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Tratado da Terra do Brasil

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Capítulo 17 · Tratado da Terra do Brasil

Tratado Segundo, Capítulo VI: Das frutas da terra

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Tratado Segundo, Capítulo VI: Das frutas da terra

Uma fruta se dá nesta terra do Brasil muito saborosa, e mais prezada de quantas há. Cria-se uma planta humilde junto do chão, a qual tem umas pencas como cardo, a fruta dela nasce como alcachofras e parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho, chamam-lhes ananases, e depois de maduros têm um cheiro muito excelente, colhem-nos como são de vez, e com uma faca tiram-lhes aquela casca grossa e fazem-nos em talhadas e desta maneira se comem, excedem no gosto a quantas frutas há neste reino e fazem todos tanto por esta fruta, que mandam plantar roças dela, como de cardais: a este nosso reino trazem muitos destes ananases em conserva. Outra fruta se cria numas árvores grandes, estas se não plantam, nascem pelo mato muitas; esta fruta depois de madura é muito amarela: são como pêros repinaldos compridos, chamam-lhes cajus, têm muito sumo, e cria-se na ponta desta fruta de fora um caroço como castanha, e nasce diante da mesma fruta, o qual tem a casca mais amargosa que fel, e se tocarem com ela nos beiços dura muito aquele amargor e faz empolar toda a boca; pelo contrário este caroço assado, é muito mais gostoso que amêndoa; são de sua natureza muito quentes em extremo. Há na terra tantos destes caroços que os medem aos alqueires. Também há uma fruta que lhe chamam bananas, e pela língua dos índios pacovas: há na terra muita abundância delas: perecem-se na feição com pepinos, nascem numas árvores muito tenras e não são muito altas, nem têm ramos senão folhas muito compridas e largas. Estas bananas criam-se em cachos, algum se acha que tem de cento e cinqüenta para cima, e muitas vezes é tão grande o peso delas que faz quebrar a árvore pelo meio; como são de vez colhem estes cachos, e depois de colhidos amadurecem, e tanto que estas árvores dão uma fruta, logo as cortam porque não frutificam mais que a primeira vez, e tornam a rebentar pelos pés outras novas. Esta é uma fruta muito saborosa e das boas que há na terra, tem uma pele como de figo, a qual lhes lançam fora quando as querem comer e se come muitas delas fazem dano à saúde e causam febre a quem se desmanda nelas. E assadas maduras são muito sadias e mandam-se dar aos enfermos. Com esta fruta se mantém a maior parte dos escravos desta terra, porque assadas verdes passam por mantimento, e quase têm sustância de pão. Há duas qualidades desta fruta, umas são pequenas como figos berjaçotes, as outras são maiores e mais compridas. Estas pequenas têm dentro em si uma cousa estranha, a qual é que quando as cortam pelo meio com uma faca ou por qualquer parte que seja acha-se nelas um sinal à maneira de crucifixo, e assim totalmente o parecem. Também há uma fruta que se chama bracases,12 são como nêsperas posto que comam muita não fazem mal à saúde. Há muita pimenta da terra, come-se verde, queima muito em grande maneira. Outras muitas frutas há pelo mato dentro de diversas qualidades, e são tantas que se já acharam pela terra dentro algumas pessoas e sustentaram-se com elas muitos dias sem outro mantimento algum. Estas que aqui escrevo são as que os portugueses têm entre si em mais estima e as melhores da terra. Algumas frutas deste reino se dão nestas partes, scilicet, muitos melões, pepinos e figos de muitas castas, romãs, muitas parreiras que dão uvas duas, três vezes no ano, e tanto que umas se acabam, começam logo outras novamente. E desta maneira nunca está o Brasil sem frutas.

De limões e laranjas há muita infinidade; dão-se muito na terra estas árvores de espinho e multiplicam mais que as outras.

Tratado da Terra do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente Tratado da Terra do Brasil, de Pero de Magalhães Gândavo, uma das descrições fundadoras do Brasil colonial em domínio público. Edição digital preparada em HTML para leitura online no Literunico, com dedicatória, prólogo e 18 capítulos dos dois tratados, fonte Wikisource validada, apoio bibliográfico do Senado/BDSF, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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