Universo da obra
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Quinta Parte A queda do Império
I. O movimento de 15 de Novembro e a República. O objetivo inicial do movimento não era republicano. Teste- munho de Pelotas. O papel de Deodoro. – II. Deodoro e a proclamação da República. Floriano e a sua atitude. – III. O 3.º Império. O Conde d’Eu e a sua impopularidade. Mediocridade dos descendentes de D. Pedro. Inviabilida- de conseqüente do 3.º Reinado. – IV. O Exército e o ideal republicano. O papel dos “colarinhos de couro”. O papel dos “cadetes filósofos”. O que foi a proclamação da Re- pública. – V. Doença do Imperador. O seu reflexo na opi- nião pública. – VI. A queda do Império. O isolamento do Imperador. O caráter de D. Pedro e a ausência de aulicis- mo na elite do 2.º Império. – VII. D. Pedro e o seu exílio. Grandeza da sua atitude. – VIII. O seu papel em nossa história.
O movimento contra o Ministério Ouro Preto, da parte dos mili- tares indisciplinados, não teve inicialmente nenhum intuito republica- no. O que se queria era dar com o Gabinete em terra, compelindo-o a demitir-se, ou compelindo o Imperador a demiti-lo. Um movimento semelhante ao operado recentemente por Mussolini na Itália e por Primo de Rivera na Espanha. Era a opinião militar que derrubava o Gabinete, já que a opinião popular não tinha forças para isto. Inicialmente, com efeito, o movimento militar não tinha intuitos republicanos – e a prova está no depoimento do próprio Pelotas, grande co-responsável dele, e em cuja casa se deu o primeiro encontro dos conjurados: “O pronunciamento da guarnição do Rio que deu em resultado a proclamação da República, – disse Pelotas em carta a Ouro Preto – surpreendeu-me mais do que a V. Ex. a que dele teve aviso horas antes. Não julgava possível a República enquanto vivesse o Impe- rador, e daí a minha surpresa. Se de mim tivesse dependido a sua permanência como chefe da Nação, afirmo-lhe que não teria sido deposto.” O pensamento central de Pelotas, como de Deodoro, era inicial - mente a derrubada da situação Ouro Preto, cuja política de reação a tinha incompatibilizado com todo o Exército; mas não estava nos planos dos dois caudilhos a destronação do velho Bragança, que um e outro igualmente veneravam. Este ponto parece perfeitamente esclare- cido com o depoimento de um dos conspiradores, Serzedelo Correia. Serzedelo fora incumbido de procurar Pelotas para arrastá-lo a um golpe de caráter republicano. Pelotas declarou-se pronto para o golpe
contra Ouro Preto, mas à proposta para o golpe contra o trono deu uma resposta reticente e dilatória: “Isso virá depois; por ora é preciso o concurso de todos os camaradas.” É claro que Pelotas repelia a pro- posta imprudente de Serzedelo; apenas o fazia de um modo delicado, usando de uma fórmula protelatória. Deodoro também, por esse tempo, pelo menos, não pensava em dar caráter republicano ao movimento. Das suas atitudes e palavras o que se depreende é que Deodoro vacilou muito, oscilando, numa pe- nosa crise de consciência, entre a Monarquia e a República, ou me- lhor, entre D. Pedro e a República. Os republicanos assediaram Deodoro, e Benjamin teve o papel principal no trabalho de conversão do caudilho. Em 10 ou 11 de no- vembro reuniram-se todos eles, Benjamin, Quintino, Aristides Lobo, Glicério e outros na casa do próprio Deodoro para levá-lo ao golpe re- publicano. Deodoro ficou longamente hesitante. Devia ser grande a luta íntima que travou consigo mesmo – com a sua própria consciên- cia. Por fim, a uma exortação mais veemente de Benjamin, cedeu. – “Eu queria acompanhar o caixão do Imperador, que está velho, e a quem respeito muito” – disse, tomado de uma súbita onda de ternura pelo Imperante, a quem era grato e de quem era amigo. E depois, já “fixado”: – Ele assim o quer, façamos a República.” Sente-se dessas palavras que Deodoro assentiu em destronar o Imperador, à última hora, com dificuldade, recalcitrando, como que arrastado, vencido, cedendo à pressão de uma força estranha à sua própria vontade. Só depois da conferência de 11 com Benjamin e ou- tros republicanos é que ele resolveu imprimir ao movimento, que pla-
nejara contra o Gabinete, um sentido republicano, inteiramente fora do seu pensamento inicial. O esforço catequizante de Benjamin fora realmente eficaz, porque, a 12 de novembro, num encontro com o então coronel Jacques Ourique, Deodoro parecia francamente decidido na sua adesão à República: “Jacques, eu também fui sempre monarquista, ainda que muito desgostoso e descontente nestes últimos tempos – disse ele. Agora é forçoso convencermo-nos que com a Monarquia não há salvação possível para a Pátria, nem para o Exército. Já temos provas de que, depois de tudo o que fizemos, eles seguiriam a mesma senda e tra- tariam de aniquilar o Exército. E, demais, a República virá com sangue, se não formos ao seu encontro sem derramá-lo.” Esta resolução, assim tão definida, parece, entretanto, que esmore- cia à medida que o caudilho caminhava para o desfecho do dia 15. Dir-se-ia que Deodoro voltava de novo a vacilar sob a ação de vários sentimentos desencontrados. Esta indecisão como que persistiu até o instante mesmo do golpe de força, que haveria de derrubar o trono. Conta, com efeito, o próprio Visconde de Ouro Preto que Deodoro lhe dissera, por ocasião da intimação no Quartel-General, que “ia le- var ao Imperador a lista dos novos ministros”. Ora, isto prova que,na- quele instante pelo menos, o pensamento de Deodoro já não era o de Benja- min – isto é, da República; mas, sim o de Pelotas – isto é, da derruba- da do Gabinete. Tudo dá a entender que este estado de indecisão, esta “flutuação” moral de Deodoro continuou ainda mesmo depois de realizada a de- posição do Gabinete. O golpe fora dado pela manhã – e, já pela tarde, não havia ainda nenhum ato positivo de Deodoro como indicando a proclamação da República. Os republicanos inquietaram-se, começa-
ram a ficar apreensivos. – “Dizia-se que, depois do fato consumado, os chefes do movimento militar tinham encarado a gravidade da situa- ção e hesitaram em arcar com as responsabilidades de uma subversão do regime.” Era tão positiva a indecisão de Deodoro, que Benjamin também se mostrou reticente quando os republicanos, chefiados por Glicério, fo- ram em magote até à casa de Deodoro com o fim de dissipar a incerte- za em que estavam e provocar declarações do caudilho. Recebidos por Benjamin, “este não fez nenhuma afirmação categórica e chegou a de- clarar que o novo Governo consultaria em tempo a Nação para que esta decidisse dos seus destinos”.1 Os republicanos compreenderam imediatamente a realidade da si- tuação e começaram a agir com rapidez e extrema habilidade, no intui- to de evitar que a vitória acidental do seu pensamento se resolvesse num fracasso final. Com este fim acercaram-se de Deodoro e começa- ram a adensar em torno dele uma atmosfera poderosa de sugestões, tendentes a abalar em favor da República a sua sensibilidade de emoti- vo. Era Quintino, era Glicério, era Benjamin, principalmente. Sem este grupo de entusiastas e dedicados, tudo parece indicar que a Repú- blica seria, a 15 de novembro, uma tentativa abortícia, com uma dura- ção momentânea, de relâmpago – como aquele “Ministério das nove horas”, presidido por Vasconcelos. O que parece mais provável é que no sistema de motivos que impe- liram Deodoro ao golpe contra o trono, havia razões gerais, que eram as de todos os republicanos, e havia razões particulares, que só eram do caudilho da revolução. Uma dessas era a sua inimizade radical com Silveira Martins. 1 MONTEIRO, Tobias. Op. cit.
Deodoro tinha, com efeito, uma justificada animosidade contra o grande tribuno rio-grandense. Este o desautorara no Rio Grande e de- pois, quando Cotegipe demitiu Deodoro do comando das armas, mo- veu-lhe uma violenta campanha pelo Parlamento e promoveu-lhe mesmo a responsabilidade perante o Supremo Tribunal de Justiça. Ora, Ouro Preto, demitindo-se, sugerira ao Imperador o nome de Sil- veira Martins para reorganizar o Ministério – e nos círculos militares correra o boato de que o Imperador aceitara a sugestão. O novo presi- dente do Conselho seria então o maior inimigo de Deodoro – e isto (Deodoro o confessou), para quem tinha em mão todos os trunfos e apoio da unanimidade do Exército, era absolutamente intolerável: “Na palestra amistosa e de camaradagem de outros tempos, que tive com S. Ex. a sobre o golpe de Estado de 3 de novembro, que estava na ordem do dia – diz uma testemunha fidedigna – entre muitos inci- dentes que se passaram, um bastante me impressionou. S. Ex. a,c o m aquela franqueza brusca, de que sabia usar em certas ocasiões, me de- clarou que somente cogitou da República no momento em que tivera certeza de que o Imperador mandara chamar, por telegrama, o conse- lheiro Gaspar para organizar Ministério, e que, aproximando-se dele, o Dr. Benjamin Constant disse – ‘General, V. Ex. a tem o direito de dispor da sua cabeça, como bem e melhor entender; mas me parece que não tem o direito de dispor das cabeças dos seus companheiros, que tomaram parte ativa na revolta contra o Governo.’ – Tais palavras (disse-me S. Ex. a) causaram-me profunda impressão, e lembrei-me que era inimigo figadal de Silveira Martins, que, organizando o Minis- tério, era de esperar que, não só eu, mas os meus companheiros, tería- mos que sofrer as conseqüências do espírito irrequieto de Gaspar.”2 2 FLEIUSS, Max. História Administrativa do Brasil, 2.ª edição, 1925, p. 434.
Benjamin era uma natureza ardente, de convicções fortes, e devia ser também um psicólogo sagaz: vê-se bem que ele havia tido a intui- ção segura do lado fraco do caráter de Deodoro, a sua impressionabi- lidade, a sua sugestionabilidade, a fácil dissociabilidade da sua síntese mental, para falar como Janet. Deodoro era um nobre homem, de alma franca e cavalheiresca; mas, no tocante ao temperamento intelec- tual, pertencia àquele “tipo gregário”, da classificação de Grasset, e, como todo gregário – é de Grasset o conceito – “isolé, il peut être soli- de dans ses convictions; mais un article de journal, une conférence, un meeting, le font immédiatement changer. C’est un instable, un malléa- ble, dont le polygone se laisse très facillement désagréger et influencier par la contagion des voisins.” Esse argumento – de que Deodoro, assentindo na ascensão de Silveira Martins, iria pôr em risco a cabeça dele, Deodoro e dos seus camaradas – não encerrava nenhuma verdade, nem a menor sinceri- dade da parte de Benjamin; era apenas pura mise-en-scène, um truque melodramático, perpetrado calculadamente com o fito de criar em Deodoro este estado moral específico, a que chamam, em técnica de psicologia, a “emoção-choque”, desagregadora do polígono. É justo reconhecer que o truque foi habilíssimo, de efeito exato, preciso, seguro – pois o próprio Deodoro confessa o estado de supe- rexcitação, de exaltação, de impressionabilidade, em que ficou depois daquelas palavras de Benjamin. Esse boato da indicação de Silveira Martins foi, porém, um fator de última hora, que surgiu na manhã do próprio dia 15, quando Deo- doro já havia conseguido o seu objetivo principal, que era a destitui- ção do Gabinete. Ele não nos pode dar a razão do que aconteceu antes 3 GRASSET. La Biologie humaine. Paris, 1920, p. 283.
disso, isto é, o assentimento de Deodoro à proclamação da República, a 11 de novembro, cedendo à exortação de Benjamin. Já neste caso é preciso considerar, como elemento explicativo, um outro fator – e este fator é o próprio feitio moral de Deodoro. Deodoro era uma natureza apaixonada, vibrante, dotada de uma grande emotividade. Basta-nos ler a sua resposta à carta confidencial de Cotegipe, quando comandante das armas do Sul, para sentirmos esta têmpera exaltada, exuberante, passional do velho Fonseca. Com um entusiasmo de fácil explosividade e uma sentimentalidade tumul- tuosa, Deodoro pertencia bem ao tipo das naturezas ardentes e fran- cas, capazes de dedicações profundas, mas também de antipatias irre- dutíveis. Neste ponto, diferia absolutamente de Floriano. Este era um tem- peramento apático e frio, uma alma com a temperatura de batráquio, cujo entusiasmo ardia sem chama: por isso mesmo, insusceptível de impulsos passionais, como incapaz de transigências ou “fraquezas” afetivas. Já Deodoro, ao contrário, com a sua viva e pronta emotivida- de, oscilava facilmente de um a outro pólo – entre a brandura e a cóle- ra; cordeiro para os amigos; para os inimigos leão – com a diferença apenas de que esse leão só tinha do leão a força, o ímpeto, o rugido, mas de modo algum a ferocidade sanguinária. Homens deste temperamento e deste feitio, quando trabalhados pelos frios manipuladores de insídias, ou quando sob a ação de uma inteligência persuasiva e eloqüente, adquirem a passividade dos hip - notizados, movem-se para onde se os impelem, embora julgando-se sempre o centro do movimento. Desses é que se pode dizer o que de Nunes Machado disse Paraná – que são capazes de todas as coragens, menos da coragem de resistir aos amigos. Vede Deodoro. Quando, na sua própria casa, é assediado pelo nú- cleo dos republicanos, a uma exortação mais veemente do seu amigo
Benjamin, cede logo, incapaz de resistir à onda emotiva que o alaga, abafando-lhe todos os escrúpulos de lealismo. No dia do triunfo, também o vemos vacilar até a tardinha; mas, depois de envolvido na aura de sugestões que lhe criara o núcleo tenaz dos republicanos, ve- mo-lo já outro, “fixado” definitivamente, concordando com tudo, as- sinando tudo, consentindo mesmo em nomear seu Ministro da Agri- cultura a Demétrio Ribeiro, que não sabia quem era. – “Quem é este?” – perguntou. Glicério, rente dele, e ardente, disse-lhe que se tratava de um grande homem local. E Deodoro: – “Lá só conheci Castilho, Assis Brasil e Ramiro, mas, vá lá.” E assinou o decreto de nomeação... Demais, Deodoro, justamente por esta fácil emotividade, possuía uma outra qualidade que também concorreu para explicar o seu papel no movimento. Era aquela “coragem da aventura política”, que Nabu- co encontrava em Baquedano. Esta coragem Floriano não a tinha: – “Nas questões militares – disse uma vez Deodoro – sempre que abor- dei Floriano declarou-me que não se meteria em coisa alguma para derrubar Ministérios.” Entretanto, Floriano desejava intimamente o resultado visado por Deodoro. Esta diferença de temperamentos é que explica a diferença da atitu- de dos dois chefes militares: a atitude desassombrada de um e a atitude enigmática de outro naqueles instantes dramáticos, que antecederam o da vitória. Não seria exato, entretanto, supor que Deodoro representasse o precípuo papel que representou nos acontecimentos, contribuindo 4 V. MONTEIRO, Tobias. Op. cit.
apenas com a sua equação pessoal. Nestas suas oscilações angustiadas de consciência, nestes escrúpulos que acabam cedendo, nessas recor - rências do espírito de lealismo, ele era bem o expoente do pensamento de Exército e – mais do que isto – uma expressão simbólica do pró - prio momento. D. Pedro II como que se extinguia lentamente: diabético, a molés- tia insidiosa e destrutiva ia-lhe carreando, na poliúria crescente, todas as reservas de vitalidade. Os espíritos menos impacientes, que eram a maioria do país, haviam por assim dizer combinado tacitamente que se esperasse com paciência, mesclada de carinho e veneração, a liqui - dação pela morte dessa grande vida – para mudarem a forma de gover- no: antes disso, não. Depois disso, sim: todo mundo – os círculos civis e os círculos mi- litares – admitia a inviabilidade do 3.º Reinado. O problema da Mo- narquia estava circunscrito à existência do Imperador, à existência de D. Pedro II, confessavam os republicanos pela boca de Quintino. O 3.º Império era, para a generalidade dos espíritos, um problema de so- lução negativa. Não tendo D. Pedro descendência por linha varonil, o 3.º Império seria, com efeito, o cetro nas mãos de uma senhora, dotada, é certo, de peregrinas virtudes, com todas as nobres e sublimes fraquezas do seu sexo; mas, presa pelo dever e, o que é mais, pelo coração a um estran- geiro – e era este justamente o ponto delicado do problema. O Conde d’Eu não conseguira nenhuma popularidade, nem mes - mo sequer a simpatia dos círculos políticos e sociais do país. Era ele um tipo acabado de gentil-homem, mas a quem faltava o tato preciso para entremostrar as muitas riquezas ocultas da sua alma, os seus gran- des dons aristocráticos de caráter e de inteligência. Ninguém foi mais mal compreendido no seu meio do que ele; a maledicência tomou-o à sua conta para impopularizá-lo, projetando a sua personalidade na
imaginação das massas, não numa imagem exata, mas numa imagem deformada e caricatural, em que não eram escassos os traços de antipa- tia e de grotesco. É assim que, sendo um bravo nos campos de batalha, diz uma testemunha daquela época, nunca se fez um herói estimado e consagrado pelos seus companheiros de armas; sendo um homem de maneiras simples, nunca se fez popular; um verdadeiro “mãos largas” em favor dos necessitados, mas que passava, entretanto, pela suspeita de avareza e sordidez: “O que era possível fazer para conquistar o título de Brasileiro, ele o fez; regulamentos, projetos de lei para melhor organização do Exército e aperfeiçoamento do seu material de guerra; escolas, bi- bliotecas, colônias orfanológicas para a infância desamparada; tudo, enfim, quanto podia falar à gratidão das massas mais despro- tegidas da sorte, ou às diversas classes da sociedade, ele planeou ou executou na maior parte. Tudo era inútil: a sua surdez, a sua incor- reção de trajes, a desordem dos seus gestos, a frase gritada e travada de rr ásperos, a falta de esplendor nos seus palácios, a ausência de ações grandiosas e brilhantes, certo tom pretensioso no modo de tratar com os homens públicos, a sua posição, aliás natural, de con- selheiro da Princesa, recebida em todos os círculos como uma in- tervenção intrusa, eis aí os verdadeiros óbices a qualquer tentativa de 3.º Reinado, mesmo no tempo da Monarquia. Por todos esses motivos, o Conde d’Eu jamais conseguiu ser Brasileiro; foi sempre para todos – o Francês.” Os republicanos, como era de esperar, exploraram esta situação do príncipe consorte como o supremo argumento, o mais impressionan- 5 AVELINO, José. Cartas do Rio (no Correio Paulistano, março de 1890).
te, contra o 3.º Império – e com ele abalavam todas as consciências, mesmo dos que se mantinham, como Deodoro e Pelotas, ainda presos à velha instituição pelos laços, um tanto tênues não há dúvida, da gra- tidão e da veneração pelo velho monarca. “Sim, ou não pela Monar - quia – dizia Saldanha Marinho, no seu manifesto de 12 de junho de 1889. O Paço,o uo Povo. O Conde d’Eu, ou a liberdade; a indignidade, ou o amor da Pátria.” Este dilema formidável surgia como a inscrição fatídica dos festins de Baltazar, em que se anunciava a condenação a prazo breve do 3.º Império. Por outro lado, os que ainda se conservavam fiéis à Monarquia, convencidos da superioridade dela e das suas instituições, e se rece- avam da República, de cuja experiência desastrosa o mundo plati- no era exemplo; estes, vendo a impossibilidade do reinado da filha, voltavam-se, ansiosos, para os jovens rebentos da dinastia; mas, re- conheciam, desolados, que ali também não havia ninguém. Dos príncipes da Casa Imperial – filhos de D. Isabel e filhos de D. Leo- poldina – nenhum aparecia com o relevo e o prestígio de uma gran- de ou de uma forte personalidade, dotado com uma soma de ascen- dência social ou política capaz de fazer-se centro de gravitação das esperanças dos que não queriam desesperar da Monarquia. Uns, muito jovens ainda, como os filhos de D. Isabel, ainda não haviam revelado por inteiro a sua personalidade; outros – como os filhos de Duque de Saxe – evidentemente sem nenhum traço de caráter ou de inteligência, que os fizesse ultrapassar o estalão das medio - cridades sadias para colocá-los no plano dos expoentes de uma época, ou dos centralizadores, mesmo momentâneos, das aspira - ções de uma sociedade. O Príncipe D. Pedro, por exemplo, segundo um seu contempo - râneo:
“Tinha talento, mas não tinha espírito; tinha educação científi- ca, mas faltava educação literária; amava as festas dançantes, mas não tinha encantos comocauseur e era um valsista desgracioso. Ulti- mamente, depois da viagem à Europa, voltou mais príncipe do que foi: dava jantares, tinha uma bela instalação, adquiriu quadros ori- ginais de algum valor, bronzes de autores célebres, e estava fazendo um pouco o papel de homem do mundo. Mas, faltava-lhe a arte de atrair os homens públicos, de arregimentá-los ou arregimentar-se com eles, não conhecia a tradição dos partidos, nem as questões so- ciais pelo seu lado prático. Era um órfão emancipado, e não um ho- mem público. Além disso, era uma natureza hesitante e tímida, em- bora tivesse caráter expansivo”. Os amigos sinceros da Monarquia, os que a estimavam e prezavam, porque a julgavam benéfica e superior, como Nabuco, encontra- vam-se assim numa situação de melancolia e desesperança: para além do curto horizonte, em que se debatia a vida do velho monarca desfa- lecente, não viam nada – porque viam apenas uma massa escura, densa de treva, onde não divisavam a réstia de nenhuma claridade animado- ra. Tudo isto eram fatos que iam diminuindo o sentimento de apego ao Trono, mesmo entre os mais sinceros adeptos da Monarquia; que, em cada consciência monárquica, iam reduzindo a força dos motivos interiores de resistência à penetração insidiosa da idéia republicana; que, portanto, iam elaborando insensivelmente estes estados de cons- ciência, oscilantes e dúbios – como aquele em que se achou, desde o momento da sua entrevista com Benjamin até o momento supremo do Quartel General, o caudilho da revolução. 6 AVELINO, José. Op. cit.
É preciso observar que Deodoro não contava com a solidariedade do Exército todo, senão na questão propriamente militar e no empe- nho da derrubada do Gabinete; em relação à idéia da República, o Exército, isto é, o quadro da sua oficialidade, estava dividido – e a própria resposta de Pelotas à insinuação de Serzedelo: – “Por agora preciso do concurso de todos os camaradas” – bem prova que havia no Exército uma corrente favorável à Monarquia e que recusaria o seu concurso ao movimento, se este tivesse o caráter republicano. Devemos dizer, para sermos exatos, que esta corrente era justamen- te a mais numerosa, e que a corrente republicana formava uma peque- na minoria, embora representando o que havia de mais novo e culto na aristocracia militar da época. De um lado, estavam as espadas glorio- sas, que haviam feito a campanha do Prata – o grupo dos “colarinhos de couro”, com o corpo lacerado de gilvazes e em quem a bravura comprovada supria as possíveis deficiências de cultura. De outro lado, estavam os “cadetes filósofos”, sem gilvazes nenhuns no corpo, mas túmidos de erudição, e que, não tendo, pelas contingências da idade, podido bater-se nos campos do Paraguai, gastavam o seu ardor belico- so, ganhando batalhas napoleônicas dentro das salas de aulas de Estra- tégia e movendo sobre a cartografia da mapoteca da Escola os seus exércitos vitoriosos. Era o grupo dos “ínclitos traquinas”, de uma ver- salhada da época. Esta fração erudita e jovem estava embebida de Positivismo – e era, por isso, republicana. O seu chefe era Benjamin Constant, que sobre ela exercia uma ascendência fascinadora. 7 LEPIDO, A. Celsianas.
Entre os “colarinhos de couro” dominava um certo espírito, não diremos de lealdade à Monarquia, mas certamente de respeito e vene- ração pelo Imperador, que também havia contribuído para a grandeza do triunfo nos campos paraguaios. Estes dois grupos estavam todos unidos em torno de Deodoro, para reagir contra a política antimilitar de Ouro Preto. Este, atacando um e outro grupo, atacava todo o Exército – e foi isto que possibilitou o inesperado desvio do movimento, inicialmente dirigido contra o Gabinete, no sentido do campo republicano. No fundo, a República não foi senão o arrastamento do grupo numeroso dos “colarinhos de couro”, chefiados por Deodoro, pela pequena fração dos “cadetes filósofos”, chefiados por Benjamin. Esse arrastamento, porém, só se deu porque nos “colarinhos de couro” o sentimento de lealdade à dinastia, pelos fatos já apontados, começava a vacilar e enfraquecer-se. Para esse enfraquecimento do espírito de lealdade a D. Pedro e à sua dinastia também contribuiu outro fator – a moléstia do Impera - dor. O velho monarca estava então com cerca de 64 anos – e a molés- tia aniquiladora ia acelerando a marcha das suas destruições. Parece que a sua vontade já se estava entibiando e a sua atividade esmorecia. Cá de fora, a impressão geral era que o Imperador se abandonava ao círculo reduzido dos seus comensais do Paço, e o cetro só nominal - mente estava nas suas mãos. De fato, dizia-se que o poder majestático passara para a Princesa Isabel, por detrás da qual agia o Conde d’Eu. Ou para o chefe do Gabinete. Ou até mesmo para o médico do Paço, o Conde de Motta Maia.
“Sua Majestade, que exerceu o poder pessoal em toda a sua plenitude – dizia o deputado João Penido na sessão de 17 de maio de 1889 – está hoje em dia colocado em pólo diametral - mente oposto; hoje S. M. reina, mas não governa, nem adminis - tra como fazia dantes: administram por ele, governam por ele. Isto é o que está na consciência de todos e é a voz pública. Pela enfermidade que o persegue, a ação de S. M. limita-se a pergun - tar aos ministros: – ‘Que papéis temos para assinar?’ e assina-os sem discutir, sem dar mesmo a sua opinião. Já ouvi mesmo uma revelação mais grave, e é que neste país até senadores já foram nomeados sem que S. M. o soubesse. Nota-se mudança comple - ta neste país. Se S. M. está bom, se se acha em estado normal, porque não se revezam junto a ele os médicos do Paço, mas só um deles exclusivamente trata da Sua Majestade? Diz-se, e eu te- nho a coragem de repetir sob a minha responsabilidade, que o Imperador de fato é o Sr. Conde de Motta Maia! Sua Majestade move-se ao aceno do Sr. Motta Maia, a quem obedece como uma criança dócil e bem educada. Se o Conde de Motta Maia d i zaS.M.q u es a i a,S.M.s a i;s ed i zq u ef i q u e,S.M.f i c a. ” Ferreira Viana, então ministro do Império, contestou, em resposta a este discurso, que o Imperador estivesse reduzido a esta situação de fraqueza. Reconhecendo embora que o Imperador já não tinha a ativi- dade dos primeiros tempos, podia contudo assegurar que ele continu- ava perfeitamente “na inteireza da sua alta razão e da capacidade que lhe é reconhecida e tem sido experimentada no governo do Estado”. O certo, porém, é que a opinião corrente era de que o Imperador “não governava mais”. Era esta pelo menos a convicção dos círculos militares, como se vê da carta de Pelotas a Ouro Preto. O que era mais grave é que, para muitos, principalmente nos meios militares, o mo -
narca de fato não era propriamente o Conde de Motta Maia, como pensava o deputado Penido, mas o próprio chefe do Gabinete de 7 de junho – o Visconde de Ouro Preto. Ora, reuni esta convicção de que o cetro já não se achava nas mãos do monarca, débil e quase moribundo; e mais as repugnâncias pelo 3.º Reinado; e mais a ação das grandes influências gerais: a desilusão do ideal monárquico, o descontentamento pela Abolição, a relativa difu- são do ideal republicano: e é fácil compreender agora as “oscilações” de Deodoro, a relativamente pequena recalcitrância com que ele cedeu à sugestão e ao arrastamento de Benjamin com a falange dos seus “ca- detes filósofos”. É fácil compreender também porque o grupo nume- roso dos “colarinhos de couro” não quis fazer a contra-revolução e aceitou o fato consumado da República. O golpe do Quartel-General fora uma surpresa, não diremos já para a Nação em geral, mas mesmo para a cidade em geral. Dos habi- tantes desta grande Capital, ninguém esperava por aquilo, ninguém sa- bia o que aquilo era, ninguém compreendia aquilo: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava – disse Aristides Lobo, um dos prin - cipais co-responsáveis daquele acontecimento. Muitos acredita - vam sinceramente estar vendo uma parada. Era um fenômeno digno de ver-se. O entusiasmo veio depois, quebrando o enleio dos espíritos.” 8 V. TEIXEIRA, Cândido. Op. cit.
Este entusiasmo, de que falava Aristides Lobo, não foi, porém, o entusiasmo do povo – e sim o entusiasmo da pequena minoria repu- blicana. O povo, o nosso povo, se mostrou, como sempre, indiferente às formas de governo: aceitou a República, como já havia aceitado a Monarquia, como aceitaria amanhã o Regime bolchevista, ou o Fas - cismo italiano. Neste ponto, os promotores da jornada de 15 de Novembro foram realmente felizes. Ninguém, com efeito, acreditava, senão eles, no mi- lênio republicano; e, por isso, nenhum deles poderia ter o pressenti - mento melancólico de Lendru-Rollin, quando dizia a Lamartine, no instante mesmo do triunfo: “Amigo, vamos para o Calvário”. O nosso povo, como já vimos, não havia criado o ideal da República – e não podia, pois, como os cidadãos franceses do 3.º Império, pedir contas aos que os iludiram, para crucificá-los no Calvário do seu desaponta- mento indignado. Descendo do trono, do alto do qual dominara durante cerca de meio século, D. Pedro achou-se só, isolado. Naquele momento angus- tioso, junto dele só se encontraram apenas os membros da sua família, e dois amigos: o General Miranda Reis e o Visconde da Penha; mais ninguém. Lá fora a adesão geral, mesmo dos conservadores emperra- dos, chefiados por Paulino e Francisco Belizário: “Todos estão conformes com o que se passou – escrevia ainda José Avelino – e os últimos e dedicados amigos da Realeza depos- ta, ao apartarem-se do Imperador, vinham pressurosos e chorosos para as suas antigas oficinas de trabalho dizer: ‘O que está feito, está feito. Pensar em restaurar a Monarquia seria um erro (e a Mo- narquia estava ainda no porto); vamos cuidar da República e da Pátria.’ Isto mesmo escreveram todos os antigos estadistas, quando consultados pelo ilustre redator chefe do Correio Paulistano, ainda
mesmo aqueles que foram pessoas efetivas da Casa Imperial e mó- veis do seu uso constante.” Nada mais singular do que este isolamento, em que se encontrou o grande monarca no momento da sua queda. Isto vinha muito do tem- peramento de D. Pedro, da sua retidão, da sua imparcialidade, do seu senso justiceiro, da sua inacessibilidade ao espírito de compadrio e de corrilho. Ele era bem o varão justo das Escrituras – e era também o va- rão sábio: e um e outro desses atributos podem gerar a admiração, mas não geram nunca a amizade. Esta só se dá aos grandes, quando eles misturam à grandeza da sua glória um pouco do barro escuro das nos- sas humanas fraquezas e, à maneira das divindades gregas, sabem ser, ao mesmo tempo, deuses e homens. Há quem dê a sua vida por César, Napoleão ou Bismarck, homens de facção, homens de violência, homens de preia; mas ninguém há que o faça por Platão, Kant ou Pasteur. D. Pedro pertencia a esta última classe, era também espécime dessa fauna admirável e escassa, de onde saem os santos, os sábios e os varões justos. Daí o seu isolamento. Ele não soube formar em torno de si uma camarilha de cortesãos – e isto porque nunca exigiu de nenhum dos seus auxiliares mais ínti- mos, como nunca exigiu dos seus ministros, nenhum ato de abdicação, nenhuma mostra de servilismo, nenhuma prova de cortesanice. Os homens de governo, com quem trabalhou na administração do país durante o longo período de meio século, não se sentiram na necessida- de de ser áulicos para ganharem a sua confiança segura, honesta, chã e, algumas vezes, como no caso de Saraiva e Paraná, ilimitada. O que dá a medida exata da elevação do caráter de D. Pedro é justa- mente o fato de que os políticos, que passaram por áulicos, como Se- petiba, Paranaguá ou Bom Retiro, nunca tiveram grande prestígio, nunca tiveram mesmo a preferência da Coroa todas as vezes em que se
fazia preciso ouvir uma palavra de conselho. Paraná e Saraiva, por exemplo, eram homens de altivez inflexível – e foram, cada um no seu tempo, entretanto, centros poderosos de força política e governamen- tal. O caso de Paraná é expressivo. Nenhum homem recebeu maior prestígio da Coroa do que ele: foi, no tempo do seu domínio, uma sor- te de 2.º imperador, e a Coroa nunca lhe negou a confiança. Entretan- to, este homem nunca foi áulico. “Paraná – é o próprio Imperador que o diz, anotando um trecho de Tito Franco – Paraná não se curvava.” E, como Paraná, todos os outros – e nem por isso desmereceram um instante da confiança da Coroa. Estes auxiliares de D. Pedro no governo do país e no Conselho de Estado não deixavam apenas de curvar-se à vontade do Impera- dor, não lhe rendiam mesmo outras homenagens senão as que eram compatíveis com a sua altivez e dignidade. Todos eles faziam tim- bre de não ser cortesãos – e, apesar disso, nunca se sentiam caídos em desgraça. Este fato é tanto mais significativo, quanto por aquele tempo, como hoje, todo o prestígio político vinha da Coroa, e de mais ninguém: “Quando alguém parece ter força própria, autoridade efetiva, prestígio individual – dizia Nabuco, em 83 – é porque lhe aconte- ce neste momento estar exposto à luz do trono: desde que der um passo, ou à direita ou à esquerda, e sair daquela réstia, ninguém mais o divisará no escuro.” Neste ponto, é sensível o contraste entre o pai e o filho. Este nunca teve camarilhas de favoritos; aquele perdeu-se justamente por dei - xar-se cercar por uma destas camarilhas, a que deu confiança, prestí - 9 NABUCO, Joaquim. O abolicionismo, p. 197.
gio, força. Os ministros do filho, ao contrário, os homens que servi - ram no seu governo, não freqüentavam o Paço, faziam mesmo alarde disso – e D. Pedro nunca lhes levou a mal esta atitude. Justamente por este desprendimento de D. Pedro é que se generali- zou o hábito de se manterem ausentes do Paço os homens de mais prestígio, mesmo os que colaboravam com ele no governo: – “Nunca vaguei pelas imediações dos Paços da cidade, nunca me fiz, como o Sr. Ottoni, encontradiço na Estação de Petrópolis, para me exibir em pa- lestra augusta. Tampouco freqüentei o Palácio Isabel” – disse Ouro Preto, replicando sarcasticamente a Cristiano Ottoni, que lhe havia feito uma insinuação de aulicismo. Como Ouro Preto, todos os outros ministros do Imperador evi- tavam o Paço, fugindo à suspeita de serem áulicos – e o Imperador não se ressentia disso. Nabuco, na fase de sua maior popularidade, mesmo sabendo que o Imperador estava com as suas idéias favoritas: a Abolição e a Federação, nunca foi ao Paço para saudar o homem generoso, que também partilhava dos seus ideais – e Nabuco teve s e m p r e,c o m os a b e m o s,og o s t od ap r o x i m i d a d eed as i m p a t i ad o s grandes homens: “Nunca o oficialismo me tentou, nunca a sua deleitação me foi revelada; nunca renunciei a imaginação, a curiosidade, o diletantis- mo, para prestar sequer os primeiros votos de obediência; só vi de muito longe o véu jacinto e púrpura doSanctum Sanctorum – (tão de longe, que me pareceu um velho reposteiro verde e amarelo) – por trás do qual o presidente do Conselho contemplava sozinho, face a face, a majestade do Poder Moderador.” 10 NABUCO, Joaquim. Minha Formação, p. 35.
Os que, como Bom Retiro, contrariavam esta tendência geral, e se achegavam mais do Paço, freqüentando-o com mais assiduidade ou mesmo partilhando das intimidades gerais, eram seteados de epigra - mas, em cujas feridas havia a pungência do ridículo e do sarcasmo: “– Bom Retiro? – Senhor! – Que horas são? – As horas que V. Majestade quiser.” De onde se vê que a “luz do trono”, a que aludia Nabuco, só ilumi- nava aqueles que não se aproximavam demasiado do foco luminoso. Como que o Osíris imperial mergulhava na sombra os que lhe beija- vam a fímbria do manto resplandecente. Este traço do caráter de D. Pedro explica muito o isolamento, em que ele se achou no momento da sua destronação; mas, não é esta a causa única explicadora. Também contribuiu para isto a insuficiência ou fraqueza do sentimento monárquico nas tradições do nosso povo. Nós, realmente, nunca partilhamos da crença no direito divino dos reis. Nunca nos educamos sob a disciplina de autocracias coroadas. O prin- cípio monárquico nos chegou, quando já começava a ser despojado da sua auréola de santidade. O rei já não era, quando nos tornarmos uma nação, o “ungido do Senhor”,diante de cuja majestade todas as faces se abatiam ao raso do chão, como diante de um Deus; era, ao contrário, um privilegiado, cujo privilégio era discutido, combatido, negado. O sentimento monárquico existiu sincero, puro, consciente antes da Independência e principalmente durante os primeiros séculos colo- niais; mas, depois da Independência, foi essencialmente um sentimen- to da elite, uma elite diminutíssima, já o dissemos uma vez, 11 compos- ta de um pequeno número de homens, em cujo cérebro lampejava o 11 V. VIANNA, Oliveira. Populações Meridionais do Brasil, I, cap. XX.
gênio político. Essa pequeníssima elite possuía em alto grau aquilo que Nabuco chamava a “impenetrabilidade à aspiração republicana”, porque tinha a lúcida consciência do insubstituível papel que a insti- tuição monárquica representou e devia representar na vida política da nacionalidade. Felizmente para ela, esta elite tão reduzida teve sempre ao seu lado, pela elevação do espírito do Imperador, a força do poder político. O resto dos elementos que faziam política, o grosso dos dous par- tidos, seja o quadro da oficialidade, seja a turbamulta da soldadesca, esses oscilavam, como já observara Ferreira Vianna, entre a lisonja e a detração – lisonja quando o Monarca os chamava, detração quando os despedia; mas nenhum sinceramente amigo da instituição que ele en- carnava – à maneira do cidadão inglês para com a pessoa veneranda do seu Rei, ou do samurai japonês para com a resplandecente divindade do seu Mikado. Com todos esses grandes e pequenos elementos de negação, o Império não podia deixar de ter o fim melancólico que teve. Merecia, no seu ocaso, ter o esplendor flamejante e a grandeza tranqüila de um belo poente de verão e, entretanto, não teve nenhum desses traços de beleza épica que, de costume, acompanham a queda dos Impérios: o rumor e o brilho das espadas que se entrebatem e lutam, ou o clamor das multidões enfurecidas que apedrejam e ululam. Terminou, ao contrário, muito prosaicamente, e de súbito. Do Paço, de onde domi- nara durante meio século, o velho Imperador, abatido pela moléstia, mas nobre ainda no seu porte majestoso, saiu, não sob a claridade da luz meridiana, mas dentro da noite, sob a escuridão protetora de uma
alta madrugada, como um criminoso que se foragisse – e foi às pressas que embarcou no pequeno navio, que o haveria de levar para as triste- zas do exílio irrevogável. “Não sou negro fugido. Não embarco a esta hora” – protestou pela última vez, conformado com o destino, mas ainda cioso de man- ter, na queda, a sua dignidade majestática. Não o atenderam. Obede- ceu, e embarcou. No fundo, não levava nenhuma desilusão, senão a experiência da ingratidão dos homens. Esta mesma ele, na sua magna- nimidade, parecia ter perdoado: não teve uma palavra só de censura para ninguém, uma só recriminação, um só desabafo de desespero, ou de cólera, ou de mágoa: nada. Os que o contemplaram neste momento surpreenderam-se ante a sua calma estóica, a serenidade da sua atitude, a grandeza impressio- nante da sua resignação. “É a minha aposentadoria. Já trabalhei muito, e estou cansado; irei descansar” – disse, numa confissão tranqüila, e todo ele, o seu espírito, a sua consciência, o seu sentimento do mundo estavam nestas palavras confidenciais. O sábio, e justo, o filósofo, que existiam nele, reapareciam para brilhar na plena luz daquele dia fatal: o rei, o político, o homem de Estado, que sempre foram expressões se- cundárias da sua personalidade, desapareciam inteiramente. “Oh, ele conservava-se o mesmo homem, pairando sempre à mes- ma altura, e esteve assim até o último momento em que o vi!” disse, cheio de admiração, o comandante do navio que o transportou. Passado aquele “enleio dos espíritos”, da confissão de Aristides Lobo, a nova ordem de cousas começou a ser aplaudida. O novo Go- verno tinha homens de eloqüência e imaginação que haviam consegui-
do suscitar nas almas incrédulas as esperanças da Idade de Ouro de Sa- turno. E o velho Imperador foi esquecido. Hoje, porém, depois de mais de trinta anos de vida republicana, ele começa a ser relembrado. Nascida dentro da República, sem compro- misso nenhum com as gerações da propaganda, a geração atual não partilha nem das suas idéias e, muito menos, dos seus ódios. E começa a fazer a justiça merecida ao grande Imperador. Ele, certamente, não teve nem gênio político, nem gênio militar. Não era um estadista, nem um guerreiro. Era um contemplativo, era um sábio, era um justo. 12 Era talvez daquele tipo de homens, de que fala Brandès, “em quem o gênio da bondade se manifesta”: – “Ceux qui exercent plus d’influence par leur être que par leurs actions, les êtres nobles, grande- ment bons, en qui le génie de la bonté se manifeste.” Há quem veja nele um filó- sofo, à maneira antiga; há quem, por isso, o compare mesmo a Marco Aurélio (e seria, neste caso, o Marco Aurélio dos trópicos). Certo, ele teve, como Marco, aquelainfantia gravis, de que fala Capi- tolino; 13 mas, Marco era um estóico, afeito ao “abstine et sustine”d ar e - gra de Zenon e de Epicteto, quase que um cético, uma sorte de Eccle- siastes latino, “blasé sur toutes les joies sans les avoir goutées”, como disse Re- nan – e não cremos que D. Pedro fosse propriamente isto. O que parece mais próximo da verdade é que D. Pedro, apesar da sua grande cultura, não chegou a ter uma alta visão filosófica do mun- do e da vida. Realmente, ele estava mais próximo de Antonino Pio do 12 Esse sentimento da justiça transparece em todos os atos do Imperador, princi- palmente na maneira imparcial e superior com que ele se julgava a si mesmo e aos ho- mens que o cercavam. Quando esteve em visita a Victor Hugo, este perguntou-lhe se não receava deixar o trono por tanto tempo: – “Não, respondeu D. Pedro; os negó- cios fazem-se muito bem na minha ausência; há na minha terra tantas pessoas que va- lem tanto ou mais do que eu.” 13 V. FLEIUSS, Max. Cap. I das Contribuições para a Biographia de D. Pedro II.
que de Marco Aurélio. Se era filósofo, seria, não como Marco, mas como Antonino, “sans le dire, presque sans le savoir” – e o seu “Nunca dese- jei o mal” bem pode ser comparado ao “Aequanimitas” antonineano. O ângulo, porém, sob que devemos ver o velho Imperador, para vê-lo melhor, na exata medida da sua grandeza, não há de ser o das suas idéias gerais, ou do gênio; há de ser o do caráter. Dele é que se po- deria dizer, parafraseando o que Boissier disse de Julius Graecinus, pai de Tácito, que, se era um sábio e um filósofo, era antes de tudo um ho- mem de bem. Há de ser sob este aspecto – como a mais alta revelação da nobreza moral da nossa raça e da nossa gente – que D. Pedro há de viver na memória das gerações futuras, como já está vivendo na me - mória das gerações de agora. Homem de bem, ao modo antigo, ele tinha o claro idealismo latino da Verdade, da Justiça e da Bondade. Se não pôde dizer, como Péri- cles, que a melhor cousa da sua vida era que nenhum ateniense tomara luto por sua causa, poderia, entretanto, repetir com justiça aquelas es- trofes do Carmen sæcularehoraciano, consagradas à glória do reinado de Augusto: Jam Fides et Pax et Honos Pudorque Priscus et neglecta redire Virtus Audet aparetque beata pleno Copia cornu. No meio da presente ferocidade dos partidos, que se digladiam pela conquista do poder e avermelham do sangue mais generoso os quatro cantos da nossa terra, é que podemos aprender como era bené- fica a sua ação moderadora, a ação do seu espírito cheio de tolerância e 14 Cf. CELSO, Afonso. Cap. XI das Contribuições para a Biographia de D. Pedro II.
equanimidade. Com uma perspectiva bastante ampla para podermos medir com justiça a grandeza do seu espírito e do reinado, bem senti- mos hoje quanto foram injustas para ele as gerações, no meio das quais viveu. Ele não foi compreendido senão por um pequeno grupo de al- gumas raras almas delicadas. Os políticos julgaram-no sempre mal – e sente-se que, no fim da sua vida, ele já se achava tomado da fadiga, cansado de chamá-los improficuamente para o lado da tolerância, da imparcialidade e da justiça. Este cansaço, entretanto, ele, felizmente para nós, nunca o confessou enquanto deteve em suas mãos o símbolo da soberania. Nós, os de agora, lhe somos gratos pelo seu esforço indefesso de meio século em favor da Bondade, da Justiça e da Paz. O juízo que lhe fazemos hoje, dele e do seu reinado, é que ele, como nenhum outro brasileiro, bem mereceu da Pátria. Os homens daquele tempo, os do seu tempo, parece que não pen- savam propriamente assim. Decaído do poder, ele não teve uma só espada que se quisesse sacrificar por ele, uma só classe que quisesse lutar por ele, um só grupo político que o quisesse acompanhar na queda, senão o grupo reduzido dos que formavam o governo depos- to. Deixaram-no partir em silêncio, só. Nem uma palma agradecida. Nem um rumor breve de aplauso. Nem um só grito de protesto. E, no entanto, nenhum rei, como ele, fazia jus àquela glorificação ar - dente contida nas palavras de Isaías: – “Porque vós saireis em alegria e sereis conduzido em paz; os montes e os outeiros cantarão diante de vós cânticos de louvor e todas as árvores do país baterão com as mãos dando aplausos.”
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