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Capítulo 3 · Arruar

Arruar - Parte III

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Consoante nós o entendemos hoje, farto de minudências, de informações, de intimidades mesmo, o jornal há cem anos atrás não existia. Bem entendido, nas suas colunas de matéria editorial. Porque nas seções pagas, embora sem ostensivo caráter de noticiário, poderemos conhecer, penetrando ou interpretando, a vida da cidade em seus modismos coevos, em seus episódios quotidianos, em suas peculiaridades mais típicas. Se, como dissemos, a ação redacional se limitava rigorosamente aos artigos de fundo, aos atos da Presidência, às correspondências da Côrte e da Europa, num estilo retórico, massudo, formalístico, quase sempre, as solicitadas contrastavam num àvontade que ia às vêzes aos extremos do escândalo. Era nessas páginas feitas pelo balcão que a vida da cidade se refletia fielmente. Em um aviso, em uma reclamação, em um anúncio, em um edital, em uma mofina, depreendia-se muito aspecto do banal entrechoque das paixões, de interêsses multiformes dos habitantes, da veia satírica de uns e da vaidade excessiva de outros, da argúcia ou do bom humor de tantos. E, também, sabia-se dos acontecimentos mais palpitantes, sôbre os quais os redatores calavam indiferentemente. Haja vista a chegada do primeiro "barco de vapor" ao pôrto do Recife, que não mereceu uma linha. Quem quisesse saber do "momentoso fato", como diria um repórter atual, teria de ir à seção "Movimento do Pôrto" e nela encontraria a barca de vapor São Salvador modestamente metida entre os veleiros do costume. O Carnaval não era sequer registrado na sua passagem anual. Quando muito uma queixa contra bandos de molecas que brincavam o entrudo em pés de escada. Para se ter certeza de que havia interêsse por Morno é mister procurar os anúncios de máscaras "de

arame e de pano, com mola e cordão", dos teatros que proporcionavam "bailes mascarados" ou das mascaradas a cavalo tão em voga. Alerta rapaziada! O carnaval está nos batendo à porta e é preciso recebê-lo com os divertimentos do costume, permitidos em tal tempo. O grande grupo do ano passado vos convida a tratar dos arranjos com tempo; êle recebe em seu seio todos os máscaras que se lhe quiserem reunir para o passeio das ruas desta cidade e onde mais se quiser ir nos três dias de divertimentos cujo programa se há de anunciar. Adverte-se que só é permitido aos máscaras o uso de armas fingidas, de pau, papelão, etc. Haverá nos mesmos máscaras um grupo de cavaleiros para correr as cavalhadas burlescas, com músicas e foguetes, e para êstes fica aberta uma assinatura de 5$000, pagos ao receber o respectivo cartão, sem o qual não entrará máscara algum na lice, permitindo-se a cada assinante trazer um pajem, arlequim, bôbo, etc. Assina-se na rua do Queimado nº 15. Os senhores máscaras a pé que quiserem dançar na rua, terão música, mas serão sujeitos a um diretor. As próprias festividades religiosas, de tanta importância na quietude urbana, não faziam jus a uma local da imprensa. Procissões. saíam sem reportagens a respeito. Tinha-se delas conhecimento pelos convites das irmandades ou pelos avisos de que os moradores das ruas por onde transitasse o préstito deveriam varrê-las, sob pena de serem riscadas do itinerário. E note-se que a procissão, nesses dias distantes, se revestia de tanta atração que era comum anunciarem-se casas para alugar acentuando-se, como maior gabo, estarem situadas em "ruas onde passa procissão", ou, em síntese mais de nossos dias, "rua de procissão". A parte social, tão desenvolvida hoje, não teve espaço nas fôlhas de antigamente. Aniversários, casamentos, batizados, óbitos, não passavam de acontecimentos todo íntimos. Não transbordavam para a letra de fôrma, como assunto redacional. Em compensação, abundavam, nas solicitadas, quanto aos mortos, os versos, os tributos de saudade, os elogios póstumos, as nênias, quase sempre firmadas por um nome ou umas iniciais. Igualmente foi surgindo o costume de se felicitar alguém pela data natalícia ou evento feliz de intimidade, como exame feito em escola superior, nuns quadrinhos imitando cartão de visita com a ponta dobrada. Êstes cartõezinhos, por sinal, vieram a ter préstimo também para recados e queixas de amor... Foi em 1858 que o Diário de Pernambuco abriu uma coluna com êste título: BOM- DIA, e nela, a par de comentários irônicos ou veementes, de reclamações e críticas, não raro com certo humor, começaram a aparecer leves notícias de embarques ou chegadas, de uma festa religiosa ou profana, de um óbito, de um desastre. Tudo muito sóbrio, muito rápido. Era o ôvo do noticiário: BOM-DIA Meu amado leitor: o calor faz-nos comer poeira sem têrmos apetite estragado, e como não há de ser assim se os malditos tanoeiros ainda não aprontaram os encantados tonéis para a irrigação das praças e ruas? Valha-nos Deus! ___ Leitor, me responda. Um inspetor de quarteirão pode às desoras entrar por dentro de uma casa, tirar um pobre velho que o único crime que tinha era estar penteado, levá-lo à prisão onde se acha há quatro dias? Pois, nesta terra da-se dêstes e de outros gracejos. Na Rua Direita um pardo velho teve uma altercação com um pobre inocente, moço do reino, e palavras para cá, palavras para lá, chega o mais célebre de todos os inspetores que houve, que há e há de haver: o meu pobre velho, pio... meteu-se na toca e tudo estaria acabado se o desfrutabilíssimo inspetor não quisesse tocar sanfonas no apito... ___ Já tive meus frenesins pela Rua Augusta, mas logo que vi os escândalos que em algumas portas se praticam, com o maior desrespeito às famílias honestas, nem por lá mais dou meus passeios. ___ Uma escrava do Sr. Antônio Caldas da Silva, depois de estar amortalhada e aberta a cova, na igrejinha dos Remédios, a negra buliu, sacudiu e partiu. ___ Senhor meu de casaca, vosmecê o que quer espiando para essa casa na Rua das Flôres? Não arranja nada que as portas bem cedo se cerram e a vizinhança está alerta. Até amanhã. Em tópicos dêsse molde, em tôrno dos mais variados temas, inseriam-se pequenas notas sociais que aos poucos se foram amiudando e desenvolvendo com ares de um leve noticiário. Não tardou que se oferecesse outra coluna menos sêca: a do "Retrospecto Semanal", cujo nome diz bem da sua função. De fato, ali se registravam com umas tintas de comentário os casos mais importantes da hebdômada finda. Sòmente em 1859, ao aparecer, inaugurou o Jornal do Recife um noticiário mais ou menos desenvolvido e por vezes bem lançado, debaixo do título de "Gazetilha". Sente-se nêle já o faro do repórter que caça assuntos e os aproveita. A passagem dos Imperadores pelo Recife, nesse mesmo ano, já proporcionou àquela fôlha uma descrição interessante das homenagens que lhes foram prestadas. Da inauguração da "luz a gás" também há umas locais com saibo de crítica ao fracasso das primeiras experiências, muito singular para a imprensa de então. Contudo, as solicitadas persistiam em ser o verdadeiro panorama da cidade. Com um colorido, com um sabor, com uma particularidade indefiníveis. Não somente para quem pretenda se pôr a par dos pormenores da época, mercê de um horário de transporte, de um alerta de fuga de escravos, de uma postura municipal, de uma cobrança de impôsto, de um reclamo de modista, mas para quem aprecie o chiste de nossos avoengos. E êste, acentuemos, não escasseava nas publicações do gênero. Raro não fôsse redigido com verve, quando não malícia, o tópico inserido, mediante a paga de uma pataca. Em 1879 visitou-nos a Companhia Lírica Pansini. Conjunto famoso e repertório apreciado. Algumas óperas novas. Os anúncios da emprêsa, nos jornais, procuravam ser bem explícitos. A cada ópera, saía um resumo do enrêdo, com os intervalos entre um ato e outro, na ação da peça. Pretendia-se, assim, habilitar o espectador a acompanhar a representação bem orientado quanto à entrosagem dos atos. Foi, portanto,

num louvável propósito esclarecedor, que na noite da Traviata o anúncio dizia, num estilo um tanto ambíguo: Haverá entre cada ato um intervalo de nove meses. Todo o mundo compreendeu o verdadeiro sentido do aviso, é claro. Todavia, o humorismo e a malícia já se insinuavam nas cousas sérias. Um comentador gaiato apareceu nas "solicitadas" de um matutino apreciando as récitas da Lírica Pansini - porque a crítica teatral era matéria paga - e, quando se referiu à próxima noite da Traviata, aconselhou que, sendo tão prolongada a duração dos intervalos, conviria levar para o teatro travesseiros. Seria mesmo prudente, para se esperarem os 9 meses, a presença de "assistentes examinadas" para o que desse e viesse... Esse humorismo de "solicitadas" não se manifestava apenas em assuntos de teatro, não. Vejamos êste pedacinho relativo à troca de um guarda-chuva: Tendo-se trocado, seguramente por precipitação, um chapéu-de-sol de sêda novo, ficando em lugar dêle um velho, roga-se à pessoa inocente autora dêsse engano que por favor mande desfazer a troca no escritório do Dr. Antônio Vicente do Nascimento Feitosa, lugar em que se acha o velho chapéu-de-sol à espera do seu dono, a quem deseja guardar fidelidade até os últimos instantes de sua existência que está a finar-se. Em idêntico tom facêto era redigida esta outra reclamação: QUEM O ALHEIO VESTE NA PRAÇA O DESPE Pede-se encarecidamente à pessoa que, por engano, ou por esperteza, na noite de 9 do corrente, de um baile da Rua do Colégio, conduziu sem licença do seu dono um chapéu francês novo, e lhe deixara uma jaca velha, tenha a bondade de vir à Rua Larga do Rosário nº 33, buscar a sua velha jaca, trazendo o chapéu novo, porque se pensar bem, perde no negócio; a jaca tem de 6 a 8 libras de sebo e pode muito bem vender aos senhores fabricantes de velas - se não vier buscar a sua jaca vai para o leilão. O mais infeliz do baile. Essa infelicidade do reclamante é fácil de avaliar, dado o valor que as cartolas desfrutavam nesse tempo. Serviam até de esconderijo de flôres recebidas a furto pelos cavalheiros austeros, por ser feio ou indiscreto, trazê-Ias às mãos ou à lapela. Da alma dos anúncios ressumam os costumes e os preconceitos contemporâneos. Veja-se, por amostra, êste reclamo da Sapataria Paris-América: Temos gabinete reservado para as senhoras provarem o calçado com a decência desejada. Essa decência desejada trai o tempo das saias pelos pés e informa-nos a respeito

do hábito de as moças irem às lojas comprar sapatos, quebrando-se assim o de as famílias escolherem nos próprios domicílios os artigos de indumentária de que precisavam. Ia-se acabando o "fica feio uma senhora dirigir-se a um estabelecimento comercial para fazer compras". É bem verdade que se fazia acompanhar do marido, da mãe ou quando menos das filhas. Sòzinha, nunca! E que dizer dos anúncios em francês? Deliciosos. Uma engomadeira inseria o seu, nestes têrmos: On repasse le linge d'homme et de femme avec le plus grand soin - Fora-de-portas n.º 114 - Au dessus du Barbier. E não seria só a engomadeira. O fabricante de fósforos também se metia a parisiense: La personne qui faisait des phosphores a rue Imperial 65 demeure maintenant rue Formose en face au numero 3, à Boa-Vista. Elle ne les vend que 3$000 la grose. Êsse francês era peculiar ao tempo em que companhias de teatro representavam, nesse idioma, no Ginásio Campestre, do Poço, ou no Ginásio Dramático, do Monteiro, arrabaldes do Recife. Falava-se geralmente a língua dos parisienses nos palacetes e nos sobrados dos belos sítios, daqueles que tinham cachorros de louça nas colunas dos portões e caramanchões floridos ao pé dos muros para dêles se ver quem passava. Freqüentemente, entre avisos e anúncios, apareciam nas solicitadas ironias de infinita extensão maliciosa. Esta pode servir de símbolo ao gênero: A uma senhora pergunta um rapaz: - "Por que as moças usam agora uma flor nos cabelos, perto da testa?" E vem a resposta: - "Porque os rapazes de hoje que usam lunetas sem precisão, não vêem bem e a flor serve de aviso para que as beijem dela para baixo." Sentia-se o povo da época num à vontade em queixas, declarações, avisos, anúncios, denúncias, reclamações. Nada de solenidade. Às vêzes mangas de camisa. Pergunta-se a certo morador da Rua do Rangel em que país aprendeu a andar em fraldas de camisa pela casa, tendo a porta da rua aberta e, às vêzes, nesse traje sair à calçada... Modêlo hábil de se protestar contra êsses ensaios de nudismo. O reclamante nada teria hoje que perguntar após freqüentar as praias de banho. Pelo contrário. Do mesmo gênero esta outra : Adverte-se ao morador novo da Rua do Crêspo que nesta rua não é costume lançar-se água das janelas em baixo porque sendo esta rua muito pública pode causar danos e desastres como aconteceu um dia dêstes. Isto faz um paciente.

A cena é fácil de ser reconstituída. O paciente levara o banho inesperado e sem dúvida mal-cheiroso. O chapéu-côco, o redingote, as calças brancas, os borzeguins, tudo ficara inundado. E êle corre à redação, onde redige a sua pitoresca advertência. Uma pergunta dirigida a uma agência de companhia de navegação: Se o sr. Agente da Companhia de vapôres já sabia que o vapor Baiana devia consertar-se no norte por que anunciou que estaria no pôrto no dia 5? Também freqüentes avisos desta ordem: Avisa-se ao público que os carros de passeio Ns. 53 e 21 conduziram no dia 9 dêste mês cadáveres para o cemitério e pede-se ao mesmo público que prezando sua saúde não deve alugar tais carros. O humor das solicitadas de um século atrás manifestava-se principalmente nas cobranças de dívidas, que eram comuns. De quando em quando "chamava-se à lembrança" um devedor retardado ou relapso, ora com iniciais transparentes, ora com o nome por extenso. Roupas de alfaiates, gêneros de mercearias, dinheiro emprestado, aluguéis de casas, tudo vinha à baila em pedacinhos "gozados" . Dentre tantos não será inoportuno citar-se êste: Convida-se ao senhor de engenho... A. X. a mandar pagar ao alfaiate da cidade de Olinda a quantia de 11$300 do luto que mandou fazer em junho, sob pena de sair o nome por extenso. Mesmo que fôra de pai ou mãe, êsse luto deveria haver findado, pois decorrera mais de um ano quando. o convite veio à imprensa. Talvez nem a saudade existisse do morto. O dó, agora, pertencia ao credor, ótimo alfaiate que preparava trajos de luto por 11$300... As publicações das solicitadas de outrora tinham às vêzes, no seu tom vago, um quê de intrigante para os que as lêem hoje, despertando-nos desejos de conhecer melhor os motivos dos interêsses de seus autores. Esta, por exemplo: O Sr. que quer comprar a bengala dirija-se à casa de Francisca Xavier da Cunha atrás da Matriz da Boa Vista. Que teria de notável essa bengala? De unicórnio, como se usava tanto, ou com um belo castão de ouro? Bengala que pertencera porventura a uma figura famosa? Não menos curioso êste apêlo tão transbordante de ansiedade e indecisão: A sra. d. Libânia (se é a que faz roquetes de pregas) tenha a bondade de declarar melhor a casa em que mora, pois não tem sido possível achar-se na que anunciou detrás da Matriz de Santo Antônio nem mesmo na da Boa Vista.

A perícia dessa D. Libânia na sua arte está bem credenciada neste pedido de um dos seus fregueses. Ela ganhou, como se diria hoje, um bom cartaz, com a ânsia dos que a procuravam para dar-lhe encomendas de roquetes de pregas. De outro gênero o anúncio abaixo: A Sra. que se propõe a tomar crianças já desmamadas para acabar de criar, com todo carinho, mimo e amor, também recebe crianças que tiverem amas para se criar com leite. Temos aí um esbôço de creche do tempo antigo. Essa caridosa e anônima senhora, tão farta de "carinho, mimo e amor" pelos filhos alheios, deveria merecer os máximos elogios de seus contemporâneos, porque não faltava quem, à mingua de protetoras semelhantes, enjeitasse os seus meninos. Diziam até, então, que haviam encontrado na roda dos expostos duas crianças imprensadas e mortas, tal o açodamento com que as conduziram e as depuseram na famosa engrenagem encobridora dos frutos de amôres pecaminosos ou refúgio de mães desesperadas pelo abandono e pela miséria. Em 1836 Mr. Théard tinha sua casa de cabeleireiro, afreguesada e sem dúvida elegante. Parece que o aconselharam a mudar de prédio ou estava em moda os artistas daquele ramo se estabelecerem em pavimentos térreos ao invés de sobrados, como até agora. O fato é que o nosso Mr. Théard, marido de uma Madame Théard que fazia pregas em vestidos a 20 réis o côvado, veio pelos jornais anunciando o seguinte: Mr. Théard declara continuar por cima da loja do sr. Brandão na Rua do Cabugá, porque muitas pessoas que têm ido lá acham preferível cortar o cabelo num sobrado do que numa loja. Corte 320 réis. Na realidade não ficava nada bem àqueles austeros senhores de barbas corretamente aparadas, de sobrecasacas e cartolas, exporem-se às vistas dos transeuntes em uma cadeira de cabeleireiro, num atentado à compostura, à respeitabilidade. Pagavam a pataca, sim, porém com resguardo, Não se queira crer, para não cair em redondo engano, que nos meados do século passado os reclamos já não se aproveitassem de certo jeito humorístico, de evidente espirito de atração e curiosidade. Sabia-se já fazê-las de modo a despertar interêsse e provocar risos de agrado. Um vendedor de óculos, por exemplo, inseria esta amostra do gênero : Acudam: Acudam a inocência, gritava um pobre míope, que por afetação andava sem óculos, de braços abertos e olhos do céu, correndo pelas ruas para aparar um vestido de menina que, engomado, se tinha despregado de uma alta varanda, e vinha caindo à discrição do vento, à maneira de máquina, julgando ser uma criança que por descuido se tinha precipitado de alguma janela abaixo, até que os moleques o desenganaram pelos assobios e caçoadas que lhe fizeram. Eis ao que se expõem todos aquêles que, necessitando de óculos, andam sem

êles; se lê é perfeitamente um dicionário vivo de asneiras, se cumprimenta é ordinàriamente a quem não conhece, se anda na rua acontece-lhe destas e outras ratadas. É por isso que se lhe avisa que quem os quiser vá na Rua Larga do Rosário n.º 35 loja que os achará bons e baratos. Os anúncios de rádio de hoje não se mostram em absoluto superiores a êsse de 1855. E não deixaremos de oferecer outro modêlo não menos patenteador do engenho inventivo dos anunciantes que orientavam nossos avós nas suas compras e nos seus regalos. Uma sorveteria dos nossos tempos não teria a habilidade de dirigir aos moços da atualidade um convite semelhante ao que se segue: Pergunta: Pergunta-se à rapaziada se já se vão esquecendo de refrescar os intestinos com os belos sorvetes, pois alguns dias invernosos que têm aparecido não é motivo suficiente para entregá-los ao abandono; assim adverte-se novamente aos apaixonados dos mesmos a continuarem, ao contrário a febre amarela lhes tomará conta, e os mandarão em poucos dias para Santo Amaro, lugar sequíssimo. Rua Estreita do Rosário n.º 43. Agora, precisamos ver como as "novidades" de ontem voltam a ser "novidades" de hoje, mercê de uma invariável manifestação dos sentimentos dos homens europeus, os da guerra. Os séculos escoam-se e por lá os povos se entredevoram imperturbàvelmente. E os nomes de países, de regiões e cidades tornam à evidência, por fôrça de combates e carnificinas, influindo até nas modas. Nós, os que estamos vivendo êste meado do século XX, podemos avivá-lo bem em face dêstes dois expressivos reclamos: Criméia Chegou pelo último vapor da Europa uma fazenda inteiramente nova, gôsto escocês, tôda de sêda, denominada Criméia; pelo cômodo preço de 1$000 o côvado. Na loja da Rua do Queimado n.º 40. "Criméia". Sabem por quê? Pensam que a denominação provinha das belezas naturais dessa península do Mar Negro, de suas atividades agrícolas ou industriais, da doçura de seu clima ou da bondade de sua gente? Que nada! Era tão somente porque nessa época os russos se batiam com franceses, turcos, inglêses e piemonteses, morrendo milhares de soldados de parte a parte. Criméia estava na moda... E o outro, que também tinha a mesma cruenta origem: Sebastopol Chegou pelo paquête inglês uma fazenda inteiramente nova, tôda de sêda, campo acetinado, com quadros largos e de listas, o mais lindo possível, último gôsto de Paris, com o nome Sebastopol. Vende-se ùnicamente na loja da Rua do Queimado

n.º 40, pelo diminuto preço de 1$200 o côvado. Dão-se as amostras com penhor. Dos costumes do tempo, de que as gazetas nada nos diziam num comento editorial, vamos igualmente achar muitas informações nas solicitadas das fôlhas. Este aviso, por exemplo: Do dia 1.º de abril em diante haverão ônibus para a academia. Todos os dias de aula, sendo a partida do primeiro às 7 ½ da manhã e depois sucessivamente partirá um de meia em meia hora até às 11 horas; custa o bilhete de entrada 160 réis, adverte-se que pessoa alguma terá ingresso sem que entregue primeiro o bilhete ao boleeiro. Êste ano não há assinatura e os bilhetes de entrada vendem-se no escritório da Rua da Cadeia de Santo Antônio n.º 13. Êsse aviso como que desenha uma era da vida do estudante quando a Academia ainda funcionava em Olinda. Os ônibus para ali se destinavam e prestavam inestimável facilidade de condução aos moços que moravam no Recife. A passagem era barata, mas as precauções contra os calotes se faziam necessárias, e com estudantes não há que fiar ... Êsses mesmos rapazes eram convidados a fazer, em certa alfaiataria, "a sua casaca, o seu colête e a sua calça preta" porque "é chegada a quaresma". Não se admitia, então, aparecesse nas ruas, pela Semana Santa, a "bela rapaziada" sem êsses indumentos de acatamento à morte do Senhor. Da mesma época o edital da PERNAMBUCO STREET RAILWAY COMPANY - Aviso Desde as 3 horas da tarde de hoje, 28 do corrente, até meia noite de Sexta-feira Santa será suspenso o tráfego de tôdas as linhas desta Companhia. A meia-noite de 29 haverão carros de tôdas as linhas para conduzirem os passageiros. No sábado trabalharão os carros como de costume. Havia mesmo postura municipal nesse sentido: nas quintas e sextas-feiras santas nenhum veiculo trafegaria, salvo carro de médico e em missão de urgência. De uma emprêsa funerária saía macabra queixa. Costumavam retardar a retirada dos cadáveres das casas onde se davam os óbitos, e quando o faziam era em carros descobertos, a ponto de em plena ponte da Boa Vista haver caído na rua o corpo de uma donzela morta na Rua da Praia. De tom muito diferente êstes versinhos, que são um testemunho vivo de que a maledicência popular não é um produto dêste século: Meu vizinho, estou doente, Desmenti ontem um pé, Dei um trambolhão medonho Que quase fui na maré. Foi na ponte do Recife

"Mas, que grande bandalheira!" As coisas da nossa terra São tôdas de mamadeira. Nem tudo seria maldade nessas páginas das gazetas que custavam dois vinténs. Haveria também sentimentos nobres, ternuras, fé religiosa, votos de afeto e veementes ímpetos de coração. Não terá sido um dêles que motivou êste quadrinho publicado com destaque, entre ironia de uns e sagacidade de outros?

Quem não estará vendo um exemplar da gazeta, em que saiu esta confissão, sendo aninhado no misterioso escaninho de uma arca, entre um leque de plumas, um lenço de labirinto ainda perfumado e uma rosa vermelha quase murcha? Apres Dieu, vous! Cândida e sedutora eu a vi ontem a vez primeira e foi bastante sua sedução para sentir agitar-se no cibório profundo de meu coração um sentimento altíssono e veemente. La rose rouge.

Pernambuco foi a segunda região brasileira a experimentar sôbre seu solo o contacto do aço de trilhos e o frêmito de um trem em marcha. A concessão fôra dada em 26 de junho de 185,2 aos engenheiros Alfredo e Eduardo Mornay, mas, não obstante o apoio oferecido por Mauá à iniciativa, surgiram dificuldades, desistindo os empreiteiros e reclamando indenizações. Houve,. depois, um acôrdo, o govêrno imperial interveio, e afinal se constituiu a Companhia britânica, que construiria a estrada de ferro denominada Recife and São Francisco Railway Company ou, brasileiramente, Estrada de Ferro do Recife ao São Francisco. Conforme o nome estava indicando, dirigir-se-iam seus trilhos às margens do grande rio nordestino, atingindo a vila de Boa Vista. Posteriormente, modificou-se-lhe o traçado, mas a denominação primitiva perdurou, a ponto da própria estação inicial, no Recife, tornar-se conhecida por "São Francisco". Ficava situada no largo de Cinco Pontas, tendo sido levantada nos terrenos pertencentes à Emprêsa Locomotora Pernambucana, que ali tinha um barracão para guardar seus lastros de carga e uma cocheira para os burros que os puxavam. Dessa estação partiram durante muito tempo os trens de Garanhuns e Alagoas, e só deixou de ter préstimo quando a Great Western, arrendatária de tôdas as estradas de ferro que do Recife partem, resolveu reunir todos os serviços de passageiros e cargas na Estação Central, abandonando as do Brum e Cinco Pontas. . . Em 1856 saía no Diário de Pernambuco êste aviso: ESTRADA DE FERRO DO RECIFE AO SÃO FRANCISCO. Os diretores da Companhia da Estrada de Ferro do Recife ao São Francisco têm

feito a chamada da 2.a prestação de duas libras esterlinas sôbre cada ação da dita Companhia, a qual deverá ser paga até o dia 6 de julho de 1856, no Rio de Janeiro, em casa dos srs. Mauá Mac Gregor & C., na Baía em casa dos srs. S. Davenport & C. e em Pernambuco no escritório da Companhia. O acionista que não realizar o pagamento dentro do têrmo indicado poderá perder o direito todo às ações, sôbre as quais o dito pagamento não tiver sido efetuado, e em todo caso terá de pagar juros pelo tempo que decorrer entre o dia indicado para o pagamento e a sua realização. Recife, 14 de maio de 1856. Por ordem dos diretores S. P. VERCKER Tesoureiro Decerto a cidade acompanhou com bastante interêsse as obras de construção da via férrea, primeira a ser instalada na província e segunda do pais. Quando os trilhos se assentaram e da Alfândega saíram locomotivas e vagões, as experiências terão feito muita gente acorrer ao espetáculo surpreendente e inédito. Até que a 9 de fevereiro de 1858 correram os trens de horário, abriu-se ao gôzo público o notável melhoramento. Era o início da avançada rápida pelo interior, dispensando-se o cavalo, o carro, a rêde. A princípio, apenas se chegava ao Cabo. E essa vila, o comboio inaugural a atingira, entre festas. Hora e meia de viagem. Uma maravilha! Parava-se em Afogados, Prazeres, Pontezinha, Ilha. Ainda Boa Viagem não merecera estação; sem dúvida porque sua linda praia não tivesse fama. Nem os banhos de mar a conseguiam nesse tempo. Preferiam-se os de rio. A comêço, dois trens diários em cada direção. Do Recife para o Cabo, às 9 da manhã e às 5 da tarde. Do Cabo para a capital, 7 da manhã e 3 da tarde. Eram os do horário publicado. As passagens de 1.a classe custavam, entre os pontos extremos da linha inaugurada, 4$000. De 2.a e 3.a (que também havia), respectivamente, 3$ e 1$500. Os bilhetes de ida e volta, "dentro de 24 horas ou 48 se nelas se compreenderem domingos e feriados de guarda", custariam 6$ 4$500 e 2$260 :para as três diversas classes. Eram intransferíveis e pedia-se aos passageiros trouxessem dinheiro miúdo para a compra dos seus bilhetes, pois o trôco andava vasqueiro. Ir-se ao Cabo virou moda. Nenhum outro. "entretenimento " se comparava ao dessa excursão num cômodo banco de carruagem puxada por locomotiva possante, vendo-se pela janelinha canaviais e cajueiros, praias e coqueirais, mangues e colinas. Nos cercados dos engenhos o gado repousava debaixo dos dendêzeiros e gameleiras; o carro de engenho cantava levando canas; a casa-grande enfeitava-se de crótons e palmeiras; as moendas espalhavam o cheiro doce do caldo... Bonito mesmo! E o trem a correr... E a máquina a apitar... E o povo do mato ao longo da linha de olhos compridos ou assustados para a carreira da composição! Era uma pena quando se chegava! Tão depressa! A imprensa, embora com sobriedade, elogiava êsses passeios:. "Belo passeio pela rapidez e pela paisagem." E comentava-se: "Quem diria que se chegaria lá em 90 minutos!" E a afluência aumentava de domingo a domingo. Reservavam-se aos sábados para. mais de 300 lugares no hotel. E não davam para quem queria. O Grande Hotel do Cabo anunciava-se nestes têrmos:

GRANDE HOTEL DO CABO No Grande Hotel do Cabo acharão as admiradores do bom gôsto tôdas as comodidades precisas para bem passar-se a tempo naquela amável vila, uma bela e grande casa com bastantes salas e quartos, para grandes famílias, decentes e abundantes iguarias, belo banho, ótimo jardim, uma banda de música militar encherá o intervalo dos mais divertimentos. O vapor nos domingos e dias santos partirá desta cidade às 7 horas em ponto e voltará às 5 da tarde. Qualquer pessoa ou família que quiser ali pernoitar achará tôdas as precisas comodidades para bem passar. Nada têm poupado os proprietários do dito estabelecimento para bem agradarem às pessoas que o queiram freqüentar. Os bilhetes do hotel do Cabo serão vendidos nesta cidade na Rua Estreita do Rosário n.º 11, e assim como as passagens pana o vapor, isto é, aos sábados às 8 horas da noite e nos dias santificados na véspera às mesmas horas; o preço do hotel nos domingos e dias santos cada pessoa, almôço e Jantar 6$000, mesa redonda, sem bebida alguma, e para famílias o que se convencionar; também encontrará a boa rapaziada solvete feito de belas frutas sendo êste último separado da quantia marcada para o jantar e almôço, ao preço de 500 réis por cada um, nos dias semanários as pessoas que freqüentarem o hotel pagarão na razão do que gastarem. Êste anúncio, por todos os aspectos curioso, como que ilustra a época da inauguração do trem para o Cabo. Dá-nos o cenário da vila, no tempo. Note-se a inteligência do reclamo, o sentido de facilitar aquisição prévia de bilhetes para as refeições em combinação com as passagens do "vapor", o preço da comida, afora o interêsse do "solvete de belas frutas" para a mocidade, a cinco tostões cada um. E o anúncio do Grande Hotel surtia bem seus efeitos. A ponto de haver domingos em que muitos "turistas" voltaram com fome por não poder a única hospedaria da terra atendê-los. "Chuparam o dedo", como dizia um comentador. Tiveram os menos infelizes de apelar para os tabuleiros de bolos e de mindubis e para os caldos de cana, enganando os estômagos. Essa crise de refeições agravou-se, ao que parece, forçando os donos do Grande Hotel a estabelecer e publicar êste pitoresco Regulamento: " Art. 1 - É proibido a tôda e qualquer pessoa o ingresso neste estabelecimento sem que para isso tenha um bilhete, o qual será rubricado pelo proprietário cujo bilhete terá o número igual ao da cadeira. Art. 2 - A hora da comida será anunciada por um foguete de bomba real. Art. 3 - No almôço terá sólido e meia garrafa de vinho para cada pessoa, bem como chá, café, bolachinhas, manteiga e queijo. No jantar haverá carne de vaca, presuntos, galinhas, perus, guisados de diferentes modos, e de vinho será a mesma quantidade da do almôço, para sobremesa queijo, doce, e frutas, que conforme o tempo se puder arranjar. Art. 4 - Ninguém poderá ter ingresso nas salas de comida sem primeiro dar ao porteiro o seu competente bilhete. Art. 5 - As pessoas que não tiverem bilhetes só serão admitidas se porventura houver lugar e caso não haja ficarão para a segunda mesa (já se sabe pagando). Art. 6 - A bebida que qualquer pessoa quiser além da marcada acima tanto na hora da comida como depois pagará o que fôr de razão.

Art. 7 - Para as famílias haverão salas preparadas bem como comidas. Art. 8 - Os bilhetes estarão expostos à venda até as 8 horas da noite de tôdas as sextas-feiras. Art. único - O presente Regulamento será cumprido somente nos dias de domingo e santificados; nos demais será por um ajuste convencional. Não menos expressivo como espelho da movimentação social que teve o Cabo nesse meado do século XIX é êsse Regulamento. Zelava êle, antes do mais, pela boa ordem de seus serviços de mesa; a fim de evitar queixas e desgostos, sem dúvida provocados anteriormente pelo esgotamento das provisões. Por outro lado, enchenos a bôca d'água com a amostra dos pratos de que constavam seus menus, proporcionados por preços tão convidativos: 6$000 almôço e jantar. O art. 2 é de um sabor especial: aquela bomba real a anunciar a hora das refeições. Hoje, seria uma sirena. Por sua vez o art. 7 reflete o recato das famílias de outrora: não lhes ficava bem sentarem-se à mesa comum de um restaurante. Requeriam salas particulares. Evitavamse, assim, os namoros das sinhàzinhas.. O Cabo continuava a ser um motivo de sensação na vida da cidade. Um cronista mundano escrevia: Depois de três meses de estação calmos a e dos encantos do Monteiro, do Poço e do Apipucos, reabre-se o teatro Santa Isabel e o passeio ao Cabo da estrada de ferro constitui a atração dos recifenses. O teatro reiniciava sua atividade com o drama A Loucas ou o Castelo das 7 Tôrres, diga-se de passagem. Um ano após a inauguração do trem, visitam o Recife os imperadores D. Pedro II e D. Teresa Cristina, pela primeira vez. Em três ocasiões os imperantes vão ao Cabo. A 1.º de dezembro, saem de Palácio às 6 horas da manhã, tomam o trem na estação de Cinco Pontas e com 37 minutos de viagem atingem o Cabo. Ali, enquanto a Imperatriz descansa, entre as senhoras da vila, o espôso percorre a linha em construção para a Escada. Almoça e vai ver as oficinas. E regressa. No dia 10, porém, transporta-se novamente, no trem, ao Cabo. Agora é a visita oficial à povoação. Chega solenemente lá às 7 horas. Desembarca num pavilhão especialmente construído pela municipalidade, e ali recebe "as chaves da cidade ", como era de praxe. Debaixo de pálio vai até à Matriz, onde se· celebra um Te-Deum. Mas vale a pena transcrever do Monitor das Famílias êste pedacinho: Ali [no pavilhão] achava-se reunida a mesma câmara, o clero da vila, as autoridades judiciárias, e vários oficiais da guarda-nacional em grande uniforme e numerosas pessoas de distinção da comarca. Ao sair do carro foi S.M. vitoriado com vivas estrepitosos e ao som: do hino imperial, que era tocado pela música militar de artilharia da guarda nacional do Recife. E ouviu-se então o discurso oficial, com a entrega da chave da cidade. Assinavamno o Presidente da Câmara, Inácio Barros Barreto, e os vereadores Manuel Camilo Pires Falcão, José Paulo do Rêgo Barreto, José Joaquim do Rêgo Barros, Francisco Alves de Miranda Varejão, Joaquim Pedro Patriota e Francisco Ferreira de Barros Campelo. Pedro II responde: "Muito agradeço as felicitações que me acaba de fazer a Câmara Municipal desta Cidade." Findo o Te Deum, o Imperador pede um relatório completo do estado do município, com indicação das providências a adotar em seu benefício. Examina os livros da Cadeia e nota a falta dos têrmos de visita; indaga se o júri se reúne com regularidade; do carcereiro, quantos presos há. Vai ao quartel e nota que as armas não se acham bem limpas. Entra na igreja de Santo Amaro e na do Rosário dos Pretos. Atinge o extremo da vila, e acha-a pequena. E para a sua importância, como cabeça de comarca de 130 engenhos, produzindo 600 arrôbas de açúcar por ano,. pensa que se deveriam ter levado a efeito obras de mais progresso, ali. Não deixou de ir à aula pública, e argüiu os alunos em Aritmética e Leitura. Quer ver o local de um antigo fortim holandês, e encontra apenas ruínas. Por fim, recolhe-se para almoçar. Na casa preparada especialmente para acolher S. Majestade, "tôdas as salas e câmeras forradas de lindos papéis e tapetadas, mobiliadas com luxo e decência", há beija-mão. Almoça-se com solenidade. Em seguida, entrega de petições; D. Pedro II oferta um conto de réis em favor do restabelecimento do cemitério da vila; mais 500 para esmolas e 300$000 para as obras de conservação da igreja dos pretos. A tardinha, regresso ao Recife, depois do Presidente da Câmara haver afirmado que D. Pedro era o "mais patriota dos monarcas existentes". Ainda a 21 de dezembro o Imperador dirige-se ao Cabo e dali, a cavalo, visita a Escada. Como se vê, o trem de São Francisco foi bastantemente honrado pelos soberanos brasileiros. E a vila do Cabo também. A população fartou-se de ver e de admirar aquêle casal tão simples e tão bom, possivelmente decepcionada de que não correspondesse à idéia extraordinária e pomposa que fazia dos reis. Mas o trem não iria parar no Cabo, é claro. Bastaria, como glória, para a posteridade, a gravura de Carls em que se vê uma composição da estrada de ferro ao chegar àquela povoação com ares de novidade e de orgulho. O prestígio do melhoramento iria favorecer outros núcleos humanos do interior pernambucano. Trabalhava-se "a galope" na remoção de terras, no levantamento de aterros, no lançamento de pontes, na abertura de um túnel, enfim no prolongamento dos trilhos. Visava-se, agora, a segunda etapa que alcançaria Escada. Tinha-se pressa, e a emprêsa pedia braços: haveria serviço todos os dias, ainda que chovesse. Salário de 4 patacas. Gratificações a quem arrebanhasse trabalhadores. Em 1862 já se punha em tráfego a 3.a seção: no dia da inauguração as chuvas bloquearam o trem oficial em Frecheiras. Dali não se mexeu a máquina. Em compensação, nesse mesmo ano, a 6 de setembro, ia-se a Água Preta e mais um pulo chegava-se a Una. Então a sorte favoreceu à vontade essa Una, que depois se chamou Palmares. Ponta de trilhos, veio a cidade a ser movimentado ponto inicial dos ativos serviços do prolongamento para Garanhuns. No Recife, ainda a primeira estrada de ferro da Província dava que falar e inspirava até os poetas populares: A estrada de ferro Foi feita com muito risco Para embarcar os rapazes Do Recife ao São Francisco.

E os carregadores de pianos, tão em voga, também cantavam: Zomba, minha nêga, Zomba, meu sinhô, Quem quisé se embarcá, Trem de ferro já chegou. O Grande Hotel do Cabo, entretanto, anulara o seu pitoresco Regulamento. É provável. Tornara-se inútil à falta da concorrência antiga. Os passageiros do trem, agora, passavam, sem se mexer dos bancos. Olhavam a vila pelas janelinhas dos vagões. A Matriz, o casario, os arvoredos, a estação. Para quê mais? Ia-se a outros destinos. Tampouco o trem era mais cousa que chamasse a atenção. Vulgarizara-se. Transporte rápido e cômodo, sim, porém banal. O próprio morador de engenho, quando estava no roçado, já não estacava o trabalho nem se escorava à enxada, como dantes, para acompanhar com os olhos o trem que passava correndo, apitando, a fumaçar, até se esconder por trás do canavial mais próximo...

A princípio terá sido o clangor guerreiro do boré, a cadência apelativa do uai, o chocalhar propício do maracá, o compasso ritual das poracés, convites de amor ou ímpetos da desforra, banquetes em que o inimigo fôsse devorado ao estímulo atordoante do cauim. Ritmos de tangapemas, de uiraparás, de cocares, de corpos nus. Nesse tempo, pròpriamente o Recife não existia. Tudo por aqui era ainda o imenso lagamar, as raízes revêssas dos mangues, os rompimentos capilares dos rios, e, mal contendo-os, o parapeito estranho do arrecife à espera do seu prestígio para possibilitar um núcleo humano e dar-lhe nome. E quando êsse sonho se objetivara, a música que se faria ouvir logo terá sido não a das cordas retesas dos arcos, nem a dos assobios arrepiados das ubás, mas a das violas nostálgicas dos marujos trazidos pela ventura ou a cobiça em naus ou caravelas bastante andejas nas percorridas de muitas outras águas e muitas outras plagas. Aferradas as quilhas ao remanso do rio, as violas plangiam nos conveses, unindo almas e vozes na nostalgia de canções que, familiares ao Tejo ou ao Minho, foram ouvidas nas ínsulas das especiarias e transitaram aos mundos novos do pau-de-tinta. Sem dúvida, ensejo houvera de se repetir no chão aluvional do "povo do Arrecife" aquela festa descrita pela pena de Caminha, num consórcio de harmonias dos instrumentos rudes da indiada com as charamelas, os tamborins e as gaitas dos lusos, em danças e cantos. E da freqüência dêsses folguedos, que hoje classificariam de manifestações de cordialidade internacional, brotariam, conseqüentemente, dos ventres túmidos das cunhãs, os primeiros mestiços, cujas toadas viriam pouco a pouco a ser diferentes. Os pescadores por ali fixados em tetos de palha, adestrados na arte de navegar nas jangadas indígenas, iriam, de envolta com os marujos e os trapicheiros, transformar os motivos musicais e a própria forma dos instrumentos em que as harmonias se expressavam. A guitarra, a viola, viriam a ser o violão. E para o violão do mameluco não mais a constante de uma saudade de terra para êle longínqua e desconhecida. Agora, a modinha para cantar tropicalmente o desejo, o ciúme, a ternura, o desprêzo... A modinha era a mulher, tão esquiva e mesmo tão rara. Exaltava-se-lhe o reflexo do cabelo, o moreno do pigmento, o flexuosidade dos quadris, o mistério dos seios, a provocação dos olhos, a doçura da bôca. Mulheres!... Até as "erradas" serviam... A música religiosa, cultivada pelo interesse catequizador dos jesuítas, procuraria neutralizar êsse sensualismo, através da beleza mística das ladainhas, dos autos, dos hinos, dos cânticos nas novenas dos padroeiros. Autos e danças permitir-se-iam dentro dos templos, consoante a êles ainda aludia o francês Tollenare, nosso hóspede do começo do século XIX. Como bom observador, Tollenare andara pelas nossas "festas de igreja" e vira as de Nossa Senhora do Monte ou da Saúde, uma em Olinda, outra no Poço da Panela, em que as "negras mais bonitas", ricamente vestidas sem abandono dos tipos dos seus trajes habituais, cobertas de correntões, brincos e braceletes de ouro maciço, os dedos cheios de anéis, vendem por conta dos senhores, que as aparamentam assim, fitas chamadas medidas, bentas ou santificadas pelo contacto

da imagem milagrosa. Anteriormente à presença do francês das Notas Dominicais dançava-se a noite inteira dentro das próprias naves, defronte da capela-mor, conforme se fizera até pouco tempo antes na de São Gonçalo, de Olinda. Mas os cônegos haviam já proibido tais danças como "indecência indigna do templo de Deus". Seriam os autos de temas religiosos de que mais tarde brotariam os presepes públicos, tão famosos ainda há uns 30 anos. E se a censura eclesiástica os afugentou do recinto sagrado, assim teria agido mais pelos abusos da assistência que pela inconveniência do espetáculo. Assim, as danças, já de cunho profano e, por sinal, lascivo, passaram aos pátios das igrejas ornamentados de bandeirinhas e galhardetes, com seus coretos de música, suas barraquinhas de guloseimas, seus atrativos de arraial. Ali, Tollenare assistiria então a danças - que descreve - ao som de reduzida orquestra e com uns passos de simbolismo sexual. Era porventura um misto de influência ameríndia e africana, mesclada, por sua vez, à avidez concupiscente do luso. Porque já três longos séculos houvessem decorrido dos constantes desembarques nas praias do Arrecife de magotes de negros, no esvaziamento dos porões de "tumbeiros", para um ensaio da vida do cativeiro em plagas sul-americanas. Conta-se que êsses negros, ao avistarem a terra de destino, expressavam sua alegria pelo término da angustiosa travessia marítima, com o explodir de cânticos e de danças nos conveses dos navios negreiros. Êsses cantos e êsses passos êles iriam, mais tarde, reproduzir, numa forma estranha de desafôgo, de consôlo, de nostalgia, nos cercados dos engenhos, nos copiares dos sítios, nos quintais dos palacetes, traduzidos no lundu, no batuque, no samba. O sincretismo religioso já os conduzia a festejar assim, de mistura com os seus ídolos, os nossos santos católicos. E dêste modo, fôsse culto sobrenatural, fôsse explosão sensual, fôsse alívio de sofrimento, os atabaques rufavam, os ganzás agitavam-se, as palmas estralavam, os assobios zuniam, enquanto o pés iam traçando a rota monótona de um enleio ou os corpos se chocavam nas umbigadas. Nas cidades, as congadas expressariam por seu turno as antigas cerimônias reais das tribos africanas, ali evocadas por quantos, outrora, fizeram parte dessas côrtes. Alguns como figuras de soberanos, de príncipes, de "gente do Paço". Teresa Rainha, bela e altiva, teria sido uma dessas soberanas que perderam a coroa para ser escravas, mas nunca se curvaram, nunca perderam a majestade do porte e das maneiras. Os cortejos da eleição e coroação nos reis do Congo eram a viva recordação dessas épocas de poder e de grandeza cujo ocaso a cobiça do negreiro provocara. Pouco a pouco êsse cunho de solenidade transitaria para a carnavalesca ilusão do maracatu... O maracatu viria a ser, para os negros, o derivativo transitório da decepção da senzala, o pretexto para cingir a coroa, vestir o manto, empunhar o cetro, ouvir de novo o maracá e o atabaque, entoar o canto avoengo, abrigar-se à umbela vermelha, alçar acima dos brancos a "boneca" fetiche. Já era um esquivo prazer êsse de vingar-se dos senhores com a representação de um antigo fausto. Como deixaria de sê-lo, quando o lundu perdera um pouco seu sabor lascivo para tomar em terra brasileira um tom irônico, por sinal bem dos mestiços aqui nascidos? Branco diz que negro bebe, Bravô, sinhàzinha! Negro bebe agoniado.

Quando negro vai à venda, Bravô, sinhàzinha! Acha copo já moiado... Não roubariam, no entanto, aos lábios dos "brancos" a definição pejorativa: "danças e cantigas de negros". As bôcas satíricas haviam esquecido cantigas com que as mães pretas embalavam as criancinhas de pele alva ou das que os velhos pretos entoavam para os ouvidos dos meninos já taludos, que dêles tanto gostavam. O preconceito quase desenraizável de motejo, de inferioridade, de repúdio ao tocador de violão, teria nascido dessas noitadas dos pátios de engenho ou de frente de mocambos, nas horas de lazer, nos onomásticos, nas botadas, nos dias outros de festas que sobravam das casas-grandes para os "pombais negros". Não obstante o desdém, o próprio lundu de origem tão equivoca, tornado tão sardônico, lograra penetrar ambientes mais altos, ameigando-se em formas de amor, de ternura e até de leve malícia. Pereira da Costa cita vários dêsses matizes: Um baú de quatro palmos, Já de cheio não o fecho, De presentes de amôres Coisas de cair o queixo. Lenços, toalhas, Cartas e flôres, Cabelos e tranças, Coisas de amôres. Ou êste de alusão ao trenzinho suburbano crismado de maxambomba: Trepei na bomba, Comi pitomba, Sacudi os caroços Na maxambomba. Moça nenhuma Me faça tromba, Que eu as embarco Na maxambomba. Canções de variados gêneros, mas tôdas muito populares, atravessaram os séculos XVIII e chegaram ainda ao comêço do atual. Delas nos recordamos nos versos e nas músicas, ouvindo-as ainda, embora de raro, de uma bôca que já não se pode gabar de primaveril. Quem não evoca particularmente a toada do Marcha, soldado, cabeça de papel...

ou, então, aquela quadrinha, também muito cantada, e pitoresca, do Sinhá Miquelina, Com você não quero graça: Por sua causa Meu marido sentou praça. Versinhos que refletem a época temível do recrutamento para as guerras dos primeiros anos da nacionalidade, se não as da antiga colônia , Ao lado dessa quadrinha, as de outro motivo, como as de embalo: Bãobalalão, Sr. Capitão, Em terra de mouro Morreu seu irmão... E a Maria Cachucha : Maria Cachucha, Com quem dormes tu? Durmo sòzinha Sem mêdo nenhum. Ainda recordaremos as cantigas de roda A moda da carranquinha, Bota aqui o teu pèzinho, Diga, senhora viúva, Caranguejo não é peixe... Canções que vinham de longe, muito longe, e mantinham-se em voga. Por volta de 1901, num presepe em Afogados, no entusiasmo dos meus 16 anos, aplaudi a mais não poder uma "libertina" que entoava êstes versos bem conhecidos e com uma música melodiosa : Eu tenho, mamãe, eu tenho Saudade que não tem fim; No tempo em que eu era pobre, Mamãe, eu dizia assim. Eu tenho, mamãe, eu tenho Saudades de Maceió; No tempo em que eu era pobre, Mamãe, eu andava só. Eu tenho, mamãe, eu tenho Um vestido de cetim

Que os estudantes me deram No passeio do jardim. Mas, incontestàvelmente, a modinha foi o gênero que, vindo do povo, aristocratizou-se e predominou. Por muito intensa que fôsse a prevenção contra os violeiros, a modinha, separando-se da chula, da embolada, do desafio, subiu ao salão. E ali, onde o violão não entrava, recorreu ao auxílio nobre do cravo. A sinhàzinha ou a sinhábranca, abstraindo-se um pouco da romanza, dignou-se de cantá-la. Um auditório mais jovem tolerou-a e aplaudiu-a, pôsto que os mais velhos a achassem impertinente, grosseira, imoral... A modinha, contudo, triunfara... Ao menos como um desabafo de amor dos que penavam em virtude da oposição paterna nos tempos de tremendos obstáculos: o do nome, o da tez, o do cabelo... E quando o piano apareceu... Minha Nossa Senhora, o piano! Que audaz revolução vinha no seu sonoro bôjo! O piano!... A princípio era raríssimo; só em teto privilegiado. Convites aos íntimos para irem vê-lo e ouvi-lo. "Madame" tinha chegado da Europa e lá aprendera a tocá-lo. Maravilha! Sonho! Um instrumento completo em casa. Os noturnos, as sonatas, os romances mais afamados na história da música eram interpretados pelas mãos fidalgas das mulheres que habitavam os palacetes do Poço, da Madalena, de Ponte de Uchoa. As fantasias sôbre as óperas mais aplaudidas no Santa Isabel também se faziam apreciadas: a Norma, os Puritanos, a Traviata, o Elixir de Amor, o Trovador, a Favorita... Os pianos, porém, foram aumentando de número, na cidade, Saíam da Alfândega às dúzias e vendiam-se rápido. Agora, de muitas casas e vários bairros os seus sons se espalhavam ao premir de dedos hábeis ou dos que ainda corriam escalas ou já tocavam o Eu vi uma baratinha No cangote de vovô... Os anúncios dos jornais ofereciam pianos e até davam dêles sugestivos desenhos.

Os pianofortes de Brunn Praeger & C., na Rua da Cruz, 10, eram feitos por encomenda. A era do piano foi também a do maior triunfo para a modinha. Os poetas românticos emprestavam seus versos a essa modalidade musical. E as moças, não menos eivadas: de romantismo, as cantavam. Exemplares de modinhas famosas vendiam-se a 500 réis, e nas fôlhas vinham, num clichê de fundo negro, trechos das melodias e da letra. Os nomes dessas modinhas falavam por si: Meu primeiro beijo, Alta noite, oh! que silêncio!, Quer o fado, quer sorte, Ao lado de Lília, esta talvez a mais predileta de uma época, porque assaz gabada : Ao lado de Lília Jurei meus dias findar; Só nela é que existe amor, Só Lilia me sabe amar. Essa Lília seria, no fulgor da idade de nossos avós, a mesma mulher perfeita que é a Amélia dos sambas atuais. - "A mulher de verdade" - diz-se hoje. - "O anjo dos meus sonhos" - dir-se-ia então. A modinha de tal prestígio gozava que um dia apareceu êste singular pedido no jornal: Compra-se ou aluga-se, para copiar, a modinha Consumido de saudades, pagandose bem. Adverte-se ser para ir para fora da província. Quem tiver anuncie. Como que compreendemos, a tão larga distância, essa consumição de saudades

de uma alma talvez forçada por circunstâncias valiosas a sair de Pernambuco, a deixar o Recife, para ela, como para nós, a única terra do mundo para se nascer, viver, morrer... A modinha maliciosa também se fazia cantar assim: Dá-me, dá-me, Iaiàzinha, Quero tudo possuir: Teus encantos, teus carinhos, Tudo mais quanto eu pedir. Dá-me, dá-me, Iaiàzinha, Dá-me tudo que eu careço: Vida, amor, prazer, repouso, Tudo em ti, se te mereço. Dá-me, dá-me, Iaiàzinha, Dá-me enfim o teu chá forte, Bem docinho, bem quentinho, Sempre, sempre, até a morte. Dá-me, dá-me, Iaiàzinha, Nada além juro querer, Cafunés depois do chá, Para ledo adormecer... Provàvelmente êsses versos seriam cantados em alusão à moda do chá, que não seria vendido apenas nas boticas como remédio. Os inglêses estavam emprestandolhe um consumo de regalo, e êle ia se introduzindo nos hábitos recifenses. O chá da índia substituía as "ceias de garfo". Não cairia depressa o apogeu da modinha. Os últimos anos do século XIX testemunharam-no à vontade. Os grandes poetas dessa época marcante na nossa literatura viram seus versos assim musicados. Não apenas o já por si tão melódico Casimiro de Abreu, mas também o arrebatado Castro Alves. Que o digam as vozes que entoaram o Gondoleiro do Amor. E o século XX rompeu sem se desvalorizar a modinha. Ainda havia estudantes que eram apenas estudantes para cantá-las do alto das janelas das "repúblicas" ou em serenatas pelas ruas e arrabaldes. Não raro, igualmente, pela esteira luminosa do rio, em botes, percorrendo trechos onde se erguiam sobrados de azulejos com velhas varandas de sotéias em que moças apareciam para escutá-los, Modinhas de autores anônimos tantas delas, mas que andaram em tôdas as gargantas: Acorda, que a noite é bela, Quisera amar-te, mas não posso, Elvira, Bem sei que tu me desprezas, Dorme, Carmela, Querida Flora. Acorda, Adalgisa, Que a noite desliza; Vem ver o luar, Vem ouvir o canto...

Foi nessa época que Adelmar Tavares escreveu a sua lindíssima Acorda, abre a janela, Estela. O verbo acordar vivia nessas poesias, porque as serenatas primavam pelo tardio das horas, à espera do maior esplendor do plenilúnio, quando as ouvintes já dormiam... Quando o Esporte Clube do Recife se fundou, em 1905, ao lado das suas atividades esportivas havia uma Tuna Musical, e esta realizou várias serestas. O piano não possibilitaria somente, no gênero popular, a modinha obter um apogeu. ele auxiliaria também a era das músicas da dança: a polca, a mazurca, a valsa, a scthottish, o pas-de-quatre. Sem esquecer a quadrilha, de que o moralista de O Carapuceiro afirmaria: Se os nossos avós surgissem Do seu eterno jazigo, Quando vissem as quadrilhas Que diriam, meu amigo? Felizmente os avós não saem dos jazigos. Nem para ver as quadrilhas, nem tampouco para assistir a um baile de hoje... Os pianos, já o dissemos, encheram os reclamos de outrora, denunciando seu favor. Não só nos oferecimentos de venda do novo instrumento, uma maravilha, como nos de professôres e professôras Em 1838 um dêstes se classificava como "professor dêsse belo e harmonioso instrumento que é o piano". Mademoiselle Zoé Papon anunciava-se como professôra de musica, podendo ser procurada na Rua Nova, D 11, defronte da igreja. Cobrava mensalidades de 12$800 para ensinar em Santo Antônio, e 15$ no bairro da Boa Vista. Também era "mestra de cantorias". Afinadores de piano igualmente não faltavam: Fred. Fermont era um dêles. Anúncios de pianos com clichês eram freqüentes. E já se queria alguém desfazer de um, velho, por 50$000. De quando em quando transitava pela cidade, às cabeças de oito carregadores, um novo piano, comprado há pouco, saído da Alfândega ou de mudança. Êsse transporte deu margem a uma forma de toada popular do Recife: a dos carregadores de piano. Aliviando o pêso, distraindo os espíritos, suportando as caminhadas, entoavam seus conhecidos versos: Iaiá me diga adeus, Olhe que eu vou embarcá: O vapô entrou na barra, O telegra deu siná , Zomba, minha nêga, Zomba, meu sinhô: Quem quisé se embarcá, Trem de ferro já chegou. Não devemos esquecer que nos tempos da escravidão os negros costumavam carregar pesos entre cantigas típicas. Quase todos os visitantes estrangeiros do nosso

país, nessa época, acentuaram tal costume. A propósito houve ato proibindo essas cantorias por duas razões, ou, melhor, na linguagem contemporânea, "para evitar dois danos - o do esfôrço dos negros com prejuízo da saúde e a selvagem entoação em detrimento do público". Eram até então familiares aos ouvidos dos recifenses essas toadas africanas, quando os braços robustos na negraria escrava empurrava os barris, as carroças de açúcar ou de caixas da Alfândega, ou mesmo levava à maré os "tigres". Aliás, no nauseabundo transporte dêstes depósitos costumavam também gritar, talvez num tom musical, a famosa alerta: "Abra o ôlho!" E era realmente um abrir de olhos para se afastar e um tapar de narinas para não sentir o cheiro... Incontestàvelmente o piano terá sido outrora um padrão de importância. Já me contou, certa vez, o escritor conterrâneo Plínio Cavalcânti que, visitando urna cidade decadente do interior de Minas Gerais, alguém quisera ali dar-lhe idéia nítida do antigo esplendor da localidade, afirmando-lhe enfàticamente : - Imagine o senhor que só nesta rua havia 24 pianos de cauda! Ah! o piano de cauda! Se possuir um "de coluna" constituía sinal de grandeza social, que dizer do de meia cauda ou cauda inteira a tomar todo um amplo canto do salão! Não os deixavam as finas mãos das "baronesinhas" em páginas de concêrto dignas de menção nas fôlhas ou em mais modestas criações de compositores de músicas para danças. Ainda hoje, ao folhear os velhos álbuns de músicas para piano, encontramos nos títulos e nas ilustrações das capas dessas valsas ou quadrilhas, dessas polcas ou lanceiros, uma expressão psicológica do seu tempo: Pensando em ti, Minha Rainha, Roubando um beijo, Tentação, Sonho de Noiva, Carinhosa, Quando penso em ti, Minha Esperança, Quanto dói uma saudade... Os nomes de mulher também apadrinhavam inúmeras dessas composições, quando não os títulos em francês, tão comuns quando se ralava correntemente a língua parisiense nos solares aristocráticos e um ironista dizia: - "Só se falta cuspir à francesa"... Como, hoje, só se falta roncar em inglês americano... Dos próprios autores patrícios, alguns tinham sua valsa para fazer pendant com as músicas de paternidade estrangeira. Cláudio Gama, por exemplo, tinha a Pensez à moi. Ainda neste século, antes do rádio, o piano se impunha como móvel principal de uma sala, e pelas ruas da cidade ou dos arrabaldes a gente o ouvia em exercícios ou em execuções definitivas todos os dias. Predominavam as valsas lentas de Berger e de Crémieux, ao lado das composições em voga de Alfredo Gama, Raul Morais, Nuno Guedes Pereira, Sobreira, Francisco Galvão, Artur Cabral, Nelson Ferreira, para citar somente os pernambucanos. Hoje as casas, de exíguas, não o comportam, e quase não há tempo de se parar no sossêgo dos lares para aprender a tocá-lo. Ainda podemos colhêr alguns flagrantes da vida musical do Recife nestes versinhos que na década de 1860 a 1870 costumava o "Sineiro da Sé" publicar no Jornal do Recife: Se se vai a um teatro, Vê-se no palco enforcada A gritar desengraçada Um feia Italiana, Que por macarroni engana. Se se vai a um concêrto

Em casa particular... Ai! meu Deus! põe-se a gritar A madama catesguincha, Pensando fazer pechincha. Se se vai a uma festa Onde se deve tocar Música sacra, entoar Hino ao nosso Salvador Com reverência e esplendor, Lá vem um solo perdido Do Trovador, do Barbeiro, Cantado por bom dinheiro Por Madama Lumbriega, Que fiasco a tudo prega. No meu tempo... oh! que tempinho! Do teatro do Gamboa Tudo era gente boa. Bela voz tinha a Castiga, Que nada tinha de espiga... E a mulher do Siri Gordo? Oh! que era de mão cheia! Tinha a voz doce e candeia: Quando na opra cantava, Que palmaria levava! Quais Colás nem Poupas... nada! As rabequinhas falavam, Os trombones atroavam, Todo o espaço abobadado Com velas aclareado. E se a Castiga quebrando No baiano rebolava?! Tudo morto então ficava, Dizendo sempre: ora lá, Castiga... teu bem aqui 'stá! Em outros versos de sua crítica, que bastante revela o cenário musical de outros tempos, êle escrevia:

Estava também presente Certa viúva coberta De luto, mas indiscreta, Com ares de Madalena Que mostrava ter dor, pena. Vai logo por sua vez, Sem se fazer muito instada, Ao piano; e já sentada Levantada do rosto o fumo E canta com muito sumo: Eu sou viuvinha Da banda de além Que quero casar-me Não acho com quem. O teatro favoreceu sensivelmente o prestígio da música no Recife. É sabido quanto a ópera, a opereta, a comédia musicada, atraíram às platéias de então o nosso povo. A história do Santa Isabel, do Apolo, do Nova Hamburgo, aí está para pormenorizar o interêsse. Até nos subúrbios funcionaram teatros ocupados por troupes nacionais e estrangeiras, notadamente as francesas, que encantavam os espectadores com suas peças de títulos maliciosos e suas bailarinas "de pernas de fora"... Trechos mais vulgarizados de óperas chegaram mesmo a ter versos de sabor brasileiro, como a célebre ária do 4.° ato da Traviata, que era assim cantada no Recife de há uns 50 anos: Iaiá, tem tabaco aí? Dá-me uma pitada, Que eu quero dormir... Ou com a ária Di Provense : Meu papai, eu quero sêda, Quero um xale de toquim, Quero um anel de brilhante, Quero um leque de marfim. De uma das peças do gênero burlesco que despertaram imensos aplausos e ganharam popularidade, havia esta quadrinha saborosamente cantada: Mendengue afetado, De minha Sinhá,

Pimenta de cheiro, Bôlo de fubá. Os presepes, antes de se exibirem na praça pública, brilharam bastante nos palcos. Pelo Natal quase todos os teatros anunciavam êsses autos e cobravam preços para a época bem "salgadinhos" e que afiançavam o mérito das representações. Não somente nos teatros da cidade como nos da Capunga, Tôrre, Encruzilhada, Olinda, Monteiro, se ofereceram êsses divertimentos em que a música e a dança predominavam. Desde o famoso Teatro Público ou Casa da ópera, também crismado de "Capoeira", havia "função de presepe". Bem poucas outras músicas terão caído tanto no agrado popular corno as das jornadas das pastorinhas. Eram familiares às gargantas de todo o mundo. E ainda hoje os velhos as repetem consigo mesmo, cutucando recordações amáveis de mestras, dianas, contramestras, do seu tempo... "Músicas de presepe" constituíam um suave e ingênuo enlêvo. As toadas do fandango e do bumba-meu-boi nunca lograram igual prestígio. Por muito que êstes dois divertimentos hajam alcançado fama e espectadores, o presepe e depois o pastoril sempre lhes estiveram à frente na estima popular. Quem não conhece pelo menos a melodia da canção típica do "queima "? Ao ser levado o arco de folhagens já sêcas da lapinha para o pátio mais próximo da igreja, a fim de ser queimado, as pastôras em filas iam entoando: Queimemos, queimemos A nossa lapinha... E ao terminar, em roda das cinzas, repetiam: A nossa lapinha Já tôda queimou, Até para o ano Se nós vivas fôr... Do bumba-meu-boi a cantiga mais vulgarizada é a do "cavalo-marinho". As outras perderam-se no olvido, a ponto de hoje ser difícil a reconstituição do auto. Em 1854 no Santa Isabel exibiam-se 32 meninos pernambucanos representando um auto do século XVI - Revelação do Natalício do Messias. O reclamo afiançava: "Vozes boas em versos rimados". E mais: "É espetáculo que nada se parece com essas bambochatas denominadas presepes." Contudo os presepes não perdiam admiradores. O Teatro Público mantinha o seu com quadros notáveis como "A entrada dos Reis Magos em Jerusalém" e o "Debate de Herodes com os Reis do Oriente", com muita pompa, novas cantorias e queima das palhinhas na noite de Reis. Quem assinasse três récitas tinha de abatimento 1$000 e a última noite gratuita. Um crítico elogiou os cantores, mas não gostou de excesso de zabumbas e caixas de guerra na orquestra. Em regra aludia-se às "lindas e entoadas pastôras ". Uns versinhos do meado do século passado assim diziam de um presepe : Ressurgiu em Santo Amaro

O presepe do Gamboa; Dizem que lá tudo é bom E que tem cousinha boa. ….................................. Que há também uma Iaiá, Moça chique e de espavento, Porém leve como um sonho E volúvel como o vento. A poesia lírico-satírica passa a apreciar varias pastôras, como a mestra e a diana, e por fim se expressa menos elogiosa :

Quanto às outras... só inspiram Uma doce simpatia, Pois são mais belas à noite Do que parecem de dia.

O uso das danças profanas, desde o minueto ao pas-de-quatre, intensificou-se imensamente, consoante já vimos. Ao tempo em que se usavam calções há jocosas alusões nos velhos papéis. Um anúncio de 1852: vendiam-se "ceroulas com meias de enchimento para rapazes de bom gôsto que quisessem aparentar pernas bem feitas", e ao mesmo surgia comentário a um dêsses gamenhos que em pleno baile passara pelo dissabor de ver êsse enchimento escorregar de perna abaixo... Dançava-se bastante, e havia salões de bailes públicos nas ruas da Praia e Direita, com professôres das 7 às 9 da noite. Em um dêles adjetiva-se assim o repertório: "Quadrilhas estupendas, valsas vertiginosas, polcas delirantes, schottischs delambidos ", Os bailes carnavalescos de há muito se favoreciam com a concorrência. Nêles as damas sem dominós nada pagavam. A Casa Préalle organizara um pot-pourri carnavalesco: Dorme, que eu velo, O Sertanejo, Ó vinde, vinde, luz do céu , Tu és a pastôra mais formosa, Tremei, Gabriela, tremei, Maria Pão, Buvons sec, Levate la camisela, Ó maná sum-sum, Caranguejo não é peixe, Adeus ao Carnaval. Essas as músicas de Carnaval de 1886... Êsses bailes populares, é claro, não invalidavam os da fina flor social, quer nos seus próprios e luxuosos salões residenciais, quer no Carlos Gomes, na Euterpe, no Internacional. A propósito ainda de música, num parêntese, convém mencionar a aura de um instrumento: a ocarina. "Podia-se tocar em uma hora." E organizava-se uma orquestra de senhoras. Não sei, porém, que êxito teve. Ainda no terreno da música popular tivemos no Recife outros aspectos curiosos. Os dos tipos de rua, por exemplo. No século XIX teria sido figura apreciada o tocador de realejo. Êsse instrumento era novidade. Repetia trechos de óperas conhecidas, e os ouvintes pagavam um vintém para reescutá-las. As caixas de música seriam também; nas salas de visitas, um agrado indefinível. Algumas tinham até "pancadaria", Valsas como España, Estudantina, faziam-se ouvir nesses "engenhos de arte". Isto, no entanto, não invalidaria reclamações como a que saiu publicada protestando contra um realejo da vizinhança que não permitia a ninguém dormir direito. O mesmo protesto surgiria já em nossos dias de mocidade contra uma célebre banda alemã que invadiu, sem pára-quedas, o Recife de então, e tomou, conta das ruas, atordoando a todo o mundo com o clangor dos seus instrumentos de metal e suas tiradas wagnerianas que o publico não aceitava. Tampouco o pedido "de" dinheiro: Lá vem ela, lá vem, prepara os cobres, Oh! gente que na rua vai passando! Quem tem o que fazer, tape os ouvidos! Que a música alemã, eh! vem tocando... "Pensamento" foi um romântico músico de rua do Recife de 1900, De fraque, chapéu duro, flor ao peito, e a sua flauta. Numa esquina, numa calçada, numa porta de loja, tocava. Sôbre as ondas, Louca, Fingida... "Pensamento", não o conheciam por outro nome. Conta-se que, ouvindo uma vez numa casa um piano que não conseguia acertar um compasso, bate à janela, aparece uma moça e êle se oferece para auxiliá-la na dificuldade. Aceito o auxilio, o compasso é vencido. Outro tipo curioso: "Leseira". Um cego que pedia esmolas no ponto dos bondes da Rua Nova, em que para subir a ponte da Boa Vista era preciso atrelar-se mais um burro à parelha: a "sota". "Leseira" tocava uma gaita habilidosamente e nela interpretava as músicas populares da época, como a Sussu me deixe: Sussu me deixe, Vá dormir seu sono: Deixe essa menina, Que já tem seu dono. As filarmônicas tiveram seu apogeu no Recife do comêço dêste século. Três, sobretudo, se notabilizaram: a Matias Lima, a Pedro Afonso e a Charanga do Recife. Sociedades que primavam pela afinação de suas bandas, pelo requinte de seus repertórios, pela elegância de seus componentes, Festa em que uma das três comparecesse estava com o reclamo feito, Novenas, retretas, desembarques, recepções, piqueniques. A Pedro Afonso morreu antes das duas congêneres. A Matias Lima e a Charanga prolongaram existência e tiveram seus dias de glória musical. Em 1901, na Praça Maciel Pinheiro, essas duas bandas musicais, que eram rivais e por sua vez criavam rivalidades entre seus partidários, realizaram um torneio musical de grande fama. Cada uma que executasse o que de mais seleto e difícil tivesse no repertório. Esgotados os programas, nenhuma queria ceder à outra o último lugar na tocata. A madrugada se aproximava, sucediam-se as peças. Temia-se barulho. Afinal a polícia diplomàticamente conseguiu que ambas a um só tempo tocassem o hino nacional e se retirassem para as sedes. Essas bandas, como as dos batalhões aqui sediados, puseram em voga os dobrados. Muitos dêles se tornaram famosos na cidade, sendo assobiados e tocados em pianos, violões, flautas. Era ao som dêsses dobrados que os capoeiras se desmandavam, à frente das bandas, esgrimindo cacetes e provocando lutas. Havia mesmo dobrados particulares de cada grupo de capoeiras, como o Banha cheirosa. Das chamadas festas populares, as da noite de São João gozam de um renome tão difundido que não é preciso insistir nos seus pormenores tradicionais, embora já tão deturpadas e esquecidas que as gerações atuais delas só conhecem, pode-se assim dizer, os bailes em que se vestem trajos de matutos e se comem canjicas e pamonhas preparadas por mãos muito distantes da habilidade de outrora. Era nas festas de antanho que se entoavam as bem conhecidas cantigas da capelinha de melão e as dos que se iam banhar no rio ou no açude. Pereira da Costa registra, destas últimas, a dos versinhos: Em Fora-de-Portas Eu vou me lavar, As minhas mazelas No rio deixar. Também muito vulgarizadas no Recife de uns 50 anos atrás as melodias das trezenas, dos novenários e do mês mariano. Festas que se realizavam por devoções domésticas a Nossa Senhora, a Santo Antônio, principalmente. Famílias tornaram-se afamadas na vida da cidade pela pompa, pela graça, pelo carinho com que cercavam êsses cultos. Preparavam-se vestidos e sonhava-se com as vozes, as orquestras, os cantos, e também as danças e as rezas... "Tiradores" celebrizaram-se. No mês de maio, entre tantas outras, ouvia-se No céu, no céu Com minha mãe estarei e nas trezenas de Santo Antônio o Milagroso Antônio, Nosso padroeiro! Enche de alegrias Pernambuco inteiro. As bandeiras, nas festas de igreja, tiveram igualmente sua época. Dessas festividades religiosas, com seu desdobramento profano, foram célebres a do Poço da Panela, a do Monte de Olinda, a do Cajueiro, a de Santa Cruz, da Penha, do Carmo, de Santo Amaro. Sem falar em outras de arrabaldes. As bandeiras saíam das residências das juízas e eram conduzidas processionalmente até à frente do templo, levadas por moças, entre cânticos. Houve no Recife do século passado bandeiras carregadas por via fluvial: lindos cortejos noturnos pelo Capibaribe afora, entre balõezinhos, fogos de bengala, foguetes e músicas. E por que esquecer a musicalidade dos nossos pregões? O dos sorvetes, dos cuscuzes, das ostras, do mungunzá, da vassoura, dos camarões, da lã de barriguda? Muitos morreram com seus criadores, outros se prolongaram na voz de imitadores, quantos se sumiram com a voga dos produtos que anunciavam! Alguns persistem.

outros se transformam. Antigamente, aqui, só se conhecia o pregão dos meninos do "midubim". Depois, para se imitar o sulista, não apenas em se dizer "em Recife" ao invés do nosso velhíssimo "no Recife" passaram os vendedores a gritar "amendoim"... Acêrca dêsse vêzo escrever-se-ia outra crônica. Quase não há o que referir de novo a propósito de músicas do Carnaval, do Carnaval recifense que, sem favor, é tipico. Há mais de meio século, quando nos três dias de Morno apareceram os máscaras, num tempo em que somente existia o entrudo, êles se exibiram logo cantando. Formavam grupos, com harmônios, violões, rabecas, Os dos morcegos entoavam: O morcego bateu asas, Mas não pôde avoá; Quem não tem prazer na vida Não diverte o Carnavá. Também conhecida a toada: Faz chorar, Faz chorar, Amanhã é quarta-feira, Acabou-se o Carnaval. Havia as músicas dos maracatus com seus batuques e a dos caboclinhos com seus estalos de flechas. Depois, o frevo. E do frevo já se tem escrito muita cousa erudita. Não se pense que no Recife de antigamente não se tenha apreciado a música clássica, grã-fina. Muito pesadinho o confronto os avós souberam melhor do que os netos fazê-la e saboreá-la. Inúmeras sociedades musicais existiram na centúria passada. Ali se realizavam concertos de que os jornais publicavam apreciações e criticas. Concertos de discípulas de professôres em relêvo também se ofereciam. Em regra, as companhias líricas deixavam aqui elementos que passavam a ensinar "música e cantoria". Haja vista, entre tantos outros, um anúncio do empresário Marinangeli, que, tendo ficado sem meios de subsistência após o incêndio do Teatro Santa Isabel, resolveu abrir um curso de música no Recife, êle e a mulher. Concertos ao ar livre eram freqüentes. Os do Clube Euterpe, da Sociedade Harmônica-Teatral, do Clube Carlos Gomes, do Internacional, do Grêmio Musical Santino Pinto, das discípulas de Madame Cerutti e de D. Teresa Dinis. E não omitamos as grandes retretas das bandas militares nos jardins públicos com programas de elite. Nos salões residenciais igualmente assíduas noitadas de arte se efetuavam, nas quais os pianos a quatro mãos, os solos de flauta ou de violino, a árias e os duetos afirmavam a cultura musical das famílias que ainda não conheciam os sorvetes-dançantes, os jogos de futebol e os cinemas. Mas ainda houve outros ensejos de música para o Recife de dantes. Os dos anos de aflitivas epidemias, da cólera-morbo, por exemplo Saiam às ruas procissões de penitência. E nelas se entoavam benditos como êste: Senhor! pelos vossos Passos

Para salvar a humanidade, Da cruel peste livrai O povo desta cidade. Em dias de outros vexames, embora cheios de entusiasmo, embarcavam para o Paraguai os batalhões de Voluntários da Pátria e ouviam-se hinos: Avante, marchemos! À glória ou à Morte! Vamos desta sorte Vingar a Nação. A política muitas vêzes inspirou canções alusivas aos acontecimentos. Em 1911, na campanha dantista, o hino cantado com a música da Vassourinha: Salvai, salvai Querido General, A nossa terra Das mãos de um traidor... E em 1930, tão outro dia, uma porção de cantigas mordazes que as bôcas repetiam na inconsciência dos delírios revolucionários. Versinhos musicados glosando fatos em evidência têm enchido a cidade. Sorteio militar, ascensão de balões, crises econômicas, episódios maliciosos, modas extravagantes, melhoramentos urbanos. tudo há inspirado canções, na nossa cidade de ontem como na de hoje. Um último aspecto e porventura dos mais curiosos das músicas que o Recife ouviu: o da expressão de seus nomes como reflexos de episódios, de modas, de épocas enfim. Quando, por exemplo, correram os trens suburbanos, apareceram quadrilhas, polcas, valsas. assim denominadas: Caminho de Ferro e A Maxambomba. Anteriormente, cantara-se bastante um dueto Barca de Vapor. Em 1883 inaugurase o telefone. e compõem a polca Quem me fala? Mudam-se nomes de logradouros públicos e dança-se ao som da Ruas em contradança . Outras muitas músicas nos pintam, nos nomes, a vida recifense de outrora: Domingos no Poço, Bombeiros do Recife, Anquinhas da Moda, Banhos de Olinda, Republicana, A Bernarda, Abolicionista, Subiu o Balão, O Náufrago do Baía, Jagunça, O Aeroplano... Cada uma dessas denominações fala por si mesma. Outras merecem interpretações. Quem nos dirá que a polca Capenga não forma não aludisse aos que, tendo êsse defeito físico, não poderiam sentar praça? Há outras músicas cujos nomes só os contemporâneos terão compreendido: Quem comeu do boi? ou o Xô, araruna, tão cantadas por nossos avós e ainda ouvidas na nossa infância. Alusão política? Talvez. Finalmente, sem o grafofone ou gramofone e a vitrola, que, aqui como em tôda

parte, tiveram suas fases de surprêsa, de procura, de agrado, e de fastio para os que dêles abusaram. O grafofone ou gramofone trouxe para as exigências musicais do Recife tôda uma fase nova e característica. A princípio de cilindros de carnaúba, depois de discos, constituiu, como seria natural, uma surprêsa: a voz humana reproduzida de maneira julgada, então, perfeita. Por seu lado, os instrumentos isolados ou em conjunto também causavam admiração. Havia até quem duvidasse da realidade e sonhasse com um truque... A máquina falante ia sendo adquirida aos poucos pelos mais felizes de posses. E mostravam-nas aos parentes, amigos, vizinhos. Posteriormente apareceram os clubes de sorteio que as ofereciam em condições suaves de pagamento. Vulgarizaram-se. Ouviam-se, noite e dia, por roda parte. Ao ponto de uma sentinela de quartel ter adormecido na gurita ao som de uma delas. A ópera, o noturno, a opereta, a modinha, o tango, o maxixe: a cançoneta - tudo se fêz ouvir no gramofone. A cançoneta estava em plena voga. A cançoneta com letra brasileira, porque a francesa já desde o século anterior tivera fama nos teatros da cidade e dos arrabaldes. O Nova Hamburgo, que introduzira o cancã, notabilizara-se igualmente pela cançoneta brejeira como a Je ne peux pas mettre la main dessous. As de cunho nacional, não menos maliciosas, eram o "prato do dia" em palcos ligeiros, nos intervalos das jornadas em pastoris, e até em-reuniões particulares... Sem esquecer as exibições do teatrinho João Minhoca, do Caradura. Os títulos das cançonetas diziam do seu assunto quase sempre: Meu bem, estou cortado aí?, Coió sem sorte, Um noivo em cócegas, Mamãe não deixa, E durma-se com um barulho dêsses, Menina sem arame vá rodando não me ame, Pela janela, e a sua apimentada paródia Pelo buraco:

Fiz um buraco no soalho Para espreitar certa vizinha: Uma formosa casadinha Esperta e viva como um alho. Fui atrevido, fui ousado, Mas muita gente tem meu fraco, Mil coisas vi do meu agrado Pelo buraco. Quando o fonógrafo apareceu no Recife teve tal importância que se realizou uma exibição pública no jardim do Palácio do Govêrno. Também houve mostras no salão do Internacional e depois na pracinha da Independência. Todavia, o piano ainda permanecia cotado na cidade. Os cafés não o dispensavam, embora muitas vêzes tocado por mãos que ofendiam o amor-próprio dos compositores. Quem não se lembra do La Puerta del Sol ou do 15 de novembro, cujos pianos, tarde da noite, se faziam ouvir pelas redondezas? E por fim o rádio. Êste, com todo o ativo das suas virtudes, não foge ao defeito de impor as músicas aos seus ouvintes, e, como se sabe bem, em assunto de músicas populares essa imposição, às vêzes, é inaceitável...

As consagrações da pretendida popularidade falham decisivamente, sobretudo se se tenta o concurso. De qualquer modo o êxito da música, outrora, revestia-se de muito maior significação, porque não exigia reclamos de alto-falantes nem de nomes de cantores regiamente pagos. Dependia o triunfo apenas de um violão isolado, de uma voz da vizinha, do assovio de um moleque, do piano da sinhàzinha... E, assim, ganhava a cidade tôda.

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Sinopse

Leia gratuitamente Arruar: história pitoresca do Recife antigo, de Mário Sette, obra brasileira em domínio público. Edição digital preparada a partir da fonte oficial de Mário Sette, com leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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