Universo da obra
Universo da obra
I. O Exército e as explorações dos políticos civis. Osta- bus de dragonas e sua função. – II. Explorabilidade do ele- mento militar. Teorias tendenciosas. O “cidadão de far - da”. – III. Incompatibilidade entre a psicologia militar e a psicologia dos nossos partidos políticos. Conseqüências dessa incompatibilidade: a aptidão deflagrante do elemen- to militar. – IV. Exemplos dessa aptidão deflagrante. Pe- lotas e sua atitude nas questões militares de 1886-87. O caso Cunha Mattos. O caso Senna Madureira. Novas teo- rias tendenciosas, engenhadas pelos políticos civis. – V. O “cidadão de farda” e a sua psicologia contraditória. Deo- doro e a sua atitude em 1886-87. A moção do “Recreio”: sua significação. – VI. O papel dos políticos civis nas agi- tações militares: a sua ação instigadora. O tato de Cotegi- pe. Pusilanimidade dos elementos civis diante da força ar- mada. Outros recursos de reação: a “ferida cruel” e o cica- trizante adequado. Ebulição militarista. Os “arranhões” de Cotegipe e a moção do Senado. – VII. Novos atritos. Questões surgidas sob o Gabinete João Alfredo. Atitudes dos políticos civis. – VIII. Reação de Ouro Preto. Cotegi- pe e Ouro Preto: os dous temperamentos e as duas políti- cas. Irritação crescente dos elementos militares. Conse - qüência: a explosão de 15 de novembro. – IX. Ouro Preto e sua mentalidade política. Confronto com Cotegipe. O militarismo e a sua profilaxia.
Os nossos políticos civis sempre viram no Exército um campo a ex- plorar em benefício dos interesses deles: os da oposição – para subi - rem ao poder; os do governo – para se conservarem nele. Os que estão debaixo vão aos quartéis para desalojar do poder os que estão de cima; estes apoiam-se nos quartéis para não serem desalojados pelos que estão debaixo. E tem sido esta – a de mero instrumento das ambi - ções civis – a função propriamente política do Exército em nossa his- tória. Esta passividade dos elementos militares é paradoxal, sem dúvida; mas é um fato. Os nossos políticos civis, psicólogos sagazes, sempre se mostraram extremamente hábeis na arte, aparentemente perigosa, mas realmente sem perigos, da domesticação dos nossos leões de farda. Está claro que, quando dizemos “domesticação”, não queremos dizer apenas a aptidão de amansá-los, mas também de embravecê-los. Por- que, como veremos depois, os interesses da nossa politicagem sempre exigiram ora uma, ora outra dessas coisas. Há, por isso, uma grande ilusão quando se fala em “política mili- tar” e “militarismo” em nosso país. Nunca houve, entre as nossas clas- ses armadas, esse estado de espírito que constitui o militarismo, nem a sua conseqüência lógica, que é uma política militar. O nosso Exército pode ter um certo espírito de corpo, aliás muito menos vivo do que no das velhas nações militarizadas; mas não tem, nem nunca teve, cons - ciência de uma missão política qualquer, em contraposição às classes civis do país. É certo que ele tem sido fator decisivo em muitos movimentos po- líticos nacionais, a começar pelo da nossa Independência; mas nunca agiu, em todos esses movimentos, por um impulso próprio, originado do seu próprio seio e como objetivação do pensamento de uma políti-
ca de classe. Muitas vezes ele tem revelado uma certa capacidade em se deixar tomar pelo idealismo das classes civis, como no caso da Inde - pendência e como no caso da Abolição; mas pode-se dizer também que, muitas vezes, estas atitudes idealistas, que exibe, dissimulam ape- nas a sua extrema receptividade às explorações e às intrigas da nossa politicagem de casaca. Psicólogos experientes, com o faro balzaquiano das fraquezas hu- manas, os nossos políticos bem conhecem esta receptividade, bem sa- bem desse ponto de menor resistência da sensibilidade das nossas clas- ses militares. É justamente explorando estes “fracos” da classe que de- têm a força, que eles nunca falharam numa só tentativa junto a elas, é que sempre tem podido fazer irromper, de improviso, das portas ameiadas dos quartéis para o espanto cá de fora das galerias “bestiali- zadas”, ou um bando de ovelhas, ou uma alcatéia de feras agaloadas – à vontade. Seria injusto dizer que esta exploração inteligente e sistemática das classes militares pela politicagem civil tem sido obra exclusiva da Re- pública. Não: esta exploração vem de mais longe e – sem querermos remontar aos incidentes que marcam o advento do Período Regencial – podemos fixar o seu ponto de partida em 1870, com o retorno do nosso Exército dos campos de batalha do Paraguai. Desde esse mo - mento, começamos a observar que os maiorais e os capitães dos dous grandes partidos imperiais entram a voltar-se muito insistentemente para as nossas forças armadas, a lisonjeá-las, a cortejá-las, parecendo todos tomados de uma súbita paixão pela carranca severa da Minerva dos quartéis. Liberais e conservadores passaram a descobrir desde então na Espada o melhor dos fetiches tutelares – e é de ver as finas manhas que uns e outros empregavam para arranjar para o seu clã um tabu de dra- gonas. Os liberais tiveram o seu Osório; depois, em Pelotas, cuja im-
petuosa arrogância eles souberam explorar da maneira mais hábil. To- dos nós sabemos como as atitudes, aliás de uma impertinência estri - dentes, de Pelotas para com o Gabinete Cotegipe contribuíram para os acontecimentos, que haveriam de dar em terra com aquele Gabine- te, depois com o Gabinete Ouro Preto e, afinal, com o próprio Trono. Os conservadores, por seu lado, orgulhavam-se – e com razão – da sombra protetora que sobre eles derramava o totem da sua tribo: Caxi- as. Morto Caxias, a velha agremiação partidária, passado o período do luto e da inconsolabilidade, sentiu anseios de um novo amparo e co- meçou a requestar Deodoro. Cotegipe representou nesta nova fase a delicada função de matrona amável, de tia velha que favorece as apro- ximações: “Morto Caxias e reconstituído o amuleto de Osório pela esco- lha de Pelotas, que o sucedera no Senado, Cotegipe, aliás o chefe mais perspicaz dos conservadores, começava a despertar a ambi- ção de Deodoro, revelando ao Barão de Lucena os seus planos de elevar aquele que se lhe afigurava em futuro próximo ‘o nosso Ca- xias’, isto é, o general conservador, levando para o Senado, o Con- selho de Estado, o Ministério da Guerra, quiçá a presidência do Conselho, a espada valorosa, com os copos enflorados de brasões de nobreza.” Neste ponto, o bravo Fonseca parecia um predestinado: requesta- do pelos conservadores, requestado pelos liberais, o foi também pe - los republicanos – e já agora com o êxito sabido, numa esplêndida confirmação do princípio evangélico de que os últimos serão sempre os primeiros. 1 MONTEIRO, Tobias. Op. cit., p. 117.
Esta aliança inteligente das figuras de mais prestígio e popularidade do Exército por meio do afago das suas naturais vaidades e fraquezas não era tudo; mas, apenas, uma operação preparatória ou acessória, uma parte apenas do grande programa de exploração sistemática das forças armadas, desenvolvido, como vimos, desde 1870, com inegável habili- dade, pela classe dos políticos civis. Como vemos hoje na República, es- ses truques de tática aliciadora, com que jogavam os políticos de então, não se esgotavam no simples fato de conseguir para o seu clã partidário um vistoso ídolo de farda; isto por si só não teria uma importância algu- ma, ou teria uma importância secundária. O objetivo capital dessas ma- nobras estratégicas por eles desenvolvidas estava principalmente em preparar um conjunto de circunstâncias, um ambiente apto a constituir como que um campo de atritos entre as susceptibilidades conhecidas da classe militar e as atitudes políticas dos Gabinetes ou de uma dada situa- ção partidária. Estabelecido este centro de atritos, era então a vez doto- tem do clã, o poderoso fetiche de dragonas e punhos estrelados entrar em função, como agente unificador, concentrando e personalizando to- das as susceptibilidades da coletividade exacerbada. Desde esse momen- to, toda essa mole armada, posta em movimento sob a ação de espírito de classe, passava a atuar por si mesma, – pela ação material da força, ou apenas pela ação moral do pavor: e os objetivos visados pelos seus ex- ploradores eram então alcançados na sua plenitude. Era este o mecanismo do sistema de exploração das classes arma - das, concebido, organizado e montado pelos políticos do Império e que haveria de ser, dentro em pouco tempo, o aríete com que iriam desmantelar, involuntariamente talvez, o próprio Império. Vê-se que em nada diferia do sistema empregado pelos políticos da República. Estes continuaram aqueles; com esta diferença – que os do Império pareciam revelar uma mais sutil inteligência na seleção dos meios e dos processos a empregar.
Pela sua psicologia específica, as nossas classes armadas aparece - ram sempre aos olhos dos nossos políticos civis em condições admirá- veis de explorabilidade – e isto porque elas constituem em nosso país as únicas classes que possuem um sensível espírito de corpo e um vivo pundonor profissional. Este espírito e este pundonor profissional es- tão muito longe de ter, é certo, o vigor e a amplitude que demonstram nos exércitos das velhas nações européias; mas não deixam de ser bas- tante vivazes para que os elementos militares se sintam perfeitamente distintos das demais classes sociais. Depois da guerra do Paraguai, este sentimento de distinção de clas- se se intensificou ainda mais e repassou-se mesmo de um certo senti- mento de superioridade. Então, os militares, vindos das duras prova- ções da guerra, sentiam-se como que purificados pela grandeza e pela heroicidade da obra realizada – e tudo isto lhes dava uma arrogante convicção de serem superiores a nós outros, amolentados sibaritas de casaca, pela moralidade, pela austeridade, pela abnegação, como pela simplicidade e pobreza de seu viver. Eles tinham, a princípio, e até certo ponto, razão: eram desambici- osos, eram frugais, eram pobres, e eram, por isso mesmo, honestos. É certo que depois se foram deixando contagiar, infiltrar-se dos vícios civis, e a sua desambição desapareceu, e a sua frugalidade desapareceu, e mesmo a sua pobreza desapareceu; só a honestidade não desapare - ceu; mas nesse ponto, eles não se distinguiam em nada dos demais bra- sileiros – porque a honestidade tem sido aqui um belo predicado cole- tivo, o apanágio de um povo crescido e educado à sombra de velhas tradições patriarcais. Como quer que seja, nos meios militares, no último quartel do Império, havia generalizada esta convicção, de fundamento duvidoso,
de que os homens de farda eram “puros”, “sãos”, “patriotas”; ao passo que os civis – os “casacas”, como desdenhosamente os chamavam – eram corruptos, “podres”, sem nenhum sentimento patriótico. Daí uma certa mentalidade salvadora, engrandecida pela sugestão da cau- dilhagem platina, com a qual os maiorais do nosso Exército, durante o ciclo guerreiro do Paraguai, haviam mantido um convívio muito ínti- mo. Nenhum documento exprime melhor esse estado de espírito dos nossos meios militares do que esta carta confidencial de Floriano ao seu colega General Neiva: “10 de julho de 1887 – João Neiva – Vi a solução da questão da classe, excedeu sem dúvida a expectativa de todos. Fato único, que prova exuberantemente a podridão (sic) que vai por este pobre país e portanto a necessidade da ditadura militar para expurgá-la. Como liberal que sou, não posso querer para meu país o governo da espada; mas não há quem desconheça, e aí estão os exemplos, de que é ele o que sabe purificar o sangue do corpo social, que, como o nosso, está corrompido. – Floriano Peixoto.” Esta convicção dos nossos “cidadãos fardados” na sua pureza e in- corruptibilidade, tão clara nesta confidência de Floriano, e a conseqüen- te mentalidade salvadora que dela se originou, não teve, por si só, força para levar as nossas classes armadas à criação e ao desdobramento de uma verdadeira política militar, isto é, de uma política exclusivista, de classe, que se epilogasse com a instituição definitiva em nosso país de uma oligarquia privilegiada, somente composta de puritanos de dragonas e patriotas de punhos agaloados. Havia muito platonismo nesta atitude mental das nossas classes militares – e é quase certo que eles não teriam saído desta atitude por um puro movimento da sua espontaneidade. Os políticos civis é que, explorando esta convicção da superioridade de
classe, arrastaram os militares para esse campo perigoso, onde se ope- ram os entreveros das nossas guerrilhas pela conquista do poder. Para isto, eles não se limitavam a fazer com que o tabu militar do partido esposasse, de uma maneira ostensiva, as animosidades civis do seu clã; criaram também adrede um conjunto de teorias tendenciosas, cujo intuito era dar uma aparente justificação a certas atitudes políti- cas dos militares, claramente infringentes dos princípios da subordi - nação e da hierarquia. Neste ponto eles revelaram sempre uma intuição muito penetrante da psicologia militar. Eles sabiam, por exemplo, que um dos mais vivos pundonores do soldado, principalmente da oficialidade, é a discipli - na: um verdadeiro soldado procura sempre não infringir este princí- pio vital da sua corporação. Daí, em todos os militares que ingressa- vam na política, freqüentes “casos de consciência”, em que eles, como Hamlet, tomavam-se das incertezas angustiadas doser ou donão ser,v a - cilando sobre si uma data atitude política calhava ou não calhava com os deveres da disciplina e da obediência. Deviam ser momentos de grande angústia, realmente, estes para os verdadeiros “cidadãos de far- da” – “puros”, não “podres”, “patriotas”, etc. Muitos deles deviam ter naturalmente renunciado de antemão quaisquer veleidades políticas, somente pelo receio de uma possível infração ao código da classe no tocante ao grande dever profissional. Ora, os políticos do Império, que queriam atrair para a sua causa o prestigio e a força da Espada, nunca deixaram de acudir, pressurosos, com todos os recursos da sua inventividade diabólica, a estes militares em crise de escrúpulos. No arsenal dos seus sofismas e exegeses ten - denciosas, sempre souberam encontrar um lenitivo eficaz para estas consciências em transe, ou uma fórmula calmante para as dúvidas e as inquietações desses Hamlets de farda. Eles é que criaram com este fim – a teoria “cidadão fardado”.
Esta teoria tendia a justificar o direito dos oficiais do Exército de fazerem a sua política, ou a sua politicalha, como qualquer civil. O soldado – diziam – pelo fato de ser soldado, isto é, de andar armado de espada, ou pistola, ou carabina, não deixava de ser cidadão; era um cidadão como qualquer outro, apenas um “cidadão fardado”; ti - nha, portanto, o direito que assistia a qualquer outro cidadão, vestido de casaca ou de blusa – o direito de meter o nariz em política, de votar em quem quisesse e, logicamente, de estar ou não contra a política do partido do Governo. Era de ver-se então o esforço que todos esses sofistas faziam para dissimular os perigos e as contradições dessa teoria. Eles evitavam che- gar à conseqüência lógica desta tese imprudente: – desde que permiti- am aos homens de farda estarem ou não contra a política do partido do Governo, logicamente não poderiam impedir que eles acabassem estando ou não contra a política do Governo e, portanto, contra o Go- verno – cousa sem perigo nenhum tratando-se de cidadãos de casaca, mas extremamente perigosa, tratando-se de cidadãos de farda, isto é, de cidadãos que, embora ingressando no campo trepidante da política partidária, não haviam renunciado ao direito, que os cidadãos civis nunca tiveram, ao uso cumulativo da espada, da pistola e da carabina. No fundo, querendo criar uma igualdade, eles estabeleciam uma desigualdade. Realmente se, dando o direito de sufrágio e de elegibili- dade ao “cidadão armado”, realizavam uma obra justa de equiparação entre as duas categorias de cidadãos; por outro lado, criavam, com esse aparente nivelamento de direitos políticos, uma perigosa situação de desequilíbrio entre o cidadão de farda e o cidadão de casaca, quando um conflito se abrisse entre um e outro. Porque, se este, o cidadão de casaca, tinha para ampará-lo a cana da sua bengala, aquele encontrava o seu apoio na lâmina da sua espada – e está fora de dúvida que a pe- quena minoria dos cidadãos, que manejavam instrumentos de ferro,
haveria de acabar fatalmente dominando a grande maioria dos cida - dãos que manejavam instrumentos de pau – o que não seria justo e muito menos democrático. Logicamente, todas as vezes que um cidadão de farda sentisse pruridos de envolver-se nas lutas dos partidos civis, o que ele deve - ria fazer, para uma perfeita igualdade com os cidadãos de blusa, era não só despir a farda, mas também a armadura, abandoná-las, dei - xando uma e outra dependuradas no sarilho dos quartéis. Somente depois desse gesto de renúncia heróica ele teria o direito de pene - trar o campo da política e dos partidos civis, e partilhar das crenças e das paixões dos cidadãos sem farda. Penetrando, porém, esta are - na vibrante, sem despojar-se previamente do peso dos seus apetre- chos de combate, o menos que poderia acontecer a qualquer destes puritanos agaloados era pôr em risco a dignidade da própria farda – e isto porque, pelo seu próprio determinismo, a paixão partidária acabaria levando-o a transformar a nobre armadura de defensor da pátria em cangaço de salteador do poder. Aliás, as próprias classes armadas podiam dar testemunho de que todas as questões políti- cas, em que elas se tinham visto envolvidas até então, desde o pri- meiro Império, tinham tido, ou tinham estado na iminência de ter, este desfecho desairoso. O verdadeiro soldado, compenetrado da sua missão sagrada e da austeridade do seu magistério, devia ser alguma cousa comparável a um cenobita devotado à grandeza da sua Ordem: tudo o que não fosse interesse da sua classe, ou deveres da sua classe, estaria fora do hori - zonte das suas idéias e das suas ambições, como do campo das suas ações. Pela natureza mesma da sua estrutura e da sua finalidade, a clas- se a que está incumbida a defesa da Nação não pode ser, com efeito, comparada a nenhuma outra classe civil – e só nas ordens religiosas encontra o seu símile.
Na vida das casernas, devia haver qualquer cousa que recordasse a austeridade da vida monacal. Na cabeceira de cada tarimba devia arder perenemente um lume votivo à políade da Pátria, como na cela de cada mosteiro e à cabeceira de cada monge arde perenemente um lume voti- vo à Divindade Crucificada. O homem que ingressasse nestas confra- rias militares seria como monge guerreiro medieval: batalhando pela sua Pátria, como o Templário batalhava por sua Fé; mas, como este, dotado sublimemente da capacidade das grandes renúncias e das gran- des abnegações. Desde que ele, porém, carecesse desta capacidade, desde que outra ambição o atormentasse, desde que o seduzissem as grandezas que estão para além dos horizontes da sua classe, o que ele devia fazer é o que faria o monge seduzido pelas vaidades do mundo: renunciar o seu sacerdócio, romper o seu juramento, abandonar a sua Ordem. Porque “cidadão de farda” – isto é, homem da Ordem e ho- mem do século, homem de espada e homem de partido, políti- co-soldado e soldado-político – é, sem dúvida, uma entidade ambígua e monstruosa. O conceito do “cidadão de farda” era, como se vê, uma pura con- cepção do racionalismo político, que fazia do direito de sufrágio uma coisa inerente ao homem, como o direito à vida ou o direito à liberda- de de locomoção. Bastaria, porém, um pouco de senso pragmático da realidade e da vida para compreender que, mesmo que a razão especu- lativa justificasse a capacidade eleitoral dos membros das nossas clas- ses armadas, tudo estava aconselhando a denegação deste direito aos militares e mostrando os inconvenientes da sua admissão no campo das lutas partidárias. Um pouco mais de patriotismo da parte dos po-
líticos civis – e eles se teriam abstido, em seu próprio proveito e no do país, de defenderem esta tese perigosa. Há, realmente, uma incompatibilidade radical entre a psicologia do militar e os princípios, segundo os quais se desenvolvem as atividades dos partidos em nosso país. Esta incompatibilidade radical torna as lutas polí- ticas, em que aparecem militares, uma fonte de atritos temerosos. O militar tem, com efeito, por educação e por dever, o sentimento muito vivo do seu pundonor pessoal, da dignidade da sua farda e dos seus galões: a própria condição de guerreiro em perspectiva, de ho - mem destinado a uma missão de bravura, justifica perfeitamente esta mentalidade especial. O militar tem, pois, que ser absolutamente in - transigente no tocante ao seu pundonor profissional, que é o da bra- vura. Na vida civil, este pundonor tem uma importância secundária – e o não poder exibir neste ponto o cinturão de ouro dos campeões nunca foi para um paisano um desaire sensível. O militar, ao contrá- rio, tem que afastar da sua personalidade de homem de arma, já não diremos a grave suspeita da covardia, mas mesmo a leve suspeita do medo ou da carência de intrepidez. É, pois, extrema a sua sensibilida- de às ofensas. Conseqüentemente é, pois, extrema a sua reatividade às ofensas. Daí, constituir-se ele sempre, aqui, um elemento explosivo, facilmente deflagrante, quando penetra ou entra em contato com a at- mosfera eletrizada das nossas lutas civis. Estas se perfazem entre nós sob normas, em que podemos encon- trar tudo, menos respeito pela dignidade pessoal dos combatentes. Nesse ambiente de paixões, só há um sentimento dominante: o ódio ao adversário. Neste código de moral, só há um dever supremo: o de- ver da injúria e da difamação. Nenhum princípio de nobreza. Nenhu- ma tradição de hombridade. Nenhuma lei de cavalheirismo. O que importa é negar tudo, mesmo os elementos de vida, ao adversário, como na interdictio aquae et ignis, com que os romanos castigavam os cri-
minosos de lesa-pátria. Cada encontro partidário, cada batalha políti- ca é um drama sombrio e pungente, às vezes sangrento, cujo epílogo é sempre a destruição moral, quando não a destruição física, do adversá- rio. Este é sempre um inimigo, uma sorte deout-law, que se deve liqui- dar, ou na honra, ou no corpo, a golpes de maça. Estamos ainda, neste particular, vivendo uma vida de primitivos, uma vida instintiva, de ho- mens da idade das cavernas. Há muita semelhança da luta política em nosso povo com a luta política nos Estados Unidos; apenas com esta diferença: – que a nossa é em ponto pequeno aquilo que a americana é em ponto grande; pois os processos são os mesmos e a mesma a psicologia dos combatentes: “Da política” – diz Nabuco, falando das suas impressões da América do Norte – “a impressão geral que tive e conservo é a de uma luta sem o desinteresse, a elevação de patriotismo, a delicadeza de maneiras e a honestidade de processos, que tornam na Inglater- ra, por exemplo, a carreira política aceitável e mesmo simpática aos espíritos mais distintos. O que caracteriza essa luta é a crueza da publicidade, a que todos que entram nela estão expostos. Para a re- portagem não existe linha divisória entre a vida pública e a privada. O adversário está sujeito a uma investigação sem limite e sem es - crúpulos, e não ele somente, todos que lhe dizem respeito. O polí- tico é entregue sem piedade aos repórteres; a obrigação destes é ras- gar-lhe, seja como for, a reputação, reduzi-la a um andrajo, rolar com ela na lama. A luta não se trava no terreno das idéias, mas no das reputações pessoais; discutem-se os indivíduos; combate-se, pode-se dizer, com raios Roentgen; escancaram-se as portas dos candidatos; expõe-se-lhes a casa toda como em um dia de leilão.” 2 NABUCO, Joaquim. Minha Formação, pp. 159, 160, 162.
Entre nós, como aliás na América, o político civil fez-se dentro desse meio e, por isso mesmo, afez-se a ele. Criou para o seu uso e para uso da sua classe uma moral, ou melhor, uma filosofia latitudinária e conformista – e essa filosofia adorável o blinda de uma perfeita insen- sibilidade às sarjaduras da injúria e assegura-lhe mesmo, ao que parece, uma certa imunidade ao vitríolo da calúnia. O militar – o “cidadão de farda” – não. Justamente por não ser um político profissional e penetrar o campo partidário apenas a título desportivo, não se resguarda preventivamente com a blindagem da - quela filosofia latitudinária dos políticos civis – e é como alguém que se afundasse numa caatinga sertaneja sem a armadura de couro do va- queiro: dentro em pouco estaria lacerado, sangrando por todos os pontos, deixados nus, da sua sensibilidade. É este justamente o lado delicado da intervenção do militar na po- lítica dos civis. Porque ele se faz homem de partido sem ter abandona- do a sua moral de soldado: nele coexistem, pois, estas duas individua- lidades – do político e do militar. Mesmo sem farda, ele não sabe se- parar, nem pode, estas duas individualidades – e todo o perigo reside precisamente nesta inseparabilidade. O adotar a filosofia latitudinária do político civil seria para ele uma sorte de capitis diminutio moral: dei- xaria de ser o profissional das armas, com a sua psicologia própria, a psicologia da sua classe – e acabaria por ficar mal colocado em qual- quer dos campos: os civis o desdenhariam; os militares o desprezari - am. Ele é forçado, entrando para o campo da política civil, a conser- var, portanto, a sua moral de soldado, o seu extremado preconceito de honra. Daí o grande perigo. Como vimos, o grande objetivo das nossas lutas políticas é o ata - que aos pontos mais sensíveis da dignidade pessoal do adversário. Ora, penetrando um meio assim, sem ter previamente abandonado a viva sensibilidade do seu pundonor profissional, o militar está desti -
nado a ser um elemento necessariamente perigoso e explosivo, tal como uma bomba de dinamite ou uma granada de mão: ao primeiro atrito, deflagrará. Nas questões militares de 1886-87 encontramos, com efeito, exemplos extremamente sugestivos disso que poderíamos chamar – a aptidão deflagrante do elemento militar, quando em contato com a at- mosfera dos partidos civis. Essas questões militares de 86-87 têm uma grande importância – porque delas é que partiu toda a dinâmica do movimento que haveria de dar, dois anos mais tarde, com o trono em terra. O Exército se achava então trabalhado por um vivo fermento de indisciplina. – “Não temos exército, e a sua disciplina é péssima” – dizia Pelotas em 1886. Pelotas citava então esta prova decisiva: em 1884, num efetivo de 13.500 homens, houve 7.526 prisões! O movimento abolicionista, por outro lado, e também a difusão da doutrina positivista haviam induzido os oficiais a atitudes comprome- tedoras em relação às questões políticas em debate. Eles haviam tomado partido: estes eram abolicionistas; aqueles, liberais; aqueles outros, repu- blicanos – e essas atitudes os levavam a freqüentes atritos com os políti- cos mais representativos dos partidos contrários: deputados, senadores, ministros. Nestes atritos o espírito de classe logo se revelava – e a questão pessoal tomava para logo o caráter delicado de uma questão de classe. É o caso da polêmica entre o Coronel Cunha Mattos e o Deputado Simplício de Resende. Da tribuna da Câmara, Simplício injuriara Cunha Mattos, em resposta, aliás, a frases ásperas que este lhe dirigira das colunas da imprensa.
No ardor do debate, Mattos avançou que o culpado de tudo fora o ministro da Guerra (Alfredo Chaves), que, segundo ele, “errara” no despacho que dera a um relatório seu. O ministro imediatamente re- preendeu o oficial indisciplinado e mandou-o prender por 48 horas. Era uma medida perfeitamente disciplinar, e o ministro, aplicando-a, não fez mais do que manter o prestígio da sua autoridade. Mas Alfredo Chaves era um civil, ou melhor, um “casaca”. Na sua providência disciplinar, o Exército viu um endosso às injúrias atiradas pelo deputado, também “casaca”, à dignidade militar. De modo que essa repreensão, tão natural e tão regulamentar, foi como a percussão da espoleta de uma granada: feriu a “honra da farda” – e a honra da farda explodiu. O conflito pessoal generalizou-se, e fez-se conflito de classe. Pelotas, no Senado, declarou que “os oficiais do Exército devi- am ver no que acabava de sofrer o seu camarada uma ofensa a todos eles feita”: “O oficial que é ferido em sua honra – disse ele – tem o di- reito imprescindível de desagravar-se.” No momento em que formulava este princípio do código da honra militar, um outro senador aparteou com esta restrição: “se as leis o permitirem”, tendo em mente, por certo, os preceitos de lei que proi- biam aos militares discussões pela imprensa. Pelotas, porém, retrucou com enorme arrogância, em que transparecia claramente o seu desdém de militar pelos políticos de casaca: “Eu não digo que as nossas leis o permitam; estou dizendo ao nobre ministro da Guerra o que eu entendo que deve fazer um mi- litar, quando é ferido em sua honra, e que fique sabendo o nobre senador de Pernambuco, que quem está falando assim, assim pro- cederá, sem se importar que haja lei que o vede. Eu ponho a minha honra acima de tudo.”
Evidentemente, esta linguagem deve ser muito recomendável e ade- quada num militar, fora da política; dentro da política, misturados aos políticos, fazendo também política, ou mesmo politicalha, mas que - rendo para a sua pessoa imunidades que os políticos não têm, é fazê-lo um agente de irritação permanente, um turbulento crônico, um per - turbador perigoso da ordem pública. O caso Senna Madureira, que veio logo em seguida, é prova disto. Madureira, comandante da Escola de Tiro do Rio Grande, viera em 1886 à imprensa discutir assuntos militares, replicando a uma crítica que lhe fizera o Senador Franco de Sá, ex-ministro da Guerra e, como Simplício de Resende, “casaca” também. Foi repreendido, como não podia deixar de ser. Madureira, porém, temperamento impulsivo de insubordinado recalcitrante e reincidente, não se conformou com a reprimenda. Pro- testou; voltou à imprensa; afirmou que estava sendo vítima de uma in- justiça; e acabou requerendo um conselho de guerra. Tudo absoluta- mente contra os regulamentos militares e os preceitos da disciplina. O ministro, como era natural, indeferiu o pedido: recusou o conse- lho de guerra. Tratava-se de um ato administrativo do ministro, e este ato não podia, está claro, ser julgado sem quebra das leis da hierarquia, por um conselho de oficiais subordinados a ele, ministro. O caso teria tido o seu ponto final aí: não passaria de um simples caso administrativo, se a psicologia do “cidadão de farda” não acudis- se com a sua intervenção perturbadora. Como Cunha Mattos, Madureira fora atacado da tribuna parla - mentar e por um “casaca”. O caso, na origem, havia sido de natureza política – porque se prendia a expansões pouco disciplinares de Madureira em favor das idéias abolicionistas. Os adversários do Abolicionismo atacavam, com veemência, os partidários do Aboli - cionismo – no que estavam no seu direito; e Madureira, abolicionis -
ta também, não podia deixar de partilhar com os demais abolicionis- tas desses ataques. Madureira, entretanto, e os demais cidadãos de farda que faziam Abolicionismo e outras cousas políticas, inclusive República, não pensavam assim. Eram militares, tinham lá sua honra – a honra da far- da – e está claro que não podiam sujeitá-la a estas contingências desa- gradáveis. Na crítica azeda de Franco de Sá, eles, Madureira e os seus camaradas, não viram um desses incidentes naturais a que estão fre - qüentemente sujeitos os que metem o nariz em política; viram uma ofensa à honra da farda. Como o ministro da Guerra, repreendendo Madureira, pareceu endossar a ofensa atirada da tribuna do Parlamen- to à classe militar, imediatamente toda ela se levantou, num movimen- to de solidariedade ao “camarada” agredido. O zaïmph da classe fora profanado; era preciso desagravá-lo. De modo que, de um simples caso pessoal de indisciplina, surgiu um caso mais grave, túmido de conseqüências perigosas: uma questão militar! O grupo de oficiais da guarnição do Rio Grande, à qual pertencia Madureira, tomou a iniciativa da reação em nome da classe. Reunidos em comício, protestaram contra a atitude do ministro da Guerra, repreendendo um oficial indisciplinado, que viera à imprensa, com infração de dispositivos expressos das leis militares, discutir as reso - luções de um superior. Era um ato de indisciplina coletiva, ao qual, entretanto, o comandante das armas do Rio Grande do Sul, Marechal Deodoro, dera o seu assentimento ostensivo e confessado. Os oficiais indisciplinados guardavam ainda certos recatos de pu- dor; não ousavam, por isso, exibir à luz do dia todas as cruas nudezas da sua turbulência. Procuravam então vesti-la em formas decentes de legalidade, cobrindo-a com as roupagens de doutrinas tendenciosas, que os políticos civis, alfaiates habilíssimos nessa obra de carregação, haviam cortado e costurado ao jeito das circunstâncias.
Essas doutrinas tendenciosas, engenhadas pelos políticos civis de comparsaria com os políticos militares, diziam que só era indisciplina, passível de punição, “qualquer discussão pela imprensa entre militares sobre objeto de serviço”. Desde que a discussão não era sobre objeto de serviço, não havia indisciplina; como também não havia indiscipli- na, se a discussão fosse travada entre um militar e um civil: “Todos os agitadores políticos, republicanos ou não – diz um his- toriador – sustentavam nesta época que a disciplina militar se limita- va ao serviço dos quartéis e da força em ação, podendo os oficiais proceder livremente em tudo o mais que tivesse relação com a vida pública, em que também deviam colaborar comocidadãos fardados.” Dentro dessas idéias, construíra-se uma doutrina perigosíssima, tendente a justificar todos os desmandos dos referidos “cidadãos far- dados” contra os cidadãos sem farda – fossem eles representantes do povo no Parlamento, ou funcionários públicos, investidos de grandes responsabilidades na administração, ministros, por exemplo, inclusive o da Guerra. Na prática, entretanto, esta doutrina tendenciosa resultou num ab- surdo monstruoso. Desde que, nas discussões com os civis, os milita- res agiam comocidadãos e não comomilitares, as injúrias que porventura resultassem desses debates deviam recair logicamente sobre eles, não como militareses i mc o m ocidadãos; mas o fato é que não acontecia assim, – e os “cidadãos fardados”, quando ofendidos pelos civis, invocavam logo, como se vê das palavras de Pelotas, a sua condição de militares e passavam a agir como tais, na defesa da honra da farda e da dignidade da classe. O que tudo resumido dava nesta situação de privilégio, ab- 3 MONTEIRO, Tobias. Op. cit., p. 139.
solutamente odiosa: quando sujeitos ativos de descomposturas, os mi- litares conservavam-se perfeitos cidadãos, vestidos de roupas burgue- sas e armados de instrumentos de pau: eram “casacas”; mas, se vinham a ser sujeitos passivos de descomposturas – o que era inevitável – para logo, num repente, apareciam metidos em galões reluzentes e armados dos instrumentos de ferro: eram soldados! Este caráter duplo, equívoco, bifronte dos militares políticos, isto é, dos “cidadãos de farda”, mostra-se claramente na correspondência de Deodoro com Cotegipe, trocada por ocasião da reunião de Porto Alegre. Depois de ter interpelado Deodoro se a reunião havida se fizera com permissão sua, Cotegipe, numa carta confidencial de 1.º de no- vembro de 1886, fez sentir, como veremos, a Deodoro a sua estranhe- za por esta atitude singular do comandante das armas do Rio Grande. Deodoro, em carta de 14 do mesmo mês, respondendo às considera- ções de Cotegipe, tenta justificar o comício dos oficiais indisciplina- dos com argumentos, em que transparece, como se vai ver, toda a psicologia bifronte do “cidadão de farda”: “Houve motivo para tumultuosas reuniões, porque os militares – dizia ele – não podem nem devem estar sujeitos a ofensas e insul- tos de Francos de Sá e de Simplícios, cujas imunidades não os au- torizam a dirigir insultos, nem os isentam da precisa e conveniente resposta.” Nestas palavras, aliás dirigidas por um comandante das armas ao presidente do Conselho, de par com a frase desabrida, sente-se o des-
dém dos “cidadãos de farda” pelos colegas de casaca, isto é, os políti- cos civis. O Deputado Simplício de Resende aparece ali pluralizado em muitos Simplícios, de simplicidade absoluta, e o senador Franco de Sá, ex-ministro da Guerra, ex-superior hierárquico de Deodoro, vulgarizava-se em vários Francos de Sá, claramente desprezíveis. Deodoro, como se vê, com a sua mentalidade de cidadão de farda, achava que “os militares não podiam, nem deviam estar sujeitos a in- sultos” dos civis, com que discutiam, e certamente não via que isto era querer para os politicantes de dragonas, seus camaradas, uma situação toda especial e injusta, porque de privilégio – pois o insulto foi sem- pre, outrora como hoje, moeda corrente, como vimos, no mundo dos que fazem política em nossa terra. Na mesma carta, o Marechal Deodoro procurou dar as razões des- se extremado pundonor dos militares, da sua viva sensibilidade às ofensas: “Não será amesquinhar-se o Exército, tirar-se-lhe o brio, a dig- nidade e o amor próprio, requisitos esses sem ao quais não haverá soldados, mas sim vis, desprezíveis escravos?” Como se vê, o raciocínio de Deodoro era o mesmo da totalidade dos “cidadãos de farda”, isto é, dos militares, que, entretanto na polí- tica, não querem entretanto sujeitar-se às leis do mundo político, con- trariando assim o velho preceito de que se deve ser romano em Roma... “O governo do Brasil – dizia ainda Deodoro – que, às glórias de ter, com o máximo sacrifício de dinheiro e sangue, libertado um país que gemia por causa da própria inação e da tirania do seu che- fe, quer hoje juntar o ato inglório de escravizar homens ilustres,
seus concidadãos, aos destemperos e fatuidade dos Simplícios, cujos sentimentos pelas galas do poder fizeram explosão, ferindo a quem tinha direito incontestável ao respeito.” Este trecho nos revela, mais uma vez, ao vivo, a psicologia dúplice e contraditória dessa entidade híbrida, que é o cidadão de farda. Ele julga, como se vê, que a sua farda tem o “direito incontestável ao res- peito” – o que é indiscutível; mas quer, com sensível imprudência, ser cidadão no mundo da política civil, mundo em que o respeito pelos adversários e, mesmo, pelos próprios correligionários nunca existiu. Esta mentalidade contraditória é que torna o militar político um elemento perigosamente deflagrante. Esta explosividade, entretanto, não teria conseqüências sérias e ficaria restrita ao caso individual, se a solidariedade de classe não lhe desse uma irradiação temerosa. O cidadão da farda, com efeito, não se limita a levar para a política a sua mentalidade de militar; leva também a solidariedade da sua classe; de modo que a ofensa individual se torna instantaneamente ofensa cole- tiva, a ofensa ao militar se faz logo ofensa aos militares. Daí a deflagra- ção – e já agora de depósito de cordite, e não de granada apenas. “E o que houve – pergunta ainda Deodoro – por causa desses insultos dirigidos contra os militares? Por parte do Exército – uma reunião calma, respeitosa e pacífica, pedindo a reparação dos direi- tos violados e da dignidade ofendida. A ferida foi forte, cruel e mortal, e, com justa razão, sangrará enquanto Madureira e Cunha Mattos estiverem sob a pressão da injustiça de que foram vítimas. É fora de toda dúvida que os oficiais, ao primeiro insulto, ultima- mente dado, tiveram resignação tal, que foram sopitados os seus sentimentos de dor; que calaram-se ao segundo, convictos de que outra reclamação não seria aceita, que importaria baixeza, e dariam
a mais exuberante prova de que abandonariam o companheiro dis- tinto, o digno irmão no campo da batalha, onde difícil é a prote - ção, como o abandonaram na paz, deixando-o só entregue aos em- bates da injustiça e da perseguição.” Neste trecho vê-se como que o processo psíquico da generaliza - ção da ofensa irrogada inicialmente ao indivíduo, a sua socialização por assim dizer, dando origem a uma sorte de ressentimento coletivo e, conseqüentemente, ao desdobramento temeroso da lógica senti - mental da classe. Esta raciocinava assim: o Governo puniu os milita - res injuriados; logo, queria com isso endossar as injúrias; logo, era também inimigo. Revoltados contra os políticos do partido do Governo, os militares acabaram, então, muito naturalmente, revoltados contra o próprio Governo. É assim que, reunidos em comício tumultuoso, no Teatro Recreio Dramático, em número de cerca de duzentos, presididos por Deodoro e secretariados pelo insubordinado Madureira, os oficiais do Exército aprovaram esta moção, por onde se vê que o conflito havia atingido o seu clímax de incandescência: “1.º Os oficiais de terra e mar, presentes a esta reunião, não julgam terminado com honra para a classe militar o conflito suscitado entre esta e o Governo, enquanto perdurarem os efeitos dos avisos inconsti- tucionais, que foram justamente condenados pela imperial resolução de 3 de novembro último, tomada sobre a consulta do venerando Su- premo Conselho Militar. 2.º Pensam também que só a cessação de qualquer medida, tendente a perseguir os oficiais pelo fato de terem aderido à questão militar, poderá acalmar a irritação e o desgosto que reinam nas fileiras do Exército.
3.º Recorrem confiantes à augusta justiça do ilustre chefe da Na - ção, para pôr termo à agitação em que se acha ainda a classe militar, que só provas de resignação e disciplina até hoje tem dado. 4.º Resolvem dar plenos poderes ao Ex. mo Sr. Marechal Deodoro da Fonseca, presidente desta reunião, para representá-los junto ao Governo de S.M. o Imperador, no intuito de conseguir uma solução completa do conflito, digna do mesmo Governo e dos brios da classe militar.” Desde esse momento o conflito perdia o seu caráter irritante de mera indisciplina e entrava estrepitosamente na fase vibrante da beli- gerância. Para esta excitação tão grande dos elementos militares contribuiu poderosamente a própria psicologia dos cidadãos fardados, que, como vimos, é essencialmente deflagrante; mas também concorreu, não menos poderosamente, a ação excitadora dos políticos civis. Estes, no fundo, sempre foram os grandes culpados das agitações militares em nossa pátria – e nas últimas agitações que antecederam e produziram a queda do Império, pode-se dizer que a parte que eles ti- veram foi principal. Neste ponto, os dois velhos partidos imperiais, a que mais tarde se deviam juntar os elementos republicanos, são réus históricos desse mesmo crime comum, que, afinal, é um crime de le - sa-patriotismo. Nesta gravitação para os quartéis dos políticos do Império, o senti- mento que os impelia nunca foi um sentimento de simpatia ou de admi- ração pela classe militar. Quando, encaminhando-se para as casernas,
agitavam ante os olhos da classe armada o pano vermelho dos direitos militares, o intuito que os levava não era nem por sombra o engrandeci- mento da classe armada. Iam aos bancos da Escola Militar ou às tarim- bas do Realengo com o mesmo objetivo com que os caudilhos sertane- jos costumavam ir ao vale do Rio das Éguas ou a Pajeú de Flores: iam aliciar cangaceiros para as suas empreitadas políticas. O que admira é que o Exército nunca mostrasse parecer ter compreendido isto... Nas questões militares, oriundas dos atritos entre o coronel Cunha Mattos com o deputado Simplício de Resende e do coronel Senna Madureira com o senador Franco de Sá, os políticos liberais, então em oposição ao Gabinete Cotegipe, desdobraram, com efeito, grande ati- vidade excitadora. Das palavras mais inocentes de um ministro de Estado extraíam venenos mais violentos do que os dos Bórgias – e com eles envenenavam todo o Exército. Para as províncias, com o in- tuito de impressionar as guarnições e arrastá-las a impulsos compro- metedores, passavam telegramas tendenciosos, contendo notícias in- teiramente falsas. Uma dessas notícias, que provocou grande excitação nas longínquas guarnições do Sul, foi a de que o Governo, no intuito ostensivo de desprestigiar o Exército, havia demitido o Barão da Gá- vea e o General Severiano, irmão de Deodoro, então comandante das armas do Rio Grande do Sul. Este telegrafou logo, inquirindo o que havia e, através do seu telegrama, transparece o frêmito da oficialidade sob o seu comando: “Consta demissão tua e Gávea. Cotegipe telegrafou questão se- ria resolvida Conselho Supremo Militar. Ficamos, por hora, satis- feitos. Que há?” Este Conselho Supremo Militar fora um recurso hábil, de que o Governo lançara mão para atalhar a crescente exploração partidária,
que os políticos adversos ao Gabinete estavam fazendo do caso Cunha Mattos-Senna Madureira: – “O Governo compreendera que era pre- ciso tirar à questão o caráter político que a oposição lhe queria dar, e o expediente que lhe acudiu, mais conciliador e mais tranqüilizador das suscetibilidades militares, foi subtrair a decisão das reclamações ao ju- ízo individual para submetê-la ao conhecimento de um tribunal – e este foi o Conselho Supremo Militar.” Truque de estratégia política, ele mostrava que o Governo estava receoso, e transigia; mas era um recurso inteligente, e o velho Cotegipe com ele conseguira deslocar do terreno civil para o terreno militar a solução da grave questão em foco. Os seus adversários não se deixaram, entretanto, vencer, e entraram a telegrafar para as províncias anunciando falsamente grandes tumul- tos no Rio. O objetivo dessas falsas notícias era provocar nessas dis- tantes guarnições atitudes comprometedoras, que as outras guarnições acabariam endossando por solidariedade. Procurando contrabater esta campanha insidiosa e desfazer as agi- tações que ela iria provocar, Cotegipe julgou prudente passar ao Gene- ral Deodoro este telegrama, em que punha o comandante das armas do Sul ao corrente dos intuitos políticos de todas essas mentiras tele- gráficas: “Urgente – Rio – 10 de Outubro de 1886 – Marechal Deodo- ro, comandante das armas. – Recebi seu telegrama que muito me satisfez pelo que V. Ex. a me comunica. Pessoas inimigas da ordem, que procuram agitar a opinião em proveito próprio ou das suas opiniões políticas, contrariadas pelo efeito da deliberação do Go- verno, passam telegramas para as províncias que há aqui agitação, que a casa do ministro foi atacada, etc. É tudo falso. Aqui, como aí, militares satisfeitos. – Barão de Cotegipe”.
Deodoro respondeu, e na sua resposta bem se vê como o expedien- te engenhado pelo chefe do Gabinete havia sido eficaz na sua sedativa: “Há solidariedade geral oficiais províncias, calma e esperanças Conselho Supremo. – Deodoro”. Cotegipe parecia acreditar na boa-fé de Deodoro. É de ver-se o es- forço da sua fina inteligência para esclarecer o bravo Fonseca dos fins meramente políticos dos instigadores civis: “A política e, especialmente, os partidos extremos apossaram-se da questão e enxergaram no Exército um instrumento a seus planos e paixões” – dizia ele a Deodoro, na sua carta confidencial de 1 de novembro de 1886. “Veja-se qual a cor dos jornais que mais exal- tados se mostraram, e V. Ex. a me dirá se a política tem ou não parte no movimento.” Nesta carta, Cotegipe não se limitava apenas a abrir os olhos de Deodoro em relação ao sentido da ação dos políticos civis; também procurava chamar com habilidade o velho soldado ao terreno da disci- plina, convencer delicadamente Deodoro da inconveniência da sua atitude, do que havia de contraditório no fato de ele estar exercendo uma alta comissão do Governo e, ao mesmo tempo, prestar solidarie- dade a reuniões de protesto contra atos do Governo. Cotegipe exibe nesta carta todos os recursos do seu tato admirável de político e parla- mentar, e a sua argumentação é toda uma obra-prima de dialética e persuasão: “Não quero apreciar as razões que levaram V. Ex. a a colocar-se à testa de tais manifestações para encaminhá-las convenientemente
– dizia ele. Apenas observarei que, quaisquer que fossem as inten- ções de V. Ex.a (e estou persuadido que foram as melhores), a gra- vidade das deliberações tomadas em comum pela força armada é de tal natureza, que não podem deixar de influir de uma maneira pre- judicial na disciplina do Exército. Hoje protesta-se contra os atos da primeira autoridade militar, que é o ministro da Guerra; amanhã protestar-se-á contra os dos chefes, ou sejam generais, ou coman - dantes dos corpos; teremos, portanto, um Exército deliberante, o que é incompatível com a liberdade civil da Nação. Reflita V. Ex. a e reconhecerá que os generais assumiram uma imensa responsabili- dade, provocando ou aprovando tais manifestações.” Cotegipe, com se vê, envolvia o gume da sua dialética incisiva em maciezas de veludo e paina. Deodoro respondeu com a veemência, com arrogância mesmo, a estas palavras moderadas e polidas do chefe do Gabinete – e tal foi a vibração da sua réplica, que Cotegipe foi for- çado a demiti-lo. Fê-lo, porém, com as delicadezas e cautelas de quem mexe num invólucro cheio de balas de dinamite: “Rio, 5 de dezembro de 1886 – Ex. mo Sr. Marechal Deodoro da Fonseca – Recebi a carta de V. Ex.a, sem data, em resposta à que dirigi a v. ex. em 1.º do próximo passado mês. Deixando de parte, por extempo- râneas, as razões com que V. Ex.a justifica o procedimento oficial que teve na questão qualificada – militar –, porque não tenho esperanças de convencê-lo (meu principal fim na correspondência trocada com V. Ex. a, devo declarar a V. Ex.a que a divergência entre o pensamento do Governo e o do seu delegado de confiança é tão profunda, que nenhum dos dous pode permanecer nesta posição, prejudicial em todo sentido ao serviço do Estado. Pelo que tenho o pesar de prevenir a V. Ex. a de que V. Ex.a é substituído, e virá ocupar o lugar que exercia nesta Corte.
O sr. presidente comunicara a V. Ex.a as disposições do Governo para que sejam guardadas as atenções e conveniências à pessoa de v. ex. A in- terrupção das nossas relações oficiais em nada prejudicará, espero, as de perfeita estima e consideração, com que sou de V. Ex.a amigo at.º e cria- do. – B. de Cotegipe.” Cotegipe via, com a sua costumada clarividência, a borrasca que se estava adensando ao Sul, e que haveria de, dentro em pouco, pelo seu próprio dinamismo, avançar, crescer, cobrir todo o país. Havia, por isso, na sua atitude, uma tal moderação, um espírito de conciliação ta- manho, que chegava a parecer timidez, senão fraqueza diante da força armada. Ele sentia, naturalmente, que os muitos milhões de bengalas civis de nada valeriam diante dos poucos milhares de baionetas do “Exército deliberante” – e, compreendendo a desigualdade das situa- ções, transigia, conciliava, cedia, deixava-se mesmo “arranhar” na sua altivez. “É muito bom aconselhar: puna, prenda, corte cabeças – dizia ele mais tarde, em confidências, e recordando os ‘arranhões’ que sofre- ra –; mas, na prática, muitas vezes nos vemos obrigados a mudar para não sacrificar mais altos interesses.” Realmente, na sua correspondência com Deodoro, este traço de moderação excessiva aparece constantemente: às vezes, quase que nos dá mesmo a sensação desolante de uma queixa magoada ou de uma imploração: “Quando o General Deodoro – dizia ele ainda, na sua primeira carta confidencial já citada – revestido da mais alta confiança do Governo, assim pensa e assim procede, o que não fariam os seus su- bordinados? Eu e o Gabinete comigo sentimos que V. Ex. a, a que demos soma de confiança maior do que a qualquer outro funcioná- rio, nos criasse tão sérios embaraços.”
Esta transigência, oriunda evidentemente do medo, embora vestida com as roupagens decorosas da moderação e da prudência, os políti- cos do Império nunca se pejaram de revelar diante dos elementos mili- tares exacerbados. Saraiva, por exemplo, apesar da sua altivez, também não deixou de transigir diante desse poder formidando. Na sua carta a Deodoro, quando, com a demissão de Ouro Preto, foi convidado a organizar o Gabinete, é transparente o seu desejo de lisonjear a vaida- de do velho cabo de guerra: “Encarregado pelo Imperador de organi- zar novo Ministério, não quero, nem devo fazer coisa alguma sem en- tender-me com V. Ex. a”. Este – “nem devo” – é evidentemente excessivo. Saraiva, pela pri- meira vez na sua vida, dobrava a espinha para uma sutil curvatura de li- sonja. Estávamos então na manhã mesmo da queda do Império – e Deodoro havia levado já na sua aventura aquele mesmo trono bragan- tino que Saraiva, ingenuamente, ainda pensava salvar com a ajuda da- quela espada poderosa. É de justiça, entretanto, assinalar que os estadistas do Império não adotavam, na sua luta contra a militância amotinada, unicamente este processo abdicatório de condescendência e transigência. Eles sabiam, como bons psicológicos que eram, que em toda alma, mesmo que seja a de um puritano de dragonas, há pontos de menor resistência, onde o demônio da sedução pode instilar, com êxito, os seus pecados. Daí lançarem mão, sucessivamente, ou cumulativamente, de outros pro - cessos mais práticos e, parece, tão eficazes quanto os primeiros, senão mais eficazes ainda. Di-lo o Visconde de Ouro Preto, com a responsa- bilidade e a respeitabilidade do seu grande nome, referindo-se aos ex- pedientes usados pelos conservadores do Gabinete João Alfredo: “Esqueceram-se (os conservadores) de que não foram vítimas do Exército, graças unicamente ao derivativo da expedição de
Mato Grosso que, com sacrifício considerável do Tesouro, pro - porcionou comodidades e comissões rendosas aos mais irrequietos e turbulentos.”4 Havia, realmente, sido “forte, cruel, mortal” a ferida, como disse Deodoro na sua carta a Cotegipe; mas agora se está vendo que o bravo soldado se iludira sobre a gravidade da lesão: embora forte e cruel, como era natural, tratando-se de gente de epiderme delicada, a ferida não era de modo algum incurável – pois, na sua farmacopéia dos “ca- sacas”, não foi difícil aos conservadores encontrar o cicatrizante ade- quado. Esta atitude de medo não mostraram só os que estavam no poder e contra quem a turbulência da espada desencadeava as rajadas do seu pundonor indignado. Os próprios instigadores, os que haviam da tri- buna do Parlamento ou da Imprensa açulado a desordem, acabavam também tomados da surpresa, do alarma e, por fim, do medo diante dos efeitos da sua própria obra. Daí o recuo que eles fizeram, quando viram a iminência de um golpe de força da parte do Exército amotina- do. O perigo acordou-lhes a consciência patriótica: “O partido liberal não assalta o poder por meio de pronunciamentos militares” – dizia Silveira Martins no Senado. E Ouro Preto: “O partido liberal não poderia querer o poder pelo caminho que lhe abrissem as espadas e as baionetas do Exército: preferia o perpétuo ostracismo.” No fundo, o que os liberais queriam, explorando as susceptibili - dades militares, nada tinha que ver com os militares, nem com os direitos deles; os militares entravam em tudo isto apenas como simples instrumentos, de que os liberais se utilizavam para atingir o seu grande objetivo: forçar os conservadores a deixar o poder sob 4 OURO PRETO. O Advento da Dictadura Militar, p. 155.
a pressão de um movimento da opinião, poderoso, embora inteira - mente artificial. Eles não haviam levado em conta, porém, a tre - menda potência explosiva latente na alma da classe militar – e fize - ram-na deflagrar com espantosa imprudência. O resultado das suas instigações fora além do que esperavam: queriam apenas uma pres - são moral, feita pela força da opinião, e o que os acontecimentos lhes estavam anunciando era, entretanto, a iminência de uma pres - são material, feita pela força da espada – o que constituía uma pos - sibilidade inquietante, fora inteiramente dos seus cálculos mais pessimistas. Daí o alarma, e o terror conseqüente. Deodoro, com efeito, demitido do cargo de comandante das armas do Rio Grande, viera para o Rio e se fizera o centro da gravitação da questão militar. Na reunião do Recreio presidira, como já vimos, o motim dos oficiais e aceitava a incumbência de representá-los perante o Governo, na luta que travavam contra o mesmo Governo. Essa ebulição alarmante do espírito militar não se restringia ao Rio, às suas guarnições e às do Rio Grande. Os vários núcleos do Exército espalhados pelo país estavam, na sua totalidade, tomados do mesmo espírito irrefreável de sedição. Quanto Lucena foi, a pedido de Cotegipe, à casa de Deodoro para acalmá-lo e arrastá-lo a uma atitude de conciliação, o Marechal mostrou-lhe enfaticamente a sua mesa de trabalho coalhada de folhas de papel. Eram as adesões de todas as guarnições do país: – “As guarnições punham-se às suas ordens e da- vam-lhe poderes para obrar como conviesse.” Pelotas, por seu lado, no Senado, replicando às palavras concilia - doras de Cotegipe, transpirou ameaças por todos os poros e proferiu um discurso, rijo e cortante como um golpe de sabre: 5 MONTEIRO, Tobias. Op. cit., p. 151.
“Peço encarecidamente ao sr. presidente do Conselho que recon- sidere o seu ato, por amor deste país, não por satisfação a mim, que pouco ou nada valho; solva esta questão de um modo honroso e dig- no. Se não o fizer, não sabemos o que poderá acontecer amanhã, ape- sar do nobre presidente do Conselho confiar na força armada que tem à sua disposição. Tais serão as circunstâncias, que é bem possível que ela lhe falte. Reconsidere o nobre presidente do Conselho o seu a t o,p o ra m o rd e s t ep a í s,e,q u e ms a b e,s ep o ra m o rd a si n s t i t u i ç õ e s. ” Era realmente um claro “estado de beligerância” que se havia cons- tituído entre o Poder Civil e o Poder Militar. Este, como sempre, ar- mado de instrumentos de ferro; aquele, como sempre, armado de ins- trumentos de pau. Nesta situação de evidente desigualdade, o Poder Civil tinha que transigir – para evitar mal maior. Cotegipe transigiu, e o temporal amainou, pelo menos por um momento. O Senado, com efeito, interpretando este espírito de transigência do Gabinete, e acudindo-o naquela emergência assustadora, havia aprovado a seguinte moção, em que o Poder Civil, na pessoa do presi- dente do Conselho, saía com a sua autoridade arranhada. Vale a pena transcrevê-la, porque nela os políticos civis, mais uma vez, revelavam a sua prodigiosa fecundidade inventiva, quando defrontados, inespera- damente, por uma situação de perigo: “Requeiro que, à vista da imperial resolução de 3 de novembro de 1886 tomada sobre consulta do Conselho Supremo Militar de 18 de outubro do mesmo ano, o Senado convide (sic) o Governo a fazer cessar os efeitos das penas disciplinares, anteriormente à reso- lução, impostas a militares por uso indevido da Imprensa, fora do caso especificado na consulta do Conselho Supremo, como con - trário à disciplina do Exército. – S. R. – Silveira Martins.”
Os militares teriam naturalmente arrefecido na sua incandescência facciosa, se os políticos civis houvessem cessado de espicaçar-lhes as susceptibilidades, açulando-os contra o Gabinete conservador, que, embora “arranhado”, resolvera não cair. Sob esta excitação contínua o espírito de indisciplina persistia, ora ardendo oculto, como a brasa no borralho das lareiras, ora franco, em crepitações subitâneas, denun - ciando a latência do incêndio interior. Depois das questões Senna Madureira e Cunha Mattos, resolvidas com a transigência de Cotegipe, outras questões, com efeito, surgiram, revelando o mesmo estado de irritação do elemento armado e a sua crescente incompatibilidade com o poder civil. O caso da prisão do oficial da marinha Leite Lobo bem o demons- tra. Tratava-se de um oficial já reformado – o que não impediu que esta prisão, depois de ter provocado um verdadeiro conflito entre for- ças da Marinha e a Força Policial, acabasse gerando, sob o influxo dos instigadores civis, uma nova questão militar, e tão ardente, que teve por epílogo a retirada de Cotegipe do poder. Os manejos liberais não conseguiram ainda desta vez a substituição da situação partidária. Cotegipe saiu, mas o Partido Conservador con- tinuou no poder com o Gabinete de 10 de março de 1888, presidido por João Alfredo. Os liberais, associados já agora claramente aos repu- blicanos, continuaram, por isso, a soprar no borralho do militarismo, no intuito obstinado de provocar um novo incêndio, ou pelo menos, uma explosão nova. Esta foi dar-se em São Paulo, até então imune às agitações armadas. O chefe de polícia da grande província, no cumprimento do seu dever funcional, havia penetrado no quartel do 17.º batalhão do Exército, para atender a um conflito entre praças da força policial e praças da-
quele batalhão. Parece que a autoridade, ao penetrar no quartel, não cumpriu todas as formalidades necessárias – e os oficiais do batalhão protestaram, julgando o caso um desrespeito à dignidade dos seus ga- lões e do Exército. Era uma nova questão militar que irrompia. O Go- verno foi obrigado a demitir o chefe de polícia e fez remover para o Rio o batalhão sedicioso; mas, as manifestações calorosas que sauda- ram este batalhão no seu embarque, promovidas pelos republicanos dali, mostram claramente como nesta extrema excitabilidade dos ele- mentos militares intervinha a ação instigadora dos políticos civis. O estado de espírito das classes armadas, sob a influência dessa ex- ploração incansável e insistente, era então o de uma susceptibilidade quase histérica. Tudo era pretexto para ressentimentos; em tudo des- cobria-se uma intenção ofensiva. O Governo quase que não podia agir. Os menores atos, simples medidas disciplinares, tudo se revestia de um acinte humilhante para os brios militares. Nesse ambiente crepitante de irritação e cóleras é que subiram os liberais em 1889, com o Gabinete de 7 de junho, presidido pelo Vis- conde de Ouro Preto. Ouro Preto trazia para o poder outro temperamento, muito diver- so do temperamento de Cotegipe ou de João Alfredo. Estes possuíam um feitio mental ou moral que não permitia classificá-los com pro - priedade na classe dos homens que preferem quebrar a torcer. Eram políticos sagazes, maneirosos, conhecendo, como ninguém, e maravi- lhosamente, a tática das retiradas. O temperamento de Ouro Preto não era absolutamente este. Ha - via nele um fundo de impetuosidade, que nem sempre o seu profun -
do sentimento de decoro e a dignidade das suas maneiras consegui - am dissimular inteiramente. Na sessão de apresentação do gabinete, quando o padre João Manuel, combatendo o programa do Gabinete, d e uos e uf a m o s og r i t o:Viva a República!, este fundo de impetuosidade do caráter de Ouro Preto detonou – positivamente detonou – numa explosão magnífica. Lendo os Annaes, temos como que a visão cine - matográfica do incidente, tão expressivo naquele instante dramático do velho regime: “O Sr. Visconde de Ouro Preto ( Presidente do Conselho, levantan- do-se impetuosamente e com energia): Viva a República, não! Não e não! pois é sob a Monarquia que temos obtido a liberdade que outros países nos invejam e pudemos mantê-la em amplitude suficiente para satisfazer as aspirações do povo mais brioso. Viva a Monar- quia! forma de governo que a imensa maioria da Nação abraça, e a única que pode fazer a sua felicidade e a sua grandeza!” Não tinha Ouro Preto o tom álgido e impassível, que espalhava tanto mistério e, por isso mesmo, tanto prestígio sobre a personalida- de de Saraiva, como lhe faltava a graça, chiste, a viva sedução de Co- tegipe. Era um temperamento, não apenas impetuoso, mas também intrépido, desassombrado, afirmativo, de um singular aprumo na sua altivez inamolgável – e foi este temperamento que o impediu de fra - quejar quando, deposto de ministro, sentiu-se envolvido, de súbito, num círculo de espadas minazes, dentro do Quartel General. Deodo- ro, nesta ocasião, já senhor da situação, aproximou-se dele, recordan- do-lhe as provações que sofrera em Mato Grosso: – “Não sofreu mais do que eu, neste momento, em que sou obrigado a ouvi-lo” – replicou com dignidade e força.
Nesse momento dramático, os seus companheiros nem sempre souberam guardar, intacta, a linha de altivez que a situação impunha: intimidaram-se, tomaram-se do pavor e tiveram mesmo alguns deles as suas fraquezas. Ele, não: manteve-se sempre altivo, digno, bravo di- ante da mole de espadas que o ameaçavam. Quando preso, um oficial revoltoso veio acordá-lo, gritando-lhe: “Acorde, e prepare-se que mais tarde tem que ser fuzilado!” Ele retrucou logo, pronto e indomável na sua altivez: “Só se acorda um homem para o fuzilar, mas não para o avisar que tem de ser fuzilado. O senhor verá que para saber morrer não é preciso saber vestir farda.” Um homem destes, provido de uma individualidade tão forte, lan- çado pela Coroa de encontro à exacerbação militarista, só poderia ser o que foi: um fator agravante. O momento era de transigência, de con- ciliação, de concessões, para evitar mal maior – e pedia homens de ou- tro feitio: Dantas, talvez, com a sua difusa comunicabilidade, a sua lar- ga cordialidade envolvente, o seu gosto da popularidade e mesmo o seu latitudinarismo no terreno dos princípios; ou talvez, Paulino, ma- neiroso, discreto, cerimonioso, finamente inteligente, com o dom pe- regrino de saber transigir, parecendo intransigente e ser realmente um admirável condutor de homens, dando a impressão a todo mundo de absolutamente não querer ser nada disto. Como era de esperar do seu feitio voluntarioso e intrépido, de ho- mem dantes quebrar que torcer, Ouro Preto trouxe para o poder um programa nitidamente articulado de reação, não propriamente contra o Exército em si mesmo, mas contra o “Exército deliberante”, a que aludia Cotegipe. No desdobramento, porém, desta política, se ele agiu com a decisão, a coragem, a intuição previdente do estadista, não o fez, entretanto, com o tato e a discrição do político – e comprome - teu-se de uma maneira irremediável com o elemento militar.
O plano de Ouro Preto era lógico, mas perigoso. Para ele – já que não seria patriótico reduzir a eficiência militar do Exército – o que cumpria fazer era contrapor ao Exército outro poder, tão eficiente mi- litarmente quanto ele. Daí o seu empenho em reorganizar a Guarda Nacional, instruí-la e armá-la: “Resolvido a firmar o seu domínio exclusivo – disse ele, referin- do-se à classe militar, e justificando o seu plano – ele compreendeu que, se a milícia cívica chegasse a receber a necessária instrução, oferecer-lhe-ia séria resistência no dia em que saísse da legalidade. Cumpria impedi-lo; daí a explosão.” Explorado pelos políticos civis, em oposição pessoal ou partidária ao Gabinete, o plano do último presidente do Conselho da Monar- quia pareceu às classes armadas um acinte, uma provocação – o que fez com que as velhas animosidades militares, em viva fermentação, recrescessem com virulência ainda maior. Faltou a Ouro Preto o dom de saber ocultar os intuitos reais dos seus atos ou o pensamento íntimo dos seus planos: agiu às claras, num ataque frontal ao adversário temeroso. Ele era, aliás, uma natureza muito altiva e orgulhosa para essas manobras da dissimulação. Da raça dos que, ao contrário de Talleyrand, pensavam que a palavra foi dada ao homem justamente para revelar o pensamento, este feitio do seu ca- ráter podia qualificá-lo para todas as situações, menos para a situação em que estava, em que cada metro quadrado de terreno a pisar, mina- do de perigos, como que deixava à mostra, em ameaça, a ponta de uma espoleta de granada. 6 OURO PRETO. O Advento da Dictadura Militar, p. 142.
Com o seu temperamento franco e imperioso, Ouro Preto, real - mente, não sabia praticar a arte que a situação estava exigindo – de fazer vista grossa para não ver o erro, ou não punir o mal. Da sua superioridade hierárquica tinha uma consciência em grau de sensi - bilidade tal, que se ressentia ao contato da mais leve irregularidade ou irreverência. O episódio, larga e proveitosamente explorado pe - los seus adversários, da prisão do comandante da guarda do Tesou - ro (ele era o ministro da Fazenda), dá-nos uma prova disto, como nos dá a sua atitude em relação ao caso de Benjamin Constant. Ben - jamin, diante dos oficiais chilenos e das autoridades públicas, fize - ra, na Escola Militar, um discurso inconvenientíssimo, sem atender sequer a que estava presente o ministro da Guerra, o conselheiro Cândido de Oliveira. Ouro Preto interpelou o seu colega, perguntando como tinha pro- cedido na emergência. – “Retirei-me, respondeu candidamente o in- terpelado, para não continuar a ouvir.” E Ouro Preto: – “Devia tê-lo preso; só assim poderia ser corrigida a falta de um oficial que se pro- nuncia contra os seus superiores diante deles, e ainda mais diante dos oficiais estrangeiros.” Esta atitude indisciplinar de Benjamin pareceu intolerável a Ouro Preto, irritou-o mesmo. Demitiu, por isso, o General Miranda Reis, o comandante da Escola Superior de Guerra, por não ter castigado, como devia, o oficial indisciplinado. Este ato, deturpado nos seus in- tuitos honestos pelos interesses da oposição, constituiu, como era de esperar, um novo ponto de irritação das classes armadas contra o chefe do Gabinete. Ouro Preto continuava, porém, a sua marcha para diante, muito re- tilineamente, não há dúvida; mas, estudando-o por esta época nos seus atos, a impressão que se tem é que ele parecia inconsciente dos perigos da situação, que estava criando com a sua intransigência.
Demitido Miranda Reis, Ouro Preto, com efeito, voltou-se agora para Benjamin Constant no intuito de puni-lo pela irregularidade da sua atitude. Organizou um Conselho de lentes da própria Escola para o julgar. O Imperador interveio com a sua tolerância e a sua longani- midade: “Qual, Sr. Ouro Preto, não vá por aí. O Sr. acredita no resulta- do deste Conselho? Lobo não come lobo. Olhe, o Benjamin é uma excelente criatura, incapaz de violências, é homem de X mais B, e, além disso, muito meu amigo; mande chamá-lo, fale com franque- za e verá que ele acabará voltando ao bom caminho.” Ouro Preto respondeu – e a sua resposta é bem a demonstração de seu caráter altivo e enérgico: – “Mas, Senhor, por aí é que não devo ir; eu sou Governo; diante de um fato público como este, não sei como me posso entender com esse oficial, antes que ele seja punido e con- vencido da sua falta.” Diante da situação que se tornava cada vez mais grave, parece que Ouro Preto tentou lançar mão, ou lançou de fato, do velho recurso da dispersão. Ottoni atribuiu-lhe o pensamento de dividir o Exército, distri- buindo os batalhões pelas províncias. 7 Era este um expediente encontra- diço, muito freqüentemente utilizado, de que todos os Governos lançam mão quando defrontados por questões militares, mas que só resulta eficaz quando a turbulência é local, e não geral. Ouro Preto, contestando Otto- ni, negou que tivesse esse intuito e tentasse mesmo pôr em prática essa po- lítica, e afirmou que a única remoção que fizera – a do 22.º batalhão para o Amazonas – fê-la a conselho de Floriano. 7 OTTONI, Cristiano. O Advento da Republica no Brasil, pp. 91 e 105. 8 OURO PRETO. Op. cit., p. 135.
O fato, entretanto, é que todo o Exército estava crente do contrário – de que o chefe do Gabinete estava pondo em prática a política da dispersão, com o intuito de enfraquecê-lo, desarticulando-o na sua poderosa estrutura e afastando-o da sede do Império. Era um boato falsíssimo – diz Ouro Preto – inventado e propagado por um dos promotores da revolução de 15 de Novembro, que disso se vangloria- va mais tarde como “hábil e patriótico estratagema de guerra”. Ouro Preto, ao contrário de Cotegipe, não dava um só passo para destruir estas explorações e acalmar o elemento militar irritado contra ele: qualquer movimento neste sentido lhe parecia humilhante. No en- tanto, a sua situação era muito mais grave do que a de Cotegipe e exigia muito mais espírito, senão sentimento de transigência. Todos os seus atos, de inflexível rigor, davam azo a que os seus adversários espa- lhassem esses boatos, deturpando-lhe as intenções mais honestas e ra- zoáveis. Tudo servia para especulações tendenciosas, porque o ambien- te era de absoluta credulidade às balelas mais extravagantes e absurdas. Espalharam, por exemplo, que, no famoso baile da Ilha Fiscal, o chefe do Gabinete, no intento de desconsiderar o Exército, deixara de convidá-lo nos seus elementos mais representativos para aquela festi- vidade. Era um boato inteiramente falso: Ouro Preto convidara nada menos de quarenta e cinco grandes patentes do Exército. Espalharam também que Ouro Preto desconsiderara Deodoro, quando este voltou de Mato Grosso. Diziam que o chefe do Gabinete não visitara o referido militar. Era realmente verdade: Ouro Preto não visitara Deodoro. Mas ele explicou muito razoavelmente o fato: – “Eu não o devia visitar sem que ele me procurasse”. – Nada mais natural; mas a inflexibilidade de Ouro Preto, a sua altivez, o seu orgulho, dava ensejo a que nesta atitude, que em qualquer outro seria natural, se visse 9 OURO PRETO. Op. cit., p. 13.
um acinte ofensivo – e isto foi um fator novo de irritabilidade e ani- mosidade contra o chefe do Gabinete, como que uma nova braçada de gravetos atirada à fogueira da agitação militar. Os excitadores civis – ou interessados apenas na queda do Gabinete, ou já preparando o caminho para a República – mostravam-se cada vez mais diabolicamente férteis na traça e na invenção dos boatos compro- metedores. É assim que espalharam a balela de que o chefe do Gabinete ordenara a prisão de Deodoro e expedira ordem para o embarque de vá- rios batalhões, no intuito de dispersar e enfraquecer o Exército. Era tudo falso, como o próprio Ouro Preto declarou; 10 mas esta falsidade todo Exército acreditou ser uma verdade genuína, e foi como a pancada fatal na mina que se carregava, havia muito tempo. Deu-se a explosão: – e eis aí a conspiração vitoriosa de 15 de Novembro. O que surpreende em tudo isto é a atitude do chefe do Governo diante dessa conjuração assim iminente. Era tamanho o seu desconhe- cimento que, só à última hora, na manhã de 14 de novembro, é que ele sentiu roçar junto de si a ameaça e teve a previsão alarmada do perigo próximo. Nada mais surpreendente do que a boa-fé com que confiava na firmeza da sua situação e na fidelidade dos elementos que o cerca- vam. Esta confiança palpita, tensa e túmida, nas palavras da sua entre- vista com o conselheiro Sousa Ferreira, quando este jornalista o inter- pelou sobre os boatos que circulavam quanto à prisão de Deodoro e ao embarque dos batalhões. 10 MONTEIRO, Tobias. Op. cit., p. 232.
“O Sr. Ferreira – disse ele – mostrou-se satisfeito com as seguran- ças que eu lhe dava, porque, no seu conceito, tais ordens trariam as mais graves conseqüências. – Que conseqüências? perguntei. – Não seriam cumpridas. – O Governo far-se-ia obedecer. – Não teria meios. – Meu caro Sr. Conselheiro, já lhe afirmei e repito, que não se lem- brou o Ministério de mandar prender o Marechal Deodoro, nem de fazer sair da Corte nenhum dos corpos da guarnição; mas, se as conve- niências do serviço público o exigirem, não hesitarei em dar as ordens necessárias, sejam quais forem as conseqüências. Se for desobedecido, recorrerei aos batalhões que se conservarem leais, recorrerei à Mari- nha, recorrerei à Guarda Nacional e ao povo; em todo o caso, cumpri- rei o meu dever. Hei de manter o poder com dignidade, ou resig- ná-lo-ei.” Esta confiança ele a conservou até à última hora, até o momento do cerco do quartel-general pelas tropas comandadas por Deodoro. Só então, diante da atitude de Floriano, que se recusou a reagir, “compre- endeu que até o auxiliar, em quem mais tinha confiado, o tinha tam- bém abandonado”. Dir-se-ia que este homem, de tão lúcida inteligência, de uma cla - rividência tamanha para os outros aspectos da situação, estava intei - ramente cego ao seu aspecto mais temeroso. Esta impenetrabilidade à suspeita, esta confiança absoluta nos seus auxiliares, esta maneira lisa, limpa, honesta de acreditar na lealdade alheia, honra muito os seus atributos de homem nobre e cavalheiroso, que, sabendo-se inca- paz de um deslize, não pode compreender que os outros também não o sejam; mas demonstra também que, entre as suas qualidades de
homem de Estado, não estava nem a intuição do caráter dos homens que o cercavam, nem o senso barométrico das variações da atmosfera política. Ele raciocinava como um geômetra da política, empregan - do, na solução dos problemas em jogo e no trato dos homens, uma lógica retilínea, sobre que o sentimento da conveniência ou da opor- tunidade parecia não exercer nenhuma influência apreciável. Quan - do defrontado por uma situação de embaraço, o seu modo de agir, expedito e enérgico, lembrava um pouco o do Duque de Saldanha, segundo Ramalho. O chefe luso “desatava as dificuldades com a ponta do seu sabre”; o chefe do Gabinete de 7 de junho cortava-as com o aríete da sua intrepidez. O temperamento de Cotegipe era outro. Sutil, sagaz, agílimo, de um tato incomparável, penetrante conhecedor dos homens e mais ain- da do ambiente político, Cotegipe fazia, de preferência, a guerra de es- caramuças – e parece que não gostava das batalhas campais. Se fosse general, a sua tática predileta seria naturalmente a das guerrilhas. Para cortar aos seus adversários a monção de “embarcar a República em águas revoltas”, conforme a sua própria expressão, procurou amainar a procela, atirando sobre as vagas agitadas do militarismo o óleo acal- mador das transigências máximas. Ouro Preto, não: faltava ao seu temperamento a flexibilidade ne - cessária às transações e conciliações. Nas lutas políticas, devia preferir naturalmente as batalhas campais; ao contrário de Cotegipe, não sen- tia nenhuma sedução por essa tática de guerrilhas, pequena e ágil, toda feita de golpes de surpresa e fugas simuladas. O seu método preferido era o do ataque frontal, direto, ao campo adverso. Em síntese, Cotegipe adotou a profilaxia preventiva e Ouro Preto a profilaxia agressiva do militarismo. Tudo, porém, estava mostran - do claramente que o que a situação continuava a exigir era a cultura intensiva e em larga escala da política sedativa de Cotegipe. Ouro
Preto, dentro da lógica da sua índole voluntariosa e afirmativa, pen - sando salvar a Monarquia, adotou, ao contrário de Cotegipe, o mé - todo frontal e uma política de agressão; mas, a verdade é que o que resultou desta política e daquele método foi abreviar, precipitando, o advento da República.
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