Universo da obra
Universo da obra
Tirar retratos hoje é ato banal. Inventaram-se as Kodaks portáteis, caras ou baratas, e todo o mundo quis bater sua chapa. Bem ou mal, pouco importa! Velho ou menino, mocinha ou dama, todos têm sua máquina fotográfica e fazem instantâneos de rua, jardim, interior ou excursão. Não há mais solenidade nem emoção. Sai-se de qualquer forma, cerimonioso ou íntimo, até seminu nas praias... Isto é, porém, hoje. Outrora... A princípio, retratos somente daqueles pintores a óleo que haviam afluído ao Brasil e se aprimoravam nas telas de baronesas de cachos e camafeus pousados nas curvas dos seios ou de viscondes de colarinhos pontudos, gravatas de volta, peitilhos gomados e comendas na casaca, a se harmonizarem com a austeridade das barbas negras ou brancas, rodeando o queixo. Eram os retratos que em molduras ovais e douradas ornavam os salões de visitas, no cenário grave dos mobiliários de jacarandá, meio velados pelos reposteiros de gorgorão de sêda. Depois vieram os daguerreótipos. A novidade fotográfica. 1850... Os jornais traziam anúncios convidativos, como o daquele "Monsieur Mavignier" que oferecia aparelhagem moderna, credenciando-se como "retratista e pensionista de S. Majestade o Imperador". Dispunha sua sala de "tirar retratos" de "clarabóia de 30 vidros de 20 polegadas, dando uma luz tão bela e regular que sairão os retratos magníficos". Os daguerreótipos aplicavam-se a pequenos caixilhos de frisos dourados, medalhões, tabaqueiras, caixinhas de charão, broches, pulseiras, ostensivos ou discretos... Êsse Sr. Mavignier fôra pintor, mas, cedendo às exigências do ganha-pão e da moda, transformara-se em fotógrafo. Coisas da vida... Tinha o seu atelier nos 1.º e 2.º andares do prédio do Atêrro da Boa Vista, n.º 82.
Os daguerreótipos tiveram seu prestígio. Nas caçoletas dos homens e nos medalhões das senhoras iam as maravilhosas reproduções das criaturas queridas, umas ainda vivas, outras já saídas do trânsito terreno. Os óleos adquiriam um valor de estimação afetiva ou artística. Surge então a fotografia em negativos, possibilitando dezenas de cópias para se oferecerem com dedicatória aos parentes, compadres, conhecidos e... namorados. Retratos singulares ou em grupos. Com cestas de flôres, num bote, debruçado num gradil de madeira, ao pé de uma coluna, com um cenário de fundo a representar um bosque, um lago, uma escadaria de palácio... E o retrato, popularizando-se, obteve sua maior fama. Não era mais privilégio de gente lorde; não se retratavam somente barões e viscondessas, mas até os moleques de casa: às vêzes o bem-querer do senhor chegava ao ponto afetivo de lhes mandar copiar nas chapas as caras negras e os cabelos pixains. Os anúncios das fotografias, crescendo em número e apurando-se nas expressões convidativas, serviam de índice para a importância que o retrato tomara na sociedade dêsse tempo. O fotógrafo Lambert foi um dos que primeiro surdiram na imprensa com um reclamo derramado. Êle chegara da Europa como celebridade no seu ramo de atividade profissional. Dirigira estabelecimentos de primeira ordem em Berlim e Viena, tendo obtido prêmios na Exposição de Paris. Ia agora tomar conta da parte artística da Fotografia Alemã, na Rua Barão da Vitória, n.º 52, de que era gerente o Sr. F. Barza. Essa casa de "tirar retratos", de propriedade do Sr. Alberto Henschel, tornou-se das mais famosas da cidade e alcançou o fim do século XIX ainda com muita voga. Não haverá família que não possua, em álbuns, fotografias tiradas na Alemã. Ofereciam-se novidades: retratos para cartas a 14$ meia dúzia. Vistas da cidade e arrabaldes. Um Sr. J. J. Pacheco praticava a “fotografia cristalotípica", com rara habilidade, "em cores fixas e traços inteligíveis". O Sr. Pacheco ia retirar-se para o Rio de Janeiro e pedia a quem quisesse aproveitar seu sistema que o procurasse no Atêrro da Boa Vista, n.º 4, até o fim do mês. A Fotografia Imperial lançava sensacional novidade - 100 cartões de visitas por 25$000 com retratos, nomes dos indivíduos, profissão e enderêço. E explicava as vantagens dêsses cartões de identidade. Êstes lindos cartões que hoje estão em grande favor nas principais cidades do mundo civilizado são um verdadeiro mimo da arte fotográfica às classes industriais. O médico, o engenheiro, o advogado, o comerciante, o industrial e o artista por meio dêles fazem a sua pessoa mais conhecida e indicam sua residência, o que certamente lhes assegura aumento e certeza de transações e lucros. Quantas vêzes se corre à procura de um médico, que não se encontra, tendo-se passado ao lado de muitos que não se conhecem? Quantas vêzes procuramos um advogado, um procurador e outros profissionais deixando pelo caminho que passamos os indivíduos cujos serviços nos são necessários e cujos lucros aumentaríamos? Quantos comerciantes e artistas menos honestos usurpam interêsses de outros até lhes roubando o nome porque o indivíduo cuja boa fé ilaqueiam não conhece a pessoa a quem procura? Enfim, são fáceis de apreciar as vantagens que oferece um pedacinho de delicado cartão de 2 sôbre 3 polegadas com um bem feito e fiel retrato fotográfico, com o nome por extenso, profissão e moradia nitidamente impressos de qualquer indivíduo que vive da ciência ou da indústria. Para as classes aristocráticas fazem-se os mesmos cartões com o retrato, o título, a coroa ou brasão, ou outros quaisquer dizeres que forem indicados. Uma casa fotográfica de outrora que se singularizou pelo modo de anunciar foi a Galeria Americana, precursora dos reclamos modernos e originais. Encimavam-se os
da Galeria por um busto de moça pensativa, mão no queixo, em atitude de quem se acha em frente da objetiva. E o texto era composto em várias palavras ou frases repetidas, provocando a curiosidade de chegar ao "âmago do assunto". Assim: Notícias Notícias Notícias Notícias Novos arranjos Novos arranjos Novos arranjos Novos arranjos Retratos de 3$ por 2$ Retratos de 3$ por 2$ Retratos de 3$ por 2$ Retratos de 3$ por 2$ Essa mesma Galeria em outro anúncio declarava fazer trabalhos em Porcelana - niepçotypie Lenços - archerotypie Vidro - ambrotypie Metal - daguerreotypie Papel - talbotypie O Grande Salão ficava na Rua do Imperador, n.º 38, e nêle se vendiam também quadros ovais, passepartouts e produtos químicos. Outra fotografia de relêvo na época foi a de Goodrick & Hough, na Rua Nova. Era uma das que afirmavam não tornarem suas fotos as pessoas mais velhas do que são, porém de feições naturais e até "alguma cousa mais frescas". Podiam-se tirar retratos e entregá-los em uma hora. Prestavam-se a ser coloridos. J. Ferreira Vilela, que se dizia fotógrafo da Casa Imperial do Brasil, mantinha atelier na Rua do Cabugá, n.º 18, sobrado, com entrada pelo Pátio da Matriz. Também tirava retratos em papel, vidro, talco, cartões de visita, cada um dos sistemas com o seu nome arrevesado. A Galeria estava aberta a qualquer hora e os retratos saídos da casa tinham sido gabados no mundo inteiro. Outras fotografias ainda funcionaram na cidade de outrora com sua freguesia predileta. Enquanto as fotografias faziam questão de acentuar suas credenciais estrangeiras para melhor fiança de capacidade, o nosso patrício Mena da Costa, que abrira, com satisfação, sua oficina na Rua da Imperatriz, 48, lançava um reclamo em que se declarava orgulhosamente "fotógrafo pernambucano", e acrescentava:
Convencido de que o retrato tem por fim transmitir ao futuro a cópia fiel do presente e passado, tem feito um estudo especial sôbre o meio de conservá-los inalteráveis, sem manchas e amarelados como grande parte dos que se encontram por aí, assim como dos mais modernos e aperfeiçoados sistemas! Convencido também de que os fregueses nada aproveitam do luxo de uma casa desta ordem, resolveu empregar todo o seu capricho no acabamento das oficinas e escolha do material fotográfico. Não é preciso ressaltar o sentido crítico dêste anúncio, em que, sem dúvida, ao par do natural intuito de enaltecer a sua competência, trai-se a reação, ainda mais justa, contra a mania do que é estrangeiro, hoje não morta de todo, neste Brasil. Quando tudo nos deveria levar à atitude contrária... Os retratos de tipo comum do Mena da Costa custavam 6$000 a dúzia. E êle avisava às Exmas. Senhoras que "as meias-côres, e as verdes, a Bismarck, e encarnadas, produzem melhor efeito do que mesmo a preta". Esta recomendação demonstra bem quanto o "tirar retrato" se revestia de um ritual especialíssimo, preocupando os que a êle se iam submeter, sobretudo as senhoras, no desejo todo feminino de parecerem bem, de ficarem bonitas. A minúcia do trajo era essencial, e dai a escolha da côr do vestido. Assim se fixavam, e, por sinal esplêndidamente, permaneciam fixos até hoje, aquêles retratos da Ducasble, da Henschel, da Hermina, onde apareciam senhoras de trajo de sêda e vidrilhos e cavalheiros de cuidadas barbas negras. Houve, na época da guerra do Paraguai, a moda dos retratos de farda. Não somente os militares da tropa de linha como os voluntários se fotografaram com as suas casacas longas, com talins e barbas, com suas espadas vitoriosas, com seus bonés chatos de palas longas e no peito as condecorações obtidas. Quase tôdas as famílias possuíam com desvanecimento um dêsses retratos, pelo menos, quer de jovens, quer de entes mais maduros. Tirar retrato tornou-se uma "obrigação", além de prazer. Todos queriam passar pela sensação de postar-se diante da máquina e depois distribuir as cópias de seu rosto pelos parentes, amigos e conhecidos. Planeja-se êsse "dia"; junta-se dinheiro, escolhe-se o retratista. Na véspera fazem-se papelotes, prepara-se o vestido, dormese mal. Sonha-se com a "hora". E essa hora chega. Entra-se no atelier meio desconfiada. Um cheiro de remédio. Um quê de escuro. - "Felizmente não choveu." O fotógrafo manda sentar-se; examina a posição; faz recomendações; pega-lhe de leve no queixo (que cócega): ajeita-lhe melhor a cabeça... Muito bem! - "Agora não se mexa!" - "Sorria um pouco!" E ainda: - "Olhe para aqui, para esta coluna." O fundo ótimo: um bosque, uma cegonha, uma balaustrada. - "Quietinha!" Destampa a objetiva. Pronto. Oito dias mais, o retrato. - "Só falta falar." Uma dúzia. Põem-se oferecimentos. Madrinha Marocas, titia Angelina, Papai-Dindinho, tio Janjão, professôra Sinhá... Havia, no entanto, quem se prevenisse contra os fotógrafos. Os velhos, principalmente. Aquilo era agouro: morria-se logo depois. Não se queriam submeter à objetiva, não obstante pedidos de filhos e de parentes. Resmungavam contra os modernismos, davam muxoxos de desdém, e não iam ao retratista. Certo dia, entretanto, achando-se um dos filhos ou netos ausente, cingem o vestido de sêda adamascada, botam o seu relógio de ouro pendente de um broche, penteiam com mais cuidado os cabelos brancos e vão ao Flósculo. Por sinal sai excelente o retrato: - "Ainda tão
moça!" Outro motivo de mêdo de tirar o retrato era a possibilidade de sair mais velho ou, talvez, aparecer tão idoso quanto na realidade... Ponto de vista de vaidade, especialmente feminina. Por isso aquêle retratista de 1871, dobrado de psicólogo, assegurava: - "Meus retratos não apresentam as pessoas mais idosas do que são, mas sim em feições naturais e até alguma cousa mais frescas." Promessa cativante: feições mais frescas... A fotografia dêsse hábil comerciante tornou-se um chamariz de retratados. No comêço do século uma fotografia famosa do Recife foi a de Flósculo de Magalhães, na Rua da Imperatriz, 50-A. Nessa época, já tôdas as que haviam obtido a freguesia de nossos avós tinham fechado as portas. Diminuía o número de casas dêsse mister. A Flósculo estêve por muito tempo "senhora do mercado". Dêsse tempo quase todos os retratos dos álbuns de família trazem o seu nome. Somente depois apareceu a concorrência da Tondela, da Photographie Chic, de Luís Piereck, que viria a ter imenso relêvo na arte, Foi uma bela reação artística a do Piereck, no seu tempo. Os seus retratos, de alto preço, não eram para todos. Só os ricos podiam tirá-los à vontade; os remediados juntavam dinheiro para uma meia dúzia quando se fazia a primeira comunhão ou se queria presentear a noiva... Os álbuns foram caindo da moda. Iam-se para o olvido com os mobiliários de jacarandá, os consolos de espelho, as jardineiras de tampo de mármore. Não havia nos frágeis e esguios móveis de então lugar para os álbuns de retratos, que outrora se ofereciam a venda com tanto realce - desde os de 4 aos de 60$000; simples, de capa de madeira, com enfeites em relêvo, e luxuosos, de veludo, de madrepérola, com ornatos de prata e páginas ilustradas. Lindos e preciosos álbuns que se folheavam nos salões de visitas, evocando os mortos queridos, sorrindo aos antigos aspectos de cada um dos viventes, mangando-se dos trajes e dos penteados das bisavós, ou em êxtase ante um rosto querido. Álbuns que eram, na sucessão dos retratos, uma história, uma vida. Folhear hoje um dêsses álbuns de capa de veludo ou de madrepérola é prazer indefinível Misto de curiosidade, de afeto, de estudo e penetração das vidas dessas figuras já adormecidas nos túmulos há quê de anos! Fisionomias, indumentos, jóias, atitudes, penteados, expressões... Esta tem no colo um livro de orações; aquela desdobra o leque de plumas; uma sobraça um buquê de flôres; outra finge remar... Há rostos femininos de uma louçania, de uma vivacidade, de um encanto que nos parece impossível possam ter envelhecido, ter-se transformado em caveira. Olhar para êles é reconstruir o "poema" da sua época - a cidade de então, seus costumes, seus episódios, seus recantos urbanos e rurais... E como que reunimos o quotidiano dessas formosas criaturas ao dos cavalheiros presentes também ao mesmo álbum - elegantes moços de bem talhados redingotes debruados, com os seus olhos românticos e as suas barbas de que parece evolar-se o perfume de cosmético Oriza... Perfilamse com a mão sôbre um livro; apóiam o queixo num dedo, pensativamente; debruçam-se num gradil... Sentem-se nessas fotografias de jovens os estados de alma dos retratados - um muito de vaidade, um pouco de intimidades afetivas, de lirismo, de malícia... E a época da importância do retrato passou. Banalizou-se hoje nas fotografias de oito mil réis a dúzia para os documentos de identidade ou os atestados de que se sabe ler...
Nem aos meninos é preciso dizer-se mais: - Vai sair um passarinho...
A vida social nos últimos anos do século passado transbordara bastante para os prados de corridas. Era nêles que os cavalheiros e as damas elegantes se reuniam aos domingos, num interêsse pelas corridas de cavalos, mas, evidentemente, também atraídos pela convivência das arquibancadas, pelas palestras, pelos comentários sôbre modas, pelos namoros, pelos sorvetes, por umas horas alegres de contacto espiritual temperado pelas emoções das vitórias de animais preferidos. No momento em que os cavalos em disparada se aproximavam do "vencedor", todos se punham de pé e fixavam os olhos na pista, acompanhando com os corações ansiosos as blusas raiadas dos jóqueis, enquanto braços se moviam, bôcas gritavam, mãos batiam palmas, leques se agitavam, bengalas percutiam forte o chão... Depois, o júbilo dos que ganhavam, a tristeza dos que perdiam. 1888 ficou assinalado na história do hipismo recifense como o do apogeu dos prados. Logo ao se iniciar o ano, precisamente a 1.º de janeiro, inaugura-se o Prado Pernambucano, na Madalena. A festa inaugural teria sido em 1887, mas razões superiores compeliram ao adiamento. E assim 88 teve as glórias. A nova pista, com suas arquibancadas modernas, causou entusiasmo e despertou interêsse geral. Compareceram para mais de 3.000 pessoas. "Senhoras com belíssimas toilettes": Carros muitos a trazer o pessoal rico e chique da Linha Principal, da Passagem, do Caxangá. Não cabia mais ninguém no pavilhão. E a massa popular enchia o resto do campo. Ao meio-dia o starter dá o sinal de partida do primeiro páreo. Começou assim a vida esportiva dêsse Prado que seria o único a chegar aos nossos dias. Nessa tarde eram cavalos de fama: Baccarat, Satã, Paxá, Peri e Sans Pareil.
A 25 de março funda-se nova sociedade esportiva: o Derby-Clube. E para esta constrói-se outro prado, na Estância. Convém notar que já nesse tempo se levantavam no Campo Grande as arquibancadas do Hipódromo. Para se avaliar do aprêço dado aos assuntos do turfe basta dizer que a Companhia de Trilhos Urbanos anunciava ter expedido ordens para todos os seus trens suburbanos pararem em Belém a fim de atender aos visitantes das obras do hipódromo que ali se ia erguendo.
O prado do Campo Grande inaugurou-se a 30 de setembro. Também festa de arromba. À altura do melhoramento. Assistência finíssima. Trens extraordinários de meia em meia hora. Três bandas de música a tocar em coretos. Anunciaram-se 8 páreos, e a casa das apostas rendeu 27:260$000, com a venda de 5.439, pules. No 1.º páreo venceram Good-morning, Rabelais e Jaguarão, na ordem da colocação. Mas tiveram honras na tarde, igualmente, Favorita, Galatéia, Pégaso e Ingazeira. Não foi corrido o 8.° páreo, por ser bastante tarde. As famílias sentiam-se fatigadas e o jantar estaria à espera. Porventura, à noite, um espetáculo no Santa Isabel a chamá-las, com outros trajas e outros penteados. No 5.°, "sangangu", cena que não seria incomum nos prados. Tribofe descoberto, quem sabe? De jôgo ou de amor... Bate-bôca, taponas, faca de ponta... A cavalaria intervém, desembainha os rifles; correrias. Tudo, porém, se aquieta. Há, apenas, um ataque histérico na arquibancada. Esfregam água--de-colônia, trazem um copo d'água... Pronto, passou! A dama reabre os olhos e sorri... Não quis o Derby-Clube acabar o ano sem dar o ar de sua graça. Na véspera da inauguração, 15 de dezembro, a imprensa foi, num bonde novo, visitar o prado da Estância, o que ficaria conhecido por "Derby" e daria nome ao belo bairro de hoje. Arquibancadas de ferro para 1.800 pessoas. Restaurante, botequins, sala para senhoras, pavilhão de pesagem dos jóqueis, salão dos sócios. Bebeu-se champanha e houve discursos. E no dia seguinte o 1.º páreo, "Província de Pernambuco", 1.200 metros, prêmios de 250$ e 60$ para os dois primeiros cavalos colocados. O 3.° "salvava a entrada". Correram Arumari, Mouro, Otelo, Templar, Chicago, Tupi, Florete, Hércules. O 5.° foi o mais importante páreo do dia: prêmio de 1:000$000. As coudelarias notáveis do tempo eram as de nomes - Cruzeiro, Paissandu, Aliança, Riachuelo, Independência, Capunga, Ipiranga e apareciam entre elas outros proprietários de animais, corno J. Ferreira, J. Caetano Pinto, Misael Guimarães, Artur Silva, P. Júnior, Valfrido Moreira da Costa, A. J. Morais. Das observações: Os animais inscritos no 1.º páreo deveriam estar no prado às 9 e meia. Os jóqueis que não estivessem matriculados na secretaria do Derby-Clube não poderiam correr no prado da Estância. A entrada de animais seria feita pela Rua das Crioulas. A de carros e cavaleiros, pela Rua da Estância. Os bilhetes custavam: entradas, 1$000 - arquibancadas, 2$000 - ensilhamento, 3$000. O 1.º páreo às 11 e 30, e o último às 5 e 20. Assinava o programa da 1.ª corrida do Derby-Clube o gerente, Henrique Schutel. Os páreos corridos nessa tarde de 16 de dezembro de 1888 tinham os nomes: Província de Pernambuco - Prado Pernambucano - Derby-Club de Pernambuco - Hipódromo do Campo Grande - Imprensa Pernambucana - Clube Internacional - Prado da Estância - Prosperidade. Nem todos os três prados inaugurados em 1888 chegaram aos anos de 1900 e tantos. O da Estância foi o primeiro a perder sua finalidade. Baqueou por volta de 1898 e passou a ser mercado. O famoso Mercado da Estância, de Delmiro Gouveia. Obteve outra aura de interêsse. Porque se instalaram divertimentos populares nos terrenos da antiga pista, e para ali todas as noites afluía o povo ávido de jogos, de barraquinhas, de música, de palestras e também de namoras... Que o diga a rapaziada de então, ainda presente neste mundo, embora de cabelos brancos... O Derby estêve no cartaz durante algum tempo. O Hipódromo, êsse foi perdendo a sorte e ficando esquecido. Demoliram-lhe a arquibancada há pouco, para uma vila. Ficou apenas o Pernambucano, atualmente em pleno êxito, remodelado e moderno. Foram os prados, incontestàvelmente, pontos de sensacionalismo. Num domingo, o Botequim do Prado fêz publicar êste anúncio, que traía um avoengo dos reclamistas do século XX : BOTEQUIM DO PRADO PERNAMBUCANO CORRIDA DE DOMINGO 22 DO CORRENTE Honrada com a presença de S. A. o Príncipe D. AUGUSTO Distinto Oficial da Armada Era a viagem de instrução de guardas-marinhas em meio da qual o príncipe teria de desembarcar do navio-escola Almirante Barroso, por haver sido proclamada a República. O reclamo continuava nestes têrmos : A emprêsa do Botequim do Prado desejando servir satisfatoriamente a grande concorrência esperada naquele dia, nem só por S. A. um dos juizes de raia, como pela magnitude dos páreos, resolve fazer patente para melhor ordem do serviço e ciência do respeitável público a seguinte TABELA DE PREÇOS
Cerveja estrangeira garrafa …............................ 1$000 Dita idem meia dita …..................................... $500 Vinho Bordeaux garrafa …................................. 2$000 Dito Pôrto cálix ............................................. $200 Dito Madeira cálíx …........................................ $300 Dito Vermute idem …....................................... $200 Dito Conhaque fino dito …................................. $200 Dito Chartreuse…........................................... $800 Uma garrafa de água de Seltz ….......................... $800 Uma dita de Champanha …................................ 10$000 Uma dita de cidra …........................................ $700 Uma lata de bolachinhas …................................ 1$200 Sanduíches de fiambre e queijo …....................... $100 Bolos um …................................................... $200 Empadas uma …............................................. $200 Frigideira de camarão …................................... $500 Refrescos diversos …....................................... $200 Cigarros um maço …........................................ $200 Charutos de $100 a …...................................... $200 A tabela de preços do Botequim do Prado encherá mais d'água as bocas de hoje do que as daquele tempo. Sabe-se ter sido em plenas corridas do domingo 13 de maio de 1888, no Prado Pernambucano, que se soube no Recife da assinatura da Lei Áurea. José Mariano assistia a essas corridas acompanhado de vários elementos ardorosos da Abolição, notadamente do Clube do Cupim. Esperava-se a sanção da Grande Lei, mas pensava-se só viesse na segunda-feira, 14. Mas de súbito um estafeta do "submarino" chega ao Prado com um despacho urgentíssimo Acabara-se a escravidão no Brasil. A noticia como um relâmpago espalhou-se, e para quem conhece o espírito dos recifenses, fácil é imaginar a cena. Num segundo a vibração foi um só viva. E palmas, abraços, gritos, brindes, lágrimas. Sim, lágrimas. As músicas tocaram. O povo reuniuse. José Mariano à frente dêle, e a mais bela passeata que já se vira marchou para o centro da cidade, onde o delírio tomara conta de todo mundo.
- Sinhô! - Que é, negra? - O telefone está tocando. - Já vou. Você viu, Donzinha? essa moleca já aprendeu a dizer telefone! - Está na moda, Cazuza... - Deixe-me ver quem é. Alô! Quem fala? Ah! É a senhora? Muito bom dia. Como passa o Visconde? E os meninos? Aqui em casa todos bem, agradecido. Sim, senhora Viscondessa, quer falar com a Donzinha? Vou chamá-la... É com você, Donzinha. E a D. Donzinha, esposa do Comendador Almeida, ia ao aparelho telefônico. - Como vai você, Amelinha? Hein? Soube que nós tínhamos botado telefone em casa? É verdade. Hoje, não se pode dispensar; é tão cômodo! Onde vamos domingo? Espere ai: de manhã à missa do costume na igreja do Espírito Santo; almoçaremos com os Guimarães Bastos, que chegaram da Europa ontem, no Tagus, e depois, parece-me que iremos ao Hipódromo do Campo Grande... Por quê? Queriam vir até cá à noite? Pois não! Venham. Com muito gôsto. O Cazuza espera o Visconde para o gamão... E nós duas conversaremos. É verdade: a Milu já toca bem aquêle noturno. Você a ouvirá... Outra novidade - a Salvina aprendeu a fazer daquelas tortinhas de crême pelas quais você é louca... Venham, venham... ____ Eram assim os contactos telefônicos dos tempos em que surgiu no Recife êsse extraordinário invento.
Quando hoje, muito naturalmente, discamos o nosso aparelho telefônico e nos pomos em comunicação com quem nos apraz conversar, já nos é difícil conceber nìtidamente o sensacionalismo desta notícia de 1882: O sr. José Leopoldo Bourgard obteve do Govêrno Imperial uma concessão para estabelecer o serviço de telefones nesta cidade. A notícia era sóbria, porque na época não se conheciam ainda os derramamentos de reportagem, mas o fato de aparecer nas fôlhas já era indício de importância, pois nem tudo merecia tal distinção. Até então, no Recife, somente se viera a ter uma noção real dêsse invento através do aparelho instalado um ano antes pelo construtor da Estrada de Ferro do Limoeiro ligando o seu escritório, na Rua do Comércio, ao Arraial, onde existia um depósito de material. Agora, porém, seria facultado à população recifense a comodidade maravilhosa de uma palestra à distância pelo fio, fôsse um negócio urgente, fôsse um interêsse de amor. O melhoramento merecia assim a expectativa que se formara e a curiosidade com que acolheriam o início do serviço. Nesse mesmo 1882 muita gente se dirigiu ao estabelecimento do Sr. Bourgard a fim de "melhor conhecer e admirar os efeitos do aparelho telefônico ali exposto". E em abril já uma linha ligava o Palácio da Presidência à Secretaria da Polícia, para as ordens de urgência. Contudo, era ainda benefício facultado apenas às altas autoridades, às rodas privilegiadas. O povo ainda se mantinha ansioso de pôr ao ouvido o fone e ouvir uma voz que vinha de longe. Haveria porventura os incrédulos. Qual a sensação ao se escutar essa palavra estranha ou conhecida vinda de um bairro afastado, de uma casa vizinha, de um ponto não permitido à visão? Que se experimentaria mesmo? Aprontara-se a estação, na Rua das Cruzes, onde funcionou, aliás, até o começo dêste século. Viu-se em cima do telhado uma carapuça de fios, uma "estrovenga", como diriam os menos afeitos à ciência, lá com uma ponta de receios. Afinal, em fevereiro de 1883 dá-se a inauguração oficial dos serviços telefônicos. Houvera antes algumas experiências dignas de serem relembradas. No dia de Finados do ano anterior, falou-se do cemitério de Santo Amaro para o escritório da Companhia Telefônica. Os jornais deram os nomes de algumas das pessoas que tiveram êsse prazer: o administrador do cemitério, Major João Francisco Antunes, Padre Manuel Moreira da Gama, Dr. José Maria de Albuquerque Melo, Padre Antônio de Melo e Albuquerque, Francisco Antônio Pereira da Costa. Tiveram êles oportunidade de "admirar o engenho do grande Edison que nos proporciona tanta utilidade". Começavam então a se estender as linhas entre a Fábrica Apolo, na Rua do Hospício, e os depósitos da mesma fábrica, na Rua Marquês de Olinda e Cabugá. Facultava-se a quem quisesse dar um pulo ao escritório da empresa, na Rua das Cruzes, conhecer os efeitos dêsse maravilhoso aparelho, como experiência. E com a inauguração, embora pequenas as instalações, como seria natural, o povo iniciou sua familiarização com o "Alô, alô e, certamente, depois, com o suplício das ligações erradas e demoradas. A emprêsa publicara sua primeira lista de assinantes, isto é, "das pessoas que se podiam entrecomunicar:
EMPRÊSA TELEFÔNICA BOURGARD A. do Carmo e Almeida, diretor e gerente dessa emprêsa, tendo inaugurado o serviço telefônico nesta cidade, publica os nomes dos assinantes que podem entrecomunicar-se: N. 1 - Associação Comercial - rua do Comércio. N. 2 - Dr. Raimundo Bandeira - médico - rua da União n.º 25. N. 3 - Cemitério Público - Santo Amaro. N. 4 - Henrique Forster - (escritório) - rua do Comércio n.º 8 N. 5 - José Leopoldo Bourgard & Cia. - rua Marquês de Olinda n.º 15. N. 6 - Henrique Forster (armazém de farinha) - Cais 22 de Novembro n.º 2. N. 7 - João Alfredo Thom - rua do Comércio n.º 14. N. 8 - Baltar Oliveira & Cia. - rua do vigário n.º 1. N. 9 - Francisco de Paula Mafra - rua do Imperador n.º 23. N. 10 - Ferreira Guimarães & Cia. - rua Duque de Caxias n.º 95. N. 11 - Luiz Duprat (Companhia Fênix) - rua do Comércio n.º 34. N. 12 - Jerônimo da Costa Lima - rua do Brum n.º 2. N. 13 - Launders Brothers & Cia. - Corpo Santo n.º 11. N. 14 - José de Sousa Aguiar & Cia. - rua Barão da Vitória n.º 35. N. 15 - José da Silva Loyo (armazém) - Largo da Assembléia 1.a. n.º 13. N. 16 - Hospital Português de Beneficência - Cajueiro. N. 17 - Ricardo & Cia. Connoly - rua do Comércio n.º 20. N. 18 - Companhia Indenizadora - Corpo Santo. O escritório do Diário de Pernambuco acha-se ligado à Estação Central por um aparelho especial, mas a comunicação dos assinantes acima referidos só poderá fazer-se com o Diário, mediante a intervenção do empregado da Estação, até que chegue um novo aparelho brevemente esperado, que tenha capacidade para mais dezoito assinantes. Os assinantes que se quiserem comunicar com o Diário deverão transmitir ao empregado da Estação os seus recados para este comunicá-los ao Diário e viceversa . Êsse primeiro indicador telefônico dá-nos não somente uma informação segura a respeito dos que desde logo apoiaram a iniciativa, compreendendo-lhe o alcance, mas, também, particularmente, o sentido progressista de certos profissionais do tempo. O daquele médico, Dr. Raimundo Bandeira, por exemplo. A sua clínica permitiria já o auxílio do telefone n.º 2, dali por diante procurado a todo instante pelos clientes, ou, então, embora ainda entrando na vida prática, pretendera "passar a perna" nos colegas mais velhos, facilitando os chamados... A conhecida firma Henry Forster & Cia. não se julgou suficientemente provida com um só aparelho no seu escritório e instalou outro no armazém. Por sua vez, o Paula Mafra com o seu serviço fúnebre quis com o telefone vencer o Agra... A princípio, apenas 18 os telefones, mas já poucos meses depois subiam a 83, sendo o dêste número o do Jornal do Recife. O sistema era o que todos nós conhecemos até os automáticos de agora. Tocavase a campainha e atendia a estação, pela voz de suas telefonistas. Estas nos davam
a ligação solicitada pelo nome do assinante, geralmente. Usava-se pouco o número do aparelho. Os retardamentos, os erros, por vêzes a pouca vontade e a perfídia, davam ensejo a impaciência, a qüiproquós, a cenas cômicas. Todavia, o melhoramento mostrava-se de tanta necessidade para o público, que pouco depois da inauguração já se queixavam pela imprensa de não dispor a agência da Companhia Brasileira de Navegação, no escritório do Barão de Petrolina, de um telefone. O cúmulo! Como se saber quando estava para chegar o Espírito-Santo ou o Pernambuco, os paquetes preferidos da época? Noutra publicação solicitava-se aos assinantes que aos domingos, entre 7 e 11 horas, não pedissem ligações, pois estavam a "limpar o maquinismo ". E ainda: "não se permitisse pessoas estranhas falar aos telefones". Começava a reação contra os abusos dos que se utilizam dos telefones alheios, não para as justas necessidades de urgência, mas para as conversas demoradas em que se contam enredos de fitas, trocam-se madrigais, e tratam-se outros assuntos do tamanho dos romances em série. Em 1884 as linhas telefônicas tinham atingido os arrabaldes. Caldeireiro, por exemplo, possuía o seu telefone. Um capitalista o instalara no seu palacete e fazia figura em exibí-lo e oferecê-lo aos vizinhos : - "Não façam cerimônia, tendo precisão... " E lá iam os aflitos à procura de um médico, de uma encomenda urgente, de uma notícia de vapor. Uma forte trovoada caída no Recife, e em que faíscas elétricas golpearam o Poço, o Monteiro e a Tôrre, alcançando árvores, levou a Emprêsa Telefônica a colocar um pára-raios na sua estação. Por sinal que durante essa famosa trovoada três mulheres abortaram. As fôlhas já se iam botando no noticiário... Pouco a pouco os telefones foram perdendo sua fama de novidade. Ao contrário, despertavam queixas, desdéns, ataques, ironias. As telefonistas, com ou sem razões, sofriam as investidas dos mal-satisfeitos. E ouviam-se desaforos. Ninguém mais se manifestava contente com o seu aparelho. De fato, o serviço, por cansaço do material ou negligência da emprêsa, ia-se tornando precário, e, por vêzes, inútil. Preferiase mandar o moleque de casa levar o recado. Bastava de telefonistas pacientes ou com azedumes. Em 1907 o Govêrno contrata com Luís Pereira de Oliveira Faria o serviço de telefones do Recife. O prazo seria de 30 anos. O município entregaria ao contratante postes, fios, aparelhos que recebera do antigo concessionário. Êste veio à imprensa com um protesto. As fôlhas da oposição ocuparam-se do caso. O novo contratante pagaria durante o arrendamento 10 contos de réis por ano, obrigando-se a manter telefones gratuitos nas repartições públicas. As assinaturas não excederiam de 15$000 por mês. E teria a nova emprêsa isenção de impostos municipais. De Luís Faria passou o serviço telefônico para a Pernambuco Telephone Company. Esta remodelou tôda a aparelhagem, dando-nos os telefones automáticos. E também o serviço interurbano. Das suas vantagens e dos seus defeitos que digam os contemporâneos... Quando chove ou quando os besouros se metem dentro dos condutos dos fios, há quem se mostre saudoso do tempo da manivela e das telefonistas...
Era nos teatros, quando não nos salões, que os raros contactos sociais se permitiam naqueles tempos de um quotidiano saturado de recato e reclusão. Tempo de um viver caseiro, em que as ruas não ofereciam ainda às famílias consentido cenário de uma freqüência habitual, constituindo apenas um trânsito forçado aos homens nas suas lides do ganha-pão. O comércio não se toucava dos atrativos das vitrinas e das exposições de moda, nem a elas quase acorriam as damas: compras, reservavam-se aos maridos ou pais, quando os mascates não levavam às portas tecidos e miudezas, escolhidos e comprados no à-vontade dos vestidos de casa. Todavia, as "partidas" e os bailes, na intimidade dos lares ou no Carlos Gomes, há pouco instalado, não se proporcionavam tão amiúde; decorriam meses sem o ensejo de um sarau ou de uma reunião num palacete ou num sobrado de arrabalde, a menos que a temporada de Festa pretextasse de quando em quando um arrasta-pés improvisado, graças a uma moça que sabia tocar "piano para dançar". Por isso os teatros serviam de dupla atração: a das cenas do palco e a das platéias. Líricos ou dramáticos, possibilitavam a exibição do indumento, a vizinhança dos camarotes, o enlêvo das conversas. Eram os "espetáculos" a oportunidade felicíssima para o último figurino parisiense, para o mais moderno penteado e para a mostra da recente jóia adquirida. Ao nos depararmos com os anúncios de modistas, de cabeleireiros, de artigos de luxo, de alfaiates, de há mais de meio século, evocamos logo essas récitas de gala, onde numa linda moldura de camarote se ostentava uma dessas figuras femininas cingindo o casaco de pafos, a saia armada, a chapelina de veludo, o leque de plumas, ao lado do cavalheiro de casaca ou redingote, com a gravata de volta, o peitilho lustroso e a comenda na lapela...
Nos intervalos, na "varanda" do Teatro Santo Antônio ou já no salão do Santa Isabel, numa aproximação menos furtiva, desfilavam as senhoras e as sinhàzinhas, mirando-se aos espelhos, permutando impressões sôbre o tenor ou o contralto, enquanto os jovens, na sua elegância e no seu "atrevimento", focalizavam o interêsse eivado de sorrisos e, por vêzes, de umas frases, nas donzelas casadouras, umas cheias de beleza e outras prometedoras de "fortunas"... O teatro, como a dança, era uma libertação para quem vivia tão conventualmente nos casarões de outrora. Entontecia os olhos com a multidão que enchia a platéia; abalava os corações com os dramas de cena; esboçava idílios e casamentos, quando não eram paixões de outra ordem, nem sempre limpas de pecados. E que dizer dos homens menos sisudos nas suas quedas pelas seduções das cômicas, embora tais requisitos estivessem às vêzes condicionados aos chumaços, aos cremes e ao carmim, a que as luzes do proscênio emprestavam maior realce e mais estonteante disfarce?... Realmente, seria para a pompa dêsses espetáculos que as casas de comércio faziam de preferência seus anúncios de tecidos de gros de Naples, a fazenda tão em moda para os vestidos de cerimônia. O Paradis des Darnes gabava suas blusas de surah com saias de sêda glacê para senhoras, os bicos blonde, os enfeites para cabeças com aljôfres, plumas e frocos à imitação de chapelinas. Outras lojas ofereciam balões dos mais modernos e anquinhas a 1$500, como pechincha. E que dizer dos cabeleireiros, quase sempre de nomes franceses, como o Gustave, que de volta de Paris, onde estivera a aperfeiçoar-se na arte de pentear, punha à disposição das Exmas. Famílias seus serviços na Rua Marquês de Olinda, n.º 51, 1.º andar? Atelier chique, onde as damas encontrariam exemplares do Monitor dos Cabeleireiros, "descrevendo com desenhos" os penteados modernos para soirées, bailes, casamentos e teatros. Vendia ainda coques, cache-peignes, bandós, crescentes. Penteava no seu gabinete e a domicílio. Havia também, nesse tempo, cabeleireiras de renome igual ao de Mademoiselle Marie Lavergne. As modistas, por sua vez, apregoavam pelas fôlhas os seus méritos de corte. Mme. Potelletet;: da Rua da Imperatriz, além de costurar, tinha sortimento de fitas, de enfeites, de leques de madrepérola e penas. Fichus, espartilhos, galões, marabout, franjas douradas, tudo do melhor gôsto, “para bailes e espetáculos”. Nem maiores misteres teriam os alfaiates de luxo, a jeito daquele da “Grande e bem montada “Alfaiataria de Arruda Irmãos”, na Rua Nova, que anunciava de forma insinuante, exibindo um clichê sugestivo: o de um elegante cavalheiro, de barbas negras, tipo de barão ou conselheiro do Império, a provar uma casaca de linhas impecáveis. Não teremos dúvida em afirmar que estava anunciada a estréia de uma companhia lírica com o Trovador ou a Sonâmbula. E traria no elenco bonitas bailarinas... Casas de jóias, nomes de perfumes como o Kananga do Japão ou o Stephanote, de Atkinsons, reclamos de cocheiras com gravuras de vistosas berlindas, tudo visava incontestàvelmente o ensejo delicioso das noites de teatro, quando ao cultivo da arte se aliava o bom-tom do indumento e o propósito de agradar. Teatro... Quem sentiu ainda o seu prestígio dentro dos lares no comêço dêste século, quando os preparativos para uma ópera, drama ou opereta ocupavam horas de papelotes, de espartilhamento, de frisados de bigodes, de miradas nos espelhos dos toilettes, de perfumamentos de Houbigant, poderá bem avaliar o que se haverá passado nos dias de seus bisavós. A verdade é que o Recife amou bastante o teatro. Se não se pode remontar essa
predileção aos séculos de quinhentos e seiscentos, pôsto se houvesse representado em Olinda, no govêrno de Jorge de Albuquerque Coelho, o auto Lázaro rico e Lázaro pobre, e, sem dúvida, o octênio de Nassau não haja desdenhado a arte cênica, podese, todavia, saber com alguma precisão do teatro em Pernambuco no fim do século XVIII e nos começos do que se lhe seguiu. É conhecida, nesse tempo, a casa da ópera. Título pomposo para um pardieiro da então Rua da Cadeia Nova, hoje do Imperador, fronteiro ao Convento de São Francisco, nome aliás que o teatro veio a ter depois. Os cronistas da época a êle se referem, sem se esquecer de lastimar-lhe a falta de espaço, a pobreza de gôsto, a negligência no asseio, qualidades negativas que lhe valeram a alcunha pitoresca de "Capoeira". Contudo, era o "teatro público da cidade" e bastante deu que falar... Sabe-se até do nome de seu bilheteiro - o Zebedeu César. E dos preços de suas localidades : Camarotes da 1.ª ordem: de frente, 8$; de lado, 5$000. Idem da 2.a ordem: de frente, 11$; de lado, 6$400. Torrinhas: frente, 4$; lado, 3$000. Platéia - 1$000 e 500 rs., conforme ficassem também de frente ou de lado. Vigorara, porém, anteriormente uma tabela em que se cobravam três patacas em assentos de palhinha, sendo mais módicos os de pau. Ali foram levados oratórias e óperas-sacras, próprios para a quaresma, como O Martírio dos Macabeus, ornado de um lindo número de flauta. Depois surgiram peças profanas com dançarinas de pernas de fora. Uma destas, Angela Martino Garcia, "primeira dama de dança chegada de Portugal", ensinava a sua arte na Rua do Rosário, 4, D, confronte à Praça da União. Por fim montaram entremezes tão maliciosos, e de tal monta se verificaram escândalos entre os assistentes, porventura protegidos pela frouxidão das luzes das candeias de azeite, que o Bispo protestou e foi criada uma censura teatral. Porque na verdade - criticava O Carapuceiro - aquêle entremez A Parteira Anatômica era de arrepiar... A Casa da ópera desacreditara-se e fechou. Socorrendo-a, o empresário Francisco de Freitas Gamboa conseguiu reabri-la com uma troupe vinda de Lisboa, pretendendo montar na quaresma "três oratórios novos e muito constitucionais"... Suas intenções de arte eram ótimas, mas depressa se desvaneceram um pouco, porque declarava que, tendo contratado o atual teatro da cidade, reconhecia a loucura em que caíra de gastar 500$000 para mandar vir cômicos de fora; por isso estava disposto a formar uma emprêsa permanente de cunho brasileiro, pelo que convocava as pessoas dispostas a tomarem parte no elenco, dedicando-se a esta "sublime arte". Mais tarde pediria lhe enviassem trajos usados para organizar o guarda-roupa da companhia, verdadeiro embrião do nosso amadorismo teatral. Exibiram-se realmente em peças "adornadas de modinhas de excelente gôsto" e em duetos como aquêle de tanto êxito: Barca de vapor, alusivo ao início da navegação nesse gênero pelas costas do Brasil. Em 1842 trabalhou no Capoeira o grão-mágico Sutton, com reclamos ilustrados no Diário Novo. As mágicas eram apreciadíssimas e o foram até o fim do século, pois artistas dessa especialidade ocuparam freqüentemente nossos teatros, inclusive o famoso Hermann. Na coroação de Pedro II realizou-se pomposo espetáculo de gala com as novas produções teatrais: O desembarque de D. Maria II e Queda da inquisição na Espanha ou Coroação de Filipe VI. Ornar-se-á ainda a noite de décimas, odes, sonetos e danças - prometia o anúncio. E o teatro "estará decentemente armado e com a iluminação que puder admitir". No Capoeira as primeiras companhias líricas se apresentaram no Recife: em 1845 cantou-se o Barbeiro de Sevilha, Ana Bolena, L'italiana in Alger, Elixir de Amor e Figlia del Regimento. O tenor Carlos Ricco fazia as damas chorarem com suas árias sentimentais. O interêsse pelo teatro, aliás, era geral no Brasil, ao que parece, pois aqui no Recife pediam-se pessoas para copiar peças que deveriam ser remetidas à Baía. Pagavam 1$800 por cópia. Foi na Casa da ópera, depois Teatro de São Francisco, que se deu o saboroso episódio de Garrafuz. Era êste um tipo popular da cidade, filho do sapateiro João Ventura. Rapaz boêmio, ousado, mulherengo, mas espirituoso. Perdera um ôlho numa briga por causa de uma "morena". Contam que, ao ir comprar bilhetes para o Capoeira, exigia um abatimento de 50% por ter somente um ôlho. Alegava que via apenas metade do espetáculo... Certa vez, como o bilheteiro não quisesse deixá-lo entrar, temendo uma de suas peraltagens, sendo récita de gala, e ouvindo O governador Luís do Rêgo a altercação na bilheteria, deu ordem para Garrafuz ter acesso à platéia. Mas, para melhor fiscalizá-lo, botou-o no seu próprio camarote, bem no fundo. Garrafuz ficou quieto até ao primeiro intervalo. Aí, saindo a passear o governador com seu séqüito, o filho do João Ventura senta-se no camarote bem à frente e põe-se a fazer graças para o público, que rompeu a aplaudi-lo... O Teatro Público estampou êste anúncio: Roga-se aos srs. que receberam bilhetes de Platéia e Varanda para a representação do dia 7 tenham a bondade de procurar na ocasião de entrar os assentos respectivos aos números de seus bilhetes, pois que todos os bancos estão numerados em ordem; adverte-se que nos camarotes só devem estar os chefes das famílias que os ocuparem; que estarão abertos para se conservar a casa arejada; mas para segurança de todos da parte principal para dentro não entrará alguém sem bilhete; para se conservar a ordem em tôdas as entradas os srs. convidados apresentarão ao entrar o seu bilhete e o guardarão outra vez até o fim da Representação; os srs. que tiverem de prevenir-se de cadeiras nos seus camarotes tenham a bondade de o fazer até o dia 6 porque no dia 7 de dia estará fechado o teatro e à noite não entrarão cadeiras, para não estorvar o trânsito já acanhado por defeito da casa. Finalmente pede-se encarecidamente a aqueles srs. que tendo recebido bilhetes de varandas julgarem êste lugar pouco digno de sua alta jerarquia, queiram restituílos à pessoa de quem os receberam, não só porque não são bilhetes vendidos para se passar a quem se quer, como porque dando-os êles a pessoas que julgam seus inferiores, não estarão no caso de ser convidadas pelos sócios; é isto um bem trivial ponto de delicadeza que não devia escapar a um homem afidalgado; mas que a experiência obriga a lembrar a quem tão fácil é em julgar-se superior, como em abater aos outros. Há neste anúncio um verdadeiro quadro do teatro de 1840 no Recife. A observação feita quanto aos bancos numerados trai a novidade que êsse sistema constituía para o público. A entrada de cadeiras nos faz recordar os circos de arrabaldes, em que os assentos vinham das casas dos freqüentadores, marcados todos com laços de fitas ou papéis escritos colados no encôsto, visando-se uma identificação no burburinho da procura de localidades. Há igualmente uma advertência curiosa: a de que nos camarotes somente permaneceriam os chefes de família Zelava-se a moralidade, talvez, mas do mesmo modo evitavam-se os caronas, os que compram um bilhete de "paraíso" e vão fazer figura nas frisas dos conhecidos... O mal não morreu. E a esplêndida lição de ética do final do anúncio? Vale tudo, e ainda pode ser aproveitada por muita gente dêsse gênero de fidalguia. Nesse mesmo número do Diário de Pernambuco inseria a emprêsa outro anúncio: TEATRO Quinta-feira 8 do corrente o Empresário, para celebrar a feliz Independência do Império do Brasil expõe ao respeitável público o espetáculo seguinte: Depois de se desempenhar a famosa ouverture A Morte de Semíramis seguir-se-á a representação da nova peça O Verdadeiro Heroísmo ou O Anel de Ferro. No fim do 1.º ato dançar-se-á o minuete Escocês e findará o divertimento com o belíssimo Quinteto dançado e a Gavota. As pessoas que quiserem camarotes podem procurá-los no Teatro. Nessa Casa da ópera, em 1824, por ocasião da Confederação do Equador, e já debelado o movimento, estacionaram na cidade algumas tropas vindas do Sul. Um dos corpos aquartelara perto do teatro, e os oficiais, para se distraírem um pouco, convocaram à atividade alguns artistas dispersos pela bernarda. Acudiram ao apêlo os que tinham sido encontrados, entre êles a célebre Joaninha Castiga, primeira dama, que cantava com o baixo cômico Francisco o aplaudidíssimo dueto: Se quiser casar comigo Há de ter segrêdo em tudo... Essa Joana Castiga foi uma estrêla do tempo. Tão querida que anos depois uns versinhos satíricos, lamentando a decadência do teatro, recordavam a artista com elogios e saudades: No meu tempo... oh! que tempinho! Do teatro do Gamboa, Tudo era gente boa. Bela voz tinha a Castiga Que nada tinha de espiga... E a mulher do Siri Gordo? Oh! que era de mão cheia! Tinha voz doce e candeia: Quando na opra cantava Que palmaria levava! E se a Castiga quebrando
No baiano rebolava?! Tudo morto então ficava, Dizendo sempre: olha lá Castiga... teu bem aqui 'stá! Foi nessa temporada que certa noite precisaram de um elemento para substituir um ator que adoecera. Recorreram a um furriel do batalhão, sem saberem que dêle fazia parte o soldado João Caetano dos Santos, o futuro grande artista do teatro brasileiro. Já se preferiam os improvisados... Na Casa da ópera os espetáculos não eram diários e muitas vêzes só se efetuavam quando a venda de ingressos feita pelo Zebedeu dava para cobrir as despesas. Avisava-se também que às segundas e terceiras galerias podiam ir homens e senhoras "pertencentes à mesma família". Ainda a ponto de se tornarem contemporâneos do São Francisco ou Capoeira existiram no Recife o teatro Apolo e o da Rua da Praia. O Apolo fôra construído na rua que hoje ainda conserva seu nome pela Sociedade Harmônico-Teatral, fundada em 1833. O primeiro espetáculo realizou-se a 1.º de dezembro de 1846. O da Rua da Praia começou a funcionar em 1848, talvez pela evidência dessa artéria no movimento que se chamou Revolução Praieira. Em 1849 poder-se-ia alugá-lo, "pois estava pronto de tudo para qualquer representação". Dessas três casas de espetáculos principais, sem contar com os palcos de amadores, como o da Melpômene e a Filodramática, podemos fazer bem uma idéia. Com os seus bancos numerados ou não, de palhinha ou de pau, com suas bugias acesas diante dos camarotes, com suas candeias de azeite no palco e corredores, com suas varandas para passeio nos intervalos, deveriam oferecer à gente do seu tempo uma encantadora impressão de progresso. E dentro dêles moviam-se cavalheiros austeros, damas cerimoniosas, as sinhàzinhas pudicas, e de mistura os peralvilhos espiamarés e as coquetes de ademanes provocadores... Iam todos assistir aos "dramas com cantorias", aos autos-pastoris comoventes e aos oratórios bem constitucionais... Mas o Recife precisava de um teatro, clamava-se. Aquilo tudo existente passara da moda. Companhias estrangeiras desdenhavam ocupar o Capoeira, tão sórdido se mostrava. E os outros nem sempre ofereciam condições de confôrto a uma boa troupe lírica ou de tragédias. Foi em 1839 que o Presidente da Província, o Barão da Boa Vista, encarou a sério o problema de dar à cidade um teatro de verdade. Uma lei concedia várias loterias de 60 contos de réis, cada uma em favor do melhoramento. Lavrou-se um contrato para a construção e entregaram as obras ao arquiteto francês Luís Vauthier. Dentro do natural clima de ansiedades, de dúvidas, de censuras, de planos dos leigos, de esperanças, trabalhou-se com vontade. Pediam-se canoas que transportassem areia para as obras do "teatro novo". E o belo edifício ia surgindo aos olhos da população. Até que na noite de 18 de maio de 1850, numa récita de gala, com o drama em 5 atos O Pajem de Aljubarrota, se deu a inauguração. O poder imaginativo é falho para reconstituir essa noite recifense. As seges seriam ainda raras na cidade, mas tôdas saíram das cocheiras com seus boleeiros encasacados. Palanquins ter-se-iam mostrado a caminho do teatro, e ao seu lado permaneceriam até o cair do pano, no derradeiro ato. Os ônibus do Cláudio porventura terão igualmente levado, ao trote de seus seis cavalos, famílias: de Apipucos, de Olinda, do Poço, de Caxangá... E até as canoas prestaram serviços de condução na travessia do rio. Aliás êsse recurso às canoas não seria de natureza excepcional. Haja vista êste
anúncio: UMA EMPRÊSA ÚTIL Acha-se no lugar denominado Palácio Velho, do lado do sul do teatro de Santa Isabel, uma elegante barca ou canoa, para dar passagem para o outro lado do rio, desde as 6 horas da manhã às 6 da tarde. Nas noutes em que houver teatro haverá passagem até findar-se o espetáculo. Do outro lado do rio existe outra canoa destinada ao mesmo fim, e às mesmas horas, para que os passageiros não fiquem demorados uns com a viagem dos outros. Os pontos de desembarque são no cais defronte do templo dos Inglêses, do edifício do Ginásio, e ponte junto da fundição do Star, quando aí houver maré. O frete para cada pessoa é para o 1.º, 2.° e 3.° pontos de 80 rs. e para o 4.° e último de 160 rs. Para facilidade do trôco haverá cartões e deverão entender-se com o morador da casa da esquina da rua da Florentina que fica defronte do teatro. Êsses cartões para suavizar a falta de trôco provam que os homens de outrora eram bem mais práticos do que os de hoje. Que o digam os que se atropelam nestes dias correntes com o pagamento de passagens nos bondes. Inaugurado o Santa Isabel, em todos os anos estêve ocupado. Companhias estrangeiras e nacionais. Daquelas preponderavam as italianas, de bel-canto, e as francesas. Ê de relêvo esta anotação: freqüentemente o Recife foi visitado por troupes da França, não somente no seu teatro principal, como nos de arrabaldes. Temporadas longas, por sinal. Uma dessas emprêsas estêve no Ginásio Dramático, do Monteiro, por alguns meses. Sim senhor! Em 1867 estava no Santa Isabel uma companhia francesa cujos anúncios apareciam no jornal assim: THEATRE DE SAINTE-ISABELLE Aujourd'hui lund 29 Juillet le 1867 Représentation extraordinaire dediée au commerce au bénefice de Mme. Mathilde Poppe 2e et 4e actes de ORPHÉE AUX ENFERS o pera-bouffe, musique d'Offenbach Depois da distribuição dos papéis oferecia-se mais: LA FEMME AUX OEUFS D'OR Mme. Poppe remplira quatre rôles de differents caractères e dansera deux pas On commencera à 8 heures
Os anúncios do Teatro Santa Isabel eram publicados nas fôlhas, já encimadas por clichês. A princípio o simples nome do teatro em letras brancas sôbre fundo negro. Mais tarde, uns arabescos, uns emblemas da arte cênica e também uma caixa de ponto com o seu respectivo ocupante a ler a peça, munido de uns cômicos óculos a escorregarem pelo nariz... Anúncios de quase página inteira, circulado, ornado de vinhetas, mostravam-se nos grandes benefícios como o da prima-dona Senespleda, em que se cantou a Traviata. Não eram raros reclamos de circos de cavalinhos ou de acrobatas notáveis, ornados de clichês que representavam trabalhos de equilíbrio, de saltos, de equitação Todos muito curiosos. Dignas mesmo essas gravuras dos jornais antigos, de um estudo feito por especialista no assunto. Não apenas para representações servia o nosso Teatro Santa Isabel. Já em 1852 efetuava-se ali um baile de máscaras. Aliás, num época distante do Carnaval: 22 de maio. As 8 horas precisas a orquestra executaria uma linda peça, finda a qual o mestre-sala daria sinal de início das danças. As quadrilhas seriam intervaladas de 10 minutos e o baile terminaria às 2 da manhã. As senhoras, mascaradas, teriam entrada grátis, sendo expressamente proibida homens disfarçados em mulheres entrarem sem bilhete. Os bailes à fantasia foram bastante comuns no Recife de outrora, Todos os teatros realizavam os seus, e sem dúvida nessa época, em que o Carnaval de rua não merecia sequer uma noticiazinha da imprensa, todo o atrativo de Momo se resumia em tais danças. Vemos assim que, nesse particular, estamos voltando a 1850. A mascarada do comêço dêste século desapareceu; as sociedades de alegorias e críticas famosas como Os Filomomos, Caradura, Nove e Meia, Cavalheiros da Época, morreram; os próprios cordões diminuem de (no livro falta o final da frase-N.do Digit.) Na tarde de 19 de setembro de 1869 tôda a cidade se abala com uma noticia tremenda: o Teatro Santa Isabel estava pegando fogo. E incêndio brabo, indomável, fulminante. Os sinos de São Francisco tocam a rebate. O povo acorre com baldes, gamelas, barris. Vão os menores do Arsenal e os soldados de linha. Atracam canoas cheias d'água. Debalde. As labaredas lambem tudo e só deixam de pé as paredes externas. O Santa Isabel já estivera ameaçado de incêndio há cinco anos: trabalhava ali a Emprêsa Coimbra. Certa. noite, após o espetáculo, o empresário Coimbra já em casa ouvira alguém passar pela rua a dizer: - "Tamanho clarão a esta hora no teatro só pode ser fogo." Sai e acorda o guarda. Com êle e uma praça urbana de serviço entram no teatro e podem ainda apagar as, chamas que, perto de um cenário, iniciavam seu destino de destruição. O ator Furtado Coelho, que fazia parte da companhia, esteve envolvido no caso e respondeu a interrogatórios, vindo até pela imprensa defender-se. Agora, porém, Furtado Coelho não se encontrava no Recife, e; procurou-se outra causa para o fogo que lavrara na nossa bela casa de espetáculos, conforme noticiou o Jornal do Recife: HORROROSO INCÊNDIO A nossa capital presenciou ontem à tarde um espetáculo contristador. O elegante teatro de Santa Isabel ardeu totalmente. As 4 horas da: tarde os sinos do Convento de São Francisco deram sinal de Incêndio e hora e meia depois só restavam do majestoso edifício as paredes, laterais e o seu interior era um enorme e medonho braseiro que ardeu por muito tempo. Foram baldados os esforços e poucos socorros
O teatro Sta. Isabel no tempo em que se ia aos espetáculos nas canoas. À direita o Palácio do Govêrno. Praça da República – antigo Campo do Erário e depois das Princesas. À direita o Palácio do Govêrno e ao fundo a Assembléia Estadual e o Ginásio Pernambucano.
que se poderiam prestar, os únicos de que dispomos. A violência do fogo resistiu a tudo e não deu tempo a salvar-se quase nada. Não se sabe o que deu causa a semelhante sinistro; apenas que o fogo começou a desenvolver-se pelo ângulo norte posterior do edifício, e no andar superior aonde estavam os camarins dos artistas. O edifício tinha custado 500 contos e começou a funcionar em 1850. No dia seguinte, entretanto, a fôlha já acrescentava qual fôra, o motivo do fogo. Ocupava o teatro uma companhia lírica do empresário Amat. Na véspera cantara-se o Fausto e utilizara-se um "aparelho elétrico", certamente para "efeitos infernais". Deixado, tal aparelho no camarim da prima-dona, não se sabia como, produzira o sinistro. Uma fôlha de Paris, tempos depois, explicou melhor o caso. De fato o tal aparelho carregado de magnésio ficara no camarim, e na manhã seguinte o sol, entrando por uma vidraça" fizera a explosão e o incêndio, só pressentido já de tarde e violento. O jornalista parisiense fazia sua blague: O sol único culpado de incêndio decerto é uma novidade, mas tudo, é novo e original naquelas latitudes. (no livro falta o início da frase-N.do digit.) número; o corso agoniza; o próprio entusiasmo de rua esmorece. Resta o frevo nos clubes. Eis a realidade. O maestro da Companhia, perdem com o fogo tôda sua preciosa, biblioteca musical, no valor de 80.000 trancos. Os artistas ficaram também em aperturas, e em seu benefício realizou-se uma festa de arte. Dias depois o aludido maestro publicava: LIÇÕES DE CANTO, MÚSICA E DESENHO G. Marinangeli ficando sem meios de subsistência pela horrível catástrofe acontecida no teatro de Santa Isabel e não querendo ser de pêso à sociedade, propõe-se a dar lições de música e de desenho como já fizera há 20 anos em cinco colégios de ambos os sexos e em várias casas particulares. Poderia ser encontrado "na Rua do Sêve" (dita ilha dos Ratos), propriedade do Sr. Tibúrcio, ao pé de quatro coqueiros. Nesse mesmo anúncio, abaixo, a Sra. Giulia Marinangeli, discípula do Conservatório de Milão, achando-se resolvida a deixar a carreira teatral e fixar residência no Recife, "onde sempre recebeu tantas provas de estima e consideração", também dará lições de Música e Canto. No velho Santa Isabel estreou a 14 de fevereiro de 1857 o grande ator João Caetano, lembrando-se sem dúvida de quando em 1824 estivera no Recife, como simples soldado das tropas de Pedro I. Eram no tempo êstes os preços das localidades: camarotes de 1.ª ordem, 8$; de 2.ª, 10$; de 3.ª, 6$, e de 4.ª, 4$; geral, 2$. A peça da estréia foi o drama em 5 atos A Dama de San Tropez. Antes, João Caetano recita um monólogo de saudação ao público. Nessa temporada já havia ônibus para Apipucos "após os espetáculos". Do repertório constavam o D. César, de Bazan, e Otelo. No drama A Gargalhada, João Caetano, fazendo o papel de louco, compenetrou-se tanto dêle que ao dobrar risadas de insano teve uma síncope, acudindo-o o Dr. Praxedes Pitanga, médico ainda muito conhecido no Recife nos começos dêste século.
Incendiado o teatro, pensou-se logo em reconstruí-lo . O Presidente da Província, nessa época, opinou pelo levantamento de um novo e em outro local. Mas preponderou a idéia da reconstrução. E foi-se cuidando disto. Entrementes, erguera-se um barracão no mesmo Campo das Princesas para servir de teatro. Tomou o nome de "Pavilhão Santa Isabel", e ali trabalharam várias companhias, realizando-se também bailes de máscaras, nos quais se dançaram as quadrilhas da moda: 7 de Setembro, Noites de São João, Perichole, La Coquette, as valsas Rainha das Rosas e Os Guardas da, Rainha. Terminavam os bailes com o galope. Nessa mesma época, inaugurou-se na Rua das Florentinas o Teatro Santo Antônio. Ali predominou o gênero brejeiro, sem prejuízo, todavia, de grupos de arte mais nobre, como dramas e operetas. Em francês levaram-se vaudevilles como Haltelá, L'Amour d'épicier e Je ne peux pas mettre la main dessous, o que faz lembrar o atual samba Tire a mão daí. No Santo Antônio por longo tempo trabalhou a Emprêsa Vicente & Baía, da, qual fazia parte o ator Xisto Baía e bem assim o maestro Colás. Anunciavam-se melhoramentos no teatro, como rebaixamento do parapeito dos camarotes, que se tornariam mais elegantes e cômodos às senhoras. Adivinha-se que êsse rebaixamento visava proporcionar ao belo sexo ensejo de se mostrar melhor nos seus vestidos de sêda, nos seus adereços de brilhantes... Os camarotes de frente eram mais caros (12$) do que os de lado (10$). Havia 6 frisas com 4 lugares, cadeiras reservadas ou não, e gerais. As cadeiras reservadas "poderiam ser ocupadas por senhoras pois eram dispostas espaçosamente". Depreende-se daí que as senhoras não freqüentavam muito a platéia, por ficarem muito próximas dos homens estranhos. Quão longe se estava das superlotações nos bondes! O Santo Antônio foi honrado com a Grande Companhia Italiana do Cav. Luigi Boldrini, que levou Morte Civil, Francesca de Rimini, Norma, Tôrre de Londres e Dois Sargentos. Camarotes a 18$. O Pavilhão Santa Isabel veio a chamar-se depois Ginásio Dramático e Fênix Dramática. Viveu, porém, até o Santa Isabel reinaugurar-se, o que se deu na noite de 16 de dezembro de 1876, com a ópera de Verdi O Baile de Máscaras. A 27 de setembro de 75 o Santo Antônio teve uma bela festa: o benefício da atriz Eugênia Câmara. Benefício com a Condêssa de Sennecy e o dueto Estudante e Lavadeira. No intervalo a beneficiada visitou as famílias nos camarotes, agradecendo-lhes o comparecimento. Eugênia Câmara lembra Castro Alves. Este na noite de 11 de novembro de 1865 recitara em cena aberta o seguinte soneto, dedicado a Adelaide do Amaral : Artista, tua voz é a melodia De Sorrento nas veigas perfumosas; É teu riso o esfolhar de brancas rosas, Voar do cisne errante da poesia! Quando gemes, o arcanjo da harmonia Colhe em teus lábios flôres odorosas, E do teu pranto as gotas preciosas São estrêlas de luz n'alva do dia. A Camélia esfolhada sôbre o dorso
Do mar da vida, em ondas de sarcasmo, A Hebréia, condenada sem remorso... Tudo sublimas, tudo. E eu digo em pasmo: "Gênio, gênio... inda mais... sublime esfôrço Das mãos de Deus no ardor do entusiasmo". No ano de 1863 o Teatro Santa Isabel recebia a visita da Companhia organizada por Duarte Coimbra, da qual faziam parte a artista Eugênia Câmara, que iria se celebrizar não pròpriamente por estrêla do palco, mas por haver despertado a imensa paixão de um jovem baiano naquela mesma época chegado ao Recife a fim de matricular-se na Faculdade de Direito: Antônio de Castro Alves. Assim se anunciara a estréia da Companhia: TEATRO SANTA ISABEL Emprêsa de A. J. Duarte Coimbra Estréia da nova Companhia, honrada com a presença de S. Ex. o Sr. Presidente da Província 1.a récita de assinatura. Hoje. 1.a representação do magnífico drama em 4 atos e 6 quadros de Octave Feuillet DALILA Imitação do Exmo. Sr. Antonio de Serpa. Personagens O Cavalheiro Carmoli - Sr. Furtado Coelho André Rowein - Sr. Lisboa Sertorius - Sr. Flávio A Princesa Falconiere - D. Eugênia Câmara Amélia Sertorius - D. camila A Marquesa Naray - D. Joana O Príncipe Kalsch - Sr. Guimarães O Marquês de Sora - Sr. Lessa Marieta, criada da Princesa - Sra. D. Leopoldina Senhoras e Cavalheiros A ação passa-se em Nápoles. Atualidade. A música é composição do Sr. Furtado Coelho. ____ 1.a representação do vaudeville em 1 ato A FILHA DE GRINGOLET personagens Paulo Haville - 1.º ator do Teatro Francês - Sr. Lisboa Gastão Lunay - ator cômico - Sr. Penante Ricardo, discípulo de Paulo - Sr. Guimarães
Sofia Gringolet, Margot e a Embaixatriz - Sra. Eugênia Câmara Belmont - tambor. Atores do Teatro Francês Principiará às 8 horas. Os Senhores Assinantes terão a bondade de mandar buscar os seus bilhetes de camarotes ou cadeiras de segunda-feira em diante no escritório do Teatro, aonde lhes serão entregues os recibos da primeira prestação de 10 récitas. ____ A Emprêsa, de acôrdo com o Sr. Furtado Coelho, admite quatro moços que queiram dedicar-se à arte dramática para fazerem seus estudos debaixo da direção daquele artista, o qual previamente decidirá se podem ser admitidos, visto que se exige o conhecimento de alguns preparatórios indispensáveis para poderem utilmente cultivar a cena. DUARTE COIMBRA. Terão aparecido êsses quatro jovens preparatorianos? A julgar pelo preconceito que havia contra os "cômicos" e, ainda mais forte visando as "cômicas", mulheres que até pintavam os rostos, é de supor o que possa ter acontecido, em casa, com os moços cujos desejos pendessem para aceitar êsse convite do Empresário Duarte Coimbra... Bastava que se houvesse "perdido" aquêle moço baiano que vira justamente a vez primeira a Eugênia Câmara, numa noite da Dalila. O Recife do novo Santa Isabel já seria bem outro que não o de 1850. Ruas calçadas, iluminação a. gás, bondes de burros e maxambombas, carros em abundância. O aspecto, pois, dessa primeira récita com a música de Verdi, terá sido de um esplendor muito acima do daquela distante representação do O Pajem de Aljubarrota, ainda com palanquins à porta e candeias de azeite no palco. Em novembro de 1876, decorridos sete anos do incêndio que o destruíra, o Teatro Santa Isabel achava-se quase pronto. Era uma nova e mais bela casa de espetáculos. Falava-se do que vinha vindo da Europa em material de arte cênica, decorações, mobiliário, por ser do maior valor modernista e do mais fino gôsto . Os transeuntes do Campo das Princesas paravam a fim de admirar o suntuoso edifício, e alguns já o tinham visitado internamente, saindo de lá satisfeitos. Só se falava no "teatro novo". Afinal, de bordo do vapor Valparaíso desembarcaram elementos artísticos da Grande Companhia Lírica Tomás Pasini, que inauguraria êsse teatro. Cenários e guarda-roupa estavam entrando, também. E, por fim, noutro navio chegavam o tenor Lelmi e a prima-dona Cortezzi. Faziam ainda parte do elenco a primadona meio-dramática Isabel Escalante, o primeiro barítono Spalazzi, o baixo Giovanni Scolari. Dezoito coristas de ambos os sexos. Outros cantores de menor vulto. Do repertório constavam: Rigoleto, Baile de Máscaras, Lúcia, Trovador, Favorita, Barbeiro de Sevilha, Lucrécia Bórgia... A noite de inauguração do Teatro Santa Isabel e da estréia da Companhia Pasini seria com o Baile de Máscaras. Os preços das localidades eram êstes: Camarotes de 1.a ordem, 14$; de 2.a, 16$; de 3.a, 12$; de 4.a 6$; cadeiras de galeria e de 1.a classe, 3$; de 2.a, 2$; platéias, 1$; "paraíso", 500 rs. Libretos das óperas a dez tostões.
Na véspera, à noite, fizeram experiência da iluminação, que esteve esplêndida, e a orquestra verificou se a posição das estantes era conveniente. Executaram o Hino Nacional e a ouverture de Marco Sparda. "As poucas pessoas que ali se achavam sentiam uma verdadeira emoção de alegria, quando o conjunto harmonioso dos instrumentos despertou os adormecidos ecos daquela restaurada sala. Foi um prelúdio de gozos que não tardaram muito a se realizarem". É de se imaginar essa emoção por parte dos que outrora, ali, se haviam tanto deleitado, antes do pavoroso incêndio de 1869, e, agora, reviam a platéia mais formosa, mais ampla, mais luxuosa, onde de fato gerações e gerações viriam a se deliciar com o drama, a ópera, a opereta, a revista, a comédia... A noite de 16 de dezembro foi a da inauguração. O espetáculo iniciou-se às 8 horas, com a chegada do Presidente da Província. Da sociedade que enchia camarotes, cadeiras, galerias, basta-nos, para têrmos uma idéia, povoar mentalmente tôdas essas localidades com aquêles tipos masculinos, de severas barbas, negras casacas, gravatas de voltas, colarinhos pontudos, peitilhos gomados, alguns ostentando comendas. E ao lado, nos camarotes sobretudo, as damas de cabelos penteados pelos cabeleireiros de Paris, os colos desnudos nos decotes, as jóias chovendo nos pescoços, nos dedos, nas orelhas, nas cabeças, os amplos leques de plumas, as saias tufadas... Moviam-se os binóculos. Cumprimentavam-se conhecidos. Sorria-se com inocência ou malícia. As carruagens deixavam mais gente sob as arcadas do teatro. Espalhava-se o aroma forte dos mais apreciados extratos franceses. O maestro apareceu e dali a pouco iniciou-se o Baile de Máscaras. Noite inolvidável! Uma casa de espetáculos que fazia inveja ao Brasil inteiro. E no outro dia o noticiarista entusiasmava-se: "Muitas cadeiras da platéia achavam-se ocupadas por senhoras, como é uso nas cidades adiantadas da civilização'." Senhoras na platéia! Que se poderia dizer mais? Uma maravilha de progresso! Iase encetar a verdadeira existência de brilho do Santa Isabel. Todos os gêneros e muitas celebridades visitá-lo-iam. Nunca o amor à arte cênica se manifestara tão forte nos pernambucanos. Hajam vista os benefícios dos artistas. Legítimas apoteoses, que começavam no conduzir-se o beneficiado ao teatro, em cortejo de carros, com fogos de bengala e música de pancadaria. As ornamentações da platéia eram caprichosas. Os discursos, as poesias, as flôres diziam do entusiasmo. E não menos os presentes. Em 1881, para citar um simples exemplo, a prima-dona Senespleda, ao dar sua récita de honra, com A Traviata, recebeu de seus admiradores: - uma pulseira de ouro com brilhantes; outra de ouro cravejada de pérolas; outra com a palavra "Amizade"; outra ainda com brilhantes; um anel de ouro com três voltas, dois rubis, duas esmeraldas; um porta-buquê de pdta; duas salvas de prata; uma cestinha de cristofle; uma caixa de charão com rendas da terra; um leque de madrepérola; três buquês de flôres artificiais com laços de fitas; um buquê de flôres de cêra; uma medalha de ouro e brilhantes; uma faixa de sêda azul bordada a ouro; uma coroa de louros. Excusez du peu. Esta coroa lhe foi posta à cabeça no palco, e na ocasião a Senespleda entregou a carta de alforria a uma negrinha, Maria Rosalina. Além da Traviata, a beneficiada cantou a ária da Dinorá. Em 1871 houve uma surprêsa teatral. Tocara neste pôrto o vapor francês Galatéia, em que viajava para o sul o grande trágico Rossi. De repente, sabe-se que o vapor demoraria aqui três dias e que Rossi se exibiria nesta capital. Um presente inesperado do Céu. E de fato Rossi deu três representações, com o Cid e Orestes. Tal a impressão por êle provocada, que o Sr. Plínio de Lima recitou uns versos que terminavam assim: És a estátua animada da tragédia, O gênio da paixão, da dor talvez. Tu tens a alma transbordando glórias, Tu tens dois mundos te beijando os pés. Um teatrinho que fêz época no Recife, no fim do século passado, foi o Nova Hamburgo, na Rua das Florentinas. Pertencia a uma cervejaria, e, embora se dedicasse mais ao gênero café-cantante, também abrigou companhias de declamação e de canto. O seu forte, porém, era a cançoneta, o dueto, a dança. Bailarinas que se exibiam escandalosamente no cancã... Mostravam-se as pernas e os calções... As famílias tinham o Nova Hamburgo como "um antro de pecados", e os homens como "um paraíso na terra". Choque de opiniões. Ali também se realizaram grandes concertos. Outros teatros recifenses que mereceram predileções foram os de arrabaldes: os da Encruzilhada, Capunga, Afogados, Monteiro, Poço da Panela. Neste último subúrbio inaugurou-se de maneira solene o Ginásio Campestre, na noite de 18 de outubro de 1868. Ficava no sítio do Coronel Lobo. Possuía 24 camarotes, 300 cadeiras e 144 gerais. O Conde de Baipendi, Presidente da Província, estêve presente à inauguração. Levou-se à cena a alta comédia em 3 atos de Scribe, com música do maestro Colás - Giralda. Vendiam-se bilhetes para 10 récitas a 115$000 para os camarotes, 22$500 para as cadeiras e 12$500 para geral: "Iluminação veneziana". Trens grátis. O teatro do Monteiro era o Ginásio Dramático, do empresário Giovanni. Em Caxangá, o Teatro Chalé. Em todos funcionaram companhias francesas. Também foram comuns os dramaspastoris ou presepes, como o do ator Santa Rosa, na Capunga, constituído de moças de família e de grande fama. O Teatro de Apolo teve seu ocaso em 1864. Fizeram leilão de seus pertences: 5 sofás de amarelo, 8 consolos de pedra-mármore, 2 de jacarandá, 300 cadeiras idem, 4 estufadas, 184 mochos com palhinha, 24 bancos também de palhinha, 24 sem encôsto, 8 estantes de música, 4 grandes estrados, 8 cadeiras de couro, 3 lustres, 19 arandelas com mangas. O teatro ia virar armazém de açúcar, e ainda hoje o prédio exibe melancòlicamente sua fachada antiga, em que há, no alto, um emblema da Sociedade Harmônico-Teatral. No palco do Santa Isabel todo o repertório do tempo foi encenado. Operas de Donizetti, Bellini, Verdi, Rossini, Mascagni, Massenet, Leoncavallo, Puccini... Tôdas as operetas famosas: Mascote, Bocácio, Sinos de Cornevill, D. Juanita... Todos os dramas: Duas órfãs, Mártir, Dama das Camélias, Os Velhos, João José, Morgadinha de Val-Flor... Sem falar nos mágicos, saltimbancos, bufos. Viriam as revistas: Rio Nu, Irene, Capital Federai, Jagunço, Tintim por tintim... E os vaudevilles apimentados: Lagartixa, Hotel do Livre-Cambio, 28 dias de Clarinha... Isto já se entrando pelo século XX, cujos primeiros anos ainda foram de constante esplendor do nosso velho e belo teatro. Dos começos dêste século lembram-se ainda temporadas magníficas, como a de
Cristiano de Sousa-Lucília Simões. Em setembro de 1901 precisamente. Faziam parte da troupe Nanete de Sousa, Inácio Peixoto, Rangel Sobrinho, Ramalhete, Chabi Pinheiro, Matos, Alberto Silva. Êste era também dado à aeronáutica; trouxera um balão e quis subir nêle, aqui no Derby. Mas um dia o aeróstato apareceu incendiado. E fracassou a ascensão. Encenaram no Santa Isabel a Zazá, a Tosca, Francillon, Diana de Lis, Blanchette, Lagartixa. Os benefícios ainda se revestiram de pompa, com ornamentações, cortejos, presentes, sobretudo o de Lucília Simões. Levara a Zazá, com um ato de variedades. Quem não se recorda de Chabi a declamar: "Rataplã... Rataplã... Rataplã" com aquela sua dição maravilhosa? E nessa vizinhança saudosa de 1900, a Gustavo Campos, a Tomba, a Aurélia Vieira, a Ângela Pinto, o Brasão, a Silva Pinto. Uma sucessão de gêneros, com a Marcha de Cádis, Tempestade, A Mártir, Amor de Perdição, Ao Telefone, Frei Luis de sousa, A Severa, Rio Nu, Irene, A Capital Federal... Já em 1909 uma estréia sensacional - A Viúva Alegre, a famosíssima opereta de Lehar que o mundo inteiro cantava e aplaudia, pela primeira vez entre nós. A Cia. Miranda, com Martins Veiga e Lopicolo, no-la dava a conhecer. E no outro dia o Recife começava a assobiar a valsa de Ana Glavari. Os tempos iam mudando. Já não se cantarolava tanto aquela ária deliciosa do Bocacio: Feliz, na infância dorme Em paz o coração... ou a do sourcouf: Um dia me deu na veneta Um banho no rio tomar... Agora todos sabiam era o: Encontro no Maxime Um restaurante sublime, Cocottes às centenas, Quer louras ou morenas... Mas o teatro ainda não tivera de enfrentar o seu adversário o cinema - e os espetáculos continuavam a constituir uma preocupação de arte e de moda. Outras as costureiras: Madame Fanny e Pigeon, as Carmelas, a Gérard; outros os alfaiates: o Melichareck, Virgílio Cunha, Manuel do Carmo, o Falbo; lojas de jóias do Krause, Goetschel, couceiro; de modas - a Viúva Guilherme, a Casa Inglêsa, o Louvre, a Rosa dos Alpes, Paradis des Dames, o Coelho; cabeleireiros - o Odilon Duarte e o Peniche; sorvetes no Café Rui e na Puerta del Sol... ! Era nesses estabelecimentos de realce, do tempo, que cavalheiros e damas, rapazes e moças, se apuravam no trajo e nos enfeites para bem se mostrarem nos camarotes, nas cadeiras e no salão do Santa Isabel. Teve o Santa Isabel seus maus dias, é claro. Emprêsas que fracassavam e se dissolviam. Mortes de artistas. Resingas intimas. A ponto de uma fôlha humorística ironizar : O Santa Isabel está com cafife. O Bérard adoeceu. O Peixoto brigou com a Ângela. A Ângela foi roubada na pensão. O Mafra arengou com o Leal e foi demitido. A orquestra substituíram-na pela banda de música da polícia. A Carolina Falco morreu. Só um frade benzendo... Não teria sido preciso chamar Frei Celestino, na Penha. Mesmo porque êle estaria muito ocupado a discutir com o pastor protestante Salomão Ginsberg e a queimarlhe as bíblias...
O cafife era momentâneo. Viriam novos triunfos com a Rotoli-Biloro ou a Vitale, senão com a Itália Fausto ou o Leopoldo Fróis. Em 1910, quando o cinema por sessões já triunfara no Recife,. com o Pathé e o Royal na Rua Nova, inaugurou-se na Rua da Imperatriz o Cine-Teatro Helvética, anexo a uma fábrica de bombons do mesmo nome. Êsse Helvética, com o seu jardim interno e o seu palco, encheu a vida recifense por mais de dez anos e pontilhou-a de malícia e encanto brejeiro. Foi o Nova Hamburgo do século XX. Mais aperfeiçoado, é óbvio. Com luz elétrica, piadas modernas, chiste por música, começos de nu e pezzi-duri... Programas cinematográficos e companhias de teatro ou conjuntos ligeiros. Brandão Sobrinho com Pra-Burro... Os Geraldos, a Bela Zazá, a Tressols, Le Chocolat..., Laura de sade, Los Criolitos... O maestro Ribas com a sua orquestra e as suas canções em voga. O Helvética dos dias agitados do dantismo com a Vassourinha e os tiroteios! O Moderno e o Parque nasceram como êsses filhos de fidalgos, cheios de altos preconceitos e que depois se acomodam democràticamente a posições menos ostensivas. Ambos se inauguraram em 1915. O primeiro com uma companhia lírica que cantou óperas novas no Recife; depois abrigou outras emprêsas de realce, e por fim virou cinema. O Parque teve sorte idêntica. Viram-lhe o palco ocupado por conjuntos de ópera, opereta, declamações, revistas. Da Vitale ao Pé-de-Anjo... A Velasco e a Bataclã... Depois, igualmente, cinematógrafo. A princípio, em ambos, as excelentes orquestras. Por fim, os alto-falantes... Foi, dêste modo, relativamente efêmera a importância do Helvética, do Moderno e do Parque na crônica teatral do Recife. Nenhum dêles pôde nas suas platéias oferecer o ambiente de distinção do Santa
Isabel. A cidade terá de possuir breve outra casa de espetáculos com proporções que permitam uma assistência a preços razoáveis e compensadores para as grandes companhias, que já não nos visitam porque o Santa Isabel seja pequeno e as localidades tenham de ter alto preço. Todavia, com o à-vontade da indumentária de hoje, êsse novo teatro não obterá mais, sem dúvida, o brilho, a galanteria, a elegância das grandes noites de outrora. Guardará, no entanto, o Santa Isabel, para os que as conheceram. a recordação de sua platéia fina e imponente, repleta de casacas ou de fraques, de peitilhos com abotoaduras de brilhantes, de vestidos de sêda que rangia, de diademas e penachos, de tôda aquela finura que se espalhava pelos corredores e pelo salão cheio de sofás antigos e de espelhos dourados. Os espelhos ainda lá se acham, mas, se falassem, que nos diriam a respeito de modas e de maneiras? É melhor que não falem. Deixemo-los com suas mudas recordações. Para que as externarem? Há sempre tanto desagrado quando se é sincero... Fiquemos nós com as nossas intimas evocações do Santa Isabel. Vejamos na bilheteria o Mafra com seu cavanhaque; à porta o João dos Cartazes a distribuir programas; sob a arcada, o Lanchê vendendo pãezinhos recheados de camarões, e, lá fora, as barraquinhas de tôldo de lona onde o café cheirava tanto e os sauduíches não eram microscópicos... E se voltamos à nossa cadeira ou à nossa "ostra", por ser noite de enchente, evoquemos, no gênero ligeiro, a voz da Pepa Ruiz a entoar no Tintim : Uma flor no peito Quer dizer respeito...
Leia gratuitamente Arruar: história pitoresca do Recife antigo, de Mário Sette, obra brasileira em domínio público. Edição digital preparada a partir da fonte oficial de Mário Sette, com leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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