Universo da obra
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Nestas partes do Brasil não semeiam trigo nem se dá outro mantimento algum deste reino, o que lá se come em lugar de pão é farinha de pau: esta se faz da raiz duma planta que se chama mandioca, a qual é como inhame. E tanto que se tira de baixo da terra, está curtindo-se em água três, quatro dias, e depois de curtida pisam-na ou relam-na muito bem e espremem-na daquele sumo de tal maneira que fique bem escorrida, porque é aquela água que sai dela tão peçonhenta, que qualquer pessoa ou animal que a beber logo naquele instante morre: assim que depois de a terem deste modo curada, põem um alguidar grande sobre o fogo e como se aquenta, botam aquela mandioca nele e por espaço de meia hora está naquela quentura cozendo-se, dali a tiram, e fica temperada pera se comer. Há todavia farinha de duas maneiras: uma se chama de guerra, e outra fresca, a de guerra é muito seca, fazem-na desta maneira para durar muito e não se danar; a fresca é mais branda e tem mais sustância; finalmente que não é tão áspera como a outra, mas não dura mais que dois, três dias; como passa daqui logo se dana. Desta mesma mandioca fazem outra maneira de mantimentos, que se chamam beijus, são mui alvos e mais grossos que obréias, destes usam muito os moradores da terra porque são mais saborosos e de melhor digestão que a farinha. Outra raiz há duma planta que se chama aipim, da qual fazem uns bolos que parecem pão fresco deste reino e também se come assada como batata, de toda maneira se acha nela muito gosto. Também há na terra muito milho-zaburro, este se dá em todas as capitanias, e faz um pão muito alvo. Há nesta terra muita cópia de leite de vacas, muito arroz, fava, feijões, muitos inhames e batatas, e outros legumes que fartam muito a terra. Há muita abundância de marisco e de peixe por toda esta costa; com estes mantimentos se sustentam os moradores do Brasil sem fazerem gastos nem diminuírem nada em suas fazendas.
Leia gratuitamente Tratado da Terra do Brasil, de Pero de Magalhães Gândavo, uma das descrições fundadoras do Brasil colonial em domínio público. Edição digital preparada em HTML para leitura online no Literunico, com dedicatória, prólogo e 18 capítulos dos dois tratados, fonte Wikisource validada, apoio bibliográfico do Senado/BDSF, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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