Universo da obra
Universo da obra
Porque me dá o tempo lugar para me alargar, quero fallar com meus irmãos o que meu espirito sente, e tomarei por interlocutores ao meu irmão Gonçalo Alves, a quem Deus deu graça e talento para ser trombeta de sua palavra, na capitania do Espirito-Santo, e com meu irmão Matheus Nogueira, ferreiro de Jesus-Christo, o qual, posto que com palavra não prega, fa-lo com obras e com marteladas. Entra logo o irmão Gonçalo Alves, tentado dos negros do Gato, e de todos os outros, e, meio desesperado de sua conversão, diga, por demais é trabalhar com estes que são tão bestiais, que não lhes entra no coração cousa de Deus; estão tão encarniçados em tratar e comer, que nenhuma outra bem-aventurança sabem desejar; pregar a estes, é pregar em deserto ás pedras.
Matheus
Nogueira: Se tiveram rei, poderão se converter, ou se adorarão alguma cousa; mas como não sabem, que cousa é crer, nem adorar, não podem entender a pregação do Evangelho, pois ella se funda em fazer crer, e adorar a um só Deus, e a este só ser vir; e como este gentio não adora a cousa alguma, nem crê em nada, tudo o que lhe dizeis se fica em nada.
Gonçalo Alves: O que bem dizeis, quão fora estes são de se converter em um dia cinco, e no outro tres mil, por uma só préga- ção dos Apóstolos, nem de se converterem reinos e cidades, como se fazia no tempo passado, por ser gente de juizo.
Matheus
Nogueira: Uma cousa têm estes pior de todas, que quando vêm á minha tenda, com um anzol que lhes dê, os conver terei a todos, e com outros os tornarei a desconverter por serem inconstantes, e não lhes entrar a verdadeira fé nos corações; ouvi eu já um Evangelho a meus padres, onde Christo dizia: "Não deis o santo aos cães, nem deiteis as pedras preciosas aos porcos". Se alguma geração ha no mundo, por quem Christo Nosso Senhor isto diga, deve ser esta; porque vemos que são cães, em se comerem, e matarem e são porcos, por vicios, e na maneira de se tratarem, e esta deve ser a razão, por que alguns padres, que do reino vieram, os vejo resfriados, porque vinham cuidando de converter a todo o Brasil em uma hora, e vêm-se que não podem converter em um anno, por sua rudeza e bestialidade.
Gonçalo Alves: Ora isso deve ser, porque não sei a quem ouvi, que quando vinham na nau, imaginavam-se um S. João Ba ptista, junto de um rio Jordão a baptizar quantos a elles viessem.
Matheus
Nogueira: Se forjam tainhas do Piraique podéra ser.
Gonçalo Alves: Não ha homem em toda esta terra, que co nheça estes, que diga outra cousa; eu tive um negro, que criei de pequeno, cuidei que era bom christão e fugiu-me para os seus; pois quando aquelle não foi bom, não sei quem o seja; não é este o que só me faz desconfiar destes serem capazes do baptismo, porque não fui eu só o que criei este corvo, nem sei se é bem chamar-lhe corvo; pois vemos que os corvos, tomados nos ninhos se criam, e amansam, e ensinam, e estes mais esquecidos de criação, que os brutos ani mais, e mais ingratos, que os filhos das viboras que comem suas mães, nenhum respeito têm ao amor e criação, que nelles se faz.
Matheus
Nogueira: Pois que razões mais vos movem a des confiar de nossos padres, que a isso foram mandados do Senhor para lhes mostrarem a fé, não fizeram fruto nestas gentes por de mais.
Gonçalo Alves: Muito bem lhe chamais, sabeis qual é a mór diffieuldade, que lhes acho, serem tão fáceis de dizerem a tudo si ou pá ou como vós quizerdes, tudo approvam logo, e com a mesma facilidade, com que dizem pá, dizem aani, e se algumas vezes cha mados dizem neim tia é pelos não importunardes, e mostra-o bem a obra, que se não é com bordão não se erguem, para beber nunca dormem, esta sua facilidade de tudo lhe parecer bem, acompanhada com a experiência de nenhum fruto de tanto pá, tem quebrado os corações a muitos; dizia um de nossos irmãos, que estes eram o filho que disse no Evangelho a seu pae, que o mandava, que fosse e nun ca foi.
Nogueira: Pois que remédio, hemos de cansar debalde; a minha forja de dia e de noite, e o meu trabalho não me renderá nada entre elles para levar diante de Christo, quando nos vier jul gar, para que ao menos outra alguma parte de meus peccados muitos.
Gonçalo Alves: • Disso, irmão, estais seguro, que vós não per- deis nada, se Christo promette por um pucaro de água fria, dado por seu amor, o Reino dos Céos, como é possivel, que percais vós tantas marteladas, tanto suor, tanta vigilia, e a paga de tanta ferramenta, como fazeis ás vossas fouces, machados muito bons são para roçardes a mata de vossos peccados, na qual o Espirito Santo plantará muitas graças e dons seus, se por seu amor tra balhais .
Nogueira: Ay, Ay.
Gonçalo Alves: Porque dais estes ays?
Nogueira: Porque vós metteis esse pontinho, se vós por seu amor trabalhais.
Gonçalo Alves: Pois que cuidais, desenganai-vos, pois que se assim não é tudo perdeis, quanto fazeis.
Nogueira: Pois digo-vos, irmão meu, que me metteis em Òonfusão, e como saberei eu, que trabalho por seu amor, se eu vejo que trabalho para quem não no ama, nem no conhece?
Gonçalo Alves: Conhece logo o Senhor; porque vos haveis de fazer que desejais vós, que o conheçam, amam e sirvam todos estes a todo o mundo.
Nogueira: Desejo certo, e sempre lhe peço, que Elle seja santificado, de todos conhecido e amado, pois é muita razão que a criatura conheça a seu Criador, pois todo o ser e perfeição Elle lhe communicou, e a criatura racional sobre todos os conheçam e o Ir., para ella foram criadas e feitas todas as cousas, e é obrigada a ser a boca de todos, para louvar a Deus por tamanho bem, que de tudo o fez senhor.
Gonçalo Alves: Pois, meu irmão, isso me parece que basta para se Deus contentar de vosso serviço, ou sacrifício; chamo-lhe as sim, porque esse vosso officio parece, que vos faz o sacrifício, que na lei velha se chamava holocausto, que ardia todo, e nada se dava a ninguém delle.
Nogueira: Irmão, não digais isso por amor de Deus, não é bem, que um peccador, como eu, ouça isso de tão imperfeito servi ço, como faz a Deus, e mais que ouvi eu já, que isso era figura do amor grande, com que o filho de Deus ardeu em fogo de charidade por nós na cruz.
Gonçalo Alves: Assim, perdoae-me, irmão, que a humilda de não soffre bem louvores, e eu descuidei-me.
Nogueira: Agora me amastes bem, chamais humildade a viva soberba; não sejais vós como o padre ou irmão, que o padre Leo nardo Nunes, que está em gloria, nos contava, que por se descul par se emmelava como mosca no mel.
Gonçalo Alves: Oxalá, estivesse eu tanto avante, que me pa recesse eu com elle, que é santo; mas, tornemos ao propósito: irmão Nogueira, por amor de Nosso Senhor, que livremente e segundo o que entendeis diante de Nosso Senhor digais, que vos parece deste gentio, segundo a experiência, que tendes delle, os annos, que ha que com elles conversais.
Nogueira: Que aproveita conversar, que os não entendo, ain da que, segundo me parece delles, para este fim de se converterem, e serem christãos, não ha mister muita intelligencia; porque as obras mostram quão poucas mostras elles têm de o poder vir a ser.
Gonçalo Alves: Logo, de que me aproveita a mim a minha lingua ?
Nogueira: Ah, ah, ah: sabeis de que me rio, de me pergun- tardes de que aproveita a vossa lingua; porque vos pergunto de que aproveita a minha forja?
Gonçalo Alves: Já vos eu respondi a esta pergunta.
Nogueira: Tomae a mesma resposta.
Gonçalo Alves: Não, que os officios são differentes; porque o meu é faliar e o vosso fazer.
Nogueira: Não é logo differente o fim; porque cada um de nós ha de fazer o seu.
Gonçalo Alves: E qual é esse fim?
Nogueira: A charidade ou amor de Deus e do próximo.
Gonçalo Alves: E vós, irmão, sois já theologo?
Nogueira: Alguma cousa se me ha de pegar de meus f)a- dres, pois lhe eu pego, quando se chegam a mim, das mascarras do carvão da forja, e queira o Senhor, que com meu máu viver não lhe pegue algum escândalo, ainda que pois são espirituaes, ensi nados estão a soffrer os enfermos e fracos.
Gonçalo Alves: Dizei-me, irmão Nogueira, esta gente são próximos ?
Nogueira: Parece-me que sim.
Gonçalo Alves: Por que razão?
Nogueira: Porque nunca me acho senão com elles, e com seus machados e fouces.
Gonçalo Alves: E por isso lhe chamais próximos?
Nogueira: Sim, porque próximo, chegados quer dizer, e elles sempre se chegam a mim, que lhes faça o que hão mister, e eu como a próximos lh'os faço, cuidando que cumpro o preceito de amar ao próximo, como a mim mesmo, pois lhe faço o que eu queria que me fizessem, se eu tivesse a semelhante necessidade.
Gonçalo Alves: Pois a pessoas mui avisadas ouvi eu dizer, que estes não eram próximos, e porfiam-no muito, nem têm para si, que estes são homens como nós.
Nogueira: Bem, se elles não são homens, não serão próxi mos ; porque só os homens, e todos maus e bons, são próximos; todo homem é uma mesma natureza, e todo pôde conhecer a Deus, e salvar sua alma, e este ouvi eu dizer, que era próximo; prova-se no Evangelho do Samaritano, onde diz Christo Nosso Senhor, que aquelle é próximo, que usa de misericórdia.
Gonçalo Alves: Deveis de ter boa memória, porque vos lem- bram bem as cousas, que ouvis, ouvistes já disputar entre os ir mãos, ou f aliar nisto, em que praticamos da conversão deste gentio.
Nogueira: Muitas vezes, ou quasi sempre, entre meus ir mãos, se falia disso, e vós bem o sabeis, pois sois de casa; cada um falia de seu officio; e como elles não têm outro, senão andar atraz esta ovelha perdida, sempre tratam dos impedimentos, que acham para attrahir.
Gonçalo Alves: E que concluem, ou em que se determinam os mais dos que nesse officio andam, das partes, que acham nestas gentes para virem á nossa santa fé?
Nogueira: Todos remettem o feito a Deus, e determinam de morrer na demanda, porque a isso são obrigados, assim porque a obediência lh'o manda, como por que não fique nada por fazer a esta gente; alguns não têm cá grande esperança delia, olhando a sua rudeza, e as cousas da fé serem delicadas, e que requerem outros entendimentos e costumes; porque, dizem elles, que é mui grande disposição, para um vir a ser christão, ter bom entendi mento, que ainda que só este não baste para entender as cousas da fé, ainda ha lhe fazer entender que não ha nella cousa que seja contra a razão natural, de que estes carecem, e daqui dizem que nasceu, que no tempo dos Apóstolos quanto os homens eram mais sábios, e de boa vida, mais facilmente vinham ao conhecimento da verdade; e o martyres mais lh'os contrariavam os maus costumes, dos tyrannos, que as razões que nenhum delles tivessem contra o que lhes pregavam; e que, porque estes gentios não têm razão, e são muito viciosos, têm a porta cerrada para a fé naturalmente, se Deus por sua misericórdia não lh'a abrisse.
Gonçalo Alves: Parecem boas razões essas, a memória das cousas de Deus. Dizei-me, irmão, por amor de Nosso Senhor, não ha entre estes meus irmãos e padres quem esteja da parte destes negros ?
Nogueira: Todos, porque todos os desejam converter, e es tão determinados de morrer na demanda, como disse.
Gonçalo Alves: Não duvido eu, que todos têm esses dese jos; mas como isso é cousa de necessidade, quizera eu, que houve ra um, que dera razões para nos accender o fogo, e para nos fal- lar por nossos termos, quizeramos uns foles para nos assoprar o fogo, que se nos apaga.
Nogueira: Não falta isso, bastam os nossos padres, para fazer fogo artificial; que nos queime a todos os que neste negocio nos occupamos; porque, como o elles devem de ter no espirito, não fazem senão destruir razões e dar outras, ainda que a frios, como eu, não satisfazem.
Gonçalo Alves: Porque?
Nogueira: Porque todas ellas parecem que não convém mais, senão que, já que havemos de trabalhar com esta gente, seja com muito fervor, o que a todos nos convém muito, pois, segundo a charidade, com que trabalharmos na vinha do Senhor, nos pagará, quando chamar á tarde os obreiros para lhes pagar seus jornaes, os quaes já ouvireis que só deram, não conforme ao trabalho e tempo, senão ao fervor, amor e diligencia que se puzer na obra.
Gonçalo Alves: Não faliemos como ferreiro.
Nogueira: Não sei como fallo, fallo como me vem á boca, se fôr mal dito, perdoae, que não é ninguém obrigado a mais que ao que tem e sabe.
Gonçalo Alves: Dissemos, isto, sou tão descuidado, que logo me esquece que esperaes, como vos louvam, como o fio quente, quan do o batem; eu me guardarei de vos dar mais martelada, porque me não queime, por amor de Deus, que me digaes algumas das ra zões, que os padres dão para estes gentios virem a ser christãos, que alguns têm acertado, que trabalhamos debalde, ao menos até que este gentio não venha a ser mui sujeito, e que com medo venha a tomar a fé.
Nogueira: E isso que aproveitaria, se fossem christãos por força, e gentios na vida, nos costumes e na vontade?
Gonçalo Alves: Aos pães, dizem os que têm esta opinião, que pouco; mas os filhos, netos, e dahi por diante, o poderiam vir a ser, e parece que têm razão.
Nogueira: E a mim sempre me pareceu este muito bom e melhor caminho, se Deus assim fizesse, que outros não fallemos em seus segredos, e potência e sabedoria, que não ha mister conselhei- ros, mas, humanamente, como homens, assim fallando, este parece melhor e o mais certo caminho.
Gonçalo Alves: Mas as razões dos padres,mse vos lembram, desejo ouvir, porque as que eu apontei no principio, não sei como, mas elle desfará.
Nogueira: Olhae cá, irmão, a charidade tudo desfaz e der rete, como o fogo ao ferro muito duro amolenta e faz em massa.
Gonçalo Alves: Nisso me parece que vós não tendes razão, porque a charidade não poderá tirar a verdade, e mais, que ra zões pertencem ao entendimento, e a charidade á vontade, que são cousas differentes, assim como o fogo não tira ao ferro senão a escoria, e não gasta o ferro limpo e puro; se as razões são boas e charidade não será contra ellas, porque seria contra a verdade, e assim não ficaria charidade, senão pertinácia.
Nogueira: Parece-me que é isso verdade, e que onde hou ver sobejo zelo, ás vezes haverá cegar-se as razões, ou usar pouco dellas, o que cada dia se vê nos muito affeiçoados a uma cousa.
Gonçalo Alves: E isso não é máu.
Nogueira: Não sei eu ora quão máu será, parece-me que ouvi dizer, que São Paulo não approvava tudo o que com bom zelo se fazia, se que a uns dava testemunho de zelo, ainda que era bom, a circumstancia necessária, que é saber, se é conforme a von tade de Deus; porque esta é a regra, que mede todas as obras e tanto vão direitas e boas, quanto com ella conformam, e tanto des viam da bondade, quanto desta se desviam.
Gonçalo Alves: Parece muita razão, que seja isso muita verdade, conforme a isso não foi bom fazer El-Rei D. Manuel os judeus christãos, depois da matança, ainda que os mais delles di riam que sim; mas tomou-o com os portaes cheios de sangue, que derramaram os ministros do demônio percutiente, que por justiça de Deus os feriu, incitados por dois frades dominicos, que depois pelo mesmo caso morreram no Porto, por mandado do dito Rei, e assim se pagou um mal com outro, como se costuma no mundo, permittindo e dissimulando Nosso Senhor, até o dia em que mani festou a todos nossas obras, quaes foram; e El-Rei Jesebuto, Rei d.'Aragão, não se lhe condemna nos sagrados cânones o zelo com que contra vontade dos pães, judeus, mandou em seu reino bapti sar seus filhos, mas o fim não lh'o louvam; logo nem tudo o que parece bom, se ha de fazer, senão o que realmente fôr bom.
Nogueira: E como saberá homem sempre acertar, que é ho mem ignorante e fraco, se Reis com seus conselhos não acertam?
Gonçalo Alves: Tomando conselho com Deus, e com os ho mens desapaixonados, e que tenham bôa consciência.
Nogueira: E onde se acharão esses, acerta-se muitas vezes, que não se acham senão uns regelados e frios, como eu, que portse poupar não querem sahir do ninho, não se lembrando quanto as almas custaram a Christo, e estes taes parece, que não podem acon selhar bem em semelhantes negócios.
Gonçalo Alves: A falta.de outros, que tenham zelo e sa ber, todavia me aconselharia com esses, porque alguma hora fal- lou já o Espirito-Santo, e aconselhou um propheta, ainda que não muito virtuoso, por bem do povo, que elle amava, e se elle quer fazer bem a estes, como é de crer, que quer, porque não aborrece nada do que fez, ainda que sim, o que nós fazemos, elle aconse lhara por maus, o que se deve fazer; mas já folgaria ouvir-vos as razões, que tendes ouvido dos padres, para nos animarmos a tra balhar com elles, e as que têm em contrario das que demos no principio.
Nogueira: Já que tanto apertaes commigo, e me pareceis desejoso de saber a verdade deste negocio, creio que vos tenho es gotado, dir-vos-hei o que muitas vezes, martelando naquelle ferro duro, estou cuidando, e o que ouvi a meus padres, por muitas ve zes, parece, que nos podia Christo, que nos está ouvindo dizer: ó estultos e tardios de coração para crer, estou eu imaginando todas as almas dos homens uma, nos serem umas e todas de um metal feitas á imagem e semelhança de Deus, e todas capazes de gloria e criadas para ella, e tanto vai diante de Deus por naturaleza a alma do Papa, como a alma do vosso escravo Papana.
Gonçalo Alves: Estes têm almas como nós.
Nogueira: Isso está claro, pois a alma tem tres potências, entendimento, memória e vontade, que todos têm: eu cuidei, que vós ereis mestre, já em Israel, e vós não sabeis isso; bem parece, que as theologias, que me dizeis arriba era, e eram postiças do pa* dre Braz Lourenço, e não vossas; quero-vos dar um desengano, meu irmão: Que tão ruim entendimento tendes vós para entender o que vos queria dizer, como este gentio, para entender as cousas de nos sa fé.
Gonçalo Alves: Tendes muita razão, e não é muito, porque ando na água aos peixes bois, e trato no mato com brasil, e não é muito ser frio, e vós andaes sempre no fogo, razão é, que vos aquen- teis, mas não deixeis de proseguir adiante, pois uma das obras de misericórdia é ensinar aos ignorantes.
Nogueira: Pois estae attento: depois que nosso pae Adão peccou, como diz o psalmista, não conhecendo a honra, que tinha, foi tornado semelhante á besta, de maneira que todos, assim portu guezes, como castelhanos, como Tamoios, como Aimurés, ficamos se melhantes a bestas, por naturaleza corrupta, e nisto todos somos iguaes, nem dispensou a naturaleza, mais com uma geração, que com outra, posto que, em particular, dá melhor entendimento a um, que a outro, façamos logo do ferro todo um frio e sem virtude, sem so poder volver a nada, porém, mettido na forja, o fogo o torna, que mais parece fogo que ferro; assim todas as almas sem graça e cha ridade de Deus, são ferros frios sem proveito, mas, quanto mais se aquenta, tanto mais fazeis delle o que quereis, e bem se vê em um, que está em peccado mortal, fora da graça de Deus, que para nada presta, das cousas, que tocam a Deus, não pôde rezar, não pôde es tar na igreja, a toda cousa espiritual tem fastio, não tem vontade para fazer cousa boa nenhuma; e se por medo, ou por obediência, ou por vergonha a faz, é tão tristemente e tão preguiçosamente, que não vale nada; porque está escripto, que ao dadôr, com alegria re cebe Deus.
Gonçalo Alves: Isso bem entendo eu, porque o vi em mim antes que fosse casado, que andava em peccados, e ainda agora pra- za a Deus, que não tenha muito disso.
Nogueira: Pois que, direi eu, que envelheci nelles, e, como homem, que foi ferido, fallo.
Gonçalo Alves: Pois assim é, que todos temos uma alma e uma bestialidade naturalmente, e sem graça todos somos uns, de que veiu estes negros não serem tão bestiaes, e todas as outras gerações como os romanos, e os gregos, e os judeus, serem tão discretos e avi sados .
Nogueira: Esta é bôa pergunta, mas claro está a resposta; todas as gerações tiveram também suas bestialidades; adoravam pe dras e paus, dos homens faziam deuses, tinham credito em feitiça- rias do diabo; outros adoravam os bois e vaccas, e outros adoravam por Deus aos ratos, e outras immundicies; e os judeus, que eram a gente de mais razão, que no mundo havia, e que tinha contas com Deus, e tinham as escripturas desde o começo do mundo, adoravam uma bezerra de metal e não os podia Deus ter, que não adorassem os Ídolos, e lhes sacrificavam,, seus próprios filhos, não olhando as tantas maravilhas, que Deus fizera por elles, tirando-os do capti veiro de Pharaó; não vos parece tão bestiaes os mouros, a quem Ma- famede, depois de serem christãos, converteu á sua bestial secta, como estes, se quereis cotejar cousa com cousa, cegueira com ce gueira, bestialidade com bestialidade, todas achareis de um jaez, que procedem de uma mesma cegueira; os mouros crêm em Mafamede, muito vicioso e torpe, e põem-lhe a bem-aventurança nos deleites da carne, e nos vicios; e estes dão credito a um feiticeiro, que lhes põe a bem-aventurança na vingança de seus inimigos, e na valentia, e em terem muitas mulheres; os romanos, os gregos, e todos os outros gentios, pintam, e têm inda por Deus a um idolo, a uma vacca, a um gallo; estes têm que ha Deus, e dizem, que é o trovão, porque é cousa que elles acham mais temerosa, e nisto têm mais razão, que os que adoram as rãs, ou os gallos; de maneira que, se me cotejardes horror com horror, cegueira com cegueira, tudo achareis mentira, que procede do pae da mentira, mentiroso desde o começo do mundo.
Gonçalo Alves: Bem, estou com isso; mas como são os ou tros todos os mais polidos, sabem lêr e escrever, tratam-se limpa mente, souberam a philosophia, inventaram as seiencias, que ago ra ha, e estes nunca souberam mais que andarem nús e fazerem uma frécha, o que está claro, que denota haver entendimento em uns e em outros.
Nogueira: Não é essa razão de homem que anda fazendo brasil no mato, mas estae attento, e entendereis: terem os romanos e outros gentios mais policia, que estes, não lhes veiu de terem na turalmente melhor entendimento, mas de terem melhor criação, e criarem-se mais politicamente, e bem creio, que vós o vereis claro pois trataes com elles, e vedes, que nas cousas de seu mestre, e em que elles tratam, têm tão boas subtilezas, e tão boas invenções e tão discretas palavras, como todos, e os padres os experimentam cada dia com seus filhos, os quaes acham de tão bom entendimen to, que muitos fazem a vantagem aos filhos dos ehristãos.
Gonçalo Alves: Pois como tiveram estes pior criação que os outros, e como não lhes deu a natureza a mesma policia, que deu aos outros; isso podem-vos dizer claramente, faliando a verdade, que lhes veiu por maldição de seus avôs, porque estes cremos se rem descendentes de Cham, filho de Noé, que descobriu as vergo nhas de seu pae bêbado, e em maldição, e por isso ficaram nús, e têm outras mais misérias, os outros gentios, por serem descenden tes de Seth e Japhet, era razão, pois eram filhos de benção, terem mais alguma vantagem; e porém toda esta maneira de gente," uma, o outra, naquillo em que se criam, têm uma mesma lama e um en tendimento, e prova-se pela escriptura, porque logo os primeiros dois irmãos do mundo, um seguiu uns costumes e outro outros: Isac e Ismael, ambos foram irmãos; mas Isac foi mais político, que o Ismael que andou nos matos; um homem tem dois filhos de igual entendimento, um criado na aldêa, e outro na cidade; o da aldêa empregou seu entendimento em fazer um arado, e outras cousas da aldêa, o da cidade em ser cortezão e político; certo está, que, ain da que tenham diversa criação, ambos têm um entendimento na tural exercitado segundo sua criação; e o que dizeis das sciencias, que acharam os philosophos, que denota haver entendimento gran de, isso não foi geral beneficio de todos os humanos, dado pela na tureza, mas foi especial graça dada por Deus, não a todos os ro manos, nem a todos os gentios, senão a um ou a dois, ou a pou cos, para proveito e formosura de todo o universo, mas que estes, por não ter essa policia, fiquem de menos entendimento para re ceber a fé, que os outros que a têm, me não provareis vós nem todas as razões acima ditas; antes provo quanto esta policia aproveita por uma parte, tanto damna por outra e quanto a simplicidade des- tes estorva por uma parte, ajuda por outra; veja Deus isso, e jul gue-o, julgue-o tão bem quem ouvir a experiência desde que co meçou a igreja, e ver que mais se perdeu por sobejos e soberbo en tendimento, que não por simplicidade, e pouco saber: mais fácil é de converter um ignorante, que um malicioso e soberbo; a princi pal guerra, que teve a igreja foram sobejos entenderes; daqui vie ram os hereges, e os que mais duros e contumazes ficaram; daqui manou a pertinácia dos judeus, que nem com serem convencidos com suas escripturas, nunca se quizeram render á fé; daqui veiu a dizer São Paulo: nós pregamos a Jesus-Christo crucificaôío aos judeus escândalo, e ás gentes, justiça. Dizei-me, meu irmão, qual será mais fácil de fazer, fazer crer a um destes, tão fáceis a crer, que nosso Deus morreu, ou a um judeu, que esperava o Messias po deroso, o Senhor de todo o mundo? Com mais difficuldade a um judeu; mas desde que elle cahisse na conta, ficaria mais constan te, como ficaram muitos, que logo davam a vida por isso.
Nogueira: O mesmo vos digo, que desde que estes cahirem na conta, o mesmo farão: dae-me vós, que lhe entre a fé no cora ção, que o mesmo será de um que de outro, e o tempo e o trabalho, e a diligencia, que é necessário para convencer um judeu ou um philosopho, se outro tanto gastardes com doutrinar de novo um destes, mais fácil será sua conversão de coração, dando Deus igual graça a um que a outro, e está clara a razão; porque, como as cou sas de nossa fé das mais essenciaes, como são da Santíssima Trin dade, e que Deus se faz homem, e os mysterios dos Sacramentos, não se podem provar em razão demonstrativa, antes muitas são sobre toda razão humana, claro está, que mais difficil será de crer a um philosopho, que todo se funda em subtilezas de razão, que não a um que outras cousas muito mais só menos crê.
Gonçalo Alves: E' verdade, porque estes se lhes deitaes a morte, cuidam, que os podeis matar, e morrerem da imaginaçbão, pelo muito e sobejo que crêm, e crêm que o panicú ha de ir á roça, e outras cousas semelhantes, que seus feiticeiros lhes mettem na cabeça, mas ainda nem isso não falta, porque muito ha, que estou na terra, e tenho fallado de Deus muito, por mandado dos padres, e nunca vi a nenhum ter tanta fé, que me parecesse que morreria por ella, se fosse necessário.
Nogueira: Se me vós desseis licença, eu vo-lo diria.
Gonçalo Alves: Dizei, meu irmão, que eu vos perdôo.
Nogueira: Parece-me que por mais fáceis, que fossem a se converterem, não se converteriam de maneira, que lhe dizeis, nem lh'o dizem os padres, e por isso estae-me attento, sabereis como o officio de converter almas é o maior de quantos ha na terra, e por isso requer mais alto estado de perfeição, que nenhum outro.
Gonçalo Alves: Que requer, não basta ser lingua, saber- lh'o bem dizer.
Nogueira: Muito mais ha mister, vede vós, o que tinha um dos apóstolos de Christo, que converteram o mundo, e por ahi vos regereis; primeiramente tinham muito espirito, tanto que ardiam dentro do fogo do espirito-santo, porque doutra maneira, como a de atear fogo divino em coração do gentio, o que tem o seu um ca melo; ha de ter muita fé, confiando muito em Deus, e desconfian do muito de si; ha de ter graça de faliar mui bem a lingua, ha de ter virtude para fazer milagres, quando cumprir, e outras gra ças muitas, que tinham os que converteram gente, e sem isto não tenho ouvido que ninguém se convertesse; e vós quereis converter sem nada disto, e que de graça sejam logo todos santos; esse seria o maior milagre do mundo, e ainda que vós sejaes lingua e lh'o sabeis bem dizer, não me negareis, que se algum vos não falia á vontade, logo perdeis a paciência, e dizeis que nunca hão de ser bons; nem têm razão de vos darem credito a vossas palavras, por que hontem lhe pedieis o filho por escravo, e estoutro dia os que- rieis enganar, e têm razão de se temerem de os quererdes enganar, porque isto é o que commummente tratam os maus christãos com elles.
Gonçalo Alves: Isso é verdade, mas os padres, que lhes fal iam com tanto amor, porque os não crêm?
Nogueira: Porque até agora não têm os Índios visto essa differença entre os padres e os outros christãos, seja logo esta a conclusão, que quando Santiago com correr toda a Espanha, e fal- lar mui bem a lingua, e ter grande charidade, e fazer muitos mi- lagres, não converteu mais que nove discípulos; e vós quereis e os padres, sem fazer milagres, sem saber sua lingua, nem entender- se com elles, com terdes presumpção de Apóstolo e pouca confian ça e fé em Deus, e pouca charidade, que sejam logo bons christãos, porém, por vos fazer a vontade, vos contarei que já vimos indios desta terra com mui claros signaes de terem verdadeira fé no co ração, e mostrarem-no por obra, não somente dos meninos, que cria mos comnosco, mas também dos outros grandes, de mui pouco tem po conversados: quem viu na capitania de São Vicente, que é terra onde se mais tratou com os indios, que nenhuma do Brasil, a morte gloriosa de Pero Lopes; quem viu suas lagrimas, os abraços de amor aos irmãos e padres; diga-o quem viu a virtude tão viva de sua mulher, quão fora dos costumes, que antes tinha, quão honesta viuva, e que christãmente vive, tanto que pareceu a todos digna de lhe darem o Santíssimo Sacramento; pois que direi de suas filhas, duas, a qual melhor christã; que direi da fé do grão velho Sayobi, que deixou sua aldêa e suas roças, e se veiu morrer de fome em Piratininga, por amor de nós, cuja vida e costumes, e obediência, mostram bem a fé do coração; quem viu vir Fernão Corrêa de tão longe com fervor de fé vir a pedir o baptismo, e depois de toma do, leva-lo N. S. e muitos outros da aldêa, os quaes, ainda que al guns não deixem a vida viciosa por exemplo de outros maus chris tãos, que vêm, todavia se crê delles terem fé, pois o principal pec cado, e que lhes mais extranham, deixaram, que é matarem em terreiro, e comerem carne humana; quem não sabe que indo á guerra estes, e tomando contrários, os mataram, e enterraram; e para mais vos alegrar, também vos direi, que se viu na Mandiçoba, onde se matavam uns indios Carijós, outro indio, que com os pa dres andava, offerecer-se, com grande fervor e lagrimas a morrer pela fé; e porque aquelles morressem christãos, e outros muitos casos particulares, que acontecem cada dia, que seria largo con tar, pois entre tão poucos colher-se logo tal fruto, e com tão fra cos obreiros, como será'possivel, se N. S. mandar bons obreiros á sua vinha com as partes necessárias, não se colher muito fruto, por certo tenho, que se vos achareis no tempo dos martyres, e vireis aquellas carniçarias daquelles infiéis, que não abastava tantos mi- lagres e maravilhas, para os amolentar, nem tão boas pregações e razões, vós e eu disséramos, nunca estes hão de ser bons. Resolvendo-me logo, digo emfim, razões, que o negoeío de con verter é principalmente de Deus, e ninguém traz a conhecimento de Jesus-Christo, senão quem seu pae traz, e quando elle quer, faz de pedras filhos de Israel, como tão pouco ninguém pode sal var-se, nem ter graça sem elle.
Gonçalo Alves: Isso é tudo da parte de Deus, mas da parte do gentio também é necessário apparelho, porque ouvi dizer, que diz Santo Agostinho: que Deus, que me fez sem mim, não me sal vará sem mim.
Nogueira: Da parte do gentio, digo, que uns e outros tudo são ferro frio e duro, e que quando os Deus quizer metter na for ja, logo se converterão esse, estes na fragoa de Deus, ficaram para se metterem no fogo por derradeiro; o verdadeiro ferreiro senhor do ferro, o sabe o porque, mas do apparelho de sua parte, tão máu o têm estes, como o tinham todas as outras gerações.
Gonçalo Alves: Isso desejo saber mais claro.
Nogueira: Quanto mais impedimentos um tiver para a con versão, tanto diremos, que está menos disposto, e quanto menos do mal, tem Deus que tirar delles, tanto mais dispostos serão.
Gonçalo Alves: Ide adiante, e pravae isso.
Nogueira: Contae-me o mal de um destes, e o mal de um philosopho romano, um destes, muito bestial, sua bem-aventurança é matar, e ter nomes, e esta é sua gloria; porque mais fazem, a lei natural não a guardam, porque se comem, são luxuriosos, muito mentirosos, nenhuma cousa aborrecem por má, e nenhuma louvam por bôa; têm credito em seus feiticeiros, aqui me encerrareis tudo; um philosopho é muito sábio, mas muito soberbo, sua bemaventu rança está na fama ou nos deleites, ou nas victorias de seus inimi gos, muito malicioso, que a verdade que Deus lhe ensinou, escon deu, como diz São Paulo, não guardam a lei natural, posto que a entendam, muito viciosos no vicio contra a natura, muito tyran- nos e amigos de senhorear, muito cobiçosos, e mui temerosos de per derem o que têm, adoram Ídolos, sacrificam-lhes sangue humano, e senhores de todo gênero de maldade, o que não achareis nestes, por- que, segundo dizem os padres, que confessam, em dois ou tres dos mandamentos, têm que fazer com elles, entre si vivem muito amiga velmente, como está claro, pois qual nos parece maior punido para desfazer.
Gonçalo Alves: De ruim ganado não ha que escolher, mas, todavia queria, que me respondesseis ás razões de cima mais distin- ctamente.
Nogueira: Pelo que está dito, bem clara está a resposta
Leia gratuitamente Diálogo sobre a conversão do gentio, de Manuel da Nóbrega, texto fundador da literatura colonial brasileira em domínio público. Edição digital preparada a partir de Cartas do Brasil (1931), com fonte pública validada, leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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