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Aos Irmãos Enfermos de Coimbra, de São Vicente, 1554

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Aos Irmãos Enfermos de Coimbra, de São Vicente, 1554

Capítulo 1 · Aos Irmãos Enfermos de Coimbra, de São Vicente, 1554

Texto

II

Aos

IRMÃOS ENFERMOS DE COIMBRA, DE SÃO VICENTE, 1554

Partida

do Padre Leonardo Nunes.

— Saúde de Anchieta.

Notícias de Gregorio Serrão e Manuel da Nóbrega. — Estudos

da língua geral. — Trabalhos dos missionários no Brasil.

Pax Christi.

A graça de Nosso Senhor vos console, caríssimos Irmãos enfermos, e vos dê obras conforme ao nome que tendes. Amen.

Já escrevi outras, principalmente pelo Padre Leonardo Nunes

, depois de cuja partida chegaram as vossas, e nos deram grande consolação. As novas que há por cá nas quadrimestres se verão

largamente. Nesta quero somente dar-vos uma nova e é que virtus

in infirmitate

perficitur;

a qual foi para mim assás nova todo o

tempo que aí estive.

Muito tendes, caríssimos Irmãos, que dar graças ao Senhor,

porque vos fez participantes de seus trabalhos e enfermidades, em

as quais mostrou o amor que nos tinha: razão será que o sirvamos

algum pouco, tendo grande paciência nas enfermidades e, nestas,

aperfeiçoando a virtude.

A larga conversação que tive nessas enfermarias me faz não

me poder esquecer de meus caríssimos coenfermos, desejando vê-los

curar com outras mais fortes mezinhas, que as que lá se usam; porque sem dúvida pelo que em mim experimentei, vos posso dizer que

as mezinhas materiais pouco fazem e aproveitam. Por outras cartas

vos tenho já escrito de minha disposição, a qual cada dia se renova,

de maneira que nenhuma diferença há de mim a um são, ainda

que algumas vezes não deixo de ter algumas relíquias das enfermidades passadas, porém não faço mais conta delas que se não

fossem.

Até agora sempre tenho estado em Piratininga, que é a primeira aldeia de índios, que está 10 léguas do mar, como em outras cartas tenho escrito, em a qual estarei por agora, porque é

terra mui boa; e porque não tinha purgas nem regalos de enfermaria, muitas vezes era necessário comer folhas de mostarda

cozidas com outros legumes da terra e manjares que lá podeis

imaginar, junto com entender em ensinar gramática em três cias-/

ses diferentes; e ás vezes estando dormindo me vêm a despertar,

para fazer-me perguntas; e em tudo isto parece que saro, e assim

é, porque em fazendo conta que não estava enfermo comecei a

estar são, e podeis ver minha disposição pelas cartas que escrevo,

as quais parecia impossível poder escrever estando lá.

Toda quaresma comia carne, como sabeis, e agora a jejuo toda.

O mesmo digo do Irmão Gregorio, o qual ainda que não está tão

são como eu, por ser de mais fraca compleição, todavia não quer

ele dar-me a vantagem: ao menos vos sei dizer que para um

negócio de importância ir daqui a Piratininga mui depressa, que

é caminho mui áspero e segundo creio o peor que há no mundo

dos atoladeiros, subidas e montes, o escolheram a ele como

mais rijo, havendo outros mais sãos em casa, e assim foi, dormindo com a camisa ensopada em água, sem fogo, entre montes;

"et vivit et

vivimus".

Neste tempo que estive em Piratininga servi de médico e barbeiro, curando e sangrando a muitos daqueles índios, dos quais

viveram alguns de quem se não esperava vida, por serem mortos

muitos daquelas enfermidades. Agora estou aqui em São

Vicente, que vim com nosso padre Manuel da Nóbrega para despachar estas cartas. Demais disso tenho aprendido um ofício que

me ensinou a necessidade, que é fazer alpergatas, e sou já bom

mestre e tenho feitas muitas aos Irmãos, porque se não pode andar

por cá com sapatos de couro pelos montes.

Isto tudo é pouco para o que Nosso Senhor vos mostrará

quando cá vierdes. Quanto á língua eu estou adiantado, ainda

que é mui pouco, para o que soubera se me não ocupara em ler

gramática; todavia tenho coligido toda a maneira dela por arte,

e para mim tenho entendido quase todo seu modo; não o ponho

em arte porque não há cá a quem aproveite; só eu me aproveito dela e aproveitar-se-ão os que de lá vierem e souberem gramática. Finalmente, caríssimos Irmãos, sei dizer que se o padre

Mirão quiser mandar-vos a todos os que andais opilados e

meio doentes, a terra é mui boa e ficareis mui sãos. As medicinas

são trabalhos e tão melhores quanto mais conformes a Cristo.

Também vos digo que não basta com qualquer fervor sair de

Coimbra, senão que é necessário trazer alforge cheio de virtudes

adquiridas, porque de verdade os trabalhos que a Companhia tem

nesta terra são grandes e acontece andar um Irmão entre os

índios seis, sete meses no meio da maldade e seus ministros e sem

ter outro com quem conversar senão com eles; donde convém ser

santo para ser Irmão da Companhia. Não vos digo mais, senão

que aparelheis grande fortaleza interior e grandes desejos de padecer, de maneira que ainda que os trabalhos sejam muitos, vos

pareçam poucos. Fazei um grande coração, porque não tereis lugar para estar meditando em vossos recolhimentos, senão in médio

iniquitatis et super flumina Babylonis, e sem dúvida porque em

Babilônia rogo vos omnes ut semper oretis pro paupere fratre

Joseph. A meus caríssimos Padres e Irmãos em suas orações, e

particularmente a meu caríssimo padre Antônio Corrêa e

aos Padres que foram e são meus pais, rogo e peço se lembrem

deste pobre que engendraram em Cristo et nutuerunt, opto vos

omnes bene valere.

Pauper et inutilis.

Aos Irmãos Enfermos de Coimbra, de São Vicente, 1554

Sinopse

Leia gratuitamente Aos Irmãos Enfermos de Coimbra, de São Vicente, 1554, carta quinhentista de José de Anchieta em domínio público. Texto preparado a partir de Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, edição de 1933, com notas editoriais separadas do corpo principal, organizado em HTML para leitura online no Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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