Universo da obra
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O DESERTOR POEMA HEROI-COMICO Discit enim citius, meminitque libentius illud, Quod quis deridet, quam quod probat, ac veneratur. HORAT. Episl.
A imitação da natureza, em que consiste toda a força da poesia, é o meio mais efficaz para mover e deleitar os homens; porque estes tem um innato amor á imitação, harmonia e rhythmo. Aristóteles, que bem tinha estu dado a origem das paixões, assim o affirma no cap. IV da Poet. Este innato amor foi o que logo ao principio ensinou a imitar o canto das aves : elle depois foi o in ventor da flauta, e da poesia como felizmente exprimio Lucrecio no liv.-I, v. 1378 : At liquidas avium vocês imitarier ore Ante fuit multo, quam laevia carmina cantu Concelebrare homines possent, auresque juvare. Et Zephyri cava per calamorum sibila primum Agrestes docuere cavas ínstare cicutas. i O prazer, que nos causão todas as artes imitadoras, é
a mais segura prova deste principio. Mas assim como o sábio pintor para mover a compaixão não representa um quadro alegre e risonho; também o hábil poeta deve escolher para a sua imitação acções conducentes ao fim que se propõem : por isso o épico, que pertende inspirar a admiração e o amor da virtude, imita uma acção na qual possão apparecer brilhantes o valor, a piedade, a constância, a prudência, o amor da patria, a veneração dos príncipes, o respeito das leis e os sentimentos da humanidade. 0 trágico, que por meio do terror e da compaixão deseja purgar o que ha de mais violento em as nossas paixões, escolhe acção, onde possa ver-se o horror do crime acompanhado da infâmia, do temor, do remorso, da desesperação e do castigo : em quanto o cômico acha nas acções vulgares um dilatado campo á irrisão, com que reprehende os vicios. Qual destas imitações consegue mais depressa o seu fim, é difficil o julgar; sendo tão differentes os carac teres, como as inclinações; mas quasi sempre o coração humano regido pelas leis do seu amor próprio, é mais fácil em ouvir a censura dos vicios, do que o louvor das virtudes alheas. O poema chamado heroi-comico, porque abraça ao mesmo tempo uma e outra espécie de poesia, é a imi tação de uma acção cômica heroicamente tractada. Este poema pareceo monstruoso aos críticos mais escrupulo- sos; porque se não pôde (dizem elles) assignar o seu verdadeiro caracter. Isto é mais uma nota pueril, do que bem fundada critica; pois a mistura do heróico, e do cômico não involve a contradição, que se acha na tragi-
comedia, onde o terror, e o riso mutuamente se des- troem. Não obsta a autoridade de Platão referida por muitos, porque quando este filosofo no Dialogo 3 de sua Repu blica parece dizer que são incompatíveis duas diversas imitações, falia expressamente dos autores trágicos e cômicos, que já mais serão perfeitos em ambas. Esta poesia não foi desconhecida dos antigos. Homero daria mais de um modelo digno da sua mão, se o tempo, que respeitou a Batrachomyomachia, deixasse chegar a nós o seu Margites, de que falia Aristóteles no cap. IV da Poet. dizendo que este poema tinha com a comedia a mesma relação, que a Iliada com a tragédia. O Culex, ou seja de Virgílio, ou de outro qualquer, não contribue pouco para confirmar a sua antigüidade. Muitos são os poemas heroi-comicos modernos. A Sec- chia rapita de Tassoni é para os Italianos o mesmo que o Lutrin de Boileau para os Francezes, e o Hudibraz de Butler, e o Rape of the lock de Pope para os Inglezes. Uns sugeitárão o poema heroi-comico a todos os pre ceitos da epopea, e quizerão que só differisse pelo cô mico da acção, e misturarão o ridículo, e o sublime de tal sorte, que servindo um de realce a outro, fizerão apparecer novas bellezas em ambos os gêneros. Outros omittindo, ou talvez desprezando algumas regras, abri rão novos caminhos á sua engenhosa fantasia, e mos trarão disfarçada com innocentes graciosidades a critica mais insinuante, como M. Gresset no seu Vert-Vert. Não faltou quem tractasse comicamente uma acção heróica; mas esta imitação não foi também recebida,
ainda que a parodia da Eneida de Scarron possa servir de modelo. E desnecessário trazer á memória a autoridade e o successo de tão illustres poetas para justificar o poema heroi-comico, quando não ha quem duvide, que elle, porque imita, move e deleita : e porque mostra ridículo o vicio, e amável a virtude, consegue o fim da verdadeira poesia. Omne lulit punctum, qui miscuit utile dulci: HORAT. Poet.. v. 342,
O DESERTOR POEMA HEROI-COMICO
Leia gratuitamente O Desertor, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, poema herói-cômico do arcadismo brasileiro em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com discurso, cinco cantos e notas da edição histórica, fonte validada, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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