Universo da obra
Universo da obra
La fixité de la personnalité dépend uniquement de la constance du milieu. Dès que ce milieu subit un changement, les équilibres des éléments de la vie mentale se dissocient. Il en résulte, chez le même être, la naissance d’équilibres nouveaux et, par conséquent, d’une personnalité nouvelle. LE BON Das alegrias e desventuras idas o que a memória conserva nem sempre é o essencial. Fotógrafo negligente, apanha ao acaso os instantâneos com que forma o álbum de imagens do passado de cada um. De um amigo querido que perdemos, de uma cena antiga que profundamente nos comoveu, fica-nos muita vez, como lembrança, um gesto apenas, um sorriso, uma atitude. A representação mental não vai além. E esses traços ligeiros tornam-se figurações alegóricas daquilo que um dia nos fez gozar ou sofrer. Certas épocas felizes fixam-se destarte num ponto de luz em nosso espírito, como, no céu, um ponto luminoso também resume a imensidade de um mundo. Quando Sálvio evocava o período em que sua felicidade culminara, via, sempre, mentalmente, o mesmo quadro: um quarto claro, pela manhã; através das vidraças, pouco além, um trecho de muro, onde grimpavam roseiras florescidas; e, rente ao muro, Leila, um lindo serzinho branco, em seu roupão também branco, colhendo rosas para as floreiras da sala. Cada vez que procurava ter a representação mental de sua felicidade, era sempre o que via: o dia limpidamente a filtrar no quarto, e Leila, o muro, os festões das roseiras... Ainda mais (a fotografia era sonora) — ouvia a canção que a esposinha chilreava, com sua voz docemente velada, mais velada ainda a soar através das vidraças descidas. Esse gorjeio amortecido dava-lhe a impressão da distância. Era como se Leila estivesse longe, ao cabo do mundo... Sentia a loucura DE amar
saudades, e seu olhar dizia-lho se ela casualmente se voltava. Leila então sorria-lhe, feliz de sentir-se adorada por aquela alma toda sua. E buliçosamente prolongava o martírio da espera, sabendo que mais doce tornaria o momento do regresso. Colhidas as flores, entrava. Ouvia-lhe Sálvio o piso leve na areia do jardim, e, depois, no interior da casa. Oh, o rumor de seus passos. Que música deliciosa aquele tique-tique miúdo, de seu andarzinho ligeiro, que a levava como num voo feliz! Enlevado, ele se concentrava a ouvi-lo, pois aquele som pertencia a ela, era também ela e por isso o seu ouvido queria-o todo, avaramente, sem o desperdício de uma vibração. Girava a maçaneta e Leila entrava, numa irrupção de vivacidade e alegria, mostrando-lhe a colheita de corolas orvalhadas: — Vê, Sálvio! que lindas! Ele dizia-lhe: — Que linda és tu, meu amor! Cingia-lhe o corpo branco. Sentia-a toda fria, contra si, rorejada também de orvalho, como uma grande flor matinal. Ela oferecia-lhe as rosas para que as beijasse. Seu rosto sorridente emoldurava-se na braçada florida. E era a boquinha ridente e esquiva, mimo de graça, que o seu beijo buscava. E as rosas desfolhavam-se. Choviam pétalas no leito e no tapete. E Leila, em lindo amuo, contemplava seu pobre ramalhete destroçado... Tivera outros momentos de ventura, mas nenhum se lhe imprimira na memória com a mesma nitidez de visão desta cena tantas vezes repetida; empastamento de imagens... o impreciso... névoa... névoa amável, que através dos tempos ainda lhe impregnava a imaginação com o saudoso ressábio das venturas passadas. Oh! a felicidade não se entesoura; flor de um dia, colhe-se no presente; e ao colhermo-la, toda ela arde intensamente e nesse flamejamento se consome. Restam depois cinzas, saudade... Na felicidade dele estava sempre Leila. Amava-a tão agudamente, que o assaltava de contínuo o receio de ver fugir sua ventura. “Minha
felicidade causa-me pavor”, dizia-se, tentando analisar os próprios sentimentos. “Sinto-me criminoso de um crime que desconheço, como se houvesse culpa em ser feliz. Será vedado à alma humana atingir os cimos da felicidade perfeita? Infringe assim o seu destino?” Ou talvez — refletia anos após — o infrator fosse ele apenas. Nascera predestinado ao sofrimento e instintivamente pungia-o a culpa de resistir a esse pendor fatal. Amava-a com exaltação de demência. Muita vez, tendo-a entre os braços, cingia-a violentamente, em frenesi incontível, como se quisesse reter uma ventura fugidia. E parecia-lhe ser incompleta a posse. Magoava-a... E Leila fitava-lhe uns olhos de muda exprobração, sem compreender-lhe tumultuoso amor. O excesso de sua ventura, por absurdo contraste, chegava a torná-lo infeliz. Nessa dúvida sem causa, nesse recear inexplicável, sombreava-se-lhe o espírito. Como o criminoso, tomado de horror, vê, em tudo o esgar agônico da vítima, também em seus momentos de ventura erguia-se-lhe diante o espectro misterioso de uma desgraça iminente. E embora a evidência o desmentisse, pressentia ante si o resvaladouro fatal, que o levaria despenhado, de transe em transe, ao abismo da dor sem intermitência nem limites. Em desvairada ânsia de posse queria Leila integralmente sua, em cada ato, em cada pensamento; queria-a fora do mundo objetivo, como um pensamento nascido em seu espírito e que apenas vivesse em seu espírito. Tomava zelos de tudo. E, quando no segundo ano de casados lhe nasceu Noeme, chegava a senti-los do amor que ela dedicava à filhinha. E ai! este sentimento mau ia mais tarde infligir-lhe remorsos cruéis. Compreendia o que havia de excesso nos próprios zelos, que sobrepujavam seu desejo de ser razoável. O país em que sua paixão nascera confinava por todos os pontos com o impossível. Seu irreflexivo sentimento de poderio sobre ela, de domínio absoluto, nunca o teve o senhor mais despótico sobre o escravo mais humilde. Para exercer esse ilimitado império queria que Leila fosse um objeto que se pudesse ocultar do mundo, retirar da vida comum,
para que vivesse nele e para ele exclusivamente. Desejaria cercar sua felicidade de todas as precauções como à princesinha malfadada os pais receosos de que se cumprisse o vaticínio da fada má. Se pudesse, ergueria entre ela e o mundo as paredes graníticas de uma prisão, tão altas, que do mundo apenas se avistasse, muito longe, onde pairam as nuvens altas, um pequenino retângulo azul. E nessa prisão far-lhe-ia esquecer tudo o que vivera, tudo, até seus pensamentos mais castos de menina inocente. Toda sua! Como uma Lorenza magnetizada, sob a hipnose de uma inextinguível paixão, a iniciar, desde essa amnésia, um novo ciclo de existência mental, só para ele, oclusa a memória para o que fosse lembrança diversa, toda ela voltada para a ideia fixa, para ele, para seu amor, totalmente sua, cada parcela de seu corpo, cada vibração de sua sensibilidade, até o esvoaçar efêmero do mais sutil pensamento. Em verdade: o impossível delimitado em todos os pontos por outros impossíveis. Era uma loucura amorosa que o enervava, uma como demência lúcida, porque bem reconhecia quanto tresvariava; a razão, vencida pelo sentimento, embalde repetia-lhe que cada qual apenas aquinhoa uma parcela da existência do ente amado; cada ser vive a fragmentar-se, a dispersar-se como um aroma; a beleza, a graça, todo o encanto da mulher, é um trescalar sutil que se irradia. Quantas vezes o fito de uns lindos olhos não põe um tumulto na alma daquele em quem negligentemente pousaram? E a modulação de uma voz doce, que ouvimos proferir uma frase vulgar, não instila, como a música, enlevo e turbação? E tanto basta para endoidecer o zeloso. O amor extremo aspira o irrealizável, e, por isso, infelicita, sentindo a cada momento a própria imperfeição. Como seria bela a completa fusão das almas, sonhada pelos românticos e pelos místicos! É o amor real pequena coisa, tosca e incompleta, feita para contentamento da animalidade rudimentar. Toda a grande paixão é um relâmpago de demência, é a revolta do homem contra a sua humanidade. Nasce votada à morte. É o relumbrar de um grande clarão que prestes se extingue. À proporção que corria o tempo, mais se avolumava essa infelicidade, nascida de sua grande ventura. Embalde ele perguntava-se:
“Por quê? Leila ama-me...”. Rebuscava atentamente a causa do seu sofrimento e não a descobria. E nem com isso lograva modificar seu estado de ânimo. Certo dia, em um livro, deparou-se-lhe esta reflexão: “Em todo o amor correspondido há um que ama a outro que se deixa amar”. Este pensamento caiu-lhe talhante n’alma, despertando-a, num sobressalto para a evidência. Não se esclarecia tudo? Leila amava-o, sim, mas seu amor, certo era a própria paixão dele, Sálvio, que irradiava para ela, iluminava-a e volvia restituída a seu foco de origem. Os grandes amores não fazem mais que amar a si mesmos. É a história de Pigmaleão... Têm eles poderosa força de contágio. Assim veria o sol, pela própria luz iluminada, a ronda fria dos planetas. Refrangência de luz... corrente induzida... sombra gerada pelo corpo, eco gerado pelo som. Leila amava-o... mas em seu amor havia unicamente a passividade de uma alma que se abandona. E na inércia de seu sentimento não poderia um dia germinar a semente do fastio? Ele já pensava entrever, em seu olhar tão lindo e meigo, como um desmaio de tédio, a embaciá-lo. Receava perdê-la, e este receio já era talvez a intuição da verdade e por isso se lhe tornava em vivo sofrimento, objetivando-se em zelos absurdos. Mas a verdadeira causa de sua infelicidade não poderia encontrar-se em nítidos motivos. Ainda estava em ser, toda em pressentimento, vaga intuição, nesse como senso divinatório que será porventura a secreta comunicação das almas. Em uma noite inesquecível ele, com a supervisão dos zelosos, teve a impressão viva do afastamento de Leila. Sentada ao piano, suas mãos corriam o teclado, negligentemente. Sob os dedos ágeis nasciam os compassos de sua berceuse favorita, tão modificada, porém, que era como se ela improvisasse, aprazendo-lhe, não reproduzir a inspiração alheia, mas embalar-se em cadência e em harmonia em relação com o ritmo secreto de seus sentimentos. Além da alma do compositor, habitava a música a alma dela. Modificavam-se, uma e outra, completavam-se, num sentimento comum e poderoso. No lânguido correr das mãos sobre as teclas, exprimia-se um
anseio que ousava, hesitava, esmorecia, numa agonia de incerteza e desalento e volvia, impetuoso, numa onda de desvairamento, para quebrar-se ainda num estranho e surdo queixume doloroso como o de um ser sepultado vivo nas entranhas da terra. Naqueles sons harmoniosos estava veiculado o que quer que era do recesso da alma, que se não pode exprimir em palavras; eram a expressão simbólica dum sentimento recalcado que asfixia e que, assim expresso numa linguagem de sons, desoprime da angústia inenarrável, conservando o segredo; ou seria a expressão de sentimentos informes, embriões indecisos, apenas esboçados no íntimo, além da percepção da consciência e já imperiosos perturbadores. Leila embalava-se na cadência lenta da música, tocando-a interminavelmente. Sálvio contemplava-a absorto. Via-lhe sobre as madeixas negras o branco nascer das espáduas, parecendo manar do fulgor leitoso de seus ombros a luz branca que iluminava a sala; fitava-lhe os braços pulcros, que em movimento harmonioso acompanhavam a cadência da música. Tão harmonioso que o objetivo do compositor parecia ter sido apenas criar-lhes o ritmo silencioso. A cabeça flectia-lhe em imperceptível cadência e o corpo, erguendo-se do mocho como capitosa flor humana, obedecia também, ligeiramente, ao ritmo suave. Sálvio, suspenso, contemplava-a. Para ele o maior gozo não era tanto ouvi-la, porém vê-la tocar. Arrastava-o uma invencível necessidade de adoração. Era preciso esforço para dominar-se, conter o ímpeto de interrompê-la violentamente, arrebatando-a ao piano em loucura de amor; e quedava-se imóvel, sofreando o seu desejo, sentindo que ceder a este era uma sorte de profanação... Porque via-a transfigurada; não era Leila, mas entidade excelsa, superior à humanidade, alta e pura como uma ideia, a manifestação de um ideal de beleza. Era a Mulher, poderosa distribuidora dos destinos humanos, realizando inconscientemente sua divina missão de seduzir. E essa noite Leila entregava-se com mais abandono ao embalar da música, à harmonia monótona e melancólica que brotava de seus dedos e parecia morrer e renascer de si mesma, como fonte
inexaurível de sons; repetição indefinida dos mesmos trechos, que lembrava o eterno suceder-se dos insignificantes acontecimentos da vida. E arrebatada pela linguagem dos sentimentos perturbadores que pela primeira vez encontravam expressão, Leila, tocando a harmonia interminável, gozava como um langor nascido num momento de volúpia e que prolonga indefinidamente a persistente memória da sensação esvaída. Sálvio sentiu-o... E seu enlevo, essa noite, tornou-se, pouco a pouco, tortura incomportável; zelos encapelaram-se-lhe n’alma em maré tumultuosa... zelos do artista morto que concebera aqueles sons venenosos e sua cadência hipnotizante, e que vinha do fundo do passado trazer a Leila a morbidez de seus sentimentos, seduzindo-a para aquele consórcio subjetivo; zelos de todo o incompreendido que pulsava na harmonia letal. E a música expirou-lhe sob os dedos. Leila ainda se quedou um tempo suspensa... Por fim tornou a si e fremiu, em sobressalto, ao sentir-se de novo no ambiente real. Volveu o olhar em torno e seu olhar encontrou o de Sálvio. Que estranho brilho ele surpreendeu-lhe no fito das pupilas! Era como a revelação de misteriosa febre que lhe devorasse a alma. E certo que se ela própria então se perguntasse “Que sinto?” reconheceria surpresa que não o saberia dizer. A Sálvio foi como se naquele momento ouvisse o fragoroso desmoronar de sua felicidade. Mas Leila ainda fitava-o sorridente... E seu olhar fascinou-o e seu sorriso atraiu-o. Avizinhou-se dela, e, trêmulo ainda de emoção, cingiu-lhe o corpo. Inclinou-se para a fascinadora, rosto contra rosto, imersa a cabeça sob as suas madeixas soltas, aspirando-lhes o olor acre e feminil. Estando assim, esquecia o sofrimento. Junto a Leila, era como se fizesse das mãos conchas, e, curvo sobre o Letes, bebesse a água do esquecimento. Agora, na alma dele, que se anulara, apenas estava Leila. Embebedava-o o esquisito aroma de flor que se exalava de seus cabelos, de seu corpo branco, como se no sangue lhe ardesse um raro incenso cuja fragrância lhe filtrasse na pele sedosa e quente. Sentiu-se ébrio,
tomou-o uma vertigem de amor, que lhe enfebrecia os nervos, como um tóxico violento. Era feliz. E compreendia então que o destino o encadeara àquele grande amor, que o arrastaria após si na vida, inelutavelmente, quebrantado e inerte como uma coisa... Depois, quando a lufada de loucura passou, Sálvio recaiu no seu estado de sofrimento. Volveram exacerbados, os ciúmes atrozes. E desse dia em diante odiou o piano, por onde se comunicavam com Leila as almas perturbadoras do passado. Ela é minha, minha, dizia em seu imperativo sentimento de propriedade. Quero-a toda, “cada átomo do seu corpo, cada vibração de sua sensibilidade”. Se o ciúme for avareza, como o disseram, sinto-me o mais mesquinho usurário que nunca existiu. “É um sentimento absurdo, raciocinava ainda, uma exaltação mórbida que terá capítulo próprio num tratado de patologia. Devo ser um demente. Como as moléstias são o exagero ou a atenuação dos fenômenos comuns, minha loucura será a intumescência absurda dos sentimentos e pensamentos normais.” Desejaria curar-se... mas então era o nadador exausto que a onda afastou da praia; quer voltar, mas a onda arrasta-o para mais longe, mais longe ainda. Levava-lhe a alma o turbilhão que arrebatou Francesca, e, nesse turbilhão interno, seu querer era pluma leve, poeira, fumo... Via como os catalépticos, reduzidos a espetáculo de si mesmos. E, se a razão ainda o iluminava, era, em sua impotência para dirigir, a fim de mostrar-lhe, sob luz mais viva, a desordem interior. E o invencível sentimento enleava-lhe cada dia mais uma espira de seus cíngulos fatais. Tinha, no entanto, seus momentos de pausa. Um nada aplacava-o; a voz de Leila, o perfume de seu corpo, seu passo leve... Aclarava-se-lhe a vida. Enchia-a alvorada sobrenatural. Mas súbito, impetuosamente, renascia o desespero. Este era como um monstro satânico, que o elegera vítima de um lento sacrifício. Nos momentos de calma, sabia que a emboscada estava próxima. Sua alucinação corporizava-o, fazia tangível. Era uma forma sinistra que lhe espreitava os passos e
os pensamentos, prestes a colhê-lo, a cada instante. Ignorava onde o encontraria: se no jardim, no leito, no gabinete de trabalho... Mas sentia-a, à Forma Horrenda, quando ela se aproximava. Como que a ouvia descerrar as portas, que não lhe punham vedação. Anunciava-a estranho arrepio de pavor. Avizinhava-se... O horror avolumava-lhe n’alma, encrespavam-se-lhe os nervos. Fugir? Mas como? E súbito sentia-se empolgado. E, presa da figura apavorante, todo ele tremia, convulso, no paroxismo da raiva impotente. E, então, caoticamente lhe tumultuavam no espírito as imaginações torturantes, os sofrimentos absurdos, os ciúmes atrozes, obumbrando-lhe a lucidez mental... — É demência, repetia-se, pura demência... Mas o conhecimento da moléstia não tem eficácia curativa. E sua escravização cada dia se tornava maior. Leila também parecia sofrer. Tinha o desalento e a tristeza de uma alma em desterro. Como que a realidade das pessoas e das coisas que a cercavam se apagava para sua sensibilidade e esta apenas reconhecesse Noeme, a filhinha pequenina. Sálvio desejaria saber que estranho mal a consumia e lhes matava a felicidade, aumentando sem cessar a distância que mediava entre ambos. E angustiadamente perguntava-lhe o que a fazia sofrer. Receava que a amasse menos? Humilhava-a a mediocridade de sua condição, ou a sua pobreza? “Que tens?”, insistia ansiosamente. Ela, forçando-se, entressorria melancólica e murmurava: “Nada”. Outras vezes seus lábios sussurravam um esboço de resposta que não chegava a precisar-se em palavras; e alheia e esquecida, perdia-se de novo em seu viver remoto. Para ter a intuição do mal ignorado, Sálvio analisava-lhe os cambiantes da fisionomia dolente. Seus olhares enfocavam-se para ela em estranha fixidez, como se quisessem penetrar-lhe o interior do espírito. As pupilas, coruscantes, dilatavam-se, na imperiosa necessidade de adivinhar. Embalde. Quanto mais pertinazmente lhe fixava as pupilas viperinas, que cresciam como as de um intoxicado de beladona, mais a visão se empastava e panejavam os véus da indecisão e da dúvida. E o mistério permanecia imperscrutável.
A alegria de Leila expirara-se. Fora sua vivacidade de passarinho feliz. O piano, mudo, recolhera-se em si mesmo, como alguém que, cansado de viver, se introverteu em meditação. E, para Sálvio, sua forma sinistra, na penumbra da sala, era a de um monstro saciado que dormia. Não soavam mais na casa as endechas que lhe penetravam tão fundo o coração, e raro se ouvia no pavimento o tique-tique sutil dos sapatos de Leila. E desfeita e branca, envolta em seu roupão alvo, passava as horas na sala, reclinada num divã, tendo na mão um livro que seu olhar desatento não lia. Sua expressão era de estar lendo através daquelas páginas, ao longe, no infinito. Seu rosto não exprimia êxtase, como Sálvio o surpreendera ao executar a música perturbadora e sim um anseio que afinal esmorece em desalento. Mesmo perto de Sálvio, era como se estivesse só. E seus lábios de rosa a esmaecer em neve apenas se entreabriam, espaço a espaço, para murmurar: “Que tédio!”. “Mas não haverá um meio de volver a felicidade perdida?”, perguntava-se Sálvio. “Não a conheceremos mais?” E, para aplacar a sede de ventura em que se consumia, fechava os olhos e evocava o passado de amor. Via o trecho de muro branco quase ao alcance da mão, via os festões de rosas. Através das vidraças claras entrava o albor da manhã e o canto esmaecido. O estalido da tesoura cortando as hastes, o pisar levípede na areia... Tempos que pareciam ir longe! Mas a lembrança da ventura passada, ao invés de aplacar-lhe a sede ardente, mais a apurava... E um sinistro pressentimento dizia-lhe que a felicidade não tornaria mais. Ele e Leila foram dois astros cujas rotas se roçaram numa encruzilhada do céu e que depois divergiram, a distanciar-se sempre... como se a força que orienta os sentimentos houvesse analogias com as leis da gravitação que a seu sabor cruzam e descruzam as órbitas, não se lhes dando da saudade que porventura deixem os astros que passaram. Leila como que jazia adormecida por um sortilégio fatal. As lembranças de seu amor não lhe reavivavam na alma a emoção extinta. E Sálvio, em palavras candentes de paixão, tentava despertá-la do letargo.
— Amo-te tanto — dizia-lhe —, que nem sei como cabe esse infinito na estreiteza de uma alma. Minha paixão por ti é uma dessas dádivas totais, como as faziam os ascetas à sua divindade; sinto-me teu até à mais pequenina parcela de meu ser. Minha paixão está sempre dentro de mim abrasando-me como uma flama inconsumptível e pervertendo-me o senso da realidade; parece um desses mórbus fatais que geram o delírio e exasperam até à loucura os sentimentos. Quanto mais meu amor é imperioso, mais desejo anular-me, rojar-me em adoração, beijando-te a fímbria do vestido e o pó dos teus sapatos. E quanto mais me anulo, sentindo-me uma coisa, um objeto teu, por absurda contradição tanto mais me ergo dominadoramente e quero-te minha, como uma escrava. Adoro em ti uma santidade extraterrena. És uma dessas visitações que fulgem no êxtase dos místicos, a revelar o céu, e que desejo adorar prostrado, a fronte no pó. Tudo o que é teu e tudo aquilo em que tocas reveste-se logo a meus olhos de um prestígio sobrenatural. Os frascos de teu toucador, o pano de teu vestido, tuas joias, figuram-se-me relíquias preciosíssimas, com as quais o mínimo contato é profanação. Se te acaricio os cabelos, como agora, minha mão branqueia e treme, como se cometesse um sacrilégio. Não sei como ousam meus braços cingir-te, como se atreve a macular-te o meu desejo... Indecifrável dualidade esta que vive em mim — a do justo que se prostra e adora, e a do demônio, que ardendo num desejo mau, profana a santidade... — Ama-me, toma-me — prosseguia ele, e suas palavras eram como flamas de desespero. — Serei um objeto de que uses para teu capricho. Sê totalmente minha... Quero haurir toda a vida que em ti se contém, como se refresca uma sede inextinguível em uma fonte perene. Dá-me de novo tua alma que me foge, colhe-a no voo e traze-a para que nosso noivado recomece. Vejo em ti uma perpétua noiva nunca maculada, sempre virgem para o meu carinho. Quando te beijo é sempre com a emoção do prometido que, trêmulo, comete a primeira ousadia de amor. Olha-me, fala-me... Tua voz tem sobre mim magnetismos sobrenaturais, revolve-me interiormente,
como se cada palavra houvesse virtudes cabalísticas, produz-me um espasmo de volúpia tão grande, que cuido morrer. Fosse assim o canto das sereias e não me deixaria amarrar, como Ulisses, ao mastro da nau errante; entregar-me-ia à venenosa harmonia e me lançaria ao mar, vítima voluntária em holocausto à eterna beleza. Mal sabes o senhorio despótico que exerces sobre mim! Em ti terminam sempre os ciclos de meu pensamento, como os do justo se fecham em Deus. És a minha razão de viver. Quando a vida me esmaga e os inimigos me hostilizam, quando, durante o dia, sinto o amargo sabor da luta estéril e sinto-me demasiado opresso e prestes a desfalecer, penso em nossa casa, em nossas noites de amor como remate dos dias de trabalho, e tanto basta para restituir-me a coragem perdida. Não sabes, querida, que te amo, que te amo? Leila fitava-o esmaecidamente, falava-lhe, mas a alma estava ainda longe das palavras... se é que não lhe desertara do corpo branco, deixando-o em postura de estátua do sonho e do desalento. Exasperava-se a paixão de Sálvio; e, de rojos, junto a Leila, reclinada, branca e ausente, no divã, memorava episódios passados: — Lembras-te quando lias na rede, sob as árvores do pomar? O resplendor causticante do dia fazia mais suave a sombra e o perfume das laranjeiras florescidas. Eu vinha sorrateiro, de manso, turbar-te a quietação da leitura. Vendo-te embebida a acompanhar um enredo de amor, sentia ciúmes do livro e de seus heróis imaginários. Lias absorta... E eis que a meio da página mão importuna te vela os lindos olhos... Não te assustavas, sorrias. Sabias que o impulso de minha saudade me levaria até junto de ti. Se eras meu exclusivo, meu constante pensamento! Enquanto te velava os olhos, eu sentia no côncavo da mão a carícia de teus cílios, que batiam, em doce impaciência. Tuas mãozinhas afinal não se continham e tomavam a minha manápula pesada e a arredavam. Que pequeninas e brancas eram, em contraste com a minha rude mão de homem! Como eram brancas e frágeis! E bem sentirias, vendo-as assim às três, que na fragilidade de tuas mãos estava o meu destino. Soltavas depois a prisioneira, e desistindo de ler, abandonavas o livro. Fitavas-me docemente
e tuas pálpebras batiam, fatigadas da leitura; e semicerrando os olhos pedias-me que te embalasse... Ia e vinha a rede em lento balouço... Entre teus cílios coava-se num desmaio de cor a luz verde das copas do arvoredo. Reacendia o ar e havia um sussurro de abelhas e pipilos de aves; e as vozes dos insetos e das aves, em surdina, eram como um perfume de som a impregnar o silêncio. Num langor de preguiça e de abandono pedias-me que te contasse histórias. E eu dizia-te as lindas fantasias orientais, com princesas prisioneiras em altas torres, fadas, príncipes encantados, gênios poderosos e escravizados, que com um aceno fazem brotar do solo palácios de ouro, carvões que se mudam em diamantes, tesouros sob a guarda de gnomos vigilantes... Tuas pálpebras lento e lento cerravam-se; a magia da hora mergulhava-te a alma num estado intermédio da vigília e do sonho. Flutuavas, no irreal. A realidade fazia-se sonho e o sonho realidade... Nas copas do arvoredo, semeadas de sol, frutesciam pedrarias; inclinadas sobre ti as boas fadas sorriam-te; zumbiam no ar os gênios serviçais e humílimos... Nos papeios das aves queixavam-se princesas infelizes, que a um aceno da tua mão se livrariam do encanto... O tom verde do ambiente, eram porventura águas marinhas, vistas através das paredes de submerso paço de cristal... Súbito despertavas. Surpresa, vias-me ao pé de ti, de joelhos, a embalar-te. Meigamente teus braços fechavam-se em meu pescoço e sussurravas: “És meu palácio de ouro e meu príncipe encantado!”. Sálvio colhia uma das mãos de Leila e beijava-lha no dorso cetíneo e no rendilhado da palma; em seguida, revertia às suas evocações: — E nosso passeio à grota, no seio da grande mata? Era um recanto selvagem de natureza primitiva e parecíamos os primeiros humanos a desvelá-lo. A vegetação tinha aí o tumulto desordenado de uma grande luta silenciosa. Da cólera soberba dos veludos troncos ressumbrava uma impressão de suavidade e paz. Era, no recolhimento, a aparência da calma e da concórdia... E nós hauríamos essa ilusão até o mais profundo de nosso ser. E eu disse-te: “Querida, se mil anos se condensassem numa hora, presenciaríamos a pugna
tremenda da floresta; veríamos brotar os ramos como enormes braços furiosos, atirando a todos os pontos grandes gestos agressivos; umas árvores a se aprumarem resolutamente, em sede de dominação, outras a se debaterem semiasfixiadas, sem ar e sem sol; outras, vencidas, amarelecer e secar; e o chão a esfervecer de contínuo, em ondas sucessivas de verdura, para os novos assaltos ferozes... Vê esta flexão de galhos e seu estiramento robusto? São punhos cerrados em braços convulsionados de cólera silenciosa e lenta... Mas nada podemos contemplar da pugna formidanda. É mui breve o instante de nossa vida. Por isso, dessa epopeia apenas cai sobre nós esta paz, esta doçura, acolhendo a nossa ventura... Oh! Leila! Eu desejaria que tivéssemos a vida lenta das árvores, para fazer mil anos desta hora do nosso amor!”. Caminhávamos silenciosos, quase tristes, da tristeza das felicidades profundas, que pela nossa deficiência de expressão se exprimem como as dores profundas; mesclada, porém, à minha ventura, em promiscuidade insólita, eu experimentava a opressão de um grande pesar — o da insignificância do instante da nossa vida, da pequenez da nossa alma, para conter tão grande amor. Não sermos como os jequitibás, milenários e colossais, não termos, como eles, o espaço desmesurado e o tempo indefinido, para albergar o nosso imenso amor! Subindo a grota, nossos passos perlongavam o regato cujo marulho se ouvia sob as touças de caetés que lhe encobriam o curso. Subíamos, e a cada passo a mata se adensava, mais ínvia, e o vale se fechava, mais sombrio, como se nos encaminhássemos ao ádito de um templo onde se celebrassem os mistérios de um rito augusto. Detivemo-nos fatigados no sítio em que o regato, derivando acelerado entre pedrouços, se despenhava em pequenina cascata. Era um recanto aprazível, a que a calma da hora realçava o encanto e frescor; como que a cascata cantava naquele recesso da selva as endechas saudosas em que uma princesa prisioneira se queixasse da melancolia de sua prisão. Entre pedras retorcia-se sua cabeleira alva, que, ao cair, com argentino fragor, num côncavo de rocha cavada em
piscina, emoldurada de avencas e musgos verde-negro, se encrespava em rendas de espumas; daí, aos borbulhões irrequietos se evadia entre pedras, retomando mais abaixo o exíguo leito que descia a grota. Estilhas de ouro do sol dançavam no chão com a sombra das folhas; e, no alto, pontilhado de azul, havia o dossel profundo das ramas superpostas. Na sombra louquejavam bandos de borboletas loiras; e era como se as estilhas de sol, ferindo o chão, se mudassem magicamente em esvoaçantes enxames de ouro. O encachoeirado rumor não permitia que nos falássemos. Mas nosso maior prazer era então olhar. Absorvemo-nos em contemplação. Súbito, levada de impulso incoercível, começaste a desatacar o vestido. Tinhas, porém, pudor e a cada instante as mãos se te retraíam e hesitavam em revelar os tesouros de carne de teu corpo. Lia-se-te no olhar o susto de quem vai praticar uma ação má... Fitavas-me de soslaio... Eu distanciava-me, simulando-me ainda embebido a contemplar a selva e a água a descer tumultuosa entre pedrouços e fetos. Vendo-me absorto, porventura pensavas: “Ele, em êxtase, só vê a natureza e nem pensa em mim”. Tolinha! se era possível! Só amo a natureza em ti e por ti. Ela só é bela e sorridente quando a povoa o amor. Antes havia ali um vácuo melancólico, uma tristeza severa e secular, que tua presença encheu de beleza e juventude. E procurando que te ocultassem as ramas, desfolhavas, em frenesi assustado, as cassas leves de tuas vestes. Os tesouros de teu corpo iam branqueando na sombra verde... E ainda hesitavas... E nas hesitações em que te detinhas em teu despir-se harmonioso, eras como certas músicas que se retardam em pausas para mais vivamente ferir a alma. Pausas onde ressoam subjetivamente os últimos compassos, como numa lagoa plácida, entre árvores, se retratam as frondes marginais, em doce prolongamento de ilusão. Lutavam fortemente o pudor e o desejo... Mas o níveo torçal das águas a desmanchar-se em espumas seduzia-te, com uma fascinação irresistível... O desejo venceu. Febril despresilhaste a compilação dos últimos colchetes e saltaste sob o rolo d’água espumarenta. Então, soando débeis entre o fragor da cascata, ouvi teus gritos assustados. Tinhas medo —
e ao mesmo tempo sentias o gozo daquela volúpia fria. Malgrado os acenos de tuas mãozinhas aflitas, que me mandavam afastar-me, não pude obedecer-te e fiquei a contemplar-te, bela, na piscina de pedra, onde rendas espúmeas te vestiam a nudez e a água corria-te sobre o corpo em serpes fluidas. Que encanto! Em cima as ramas sobrepondo-se até o céu; em torno, as cortinas de folhas entre as colunas dos troncos; e destacando-se na penumbra, vivo, branco, como feito de jaspe, o teu corpo impecável. Parecias brotar ali da espuma como Vênus renascente, para quebrar a fereza alpestre àquele virgem rincão de mata. Confusa de pejo, como Eva depois da culpa, retraías-te sob o fito de meu olhar que se paralisara a contemplar-te. E em tuas espáduas e teu dorso branco, coleavam as serpes fluidas vestindo-te caridosamente um manto líquido... Mas de que valeu? Colhi-te em meus braços, quando mal o pensavas, ao saíres d’água... e nos meus braços barafustaste, fria, coleante como esquiva náiade surpresa em terra. Escorregadia qual enguia humana quase escapavas... Mas meus braços implacáveis reapresavam-te. Subjuguei-te... Esmoreceste vencida... E meu beijo ardente violentando teus lábios gélidos comunicava-lhes sua flama. E então sentíamos, entre o olor de musgos e folhas mortas que impregnava o ambiente, que a sombra se fazia mais doce e mais acolhedor o verde encantamento daquelas copas, onde mal filtrava o sol em retilíneas filandras de luz, que, ferindo o chão, se transmutavam em enxames de borboletas cor de ouro... Lembras-te, Leila, amor meu? O passado revivia intensamente em Sálvio; e em sua voz exprimia-se a paixão enlaivada de loucura... Mas daquela forma branca reclinada no divã, a alma estava ausente. O sentimento dela unicamente via a filhinha pequenina, cujas madeixas acariciava entre os dedos adelgaçados. Para Sálvio começou enfim o desalento. Reconhecia a inanidade de seus esforços. E dizia-se que a felicidade não voltaria mais. Fora a passageira de um dia. E, malgrado seu tresloucado amor, sentia não poder vencer o irremediável. A separação crescia sempre, pelo
decreto de um implacável destino, que a marcara com o selo do irrevogável. Seus ditames eram inquebrantáveis. Vindas do Ignoto, as trajetórias das duas vidas cruzaram-se num ponto de luz e divergiram de novo para o abismo do Ignoto. Como em pesadelo atormentado, sentia ímpetos de invocá-la, “Leila! Leila!”, para a fazer voltar. Caía-lhe a ilusão vendo no divã seu vulto alvo, espiritualizado, como a sombra de um ente humano e ao ouvir-lhe a voz velada bocejar: “Que tédio!”. E sua demência não conheceu limites. As ideias mais desvairadas possuíram-no. E repisava a antiga reflexão: “Humilha-a nossa pobreza, nossa condição medíocre; mas hei de erguer-me, triunfarei e reconquistarei o seu amor”. E abrasou-o uma desmedida ambição. Seu trabalho foi uma luta corpo a corpo com o destino. Todavia, azar estranho anulava-lhe os esforços. Tudo inútil... Eram golpes de espada atirados pela insânia na água fugidia. A espada, em cólera, silva golpe sobre golpe; e a água ferida fecha-se de novo e corre, marulhando escárnios e risotas. Sua condição, que era precária, fazia-se dia a dia pior. Nos negócios, os mais simples e os mais lógicos de seus atos tinham sempre imprevistas consequências de desastre. O que levantava aos outros, a ele, por estranho contraste, deprimia-o mais. E, certa hora, possuído pela angústia de nova catástrofe, afigurou-se-lhe o furto, em última instância, meio lícito de enriquecer. Lançado pela exasperação dos sentimentos além das raias do Bem e do Mal, para ele já não havia Moral nem Razão — somente o desespero de seu grande amor infeliz. Falsificou um documento. Sua inexperiência, porém, quase o traiu e a tentativa frustrou-se. “É difícil ser desonesto”, meditou, “o próprio crime exige um aprendizado que não tenho”. Fora um irresponsável. A loucura, tomando as rédeas da consciência, despenhara-o cegamente na perdição, pois as consequências dessa tentativa criminosa iria mais tarde influir poderosamente em sua vida. Foi quando, adoecendo Leila, sucedeu abrir-se-lhe de improviso a boca de uma sepultura. Requeimou-a uma febre intensa, que era como a flama de uma pira votiva em que a oferecessem em
holocausto aos deuses de uma religião feroz. Morreu impassível, sem que seu rosto um só instante exprimisse sofrimento; exprimia, sim, cansaço; e, ao expedir o último alento, era como se aborrecendo por igual a vida e a morte, ainda sussurrasse: “Que tédio!”. Apenas teve, ao beijar a filhinha, em despedida, uma única vibração humana, um triste olhar de piedade — piedade ou arrependimento de havê-la feito viver. Aturdido, com a alma túmida de sentimentos violentos, Sálvio vira-a morrer. Seu sentir compacto enublava-lhe a razão. No fundo de seu peito uma fibra dolorida desferia um queixume lancinante, como um grito agudo que se perde no ermo, com o timbre dilacerador de uma corda ferida em sua maior tensão, num violino delirante; e ele sentia que era algo dentro de si que também agonizava — o prazer de viver, talvez. Leila morreu. E o incomportável sofrimento tomou toda a alma de Sálvio. Ereto, imóvel, era a aparência de uma coisa esboçada em forma humana, parecia petrificado pela dor e seu olhar inexpressivo lembrava as pupilas de pedra de uma estátua. A espaços, clarões de consciência fulguravam-lhe na noite do espírito, e a noite, após, tornava-se a fazer. Eram fosfenas efêmeras, que fosforejam e esmaiam silenciosas, nas trevas de uma retina. E, nesses instantes, traduzindo o que lhe ia no íntimo, em suas pupilas de pedra acendia-se uma lucilação de loucura. Ao sair o enterro, não houve contê-lo: acompanhou-o com os trajos em desordem, o rosto macerado, os cabelos revoltos. Automaticamente andava e imitava o mais que os outros faziam. Às vezes um frêmito de sensibilidade vibrava-lhe os nervos, mas a impassibilidade volvia e empedernia-o, como ao príncipe oriental tornado em mármore, pela eficiência de um sortilégio. A anestesia que se obtém pelo cansaço do sofrimento, também a pode causar o seu excesso. Naqueles momentos ele sabia, ele via. E estranhos pensamentos de sonâmbulo ocupavam-lhe o espírito. Suas ideias, incoordenadas, não tinham seriação lógica; nasciam-lhe como essas vegetações de acaso, irreflexivos surtos de vitalidade, que medram num
interstício de telhado ou entre as pedras da rua. Certo momento pensava: “Se não houvesse a decomposição dos corpos, eu guardaria Leila. Vê-la-ia insensível, mas ainda em adoração me rojaria, a seus pés. Dir-lhe-ia que a amava; relembrar-lhe-ia nosso noivado; e eu a traria escrava e oculta, como o tesouro de um avaro. Mas os vermes vão cevar-se em seu belo corpo, que todo se desfará, no horror da decomposição!”. Sua exaltação amorosa e seus zelos absurdos sobreviviam a Leila. Eram como um ímpeto cego que desconhece obstáculos. A morte sobrevém e o ímpeto transpõe-na, perfazendo a parábola do projétil lançado. Sua paixão viventíssima, tardaria a bruxulear e a extinguir-se. Para seu sentimento, desdobrado da razão e em contraste com a evidência desta, Leila ainda vivia. O sentimento tem o raciocínio tardo; guiado pela reflexão é como um louco cego, que um infante procurasse conduzir. Na igreja, durante a encomendação, rasgou-se nova aberta de lucidez na sombra de seu espírito, voltando-lhe uma semiconsciência da realidade. No silêncio besouravam funebremente as frases do ritual, enquanto, em torno à essa, os homens graves, expectantes, eram como estátuas negras em postura solene. Luzeiros de círios empalideciam a penumbra de manchas de luz mortiça e impregnava-se o ar de um aroma tumular, de cera, incenso e flores fanadas. Jaziam abertos os tampos do caixão. No interior Sálvio apenas divisava uma almofada de cetim, e sobre ela um tufo de cabelos castanhos. Seu sentir estava paralisado pelo próprio excesso; atingira o ápice sobre-humano em que a dor pela própria intensidade se anula, como essas agudíssimas vibrações de sons que fogem à perceptividade dos ouvidos. Mas o seu espírito via e compreendia. E, em espanto, a contemplar-lhe os cabelos, uns tristes cabelos empastados, desfeitos sobre o cetim, exclamava consigo: “Ela era mortal!”. Via-a sempre tão alta, tão soberana, tão senhora de seu destino e objeto de sua adoração, que a ideia de humanidade e de morte contrastava absurdamente com essa essência divina. Caía a realidade como uma surpresa aterradora e colhia-o o pasmo da revelação do não pressentido segredo.
“Ela era humana e mortal! Um ser frágil, sujeito como eu, como uma ave, uma flor, às contingências da vida e da morte. Leila, o pobre amor meu, também possuía uma alma sequiosa do impossível e sofria todas as torturas de uma aspiração incontestada. Possuía-a, quiçá, o mesmo desejar violento e desordenado que morava dentro em mim. Nosso desesperado e vão anseio eram duas gavinhas cegas, a enrolarem-se no ar sobre si mesmas, na impotência de um desejo inatingível. Sonhando o suporte da ventura, buscam-no perdidamente, a tatear o vácuo, e, na ânsia extrema, crispam, enovelando-as, suas fibrilhas verdes. Ela era humana e mortal!” A piedade queria viçar na mole anestesiada de seus sentimentos, como uma flor cujas pétalas fossem retalhos sangrentos do coração. Mas a inconsciência submergia-lhe de novo o senso do real. O enterro seguiu. Como meada que se desenrola, saíram, do basto ajuntamento de homens lúgubres que enchiam a igreja, duas fitas paralelas que vermiculavam molemente, picadas de luzes pálidas, para o outeiro do cemitério. Entre elas, como um testudáceo aprisionado entre duas serpentes e movendo-se com pés numerosos, ia um bolo negro, carregando uma coisa sinistra. Nas alas, pinceladas de opas rubras, as luzes tristes dos círios morriam na claridade. Plangiam os sinos, cujos dobres lentos se arrastavam em ecos remorados e quando se calavam, ouviam-se no silêncio atônito galos roucos cocoricar. Os pés batiam o chão, ritmados, num trovoar ensurdecido, e as coroas funerárias, amontoadas no caixão, tilintavam, sacudidas pela marcha dos carregadores. Sálvio seguia, sonambulicamente, a alma ainda insensibilizada pelo excesso de sofrimento. Confusos pesadelos povoavam-lhe a consciência adormecida. Sentia-se, num espanto, como pairando além-túmulo, num mundo de ignoto horror. A espaços um trovão surdo despertava-o em sobressalto: eram os pés da multidão batendo o chão duro, de envolta com o tilintar metálico das coroas sacudidas. Entre as alas o bolo sinistro tangava, como ébrio, avançando com os seus numerosos pés. Os olhos dilatados de Sálvio, saindo do horror do sonho, enchiam-se daquela realidade de pavor... E o fluxo da inconsciência
enoitava-lhe de novo o espírito, abafando-o sob seu grande e espesso manto negro. E entre os pesadelos horríveis súbito possuiu-o um sonho feliz. Viu-se numa paisagem refulgente, de matas redouradas de luz. O sol mesclava folhas de ouro às folhas verdes das copas. Caçada. Alegre fanfarra de buzinas. Cães corriam lançados como dardos, numa alarida estrangulada de prazer; e, empós a matilha, bêbedos de ventura, ele e os outros caçadores precipitavam-se, esporas, fitas, em esfuziantes corcéis. Que perseguiam? Nada... Era apenas a volúpia vertiginosa do arremesso, que tomara homens e cães, enquanto as buzinas soavam estridentes. Delirantes de prazer esfuziavam sob as abóbadas ouro e verde, naquela corrida sem fim. Súbito, estacam, pávidos, a um estrondo insólito... E Sálvio despertou ao trovão surdo de centenas de pés reboando no chão duro. E as fitas paralelas de homens negros vermiculavam, pintalgadas de luzes e de coágulos de sangue, colina acima, envoltas no crepúsculo que começava a baixar... Esta imagem desvaneceu-se-lhe no espírito. E Sálvio sonhou ainda. Possuído de uma alucinação via Leila branca, reclinada no divã, a face marmórea, o olhar perdido ao longe, absorta num ignoto sonho de felicidade. E convulsivamente suplicava-lhe: — Ouve-me! Não me reconheces? Fita-me tuas pupilas negras, para eu sentir-me no interior de tua alma. Oh, quando me amavas, como se iluminavam num brilho de paixão! Tinham em seu fulgor sombrio a expressão de uma alma que se concentrou num olhar. Teus olhos tinham sobre mim o império hipnotizante que possuem os fascinadores de serpentes. Se mos fitavas eu logo rojava-lhe, coleando como um réptil, a esmolar o teu beijo. Depois... embaciaram-se, porque tua alma fugiu deles. O tédio amortalhou-os de uma névoa opaca. E agora, se casualmente me fitam, são dois ceguinhos, não me veem... não me compreendem, como os pecadores de Babel que esqueceram a língua nativa e falavam idiomas estranhos... E, fitando-me, é como se perguntassem angustiados
onde fica a pátria que esqueceram... Olhos forasteiros, olhos tristes de quem erra perdido longe do país natal! Sua atitude era de fervor e súplica e todo o seu ser, volvido para Leila, era deplorativo e pedinte. Mas em sua voz havia o desalento amargo de quem sabe que implora em vão. E a imagem diafanizava-se, Leila era como uma nuvem insensível e branca, a ascender. Quanto mais seu desespero a chamava, mais remota se fazia. O espaço entre ambos aumentava, aumentava sempre. E a imagem, esfazendo-se em névoa, crescia e subia... Via-a, em seu abandono de tédio e alheamento, alto, muito alto, no terraço de uma torre, que brotava da terra. Em desespero ele chamava: — Leila! Leila! Estendia os braços suplicantes para a imagem distante. E a torre imensa subia, alargava-se, e Leila no alto era como uma nuvem branca estirada de um extremo a outro do céu. — Leila! Leila! Eram vãos os seus clamores. Sua voz soava sem timbre e as trevas o envolviam. Oh, ela não o veria, não o ouviria mais! E ao sopé da torre gigantesca em cujo cimo resplandecia uma auréola de estrelas, ínfimo e todo voltado para a imagem branca, Sálvio clamava, clamava sem fim, bracejando perdidamente, na exaustinada alucinação de um desespero impotente.
Sálvio agora vivia como sepultado sob uma abóbada de chumbo. No interior eram trevas e silêncio. O doloroso amor, sua única palpitação de sentimento, ainda vivia-lhe n’alma. Morta Leila, sua paixão por ela perdurava, lançando-se sem objeto no vácuo do não ser. Tinha a vitalidade persistente de um tassalho de carne fresca, onde ainda se contrai um resíduo de vida que tarda a extinguir-se. Os atos da vida comum, exercia-os mecanicamente; as forças inconscientes renderam-lhe a razão no posto de comando e praticavam os mil pequeninos atos tediosos que constituem a vida ordinária. Não via a filha. Entre ele e Noeme, o pequenino legado que lhe deixara a morta e que andava aos cuidados dos fâmulos, interpunha-se a oclusão de uma catarata mental. Se improviso o despertassem restituindo-lhe o senso da realidade, tomá-lo-ia um sentimento de surpresa, vendo a criança. Era mau pai. O amor, quando perfeito, exclui a perfeição dos outros sentimentos. É uma hipertrofia da alma, que se alimenta de todas as funções do ser, tudo transmudando em flama de paixão. Lâmpada custosíssima, nela arde todo o óleo da vida, num espasmo de voluptuosa agonia. Nesse supremo paroxismo, consumida pela própria violência, sua paixão lentamente morria. Mas ai! o amor nunca morre só; arrasta consigo tanta coisa! Deixou-o vivo; Sálvio, porém, era como as paredes carbonizadas que fecham o vácuo de um edifício que o incêndio devorou. Nessa ruína, nesse chão revolto por um cataclismo é que ia brotar, em messe tardonha, o sentimento da paternidade. a fuga
O interior de sua casa dava bem a impressão de um lar que morreu. Os sentimentos humanos comunicam-se também às coisas brutas, que refletem sua alegria ou tristeza. Os raios de sol como que desaprenderam o caminho de suas quadras, onde se espessava uma penumbra de crepúsculo. Desprendia-se de tudo um olor de mofo e de velhice e uma tristeza de fim. O piano, em mutismo tumular, avultava a um canto da sala; mão descuidosa erguera-lhe o tampo e ele assim permanecera; e, na penumbra, a mancha lívida do teclado abria um sorrir imóvel de caveira. O viúvo era ali uma sombra confundida entre outras sombras. Os servidores mudos, e em piso manso, perpassavam-lhe ante a vista, como entes irreais. Sálvio não poderia afirmar se eram seres humanos ou visões da mente enferma. Sentia às vezes a impressão de ter diante de si um vulto grave a murmurar-lhe: “Coragem. Ficou-lhe uma filhinha... Cumpra seu dever de pai!”. Ouvia-se também ali a vozita de Noeme, cujos passos erravam no interior sombrio, ninando o seu grande bebê, a articular uns sons que imitavam cantigas de adormecer crianças. Às vezes, cheia de aborrecimento, choramingava; outras, Sálvio sentia o que quer que fosse a repuxar-lhe o paletó; e, se ia sair retinham-no duas mãozinhas teimosas, de que distraidamente se libertava e ouvia distanciar-se, atrás, o chorito da filha que ficava. Um dia, uma das sombras que deslizavam no interior avizinhou-se dele e falou-lhe. O eco de suas palavras surdas dissipou-se, sem que Sálvio lhes apreendesse o sentido. E a sombra esquivou-se. Passadas horas, a ama voltou, a insistir: “A menina está doente...”. Muda, de pé, aguardava uma ordem. Sálvio fitou-a. “Tem febre”, tornou a ama. Ele reagiu com esforço contra o marasmo. Acompanhou a ama até o berço da filha. Noeme dormia. O sono era-lhe sobressaltado e tinha o rostinho rosado de febre. A camisa branca tremia-lhe com os batidos do pequenino coração agitado. “Chamo o doutor?” O pai acenou que sim. Veio o médico nesse dia e nos subsequentes. À cabeceira da filha Sálvio auxiliava a ama a dar-lhe os cuidados necessários. A febre, com poucas remitências, persistia. E, na casa muda, soava às vezes, isocronicamente, o gemido da criança.
O diagnóstico do médico era hesitante. Todo de expectativas... Examinava-a meticulosamente, cada dia, a pesquisar a causa da moléstia... A arte não lhe valia. E, certa vez, como o pai lhe reiterasse a pergunta habitual sobre o estado da doente: — Nada tem, respondeu. Ou antes, não descubro para a moléstia causa material... Tem os órgãos perfeitos. Compondo os óculos, concentrou-se num sentimento de piedade, pois também tinha uma filha, pequenina como Noeme. — Não há causa material — continuou. — São saudades da mãe. Saudades inconscientes. O carinho materno é elemento vital para os pequeninos seres. É como o sangue que alimenta o feto na vida gestativa — sangue espiritual, que vai de alma a alma. Mãe e filho se completam no começo da vida infantil. Há aderências invisíveis, uma como xifopagia moral. E a falta da mãe trunca a existência precária da criança, dá-se como um traumatismo, uma amputação e o organismo ressente-se... É ao que nós, os grandes, chamamos saudade... Saudade que se gera automática e inconscientemente, como uma reação vital. — E que fazer? O médico enxugou os olhos. O ofício não lhe empedernira ainda suficientemente o coração. — Amá-la, acarinhá-la... Suprir quanto possível a falta insuprível... — fez uma pausa. — Carinhos, a menina precisa apenas de carinhos... Quando o médico saiu, Sálvio, debruçado sobre o berço da pequenina doente, meditava sobre o mistério daquela existência que despontava, daquele gérmen de ser que ficara confiado a seus cuidados e no qual já residia uma almazinha capaz de sentir tristezas e alegrias. Com uma primeira vibração a alma do pai despertava da sua letargia e essa primeira vibração era o remorso. No seu coração lavrado pelo sofrimento despontava a paternidade. E a pequenina doente, desse dia em diante não se sentia tão só, porque aquela figura devastada dia e noite reclinada sobre seu berço, não era somente o enfermeiro, mas também o pai. Este começava a conhecer as cordas da pequenina
alma, a adivinhar o que lhe dava prazer, adquirindo a divina ciência que as mães têm intuitivamente, e dava com o carinho o alimento espiritual, cuja privação rompera o equilíbrio daquela frágil existência. Melhoras se produziram e em pouco Noeme convalescia. E era então uma impertinência, a querer o pai constantemente ao pé de si, a ensinar-lhe a brincar com suas bonecas ou a recortar-lhe em papel figuras de bichos ou de homens. E Sálvio, encontrando um fim para seu viver inútil, resolveu dedicar-lho totalmente. Sua alma estava morta para o que não fosse o cumprimento de sua missão paterna. Não podendo viver — pensava — devia auxiliar a viver Noeme. E como um salgueiro, nascido à beira d’água, passa, a vida toda, penso sobre sua correnteza, sua alma, nascida para amar, inclinou-se dessa época em diante sobre a vida daquele pequenino ser, ficando fadada a permanecer assim o restante de sua existência. E, numa retribuição miraculosa, quanto mais dava sua vida a Noeme, mais recebia dela incentivo para viver. Seus olhos, cansados da dolorosa introspecção para as trevas de seu íntimo, já se dirigiam para as coisas exteriores. Quando melancolicamente fitava a filhinha, não era apenas, como primeiro o fazia, para investigar em seu rosto os traços da esposa morta; olhava-a por si mesma, como um ser frágil ferido no berço pela maior desgraça que então a poderia ferir. Que tristeza imensa, quando a via errando pela casa, a ninar a sua boneca! Tinha com esta um carinho, um cuidado, trazendo-a unida a si e bem recoberta, em cueiritos de trapos. Às vezes sentava-se ao chão, a um ângulo da sala, e dirigindo-se à boneca falava-lhe numa algaravia incompreensível, que tinha inflexões meigas. Lembravam na entoação as frases de carinho que a mãe costumava dizer-lhe. Outras vezes cortava-lhe o coração vê-la entrar na sala, e, como distraída, encaminhar-se para o divã onde costumava encontrar a mãe. Era ainda o hábito... e a saudade inconsciente... E Sálvio esforçava-se por preencher o vazio deixado pela morta, sentindo também que era cada vez menor o vazio da própria alma. Era assim que ele renascia para a vida nova, que alvorecia como um diluimento branco de madrugada nos horizontes adormecidos
na noite. O sofrimento entorpecera-se, o doloroso amor expirara numa melancolia infinita. Veio a conformidade cinzenta e ele aceitou de novo a vida. Achava, porém, a esta um sabor aborrecido. Sentia anorexia de viver. Cada manhã, ao despertar, via ante si a compridez do dia como um prato nauseante, que precisava ingerir até às últimas migalhas. Quando ele recomeçou a ver a vida comum, com os seus pequenos seres e os meandros de suas pequeninas preocupações, tomou-o uma impressão de espanto, por ver que fora do mundo de seus sentimentos havia o que quer que fosse real. O universo não era um imenso deserto! E, sentindo-se ainda muito longe, via confusamente em torno a si o formigar dos ínfimos humanos. Colhia-o a surpresa de quem, através de um telescópio, visse surgir da calma luminosa de um astro a complexa agitação da vida, num mundo semelhante a este, ao qual o afastamento funde no reflexo pálido que nossos olhos contemplam. Reconhecia os lugares e pessoas, reentrando na normalidade da existência habitual. Via o descalabro em que iam seus negócios, esforçando-se debalde a fazê-los prosperar. Na luta da vida, ele fora o soldado posto fora do combate e que, volvendo depois, encontra nas fileiras seu posto preenchido. Enquanto jazera na torre da alucinação, os liliputianos eliminaram-no; e, como se isolara para sofrer, via-se agora só, no conflito de interesses, contrastado por adversários astutos e fortes. Mas não o abatia tanto essa hostilidade, no que tinha de lesiva, como o triste espetáculo da desenfreada cobiça. Oh, os pequeninos seres, os ínfimos embriões! Cada qual era uma potência. E cada qual era um inimigo, trazendo consigo, como uma vespa, sua dose de peçonha e pronto a instilá-la em seu opositor. Finda a labuta do dia, ele encontrava o conforto necessitado, na companhia da filha e na paz de sua casa. Frequentava-a à noite, desde a morte de Leila, o major Mourão. Provedor da Santa Casa, não se limitava a exercer a sua filantropia nos enfermos do corpo; acolhia também sob as asas protetoras a viuvez, a orfandade e as outras formas da miséria e do desamparo. Se havia um golpe d’alma a ser
pensado ou bens de órfãos e viúvas a acautelar-se em mãos impolutas voltavam-se para o major todas as vistas, como à única pessoa naturalmente fadada à investidura desses encargos. Seu exterior dizia com a austeridade do moral. Sisudo, fronte vincada de rugas reflexivas. Fechado em sua sobrecasaca negra, cobrindo-lhe longa como uma sotaina o porte corpulento, respirava um ar sacerdotal, que era acentuado pelo gesto lento e pela voz grave, profundamente persuasiva, que descia como um bálsamo nas chagas vivas do sofrimento e que, falando do Além, assumia um tom profético, repassando-se dum reboo tumbal, que abalava a incredulidade. Essa visita noturna era sobremaneira grata ao insulamento de Sálvio, contribuindo a sacudir-lhe a atonia e a preencher-lhe os melancólicos serões. Decorreram semanas. Sálvio reerguera-se moralmente. Conformado, repetia então consigo: “Ser feliz não é o essencial, e sim, viver. Que é a felicidade numa vida? O trânsito luminoso de um meteoro, que deslumbra e se esvai. O essencial não é ser feliz. Depois que tivemos nosso quinhão de ventura, ficamos quites, nós e a sorte. Então resta-nos auxiliar os outros a viver e nisso também se encontra uma espécie de satisfação funda e grave”. E, contemplando a filha pequenina, ele tinha a impressão de que suas vidas, que corriam paralelas, haviam começado no mesmo ponto. Súbito, porém, foi a catástrofe. Renasceu o processo do documento falso e apareciam provas contra Sálvio. Como a labareda, adormecida em rescaldo, renova mais impetuoso o incêndio, ressurgiu com escândalo, apaixonando a opinião. Os ínfimos insetos, coligados entre si, volviam para o concorrente os pungitivos ferrões, a fim de definitivamente o eliminarem. Sálvio, relembrando o passado, não se reconhecia culpado. Sua impressão, julgando-se a si próprio, era a de que outrem agira em si. Modificara-se a identidade de seu “eu”, desse equilíbrio mental que as circunstâncias, criam e refazem, variável como elas. Agiria outrem em si, um ser diverso e efêmero, que se lhe assenhoreava
do governo da razão. Como havia, porém, de justificar-se, sem profanar seu drama íntimo, assoalhando-o inutilmente à incompetência julgadora dos estranhos? Quem o compreenderia? E um mutismo doloroso selou-lhe os lábios. Sentia-se inocente, mas no olhar de todos lia a acusação “falsário!” e a convicção unânime começou a gerar-lhe na alma uma confusa consciência de culpa. O major frequentava-lhe ainda a casa, mas espaçara as visitas. Em suas relações com Sálvio notava-se um esforço, um constrangimento. Sua voz era mais grave, suas expressões mais sentenciosas e Sálvio sentia que quando elas consolavam, arguíam também. Seu olhar severo intimava-lhe: “justifique-se!”. Mas o doloroso mutismo soldava os lábios de Sálvio. E quedava-se numa inércia abúlica, sem raciocinar, sem prever, valendo-se da resignação fácil dos simples, ao murmurarem: “tem de ser!”. Uma noite, a horas desusadas, entrou-lhe o provedor à casa. Sua sobrecasaca negra parecia então mais solene e seu porte mais agigantado. Na sisudez de seu olhar leu Sálvio que soara em sua vida uma hora decisiva. E o major abordando um assunto em que nunca diretamente tocara, começou sem rodeios: — Foi lavrada a pronúncia. Há provas de sua culpabilidade e o senhor vai ser preso. Soube-o agora e julguei de meu dever dar-lhe este aviso. — Preso? — parecia perguntar mudamente Sálvio. — E talvez já — respondeu o major à muda interrogação. E seu ouvido escrutava os rumores da noite. Sálvio ficou paralisado. Caía em seu espírito, fulguramente, a evidência de sua situação. As palavras do provedor significavam: “fuja!”. E ele pensava em Noeme. Só então compreendeu achar-se na contingência de separar-se dela. E ideias tumultuárias encontroavam-se-lhe no espírito: “Deixar-se prender e defender-se? Ficar, seria a condenação. Deixar-se condenar? E Noeme? A prisão os afastaria. Leva-a? Era impossibilitar a fuga, ou sacrificar em seus azares a fragilidade da criança. Fugir, era perdê-la. Matar-se? Matar-se? — E Noeme?”.
Na clarividência da nova situação, que caíra ante ele como enorme muralha a embargar-lhe o passo, abriam-se portas numerosas de soluções possíveis... Mas, às réplicas secas da razão, as portas estrondavam herméticas e ele defrontava-se com a muralha intransponível, tolhendo-lhe a vida. Amarrava-o a impossibilidade de resolver. — Quer fugir? — interpelou-o o provedor. — O tempo urge — e, vendo-o ainda atado, o major impeliu-o à resolução extrema, decidindo por ele: “Fuja... Se lhe faltam recursos, comprar-lhe-ei a parte que pelo inventário lhe tocou na casa e no mobiliário. Oculte-se longe, muito longe, onde o esqueçam. A menina ficará comigo. Criá-la-ei como filha, educá-la-ei cristãmente, para que as suas virtudes resgatem a...”. A frase concluiu-se por si, no silêncio, enquanto os braços do major se estendiam como protetoras asas, sobre o berço da menina adormecida. E, na pausa que se seguiu, a Sálvio pareceu ouvir cair estas palavras duras: — Livrá-la-ei do teu contato, mundificá-la-ei da peçonha original. Arredarei da inocente o lodo de tua vida, para assentar as bases do edifício da purificação. Tirou dinheiro do bolso e deu-o a Sálvio, apresentando-lhe em seguida o documento que redigira. Era uma confissão de dívida. Munido dela obteria facilmente, depois, a transferência da proposta. Sálvio estendeu-o na mesa e tomou da pena, para assinar. E enquanto a mão hesitava, como se ele houvera esquecido o próprio nome, abriam-se-lhe no espírito novamente as soluções possíveis: Levar Noeme? Entregar-se? Matar-se? Implorar misericórdia? De novo as portas estrondavam inexoravelmente. — Assine aqui — acudiu-lhe o provedor indicando a linha. Ele obedeceu. — Agora, parta — disse-lhe o major abafadamente, escrutando ainda os misteriosos sussurros da noite. Sálvio, às pressas, emaçou alguns objetos; em seguida, beijou a filhinha adormecida e partiu.
Sálvio homiziou-se num lugarejo remoto, onde a ação da justiça não o iria atingir. Adquirira modesta chácara à saída do arraial, em praça quase despovoada, a qual supriam da animação humana, que lhe faltava, bandos de aves pousadas em um grupo de corpulentas paineiras. Recuada do alinhamento, humilde e pobre, a vivenda parecia retratar a esquivança do dono ao trato social. A este não era difícil furtar-se ao mesmo, porque evitavam-no de instinto. Não lhe conheciam a culpa, mas, seu torvo aspecto, seu acabrunhamento, por si próprios geravam a repulsão, dando-lhe o estigma de um ser egresso da vida comum. Além da habitual prevenção das pessoas simples pelos forasteiros, seu todo, como marcado pela culpa, parecia dizer: “Sou um criminoso. Devo, como um poleá, viver à parte e só”. Entanto, se queria acusar-se, achava-se puro. Sua falta, como a oxidação de uma lâmina, gerara-se sem deliberação volitiva; arrastara-o o desvario da paixão infeliz, loucura lúcida que exalta o sentimento e anula a vontade. Então refletia: “Se me sinto inocente é que já se me perverteu o senso moral. Há em minha consciência zonas anestesiadas. Um tóxico ou um bacilo pestífero também se sentiriam inocentes...”. E achava assim mais razões para isolar-se, anular-se. De todo o seu passado, o sentimento que mais vivamente o pungia, era o pesar de haver começado tão tarde a amar a filha. Quando a alma lhe latejava dolorida, pensando em Leila, o sentimento tangenciava essa recordação e ia pousar na filha. E aquele a rEPulsa
pesar que sabia a remorso de uma culpa involuntária, dava-lhe incentivo para viver. Satisfeito separava todo mês o dinheiro das despesas da menina, que convencionara com o provedor remeter-lhe por intermédio de uma firma do Rio (por intermédio da mesma, também o major lhe mandava notícias da filha); e, quando a quantia era mais avultada, sentia maior prazer. Mas seus recursos eram parcos. A venda da casa dera-lhe apenas para a viagem e para aquela compra. As culturas eram poucas e os rendimentos insignificantes; parecia que a própria terra, conhecedora de sua falta, se retraía também com ele, como os homens que o evitavam. Seus dias festivos eram os em que recebia cartas dando notícias da filha. Com que impaciência as esperava! Vinham poucas — uma por mês — e uma ou outra vez faltavam. Hesitava um momento em abri-las, receando más notícias; expandia-se-lhe, porém, o coração lendo que tudo ia “sem novidades”. Eram sempre lacônicas e a redação pouco variava; acusavam o recebimento do dinheiro e em seguida “A menina vai sem novidades”, uma fórmula cerimoniosa para o remate e a assinatura. Antes de abri-las, Sálvio já podia repetir-lhes os períodos todos. Nem por isso, ao recebê-las, era menor seu alvoroço de ventura. Um dia houve uma alteração em seus dizeres. Escrevia-lhe o provedor: “A menina está mal, com o sarampo, mas todos os cuidados lhe têm sido prestados”. E pedia remessa de dinheiro para as despesas extraordinárias. Lendo tremulamente a notícia má, uma resolução sulcou-lhe o espírito: iria às ocultas ver a filha, e, estando já sã, trá-la-ia consigo. E, poucos dias após, um vulto resguardado pela escuridão da noite batia à porta do major. Sua temeridade causou espanto à criada que a foi abrir e o fez entrar. O provedor, já acomodado, tardou a aparecer. E, como perguntasse por Noeme, a criada, deixando-o na sala de jantar, foi buscá-la. Sálvio relanceou o cômodo em que se achava. Bem que deserto, havia ali um ambiente de lar, que impregnava suavemente o espírito. No centro, a grande mesa, onde jaziam ainda em desordem as xícaras
do chá da noite. Próximo, a máquina de coser, aberta, indicando um trabalho interrompido. Num ângulo, a mesinha de estudo dos pequenos, com livros e cadernos esparsos, dando mostras de que estiveram seroando no preparo das lições. E, embora seu pensamento se focalizasse na filha, Sálvio sentiu saudades confusas... Eram como as pastadas de emoções que nos deixam os sonhos que nos visitaram durante a noite. Saudades de seu lar truncado e da sua meninice... A criada reapareceu. Trazia ao braço a menina toda envolta em um cobertor, vendo-se-lhe apenas o rostinho magro, todo em escamas. Convalescia do sarampo. Seus olhos mortiços e as feições desfeitas mostravam que fora longamente martirizada pela moléstia. Não lhe viu as mãos, que deviam estar macérrimas, nos ossos. Acompanhava-a a mulher do provedor, nutrida matrona de fisionomia severa, como se lhe fora comunicado, pelo contágio da vida comum, o ar de gravidade e ponderação que ressumava o rosto do major. Cumprimentou a Sálvio constrangida, não sabendo qual atitude assumir, ante o regresso inesperado. Proferiu frases breves sobre a doença da menina. Ouvindo-a, o pai alternava o olhar para ela e para a filha. Certo momento fez menção de tomar Noeme nos braços. A menina primeiro confrangeu-se, não o reconhecendo; súbito, porém, os olhinhos mortiços acenderam-se num brilho inteligente, que parecia dizer: “Este é o meu paizinho. Bem o reconheço!”. Ele sorriu-lhe, estendendo-lhe os braços, e Noeme, fitando-o, hesitava entre o acanhamento e o desejo de ir com o pai. Foi quando assomou à porta o vulto do provedor. Embora simulasse calma, a indignação traía-se-lhe na lividez do rosto e no tremor das mãos. Estendeu-as, não para cumprimentar a Sálvio, mas como para lançar um anátema. Começou a verberar-lhe a imprudência. Réu foragido, sua vinda podia ser sabida. E a ele, major, acusariam de pactuar com um falsário, podendo cair, talvez, sobre sua cabeça impoluta, o vilipêndio de uma suspeita infamante. Sálvio, de cabeça baixa, ouvia-lhe as recriminações. E o provedor prosseguiu. Suas palavras caíam cadentes, uma a uma, requintadamente lentas. Lembrou-lhe a culpa, o desamparo
da menina, a responsabilidade que assumira adotando-a, e, na noite da fuga, o seu aviso oportuno. Agora tinha o direito de pedir, exigir a sua prudência e gratidão. Sálvio esboçou, humilde, a sua desculpa: À notícia da enfermidade da filha, não pudera conter-se. E desejaria levá-la, se já estivesse boa... — Levá-la! Levá-la! E o provedor alçou as mãos ao céu. Seria possível abominação igual! Relanceou Sálvio d’alto a baixo, o olhar carregado de desprezo. Acusava-o, nessa mudez eloquente, de querer a desgraça e a perversão da filha. — Leve-a, continuou friamente, após uma pausa. Se quer, entrego-lha, lavando as mãos do mal que possa maculá-la. Mas há formalidades a preencher. Fui investido legalmente da tutela, por estar sua filha na situação dos menores abandonados, e, assim, depende minha destituição de ato judiciário. Sálvio compreendeu-lhe o alcance das palavras. Perdera os direitos sobre Noeme. Em face da lei, o pai agora era o major. E este prosseguiu: — Como vê, para a solução alvitrada há dificuldades... O juiz não lha restituiria e eu teria que levar por diante minha missão. Levá-la-ei. O Bem é o meu Evangelho. O Bem, até ao sacrifício... Noeme continuará sendo minha filha. Mas o senhor não deve aqui tornar. Perdoo-lhe desta vez a imprudência; mas nunca, nunca mais reincida na mesma falta. Ante a mole negra que investia para ele, Sálvio retraía-se. A Moral, a Justiça, a Sociedade, todas essas coisas terríveis e imensas, como que se encarnavam na sua estatura formidável e se alçavam sobre ele, naquele momento, para esmagá-lo. O braço estendido, a mão convulsa e anatematizadora, pareciam indicar-lhe a porta. E, curvo, humilde, arrepeso, transpôs a soleira, ouvindo mais uma vez soar cavamente a frase: “Nunca, nunca mais!” Aquela era, em última instância, sua sentença de condenação.
Regressando ao exílio, Sálvio levou consigo uma tristeza maior. Ao reentrar em sua vivenda rústica, dirigiu-se ao cômodo onde estava uma velha frasqueira, de cujo fundo retirou um precioso guardado. Era uma lembrança de Noeme, que levara consigo por ocasião da fuga, um vestidinho vermelho que ela usara muito tempo. Pela primeira vez revia esta roupinha. Queria contentar o insatisfeito desejo de acarinhar a filha, com que tornara ao desterro. Não chegara a tomá-la nos braços, nem lhe ouvira a vozita... Apertou contra o peito a relíquia. Mas era uma consolação triste, como a de quem se abraça a um cadáver. Foi nessa época que, relativamente a Noeme, compreendeu sua verdadeira situação. Perante a lei não era mais o pai. Até então alimentara não sei que ilusões, que agora totalmente caíam. Via bem que só poderia viver como um réprobo, sonegando-se na sombra, à margem da vida. Poderia ainda ser pai, mas ocultamente, no esquecimento e na distância, como uma dessas sombras invisíveis e protetoras em que os espíritas creem e todo o esforço para sair da penumbra redundaria em desastre. Devia renunciar, conformar-se com o seu destino de amar sempre e amar em vão. Aceitou a sua sorte. E dessa dolorosa renúncia tirava às vezes um bruxuleio de felicidade melancólica, porque imolava-se à filha, ao arroio querido, sobre o qual, salgueiro tristonho, ficaria, pensas as ramas, reclinado para sempre, para todo o sempre. Na sua túrbida resignação e soledade continuavam ainda a cair momentos de ventura, com as cartas do provedor, sempre parcas só
de informações e cada vez mais espaçadas. A filha restabelecida ia sempre “sem novidades”. Esta, a fórmula de que o tutor não mais se afastaria, para não correr o risco de despertar novo alarma. Longe em longe representava sobre a necessidade do aumento da mesada “devido às despesas maiores, com o crescimento da menina”. Sálvio, redobrando esforços, satisfazia-o, mas sempre aquém do próprio desejo, porque em sua luta pelo pão continuava a persegui-lo o azar. A terra, estéril e maldita, recusava-se a germinar a semente que lhe lançava. Enquanto seus vizinhos prosperavam, Sálvio, de seu perseverante esforço, mal poupava a mesada de Noeme. O pouco que colhia era como a esmola regateada por um coração duro, que contrafeito a lança no chapéu do pedinte. Se a geada queimou, se os gafanhotos devastaram, ou calcinou a seca à terra, podia-se afirmar que a principal vítima era ele. E Sálvio começava a murmurar sombriamente: “É sorte!”. Às vezes, cruzados os braços, quedava-se desalentado, cismando que no mistério do incognoscível havia o que quer que fosse que lhe era hostil. Às suas tribulações presentes reunia as do passado, e, dado o negro balanço no acervo de sua desdita, procurava esclarecer o mistério de sua condenação... Se Deus existisse, Deus não seria, por significar a suma bondade; nem o Demônio, porque favorecia aos maus. Haveria outra coisa, que não sabia o que era. Queria imprecar o céu, mas via-o vazio; acusando a terra, achava-a inocente; acusando os homens, reconhecia-se culpado; mas, se acusava sua culpa, sentia-se imáculo... E ante essa potência incógnita que lhe era adversa ele se transia de vago pavor, como ante um oculto inimigo inexorável. “É sorte!”, murmurava, repetindo a covarde fórmula de resignação. Mas, acabrunhadamente, sem esperança, recomeçava a lutar. Nas horas de repouso, quando se afastavam de seu espírito as preocupações do trabalho, seu pensamento, dando-se todo à filha, projetava-se fora do momento atual, em ascese evocativa, adorando-a a distância. Esta concentração pia adoçava-lhe o desterro, como o benefício apaziguador da adoração extática. Se o labor absorvente lhe tomava as horas todas, que surda irritação não lhe lavrava no
íntimo! O pensamento sofria sentindo-se preso, agrilhoado à tarefa. Mas os domingos eram todos seus. Então, abria-se o espaço para o prisioneiro tristonho. E, movendo as asas fumosas, voava, em piedosa romaria, para o país melancólico da Saudade... Nessas horas meditativas, inclinava a cabeça, e, cerrados os olhos, evocava a filha. Procurava reter-lhe a imagem, que a memória conservava, para que os anos não a desvanecessem ou modificassem. Via-lhe o rostinho cercado pelo cobertor, a pele pintada, escamando-se, a expressão entre acanhada e satisfeita, abrindo-se-lhe nos olhos mortiços de doente um lume de felicidade, que dizia: “Bem o conheço! Este é o meu paizinho!”. Nesse momento fora feliz. Oh, para que lhe dera o pai, com sua presença, esse instante de júbilo ilusório! Por que fora reavivar no espírito da criança sua imagem quase extinta! Certo, não o vendo mais, tivera saudades. Doentinha, desejaria tê-lo junto a si, alegrando-lhe a convalescença. E ele partira, e o desejo de sua pequenina alma ficara insatisfeito. Talvez houvesse recaído, novamente atingida pelo traumatismo estranho que lhe causara a perda da mãe, pelo mal das saudades... Fora mau. Devia morrer de todo na lembrança da filha, amá-la em secreto, do seio da sombra, ser o salgueiro que a água passa e não vê, ser a raiz que a flor ignora. Havia na natureza bruta, que devera tomar para modelo, o exemplo da abnegação ignorada. Era, porém, difícil. Desejaria, ao contrário, que Noeme o reconhecesse sempre e se sentisse, sempre, impelida para ele... ufana de o ter como pai, forte com o seu amparo, invocando-lhe o nome quando a molestassem... Longe dele, ignorando-o, sua imagem dissipar-se-ia no espírito da filha. A princípio se lembraria ainda, vez em vez, de uma sombra triste e carinhosa, movendo-se na bruma de um passado longínquo. Depois, a última lembrança se apagaria. E dele apenas saberia o que com abjeção lhe dissessem, tornando-se para ela um espectro de pavor, a cuja só lembrança estenderia as mãozinhas, num instintivo gesto de repulsa. Morreria sem que ela o compreendesse, desconhecendo quanto a amara. Como era difícil desaparecer, quando, ao contrário, desejaria fazer-se-lhe
sempre presente; desejaria, ao pressentir que no espírito da criança desbotava a sua imagem, como velha fotografia que o tempo descora, ir sacudir-lhe a memória como quem desperta a um dormente, dizendo: “Olha-me! sou eu teu pai. Reconhece-me, sangue de meu sangue, alma de minha alma!”. A espaços, vagas de desespero encapelavam-se-lhe na alma, mas logo se aplacavam, e Sálvio recaía na calmaria morta da resignação. Sua revolta abatia, como tormenta remansada; mas apesar da vitória, a independência selvática do egoísmo estremecia-lhe o íntimo em dolorosas convulsões. Desamava olhar outras crianças, porque não tinha ante os olhos a que suas pupilas desejariam ver. Era incapaz de acariciar as cabecinhas turbulentas que via na rua, a brincar. Parecia-lhe que, dando-lhes um carinho, esbulhava a Noeme de um bem que só a ela pertencia. Evitava as crianças. E estas, vendo-o taciturno e esquivo, temiam-no como a um desses terríveis monstros que as amas inventam para as amedrontar. Nos lares, se os pequenos pirraceavam ou não queriam dormir, bastava dizer-lhes “Olha o homem da chácara”, e os olhitos enchiam-se de pavor e os petizes aquietavam-se. Um dia, em sua soledade, apareceu-lhe um amigo. Era um cão que lhe entrava a casa, a pedinchar-lhe com os olhos famélicos umas migalhas do jantar. Entrava, e, desde esse dia, como achando-se bem naquele abrigo, deixara-se ali ficar. À noite, estava-lhe quieto, enroscado aos pés. Cedo, acompanhava-o ao serviço e seus giros inquietos de animalzinho folgazão tinham sempre como centro a pessoa do dono eleito, da qual não se distanciava. E, ao vê-lo assim rente a si, Sálvio lembrava-se da filha, quando ao sair à rua lhe sentia as mãozitas presas às abas do paletó, para levá-la também, rompendo depois em desconsolado choro, vendo-o afastar-se sem ela. Esse desejo de não o deixar um só instante era, em sua alma infantil, aquele mesmo instinto de afeto, instinto — Ai dela! — primeiro contrariado pela separação da morte, depois pela separação do crime. Esse contentamento que o pai não podia dar-lhe, dava-o a um irracional...
Sálvio admirava-se da sede de dedicação que pode residir na alma de um bruto, dedicação que não exige troco, toda contente da alegria de se dar. Bastava fitá-lo desatento e o canito estouvadamente, aos latidos e aos pulos, mostrava-lhe sua ventura numa agitação ruidosa, misto de alegria de viver e de alegria de amar. Entretanto, nos serões tristes, quando Sálvio, sentado, banzava, tendo o cão enrodilhado aos pés, no olhar do irracional ele via como a súplica de um agrado, do agrado que Sálvio nunca lhe dera e que saborearia mais do que os sobejos da mesa. Não tivera ao menos o contentamento de ter um nome, pelo qual se sentisse chamar. E quanto mais os seus olhos se faziam pedintes, mais a tristeza assombreava a alma do pai, lembrando-lhe o abandono de Noeme. Gira o tempo, lento, caindo dia a dia, minuto a minuto, como a gota d’água duma clepsidra. Faz-se monotonamente a sucessão dos aspectos de um mundo que para Sálvio estava morto. Os ciclos das estações sucedem-se morosos, trazendo a reiteração dos mesmos atos, gerando nos espíritos as mesmas preocupações. Primavera, verão, outono, inverno... Primavera, verão... E os ciclos fecham-se e recomeçam, para tornar a fechar-se e recomeçar. No largo, roseavam-se de flores, as copas das paineiras, e depois juncavam a grama lençóis de pétalas caídas. Cresciam os frutos como longos pesos pendentes, que depois secavam e fendiam-se, evolando-se em paina. E o êxodo das sementes era como a migração das almas virgens, cheias de fé, buscando ao longe terras ideais; e era como o enxame dos pensamentos de Sálvio, evolando-se para junto da filha. Na primavera, ébrios de ventura, os sabiás cantavam; depois emudeciam e o céu peneirava dos nimbos esgarçados um choro de melancolias. E tudo ainda tornava... As próprias coisas brutas pareciam ter, como o homem, alternativas de alegria e tristeza e eram como um exemplo para a consolação dos infelizes. A cada dor de inverno, pareciam dizer: “A primavera voltará...”. Mas Sálvio não a esperava mais. Sobrevivia-se. E a felicidade dos seres e das coisas refletia-se em sua alma como a luz que incide em um mundo extinto... Luz que não cria a vida e apenas serve a patentear, com crueza maior, o espetáculo da desolação e da morte.
O espírito de Sálvio continuava a hibernar em longos marasmos sombrios, mas vez em vez o lanceava a cutilada de uma dilacerante saudade da filha. O que a despertava era quase sempre a vista de outras crianças. Certos dias, ao entardecer, findo o serviço, sentava-se ao portão de sua propriedade, que dava para o largo, e via, então, brincar, sob as paineiras, turmas de meninas pequeninas. Sua turbulência enchia de alegria a quietação da tardinha, naquele recanto bucólico, com o reboliço e a grazinada de um bando de avezinhas felizes. Eram brincos de cabra-cega, de corre-corre-cotia, de tempo-será... Se brincavam de pegar, ele ouvia a voz compassada da mais velha, escolhendo à sorte entre as irrequietas comandadas a que devia ficar no “pique”: Uma pulga Na balança Deu um pulo Foi à França. Os cavalos A pular, As meninas A correr, Vamos — ver Quem — vai Pe — gar! Lançada a sorte, era uma debandada ruidosa, como um rebate inopinado num bando de aves. Outras ocasiões, à noite, enquanto estralejavam as fogueiras de junho, as crianças, mãos dadas, brincavam de roda, ora entoando em coro a melopeia de ingênuas cantigas, ora cantando uma vozinha em solo. Suas vozes frescas, angelicais, soavam: Se esta rua, se esta rua fosse minha Eu mandava, eu mandava ladrilhar Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante Para o meu, para o meu amor passar.
Ou então, em coro, a canção do “Barqueiro”: Ao passar a barca Me disse o barqueiro: “Menina bonita Não paga dinheiro”. E do meio da roda uma voz respondia: Eu não sou bonita E nem quero ser; Eu tenho dinheiro Eu pago a você. Os clarões das fogueiras banhavam a roda viva e aos seus reflexos via Sálvio, no rosário de anjos, as carinhas irradiantes, os cabelos revoltos, enquanto, segurando-se as mãozinhas, rodavam, rodavam. E naquele coro de vozes celestiais ele notava um vácuo de som. Faltava ali outra vozinha angelical, de outra criança que ali não estava, a vozinha de Noeme. E os olhos do pai se arrasavam de lágrimas. Evitava andar pela povoação, porque em toda a parte tudo lha fazia lembrar: uma caminha de criança, entrevista no interior de um lar; uma pequenita a choramingar impertinente no braço da pajem que a levava à missa; um anjo de procissão, com grandes asas de libélula, levado pela mão do pai engravatado e todo ufano; um magote de pequenitas, de vestidinhos acima dos joelhos, acocoradas sobre um pé de trevo, nascido entre duas pedras da calçada, procurando “bananinhas”; um choro impertinente em duo como uma voz carinhosa cantando cantigas de embalar... E sem embargo do tempo passado era assim que a via sempre: criança, pequenina... Via-a ainda sarampenta, o rosto afilado e olhos mortiços, de quem foi martirizada pela moléstia... Olhos que ainda se acendiam em enlevo, com um fulgor que era uma explosão de alegria silenciosa ao reconhecê-lo, parecendo dizer-lhe: “És o meu paizinho, reconheço-te! Padeci muito, mas agora tenho-te a ti para me recompensar do que passei...”.
Embora se dobassem os anos, não vencia essa ilusão. As próprias cartas do provedor fortaleciam-na, como as frases usuais: “Recebi a mesada. Aqui, na forma do costume. A menina vai sem novidades”. As cartas não mudavam; o sentimento, também não; assim, em sua memória, o passado remanescia integralmente. Se na vigília o possuíam estas lembranças, dormindo eram os sonhos que avivavam o mal-entorpecido sofrimento. Oh, sonhos cruéis e repetidos, sempre travados de amargura incomportável e desesperação infinita! Sonhava uma noite que ia vê-la. Viajava infindavelmente. Afinal chegava. Mas, quanta atrapalhação! Nunca a encontra. Às vezes, quando chega, ela acaba de partir para muito longe, arrebatada num comboio fantástico, que ele vê distanciar-se, reduzindo-se daí a instantes a um ponto mal perceptível no horizonte. Outras vezes, ao chegar, dizem-lhe que ela está numa festa. Há repiques de sinos, estrondar de morteiros e multidão formigante, em trajos de festa, nas praças e ruas embandeiradas. E, de permeio à multidão, milhares e milhares de crianças, pequeninas como ela. O pai, aflito, a procurá-la, vai e volta, acotovela o povo, revolve as ruas. Examina vivamente as crianças, uma a uma. “Não, não é esta!” “Nem esta.” Em frenesi crescente, doloroso, perquire, indaga, rompe a mole do povo que se faz mais densa e quase o asfixia. Nada! Noeme, a pobrezinha! não estarão a esmagá-la? E crianças, torrentes de crianças... Para dar um passo, ofega, debate-se. E nunca a encontrará, santo Deus! Súbito entrevê longe um vestidinho vermelho, de manguitas curtas, como o que guardara. Noeme! Era Noeme! Precipita-se, rompe com esforço sobre-humano a espessa barreira. Mas chegou tarde. O vestidinho vermelho desapareceu. Apenas vê outras crianças, inumeráveis, aos milhares, pequeninas como a sua filha... Sonha de novo. É um deserto de areia. Há pedras eretas como homens de pé, encapuchadas de bromélias, como de um cocar de guerreiro selvagem. Ele erra no deserto, que é sempre o mesmo: chão de areia, guerreiros eretos, incontáveis. E Sálvio vaga inquieto como procurando uma coisa que não sabe o que seja e que não acha.
Certo momento avista, ao longe, a filha. Só, naquele ermo, a pobrezinha! Decerto afastou-se de casa e perdeu-se no deserto, sem poder voltar. Chegou a tempo para salvá-la. Chama-a: “Noeme!”. Ela ouve-o, sua carinha chorosa ilumina-se. Corre-lhe ao encontro, jubilosa, exclamando: “Papai!”. Ele abre os braços e espera, curvado, a filhinha que se precipita, correndo em sua direção. E, quando já está perto, o pai, mal crendo em sua ventura, reflete: “É impossível! Não pode ser verdade. Separam-nos duzentas léguas! Certo estou sonhando”. Então olha e não vê mais Noeme. Desvaneceu-se. Chama-a uma, muitas vezes. Em vão. Ele está só. Em torno, apenas o deserto a desdobrar-se sem termo: pedras eretas, cocares guerreiros e areia, areia, areia... Oh, sonhos cruéis! mil vezes mais cruéis que a realidade. Momentos houve em que o incomportável sofrimento o fazia pensar: “Ir vê-la, mais uma só vez, e, em seguida, matar-me”. A morte para ele nada tinha de repulsiva. Com que apetite a desejava, como a ambicionava com todo o seu ser cansado de penar! Seria o sono repousador após uma jornada exaustiva. Deixar o sono pesar sobre suas pálpebras, sentir-se invadido do torpor do não ser, do não sentir, e, apagado o lume do pensamento, mergulhar enfim na sombra acolhedora, cuja quietude nada turba. “Morrer... dormir...” Mas... depois? Não o depois de Hamlet, os sonhos temerosos do Além, não o depois do que se ia, mas o da filha desamparada, que ficava. Não! Viver ainda! ainda! Sacrificar-se cada dia, cada hora, pela filha abandonada. Podia ele morrer, santo Deus? afastar aquela provação, que era a vida de Noeme? Viveria. Ser-lhe-ia ainda possível. Fosse embora imenso o quebranto d’alma, sentia, para valer à filha, as forças continuamente renascentes. Demais, todo o sofrimento tem intermitências de lassidão e letargia. Se hoje se escanzela na alma em abismo de desesperação, depois o abismo cerra a boca saciada e o infeliz, recaindo no marasmo, esquece e vive. Viver para a filha: era o termo de suas hesitações. E, flutuando entre os contrastes de seus sentimentos, Sálvio continuou a vegetar no desterro.
Dobam-se ainda os anos, em giros lentos. Em sua primavera depunham as paineiras, aos pés, toalhas de flores róseas. Era como se se despissem de um manto régio, deitando-o mansamente no chão, a sussurrar consigo mesmas: “A nova primavera dar-me-á outro manto mais belo e rescendente!”. E, quando vinha o inverno, elas, em sua nudez esquelética, eram como almas cheias de esperança, contemplando o céu. E de novo revestiam-nas os mantos régios e novos lençóis de flores róseas desciam-lhes mansamente aos pés. Na órbita sempre refeita girava o mundo no éter, fazendo a translação da monotonia das coisas. Quantas florações de esperanças, quantos invernos de desolações, não se alternavam, espaço em fora! E, olhando em torno de si, Sálvio via a mudança dos seres e das coisas. Dezoito anos! tanto bastava para uma geração render a outra geração. As cabeças pretas punham-se grisalhas, as grisalhas encaneciam. Nas fisionomias moças cavavam-se rugas e onde espairecia um sorriso descuidoso nascia o vinco de uma preocupação dolorosa, como se as tristezas fossem as rugas das almas que viveram. As turmas dos velhinhos conhecidos iam partindo trôpegas e resignadas, como convivas transnoitados de um banquete, que enfim recolhem, fatigados e cheios de tédio. E aos pés da geração antiga surdia, túmida de seiva, a onda grulhante da geração que a vinha render. O canito folgazão, trazido pelo acaso, que um dia lhe entrara a casa para se lhe enroscar aos pés, também envelhecera e acabara. Não abandonara a Sálvio. Morrera lentamente, arrastando longo tempo suas mazelas de rafeiro velho. Não tinha mais a sua alegria ruidosa, ao ver o dono, expressa em ganidos e saltos de contentamento. Sua afeição permanecia inalterável, mas era austera e meditativa, mescla da alegria de amar e da tristeza de viver. Encarando o dono, com a alma afetuosa toda nas pupilas de bruto sensível, parecia exprobrar-lhe: “Fui-te fiel em todo o decurso de minha curta vida; nem um instante minha dedicação se desmentiu; ao passo que os homens te detestavam, minha afeição manteve-se profunda e leal; e nunca te mereci uma carícia!”. E, ao expirar, quando Sálvio lhe afagara a pobre cabeça agonizante, parecia que o velho
cão, recebendo essa carícia a vida toda esperada, experimentava, ao morrer, a sua maior ventura. Um dia, observando-se casualmente a um espelho, Sálvio também viu-se envelhecido. Quê! Era ele aquela ruína, aquele rosto engelhado e aqueles cabelos brancos! Como o tempo devasta o corpo! Internamente, na alma, sentia a mesma devastação. Era bem um fim de vida. Ele nunca volvera a atenção para a saúde, pois a desordem das funções do corpo eram um acidente imperceptível no tumulto desordenado do espírito. Estava a acabar também, como o velho cão. A própria vivenda, imagem do seu dono, desmantelava-se em ruínas. As fendas das paredes, onde pululava a fauna dos escombros, o teto selado invadido de trepadeiras daninhas que se insinuavam sob as telhas, o terreno em volta, afogado em pragas, exprimiam o desalento de uma alma, que, cansada de lutar, afinal se rendeu. E, à frente, o portão que abria para o largo, ladeado de taipas desmoronadas, parecia ter escrito na testada oblíqua o letreiro sombrio da desesperança. Nas plantações a terra exausta retraía-se, por seu turno, empedrada e seca, como um coração mau, regateando-lhe as colheitas minguadas a ponto de, mês em mês, incutir-lhe o receio de não poder enviar, no mês seguinte, a pensão da filha, cujo aumento progressivo era reclamado nas cartas, agora raras, do provedor. Todas as calamidades do céu continuavam a chover na sua propriedade. Era, na desolação das ruinarias, uma tempestade de azares e um concerto de presságios, para indicar-lhe que o fim estava próximo. E ele que às vezes desejara a morte, tomava-se de pavor à só ideia de que ela não poderia tardar. De sua alma subia o grito: “E Noeme!”. Não valer-lhe mais, não vê-la mais, nunca mais! E o grande pavor fazia que agora concentrasse toda a atenção em si; nunca pensara que o iam preocupar tanto as lazeiras do corpo. Uma vez, sentindo-se impossibilitado de trabalhar, sua inquietação foi maior; apenas melhorou, correu a um consultório. O médico arguiu-o e examinou-o atentamente. Findo o exame, disse-lhe: “Não é nada”. E sentou-se
para escrever a receita. Recebendo-a, Sálvio explicou-lhe: Não desejava somente aquilo! Eram desnecessárias palavras de animação. O que queria era um diagnóstico fiel. Expôs-lhe que a vida lhe corria difícil e que, morrendo sem o esperar, poderia infelicitar a outrem. Fez alusões à filhinha distante, da qual era o arrimo. Instou que lhe dissesse a verdade, para preparar-se para a morte, nada deixando confiado ao acaso. O facultativo fixou-o penetrantemente. Certo, viu-lhe através dos olhos ansiosos o torvelinho torvo de sua vida. Então renunciou à piedosa mentira. E como Sálvio, calado, esperasse a resposta, pousou-lhe a mão no ombro, dizendo-lhe em voz pausada: — Seu caso é sério, meu amigo... Coração... Epilepsia larvada... Que sei eu? O diagnóstico é obscuro e complexo... Mas é sério... muito sério... Se tem providências a tomar, tome-as, que a morte pode estar emboscada no minuto que vai cair... O médico fugia ao seu hábito de discrição profissional. Mas compreendera tratar-se de um caso de exceção, porque o seu cliente desconhecido era já um homem fora da vida. Sálvio retirou-se aturdido. No cérebro lhe plangiam as lúgubres badaladas: “É um caso sério... muito sério...”. Achou inútil todo o seu esforço passado, estéril toda a sua vida sacrificada, já que ia abandonar de novo a filha, quando ainda necessário lhe era o seu amparo. Não transmutara seu longo sofrimento em uma auréola de felicidade para Noeme, não transformara seu desespero ignorado em suave claridade que lhe iluminasse o futuro. Sua missão, para ser perfeita, devia ser interminável, como a obscura tarefa do coração vitalizando o organismo. Nem um instante possuiu-o o prazer covarde de acabar. Inquietações dolorosas borbulhavam-lhe na alma. E só agora lhe despontava a dúvida de terem sido eficazes os seus trabalhos passados, para aligeirar a vida à pobre filha criada sem pais, em lar estranho. Oh, se ao menos soubesse que não se sacrificara em vão! Então, a revolta contra a sorte cresceu-lhe mais uma vez violentamente na alma. Embora houvesse fugido à condenação, sentira-se toda a vida condenado sem culpa, por uma sentença inapelável.
Os tratos de seu martírio iam-se, cada vez mais, premendo-se em círculos mais estreitos, em todo o decurso de sua vida. E embalde procurava conhecer o juiz que o sentenciara. Fora a sorte? ou o acaso? Mas os caprichos da sorte e do acaso às vezes desmancham-se em sorrisos; não se concentram assim, sem uma hesitação, sem uma diversão, como tendo o propósito deliberado de aniquilar lentamente uma existência. Atrás de seu destino ele pressentia a presença de uma perversidade apurada e poderosa a supliciá-lo. Títere da desgraça, o fio de sua vida fora tomado pelas mãos de uma divindade sombria e feroz, que se deliciava com o espetáculo das infindáveis agonias. E ele procurava embalde a mão que o esmagava, o deus feroz e ignoto, essa coisa misteriosa e terrível que voltara contra ele toda a sua capacidade de ódio, destruindo-lhe implacavelmente a vida. Queria conhecê-lo, a esse Deus, que não era nenhum dos que os homens adoravam ou temiam, queria vê-lo face a face, para com o coração transido de covardia implorar-lhe: “Piedade! já purguei na solidão as minhas culpas ignoradas. Vivi só e resignado. Acolhi de fronte baixa os decretos da desgraça. Piedade! não por mim, mas pela minha filha. Feri-me com redobrado furor. Os recursos do céu, para causar a dor, são inextinguíveis. Continuai a exercê-los contra mim, mas deixai-me viver para a minha filha!”. Mas este grito, Sálvio não o deixou sair da alma, sabia ser tudo em vão. Os fados regiam o destino dos homens, que toam pelo mundo como coisas brutas, levadas a esmo pelas forças ignoradas. No vazio imenso de seu desalento plangia ainda o refrão: “Seu caso é sério, meu amigo... muito sério...”. Sua derrota estava próxima. “A morte pode estar emboscada no minuto que vai cair.” E, súbito, numa instantânea e irreflexiva resolução, esqueceu seus protestos de renúncia, o futuro de Noeme sacrificado, a prisão iminente, para pensar unicamente em si, no seu desejo imperioso de ver ainda Noeme mais uma vez, uma última vez. E erguendo violentamente todas as lousas superpostas que o oprimiam, surgiu de seu túmulo, e, presa da ideia obsidente, irresistível, absurda, Sálvio partiu.
Na sala, por prudência conservada semiobscura, e aberta para a escuridão fechada da rua, o major Mourão passeia agitadamente, pois espera Sálvio, que por telegrama o avisara de sua chegada. Múltiplos sentimentos lhe conturbavam o espírito. Sua situação é difícil, porque sucederam graves fatos, que não comunicara ao pai de sua pupila. Passeia febril e soturno, todo entrajado de negro, como de costume, e às vezes gesticula ante a ilusão de um interlocutor que procurasse persuadir. O major não andava de sorte. Deixara de ser provedor, porque, sob sua administração envolta em arcanos só dele conhecidos, a Santa Casa falira; evaporara-se-lhe o avultado patrimônio e ignorava-se o destino tomado pelas subvenções do governo e contribuições particulares. Seus haveres pessoais, dissiparam-nos os filhos precocemente dissolutos. Sem embargo dos anos e dos dissabores, que pouco lhe alteraram o físico, apenas acentuando-lhe mais as rugas reflexivas da fronte e pondo-lhe nas têmporas duas pastas de cãs, ele ainda conservava a sua linha austera de apóstolo e anjo da consolação; mas as suas atitudes solenes e voz cava, convincente e apaziguadora, arrancada das entranhas da alma, incutiam desconfiança e por isso não se insinuava mais nos meandros dos corações malferidos. É que os órfãos e viúvas, cujos haveres gerira, viram-se afinal empobrecidos sem que a turvação DE caim
lhes fossem prestadas contas nítidas. Na balbúrdia destas, expostas com gestos majestosos e reboos de voz tumbal, apenas entendiam que sua necessidade se tornara penúria, agravando-se o desconforto d’alma com a falta absoluta de recursos. Sentenciado pelo clamor de suas vítimas inumeráveis, o major encontrou-se um dia pobre e desconceituado. Fora bom ter nos tempos prósperos encarreirado os filhos; excetuava-se apenas o último, já moço, que ia começar tarde e em má quadra. Felizmente a mesada de Sálvio dava a mantença da casa, e, com algum acréscimo, daria também para os estudos do rapaz. Esta mesada era como uma aposentadoria merecida, suavizando-lhe os dissabores e dando-lhe tranquilidade à velhice incipiente. “Com algum acréscimo...” Não seria grande sacrifício para Sálvio, pensava o provedor. Supunha-o essa hora riquíssimo. Não ajuizava claramente do modo como ganhava ele a vida, suspeitando vagamente que fosse em falcatruas e outras torpezas rendosas. Mas não se detinha em tais suposições. Evitava formular um juízo. Tanto mais que os juízos temerários eram pecado. Na dúvida, era de presumir-se sua honestidade. Naturalmente (dizia consigo) ele, provedor, nunca lhe aconselharia contumácia na senda do crime; e, se no dinheiro de Sálvio houvesse mácula, ao cair-lhe nas mãos brancas tornava-se límpido, como se a distância e o obscuro desterro lhe servissem de filtro purificador. Seria assim pura, numa taça de prata, a água que brotou da sordície do subsolo. Porque o major era austero a seu modo. Não aceitaria conscientemente, talvez, o produto de um crime. Em seu foro íntimo sentia-se ilibado de todas as culpas que a maledicência lhe assacava. Pelo desvio de dinheiro da Santa Casa e dos depósitos dos órfãos e viúvas, a consciência não lhe pungia, não só por se julgar credor de grande compensação, pelo dedicar-se toda a vida a minorar os males alheios, como porque, a gerir essas quantias, concebia sobre elas tão forte sentimento de propriedade, que era como se dispusesse do próprio patrimônio. Mas se o dinheiro de Sálvio em suas mãos caía límpido e o contato metálico não poluía — estava-lhe neste ponto tão tranquila a
consciência! —, já sua presença causava-lhe repulsa. Repugnava-lhe, como o contato de um réptil. Era com displicência e fazendo violento esforço sobre si mesmo, que se submetia à necessidade daquele encontro. Irritava-o, ainda, a flagrante desobediência à antiga ordem. Se soubesse onde sua resposta o poderia encontrar, telegrafaria: “Proíbo-lhe que venha!”. Mas o aviso recente fora expedido do percurso, quase ao fim da viagem, precedendo algumas horas apenas a chegada do expedidor. Preocupava-o, sobretudo, não poder dar boas contas do depósito que lhe confiara. E, agitadamente, o ex-provedor espacejava pela sala sombria, a desmanchar-se em longos gestos, dialogando a sós consigo. Era noite, e essa a hora em que esperava Sálvio. Os momentos aborrecidos que ia passar com o falsário, aumentava-os os da aborrecida expectativa. A cada instante o major compunha-se e observava a porta, onde esperava ver aquele surgir. Na porta enquadrava-se a escuridão espessa da rua. Na escuridão podia estar o vácuo, mas podia estar um homem. Certo, o criminoso viria sorrateiro, para não se fazer pressentir, agasalhado nas dobras cúmplices das trevas. O major exasperava-se com essa própria conivência da escuridão protetora. Oh, não estar a noite clara, enluzeirada de astros, esplendente de luar, para que todos vissem e reconhecessem o criminoso foragido e lhe castigassem com a prisão o desfaçamento do regresso ao local do crime! Nesta própria circunstância revelava-se-lhe a tara do mal... E se ele próprio prevenisse a autoridade e o fizesse capturar? Hesitou, num fulgor de esperança... Mas, preso Sálvio, lá se ia de vez a aposentadoria reconfortadora de seus cansados anos. Uma catástrofe! E, além das privações que passaria, cortava-se a carreira do rapaz, que pouco tempo antes, concluídos os preparatórios, seguira para São Paulo, a iniciá-la. A iniciá-la e também fazer esquecido o escândalo em que fora o protagonista e que tornara, ao seu lar, alvo da maledicência pública. Esta objeção enfurecia-o; sentia o desespero de uma fera acuada; e como desabafo, improperava:
— A infâmia do pai infamou a filha, refluindo lama sobre mim. O mal contaminou o filho e nos enxovalhou a todos. E tudo partiu dessa alma pútrida, desse atascal maldito! A veemência das apóstrofes e o exagitar-se possesso acalmavam-lhe, aos poucos, a exasperação. Apaziguado, enfim, submetia-se ao encontro inevitável. Num dos momentos em que escrutava a escuridão, teve um sobressalto. Nela esboçou-se uma forma humana e Sálvio apareceu no limiar. Era uma figura curva e velhusca. E, ante a sombra, que parecia gerada pela condensação da treva exterior, aquela mole de egoísmo tremeu. A mão que o major lhe estendeu tinha a friez do suor da agonia; e em sua cabeça gerou-se confusão, porque aquela sombra murcha e curva mudamente dizia, com toda a sua pessoa: “Quero a minha filha”. O ex-provedor desejaria falar, mas as palavras negavam-se-lhe à prolação. É que agora lhe surgia um novo aspecto da catástrofe sucedida, na qual apenas vira a si e ao filho, esquecendo o pai da vítima. E turvava-se como Caim, ouvindo a voz celeste. A custo recobrou sobre si algum império; e então começou, afetuoso, paternal: — Meu amigo, como mudaste! Vê-se que passaste a vida a penar... Os sofrimentos do espírito ficam-nos marcados no rosto como cicatrizes profundas... E os teus devem ter sido imensos! A palavra, hesitante, formulava-se mais natural. E ele prosseguiu: — O sofrimento é nosso destino comum, a nossa cruz pesada... Temos de levar aos lábios o cálix de todas as amarguras, para que o paladar conheça bem o sabor da vida... E, golpe sobre golpe, é uma tragédia que não tem fim... Digo-o eu, com a experiência das provações... Mas os sofrimentos como que nos revestem com uma couraça, para melhor resistir aos embates da sorte. Mesmo assim, meu amigo, arma-te de toda a tua coragem, para o novo golpe que te espera. Porque tua filha, Sálvio... nossa filha... perdeu-se. A sombra, curva e humilde, como que se fez ainda menor. — Uma desgraça, meu amigo! uma horrível desgraça. Faz meses... Uma catástrofe inesperada... inexplicável... Quis relatar-ta,
vinte vezes tomei a pena, mas a mão recusou-se a obedecer... Silenciei. Preferi manter-te na ignorância, e, se pudesse, prolongaria a mesma ilusão, até o fim de teus dias... Bastava que o golpe me ferisse a mim... E feriu-me duramente! Tantos os carinhos com que a criamos, tanto o recato com que lhe amparávamos a inocência, no sacrário do lar... e, um dia... a culpa ignorada traiu-se por si... Ia ser mãe... E eu, como um pai justiceiro e inexorável, como tu, meu amigo, que farias o mesmo, eu... expulsei-a. Seu ouvinte, aniquilado, sumido, parecia prestes a acarear-se com o pó. — Recolheu-a um lar honesto — continuou o provedor —, onde deu à luz o fruto de seu crime. Mas à criança, para que não a contaminasse a mácula original, acolhi-a em minha casa. Renova-se em tua netinha o legado que me deixaste. E oxalá a pequenina inocente resgate com uma vida de virtudes a culpa da concepção... O ex-provedor senhoreara-se totalmente de si. Sua voz consoladora enriquecia-se de inflexões profundas e a mão traçava na penumbra largos gestos convincentes. Falou-lhe ainda longo tempo, com unção balsamizadora, pensando-lhe a chaga recente. E como a sombra, humilde, esmagada, recuasse lentamente, buscando a porta, ele exortou-a: — Vai, meu amigo, torna ao teu ermo, retoma a tua cruz. Vai-te em paz. É pela soma de nossas provações que se faz grande nosso merecimento perante o Céu... Deus te acompanhe! E, sobre a figura triste do pai, que se desvanecia na sombra exterior, suas mãos ainda se ergueram majestosas, eloquentes, a abençoá-lo solenemente, numa promessa de redenção.
Sálvio sentiu-se então subitamente amputado da vida. No momento da terrível revelação seus ombros de cariátide sofredora, que estalavam sob o peso de uma longa miséria, subitamente se aliviaram. Pôs-se a vagar nas ruas sombrias. Não se destinava a lugar certo; no apuro de sofrimento a que chegara, eram-lhe todos os caminhos indiferentes, contanto que conduzissem ao fim. Se procurava refletir, seus raciocínios dissipavam-se, sem concluir em juízos. Em momentos, dando acordo da realidade, admirava-se de ainda sentir-se viver e tomava-o impressão de que era no mundo como um intruso na propriedade alheia, um corpo estranho, uma excrescência, que tardava em restituir à matéria a sua porção de matéria, para, mesclada às substâncias elementais, remodelar-se em outros seres, em outras vãs tentativas de criação. A espaços, seu espírito se confrangia em uma palpitação dolorosa, gemendo: “Noeme!”. Mas a filha não existia mais. Como a realidade fora semelhante aos sonhos atrozes que lhe amarguravam o repouso noturno! E a ele, que vivera tão só, pareceu-lhe que somente agora se lhe fazia em torno a verdadeira solidão. Antecipadamente sentia-se tomado pela letargia profunda da morte. Mas, vez em vez, a noite do seu espírito se iluminava com uma doce aparição, um vulto pequenino de criança. “Noeme!” Os passos incertos afastavam-no da cidade. Fugia de instinto à acumulação dos humanos, à oficina sinistra onde se engendravam todas as monstruosidades. sEr ou não sEr
Agora não havia covardia em acabar. E, no ermo selvático, deteve-se, olhando o céu. Germinava-lhe na alma uma confusa necessidade de orar. E volvendo-se para o alto suplicou: — Senhor! Minha missão está finda. Quero agora descansar. Trabalhei as horas todas do longo dia da vida. A fronte alagou-se-me em suor e trago as mãos calejadas e o coração sangrando. É justo que o servo diligente receba o seu salário. Se fui culpado, resgatei a minha culpa. Vivi para minha filha. Ela foi o tesouro que me confiaste, como os talentos da parábola. Dia a dia, minuto a minuto, zelei pelo meu depósito; dei-lhe a vigília do dia e a inquietação das noites. E agora as minhas mãos procuram-no e não o acham. Tomaram-mo. Se tive culpa, perdoa-me, senhor! Estou cansado, quero repousar. E longo tempo quedou-se imóvel, o olhar fito na altura, como esperando uma palavra de consolação. Mas o céu parecia contemplar a sua dor com uma expressão singular, que não era a indiferença e o tédio com que via as dores dos humanos. No seu mutismo sombrio notava-se o que fosse de hostil; e num breve clarão que fosforeou, arrepanhando a fímbria do horizonte, o pai viu como um ríctus sardônico que insultava sua miséria. E nesse instante desvaneceu-se, rápido como aquele clarão, o seu momento de fé. Ai dele! residia muito longe, em altitudes inacessíveis, o Deus de misericórdia que um dia dissera: “Bem-aventurados os que sofrem!”. Se os sofrimentos lhe eram gratos, ele, como Jó, não era um monturo? Quem os via e se regozijava era a Potestade Ignota, essa outra coisa atroz, inexorável, que regia os destinos, talvez a fatalidade do Mal e da Dor. A esse instante os olhos hediondos da potência misteriosa deveriam rutilar como dois sóis sangrentos e sua boca disforme, babujando peçonha, deveria estorcer-se em alegria perversa, esperando ouvi-lo enfim clamar, esmagado, a palavra do apóstata: “venceste!”. E Sálvio rebelou-se. Com o olhar alucinado circunvagou o céu. Oh, ele desejaria saber onde se ocultava a divindade terrível, para mostrar-lhe os punhos irados, atroando o espaço de blasfêmias. Olhava o céu com rancor, culpando-o de sua vida esfacelada. Repassando os transes do passado via em tudo como um propósito
deliberado de aniquilá-lo. A essa hora já deveria estar morto, e persistir em viver era um ato de suprema rebeldia. A cada instante, em sua vida, sentira mão invisível impeli-lo para o fim, como se lhe dissessem “Anda! resolve-te!”, como se o suicídio fosse o gáudio maior para os deuses cruéis. E perdurara toda uma existência a revolta do infinitamente pequeno contra o infinitamente poderoso. Viu em seu passado, longe, um tênue albor de felicidade, uma remota esplanada de ventura, e, depois, o seu descer sem fim. Descer? despenhar-se. Quando se sentia infeliz, abria-se-lhe aos pés o vácuo de uma desventura maior. Despenha-se ainda. E, ao fundo, falseia-se-lhe ainda o chão, para rolar em novos abismos. É um suceder-se de funduras sem termo, convencendo-o, com sua triste experiência, de que infinita era a faculdade humana de sofrer. E, ao cabo de tudo, a absoluta inutilidade do sacrifício para a felicidade da filha... “Noeme!” A radiosa visitação iluminou-lhe ainda a atribulação do espírito com a sua doce claridade. Viu-lhe o vulto pequenino. Parecia ter revoltado para ele os olhos lacrimosos, implorando socorro e proteção, como a vira um dia em sonho, perdida no areal sem fim. Deveria ter naquele tempo corrido em sua salvação. Agora, era tarde! Não lhe restava, então, dever algum a cumprir? Ia abandoná-la mais uma vez, irremissivelmente? Assaltou-o uma dúvida. E quedou-se de novo hesitante entre o ser e o não ser, agoniado, perplexo... E foi quando lhe pareceu ouvir, na confusão de seu espírito, ou em qualquer ponto da noite, um riso misterioso que mofava de sua miséria... E seu espírito alteou-se outra vez, nova onda de revolta intumesceu-lhe o coração. Oh, ele afastaria todos os obstáculos que o destino interpusesse, separando-o da filha. Ainda persistia integral o seu dever de pai, como na remota infância de Noeme. Não morderia o pó, vencido, clamando a palavra de humilhação e ignomínia. Acabar, ainda era uma covardia. E surpreendia-se de ter sido tanta a sua cegueira, que pudesse um momento sequer pensar diversamente.
— Viver para a minha filha — murmurou. — Fazer-lhe até meus últimos momentos a oferenda de minha vida. Sempre, sempre! Se está humilhada, devo erguê-la de sua humilhação. Poluída ou pura, o meu dever permanece o mesmo: purificá-la, ampará-la, consolá-la, embora me esperem novos tormentos, embora sofra o suplício de não a ter mais, tendo-a junto de mim. Viver, ainda, ainda! Continuar reclinado sobre a filha, em sua postura de carinho e proteção, como as ramas do salgueiro sobre a correnteza... Se o inverno lhe crestou as ramas e secou as águas do arroio, ainda assim haveria uma secreta correspondência entre a alma da árvore morta e a alma da correnteza estanque — ou haveria, ao menos uma ilusão consoladora.
O major acordara bem-disposto. Depois do paroxismo de sentimentos do dia antecedente, dormira tranquilamente com o desafogo de quem se evadiu de uma situação intolerável. Trouxe-lhe a manhã a “serena claridade” que sucede às noites borrascosas. Seus sentimentos, exasperados durante algumas horas, retomaram o curso tranquilo. Seu alívio era repassado da agradável emoção de sentir restituir-se-lhe a confiança em si, a consciência da própria força, que lhe falecera um momento no dia da provação. Naquela hora bonançosa cheia da embriaguez suave do triunfo, descortinava límpido o futuro; sem empeços a carreira do filho caçula (não fosse ingrato como os outros, que apenas criavam asas o esqueciam) e garantido o conforto e a paz tão gratos a seus dias outoniços. A esse amanhecer ditoso estava reservada uma desagradável surpresa. Ouvindo bater à porta, foi ele pessoalmente abrir. Era Sálvio! Ainda! Em pleno dia! A víbora, cuja cabeça não fora bem esmagada, levantava-a outra vez, para ameaçar-lhe o sossego e o futuro do rapaz. O ex-provedor, tomado de cólera, empertigou-se, para assumir a sua atitude mais majestosa; mas o seu desalinho matinal e as chinelas caseiras compunham-lhe uma figura cômica. — O senhor! — exclamou. — Ainda! E enquanto a ira lhe tolhia mais palavras, ouviu soar a voz mansa de Sálvio, voz de entoação abafada, como se em sua vida solitária houvesse desaprendido o articular sons humanos. E ao passo que o noEmE
major revezava atitudes dramáticas exprimindo-se com a mímica da indignação silenciosa, o pai explicava-lhe que ia levar consigo a filha e reclamava por isso a netinha, que lhe fora tomada. A vida resumia-se-lhe no cumprimento de seu dever de pai e esse dever era agora redobrado de encargos mais graves. Como o major começasse a replicar-lhe com veemência, o pai atalhou-o e insistiu, calmamente, reclamando a neta. Em sua insistência havia a firmeza tranquila de quem tomou uma resolução irremovível. Então a cólera do major desencadeou-se em reboos tremendos, nos mais atroantes impropérios. É que na suavidade daquela manhã alvorecida tão linda, via agora o total desmoronamento de sua vida. E, diante da persistência invencível do pai, precipitou-se descabelado porta a fora pregoando-lhe o nome em altos brados, mandando avisar a força... Quando as praças chegaram, o pai saía do interior da casa tendo a criança nos braços. Deixou-se conduzir passivamente, relutando todavia em entregar a menina, que lhe quiseram tomar. Apresentaram-no à justiça. Mas não o detiveram preso: o crime estava prescrito. Apenas livre, Sálvio pediu informações sobre o paradeiro de Noeme. Não lho sabiam dizer. Não a conheciam pelo nome. A alguém, todavia, lembrou perguntar-lhe se não era a “alugada do major”. À resposta afirmativa, deram-lhe a indicação; procurasse uma casinha pobre, no campo, a meia légua da cidade. Fora onde a recolheram, ao sair expulsa da casa do provedor. O pai deixou a cidade, tomando o caminho indicado. Cabisbaixo, todo abstraído em suas cogitações, arredava-se maquinalmente dos carros e cavaleiros que encontrava. E a si mesmo repetia como um refrão: “cumprir o meu dever...”. E esta reflexão aligeirava sua alma fechada num círculo de pensamentos tristes — a tristeza da perdição de Noeme... De uma volta da estrada avistou a casinha. E, instantaneamente, naquele ponto, uma onda de emoção fez-lhe esquecer a mácula da
filha. Houve um colapso na realidade e viveram apenas os sentimentos do passado. Encaminhando-se para o casebre observou-o. Comparada com ele, a casa em que vivera em seu desterro era uma habitação confortável. Envolvia-o um silêncio profundo. Parecia deserto. Em volta, o silêncio dos campos. Não se ouvia um cantar de ave. E o coração bateu-lhe em sobressalto pressago... Após tantos obstáculos não iria encontrar ainda Noeme? A realidade iria ser como em seus sonhos aflitivos, nos quais, ao chegar, diziam-lhe que Noeme partira para longe, muito longe? Seria como uma dolorosa previsão o pesadelo em que agoniado a procurara em vão, no meio da cidade em festa, entre milhares de crianças pequeninas como ela, apenas entrevendo, a distância, o vestidinho vermelho, que logo se desvanecia? Ou estaria ainda a sonhar, supondo Noeme tão perto? Ia talvez acordar, murmurando: “Separam-nos duzentas léguas!”. Seria possível, santo Deus, que apenas estivesse de permeio entre ele e a filha a simples espessura de uma parede? O receio de perdê-la ainda, congelava-lhe o sangue, corria-lhe no corpo um arrepio álgido, tiritava... Murmurou consigo, buscando tranquilidade: “São vãos receios. Ela está aqui”. E, mais calmo, contemplou a paisagem que se estendia à frente do casebre: a tristeza dos campos, escalonados de pequizeiros raquíticos, contorcendo como supliciados os galhos misérrimos. Uma caravana de morros escalvados fugia para o horizonte desoladamente, como em cumprimento de uma romaria dolorosa. Sálvio disse consigo ao ver um banco tosco, ao lado da entrada, que certo a filha costumava sentar-se ali, ao morrer melancólico das tardes e que aquela paisagem era a que contemplava a sua tristeza. E como se na paisagem que era familiar aos olhos dele também estivesse um pouco de sua filha. Sálvio fixou-a para se apossar dos pensamentos de Noeme que ali se dispersaram; e nunca mais lhe esqueceriam a faixa amarela da estrada, serpeando nos campos ermos, os pequizeiros retortos, emplastrados de cupins e a caravana dolente dos morros por onde viajara a mágoa de sua alma, a sua humilhação, a sua vergonha...
O coração confrangeu-lhe a esse pensamento. Era piedade, mas era também o amargor do desespero. Lembraram-lhe suas palavras: “Sofrer o suplício de não ter mais filha, tendo-a embora junto de mim...”. Mas para que pensamentos dolorosos em hora tão feliz? Bastava repetir-se agora que ela estava ali, distante dele a espessura de uma parede apenas e que não haveria quem lha tomasse mais. E, concentrando toda sua força de ânimo, bateu tremulante à porta... Na casa fez-se pequeno rumor. Soaram passos em direção à porta. Assomou nesta uma moça. Sálvio observou-a. Não teria ainda vinte anos. Os pés estavam descalços e vestia uns frangalhos de roupa. Sua fisionomia tinha expressão medrosa. Enquanto encarava com desconfiança aquele desconhecido, que trazia achegada a si uma criança, Sálvio observava-a muda e fixamente. Era-lhe uma estranha. Não a reconhecia. E seus olhos ansiosos cravaram-se nela, agudamente... Então deu-se uma deformação de imagens, como quando a vista fixa cansativamente o mesmo objeto... uma transfiguração... Aquele rosto, aquele ser desconhecido, foi desfazendo o seu sigilo e revelando-se lentamente a ele. Era um enigma que lentamente desvelava seus arcanos, uma nebulosa imprecisa que se ia esboçando em contornos e modelando em ser... Como na fantasia vertiginosa do retorno ao passado, na marcha retrógrada do tempo, apareciam no semblante da jovem traços infantis e o corpo reduzia-se-lhe numa figura de criança triste, presa de uma saudade imprecisa, a vagar pela casa, ninando a boneca... Feição a feição, renascia na moça a filhinha abandonada. Era ela. Mudamente, ante seu olhar de espanto e incompreensão, Sálvio mostrou-lhe o rostinho da criança e ofereceu-lha... Ela precipitou-se a tomá-la. Em seu rosto não se pintava o vexame da culpa e sim uma expressão de alegria desbordante.
E no mesmo instante receosa, perguntou-lhe: — Não a leva mais? E na incerteza da resposta, sua expectativa era angustiosa. Sálvio murmurou apenas: “Noeme!”. Ela encarou-o surpresa. Não o reconhecia. O coração do pai abrumou-se. E lembraram-lhe as suas palavras do passado: “Oh! Eu desejaria que ela me reconhecesse sempre como seu pai, como seu protetor! Desejaria, quando a minha imagem se lhe desbotasse no pensamento, sacudir-lhe a memória entorpecida como se desperta a um dormente, clamando-lhe: — Olha-me, reconhece-me, alma de minh’alma, sangue de meu sangue! Sou eu, teu pai!”. Em seu espírito talvez já ele estava morto. Morto ou infamado... E se acaso o reconhecesse, ia retrair-se num momento de repulsa e de pavor... E o coração do pai mergulhou-se numa agonia “mais amarga do que a morte”. Fixou-lhe ainda um longo olhar de desesperação infinita... como se quisesse atingir-lhe, através dos olhos, os meandros mais remotos de sua memória, para que, através dos anos, ressuscitassem as lembranças antigas... — Noeme! — murmurou de novo, com infinita tristeza. Abalada por aquele olhar profundo, Noeme estremeceu... Aquela voz como que a ouvira já... Há muito tempo, em sua infância... Nas suas reminiscências remotas houve um sobressalto, fulgurou-lhe no espírito uma súbita intuição... E o olhar da filha iluminou-se, a fisionomia expandiu-se, e a expressão de felicidade que lhe transfigurou o semblante parecia dizer-lhe, como em outros tempos: — Oh! Eu te reconheço! És o meu paizinho!
Anoitecia. O comboio corria, rumoroso e em seu ímpeto selvagem era como um animal noturno, que exulta com a chegada das trevas. Sálvio, a filha e a netinha formavam um grupo silencioso no recanto de um vagão. Noeme, envolta em seu vexame, conservava-se quieta e humilde, com um vago receio de tudo e de todos. Sálvio também estava mudo. No isolamento em que vivera, desabituara-se do uso da palavra. Sua boca silenciara a vida toda, e ele apenas conversava com a filha em pensamento. Tinha-a agora definitivamente, mas seus lábios fechados como por um selo de chumbo, ainda nada conseguiam dizer. Suas almas, que se haviam aberto no instante do mútuo reconhecimento, não se comunicavam mais; isolaram-se de novo, concentradas em seus próprios sentimentos, fechadas, distantes... Ele queria agradar-lhe, falar-lhe, fazer planos de futuro, mostrar a melhoria de situação que a esperava, desejaria, forçando o próprio acabrunhamento, dizer-lhe ao menos frases triviais, que rompessem o silêncio penoso. Não o conseguia. Se queria a boca proferir alguma palavra, seus lábios, dolorosamente comprimidos, negavam-se a pronunciá-la. É que agora, vencidas tantas dificuldades, acalmada a exasperação da luta para reconquistá-la, volvia-lhe o senso da realidade, que momentaneamente lhe fugira e uma onda negra de desespero, lento e lento, voltava a senhorear-se de seu espírito. trEvas...
Levando consigo a filha, tinha a sensação de que a perdera irremissivelmente. Noeme era a outra, a doce visão do seu passado, o pequenino ser inocente que lhe aclarava a noite do espírito com um doce fulgor de aparição. E ela morrera como um sonho, dispersando-se nas brumas do passado, amortalhada em sua saudade. Sálvio vencera o destino... Mas que valia a vitória? Nela achava um amargo sabor de derrota. E, sombra a sombra, desciam de novo ao seu espírito os sentimentos tristes, como bandadas lúgubres de corvos, de grandes asas de luto, abatendo-se em longos giros sobre a presa inerte. Fora também a noite baixava, sombra a sombra, e, na tristeza universal das coisas, fazia estranho contraste a alegria selvagem do comboio, que era como uma grande besta noturna, que se compraz, com a chegada das trevas. Noeme, Noeme! Era ela aquele ente maculado, que acalentava nos braços uma criança? O pai a contemplava em doloroso espanto. Noeme, curva sob sua vergonha, continuava silenciosa. Temia o silêncio do pai. Sabia que em seu foro interior a estava julgando, e — ai dela! — entre todos os seus julgadores não encontrara uma alma compadecida. Certo momento a criança acordou chorando. Sentia frio. A mãe aconchegou-a mais contra si. Não tinha outro agasalho nem levava outra roupa a não ser os farrapos que vestia. A pequenina aquietou-se. E Noeme, vencida afinal pelo cansaço, acabou por adormecer também. A cabeça reclinou-lhe sobre o seio e mesmo a dormir sua postura era de humilhação e de vexame. Sálvio contemplava-a, trespassado de dor. Era, em verdade, aquele ser poluído, a pequenina toda inocente por quem se definhara de saudades, e que, quando ia sair, lhe repuxava o paletó com as mãozitas insistentes? Cravava-lhe obstinadamente os olhos, e, quanto mais lhos fitava no corpo adormecido, mais a mancha crescia, alastrava-se, tomando-a toda, como uma úlcera maligna. Fazia sobre si um grande esforço para que em seu espírito dominasse apenas a piedade; mas uma repulsa incoercível o impedia, afastando-o dela.
Parecia-lhe ouvir o riso escarninho dos fados maus: “Não terás Noeme... Sentirás o horror de não ter filha, tendo-a embora junto de ti...”. Antes houvesse morrido, que suportar esse martírio. E ele achava em seu novo sofrimento um sabor diverso de todos até então sentidos. Figurava-lhe cada sofrimento ter seu sabor próprio e todos os sabores eram atrozes. Ele era na vida como o único convidado de um banquete macabro, condenado a alimentar-se, como Fineu, das iguarias nauseabundas temperadas pelas Harpias. O último prato requintava no horrível. E, tendo acordo de que o trem corria, Sálvio perguntava-se: “Para que viajar tanto? O mundo é em toda a parte igual para o desespero. Em qualquer ponto pode este acampar, sendo inútil o dispêndio de tantas fadigas”. A desventura, aninhada no coração de ambos, ia com eles, veloz como o comboio, através das distâncias vencidas. A corrida na noite prosseguia rumorosa. Sálvio, oprimido pelo sofrimento, olhava desatento para fora. E os véus de sombras baixavam ainda na treva densa. Dentro das trevas havia trevas maiores, maciços de negrumes que não lembravam perfis de coisas conhecidas. Um velário negro cerrara sobre o céu uma abóbada de luto. Era como se todas as coisas fossem morrendo, envoltas em amplo sudário negro. Apenas, única parcela de mundo que ainda subsistia, via-se um recanto do céu ao longe, muito ao longe, iluminado pelo bruxuleio de um luar agônico, de um verde de gangrena. Naquela pequenina nesga de céu longínquo, que aos poucos se velava também, recortava-se um minúsculo perfil de palmeira, entre raras estrelas tristes. E nos confins do horizonte, aquele pequenino recanto de céu, era como a última despedida da vida distante, a imagem esvanecente da última esperança e quase uma recordação do que já foi. Sálvio, para fugir à obsessão invencível, murmurava surdamente, como se repetisse com desesperado fervor as palavras de uma prece: “É a carne de minha carne, o sangue de meu sangue...”.
E o galope sem tréguas rompia o seio da noite. Agora, galgando um aclive, a locomotiva arquejava, borbotando um repuxo de faíscas, que se desnastravam sobre o comboio, envolvendo-o numa coma ígnea. Feria o olhar de Sálvio o oblíquo perpassar das faúlhas, estriando o negror das trevas; via-as como miríades de salamandras de fogo curvetear em dança doida e se extinguirem. Cada qual era como agitada pela passageira alegria de uma vida breve; umas persistiam mais, outras menos tempo e todas alfim apagavam-se; havia-as que tracejavam no espaço uma curva louca, indo morrer ao alto; outras, mais vivazes, esteiravam o chão de uma semeadura de pontos ardentes, que logo se consumiam. E era como se as trevas, dilaceradas pelo efêmero meteoro, galopassem em rolo negro ao encalço do comboio, refazendo o rasgão de luz que se lhe abria no espesso luto. E a máquina, exausta, em resfôlego penoso, violentando o seio da noite com seu estridor e seu clarão, borbotava, como o jato de inextinguível fogo de artifício, novos turbilhões, que sem cessar renovavam a juba ígnea, envolvendo o comboio num chuveiro ardente. E Sálvio meditou: Quem ao longe observasse o comboio, notaria apenas um clarão e o clarão pareceria cada noite o mesmo, como uma coisa que perdurasse idêntica a si própria. Aos olhos desse, a vida agitada das fagulhas era uma calma claridade que passava ao fundo da noite e que ao outro dia tornaria a passar. Todavia, instante a instante, já não era a mesma a juba de fogo, nem a aurora Da rEssurrEição
as mesmas as faíscas, embora persistisse a revolver-se no espaço o seu bulcão de ouro. E Sálvio disse consigo que a humanidade era aquele clarão, e faísca a vida atormentada dos humanos. Uma e outra tinham aqueles curveteios breves, que ora tracejavam para o alto uma espira louca, e ora iam acabar no chão... A vida era a dolorosa convulsão das salamandras efêmeras. E, semelhante aos borrões de sombra no encalço do comboio, iam os rolos negros da morte em pós do meteoro fugidio, na trajetória do tempo, refazendo os rasgões de seu severo dó. E Sálvio achou a vida vã, o homem vão e o mundo vão. Por que tanta inquietação, tanta luta e aflição d’alma, na existência breve do “bicho da terra tão pequeno”? Eram desnecessários tantos soluços, anátemas, blasfêmias, traições, anseios impossíveis, angústias sopitas, iras devastadoras, a amargurar o trânsito da pequenina salamandra fugace. Não pela culpa dos homens e sim pela sua ignorância. Procurando saber tanta coisa, descuravam-se de aprender a viver. Postos em organização social em que não podiam ser bons, embora o desejassem, porfiavam, numa falsa compreensão das coisas, em torturar-se uns aos outros. Ignorância, rotina, erro nefasto... Condenando Noeme, a pobre filha que vivera sem viver, ele pensava como os outros, acompanhava a sugestão das ideias elaboradas pela razão do homem medíocre. Devia vê-la por si, julgá-la à luz da sua razão, repelindo a influência das ideias feitas, que eram a resultante grosseira de raciocínios de cérebros espessos, rudimentares, de inteligências em ser. E agora ele não via que ela fosse mais maculada do que as consciências que se arvoravam em juízes. Dissera-o Cristo, à multidão, em defesa da pecadora: “Quem se sentir sem nódoa, atire a primeira pedra”. E a onda humana estacou, pois todos se sentiram infames... Ela era, certo, composta, em seus elementos mais puros, de homens pacíficos, que venciam pela astúcia receando empregar a força, de ricos honestos, cujos tesouros eram a cristalização das lágrimas dos necessitados, de esposas fiéis, que não tiveram o ensejo de pecar... Aos olhos de Sálvio, a humanidade não era mais que um sórdido mostruário de vilezas.
Lançada a semente à terra — meditou ele —, se esta for generosa, o gérmen desenvolve-se, rebenta em haste, frondeja em árvore, floresce e frutifica. Ele deitara ao chão da vida aquela semente preciosa — a filha, e dela fizeram uma árvore de miséria que fruteou em lágrimas e desonra. É que, adubado de torpeza, o solo era maldito, esvurmando a seiva corrupta com que se elaboram as abominações. Se em verdade era a vida os sete círculos da dor, também era os sete círculos da opressão iníqua, do crime impune, da perfídia vitoriosa... Círculos ascendentes, em espiras gigantescas, torrejando em monumento sinistro de apoteose da Corrupção e do Mal. E instantaneamente, assim refletindo, viu cair todas as barreiras que o separavam da filha. No coração do pai viçava agora unicamente a piedade. Noeme não era culpada e sim uma vítima. E, enquanto contemplava a filha adormecida, humilde mesmo em seu sono, com a cabeça reclinada sobre o peito e achegando de seus andrajos a filhinha, como que para aquecê-la com o calor de seus braços e de seu seio, que era todo o agasalho que sua penúria lhe poderia dar, a flor da piedade vicejou maravilhosamente, tomou-lhe todo o âmbito do coração, que parecia prestes a romper-se... Reviveu então o passado da filha, imaginando como ele devera ter sido, em seu desconforto e abandono. Seu esforço obstinado, o sacrifício obscuro de toda a sua vida, foram inúteis, não concederam a Noeme o sorriso de um instante. Em benefício de estranhos lutara até a exaustão física e moral. Somente agora, pela primeira vez, lhe valia, não por um ato deliberado, mas em consequência de um impulso irreflexivo do desespero. Que longa e triste lhe devera ter corrido a infância! Não sentir reclinado sobre si o desvelo do coração dos pais, palpitante de cuidados e pródigo de carinhos, em suas moléstias e desventuras, invejando os outros que os possuíam... Tanto confiara nele! Dissera-lho o seu olhar de doentezinha, quando o reconhecera, convalescendo do sarampo... Esperara que ele voltasse. Esperara-o talvez longos anos. E depois a esperança amorteceu-se. “Meu pai esqueceu-me”, dissera consigo. E, com o tempo
a esperança fanou-se e esqueceu-o também. E assim cresceu, entre seres indiferentes e hostis. Em sua nubilidade a Natureza, mãe afetuosa, baixara até ela e ornara-a com as graças da mocidade. E então os seres indiferentes e hostis sorriram-lhe falsamente e macularam a sua pureza. E quando a falta não se pôde encobrir, foi a expulsão impiedosa e a filha arrancada de seus braços... Era uma vida truncada, falha. Oh! ele devia ter compreendido o sonho pressago em que a vira, através de duzentas léguas, estender-lhe os bracinhos, implorando socorro. Deveria ter adivinhado tudo! Fora imprevidente e demasiado confiante. Para resgatar a própria falta acariciou um momento a ideia da vingança... Mas da vingança ainda poderia resultar a separação. Tornaria a perder Noeme. Agora que reouvera o seu tesouro, devia coser-se avaramente com ele, fugir, escondê-lo e nada mais... Nesse momento sentiu ao ombro uma leve pressão. Era a cabeça da filha adormecida, que se reclinara contra ele. Oh, que ânsia mal sopitada lhe veio de abraçá-la, de acariciá-la delirantemente, beijar-lhe os olhos, os cabelos, chamando-lhe os mais carinhosos nomes! Mas, receando acordá-la, ficou imóvel, retendo a respiração, no recanto obscuro do vagão, enquanto os arrebatava através da noite o ímpeto alucinado do comboio...
Cerrara-se de todo o velário negro do céu. O comboio, resfolegante, trepidava num planalto. O olhar, que não encontrava ao longe pontos de referência, no empastamento uniforme das trevas, pressagiadoras de tempestade, tinha a ilusão de que ele se conservava imóvel. O céu e a terra morreram. Era como se o único remanescente das vidas e das coisas se tivesse ilhado no interior daquele carro, iluminado pelos vasquejos mortiços de uma lâmpada de gás. E parecia que toda a felicidade do universo morto se tivesse ido refugiar ali, num recanto do vagão, no coração do velho pai. Aquele momento ia ficar indelevelmente gravado na memória de Sálvio, como um momento de felicidade absoluta. Ao evocá-lo, ia rever sempre as trevas, o bruxuleio da lâmpada, e sentir aquela trepidação ruidosa, parecendo-lhe ter ainda contra o ombro a suave pressão da cabeça adorada. Era Noeme! sua filha! — repetia-se. E ele, imóvel, sem ânimo de fazer o menor gesto, contemplava-lhe as feições adormecidas e concentrava-se a ouvir o brando sopro de sua respiração... Era um êxtase religioso em que sua alma, como o corpo, também se imobilizara. Oh, ele desejaria que o mundo se detivesse eternamente, naquele momento, para não findar a emoção incomparável! o momEnto Da fEliciDaDE
Quando Noeme abriu os olhos, pintou-se neles a surpresa. Olhou em torno, viu o pai, e, então, tendo acordo da realidade, seus olhos surpresos baixaram-se, exprimindo vexame e temor. Sálvio reteve-a contra si, cingindo-a brandamente, e, levantando-lhe o rosto, osculou-lhe a fronte. Noeme fitou-o de novo, e desta vez seus olhos exprimiam uma surpresa feliz. Era verdade que tinha um pai que a amava, e que estava consigo a filhinha que lhe tomaram? — Minha Noeme... minha filha... — murmurou Sálvio. E desde esse momento reaprendeu a falar. E enquanto na noite prosseguia a fuga rumorosa do comboio, Sálvio desoprimiu-se da confidência há tantos anos recalcada: “Desejaria que ela soubesse quanto a amava!”. E a esse momento a alma aliviou-se-lhe, fazendo-lhe longamente a narração do seu passado, em todos os seus dolorosos transes. Fez-lhe sentir a melancolia dos longos anos envoltos em sombra funérea, a infinita saudade na amargura do desterro, a áspera luta contra a terra e contra a sorte, para fazê-la feliz. Cada ato seu, cada um de seus pensamentos, fora uma dádiva completa de seu ser à filha abandonada. Narrou-lhe a agonia mortal de seus sonhos, nada lhe esqueceu dizer do que lhe fizesse compreender que sua vida era totalmente, exclusivamente dela. E, enquanto falava, estreitava-a contra si, como para ter bem viva a sensação da posse e evitar que lha tomassem de novo. A filha ouvia-o, presa de suas palavras, e, na expressão com que o fixava, liam-se a revezes, o pesar de saber-lhe os padecimentos o DEsPErtar
e o júbilo de ter sido tão amada. Cada frase proferida era novo elo unindo alma a alma. Noeme perto do pai já não se sentia ré em face do julgador; sentia-se filha. E, na doçura dessa sensação, nunca sentida, aconchegava-se mais contra ele, fazendo-se pequenina, tendo a impressão de ser a criança cuja imagem adorada Sálvio conservava no mais puro relicário da memória. Chamou-lhe pela primeira vez “papai”. E, seu rosto, iluminado pela ventura, assumira uma expressão de contentamento infantil. Sálvio, com a alma túmida de paternidade, encontrava nesse sentimento a violência e a doçura de uma paixão. Quando se calavam, continuava no silêncio a comunicação das almas, multiplicando os vínculos do afeto. Às vezes, Sálvio dizia: “Fala-me, Noeme... Deixa-me ouvir a tua voz... Fala-me ainda... ainda...”. O momento da felicidade prolongava-se e não findaria mais. Sálvio, todo de seu sentimento, não tinha mais acordo da realidade exterior. Não sentia os solavancos do trem, cuja corrida louca prosseguia, nem o retroar do temporal. Esboçou-se enfim no horizonte o primeiro albor azulado da manhã nascente. No caos negro em que tudo jazia, recomeçou de novo a separação entre o céu e a terra, entre a luz e a sombra, como nos dias da criação. Depois da morte do universo da angústia sem limites, ressurgia o mundo novo, de paz e de ventura incomparáveis. A essa hora, sentindo frio, a criança vagiu. Noeme chegou-a ao seio, aquecendo-a com o calor de seu corpo, que só esse era o agasalho que lhe podia dar. Ela também tiritava. — Sente frio? — perguntou-lhe o pai. Acenou que sim. Sálvio relanceou em torno. Lembrou-se, porém, de que nada tinha para a agasalhar. Então estreitou-a mais contra si, como ela fizera com a criança. Os três pareciam fazer um único ser. E, reclinada contra o pai, que lhe acariciava as pálpebras cansadas, fazendo-se pequenina, como uma criança aninhada no regaço materno, Noeme readormeceu.
A cidade pouco se alterara com o passar dos anos; por isso, a chácara era ainda num ermo agreste, na grande praça deserta, onde as paineiras se alteavam, majestosas e vetustas, voltadas em meditação para o infinito. Mas agora, aquela melancolia de arrabalde, onde a sombra das grandes árvores eram como a condensação das saudades de Sálvio, não despertava pensamentos tristes na alma do venturoso pai. Em sua vida alvorecia. Havia uma doçura de amanhecer nas próprias sombras noturnas, que dantes, espessadas com suas tristezas, eram tão mais sombrias! Com que alegria começou a reconstruir sua casinha em ruínas! Aprumavam-se as paredes, brancas de cal, sorria a tinta fresca nos portais. O que pudesse, Sálvio fazia com suas próprias mãos, dispensando o auxílio de profissionais. Seu desterro fora-lhe um aprendizado de todos os ofícios rudes... Dir-se-ia um noivo preparando o seu ninho de amor, mas não haveria noivado tão cheio de venturas! A casinha, assim pequena e clara, emboscada entre festões de videiras, lembrava, em verdade, um ninho entre a folhagem. E que fazia ser pequena! Havia em seu âmbito espaço bastante para a felicidade residir. Porque a felicidade não é como a dor, que, quando borbota de uma alma, o mundo é pequeno para espraiar-se; deem-lhe um raio de sol, a graça de uns pâmpanos e um recanto de paz, que é tudo quanto pede... Falte-lhe ainda isto, e ela a PrimavEra voltou...
se aninhará no pequenino espaço de um coração, que lhe parecerá imenso como o universo, porque ela traz todo o universo condensado em si. Ninguém suspeitava o que ia de ventura na “tapera do velho louco”. Mesmo alindada, conservava no bairro a denominação que designava a um tempo a ruína da moradia e a do morador. Fora talvez para a velar, recatando-a dos motejos do vulgo, que as videiras, vegetando em assomos vigorosos, porfiaram em desdobrar-se em pâmpanos, recobrindo-lhe as paredes. De seu surto indisciplinado Sálvio conservara o que aumentava o pitoresco da vivenda. As janelas e portais emolduravam-se em folhas verdes; “saborosas” carnudas debruavam-lhe o telhado; e, metendo-se de colaboração, o melão-de-são-caetano recobria-lhe largos panos de paredes, com sanefas de folhagens entremeadas de ásperos frutos amarelos. Noeme sentia-se feliz e achava o mundo completo, estando entre a filhinha e o pai. Cada dia os numerosos elos que cria a vida em comum tornavam-lhes mais suave a convivência. As relações com estranhos eram escassas; mas a repulsa instintiva que inspirava o velho, atenuava-se, porque sua fisionomia iluminara-se; procurava os vizinhos, mostrando-se-lhes afável; e os próprios pequenitos, de quem era o espantalho, tomavam-lhe amizade, porque lhes dava frutos do pomar. Sálvio tornara-se outro. Seu espírito já não se projetava longe, sempre ausente do lugar e do momento atual; sua felicidade, tinha-a agora ali, ao alcance da mão, na hora presente e nos limites de seu pequenino lar. Nem lhe faltava saúde. Talvez pelo efeito tônico da alegria, aligeiraram-se-lhe os anos e a enfermidade esquecia; e a lembrança dos sofrimentos idos, o recordar a miséria nel tempo felice, requintava, pelo contraste, sua incomparável ventura. Não o preocupava mais a avareza da terra, que continuava a regatear-lhe as colheitas mesquinhas, pois, vivendo com simplicidade, sem as exorbitantes exigências do ex-provedor, tinham o
suficiente para passar. E dava-se ao trabalho com renovado ardor, na esperança de que a terra, afinal reconciliada com ele, se desentranhasse em abundantes messes. Todos os dias, despedindo-se de Noeme com um saudoso “até logo”, saía de casa e acompanhava os enxadeiros até o eito, a orientar-lhe o serviço e auxiliá-los. E a breve separação custava-lhe. Exigia-lhe o esforço preciso para afastar um corpo grave do centro de atração. Enquanto podia, volvia o olhar, pousando-o no querido ninho que se distanciava. Perdido de vista, era como se a desolação caísse em tudo o que seus olhos alcançavam. Não podia afastar-se muito tempo. Os mínimos pretextos faziam-no tornar a casa. Faltando-lhe aqueles, tornava do mesmo modo... Chegava anelante, com um ar atarefado, e procurava a filha. Se não a visse logo, chamava: “Noeme!”. Ela deixava o que estivesse a fazer, indo ter com o pai. Sorrindo, fixava-o interrogativamente, como perguntando por que a chamara. E ele desconcertava-se, não sabia o que dizer; por fim, sorrindo, confessava: “Nada... Era só vontade de te ver, filhinha”. Ela mostrava-se contente de ser assim amada; e Sálvio, tomando-lhe a cabeça entre as mãos, beijava-lhe a fronte. “Já aplaquei minha sede, dizia... Agora, torno à tarefa”. E, venturoso, partia de novo, a cuidar da lavoura. Às vezes, estivesse o tempo firme e o sol não causticasse muito, Sálvio levava-a consigo. Escolhia uma sombra de arvoredo perto da lavoura, onde deixava a filha e a netinha. Para não estar ociosa, Noeme levava a cesta de costuras; e quando a criança se aquietava, sua agulha ia ponteando agasalhos para a pequenina ou meias de lã para o pai. Nesses dias não havia pretextos bastante fortes que fizessem Sálvio tornar a casa. Com frequência Noeme levantava os olhos do trabalho e volvia-os cuidadosos ao pai, receando para sua saúde a canícula, o cansaço... A qualquer momento que lhos volvesse, era certo encontrar os dele a contemplá-la. Não só a contemplar: a adorá-la... Noeme, ao abrigo daquela sombra, figurava, aos olhos do pai, uma das antigas divindades agrestes, com que os lavradores
povoavam os seus ermos, a fim de não se sentirem ali tão sós. E um fruto saboroso que se lhe deparasse, ou uma bela flor ou avença, ia levá-los, singelas oferendas, propiciatórias, à divindade de seu culto. E Sálvio dizia-lhe: “Quantas vezes, filha minha, no lugar em que te encontras, meus olhos viam um vazio doloroso, o mesmo vazio que eu notava em todo o circuito deste vasto horizonte!”. Malgrado sua felicidade atual, ele se entristecia. Todas as coisas ficaram tão impregnadas de seus sofrimentos, que nela restava ainda um obscuro resíduo de melancolia. Sofria retrospectivamente... Certa vez, conduziu-a dali a um ponto mais alto, donde lhe apontou um sítio distante. — Vês, Noeme, além, aquela depressão? Nela erguia-se, há anos, uma montanha de granito. Como escasseasse a pedra muitas léguas em torno, turmas de cavouqueiros, numerosos e pequenos como formigas, ali trabalhavam do nascer ao pôr do dia. A espaços, uma detonação surda atroava nas entranhas da rocha; e um eco doloroso e longo, como o lamento de um gigante, soluçava muito tempo, de encosta em encosta. Hora a hora, o gigante ferido reboava novos brados de dor... A cada detonação desprendiam-se moles de pedra e o formigueiro fervilhava, apossando-se dos destroços da explosão. Passava-se o ano nessa faina incansável e a montanha de pedra era ainda a mesma. Novos anos volviam-se e a obra de destruição fazia-se apenas perceptível... E essa lentidão acabrunhava-me, dando-me a sensação da pequenez da vida para a realização das obras colossais... e porque encontrava não sei que analogias entre aquela montanha e minha dor infinita. Tinha como o pressentimento de que o arrasamento da pedreira era o relógio que marcava o tempo da separação, o tempo em que eu te deveria reconquistar... Oh, lentidão desesperadora a dos ponteiros desse relógio implacável... E que melancolia imensa a das horas sem-número que ecoavam gementes, de quebrada em quebrada... Enfim, o colosso de pedra nivelou-se... O formigueiro humano retirou-se, levando em carretadas as últimas lascas do rochedo. E meu desespero, ao contrário, avolumando-se, era a mais alta montanha que
o céu via... E foi então que, num ímpeto de loucura, fiz num dia o que aqueles homens fizeram em anos... Soou a hora da felicidade... Parti e reconquistei-te, minha filha! Noeme ouvia, rasos os olhos de pranto... Havia, assim, em tudo, um testemunho de seu passado infeliz. Agasalhava-se uma sombra em cada árvore, em cada acidente do terreno. Mas essas sombras tristes iam-se aos poucos desprendendo das coisas, como as névoas noturnas à luz do dia nascente. À tarde, saindo a empregada que auxiliava na casa, admitida com relutância de Noeme, que queria tudo fazer, saíam a passeio, permitindo-o o tempo, pelas cercanias da cidade. Procuravam de preferência as estradas desertas, cuja paz bucólica não quebrava o ritmo de sua harmonia interior. Ora calavam, contemplando o poente congesto de luz, espalmando no céu faixas suavemente coloridas, espetáculo que era novo para eles, como se até então os olhos introvertidos para o sofrimento não tivessem dado acordo da realidade exterior; ora se falavam, e o silêncio da tardinha dava às suas frases a ressonância e como a profunda significação das palavras de uma prece. Assim em comunhão com a natureza, sentiam maior a comunhão das almas. Sálvio, em seus passeios, mostrava-lhe, onde as visse, as testemunhas do seu desespero e a cada confidência era maior a aproximação de ambos. Uma vez dissera-lhe: “Uma das ideias que mais me martirizavam em meu desterro era o receio de morrer sem que conhecesses a teu pai. Eu devia ocultar-me dos homens, mas desejaria que soubesses que havia num lugar remoto um pensamento absorvido em ti, um coração que não tinha outra palpitação, que não fosse seu transbordante amor por ti. Não me conformava com a ideia de que, olhando o mundo em volta, te sentisses só. Por isso, a ideia de acabar incutia-me horror. Mesmo na morte há felicidade e desventura... Se morresse hoje, não me desse cuidados o deixar-te só, eu acharia na morte uma suavidade infinita... É que afinal meu coração se desoprimiu de seu grande pesadelo”. A pompa do poente ia esmaecendo em azul e cinza. Baixava a melancolia do crepúsculo e com ela se acentuava o resíduo de tristeza
remanescente nas coisas. Mas era uma tristeza benfazeja, porque inclinava-lhes mais fortemente os corações à piedade e à ternura. Noeme ouvia lacrimosa a narração do que sofrera o pai e Sálvio comovia-se à evocação dos sofrimentos ignorados de Noeme. Se um cavaleiro os cruzava e a criança confrangia-se de medo, ou se o relento da noite punha Noeme cuidadosa pela saúde da filha, o que os fazia abreviar o passeio, Sálvio lembrava-se de que em sua infância Noeme não tivera um afeto a que pedisse proteção nem a solicitude de um coração materno, zelando carinhosamente pela sua saúde. Outras tardes, se não podiam sair, sentavam-se ao portão que dava para o largo. Turmas de crianças ainda animavam a quietude do arrabalde. E Sálvio dizia à filha: “Quantas vezes meus olhos não contemplavam a tua figura ausente, entre as crianças das outras gerações que brincavam neste mesmo lugar e que já são hoje homens-feitos ou mães de família... Quantas vezes, ao cantarem, em roda, de mãos dadas, eu não prestava atenção senão a uma voz de criança que ali faltava... E a mim me parecia ouvir, nesse vácuo de som, a tua voz distante e triste, a chamar por mim!”. A noite, passavam-na a sós, no pequenino lar. Que suavidade a de seu querido conchego, cuja quietação era embalada pelo estalidar da lenha no fogão e pelo cricrilar dos grilos em redor da casinha! Seroavam na modesta saleta de jantar; e enquanto Noeme se entretinha com seus infindáveis trabalhos de lã, ou consertava as roupas do pai, conversavam tranquilamente, abaixando a voz, para não acordarem a pequenita, que dormitava ao lado da mãe numa caminha improvisada, a chuchurrear a chupeta. Mas a pequenita não dormitava sempre: às vezes intervinha na palestra, reclamando a atenção para sua minúscula pessoa. Para a verem satisfeita, era indispensável que lhe dessem a chupar o ovo de madeira da cesta de costuras, ou que o avô a pusesse nos joelhos e “conversasse” com ela, fazendo-a rir... Olhando-a, Sálvio dizia a Noeme: “Como se parece contigo, quando eras pequenina!”.
Em certo momento Noeme aproveitava o repouso da filha, e ia tirar o que quer que fosse na gaveta da cômoda; e, ocultando as mãos nas costas, perguntava: “Adivinhe o que é, meu pai...”. Sálvio sorria-se. Bem sabia que era a cartilha. Chegara a hora da lição... E um tanto vexada de começar a aprender tão tarde, Noeme sentava-se conchegadinha ao pai, na mesma banqueta em que este costumava ficar. Encostava-lhe a cabeça ao ombro, e auxiliada por ele, ia decompondo as palavras em sílabas e as sílabas em letras... Num desses momentos, Sálvio dissera-lhe um dia, acariciando-lhe os cabelos: “Quantas vezes, longe de ti, quando eras pequenina, não desejei ser eu quem te ensinasse a ler! Realizou-se meu desejo... Quando estás junto de mim, estudando a cartilha, vejo-te ainda criança... Parece-me que estamos a reviver nosso passado... Nossa vida recomeça do ponto em que nos separamos. Tornamos a essa encruzilhada depois de haver errado em atalhos dolorosos e agora nada nos separará”. Gostava de vê-la assim, através dessa ilusão, sempre criança, como a figurinha radiosa que dia e noite vivera em seu espírito, operando-se desse modo a identidade entre a Noeme do passado e a Noeme atual... Como adorava o seu riso claro e infantil, que lhe cavava covinhas nas faces, quando ele lhe fazia uma de suas habituais surpresas! Às vezes, chegando da cidade, entregava-lhe um embrulho, dizendo-lhe muito sério: “Trouxe-te esta lembrança...”. Noeme, tomando a dádiva, mirava-a, curiosa, desdava o nó do atilho, abria o invólucro... Uma caixeta. Que conteria? Erguia a tampa: “Uma boneca!”. Ela ria-se, dizendo: “Vou guardá-la, para quando a filhinha crescer...”. Assim dizia, mas às vezes o pai surpreendia-a, quando se julgava só, enlevada com a boneca, fazendo-a abrir e fechar os olhos... Havia também serões em que a agulha se cansava de pontear sapatinhos e toucas e entretinha-se a fazer vistosos vestidinhos para a boneca. “Quando a filhinha crescer já o enxoval está pronto”, explicava. Mas seria também para o prazer de seus próprios olhos e como um disfarçado modo de brincar também... Porventura lembrava-se da inveja com que vira outrora, em mãos de outras crianças, bonecas bonitas como aquela...
Sempre trazia-lhe os bolsos cheios de balas e outras guloseimas, que ela recebia com satisfação infantil, exclamando: “Oh, que bom paizinho eu tenho!”. E um dia a satisfação culminou, a uma nova surpresa: dentro de uma caixeta, uma boneca viva, que miava e arranhava o papelão para fugir. Um gatinho, para empelotar-se-lhe ao colo, servir de brinco à filhinha e postar-se ao fogão, a contemplar, ronronando, com os olhos jalde, as labaredas serpenteantes e assustá-los um poucochinho, com as suas correrias noturnas. Era mais uma nota de “lar” que trazia à antiga tapera... Noeme logo o apelidou “Mimi”, como o gatinho da lição do dia antecedente. O coração de Sálvio exultava com as expressões de ingênua alegria da filha. Entretanto, essa ventura ia despertar-lhe n’alma uma melancolia. É que, não estava em seu poder influir no passado de Noeme, fazê-la reviver aqueles anos perdidos, amparada a ele. Bem compreendia que cada um de nós é uma sucessão de pessoas que se revezam no tempo. Em cada época da vida somos diferentes do que éramos na época anterior. A carne muda-se, as ideias transformam-se, evoluem os sentimentos. É um incessante morrer e renascer, dando-nos, pela lentidão com que se operam, a ilusão de uma continuidade. Como herdam os filhos as tendências e os traços paternos, transmitem-se também, essas “pessoas” sucessivas, similitudes de forma e os sentimentos e ideias fundamentais. E ele desejaria fazer feliz não só aquela Noeme do presente, mas a todas as Noemes do passado... O seu anseio de infinito amor queria que estivessem ali em torno dele as Noemes todas, de todas as idades, trêfegas e ridentes, e a chamar-lhe “paizinho”, tão numerosas, que não poderia cingir a todas, como um feixe humano, no mesmo abraço... Oh, não poder o passado voltar! A tristeza ensombrava-lhe o espírito. Era porém uma nuvem efêmera. Bastava fitar a filha e instantaneamente todas as Noemes se fundiam naquele doce ser, que lhe sorria com meiguice. Muitas vezes, naqueles serões em que as almas se comunicavam estreitamente fundidas na mesma profunda afeição, vendo Noeme entretida a acalentar a criança, com a paciência infinita que a natureza só dá
às mães, ou a esmerar-se a alindar os vestidinhos com que embonecava a filha, Sálvio descerrava a penumbra triste do passado longínquo e evocava a esposa morta. E dizia a Noeme: “És para a menina como Leila era contigo. Parece-me que a vejo ainda, inclinada sobre teu berço, cantando cantigas de embalar, ou absorta a enfeitar teus vestidinhos”. Mostrou-lhe um dia sua relíquia querida, a roupinha vermelha que tantas vezes vira em sonhos. E a Noeme marejaram-lhe os olhos, da alegria de sentir-se integrar em sua família, no passado e da tristeza de não ter conhecido a mãe. Já tarde, Noeme lembrava ao pai que devia repousar. Acomodada a filhinha, ia a seu quarto preparar a cama e ver se não faltava nada. Em seguida pedia-lhe a bênção e separavam-se, desejando-se boa-noite. Mas de seu quarto, que era contíguo, ainda Noeme ficava atenta, preocupada com o pai. Quando Sálvio a supunha adormecida, ela ainda perguntava se não sentia frio, se havia agasalhado bem os pés. Sálvio submetia-se docilmente a seus cuidados maternos, vendo o prazer de Noeme em dar-lhos. Às vezes, fazendo que dormia, ouvia ainda a filha conversar baixinho com a criança que espertara; depois a casa aquietava-se e no silêncio apenas se ouvia fora o cricrilar amortecido dos grilos e o tique-taque pausado do relógio da sala de jantar. Sálvio, habituado às longas insônias melancólicas, dormia pouco, por isso lamentava ser o dia tão breve e a noite tão longa de passar. Ter que estar só, tantas horas, ouvindo tantas vezes cantar os galos! Mas ainda encontrava prazer em escutar, do outro lado da parede, o brando ressonar da filha, ou em refletir no que poderia fazer no dia imediato, para lhe dar prazer. Noeme levantava-se alegre como um passarinho. Certo, ao despertar, tinha a sensação de sua liberdade. Ninguém estava ali para ralhar-lhe... Tagarelava com a pequenita, fazendo-a rir, e, em seguida, deixando-lhe a chupeta na boca, abria as janelas da casa, onde entrava a carícia da viração, coada com a luz matutina entre as cortinas de pâmpanos, e abelhava-se em pôr tudo em muita ordem, com exigência de zelosa dona de casa, satisfeita em ter, pela primeira vez, um lar seu.
Quando o pai aparecia, já encontrava no atoalhado novo da mesa, esperando-o, sua xícara ladeada de uma fatia de pão. Ela saudava-o risonha e corria à cozinha a buscar a cafeteira. Se o serviço desse folga, saiam após o café a dar uma volta pelo pátio das criações e pela horta, tirando os ovos nos ninhos e colhendo as verduras para o dia. Às vezes, nesses passeios, Noeme não se continha, que não exclamasse alegremente: “Como nós somos ricos, paizinho!”. As riquezas eram as novas arredadas de pintos, os coelhinhos ariscos que guinchavam da porta de suas tocas, reclamando a ração de couve, eram as ervilhas granadas, os repolhos que fechavam... “Eram ricos, sim, muito ricos”, concordava Sálvio, ouvindo-lhe enlevado o tintinar do riso claro, seu opulento tesouro de felicidade. Mas uma vez, num desses passeios habituais, um sentimento de saudade pungiu a Sálvio, que se postou pensativo diante de alguns palmos de chão conservados incultos, em um recanto da horta. “Minha filha”, disse ele, indicando o lugar, “aqui repousa o único amigo que tive em minha soledade. Era um cão. Apareceu-me um dia em casa e aqui ficou comigo, elegendo-me seu dono. Conservou-se-me fiel toda a sua curta vida. Morreu a meus pés, dando-me o seu derradeiro e magoado olhar, que exprimia a um tempo a tristeza de deixar a vida e a tristeza de deixar o dono... Fui-lhe ingrato, tolerei-o apenas, não lhe aceitando a afeição, que para meu desconsolo era como a piedade importuna dos que não nos podem remediar o mal... Por isso, na recordação que dele guardo, há um tanto de amargor, que é saudade e que também é remorso...”. Noeme ouvia-o comovida. A ambos, marejaram-se-lhe os olhos. Pouco tempo volvido, tornando ao mesmo sítio, Sálvio notou uma mudança: sobre a cova do cão, piedosa lembrança de Noeme, viçava em canteiro de violetas. Apraziam-se tanto naquele ermo povoado de afeto, que raro iam à cidade. Certo compreendiam também que a felicidade é planta melindrosa, cuja fragilidade ama o recolhimento, a sombra discreta, esquivando-se à aspereza do contato social. O próprio círculo de
suas relações, restringiram-no à amizade de algumas pessoas boas e simples. Quando, porém, sucedia saírem juntos para ir à missa ou fazer compras, Sálvio, observando disfarçadamente a filha, bem via quanto se sentia orgulhosa de ir assim a seu lado. Parecia dizer seu ar resplandecente de ventura: “Eu não sou só, tenho por mim meu paizinho, que me ama e me protege”. Sálvio procurava adivinhar o que pudesse dar-lhe prazer, para satisfazê-la. Adivinhar, sim, porque a filha mostrava-se contente com tudo, em sua nova existência, nada mais parecendo desejar. Em vão esperava que ela exprimisse um desejo, uma fantasia... E sua atitude reportada, sua perene docilidade entristeciam-no. Dizia consigo que a vida na opressão lhe mutilara a vontade; em pequenina veria sempre recalcados os ímpetos de voluntariedade e caprichos, com que os seres apenas entrados na existência afirmam a sua individualidade; abafando essa eclosão espontânea, habituaram-na à submissão e humildade... E lembravam ao pai esses moldes de bronze, com que os fazedores de monstros deformam as figuras humanas. Mas não! A consciência da liberdade avivava-se em Noeme cada vez mais. Sentindo-se filha, reconhecia-se senhora... Sua doce autoridade de dona de casa começaria a impor-se... Por isso, com um misto de timidez e de meiguice, dissera um dia: — Sabe, paizinho? acho nosso jardim tão pobre... Gostaria de que tivesse rosas, muitas rosas... Ele a ouviu jubiloso formular o modesto desejo. Pouco depois saiu. Demorou-se fora. Voltando a casa, sobraçava um feixe de ramas de roseiras. Plantou-as em torno da vivenda. E nesse dia e nos seguintes trouxe ainda novos feixes de varas. Confiava-as à terra com carinhoso cuidado, para que nenhuma deixasse de viçar. Desse-lhe vagas o serviço, lá estava a plantar com suas próprias mãos outras mudas ainda. Arcadinho, a cavar incansavelmente o chão, dava ares de monomaníaco... “Minha filha quer rosas, muitas rosas”, murmurava. E inclinado sobre a terra parecia sussurrar as palavras de misteriosa prece, dita com todo o fervor de coração.
Noeme, agradecida, batia as palmas, exclamando: “Que bom! Vamos ter tantas flores!”. Sálvio regava-as às tardes e pelas manhãs, não deixando haste alguma esquecida. Conhecia-as a todas uma a uma, como o avaro a seus vinténs e cada qual dava desvelos de quem houvesse confiado ao solo, em vez de plantas, suas mais mimosas esperanças. E, nos tempos que se seguiram, contemplando os ponteiros hirtos a crivarem o chão em hoste inumerável, impacientava-se, exprobrando-lhe a tardança em rebentar em festões de folhas e de flores. Mas quando as roseiras viçaram e veio a primavera, foi um lindo estendal de rosas em torno à casinhola. Como que as mudas todas, infiltradas do desejo de Sálvio, porfiavam em ofertar a Noeme as mais ricas dádivas de corolas. E as ramas em que se desdobravam semelhavam outros tantos braços a oferecer-lhe, às mãos cheias, seus primorosos dons. Como que no plantá-las se transfundira nelas a alma do velho pai, e fosse aquela florescência todo seu coração que se mostrava transfeito em flores e perfume. A casinha rústica era um batel de pâmpanos a vogar num mar de flores. E, Sálvio, à porta, tendo a seu lado a filha sorridente e feliz, dizia: — A primavera voltou, voltou contigo, Noeme... A aragem, arfando brandamente, envolvia-os em uma onda de fragrância. E Sálvio dizia: — Vê, minha filha — assim é que te quero... — O que as palavras não dizem, roguei à terra que o dissesse por mim; e a terra, ouvindo-me, descerrou o seio, desabrochando nesse mar de flores. Vê, minha filha! Assim é que te amo... com essa abundância... com essa profusão... A filha, reclinando a cabeça ao ombro de Sálvio, contemplava extasiada. E o velho louco, exultando, repetia: — A primavera voltou... A primavera voltou...
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