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O ocaso do Império

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Capítulo 4 · O ocaso do Império

Gênese e evolução do ideal republicano

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Terceira Parte Gênese e evolução do ideal republicano

I. O movimento republicano: suas relações com a reação liberal de 68. O núcleo republicano – fração do bloco libe- ral. – II. Influências exógenas. Influência norte-americana. Utopismo e desilusão. – III. O Manifesto de 1870 e a “po- lítica silogística” de Nabuco. O espírito democrático e libe- ral diante do “poder pessoal” de D. Pedro. – IV. O ideal re- publicano e o sentimento nacional. Não havia, antes de 1889, crença na República; apenas,descrença na Monarquia. – V. O ideal republicano e as classes sociais. Indiferentismo das classes rurais. Os elementos cultos e a elite política; sua atitude de desconfiança em relação à nova ideologia. Nabu- co e o ideal republicano. Significação do indiferentismo de Rui. – VI. O ideal republicano e a sua irradiação geográfica antes de 1889. Focos de propaganda: a Imprensa periódica e a sua distribuição no país. Outros focos de propaganda: Os Clubes republicanos. Distribuição deles ao Norte e ao Sul. O Norte e o Sul em relação à expansão do novo idealis- mo. – VII. O ideal republicano e a sua irradiação social. Os campos de recrutamento dos adeptos. A mocidade das aca- demias. O novo ideal não era o ideal das classes conservado- ras, nem das classes rurais. – VIII. Os propagandistas. Va- lor intelectual deles. – IX. Os positivistas. Ideologia positi- vista. Os positivistas como doutrinadores. – X. O “Partido Republicano”: esboço de partido apenas. Sua fraqueza em 1889.

O ambiente formado pela abolição deu expansividade incompará- vel à idéia republicana; mas esta, como força organizada, e não como idéia isolada, data de mais longe, vincula-se claramente à reação liberal iniciada com a queda do Gabinete Zacarias, em 1868. O Partido Republicano, tal como se organizou em 1870, foi, com efeito, nada menos que uma pequena fração destacada do bloco do Partido Liberal, que, como vimos, ante o golpe de 68, todo se acende- ra de indignação flamejante. O velho partido imperial se havia dividi- do em duas correntes: uma, violenta, radical, ultrademocrática, onde os Ottoni punham a ardência e a vibração do seu temperamento impe- tuoso; outra, branda, moderada, ironizando o radicalismo da primeira e revelando mesmo um aparente respeito à dinastia. Esta última corrente, onde dominavam espíritos finos e equilibra- dos, como Otaviano, e amplas culturas, como Nabuco o velho, é que vai formar o grosso da falange que haveria de manter as tradições do Partido Liberal até 89. A outra, porém, a do manifesto radical de 68, esta evoluiu rapidamente para o novo ideal republicano. Em 1870, vamos encontrá-la quase toda formando o elenco dos signatários do Manifesto de 3 de dezembro, com que o Partido Republicano irá credenciar a sua entrada no cenário político do país. “Desde que, em 1868, se publicou o programa liberal radical – diz um contemporâneo autorizado, Américo Brasiliense – e insti- tuíram-se o Clube e as conferências na Corte, agitou-se no seio des- te partido a idéia de se arvorar a bandeira republicana. Em novem- 1 Cf. CASTRO, Viveiros de. Ob. cit., p. 549 ss. E também ROURE, Agenor de. Ob. cit., § V. Nas mesmas Contribuições ainda VALLADÃO, Alfredo. Cap. II (sobre os antecedentes do espírito liberal e republicano).

bro de 1870, depois de diversas reuniões, resolveram os radicais, por grande maioria, aceitá-la.”2 Em outro passo, o próprio Brasiliense havia já escrito: – “Deste partido (o radical de 1868) a maior parte levantava a bandeira repu- blicana em 1870, e outros ficavam sustentando o programa do radica- lismo, publicado em 1868.” O movimento republicano se prende, pois, ao grande movimento da reação operado pelo partido liberal por ocasião da queda de Zaca- rias em 68. Esse movimento no sentido da República era, aliás, inevitável. Bas- ta considerar a ação sugestiva do ambiente americano, de onde, desde o princípio do século, exceto em nosso país, as realezas haviam sido inteiramente banidas. Nabuco observa que era esta singuralidade da nossa situação na América a razão suprema de justificação da idéia re- publicana: “Ninguém procure justificar a nossa transformação republicana por motivos tirados das condições e conveniências do nosso país, mas simplesmente de estar o Brasil na América. Desse modo o ob- servador brasileiro, para ter uma idéia exata da direção que leva - mos, é obrigado a estudar a marcha do continente, a auscultar o murmúrio, a pulsação continental. Como a própria data do cente- nário o indica, muito concorreu para o fato de 1889 a influência 2 BRASILIENSE, Américo. Os Programmas dos Partidos, p. 59.

literária da Revolução Francesa sobre a imaginação da nossa moci- dade, mas não foi menor o arrastamento americano.” E Nabuco conclui dizendo que é “crença fatalista de muita gente que seria esforço inteiramente estéril para o resto da razão e do bom senso do país querer lutar contra o imã do Continente, suspenso, ao que parece, no Capitólio de Washington”. Esse “arrastamento americano”, de que fala Nabuco, transparece, claramente, aliás, no Manifesto de 1870, onde lemos esta afirmação categórica: – “Somos da América e queremos ser americanos.” Quin- tino, chefe do Partido Republicano, é ainda mais explícito e sente-se nas suas palavras o fascínio sobre ele exercido pela poderosa Federa- ção Americana: “Em face destes grandes Impérios e deste lado da América – perguntava ele no seu Manifesto de 22 de maio de 1889 – qual é, no mundo inteiro, a nação mais forte e poderosa, a mais unida e a mais sólida, a mais rica e a mais satisfeita, a mais tranqüila no seu trabalho e a mais segura dos seus futuros destinos? É a República dos Estados Unidos da América. Só este contraste com o resto do mundo é já uma conquista, uma superioridade que fascina os espí- ritos e robustece a convicção geral quanto à excelência das institui- ções republicanas.” O prestígio do exemplo estrangeiro é sensível, pois, na gênese e na evolução do ideal republicano entre nós; mas este ideal não teve ape- nas esta fonte de inspiração. Houve ainda outra fonte; ele teve aqui um 3 NABUCO, Joaquim. Balmaceda, p. 211.

ambiente um tanto favorável à sua eclosão – e este ambiente se consti- tuiu com o fracasso, aliás inevitável, do ideal monárquico-parlamen - tar, ideal dentro do qual se erigiu o edifício constitucional do Império, em 1824. Este ideal, como vimos, era tão falso quanto o novo ideal com que se havia de construir, cerca de 70 anos mais tarde, o edifício republicano. Como este falhou, aquele também falhara. O que há de mais bene- mérito, de mais excelente e fecundo na Monarquia – já o demonstra- mos alhures 4 – foi conseguido justamentefora dos princípios da Cons- tituição ou, mesmo,contra esses princípios: nunca em obediência a eles, ao ideal político contido neles. Este ideal, por exemplo, não visava exatamente a centralização, rea- lizada pela reação conservadora de 1840; mas foi esta centralização que nos deu unidade, prestígio, grandeza. Este ideal não se compade- cia com a Poder Moderador feito “poder pessoal”; mas foi esse Poder Moderador feito poder pessoal que deu ao Brasil uma longa fase de moralidade, legalidade, justiça, liberdade, e sem ele os partidos em oposição só teriam podido ascender ao poder (vemo-lo hoje clara- mente) pela torpeza do assassínio político ou pela violência das revo- luções armadas. Os homens de partido do tempo, com os olhos fitos na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, – salvo uma pequena elite, com a intuição exata da nossa realidade – não pensavam assim, não com - preendiam assim, e viam no predomínio dessa política centralizadora e pessoal a inteira negação do seu ideal político. Sonhavam utopica - mente um governo do povo, um governo da opinião, à maneira an - glo-saxônia, num país em que a opinião, à maneira anglo-saxônia, não 4 VIANNA, Oliveira. Populações Meridionais do Brazil, parte III; Evolução do Povo Bra- sileiro, parte III.

existe – porque não pode existir; e, como não podiam realizar o seu ideal, nem compreender exatamente a causa dessa impossibilidade, irrita - vam-se, impacientavam-se, desesperavam e, invadidos, afinal pelo ce- ticismo, acabavam – como se dizia – “perdendo a fé nas instituições”. O ideal da República – lucilante vagamente desde o período coloni- al – tomou corpo, desenvolveu e cresceu dentro de uma crise destas – de impaciência, de desilusão, de descrença. Fez-se, para certos espíritos mais desabusados, o sucedâneo do ideal fracassado. Idealistas impeni- tentes, perdida a fé no seu velho ideal, não souberam voltar-se para a re- alidade e amassar com ela a argamassa de uma nova concepção; cami- nharam para o sonho, para um novo ideal, tão utópico quanto o primei- ro e condenado, como este, às vicissitudes do mesmo fracasso. É no manifesto de 3 de dezembro que vamos encontrar condensa- da a súmula dessa nova idealidade especiosa e fascinante. Os que o as- sinaram escreveram uma obra-prima de apriorismo político e fizeram bem aquilo que Nabuco chamou, certa vez, de “política silogística”. Isto é: “o manejo das idéias novas, essa espécie de exercício tão atraen- te para os principiantes, ao qual se pode dar o nome de política silo- gística. É uma pura arte a construção no vácuo. A base são as teses, e não os fatos; o material, idéias, e não homens; a situação, o mundo, e não o país; os habitantes, as gerações futuras, e não as atuais”. O Manifesto de 3 dezembro de 1870 é realmente feito sob este modelo, sob o modelo dessa “política silogística”. Hoje, relendo-o, 5 VIANNA, Oliveira. O idealismo da Constituição (inÁ margem da Historia da Re- publica, por escriptores da nova geração. Rio, 1924). 6 NABUCO, Joaquim. Balmaceda, p. 12.

é impossível deixarmos de sorrir sutilmente e, às vezes, mesmo irre - verentemente diante das esperanças daqueles “logiciens” da Sobera - nia do Povo. No fundo, o que eles fizeram foi reproduzir, copiar dos Annaes do Parlamento e dos artigos da Imprensa política os clamores dos dous partidos imperiais em oposição, as suas objurgatórias, as sua inventi- vas, os seus protestos. Das velhas acusações contra o “poder pessoal”, da grita dos liberais e dos conservadores caídos em desgraça, do res - sentimento dos ministros postos pela Coroa no olho da rua; destes materiais suspeitíssimos, rebuscados, catados, arrumados em florilé - gio, é que compuseram a maior parte do seu formidável libelo contra o velho regime e contra o velho monarca. Eram em tudo como os libera- is de 68; diferiam deles, apenas, porque ousavam afirmar em voz alta aquilo que os liberais só costumavam dizer em voz baixa – a sua ani- mosidade contra D. Pedro: – “Como um pólipo monstruoso, o gover- no pessoal invadiu tudo, desde as transcendentes questões da alta po- lítica até as nugas da pequena administração” – diziam, reproduzindo em citação uma objurgatória de Alencar, despeitado. Para eles, esta ação tão universal do poder pessoal importava “na com- pleta anulação do elemento democrático”. Ora, isto, esta anulação, era um mal, devia ser um mal, raciocinavam estes silogistas da Democracia: “De todos os ângulos do país surgem queixas, de todos os lados políticos surgem os protestos e as revelações estranhas, que denun- ciam a existência de um vício grave, o qual põe em risco a sorte da liberdade pela completa anulação do elemento democrático. O perigo está indicado e é manifesto. Sente-se a ação do mal e todos apontam a origem dele.” Equivale dizer que o que, aos olhos dos republicanos de 70, punha em perigo a Liberdade era a ação de D. Pedro, vigilante, atenta, miúda, exi-

gente. Desde que a livrássemos desta ação, o “perigo” desapareceria, e a Liberdade poderia vir para a rua, limpinha, vestidinha, segurazinha, sem nenhum receio de desacato ao seu pudor e, muito menos, à sua pureza de Diana imaculada. Hoje, porém, com uma perspectiva magnífica pela vas- tidão e pela riqueza da experiência acumulada, a uma distância de mais de meio século, podemos sentir perfeitamente a ilusão em que andavam aqueles idealistas adoráveis. Os raros, que sobreviveram dessa época, flu- tuando comoépavesno oceano do arrivismo contemporâneo, bem poderi- am atestar o seu engano. Muitos deles já o confessaram, numpenitetsigni- ficativo, reconhecendo lealmente que o mal não vinha daquela origem, para a qual “todos apontavam”, mas de outra, muito diversa. Tanto que a causa apontada desapareceu – e o “mal”, isto é, “a anulação do elemento democrático” continuou cada vez mais florida e vicejante. Naquela época, porém, a convicção generalizada, mesmo nos cen- tros monárquicos, era que a fonte de todo o mal estava na vontade, ou antes, na voluntariedade, que diziam antiliberal e caprichosa, de D. Pedro. O jogo da sua política rotativa continuava a não ser compreen- dido, nos seus elevados intuitos, pelos dous campos políticos: para es- tes, essas alternativas de quedas e ascensões constituíam uma fonte constante de decepções, de humilhações, de despeitos, de irritações. Dados os nossos costumes políticos, não podia deixar de ser assim. Surdo, entretanto, a esta grita, o Imperador, durante todo o seu rei- nado, se manteve fiel a esta política de rotação, que ele julgava liberal e eqüitativa. Nos últimos anos de seu governo, ele ainda a praticou – e o Ministério liberal de 7 de junho de 1889 é uma prova disto. Numa si- tuação francamente conservadora, com uma Câmara com poderosa maioria conservadora, depois de dar demissão ao Gabinete de 10 de março, ele chamou ao poder, não outro gabinete conservador, como seria das praxes do Parlamentarismo, mas um Gabinete liberal – o

Gabinete Ouro Preto. E com isto, com este simples gesto, derruiu in- teiramente a sólida situação do velho partido imperial. Houve, como era de esperar, a costumada leva de broquéis nos ar- raiais do partido despejado – e os republicanos seriam realmente iná- beis, se perdessem essa bela ocasião para desferir mais uma vez contra o Imperador e a sua “política pessoal” os golpes da sua crítica irreve- rente e tendenciosa: “O Ministério de 7 de junho – dizia o deputado João Manuel, no seu famoso discurso de 11 de junho de 1889, em que fez a sua profis- são de fé republicana – o Ministério de 7 de junho é uma verdadeira monstruosidade; nada representa e nada significa de grande, de nobre, de confessável; não é um governo da nação, porque vem atentar contra o sentimento nacional; não é um governo nem ao menos partidário, porque nasceu divorciado do seu partido; é um governo ameaçador, que traz em seu bojo um pensamento sinistro, porque, digamos a verdade, ele é simplesmente um produto da vontade imperial. O que estamos vendo agora de admirávele de surpreendente? Dissolve-se a situação conservadora, pujante de força, representada nesta por 90 de- putados, e chama-se ao poder o Partido Liberal, que apenas pode con- tar aqui com uma minoria. Como se poderá decentemente explicar esse fenômeno estranho, de entregar o poder ao partido que se acha em minoria na Câmara dos Deputados, em cujo seio reside a expressa vontade nacional? Entrava sem dúvida nos cálculos imperiais cavar mais fundo o valo que separava os chefes conservadores, tornando-os irreconciliáveis e impossíveis pela intriga, pelo ódio e pelas paixões de que se deixassem dominar.” O orador não ficou, porém, neste terreno de crítica à ação desse poder, que D. Pedro exercia à sua maneira. Invectivou o próprio

Imperador; não o atacou apenas na sua discrição, no seu arbítrio, no seu capricho; não o acusou apenas de tirânico e antiliberal; foi mais longe. Entrou no terreno do ataque pessoal, do ataque personalíssimo, e agrediu o velho monarca na sua honra, na sua dignidade, no seu pun- donor individual, sem o menor respeito, não já à sua majestade de rei, mas a uma sua majestade maior – a majestade das suas cãs de sexage- nário. D. Pedro, neste discurso ardente, nos aparece nada menos como um caráter sem nobreza, feito de dobrez e simulação, insincero, so - trancão, hipócrita; nada menos que um “grande artista”, um “mistifica- dor”, sorte de trampolineiro coroado, enganando, trapaceando, em - bromando todo o mundo político de então: “Mas em tudo isto, senhores, – continuou – houve uma com- pleta mistificação para castigo de todos os que figuravam nesta co- média: foram todos mistificados. Mistificado, sinto dizê-lo, foi o nobre ex-presidente do Conse- lho, que chegou a acreditar na sinceridade da Coroa, negando-lhe a demissão coletiva do Gabinete, quando ele devia conhecer há mui- to o grande artista, com quem lidara. Mistificado foi o Sr. Conselheiro Paulino, chefe da dissidência, que cometeu o gravíssimo erro de aliar-se aos seus adversários na- turais para combater um governo composto de membros do seu partido; acreditando, sem dúvida, que o poder lhe iria parar nas mãos para realizar o programa da indenização. Mistificado foi o Sr. Conselheiro Correia, que recuou, vendo-se entre aespadae a parede, indo de encontro aopenedoda sua preliminar... Mistificado foi o nobre Visconde do Cruzeiro, que ainda se deu ao incômodo de alegar motivo de moléstia para não organizar o Gabinete. Mistificado foi o nobre Visconde de Vieira da Silva, que quis fazer das fraquezas forças, pondo em contribuição o seu espírito

elevadíssimo e o seu patriotismo, supondo poder formar um Gabi- nete, quando o seu partido ainda não estava unido. Mistificado foi o Sr. Conselheiro Saraiva, que acreditou subme- ter à Coroa o seu vasto programa de reformas, que elevariam o país às fronteiras da República, e que a Coroa aceitou sem restrições, dispensando-o ao mesmo tempo, por cautela, da incumbência honrosa, que lhe fora confiada, à primeira escusa apresentada. Mistificado foi ainda o nobre presidente do Conselho, Visconde de Ouro Preto, que acreditou galgar o poder com um Gabinete formado de acordo com os seus amigos, quando teve que se submeter à vontade da Coroa, que lhe impôs companheiros, com que não contava. Mistificado foi o partido liberal, que sempre acreditou inau- gurar a situação com um Gabinete genuíno, quando teve a dolo- rosa decepção de encontrar-se com um Ministério composto de áulicos.” Os que concluírem destas palavras ardentes que o ambiente do país, anterior ao golpe de 15 de novembro, era universalmente repu- blicano, incidiriam num grande equívoco. Não havia tal generalização de sentimento republicano, quando se deu a queda do Império. Por essa época, como já demonstramos, o sentimento mais generalizado não era o dacrença na República, mas sim o dedescrença nas instituições monárquicas, tais como existiam na Carta e eram praticadas nos cen- tros do governo; mas, o certo é que essa descrença na Monarquia não importava necessariamente a existência do sentimento contrário, – de fé nas instituições republicanas. Realmente, o que se depreende do estudo do período que precedeu à queda do velho regime, é que o espírito público havia atingido por

aquela época, em relação às instituições da Carta de 24, um grau de cepticismo muito comparável ao que observamos atualmente, em rela- ção às instituições da Carta republicana de 91. Os homens daquela época haviam concebido um certo ideal de governo – ideal, aliás, que nenhum deles havia procurado saber se era exeqüível ou não, se era adaptável a nós ou não, se tinha realizabilidade entre nós ou não, mas que todos eles, em tese (porque sempre encaravam o problema em tese) acreditavam realizável, exeqüível, adaptável. Ora, este ideal, entretanto, falhou. O governo que saíra da Carta não era o governo tal como estava no ideal deles, mas umoutro gover- no, uma outra cousa, diferente, muito diferente do ideal, – do “sonho”. Nenhum deles sequer pensou em saber se esse outro governo não seria talvez omelhor governo, ouúnico governo possível aqui; para eles era um governo diferente, era outra cousa – e não o que haviam sonhado. Dian- te desse ideal que não havia encontrado realização, encheram-se de cepticismo e começaram a duvidar da excelência do próprio aparelho constitucional, que haviam engenhado na convicção de ser o melhor para realizar este ideal. Nós que vivemos na República estamos atualmente numa situação mental análoga. O presente regime não deu satisfação às nossas aspira- ções democráticas e liberais: nenhuma delas conseguiu ter realidade dentro da organização política vigente. Estamos todos descrentes dela; talvez sentimos que precisamos sair dela para outra cousa, para uma nova forma de governo. Esta nova forma de governo, entretanto, ninguém ainda pode dizer ao certo qual ela deva ser. Não há nenhuma aspiração definitivamente cristalizada na consciência das massas. Ne- nhum nódulo novo de crença se formou ainda no espírito das nossas elites em torno de um princípio qualquer. Há, sem dúvida, várias ten- dências de gravitação em torno deste ou daquele ponto; mas, ainda as- sim vagamente, indistintamente, de forma imprecisa e indeterminada,

de forma imprecisa e indeterminada. Há uma certa tendência de retor- no ao regime parlamentar. Há uma certa tendência de retorno ao Po- der Moderador, exercido já agora por um Conselho vitalício. Há uma certa tendência para as restrições da autonomia estadual, para uma maior extensão dos poderes federais. Há mesmo pequenos movimen- tos de gravitação para o Socialismo alemão, até mesmo para o Bolche- vismo russo. Tudo isto, porém, vago, impreciso, incorpóreo. Tendo perdido a fé no regime vigente, mas não tendo elaborado ainda uma nova fé, estamos atravessando uma dessas “épocas sem fisionomia”, de que falava Timandro, parda, informe, indecisa – de atonia, em cuja atmosfera parada, de calmaria, giram, circulam, suspensos, germes de futuras crenças, embriões de futuros ideais, mas que não são nem crenças, nem ideais ainda. Era este também o estado dos espíritos no período que antecedeu à queda do Império: era um estado de descrença, a que não tinha ainda sucedido nenhuma crença nova. Não estávamos, contudo, numa da- quelas “épocas sem fisionomia”, da alusão de Torres Homem; ao con- trário, esse período foi um dos mais belos e agitados da nossa história. Essa agitação foi devida, porém, à campanha abolicionista, que dera aos corações a vibração de um novo entusiasmo e às consciências a fla- ma de um novo idealismo. O ideal republicano não contribuiu, de uma maneira assinalável, para esta admirável trepidação característica do período que precedeu à República: carecia do prestígio necessário sobre as elites e sobre as massas. Era um ideal vago, insulado num re- canto da consciência nacional, com um raio de ação muito reduzido, como veremos. Certo, o sentimento da fé nas antigas instituições havia desapareci- do – e Nabuco bem o frisou quando disse uma vez que, nos últimos anos de Império, havia mais coragem em se dizer alguém monarquista do que em ser republicano. Mas é certo também que o sentimento re-

publicano não estava de modo algum generalizado na consciência das elites – e, muito menos, na consciência das massas. Destas principalmente. Incultas na sua quase totalidade e também, na sua quase totalidade, dispersas na barbaria das matas e sertões, as nossas massas populares, mesmo as que habitavam os núcleos urbanos, nada valiam então – como ainda nada valem hoje – como centros de idealidade política. Formas de governo, Instituições Constitucionais, Monarquia, República, Democracia, tudo isto representava abstrações, que transcendiam de muito o alcance da sua mentalidade rudimentar. Se tivessem de crer em alguma instituição, esta seria a Monarquia, ou antes, o Monarca, o Imperador, entidade feita de carne e osso, que eles sabiam estar vivo e presente na Corte – mandando; e não na República, uma palavra apenas, cousa vaga, abstrata, estranha, inacessível à sua limi- tada compreensão. Não conheciam, por outro lado, tradições deself go- vernmentlocal para que alcançassem o valor da Democracia, e sempre vi- veram sob regimes autocráticos, sempre foram governados por autocra- tas – desde o mandão local ao governador provincial. Era natural, pois, que as formas democráticas e as formas republicanas de governo estives- sem fora da sua idealidade e do seu entusiasmo. Onde o pensamento republicano podia encontrar campo propício de germinação era na elite cultivada das capitais e das cidades impor- tantes, no patriciado da riqueza e da cultura, nos quadros de direção dos partidos, nos centros universitários e literários. Estes eram os únicos elementos sociais que podiam ter capacidade para compreender o valor diferencial das instituições políticas, de modo a ter uma idéia razoável da superioridade de um dado tipo de governo. Entretanto, não diremos antes de 13 de maio, mais mesmo

depois de 13 de maio, já em pleno clímax da agitação pós-abolicio - nista, esses elementos cultos das capitais e das cidades ainda não esta- vam inteiramente impregnados do idealismo republicano. Na sua maior parte, ao contrário, encaravam com ceticismo, senão com des - confiança, a nova instituição. Esta desconfiança da República era, aliás, justa, era explicável, era natural em todos os espíritos sensatos daquele tempo. Esta República, com que os teorizadores do Manifesto de 70 nos acenavam como a oitava maravilha do mundo, havia-se conduzido mal, muito mal mes- mo, em outras terras bem próximas de nós; ali, a cornucópia dos seus dons não se havia mostrado, como a da Fortuna romana, pródiga em bens, mas, como a da Pandora grega, fecunda em males inumeráveis. O exemplo norte-americano, o exemplo francês (aliás, nem sempre edificante) é possível que nos tivessem seduzido; mas, mais do que tudo isto, a nossa experiência do valor do regime republicano era constituída de impressões nada próprias a um julgamento favorável: as impressões da caudilhagem hispano-americana e, mais especialmente, da caudilhagem platina. Esta havia mesmo causticado os nossos flan- cos, por várias vezes, com a sua virulência mashorqueira. De quando em quando, éramos forçados a intervir para pôr um ponto final àquele prolongado tumulto de caudilhos sanguinários. Ora, para os espíritos prudentes e sensatos da nossa elite, República era aquilo. Daí a sua recalcitrância em, mesmo perdida a fé no regime da Carta de 1824, abandeirarem-se sob a flâmula arvorada pelo Manifesto de 70. Nabuco exprimia este estado de espírito das nossas elites, quan- do, na famosa sessão de 11 de junho de 1889, respondendo ao chefe do Gabinete de 7 de junho, fez a sua profissão de fé monarquista. Nesta ele pôs muito das suas convicções políticas, mas muito também do seu sentimento cavalheiresco, colocando-se nobremente ao lado da dinastia que se sacrificara realizando o ideal, de que ele fora paladino:

“Há uma razão – disse ele – para não ter chegado ainda a hora da República, e é que ainda não temos povo, e as oligarquias repu- blicanas em toda América têm mostrado ser um terrível impedi - mento à aparição política e social do povo. Nabuco temia as “oligarquias republicanas”, de cuja tirania san - guissedenta a América espanhola, do México à Argentina, podia dar o seu testemunho horrorizado. Ele preferia naturalmente uma oligarquia monárquica, tal como a que tínhamos até então, um tanto fechada, mas moralmente seleta e primorosa. Esta oligarquia, formada e dirigida por um príncipe “fraco e bom”, havia sido, em contraste com as oligarquias republicanas da América espanhola, a fonte de toda a liberdade no Brasil: “Durante 50 anos – dizia ele mais tarde no seuBalmaceda, com- parando os dois regimes, a República Chilena e o Império Brasilei- ro – a liberdade brasileira é uma teia de tenuidade invisível, possu- indo apenas a resistência e a elasticidade da seda, que a Monarquia, como uma epeira dourada, tirou de si mesma e suspendeu entre a selva amazonense e os campos do Rio Grande.” Nabuco, neste discurso se 11 de junho – cinco meses apenas antes da queda do Império – declarava que julgava “benéfica e popular” a Monarquia e que ela estaria segura na sua estabilidade se, abandonando o apoio das baionetas, quisesse introduzir em sua velha estrutura algu- mas reformas de caráter liberal: “Mas, a Monarquia, que o orador julga benéfica e popular, não se pode sustentar com baionetas ou fanatismos, e só pode existir por meio de reformas nacionais, como a Abolição. A Federação tem o mesmo caráter; o orador, porém, infelizmente, vê, com sur- presa, que o Partido Liberal faz renúncia dela, no momento em que

o Imperador a aceita”. E concluiu, confessando que tinha “firme convicção de que a abolição deu força à Monarquia e que a Federa- ção, aceita com a mesma sinceridade, garantirá a sua estabilidade”. O movimento republicano, quase prestes a vingar, não enchia de inquietação a Nabuco, nem lhe alterava a sua crença na superioridade da Monarquia. Esse movimento, para ele, era um produto do despeito provocado pela Lei Áurea, e isto bastava para torná-lo suspeito aos seus olhos de pensador político: “O grosso das forças republicanas vem do descontentamento causado pela abolição” – dizia ele ainda. “Foram as leis de 28 de Setembro de 1871 e de 13 de Maio de 1888 que fizeram surgir do solo as legiões, que hoje avançam contra a Monarquia. Com seme- lhante origem o orador não crê numa República popular.” Este era,mesmo depois de 1888, o pensamento dominante nos altos círcu- los políticos e partidários do país. Nabuco deu-lhe apenas expressão, em- balando-o ao ritmo da sua eloqüência sedutora e harmoniosa. Os liberais de mais responsabilidade julgavam possível uma conciliação salvadora, jungindo, um tanto antinomicamente, a Monarquia e a Federação – am- pla, como queriam Nabuco e Rui, mitigada, como pretendia Ouro Preto ao expor o programa do Gabinete de 7 de junho de 89. O próprio Rui não se declarara francamente republicano, embora, como dissera Nabuco, “no fundo” ele fosse republicano. Rui, sobre- pondo a tudo a idéia federativa, mantinha-se indiferente à instituição monárquica, usando a fórmula sugestiva: Federação com ou sem a Coroa. Rui e Nabuco, um e outro exprimiam perfeitamente o estado do pensamento liberal do país, no período imediatamente precursor da queda do velho regime – e que era: ou desimpatia,o ud e indiferença pela Monarquia; mas, não, nunca, de crença no regime contrário – no regi-

me republicano. Indignados contra D. Pedro, irritados com a sua po- lítica rotativa, que terminava sempre deixando-os humilhados defron- te dos adversários, os homens de responsabilidade do Império revela- vam, apesar disto, um íntimo receio de embarcar no bergantim do ide- alismo republicano. Este sempre lhes pareceu ter a sua mais perfeita expressão na caudilhagem sanguinária do Prata. Nenhum dos elementos mais ponderáveis dos dous velhos parti - dos parecia prever um fim imediato, ou melhor, um fim violento ao velho regime. Quando muito, eles anteviam, como César Zama, a invi- abilidade do 3.º Reinado: “Deixem o honrado presidente do Conselho rir-se, brincar e di- zer aos republicanos que cresçam e apareçam” – dizia ele na sessão de 11 de setembro de 1888 –; “eles já estão aparecendo, eles já vão crescendo. E praza a Deus que o orador seja um falso profeta: no dia em que o venerando monarca que nos rege fechar os olhos, tal- vez não se possa firmar o 3.º Reinado.” Era esta, aliás, a convicção generalizada em todos os meios políti- cos, principalmente depois da lei da Abolição. O 3.º Reinado seria in- viável; mas todos admitiam que o velho monarca governaria até o fim. – “Toda a equação do problema – dizia, com efeito, Quintino Bocai- úva no seu Manifesto – está circunscrita à vida do atual imperante.” Realmente, os centros de propaganda republicana não haviam até então – até 15 de novembro de 1889 – dado ao seu ideal uma irradia- ção capaz de, pela força exclusiva da opinião popular, fascinada e se- duzida, precipitar do trono o velho monarca antes da sua morte. Foi preciso, como veremos, a intervenção de uma força estranha, aliás ge- rada fora da evolução do determinismo republicano, para – agindo à maneira de uma concausa – operar queda do 2.º Império e, com ela, o advento prematuro do novo regime.

Realmente, em 1889, não só a penetração social, como a penetração geográfica do ideal republicano eram diminutas. No ponto de vista geo- gráfico, por exemplo, os dados estatísticos colhidos num testemunho da época indicam uma área muito restrita aos focos da irradiação. Em 15 de novembro de 1889, o que o credo republicano possuía, por exemplo, como organização de propaganda impressa, eram apenas 74 jornais, na sua maioria pequenos jornais de província e jornalecos do inte- rior. Era esta, com efeito, a sua distribuição regional por aquela época. PROVÍNCIAS Número de jornais por província TOTAL São Paulo 21 21 Minas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul 11 33 Rio, Pernambuco e Santa Catarina 3 9 Amazonas, Paraíba e Sergipe 2 6 Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Maranhão e Mato Grosso Como se vê, São Paulo era a única província em que os órgãos de propaganda jornalística mostravam-se realmente numerosos. Nas ou- tras grandes províncias, salvante Rio de Janeiro, Minas e Rio Grande do Sul, o número desses focos irradiadores era mesquinho. Separando os dois blocos regionais do Norte e do Sul e procurando a distribuição percentual dos focos de propaganda periodística, teremos: 7 TEIXEIRA, Cândido. A Republica Brazileira. Rio, 1890, p. 261.

REGIÕES Número de jornais % Norte 20 27 Sul 54 73 Vê-se que no ponto de vista de propaganda impressa, o movimen- to republicano concentrou-se principalmente na região meridional do país – e ainda assim em quatro províncias apenas. O Norte quase todo parecia um tanto surdo à palavra animadora dos Isaías republicanos: ecoara o grito do Sul com dificuldade e lentidão. Pernambuco e Bahia, por exemplo, os dois grandes centros universitários do Norte, tão vi- brantes sob a ação do ideal abolicionista, não tinham, a 15 de novem- bro, quase que imprensa republicana: três jornais naquele e nesta ape- nas um, como Mato Grosso... Estes jornais deviam ter certamente uma importância diminuta. Bas- ta pensar no que é ainda hoje a imprensa provinciana, para que se possa fazer idéia aproximada do que poderiam ser estes 74 jornais que, há 40 anos passados, propagavam pelo Brasil a idéia republicana. Exceto as folhas do Rio e da capital paulista, todos os demais deviam ter um raio de ação insignificante, senão nulo – e o novo credo não encontraria na- turalmente neles senão um fraco reforço à sua expansibilidade. Esta expansibilidade da ideologia republicana não se revelava apenas através do pequeno periodismo da capital e das províncias; os pequenos “Centros” locais, ou “Clubes”, que haviam começado a constituir-se des- de o Manifesto de 1870, ou mesmo antes, eram-lhe expressão ainda mais valiosa. Estes nódulos do futuro partido tiveram, porém, uma prolifera- ção muito reduzida até 1888 e, só depois de 1888, já sob a influência republicanizante da Lei Áurea, é que entraram a se multiplicar com rapi- dez apreciável. Em 15 de novembro, entretanto, eram ainda relativamente escassos no Brasil, e só por si não bastariam evidentemente para dar à idéia republicana uma força capaz de pôr abaixo o trono.

Quando este caiu, era este, com efeito, o número de “Clubes Repu- blicanos” espalhados pelas capitais provincianas e pelo interior, ao Norte e ao Sul.8 PROVÍNCIAS CLUBES Minas 56 São Paulo 48 Rio Grande do Sul 32 Rio de Janeiro 30 Rio 16 Santa Catarina 15 Espírito Santo 8 Pernambuco 6 Pará 5 Paraná 4 Sergipe 3 Mato Grosso 3 Bahia 3 Maranhão 2 Ceará 2 Rio Grande do Norte 1 Amazonas 1 Piauí 1 Alagoas 1 Goiás Eram, ao todo, portanto, 237 pequenos nódulos de adeptos do novo credo. Eles se distribuíam, como se vê, muito irregularmente – e 8 TEIXEIRA, Cândido. Op. cit., p. 262.

como que se concentravam quase todos em Minas, São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Nestas províncias o pensamento republicano parecia ter feito sensíveis progressos, de 1870 a 1889; fora daí, porém, a sua irradia - ção era quase nula. Os dous centros universitários do Norte – Bahia e Pernambuco – davam apenas, respectivamente, dois e seis núcleos ao partido – o que é nada, se considerarmos a grande importância política e econômica dessas duas províncias no Império. Quanto às demais províncias do Norte, todas pareciam insensíveis ao entusias - mo dos evangelizadores meridionais. O quadro abaixo, em que se vê a distribuição regional e percentual dos Clubes Republicanos ao Norte e ao Sul, bem demonstra essa refratariedade ou atonia do Norte ao apelo crescente do Sul: R EGIÕES CLUBES % Norte 33 11 Sul 204 89 Vê-se que quatro quintos dos centros republicanos estavam ao Sul, na sua maioria localizados em São Paulo e Minas. Só estas duas pro- víncias, das 20 de que se compunha o Império, absorviam nada menos de 44%, isto é, quase a metade deles. O campo de irradiação do ideal republicano era então, como se vê, pouco extenso a 15 de novembro de 1889. Tanto mais quanto, desses 237 “Centros”, a maioria, talvez 90%, devia representar nódulos de crentes de tipo passivo ou estático, destituídos de qualquer espírito militante e de qualquer aptidão evangelizadora.

Esta a condição do ideal republicano, no ponto de vista da sua ex- pansão geográfica, em 15 de novembro de 1889. No ponto de vista da sua expansão social, a sua situação não era também mais favorável. O ideal republicano – já o vimos – não era o ideal das figuras mais representativas daquela época. O grosso das classes conservadoras, cépticas ou descrentes em relação à Monarquia, como já demonstra - mos, tinha em certa suspeição o sistema republicano. Onde este en - contrava os seus adeptos mais fervorosos era na classe dos estudantes, entre os bacharéis novatos ou entre os “cadetes filósofos” da Escola Militar: “A mocidade que surge das Academias, dos Seminários, do Exército, ou Armada” – dizia o deputado Afonso Celso Júnior, em 1888 – “é francamente republicana.” Era, com efeito, nessas classes de letrados inexperientes, cheios de entusiasmo juvenil, mas sem grandes responsabilidades sociais e, mui- to menos, políticas; era nessas classes que o partido republicano recru- tava a quase totalidade dos seus adeptos. Os próprios elementos da grande aristocracia rural, embora desgostosos com a Monarquia, que lhes apunhalara o coração, não se tinha abandeirado inteiramente para a República: revelavam uma certa recalcitrância em fazê-lo. Os repu- blicanos eram, por isso, já nas proximidades de 15 de novembro, prin- cipalmente gente de cidade e vilas – e não gente do campo. É o que se depreende do testemunho insuspeito do deputado Sebastião Masca - renhas. Contestando que a expansão da idéia republicana fosse devida aos despeitos provocados pela Abolição, dizia ele, na sessão de 11 de setembro de 1888:

“Sr. Presidente, o entusiasmo com que as idéias republicanas são abraçadas na minha província (Minas), não provém do despei- to por causa da Abolição, como entendem alguns nobres deputa - dos e o Governo. Para provar o erro em que se acham os nobres deputados e o Governo, basta dizer que a maior parte dos republi- canos é residente nas cidades e vilas.” O grosso dos contingentes do partido republicano não perten - cia, pois, à grande aristocracia territorial. O novo idealismo era antes negócio da gente de cidade e – se quisermos conciliar este testemunho com o testemunho de Afonso Celso – impressionan - do, não todos, mas apenas os elementos mais novos e inquietos das elites urbanas. Entre esses elementos havia, sem dúvida, grandes e belas inteli- gências e espíritos de rara estrutura idealista; mas havia também, especialmente nas províncias, muito declamador vazio, muito grande homem improvisado que só nos parecia grande porque os víamos de longe, sob a influência amplificadora da distância. Muitos deles tinham vindo da campanha abolicionista e haviam penetrado o campo republicano, aproveitando-se da espantosa confusão do momento: “O abolicionismo teve justamente um dos muitos vícios neste ponto – dizia melancolicamente um contemporâneo –; deu oca - sião ao aparecimento de nulas personalidades, chamadas à tona pelo barulho e confusão das idéias.”

Esses neófitos do credo republicano, que mais tarde seriam cano - nizados e passariam a figurar no Flos Sanctorum do Historicismo, pos- suíam, na sua generalidade, uma mentalidade de declamadores e, como tais, contentavam-se em atirar, com intuitos ferozmente de - molidores, ruidosas bombas de retórica contra o Trono e a Dinastia – e apenas isso. Não pareciam ter uma consciência exata e precisa do alcance das suas idéias. Não debatiam problema algum de uma ma - neira concreta e objetiva: estavam sempre dentro do campo daquela “política silogística”, de que falava Nabuco. Não pregavam; decla - mavam. Este fluxo oratório, aliás, só se lhes tornou grande depois da Aboli- ção; antes dela, dir-se-ia que não tinham ambiente próprio para as vi- brações da sua eloqüência. Os primeiros deputados republicanos, com efeito, ao contrário do que se esperava, não se mostraram muito fe- cundos: alguns não chegaram mesmo a dizer ao que vinham; desde- nhando naturalmente a vã verbiagem dos sofistas, recolhiam-se ao si- lêncio pitagórico – naturalmente por ser mais fecundo. 9 Outros fala- vam; mas a impressão dos seus discursos não parecia ter sido profun- da. Campos Sales, por exemplo, em quem se ocultava uma robusta en- vergadura de homem de Estado, deu a todos uma impressão de orador provinciano, gênero ronflant: “Voz potente” – diz um seu colega de Parlamento – “elocução desembaraçada, cheio de si, encarnava o tipo do oradorronflant,o u o dos atores de pequeno teatro, que, representando papéis ferozes, esbugalham os olhos e berram sem medida no gesto e na dicção. Pronunciava a palavra República com muitos rr e a palavra povo com 9 Cf. CELSO, Affonso. Oito Annos de Parlamento, pp. 249-250.

muitos oo, arrastando a língua, esforçando-se por emprestar ento - nações trágicas e misteriosas ao lugares mais comuns”.10 Era esta, afinal, a mentalidade dos chamados propagandistas. Os raros deles que ainda sobrevivem mostram, com ainda mais raras exce- ções, que a mentalidade de Campos Sales era a do tipo mais comum entre aqueles evangelizadores. E a verdade é que, proclamada a Repú- blica, o que de grande e substancial alguns deles conseguiram realizar depois – como o próprio Campos Sales – não foi, de modo algum, de- vido à obediência dos dogmas e princípios contidos na farfalhagem doutrinária do Manifesto de 1870; ao contrário, só o realizaram jus- tamente porque, na prática, conseguiram libertar-se deles. Nesse grupo de ideólogos da República e de declamadoresronflants, destacava-se um pequeno contingente, para quem a crença no ideal re- publicano tinha uma sólida base filosófica. Eram os positivistas. Os positivistas eram republicanos, mas à sua maneira, à sua origi- nalíssima maneira. Embora concordando com os outros na superiori- dade da forma republicana do governo, diferiam deles profundamente em muitos pontos essenciais; em certos pontos estavam mesmo em completo antagonismo com os signatários do Manifesto de 1870. Em boa verdade, estes eram, antes de tudo, democratas, e os positivistas, no idealizarem a sua organização republicana não eram propriamente isto, não pareciam cortejar o elemento democrático; pelo menos, no tipo de governo que concebiam, a Democracia não ocupava um gran- 10 CELSO, Affonso. Op. cit., p. 168.

de lugar; pode-se dizer mesmo que tinha pouco que fazer. Eles tinham em suspeição as maiorias populares e mesmo as maiorias parlamenta- res; faziam o possível para evitar a intervenção da Democracia nos ne- gócios do governo – e não há dúvida que faziam muito bem. Pareciam dizer como Robert Michels: – “Dans un parti, et plus particulièrement dans un parti politique de combat, la démocratie ne se prête pás à l’usage domestique: elle est plutôt un article d’exportation.” O governo do seu sonho, o governo ideal, o governo perfeito era a República Ditatorial, de Comte – e não a República Democrática, de Ledru-Rollin: por isso, achavam que, na elaboração da Constituição Republicana, não se devia apelar para “o perigoso recurso de uma Assembléia Constituinte” – e era o próprio Governo quem a devia de- cretar. 12 O resultado final para onde devia tender o seu sistema de go- verno era a constituição de uma sorte de mandarinato intelectual, uma oligarquia de sábios e filósofos, e não o domínio absurdo do Demos, o governo das maiorias populares – e eram neste ponto perfeitamente razoáveis. Para o seu idealismo, eles haviam, como confessam, aproveitado todas as idéias de Comte sobre a organização política: “adecuada á faze inicial da tranzição moderna, i que se axão principalmente con- segnadas no 5.º cap., da Politica Pozitiva¸ no Apelo aos conservadores, nos projetos constitucionais elaborados, sob a sua inspiração, de 1848 a 1850, pela Sociedade Pozitivista de Paris, nas circulares anuais, nas cartas escritas aos seus discipulos até agora publicadas.” E l e ss ea p r o x i m a r a m,p e l o ss e u si d e a i sp o l í t i c o s,m a i sd o sm o- narquistas liberais do que dos republicanos democratas. O que lhes 11 MICHELS. Les partis politiques. Paris, 1921, p. 24. 12 Vide Decima Circular Anual do Apostolado Positivista no Brazil, p. 14. 13 Decima Circular, idem.

repugnava na Monarquia era o privilégio dinástico, era a heredita - riedade de sangue; mas a sua ditadura republicana não era senão uma sorte de Monarquia eletiva, aliás muito menos impregnada do princípio democrático do que a Monarquia eletiva dos liberais, – pois, nesta, é o Povo quem elege o novo chefe vitalício e, na Repú - blica Comtista, o próprio chefe é quem designa o sucessor, à manei - ra dos Césares romanos. Era qualquer cousa análoga à concepção republicana de Manzini, da qual se disse que não diferia da Monar - quia senão que comportava uma dignidade de menos e um cargo eletivo demais. Os republicanos democratas, com as suas preocupações de eleti - vidade, com as suas predileções pelos curtos mandatos, com a sua teoria da renovação freqüente dos cargos eletivos, com o seu horror à vitaliciedade, colocavam-se em pólo oposto ao destes algebristas do Direito Público – e nada mais natural que se estabelecesse anta- gonismo flagrante entre eles, se não existissem esses dois pontos de afinidade: o princípio da liberdade civil e a preocupação federativa. Como os seus companheiros democratas, fiéis à letra do Manifesto de 1870, eles pleiteavam também “consolidar a autonomia local dos Estados, completar a liberdade espiritual i estabelecer a liber- dade industrial i profissional”. 14 Iam mesmo muito mais longe no ponto de vista das liberdades civis – porque também queriam a “liberdade bancária i a liberdade de testar i de adotar”. Estas liberdades não conseguiram introduzir na Constituição; mas, segundo eles, as outras liberdades nela existentes devem-se exclusiva- mente à ação deles e ao seu prestígio: 14 Vide Decima Circular, p. 15. Vide tambémBase de uma Constituição Politica Ditato- rial Federativa, por Miguel Lemos e R. Teixeira Mendes.

“Se não conquistamos” – dizem na sua Decima Circular –“ a liberdade bancaria, a liberdade de testar i de adotar; en conpensa- ção obtivemos todas as consecuencias da liberdade religioza, proibição do anonimato na imprensa, a liberdade profissional em toda a sua estensão.” Há evidente exagero da parte dos positivistas em relação a esta su- posta influência por eles exercida sobre as novas instituições. Muitas dessas liberdades, que eles julgavam conquistas suas, já estavam nas preocupações dos nossos velhos liberais, desde os progressistas de 1862 aos radicais de 1868. Por outro lado, a aspiração federativa teve uma origem inteiramente fora do campo de influência do Apostolado. O credo positivista pode-se dizer que teve uma irradiação insignifi- cante. Mais extensa nos centros de cultura matemática, como a Escola Politécnica e a Escola Militar, foi quase nula nos outros centros cultu- rais, como as Academias médicas e jurídicas do Norte e do Sul. Nes- tas, depois de uma rápida fascinação pela filosofia comteana, o espíri- to dominante passou a ser o das grandes correntes filosóficas, vindas da Inglaterra e da Alemanha – com Spencer e Haeckel, principalmen- te. Muitos espíritos filiados, a princípio, à concepção comteana, aca- baram abjurando a sua dura ortodoxia e passaram, deixando o mare clausum da Philosophia Positiva, a navegar no mar livre e largo do Evolu- cionismo, do Transformismo e do Monismo. É que o Positivismo, apesar da sua beleza estrutural e da elevação da sua moral, não era uma doutrina de que emanassem eflúvios de sedução; dir-se-ia, ao contrário, carregada de eletricidade negativa: não atraía, repe- lia. Nos seus dogmas, nos seus preceitos, nas suas regras, duras como to- mentos de linho bravo, havia qualquer coisa que recordava os ásperos cilí- cios monacais, e os seus discípulos pareciam antes severos Batistas, vesti- dos de pele, de cajado profético, macerados pelas rudes abstinências do

deserto.15 Daí a sua pequena irradiação aqui. Daí a exatidão daquela ob- servação de Nabuco – de que o Positivismo não havia encontrado “na nossa sociedade elementos a que se pudesse incorporar”. Demais, os propagandistas da nova religião – aRelijião da Umanidade, conforme a sua grafia original – eram inteiramente falhos de capacida- de evangelizadora. Puros cerebrais, com uma certa secura d’alma, ape- sar dos seus postulados altruísticos, faltavam-lhes todos os dons do aliciamento e da persuasão e essa ponta de ternura – o “ milk of human kindness” – indispensável à comoção das almas. Não havia entre eles nenhum grande orador, nenhum grande escritor; como se a própria doutrina, pela sua austeridade e pelo seu rigor científico, estancasse nos apóstolos e crentes todas as fontes da emoção, da graça e da poe- sia. Os seus poetas – os que faziam a chamada “poesia científica” – pareciam, pela dureza e rigidez das suas estrofes, que subiam ao Pindo montados em cavalos de pau, e não em Pégasos de carne e osso. Nas suas prédicas não havia a doçura infiltrante das pastorais, nem a unção aliciadora das homilias. Eram sempre afirmativas, dogmáticas, intole- rantes, agressivas, ferindo, com argumentos duros como blocos de quartzo, todos os não convencidos da Verdade. 15 “O Apostolado Positivista tem por fim propagar a Relijião da Umanidade, fundada por Augusto Comte, pela ação oral e escrita e pelo ezemplo. Todos os seus membros e adherentes aceitão, sem restrição alguma, o conjunto dos deveres pozitivos e negativos prescritos pela sua relijião. De modo mais explicito, comprometem-se: 1.º, a não ocupar cargos politicos durante a faze empirica e de tranzição, segundo foi defi- nida por Augusto Comte; 2.º, a não ezercer funcções academicas, quer no ensino das nossas faculdades superiores, Instituto Nacional, e estabelecimentos conjeneres, quer como membros de associações scientificas ou literárias; 3.º, a não colaborar no jorna- lismo, diario ou não, nem auferir lucros pecuniarios dos seus escritos; 4.º, a assinar com o seu nome todas as suas publicações cuja inteira responsabilidade moral e legal devem assumir.”

Eles revelavam, afinal, com esta intolerância uma completa ausência de tática; porque há também tática, toda feita de finas intuições psicoló- gicas, na propaganda das idéias – “Ceux qui possèdent la vérité doivent la répan- dre avec prudence”, já dizia um certo personagem anatoleano – e os positi- vistas mostravam não conhecer essa arte sutil de espalhar com parcimô- nia e doçura a Verdade. Diante do ceticismo, que negaceava e sorria, ou do erro, que recalcitrava e teimava, irritavam-se e acabavam sempre dan- do na cabeça dos não conformistas com o duro epíteto de “pedantocra- tas” e “anarquizados mentais” – o que fazia com que os ignorantes con- tinuassem no seu erro e os cépticos no seu cepticismo. O campo de propagação do Positivismo em nosso país foi, por isso, limitado, muito limitado mesmo. De 78 a 89, o grupo dos ade- rentes era insignificante, nulo até, para um credo que se jacta de tama- nha influência sobre os acontecimentos daquele tempo. O grupo dos adeptos da Abolição cresceu na razão cêntupla; o dos adeptos da Re- pública, na razão décupla talvez; mas o do Positivismo teve uma ex- pansão tão lenta e restrita que, em dez anos, de 78 a 89, só conseguiu chegar a meia centena. É que se vê no “Quadro jeral da marxa anual do numero de contribuintes do subsidio pozitivista brazileiro, desde 1878”, publicado na Decima Circular do Apostolado: A NO CONTRIBUINTES 1878 5 1879 6 1880 12 1881 50 1882 59 1883 43 1884 34

ANO CONTRIBUINTES 1885 54 1886 48 1887 49 1888 52 1889 53 Por aí se vê que, a 15 de novembro de 1889, se fôssemos reunir to- dos os partidários de Comte existentes no Brasil, teríamos a surpresa de verificar que todos eles juntos cabiam muito folgadamente dentro do salão do Clube Militar... Certo, o pensamento positivista teve uma notável influência no ad- vento e na organização do novo regime, mas esta influência não foi de- vida à influência do ideal positivista, à sua irradiação pelas massas ou, ao menos, pelas elites. O que permitiu ao Positivismo exercer a inegá- vel influência, que exerceu, foi um fato puramente acidental: a coinci- dência de serem deste credo filosófico alguns dos elementos prestigio- sos na organização do novo regime. Esta influência do Positivismo foi então uma influência de crentes – e não do credo em si. O contingente que o grupo comtista trouxe ao partido republicano foi, como se vê, pequeníssimo, embora intelectualmente prestigioso. Por sua vez, o partido republicano, a 15 de novembro de 1889, não era também numeroso: compunha-se apenas, como já demonstramos, de cerca de duas centenas de pequenos nódulos, espalhados pelo país, mas agrupados mais densamente nas regiões meridionais. Os elemen- tos políticos, na sua generalidade, dividiam-se, quase todos, entre as

duas grandes organizações partidárias do Império – a facção conser - vadora e a facção liberal, uma e outra dotadas de poderosa organiza- ção. Diante dessas duas sólidas massas organizadas, o Partido Republi- cano, que a retórica dos seus oradores dava como “forte e pujante”, fa- zia uma figura mesquinha: não era propriamente partido, era um esbo- ço de partido, uma nebulosa em via de condensação. O único ponto do país em que ele afetava uma estrutura menos rudimentar, era São Paulo: ali o processo agregativo havia adiantado sensivelmente a sua evolução, e os pequenos nódulos municipais, 48, ao todo, se federa - vam sob um diretório comum, com centro na Capital paulista, e onde figuravam nomes que haveriam de encher mais tarde um largo período da história republicana. No resto do país, exceto talvez no Rio Grande do Sul, era tudo in- coesão, desorganização, inorganização. Os pequenos nódulos locais agiam isolados, cada qual por sua conta, sem nenhum centro de coor- denação comum, que lhes regulasse os planos de mobilização e a or- dem dos movimentos. Tanto assim era que, até quase nas vésperas da proclamação, o Partido Republicano não tinha um chefe comum, ao modo do Liberal e do Conservador. Somente em 1889, vinte anos de- pois do Manifesto de 70, é que os republicanos, reunidos em Con gresso geral, resolveram eleger o seu chefe ostensivo – Quintino Bocaiúva, a quem deferiram a direção suprema do partido. Estavam a seis meses apenas do dia de seu triunfo – e ainda eram uma congérie de batalhadores escoteiros, agindo em pequenos pelotões isolados, à ma- neira dispersiva das guerrilhas! É impossível, portanto, fugir à conclusão de que, pela ação exclusi- va dessa congérie de idealistas desorganizados, seriam inexplicáveis os acontecimentos decisivos de 15 de novembro. O Partido Republica- no não tinha, por esse tempo, só por si, poder para operar tamanha

transformação política. O ideal, que ele propugnava, não havia ainda conquistado as maiorias populares; ao seu lado não estavam as gran - des classes conservadoras; não estavam ao seu lado as figuras represen- tativas do país. Os elementos, que por ele batalhavam, eram represen- tados principalmente pela rapaziada inexperiente e sonhadora das es- colas e careciam, pois, de prestígio político bastante para sacudir e abalar dos seus fundamentos o velho edifício da Monarquia. Na ver- dade – e os dados estatísticos que exibimos bem o mostram – não ti- nham força sequer para porem abaixo uma oligarquia provincial. Os republicanos, entretanto, nas proximidades do grande dia, cos- tumavam dizer – uns com ares misteriosos, outros com franqueza aberta – que a República era certa, que a República não tardava, que a República estava próxima, que a República aí vinha – e o diziam com este acento firme e convencido de quem tem a certeza da posse absolu- ta da verdade. Eles tinham, realmente, razão para assim se comportarem, para se encherem dessa íntima, mas transparecente, segurança d’alma. Iam vencer; mas a certeza dessa vitória não lhes era dada por nenhum gran- de movimento da opinião nacional. Essa certeza lhes vinha da ciência, em que todos estavam, de que os truques de uma cabala feliz, tramada nos bastidores dos quartéis pelos políticos de casaca, haviam posto ao lado da ideologia republicana a arrogância e a indisciplina dos políti- cos de farda.

Quarta Parte O papel do elemento militar na queda do Império

O ocaso do Império

Sinopse

Leia gratuitamente O ocaso do Império, de Oliveira Viana, ensaio clássico de interpretação histórica e política do Brasil em domínio público. Edição digital preparada a partir da fonte BLPL/UFSC, com a introdução moderna e o paratexto editorial removidos do corpo principal, organizada em seis capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

O ocaso do Império

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