeste da provincia. Eram nove horas do dia e desde cinco horas da manhã que o prestito de retirantes enchia o calçamento de orla a orla. A caravana de Freitas seguia incorporada á procissão. A luz intensa do sol era em parte amortecida
pela vegetação ás margens do caminho. Se os olhos não eram molestados pela refracção da luz, se a briza do mar era mais fresca que o vento do sertão, os pés, doloridos de tanto caminhar, se estropeavam de encontro ás pedras desiguaes do calçamento. Em compensação ás dôres da epiderme, que se rompia na escabrosidade dos seixos, o espirito se alentava de uma esperança, o proximo termo da viagem. As creanças e mesmo Carolina, já muito estropeadas, pediram para descançar, e Freitas mostroulhes as torres da matriz, como o proximo pharol do porto do destino ; alentaram-se e seguiram. As casas, que eram raras na estrada, começavam a se enfileirar ás margens do calçamento. As cêrcas e as moitas de manipuçás iam pouco a pouco sendo substituidas por habitações de telhas ou de palhas. Ás dez horas da manhã chegava Freitas com a caravana ás portas da Fortaleza. O fazendeiro teve pejo de entrar na cidade como retirante e procurou uma vereda que descia á esquerda, e por ella seguiu com os seus até o arrabalde da Jacarecanga. Um grande taboleiro coberto de uma vegetação rachitica e enfezada, cortado por um labyrintho de veredas estreitas e tortuosas, atravessava a caravana . A areia frouxa e movediça fugia sob os pés, duplicando a força muscular, que devia gastar a locomoção. A areia escaldava as plantas estropeadas e cobertas de ecchymoses. Freitas seguiu com a familia até encontrar a
sombra de uma arvore que os abrigasse. Um cajueiro lhe serviu de tenda : arrancharam-se. O sacco das provisões pouco mais de um litro tinha de gomma de carnahubeira, que foi gasta em um mingau para a refeição de todo aquelle dia. Á tarde, Freitas e a mulher cercaram com uma fragil paliçada de galhos de manipuçás e guajerús a sombra da arvore e fizeram uma latada, que cobriram de ramos. Assim estabelecidos esperaram o alvorecer do dia seguinte, para continuarem a lucta pela vida.
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