Universo da obra
Universo da obra
É conhecido o episódio do copo d'água de Van Schkoppe. Os batavos achavam-se encurralados no Recife quando pela segunda vez o general holandês veio a Pernambuco. A situação dos compatriotas era crítica, e êle acudia com a fanfarronada de quem se constituíra ali, anos antes, um vitorioso, se bem que com a ajuda valiosa de Calabar. Libertaria do assédio as tropas flamengas e conduzi-las-ia a novos triunfos. Favas contadas. Logo ao desembarcar, folgazão e otimista, pede água para beber. Lembrava-se da que outrora sorvera, em tardes de calor, por aqueles arredores sombreados e deliciosos da terra pernambucana. A de bordo era intolerável, com sabor de barril, e tivera de achá-la suportável durante um mês e tanto. Agora, beberia água límpida, gostosa, fresca. E um oficial, cortês ou bajulador, trouxe-lhe pressuroso o copo d'água. Bebe-a Schkoppe e faz uma careta. Diabo! Salobra, ruim!... Desculpam-se. A melhor que havia. Os soldados bebiam líquido pior, quase lama. A boa, ainda existia, sim, porém longe, de cacimbas onde ir buscá-la constituía arriscar-se a 99% de probabilidades de morrer. Os insurretos tocaiavam os que iam ali e atiravam de pontaria certa. Schkoppe conformou-se, não sem esta frase resoluta: - Breve eu dou a vocês outra água para beber! Não a deu. À primeira tentativa de rompimento do cêrco, nos Guararapes, Schkoppe é derrotado e é ferido. Continuou a beber água salobra até voltar à Holanda. O problema do abastecimento d'água no "povo" dos Arrecifes terá sido, desde a fundação dêste, o do transporte em barris ou potes de rios ou cacimbas em que o líquido para a bebida ou a cozinha fôsse realmente doce. A do Capibaribe, ali perto da foz, era salgada. Iam portadores a pé ou em canoas, venciam sensíveis distâncias, empregavam muita atividade e esfôrço na tarefa. E a água sempre seria insuficiente
ao consumo da gente que crescia na povoação e dos que ali apartavam em navios do reino. A primeira água que os recifenses beberam mais à vontade foi a do rio Beberibe Vinha de Olinda em canoas e era vendida nas praias fluviais do Arrecife. Embora o serviço desse lucros e interessasse aos que o exploravam, êstes punham a população em situações críticas. Não se podia botar as panelas no fogo. Em 1749 realizaram-se em Olinda notáveis melhoramentos na captação das águas do Beberibe para o consumo público: construíram uma ponte de cantaria lavrada com dez arcos, muito imponente, e uma muralha que represava o rio, evitando que o atingissem as marés altas. Dezoito bicas deixavam a água gostosa e límpida correr para os baldes, as gamelas, os barris... Todo o mundo ia ver essa maravilha: em cima, a água doce; em baixo, a água salgada. Os canoeiros, sôbre esta última, colhiam a potável, num verdadeiro milagre de engenho. As 18 bicas do Varadouro davam que falar a tôda a população da Olinda do século XVIII. Davam que falar somente, não. Prodigalizavam-lhe ensejos de prazer, de divertimentos, de repouso e de urbanismo. O Varadouro tornou-se logradouro delicioso, encantador. Puseram bancos ao longo da muralha. Árvores de sombra. Havia banheiros para os bons mergulhos. Afluíam moradores e forasteiros. Interêsses de tôda espécie: despachos de gangas, quinquilharias, vinhos, brocados, trazidos da Europa; embarques de açúcar e de algodão; palestras com amigos; entretenimentos de namoros; ócios de meditações, de projetos... O Varadouro via de tudo. O palanquim de rebuço com uma dama curiosa de espiar as bicas; os buréis dos frades, as barretinas dos "henriques", a belbutina dos pajens, a chita das mulatinhas, o veludo dos mazombos, a estamenha listrada dos escravos. Carregadores d'água. Pretas vendedoras de pastéis e cocorotes, beijus e alfelôs, tapiocas e alfenins. Apareciam também estudantes e poetas. Glosavam o mote em voga: Honra a cidade de Olinda A ponte do Varadouro, assim: "Salvando a extensão infinda Onde Netuno é senhor, O grande Souto-Maior Honra a cidade de Olinda Mal outro govêrno finda, Vem um outro imorredouro, Que Jove cobre de louro E para o saudar jucundo Se ilumina além do mundo A ponte do Varadouro." Passavam perto, na quaresma, as procissões. Desde a do Entêrro, com seus irmãos encapuzados e os cantos dolentes das beús, à de Cinzas, com o papangu à frente brandindo um rêlho e recebendo caroços de pitombas. Em noites de lua, tocavam violas e entoavam lundus. O Varadouro estava até na ironia dos versos populares : Caixeiro bebe na venda E o patrão no Varadô... Êsse sistema de condução em barcos vigorou até o século XIX, quando o Recife veio a ter "água da encanação". Traziam-na até então quer do Beberibe, quer dos Apipucos, via fluvial, ambas apreciadas pela finura, côr e gôsto. O negócio da vendagem de água pelas ruas e domicílios deveria ser rendoso para os senhores dos escravos que dêle se encarregavam, porquanto pediam pelos jornais, para aluguel e compra, pretos que já fôssem afeitos ao mister. Eram os "aguadeiros", profissão em que muitos libertos de 88 permaneceram, servindo às casas não providas ainda de "água encanada". Construíram-se, depois, depósitos d'água em certos pontos da cidade, pois em 1831 se aludia a um dêsses reservatórios na Rua Nova. Iria ser demolido pela Prefeitura, motivo por que "ninguém poderia fazer mais negócio com êle". Certamente, dali, com mais presteza, os aguadeiros transportavam a domicilio sua carga ambicionada pelas famílias, que ansiavam por botar as panelas no fogo para o almôço. Também as pretas se entregaram ao serviço de carregar água. Na Rua do Sol, "canoa d'água do Januário", precisava-se de boas negras vendedeiras, dando-se um cruzado, ou um "sêlo", a quem se apresentasse para tal mister. Vendia-se uma canoa para carregar oito patacas d'água. Uma das qualidades de água mais em aprêço era a da "bica do Monteiro", que se oferecia coada em três panos antes de entrar para o depósito. Custava 20 réis o caneca, na Rua da Praia, por trás da Ribeira, casa de esquina. Uma postura de 1840 determinava que não se conduzisse água em canoas abertas, e sim em tanques ou pipas fechadas. Essa angústia pela água revelava-se indiretamente em certos aspectos da vida de então. No uso do banho, por exemplo. Quem morasse em casa perto do rio estava servido neste particular; tanto assim que o banho de rio nesses tempos passara a ser um prazer, quando não um remédio. Os banheiros de palha faziam parte do confôrto até dos palacetes do Poço, Ponte d'Uchoa, Monteiro... Mas os que residiam no centro da cidade e nos sobrados? Banhos de bacia e de gamela. Quando havia água bastante... Num regulamento de internato fixavam-se os dias de quartas-feiras e sábados para os alunos se banharem, e em outra publicação semelhante fazia-se o elogio do banho como uma necessidade higiênica. Em 1837 aparece a lei provincial que autorizava o contrato para o serviço de abastecimento d'água da cidade do Recife, "por meio de aquedutos apropriados, utilizando-se para êsse fim o açude do Prata, em Apipucos, ou o rio Beberibe. Construir-seiam três chafarizes no bairro do Recife, seis no de Santo Antônio, três no da Boa Vista, um na Soledade. O prazo para a realização total da obra seria de 8 anos, e o da concessão de 35. A emprêsa a ser organizada obrigava-se a fornecer o balde d'água a 20 réis, fazendo-o gratuitamente às estações públicas, navios do Estado e incêndios". Não tardou a instalação da Companhia que se chamou do Beberibe. 20 de dezembro de 1838. As 11 horas da manhã, no prédio da Sociedade Apolínea. Elege-se o Conselho Deliberativo Discursa o Sr. Bento José Fernandes Barros. É lavrada a ata dessa notável sessão; assinaram-na José Ramos de Oliveira, como presidente, Bento
José Alves, secretário, e na qualidade de escrutinadores, Dr. José Bento da Cunha Figueiredo e Manuel Coelho Sintra. O Conselho Deliberativo fica formado dos Srs. Manuel Coelho Sintra, Bento José Fernandes Barros, Bento José da Costa, Bento José Alves, Francisco Manuel Silva Tavares, João Pinto de Lemos, Manuel Gonçalves da Silva e Antônio José Pires. Como se vê, nessa reunião fundamental eram tantos os Bentos que a água não poderia deixar de ser mesmo abençoada para os recifenses. De 1841 há notícia de outra sessão, em que os acionistas da Companhia do Encanamento d'Água tomaram conhecimento das plantas; plano e orçamento apresentados pelo engenheiro Coronel Conrado Jacob de Niemeyer e Major Pedro de Alcântara Bellegarde. Mais um ano decorrido, e já se falava em que a água encanada estaria na Boa Vista muito em breve. Convidavam-se as pessoas que quisessem visitar as obras do encanamento da água do Prata a verem-na correr da torneira colocada junto à povoação do Monteiro. Encontrariam os visitantes ali, durante 5 dias, um servente encarregado de satisfazer êsse desejo da população, abrindo a referida torneira. Sem dúvida, os caminhos do Monteiro encheram-se de curiosos: A cavalo, a carro, de cadeirinha, quando não a pé ou em canoa, poucos foram os que deixaram de fazer seu passeio ao arrabalde famoso e de provar a água fria e límpida. Ah! quando ela chegasse à cidade a um simples torcer de torneira! O mundo seria outro. E a água foi descendo... Em 1845 estava na Ponte d'Uchoa. Já os aguadeiros iam ali buscá-la para distribuíla pela cidade. Tão perto l O exame dessa água afirmara: "mais leve, mais pura, e de modo algum impregnada de matérias betuminosas e insalubres". Sabia-se lá como eram tratadas as canoas que traziam a de Olinda ! Diziam que os negros tomavam banho dentro dos depósitos... Por isso mesmo havia tanta febre maligna! Gabava-se também o local dos mananciais. Um paraíso. Matas, "lagos poéticos", caminhos rústicos, passarinhos a cantar. Servia para passeios, repouso, piqueniques. E - acrescentavam os maldosos - amôres... Evocava-se o episódio de Branca Dias atirando ao açude sua baixela de prata ao ser prêsa como feiticeira... Aguardava-se com impaciência a água da encanação. O próprio local do manancial já tomara êsse nome que depois enfeitaria a estação da maxambomba. Afinal, no dia 21 de maio de 1846 inaugura-se a caixa d'água da Rua do Pires, o grande reservatório da cidade. Cedinho o bairro da Boa Vista traía-se em ares de festa. E festa invulgar. Interessava a crentes e rebeldes, a ricos e pobres, a negros e brancos. Em coretos próximos, as músicas da linha e da Polícia tocavam dobrados daqueles que faziam o povo bulir com as pernas sem querer. Até as moças, "Deus me perdoe!". Foguetes estralando. Moleques a correr para apanhar tabocas. Outros com mêdo das cabeças. Arcos de murta e de café ornamentando a Rua do Pires. Luminárias preparadas para de noite. As 11 horas chegam as autoridades: o Presidente da Província e o Bispo. Foi êste quem abriu a primeira torneira, usando uma chave de prata. E a água jorrou bonita de verdade, quase espumando, entre as aclamações da multidão: - Viva Sua Majestade o Imperador! - Viva Sua Majestade a Imperatriz! - Viva Pernambuco ! Abriram-se outras torneiras. Agua de não se acabar mais. Um júbilo intraduzível. Bôcas que sonhavam com fartura dera a sêde. Corpos que fremiam ao gôzo das gamelas a transbordar. Nesse mesmo dia entraram em funcionamento os chafarizes da praça da Boa Vista e da subida da ponte do mesmo nome. No ano seguinte inauguravam-se mais os do pátio do Carmo, Paraíso, Passeio Público, Ribeira. Posteriormente chafarizes na Trempe, Soledade, Rua da Cruz, junto ao Arco, Atêrro dos Afogados, Forte do Matos. Outra festa proporcionou a água aos recifenses. A da inauguração, na Praça da Boa Vista, antiga do Atêrro, de um chafariz monumental, obra de Mestre Vilmer. Maravilhoso. A imprensa descreveu com pormenores essa "peça de arte", de imponência escultural, e que produzia um espetáculo magnífico com seus jorros d'água. Na fonte liam-se êstes versos: O Prata, longe, entre bosques, A luz do Sol se encobria, E nas sombras suspirando, Selvagem, dúbio, corria. Cívico esfôrço o destorce E ei-lo loução se desliza, Saúda o Prata a cidade, Grato à mão que o civiliza. Consoante explica Pereira da Costa, êsse chafariz não é o mesmo que hoje se ostenta na Praça Maciel Pinheiro; foi demolido o primitivo, e o atual ali erguido para comemorar o término da Guerra do Paraguai, por iniciativa e como homenagem dos moradores do bairro. O antigo, porém, ainda se vê na gravura de Schappriz, aliás merecendo, no momento do desenho, a atenção de vários transeuntes. Em fôlhas antigas mais de uma vez encontramos anúncios de uma casa comercial naquele largo com a indicação particularíssima de "casa defronte da boneca". Essa boneca seria porventura a figura do índio do monumento? É possível. Como uma das boas conseqüências do serviço de abastecimento d'água da cidade verifica-se a inauguração de uma Casa de Banhos, no Pátio do Carmo. Dispunha de duchas e oferecia aos clientes 18 quartos, sendo 2 de chuvisco. Banheiros para homens e senhoras, "rigorosamente separados". E preconizava suas vantagens: "Em todos os países do mundo cresce diàriamente o número de estabelecimentos denominados de Hidroterapia." As duchas, produzindo um abalo salutar no sistema nervoso e dilatando os vasos capilares, curavam esgotamentos, erupções cutâneas; beribéri, ingurgitamentos do baço e fígado, histerismo, impotência, palpitações nervosas... Já em 1871 cogitava-se de nova linha adutora, por insuficiência da primeira. Havia "queixas de falta d'água". Fizera-se um passadiço a fim do cano-mestre ligar a Boa Vista a Santo Antônio e êste bairro ao do Recife, e a Associação Comercial reclamava porque as embarcações - rebocadores e alvarengas - não podiam viajar por baixo do passadiço nas marés cheias. Com a escassez do líquido, o balde chegou a ser vendido a 20.0 réis. E não chegava para quem queria. Talvez por isso os olindenses, ao se instalar ali o serviço da Santa Teresa, espalharam êstes versinhos meio jubilosos, meio irônicos:
No domingo às 5 horas Da tarde, lá nos Milagres, Povo, nobreza e os padres Fizeram correr torneiras Com as bênçãos costumeiras. Que água clara e bonita! Melhor muito que a do Prata. Quem quiser ver a cascata Venha cá no Varadouro Que chafariz tem calouro. A água continuou a dar assunto para os comentos da cidade - de gabo ou de censura, de agradecimentos ou de ingratidões. Haveria quem tivesse saudades da "canoa", principalmente se os diretores da companhia fôssem de política contrária... Contudo apareciam entusiastas: Corri ruas, becos, pátios, Visitei lojas, boticas E fui até ver as bicas Ou Caixa d'água do Prata Que da gente a sêde mata. A Companhia do Beberibe prosperava. Em 86 já distribuía seu 77.º dividendo, à razão de 4$400 a ação; o pagamento efetuava-se no escritório da emprêsa, das 10 da manhã à 1 da tarde diàriamente, até o último dia do mês, e depois aos sábados. O aviso era de 14 de novembro, e assinado pelo diretor-secretário José Eustáquio Ferreira Jacobina. Os sítios dos chafarizes ofereciam ao Recife de então cenas das mais interessantes e típicas. Eram pontos de reunião constante de negros e negras. Rezingas por preferência das torneiras: - "Me despache, seu João, que a branca tá m'esperando mode tomá seu banho!” Havia também idílios. Promessas de alforria para casamento. Um rapagão juntava dez réis a dez réis um quinhão para comprar sua liberdade ao senhor. A crioula de dentes alvos e olhos vivos já era ventre-livre, mas ficara servindo por gôsto. Conversava-se. Maliciava-se. Falava-se dos donos: - "Judeus!" As vêzes um soldado de polícia intervinha e dispersava a negraria, mandando-os para "sua vida". Êsses aspectos diminuíram de interêsse quando os canos da Beberibe foram entrando pelos domicílios. Foi um alívio: não se precisava mais cuidar da hora de irem os moleques buscar a água nem de tomar sentido para que êles por pirraça não despejassem os baldes na escada. - "Encapetados!" Agora, era só abrir a torneira. O problema da água, entretanto, em certos arrabaldes ainda persistiu com suas dificuldades. Havia as cacimbas dos sítios, mas nem tôdas tinham água boa para se beber. As que de tal regalia desfrutavam, mereciam a freguesia das redondezas. Vendia-se o líquido aos potes e baldes, quando não se dava de graça por amizade ou
gentileza. Houve cacimbas famosas, cuja água não se trocava pela do encanamento. Algumas de serventia pública, em pátios, como a do Carmo, em Olinda. Ainda há bem pouco tempo uma delas, no Morro da Conceição, deu assunto à imprensa, por lhe quererem emprestar fama de milagrosa. As cacimbas do Recife sofreram uma guerra tremenda por volta de 1912, quando a Saúde Pública encarou a sério o combate à febre amarela. Mandavam aterrá-las, e os donos o faziam recalcitrando, murando, quando não as conservavam clandestinamente. Nos seus "tempos áureos", as cacimbas serviram de motivo a questões de posse, a lutas entre vizinhos, desavenças que passaram de geração a geração. E sítios alcançaram muito bom preço por causa da cacimba unicamente. Anúncios de aluguel frisavam: "casa com cacimba". A Companhia do Beberibe possibilitou um grande melhoramento a mais para a cidade: a criação de um Corpo de Bombeiros. Antes mesmo, no entanto, já os menores do Arsenal de Guerra e da Marinha dispunham de bombas para apagar o fogo. Êles compareceram ao falado incêndio do Teatro Santa Isabel. Os sapadores iniciaram sua missão de coragem e de benefício, que culminou há pouco tempo, quando ardeu durante 36 horas um tanque de óleo situado entre dezenas de outros cheios de gasolina prestes a explodir - e que não explodiram graças aos esforços dos bombeiros. No comêço dêste século deu que falar a Companhia do Beberibe numa célere questão médica, que tomou o nome de "saturnismo". Vinham-se dando casos alarmantes de cólica, vômitos e tonturas em certa parte da população. Alguns dêles fatais. E não se sabia a que atribuir tais manifestações mórbidas. Iam aumentando os doentes e os mortos. Qual seria a causa? Interessa-se a classe médica e opinam alguns dos seus membros tratar-se de envenenamento pelo chumbo. Os sintomas eram característicos. Chumbo de quê? Dos canos que a Beberibe usava nas ligações entre o coletar principal e as derivações para os domicílios Assim pensavam quase todos os médicos. Um grupo discordou. A direção da Beberibe defendia-se, negava o saturnismo de sua água. Reúne-se a Sociedade de Medicina; discute-se pelos jornais; o govêrno manda realizar exames. A política também se mete... Havia, porém, argumentos irrespondíveis em favor da hipótese do chumbo. A natureza dos sintomas, as melhoras obtidas pelos atacados logo que deixavam de ber a água da Beberibe ou quando se mudavam os canos de chumbo. Esta última providência, generalizando-se, deu fim aos casos de cólicas e aos óbitos oriundos dessa estranha doença. O diretor-gerente da Companhia do Beberibe era o Dr. Cecoliano Mamede, homem culto, viajado e muito estimado no Recife. Êsses requisitos não o isentaram dos ataques e das ironias. A sátira popular apareceu: Água dura em cano mole Tanto dá, diz o ditado, Que embora o cano se esfole O povo fica chumbado. Paulo Kruger do Transvaal A fim de esfriar o bife Mandou pedir ao Mamede Água fria do Recife.
Mamede que à flor das águas Navega neste momento Diz que tem chumbo nos canos Pra matar um regimento. Até a primeira década do século atual o Recife foi abastecido apenas pelos mananciais de Dois Irmãos. Não bastavam: a cidade crescera, a população aumentara, os novos serviços de esgotos exigiam água em abundância. Pensou-se na escolha de outras fontes. Saturnino de Brito estava à frente da notável e salutar obra do saneamento. Prefere-se a água do rio Gurjaú. E ali se efetuam os trabalhos de captação, tratamento e distribuição que constituem hoje um dos justos desvelos do Recife. A cidade é hoje das que se podem gabar de ter água em fartura. Sem dúvida não cochilará em aumentar suas possibilidades. Os bairros novos surdem, as casas cobrem terrenos, a gente multiplica-se. E pensa-se em evitar que amanhã, num apartamento de luxo, a cozinheira repita a frase da negra escrava de há dois séculos quando a canoa d'água não chegava à praia: - A panela está sêca e o feijão queimou.
O espírito religioso da cidade andava muito à flor das ruas, como se fôssem ondas de incenso a aromatizar as vias públicas, transbordando das igrejas. Ambiente místico que a época e a gente admitiam, nos seus vagares, nas suas meditações e possivelmente na sua timidez. Os costumes não toleravam arrojos de pensamentos nem de atitudes, e os cenários quietos dos logradouros permitiam cenas inadaptáveis aos atropelos urbanos da atualidade. Todos os bairros eram cheios de nichos situados em pátios ou esquinas, e diante dêles, à noite, rezavam-se terços, tiravam-se ladainhas, entoavam-se orações. Os devotos ajoelhavam-se no chão, e quem por ali passasse teria, para não revelar impiedade, de dobrar os joelhos também. O visitante Kidder, por sinal pastor metodista, assistiu a um quadro dêsses, no Largo do Carmo, em frente a um oratório ali existente, e não pôde esconder sua emoção. A lua envolvia os que, genuflexos, erguiam a Nossa Senhora seus louvores num melodioso cântico. Ardiam velas quotidianamente nesses nichos, e nos dias festivos recebiam ornatos de flôres naturais ou de papel, aumentando-se-lhes o número das lanternas de mangas de cristal. As datas dos padroeiros motivavam festividades na rua, com animação de visitantes, "música de pancadaria", foguetes e também fogo-de-vista. A ponto de uma fôlha reclamar, porventura pela pena de algum mação, contra as festanças dos nichos, que acobertavam derriços de moleques e de mulheres à-toa. Tal importância tinham os nichos que se tornaram comuns indicações dêste teor: - "Êle mora num sobrado junto ao nincho de Jesus Maria José." E não se precisava mais nada para se ir até lá direitinho. Uma loja anunciava-se assim: "na Rua do Nincho do Muro da Penha". Ainda havia esta referência típica: - "Oratório pegado à igreja da Conceição".
Um oratório curioso existiu defronte da Cadeia Nova, na atual Rua do Imperador(1) - onde os presos ouviam missa aos domingos e santificados. Ao se reconstruir o prédio, encontraram uma lápide alusiva a êsse oratório(2). Nichos houve que até vieram a dar nomes a ruas. Serve de exemplo o de uma imagem do Bom Jesus, que pertencia a umas crioulas. Ganhara fama de milagrosa, e parece que se realizavam novenas em sua honra. Tão conhecida ficou, que a rua se tornou familiar à cidade como do "Bom Jesus das Crioulas". Ainda por volta de 1880 a imagem de um nicho da Rua do Queimado foi conduzida processionalmente para a igreja do Espírito Santo, e certamente o Recife terá testemunhado freqüentes cortejos semelhantes à medida que se iam extinguindo êsses pequenos santuários. Outro aspecto de cunho religioso a colorir as ruas era os dos pedintes de esmolas para os templos. Revestiam-se de opas de côres variadas e traziam numa bandeja enfeitada de fitas um santo para o qual solicitavam as espórtulas. Nem sempre as irmandades viam êsse dinheiro, ao que parece, pois clamavam contra os abusos dêsses pedintes que se multiplicavam, de "capas azuis, roxas, amarelas, encarnadas, com golas e sem golas, com capuz e sem capuz". Vieram ao século XX êsses tiradores de esmolas, que recebiam, por fim, moedas, ovos, carretéis e linhas e "sangaios"(3). Cena também de expressão religiosa e de certa imponência era a do viático. Narram cronistas que saía em pequena procissão, sob o pálio, e à sua passagem todos se ajoelhavam. Nos quartéis do trajeto formava a guarda, prestavam-se honras e duas ou três praças acompanhavam o cortejo até se recolher. O "Nosso Pai", mal o sino da Matriz dava dêle sinal, alertava tôda a redondeza. Queria-se saber logo para onde iria. Quem estava mal? Faziam-se cogitações; lembravam nomes de moradores cujo estado de saúde precário admitisse a extrema-unção. Iam pessoas tomar capa. Meninos para tocar a campainha. O vigário já pronto com a custódia no peito. E o préstito movia-se. Conhecemo-lo a atravessar ruas do Recife com uma solenidade parecida: apenas, ao invés de pálio, ia uma umbela. A passagem do Bispo, também, constituía cena de interêsse e de acatamento. Corriam todos às portas para vê-lo e receber-lhe a bênção. Indubitàvelmente, no entanto, a cerimônia católica externa de maior ressalto era a procissão, espetáculo a que todos os anos a população assistia com fervente curiosidade e recolhimento. Precedia-o, até, uma expectativa característica: a encomenda do trajo novo ou a reforma do antigo; a escolha do ponto ou da casa de onde se iria ver o desfile; os papelotes postos nos cabelos na véspera; a promessa de um "anjo" e o preparo dêle para aparecer bem vestido de "roda" e capelinha; a obrigação de sair na Ordem Terceira do Carmo ou na Irmandade da Santíssima Trindade... Por sua vez, quem morasse em casa por onde passasse a procissão que se preparasse. Viriam as famílias amigas de cerimônia, as aparentadas e de quebra as amas de confiança com os molequinhos. Tôda essa gente ficava para jantar ou consoar. Peixe caro... Bacalhau, comida de pobre, era feio botar na mesa! O chefe da família que fôsse ao Mercado ou à Ribeira arranjar a cavala, a cioba, ou ao menos uns aratus para frigideira. E a melhor espanação do telhado e dos trastes; a caiação da fachada e a pintura das varandas ou janelas. Os panos decorativos estavam passados (1)A Cadeia Nova era no edifício em que hoje se aloja a Biblioteca Pública do Estado (2)"Este oratório mandou fazer o Exmo, Sr. D. Lorço d'Alm. Gov. de Pernbc. Ano de 1716". (3)Sangaios eram bilhetes de passagens de bonde que corriam como dinheiro.
a ferro: colchas de sêda e veludo, toalhas de labirinto. Lanternas para o caso da procissão passar já com escuro. Êste asseio não interessava somente aos interiores; não: O fiscal da freguesia do Recife intima; aos moradores das ruas por onde passa a procissão das Cinzas para que limpem as testadas de suas casas e varram as ruas, sob pena de multa. Que não se chamem à ignorância. De sua parte as irmandades promotoras dêsses cortejos solicitavam fôssem varridas as ruas, porque do contrário "tomariam outras direções convenientes". O não passar a procissão por uma rua habitualmente incluída no itinerário seria uma desonra, um desprestígio, uma humilhação. Que diriam os moradores das artérias vizinhas? E quem viesse ver a procissão? Dêste modo, logo cedo os escravos se muniam de ciscadores e vassouras: arrancavam-se os capins e removiam-se os ciscos. Depois, baldes d'água para baixar a poeira. Em algumas ruas, fôlhas de canela. Todo um cerimonial de recepção. Sem o quê as procissões não se dignavam de por ali transitar. As procissões vincavam de tal importância a vida da cidade que comumente se liam anúncios assim de aluguel de casas: Casa térrea com 2 quartos, cacimba, sótão, em rua onde passa procissão. Ou em têrmos mais curtos, da época : "Rua de procissão." Êsse seria um dos maiores atrativos para quem andasse à procura de nova residência. Um chamariz, como se dizia. Porque se teria à porta, durante o ano, o espetáculo, jamais cansativo, dêsses pomposos cortejos em que se reverenciava a divindade, e ao mesmo tempo via-se tanta gente conhecida. Já longe o préstito, ficavam as visitas em comentários, em criticas, em mexericos... O movimento nas ruas prolongava-se com a volta das irmandades, que de novo chamava gente às varandas e janelas para que se vissem os conhecidos e os anjos. Êsses anjos de procissão preocupavam imenso as famílias do tempo. Quase que se tornava uma obrigação religiosa as crianças saírem, uma vez que fôsse na vida, de "anjos". Havia promessas e havia vaidades. Umas tinham trajes pessoais, feitos em casa, e que, depois, passavam a irmãos mais moços. Em regra, porém, vestiam-se com trajes de aluguel. Senhoras dedicavam-se a êsse comércio e anunciavam-se: Vestideiras de anjos - Trajos de Anjo Gabriel – Centuriões - Nossa Senhora - Novos e baratos. Geralmente se tiravam retratos dos anjos, que iam figurar nos álbuns de capas de veludo ou madrepérola. Quando a procissão se recolhia, distribuíam-se cestinhas com bolos de goma, tarecos, confeitos; cestinhas enfeitadas de crespos de papel de várias côres, ambição de tôda a meninada que já esperava os presentes.
As procissões amiudavam-se na quaresma, e a elas só se comparecia, então, de prêto ou de escuro. Baniam-se vestidos vistosos e casimiras mais claras, aliás raras no tempo. O rigor da semana santa ia ao ponto de proibir-se o tráfego de veículos na quinta e na sexta-feira santas; não se admitiam sinêtas em bondes e carroças quando o trânsito dêsses veículos se veio a tolerar; não se tocavam pianos, nem apitavam vapôres e trens. Afora, porém, as do período quaresmal, saíam às ruas durante o ano muitas outras procissões. As de penitência, para exemplo. Havendo calamidades, como as pestes, muito comuns nesses tempos, realizavam-se cortejos que conduziam de uma igreja a outras. imagens com o fito de se lhes pedir o abrandamento da epidemia. O Senhor dos Passos do Corpo Santo foi levado para a Matriz da Boa Vista, em 1871, e ali estêve por alguns dias, quando reinava no Recife uma "febre ruim". Em 1856, a cóleramorbo apavorava os habitantes da capital pernambucana. Havia por dia mais de cem casos, às vêzes. Abriam-se hospitais de emergência. Os coveiros eram auxiliados pelos galés nos enterramentos. Só se via gente de luto. Repetiam-se os atos de penitência. A milagrosa imagem de São Roque do Convento de São Francisco estava exposta para receber súplicas. Na Boa Vista, houve à noite uma procissão de que os recifenses guardaram por muitos anos emocionante lembrança. Saiu da Igreja da Santa Cruz e destinava-se à Matriz, onde ficaria a imagem de Nossa Senhora da Piedade. Uma onda de povo. Ao mover-se o préstito, o céu se carregou de nuvens negras. Relampejava constantemente. De súbito ouvem-se trovões. E fortes. Aumentam. A chuva desaba violentamente, inunda, ronca. Mas os fiéis prosseguem. Vão com água pelos tornozelos, pelo meio da perna, mas vão. E. cantam: Senhor! Pelos vossos Passos Pra salvar a humanidade, Da cruel peste livrai Ao povo desta cidade! E os trovões reboando, e os relâmpagos abrindo, e a chuva a cair. Defronte do Recolhimento da Glória, estala um raio. Um estrondo de estarrecer os corações. Há como que uma parada repentina de todos. Vozes gritam: - "Misericórdia, Senhor! Misericórdia, Senhor!" E a procissão continua a marcha, entoando: Esta cólera terrível Que não cede à medicina, É dos crimes o castigo, É a justiça divina. Meses depois as ruas da Boa Vista assistem a outro cortejo. Êste em tarde serena, já em ambiente mais tranqüilo. Passara a epidemia, matando mais de 3.000 pessoas no Recife, e as órfãs recolhidas iam à Matriz se confessar em ação de graças. Realizavam-se várias procissões festivas de que hoje não temos memória. A do Senhor Bom Jesus dos Desamparados e Nossa Senhora da Soledade. A do Triunfo, saindo do Carmo (por sinal que os irmãos que sem motivo justo não a acompanhassem pagariam 10$000 de multa em favor das obras do Hospital). A Igreja de São Gonçalo punha na rua a do Bom Jesus dos Pobres Aflitos, e a de São José de Ribamar outro cortejo com uma imagem da mesma invocação. Também o templo do Têrço, tão típico de nossa cidade, fazia sua procissão da padroeira. O Rosário da Boa Vista tinha a procissão do Bom Jesus da Cruz, que seguia êste longo itinerário: Rua da Santa Cruz, Glória (por trás da Matriz), Atêrro, Nova, Cabugá, Crêspo, Colégio, Estreita do Rosário, Pátio do Carmo, Flôres, Aurora, Formosa, Hospício, Praça da Boa Vista, Conceição, Pires, Velha, Travessa do Veras, Aragão. O itinerário é de 1852, e nota-se que nêle não se faz alusão às pontes, que porventura ainda não tinham nome oficial. Em igual época saia da Igreja do Pilar, em Fora-de-Portas, a procissão do Encontro, de iniciativa da Irmandade de Santiago Maior. Seguia esta rota: Guararapes, Guia, Senzala, Beco do Capim, Cadeia e Cruz. O encontro dos andores de Nosso Senhor dos Passos e Nossa Senhora efetuava-se junto ao Arco da Conceição. Essa mesma procissão do Encontro realizou-se por muitos anos na Boa Vista, promovida pela igreja da Santa Cruz, e também em Olinda. Vários dêsses cortejos, segundo avisos nos jornais, "não passavam em ruas não asseadas". Aviso - ou, melhor, pedido - curioso fazia a Irmandade das Chagas para sua procissão, que ainda hoje se efetua: ao empresário da iluminação pública, para que baixasse os lampiões das ruas do itinerário a fim de não estorvarem os andores. Famosa e grotesca procissão a dos Fogaréus. Saía à noite da quinta-feira santa, e era mais um bando de homens armados de paus e archotes representando os judeus à procura de Jesus para prendê-lo. Judas guiava-os, e êste papel sem dúvida teria sido muitas vêzes desempenhado por algum digno êmulo do Iscariotes. Todos nós poderíamos hoje fazer indicações felizes se o grupo ainda se exibisse... Entravam em tôdas as igrejas onde houvesse o Santo Sepulcro e delas se retiravam ràpidamente. Era uma espécie de representação animada, que por fim degenerara em farsa, bebedeira, desatinos e afoitezas. Da Conceição dos Militares, ali na Rua Nova, saía uma dessas procissões dos Fogaréus, em 1853. Provàvelmente nos seus tempos de bom conceito. Seguia pela Rua Nova (visita à Matriz), Cabugá, Crêspo, Cadeia Velha (visita ao Corpo Santo), Vigário, Encantamento (visita à Madre de Deus), lado da Alfândega, ponte, Colégio, Queimado, Rangel, Largo da Ribeira (visita a Santa Rita), volta pelo Pátio da Penha, Direita, Travessa de São Pedro, Hortas (visita ao Carmo) , Gamboa, Flôres, e Nova ao recolher. Contam os velhos moradores de Olinda que, ao chegar à sua diocese, o novo bispo D. Manuel Pereira não conhecia talvez essa procissão. Estava na Sé, a presidir os atos da semana santa, quando entra pelo então belo templo olindense o bando dos Fogaréus com seus archotes e cacêtes. O Bispo se espanta, assusta-se, e intima-os a que se retirem sem demora. E foi o fim dos Fogaréus em Pernambuco. Em 1854, por ocasião da procissão de Corpus-Christi, "não se devia permitir nenhum homem nas janelas". Sem dúvida para não estarem junto das mulheres. Procissão também curiosa, pelo seu misto de religioso e profano, era a de Cinzas. Saiu pela primeira vez em 1710, da Ordem Terceira de São Francisco. A congênere de Olinda, que a efetuava já, protestou. Deixou de aparecer nas ruas do Recife até 1820, e depois disso se realizou por vários anos. Em 1863, por exemplo, saía sem as figuras grotescas de Adão e Eva, da Morte, Abel e Caim, e outras. No seu livro Escavações, Amaral faz uma descrição completa dessa procissão e pinta mesmo um cenário flagrante do Recife dêsse tempo. Nem sequer a indumentária escapou à observação do cronista: mulheres com tôda espécie de adornos, como cobertas e lenços pelas cabeças, cabeções de cacundê, xales, vestidos de apertar barriga, saias de sêda com o "indispensável" sutuê (que era uma espécie de balandrau sem capuz); usavam pentes de vários tipos: tapa-missas, telhas, resplandores; não deixavam o leque da China com figuras de sêda estofada e caras de marfim, nem tampouco os penduricalhos de ouro e coral; calçavam sapatos de marroquim prêto com fitas cruzadas e encruzadas nas pernas... Os homens vestiam calças de ganga por dentro das botas, colêtes da mesma fazenda ou brancos com botões de ouro, sobrecasacas ou jaquetas. Transitavam as cadeirinhas e palanquins. Comprimia-se o povo nas "ruas de procissão". Esta expunha às vistas mais de uma dezena de andores: Nossa Senhora da Conceição, Jesus: Cristo com a Cruz às costas, São Francisco também com seu lenho, o Pontífice que confirmou a regra, São Lúcio e Santa Bona, numa só charola, dando-lhes o povo a alcunha de "Bem-casados"; São Vibaldo (o santo do pau ôco) , Santa Rosa de Viterbo, Santa Angela de Fulgino, Santa Isabel, rainha da Hungria, São Luis, rei de França, Santa Margarida de Cortona, São Roque, Santa Isabel, Santo Ivo Doutor, Jesus Cristo dando 3 moedas a São Francisco, São Francisco recebendo as chagas e São Francisco morto. Afora êsses andores, vinham as tais figuras semicarnavalescas. À frente logo o pangu. Um mascarado armado de um rêlho, com o qual repelia as investidas do molecório que lhe atirava caroços de pitombas, entre vozerios, risadas, vaias. Depois, Adão e Eva, Caim e Abel, o Rei Herodes e os Inocentes, Anjo-da-Guarda, Lúcifer, o Juízo, a Morte, os Mártires do Japão... Era, como se vê, um préstito que tinha muito de religioso, porém bastante de cômico, merecendo um sonêto-sátira de Gregório de Matos(1). Em 1893, após prolongada ausência das ruas, a procissão de Cinzas reapareceu nas ladeiras da velha Olinda. As gerações novas foram vê-la com curiosidade e as antigas com saudade. Olinda superlotou-se. Irmandades houve, do Recife, que não puderam ir acompanhá-la à falta de transportes. E centenas de pessoas tiveram de dormir na cidade de Duarte Coelho por dificuldade de regresso à capital naquela noite. Desde então não saiu mais. Procissões que eventualmente percorriam as ruas do Recife eram as que conduziam para as igrejas as imagens de nichos demolidos ou extintos. Em 1850, por conveniência do trânsito e para facilitar as obras complementares do Arsenal de Marinha, o govêrno da Província desapropriou por 870$000 o Arco do Bom Jesus, que ficava no extremo norte da atual rua dêsse nome, e que tinha sido uma das portas da cidade. A Irmandade do Senhor Bom Jesus das Portas, ali erecta, reuniu-se e, por vontade ou não, teve de achar bom o negócio. O Arco foi demolido, e o material, orçado em Rs. 3:200$000, aproveitado na construção da Tôrre do Arsenal, que felizmente, ainda hoje está de pé, Em cima do Arco ficava a capela, que já existia, segundo Pereira da Costa, em 1667. No dia 9 de maio de 1850 fêz-se a transferência solene das imagens para a Madre de Deus. Moveu-se o cortejo às 5 horas da tarde. Ia num andor Nossa Senhora do Rosário, carregada pelos irmãos do Espírito Santo; Santo Antônio, levado pelos irmãos do Sacramento; e por fim o Bom Jesus das Portas, que, como consôlo de sua expulsão da velha morada, era conduzido aos ombros do Presidente da Província, Honório Hermeto Carneiro Leão, do Presidente da Assembléia Provincial, do Inspetor do Arsenal de Marinha e do Comandante Superior da Guarda Nacional. Fechando o préstito, um túmulo debaixo do pálio, levado por clérigos. O 2.° Batalhão de Fuzileiros acompanhava a procissão, após o Bispo, oficiais de (1)Escavações. de F. P. do Amaral
linha e das milícias, outras autoridades, e o povo de sempre(1). No outro dia o Arco entrava a ser demolido. Era o primeiro dos três existentes no Recife: monumentos históricos e típicos na nossa cidade. Os outros dois esperariam o século XX para que sua destruição se revestisse de um cunho mais expressivo de desdém e de incompreensão pelas obras daquele caráter. ____ Durante o Império tôdas as procissões tinham acompanhamento de tropas. Em 20 de março de 1855, o Comando das Armas de Pernambuco, na cidade do Recife, baixava a seguinte Ordem do Dia, sob o n.º 13: O marechal de campo comandante das armas, em virtude das ordens expedidas pela presidência em data de 17 do corrente, determina que o 2.° batalhão de infantaria na tarde de 22 dêste mês acompanhe a imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos que em procissão tem de ser trasladada da Matriz do Corpo Santo para a freguesia da Boa Vista e a êsse fim estará formado no largo da primeira matriz às 6 horas da tarde do citado dia. As 2 horas da tarde do dia seguinte 23 uma divisão comandada pelo sr. coronel Manuel Muniz Tavares, se achará postada na matriz da Boa Vista a fim de acompanhar a mesma imagem desta para a do Corpo Santo. A divisão se comporá de duas brigadas: a primeira de todos os corpos da guarda nacional desta capital, sob o comando do coronel Domingos Afonso Néri Ferreira: a segunda dos batalhões 2.º, 9.º e 10.° de infantaria do exército, tendo por comandante o sr. tenente-coronel Manuel Rollenberg de Almeida. O esquadrão de cavalaria da guarda nacional marchará a pé guarnecendo o andor. Os inferiores dos corpos do exército conduzidos pelos respectivos srs. ajudantes, estarão presentes às 6 horas da tarde do dia 22 na matriz do Corpo Santo a fim de guarnecerem o andor. Os srs. oficiais de corpos que não marcharem, são convidados para acompanharem as procissões nos referidos dias. José Joaquim Coelho Conform. CÂNDIDO LEAL FERREIRA - ajudante de ordens encarregado do detalhe. Por esta ordem do dia vemos que a procissão dos Passos nessa época ia para a Matriz da Boa Vista e não para o Carmo, e que se achavam sediados no Recife os 2.°, 9.° e 10.0 Batalhões de Linha. Ainda nesse distante 1855 publicava-se êste pedido: Pede-se ao sr. Cláudio Dubeux o favor de na 6.a-feira, dia da procissão do Senhor dos Passos, para comodidade de seus assinantes, faça sair os ônibus pelas horas seguintes: 1.º, às 3 ½; 2.°, às 4 ½; 3.°, às 5 ½; 4.°, às 6 horas; e 5.°, às 6 e ¼. E na mesma fôlha êste anúncio: Troca-se por dinheiro uma imagem do Senhor dos Passos, e não se olha o preço, se fôr muito perfeita e não muito pequena: na praça ela Independência ns. 6 e 8 se (1)As Portas da Cidade do Recife, de Pereira da Costa.
dirá quem quer. Outro pedacinho que merece alusão é êste : O sr. Gregório de tal morador na cidade de Olinda, procurador da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos martírios, queira vir satisfazer o importe de cêra que se gastou na procissão do mesmo Senhor. As vestidoras de anjos, também, se pronunciavam freqüentemente pelas fôlhas do tempo em reclamos de seus sortimentos e habilidades: ANJOS DE PROCISSAO Na Rua do Cruz n.º 50; por cima do escritório dos Srs. Seve Filhos & C. vestem-se anjos para procissão com o maior asseio e gôsto, e cômodo preço, na mesma casa acham-se vestuários bordados, recebidos pelo vapor inglês, e portanto qualquer pessoa que queira uma figura ricamente vestida, poderá dirigir-se à mesma casa, Onde serão satisfeitos seus desejos. Sente-se na multiplicidade dessas publicações na imprensa, acêrca de procissões, o relêvo que elas tinham. Avisava-se aos devotos que tivessem de acompanhar o Senhor dos Passos para o Carmo fôssem comprar suas lanternas de papel de lindas côres na loja de Nabuco & Cia., na Rua' Nova, 2. Nos convites das irmandades, rogava-se também aos que tinham capas em seu poder e não pudessem tomar parte no préstito as devolvessem ao consistório, a fim de não prejudicarem os que pretendessem tomá-las. Outros pedacinhos em letra de fôrma apareciam; que têm para hoje um sabor jocoso. Êste, por exemplo, em que transparece uma indignação por causa de novo itinerário de uma procissão: Consta-nos que a procissão do Triunfo que sai de Santa Teresa, depois de percorrer algumas ruas, segue pela de Hortas e atravessa pelo Beco do Marisco para se recolher, deixando destarte de passar pela Rua Augusta. Antigamente quando esta rua não estava calçada, servia isto de pretexto para não transitarem por ela as procissões, porém hoje que não existe mais êste pretexto, qual o motivo por que, chegando a procissão ao Beco do Marisco, não há de dar mais uns 300 passos para que os moradores desta rua (que também são cristãos) gozem da visita do Senhor? Aqui uma queixa dobrada de súplica. Nesta outra há, no entanto, uma ironia: É FORTE TOLO O senhor que anda botando papéis por baixo das portas, que diz morar na Rua do Sebo ou do Cotovêlo e que diz ter dado esmola para a procissão de Santa Cruz, não passa de ser algum tolo que desse alguma tutaméia de esmola e quer impor condições, querendo que transite uma procissão por dentro da lama, como que as imagens fôssem calungas de sombra; ora, meu bôbo, declare o seu nome e venha receber o seu dinheiro.
E não fará mal esta recordação de indumentária: Sobrecasacas para a Quaresma a 18 e 20$000. Houve em 1880 no Recife uma procissão de todo inesperada. Existia na Igreja do Livramento uma irmandade: a de Santa Cecília. Era constituída por músicos ou amantes da música. Naquele templo dispunham de um altar, onde homenageavam a imagem de sua padroeira. Certa vez, porém, morre um dos irmãos e por ocasião do entêrro não houve, ao que se queixavam, por parte dos responsáveis pela igreja, a merecida consideração ao defunto. Deixaram de abrir a porta principal e só o fizeram a uma lateral. Em face dessa desconsideração, a Irmandade de Santa Cecília reúnese e resolve mudar-se imediatamente dali para a igreja do Rosário. Dito e feito. Metem nos baús o arquivo e a papelada; apanham as lanternas, a cruz alçada, as varas dos juizes, põem no andor a Santa, revestem-se das opas e em plena tarde saem de igreja afora numa procissão que espanta os moradores das vizinhanças. Um acontecimento sensacional no Recife de outrora, em tarde de procissão, foi a morte do pardo Manuel Francisco de Carvalho Lessa, que em 1879, estando a repicar os sinos da Matriz de Santo Antônio, "em folguedo" com outros três rapazes, despencou da tôrre e bateu num tabuleiro de doce, falecendo instantâneamente. Entre os que se encontravam na tôrre com Manuel estava Justino de Farias, que em 1877 também caíra da do Carmo, matando três pessoas. Ficara mal, porém escapara. Ressalta de todos os vestígios das antigas procissões do Recife que a mais notável delas sempre foi a dos Passos. Saíam, pela semana santa, a do Entêrro, a dos Enfermos, a da Ressurreição, com maior ou menor pompa, mas a dos Passos revestia-se de esplendor e de notoriedade superiores. Primitivamente vinha de Olinda para o Recife, à noite, e voltava à velha cidade na tarde do dia seguinte. Seu trajeto era pelo istmo. A primeira vez que se realizou foi a 19 de março de 1654. Em 1767, porém, passou a realizar-se no Recife: do Corpo Santo para o Carmo. Por volta de 1840 pronunciava-se uma desinteligência entre os frades do Carmo e do Corpo Santo e a imagem do Senhor dos Passos, ao invés de ir para aquêle templo passou a ser levada para a Matriz da Boa Vista. A imagem dos Passos que saía nas procissões para Olinda está hoje no Consistório da Madre de Deus que, como se sabe, foi o templo agasalhador da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos do Corpo Santo quando esta igreja trissecular foi demolida em 1914 para a remodelação do bairro do Recife. O Senhor do Passos que ora vem às ruas é obra do escultor pernambucano Manoel Soares de Amorim e por sinal teve a sua primeira procissão a 19 de março de 1846 - há um século. Nesse mesmo 1846 aparecia no Diário de Pernambuco esta curiosa e elucidativa declaração da Irmandade dos Passos: Vendo os abxo.-assinados um anúncio inserto no Diário Novo de ontem (25-3) assinado pelo Providencial do Carmo fr. João de S. Isabel Pavão em que diz ao público que a Irm. dos Passos do Recife reconheceu o direito que assiste ao convento (o que somente se pode referir ao depósito do mmo. Senhor) é do seu mais rigoroso dever fazer ciente ao mmo. público que tal reconhecimento não existe, e que somente
porque o Exmo. Sr. Pres. da Província interveio nesta questão como conciliador foi que a Mesa do Bom Jesus dos Passos se deliberou a depositar a Sta. Imagem na Igreja do Carmo. Recife, 28-3-1846. José Pereira da Cunha – prov. João Cardoso Aires - escrivão. Antônio Ramos – tes.º. Essa acomodação não teria durado muito: dez anos depois, por ocasião da invasão da cólera-morbo no Recife, o Senhor dos Passos estava sendo de novo depositado na Matriz da Boa Vista, porquanto alguém publicara uma súplica para que a imagem voltasse ao Carmo; talvez por não o estar acontecendo, a "peste" andasse flagelando os recifenses, acrescentavam. O dia 6 de março de 1913, no Recife, foi de penetrante emoção. Não porque evocasse os heróis de 1817, aquêle dia já distante de quase um século em que explodira o movimento nacionalista mais expressivo entre os que ensaiaram a nossa independência de povo. O motivo dessa emoção, em 1913, era de outra natureza. O bairro do Recife reformava-se. Prolongamento das obras do pôrto; rasgar-se-iam duas belas avenidas, e iria ser sacrificada a matriz do Corpo Santo. Pouco importava fôsse o templo vistoso de agora a antiga ermida de São Telmo dos pescadores do século XVI. O urbanismo não vacilava ante êsses sentimentalismos históricos. Era preciso derrubar, derrubar-se-ia. A Mitra cedera a igreja por 500 contos de réis O cheque já estava entregue. As picaretas arrumavam-se no pátio famoso do bairro à espera de agir, como vinham agindo contra os sobradões vizinhos. Lingüeta, Rua do Comércio, becos, Rua da Cadeia, o Arco da Conceição, tudo iria por terra. Urgia a demolição do Corpo Santo. O "monstrengo", ali de pé, ainda, arrepiava a sensibilidade estética da engenharia do tempo. Que se apressasse o vigário, que se mexessem as irmandades e se pusessem ao fresco os santos. 6 de março. Nesse dia sairia à noite, como todos os anos acontecia, a procissão do Encêrro. Iria o Senhor dos Passos, sob o baldaquino de gorgorão roxo, para o Carmo. Tudo como há três séculos, então. Apenas, no dia seguinte, a imagem, ao invés de regressar ao Corpo Santo, sua morada de tantos anos, iria para a Madre de Deus, onde passaria a ter o seu altar. O adeus do Senhor dos Passos à sua matriz. Houve convites especiais das irmandades para as "tocantes solenidades" dêsse dia. Logo cedo, a última missa do Vigário João Augusto, tão ìntimamente magoado e até seu bocadinho revoltado contra a derrubada de sua igreja. Templo repleto. As três irmandades - Sacramento, Passos, Rosário - presentes, revestidas, empunhando cruzes, lanternas e barandões. Tribunas, côro, nave; capela-mor - povoadas de fiéis em despedida. Reza-se a missa. Distribui-se a comunhão. E, por fim, o Vigário procede ao ato de "consumir o SS. Sacramento", que no dia seguinte seria reinstaurado na Madre de Deus. Ainda há outra cerimônia após o Santo Sacrifício. Está armada no corpo da igreja uma essa coberta com um pano de veludo prêto, com franjas douradas. Diante dela se realiza um solene memento por alma dos mortos que se supunham tranqüilos no seu repouso sob aquêle teto sagrado e iam ser transferidos, nas suas urnas, para outros sítios propícios ao eterno sono. A multidão ora, ajoelha-se, inclina-se. E a voz do órgão ressoa pela derradeira vez naquela nave magnífica prestes a desaparecer do local em que iriam se levantar os prédios de cimento armado e a Tramways construiria depois seu quiosque de tabuletas... Durante o dia não cessam as visitas de adeus. A tarde, o sermão de despedidas, antes do Senhor dos Passos partir. Há quem chore, há quem soluce. Olhos fitam com uma expressão de saudade as talhas dos altares, as lajes do piso, os retábulos do
fôrro, o arrendado das tribunas, os recantos dos nichos, os florões das sanefas, a moldura da capela-mor... Nunca mais... Nunca mais... Os sinos dobram. Também pela última vez. A procissão vai descendo os degraus externos. E que lindos degraus! Mãos acariciam a balaustrada de mármore como se acaricia um rosto de quem vai morrer. Olhos se erguem para a fachada de cantaria, tão sóbria, tão severa, tão majestosa! A procissão vai saindo... O Senhor dos Passos também desce, aos ombros dos oficiais de dragonas e de penachos. Os círios brilham protegidos pelas angélicas de papel... Move-se o cortejo ... O Senhor dos Passos vai escondido no seu baldaquino para não ver a sua igreja que os urbanistas amanhã derrubarão... E o cortejo se some pela Lingüeta... E o pátio se esvazia para nunca mais se encher, como se enchia nas tardes do recolher da procissão, quando os anjinhos recebiam cestinhas de bolos, as irmandades dispersavam com as lanternas acesas, o povo benzia-se, e o sino dobrava a dizer: - "Já chegou... Já chegou... " Foi assim êsse 6 de março de 1913. No outro dia, os primeiros pedaços da tôrre esfarelavam-se no pátio do Corpo Santo. No cortejo da noite, a imagem vai coberta por um baldaquino de sêda roxa, e os acompanhantes, somando milhares de pessoas de tôdas as condições sociais, num belo espetáculo cristão, conduzem lanternas de papel de côres, formam-se duas filas tão extensas que levam horas a desfilar. Na procissão da tarde, no outro dia, há o colorido das opas, dos hábitos, dos anjos, das fardas, dos pendões, do pálio, enquanto o andor do Bom Jesus dos Passos se ostenta engalanado de orquídeas, cravos, hortênsias, alecrins. Idêntica procissão se realiza em Olinda. Ambas fazem estações em "passos" armados no trajeto. Ali, toca uma orquestra, entoam-se cânticos e a imagem simula as "quedas" do Calvário. Êsses "passos", em Olinda, localizam-se em capelinhas próprias e fixas, ainda ali existentes. Só se abrem no dia da procissão: senhoras devotas varrem-nos, enfeitam-nos, põem-lhes luzes e flôres. São típicos do burgo êsses nichos. No Recife também existiram, porém foram todos botados abaixo. Agora os "passos" são improvisados às portas das igrejas que ficam no itinerário da procissão. Muito têm mudado os tempos e os costumes. A volúpia de acabar com as tradições destruiu na paisagem da cidade um templo que era o marco fundamental do seu espirito religioso: a Matriz do Corpo Santo. Erguera-se onde houvera no século XVI a ermida de São Telmo, devoção dos pescadores que iniciaram o "povo" do Recife. Depois, os Arcos, que além do mais recordavam a epopéia da restauração. Outras vitórias tem tido o martelo demolidor. Todavia, ainda as procissões guardam um pouco dos aspectos e dos aromas do passado nesta cidade tão remodelada, em parte, mesmo, tão descaracterizada. Notadamente a procissão dos Passos, à noite. Nos frisos luminosos daqueles círios acesos, luzes esbatidas, modestas, trêmulas, levadas por mãos ricas e pobres, num indeciso de classes, movendo-se todos pelas ruas em meia-sombra, num trajeto que gerações já adormecidas também percorreram, como que ressurge o mesmo sentido místico dos séculos ficados atrás. As procissões de hoje não são, como as de outrora, um dos raros motivos de convívio social. Agora os encontros são quotidianos, fáceis, porque as ruas se tornaram um prolongamento dos domicílios. Antigamente, no entanto, êsses cortejos católicos se constituíam em preciosos pretextos a êsses contactos. Famílias amigas se reencontravam e outras vinham a se entrelaçar em estima e conhecimento. Dêles resultavam préstimos, compadrescos, negócios e até casamentos. Por sua vez, melhoramentos urbanos decorriam dessas cerimônias anuais: - uns de origem municipal, outros de iniciativa particular, contanto que as procissões não deixassem de transitar por determinados lugares. "Rua de procissão" continuava a ser excelente recomendação de moradia, de comércio e de bafejos progressistas. Tinha-se melhor iluminação, calçamento, cuidado de fachadas, ausência de lixo, de lama, de bichos soltos... E não esqueçamos a importância da indumentária nessas tardes festivas: os vestidos das madamas em relêvo, os adereços de brilhantes, as saias de anquinhas, os leques de plumas, os chapéus com pássaros raros, as capas de vidrilhos, os pentes trepamoleques, tudo se exibia para se estar em perfeita obediência aos ditames da moda. As procissões permitiam que essas damas fôssem vistas à vontade, quer estivessem nos sobrados, quer assistissem ao sermão do recolher ao templo, quer visitassem os "passos" para a oração do preceito. Nada disso, convenhamos, ou ressaltemos, desbotava aquela expressão devota, recolhida, humilde, quando, ao passar o andor, tôda a multidão, nas varandas, nas calçadas, nos adros, nos sótãos, se ajoelhava, baixando a cabeça, enquanto os sinos dobravam no alto da tôrre, com aquêle mesmo som ouvido pelos avós.
Tôda a gente sabe dos empecilhos encontrados outrora pelos que se amavam, antes do padre consentir em que se unissem. O excessivo recato, os preconceitos do sexo, as precauções dos pais, o mêdo da bôca do povo, constituíam motivos fortíssimos para se evitar o contacto entre os jovens de calças e de saias já compridas. Atualmente, porque os rapazes usem calções nos esportes e nos banhos. de mar e as moças na adolescência conservem curtíssimas as saias, já não vigoram tais rigores nem cautelas. Mas antigamente! Que o digam as gelosias dos sobrados, as cadeirinhas de rebuço, os véus espessos, a proibição das mulheres aparecerem às visitas e sentarem-se às mesas com estranhos, os casamentos acertados entre os pais sem os noivos sequer se terem visto um dia. E outros pedacinhos da moral dos tempos. Tudo isso, é bem verdade, vai muito distante, e já no século XIX, pelo menos na sua última metade, processavamse transformações profundas nesses assuntos de, coração. Houve uma "liberdade tal" que assanhou os moralistas da época, e acres reprimendas surgiram na paisagem social. No capítulo das danças, os versinhos mordazes do Carapuceiro são incisivos. O Padre Lopes da Gama, que o redigia, não tolerava a moda dos pares rodarem sòzinhos, em conversas, risinhos, sem dúvida "maldades". E aconselhava a pais e maridos: Não deixeis que filha ou espôsa Em baile ou visitação Fique ao pé dum maganão Apoiado cochichando: Por certo não estão rezando.
As quadrilhas e polcas, que substituíam os minuetos e outras danças inocentes, eram pretextos temíveis para namoros e tentações. E mais: Quadrilhas e balancês São favoráveis ensejos Se não de furtivos beijos De abraços e apertões De introduzir petições. Essas petições, se não recebiam, na entrada, o carimbo do protocolo paterno, não se admitiam sem quebra da disciplina e da moralidade. Os conselhos não surtiram muito efeito no sentido de travar a evolução das práticas modernas na sociedade. Os amôres lograram muita franquia. Os corações já se escolhiam por si mesmos, e os namorados se viam, embora a furto ou de sentinela à vista... Tempos das varandas, dos sinais com flôres, dos lampiões de esquina, das cartinhas em papel enfeitado de cromos e dos postais com pensamentos e versos... Mas ainda havia muita dificuldade, muito aperreio, muita oposição, máxime quando existiam irmãs ou tias solteironas em casa, aliadas a vizinhas em idênticas condições de desesperanças de um noivo. Eram bisbilhotices, denúncias, desfeitas, o diabo. Trancavam-se janelas, punham-se vigilantes no jardim ou no quintal, proibia-se a ida à missa, cortavam-se por todos os meios as ousadias do "bilontra". Na verdade, freqüentes vêzes tais providências visavam salutarmente evitar casamento com um "espia-maré", tipo sem eira nem beira, de maus precedentes, e que apenas se candidatava a uma noiva rica para depois desfrutar o dinheiro dela com as "cômicas"... Não seriam raros, porém, os casos em que os estorvos nenhum fundamento plausível tinham, e com êles os futuros sogros estavam simplesmente sujando bem a água para mais tarde bebê-la, em gostosos sorvos, achando o genro excelente amigo... Aliás, o pecado não se acabou de todo com as épocas, convenhamos. Nesses apertos de amôres contrariados, aparecia quase sempre um cireneu. E em geral era o prêto cativo ou a negra escrava. Teriam criado a sinhàzinha ou o ioiôzinho, morriam de querer-lhe bem, e, nessas conjunturas, resolviam fazer o papel de onze-letras, embora arriscando-se ao tronco, às surras e até à venda para um engenho cujo senhor tinha fama de "judeu". Levavam ou traziam o bilhetinho, a flor, O presente. Ou o próprio recado verbal. Também como alcoviteiras se ofereciam aquelas velhas devotas, de lenço branco na cabeça e vestidos ruços, freqüentadoras das famílias, que as protegiam com esmolas, jejuns, trajos usados, restos de refeições. Algumas vendiam rendas de almofadas, bonecas de pano, bolinhos de goma, não lhes sabendo passar por mendigas. Nem sempre acobertavam idílios inocentes de jovens solteiros; atribuíam-lhes a missão criminosa de fomentar paixões adulterinas. Daí o alerta: A mor parte destas bruxas Mostram-se muito fagueiras Com casadas e solteiras E à sombra do biquinho Vão impingindo o escritinho,
Não seriam tôdas. Abundariam as que se dedicavam a fazer casamentos. Pelo menos haveria uma casa a mais onde recebessem benefícios dobrados de gratidão... Até netinhos viriam aumentar o seu prestígio de antigos correios de amôres contrariados. Os derradeiros anos do século passado e os primeiros do atual estavam já bastante mudados em confronto com o que houvera, nesse particular, anteriormente. Bailes, teatros, novenas, prados, Carnaval, tôdas essas festas religiosas ou profanas davam oportunidade a encontros, contactos, confissões, promessas, ajustes. Os tempos eram outros, muito embora as cerimônias do "pedido", as exigências de um vigilante ao pé dos noivos, a proibição absoluta de andarem sozinhos, vigorassem em tôda a plenitude. O "enfin seuls" daqueles cartões-postais ilustrados, tão em voga por volta de 1900, refletia realmente uma situação íntima de rigorosa usança no tempo. Só no dia do casamento, ao se retirar o último conviva, os noivos se viam pela primeira vez na vida inteiramente sós. Uma das modalidades mais interessantes dos recursos de correspondência dos namorados de outrora proporcionou-se-lhes quando surgiu a imprensa. Parece estranho e é paradoxal: - as manifestações mais discretas dos corações viram-se expostas, por circunstâncias especiais de privação de ensejos, a se revelar publicamente numa coluna de jornal. Guttenberg sem dúvida nunca pensara em tal utilidade de seu invento. Êste servira para descobrir mundos, para disseminar idéias, para revolucionar povos, para espalhar acontecimentos; mas quem avaliaria viesse a ser veículo de ternuras, de ciúmes e de confissões? Religião, política, ciência, agricultura, comércio, artes, muito bem. Mas amôres contrariados, isso era novidade. E, no entanto, foi o que se viu. Prestou valioso auxílio aos namorados de então. Constituiu até, na rigidez editorial das fôlhas de outrora, a nota viva, ágil, musical, por entre avisos de "barcos de vapor", anúncios de "cabras-bichos para vender.", queixas contra o costume de se atirar água suja da varanda sem prévio -grito de alerta aos transeuntes... Num cartãozinho assim: estava um poema. "M. J.". Quem era? Maria Joana? Maria José? De que rua, de que arrabalde? Êle, o D. (Donato? Dionísio?) o saberia bem. E precisava dizer à moça que não a podia esquecer desde que a vira numa festa. Fazia-o daquele jeito. Outro, porém, tinha motivos diferentes para se manifestar:
Mistério. "Ingrata". Os namorados quase sempre julgam ser mistério o que os mortais conhecem de sobejo por já terem passado pelo mesmo caminho. E os que eram poetas, hem? Êsses não se contentavam com as declarações e os queixumes em prosa, recorriam aos versos : Era amado por ti, era querido Por ti que me roubaste o coração, Mas hoje teus olhares são mudados, Já teu peito por mim não tem paixão. Outrora em teu olhar tão puro e lindo Eu lia meu futuro esperançoso, No arfar dos teus seios melindrosos Julgava-me, então, ser mui ditoso. Hoje vejo adverso o meu futuro, Hoje creio que tudo era ilusão; Teu olhar só me mostra brilho impuro, Teu peito só me dá ingratidão. Provàvelmente nada dessas suspeitas era real. Ciúmes, simplesmente. Nela o amor persistiria firme, imutável. Êle é que se mostrava insaciável nas provas de afeto da sua eleita. Ou, talvez, êsses versos não passassem de "mágoas de poeta" - poeta dêsses que inventam as próprias dores. Doentes imaginários de amor. O desfecho terá sido outro. Noivaram, casaram-se, foram dignos de uma "lua-de-mel eterna". Essas lamúrias tornavam-se comuns: Quem sabe se mesmo agora, Enquanto eu só penso em ti, Não te alegras distraída Sem te lembrares de mi? Vê-se aí nitidamente o timbre do ciúme , O poeta é igual a milhares de outros. A todos os poetas do tempo. Os do século XIX e ainda os do XX. (Cala tua bôca, cronista! Tens a língua preta!) Uns transbordavam êsses. sentimentos passionais pelas solicitadas. Os mais felizes vinham mesmo pelas páginas editoriais. De qualquer modo a finalidade não variava: madrigal, queixume, recado... Teus olhos são dois focos de ternura Que me prendem, perturbam e me arrebatam.
Houve, nesses amôres de solicitadas, pedacinhos cômicos e irônicos. Certo dia uma dessas almas apaixonadas desaguou assim para um jornal do seu tempo :
À... Mulher, ainda um dia quero A teus pés pedir perdão Dos crimes por mim passados, Deixar de amar-te isto não! Cumprirei a sentença dada Lavrada por vossa mão, Tudo cumprirei enfim, Deixar de amar-te isto não! Antes de tudo haver sofrido Quero entregar-te o meu condão Para uma lembrança esquecida, Deixar de amar-te isto não! Ainda um dia hei de ver-te Por vós dada a absolvição Proferindo estas palavras: Era quem me amava? Não. Arrependida do que vos fiz Também-vos peço um perdão, Foram queixas e estas tais Que vos ofereço a minha mão. V. Na verdade, como poeta, êsse apaixonado não merecia muito amor... E talvez porque a sua deusa tivesse maiores exigências literárias, no outro dia vinha pelo mesmo jornal esta. resposta que, embora incisiva, não se mostrava, quer poética, quer gramaticalmente, mais feliz: A V. Meu poeta vou pedir-te Que não sejas bestalhão; Dos crimes por mim passados Não te perdôo, isto não. Vai cumprir "vossos deveres. Estudar vossa lição, Pois escuta meu bestunto: Vosso amor não quero não.
Que importa teres sofrido? Vai pra lá com teu condão Para uma lembrança esquecida Terás, sim, reprovação. Desde há muito que vós tínheis A minha condenação, Pois eu sempre desprezei Vossa parva amolação. No fim do ano dirá: "Fui sempre da aula um fujão, Por isto meu pai me espera Com uma tunda de bordão." J. Houve nessas publicações verdadeiros romances de amor, para quem as acompanhou com interêsse e constância. Um dêles, em tempos recuadíssimos, começou assim: O primeiro capítulo resume-se nesse bilhete. Haviam-se conhecido e amado. Ia tudo bem. De repente êle se ausenta, sem explicações. Que foi? Ela pensou num esquecimento, em "outra", em tudo que fôsse ruim... Não o via mais no lampião da esquina! Esperara-o debalde à varanda ou no caramanchão do jardim. Ingrato! Pois também não quereria mais saber dêle. Não era o único homem no mundo... Um muxoxo, um arrufo, uma decisão. Dá-se o reencontro. Reacende-se a paixão no rapaz. Ela, no entanto, de verdade ou fingindo, não lhe dá atenção. Vira a cara, foge, despreza-o. "Deusa de meus sonhos". Não acredita. Caprichosa essa "deusa". Êle recorre aos versos : O teu riso todo angélico, Teu olhar encantador, Fizeram nascer em mim Um profundo, ardente amor... Não dá resultado. A moça é dura de se comover. Não lhe perdoa o malfeito. Continua impassível e arisca. Judia dêle à vontade.
Quando tu foges de mim Sinto cruel dissabor. Ah! quanto sofre quem está Nos laços prêso de amor! Encontram-se, porque os versos aludem a "prazer ao teu lado", mas sem a antiga satisfação de dois corações que se compreendem. Ao contrário. A um recado dêste molde : há uma resposta cruel : Os capítulos separam-se por varies meses. Silêncio profundo. Que se teria dado? Reconciliação? Noivado? Felicidade completa? Ou êle terá desistido inteira e definitivamente? Quem pode penetrar o segrêdo dessa mudez? Eis senão quando surge êste lamento: Outra mulher, menos voluntariosa, já se teria talvez compadecido. E o romance estaria findo. Porém essa Iaiá ou Maroquinhas revela-se vingativa ou cheia de amorpróprio. "Reinava" para experimentar bem a sinceridade do arrependimento. E não deixava de ser prudente. "Homem!" E persistiam as picardias. Numa "partida", negava-lhe a valsa, dizendo-se doente de um pé, e ia acintosamente dançar uma valsa de corrupio com outro. Num casamento, distribuía os cravos da noiva com todos os rapazes, menos com êle. Até uma rosa que êle lhe deixara cair aos pés, pisara-a "distraída". " E o pobre a escrever-lhe : E não vinha a esperança. Remoques, desdéns, isto sim. Deveria renunciar. Tudo debalde. Um ano, dois anos quase, e nem uma sombra de felicidade. Outro interregno. Silêncio. Suspendera-se O "folhetim". Mas chegou o Natal. Ela estaria veraneando
em Apipucos ou em Olinda. Mês de alegrias para todos, menos para êle. Deus o esquecera sem dúvida. Ela divertia-se e êle penava. Mesmo assim publicou: Noite da missa do galo. Fizera roupa nova, comprara gravata da moda, sapatos de couro de lustro, extratara-se, pusera cosmético no bigode, metera na cabeça o chapéu-de-côco inglês, levou a bengala de cabo de marfim. Saiu radiante. Dera "festa" de três patacas aos moleques de casa. - "Sinhôzinho viu passarinho verde" - afirmara a irmã ao vê-lo tão contente, quando vivia tão macambúzío. Vira mesmo. Pela manhã, ao abrir o jornal, encontrara êste quadrinho: Era a ansiosamente esperada vitória. Ela, a querida deusa dos seus sonhos, rendera-se. Quebrara a obstinada mostra de desdém, de desprêzo. Aquêle cartãozinho do jornal traduzia tudo. E no dia de Festa quisera dar-lhe o presente almejado acima de todos os mais: o seu coração de mulher... Um verdadeiro romance pelas solicitadas... Os amôres alheios, como se vê, faziam-se ostensivos pela imprensa de outrora. Ainda nos começos do século atual recadinhos e versos dessa natureza não eram raros. Os quadrinhos, mais ou menos enfeitados, apareciam com felicitações em iniciais, com transbordamentos de ciúmes, com avisos de oportunos encontros... E, às vêzes decepções dessas entrevistas: Fôra pressuroso, e não a vira ou não lhe falara. Eis a história tôda. Baile, teatro, novena, piquenique... quem sabe? Talvez propósito, rompimento, olvido. Mesmo com essas manifestações havia quem tivesse esperanças:
Nas expansões poéticas dêsses amôres seria natural que, ao lado dos versos maus, surgissem poetas de verdade, com os seus sonetos, e êles predominavam, dignos de elogios. Não admira que os autores deixassem nos seus apreciáveis trabalhos seus nomes por extenso, numa justa vaidade literária. Releva, porém, notar os anônimos. Modéstia, recato, temor de atrair cóleras paternas para a moça... Estaria num dêsses casos o autor dêste soneto, realmente bem feito, que saiu anônimo : A... Morrer é nada! A flor que entreabre o seio, Turíbulo de perfumes, murcha e morre, E o rouxinol na mata, que percorre, Solta, morrendo, o último gorjeio. Tomba o cedro do Líbano, no meio Da luta, em que o calor não mais socorre, E do tronco lascado a seiva escorre Por onde perde o gigantesco anseio. Morrer é nada! A lei, que sopra a vida E que anima a existência, e o ser vigora, Mata, de um golpe, a obra produzida... Porém, morrer aos poucos, hora a hora, Lendo nos olhos teus quanto és fingida, Não é morte... É suplício que devora. Essa mulher não tinha razões, pelo menos intelectuais, para não amar a êsse homem. O sonêto, que não quis assinar, dava-lhe credenciais para merecer um afeto sincero. E quem poderá mais imaginar, depois de meio século de distância, o que houve depois? O "fingida" porventura não seria "de coração". Ciúmes... E os dois se teriam unido e dado ao mundo uma prole sadia e feliz. Todos êsses amôres de longe, lembrados ou não nesta crônica, levantarão, para nós, esta interrogação: - "Terão florido? Terão murchado?"
De que modo se começou a fazer, no Recife, a remoção dos dejetos humanos e das águas servidas? Nos arrabaldes e zonas onde existiam grandes terrenos era fácil abrir buracos para enterrá-las, ou sulcos para desviá-las, quando não os atiravam aos rios e mangues. Mas no centro da cidade, com exigüidade ou ausência de quintais, nos prédios de sobrados? Como se proceder na retirada dêsses resíduos cuja permanência, além de se tornar perigosa à saúde, era desagradável ao olfato? Recorreu-se ao préstimo do escravo. Êle era pau para tôda obra. Em barricas, à noite, fazia-se o transporte até à beira das "marés", onde se dava o despejo. Aos poucos organizou-se serviço mais ou menos regular, mediante paga mensal aos empresários. Nos dias marcados, logo que escurecia, os portadores chegavam e levavam os vasilhames mal-cheirosos, para trazê-los, minutos após, vazios e prontos a receber nova carga. A êsses barris deram a denominação de "tigres", que se estendeu aos próprios condutores. Havia "tigres com chapéu" e "tigres sem chapéu", ou seja de tampa ou sem ela. Reclamava-se contra os destampados. O nome de "tigres", sem dúvida, seria alusão à coragem dos seus transportadores... O trânsito dêsses depósitos pelas ruas importa vexames, sacrifícios. Todos levam o lenço ao nariz, fecham-se janelas, transeuntes fogem ou se encolhem. Há uma caricatura da época, muito expressiva, pais representa as atitudes dos que passam por um trecho da cidade no momento em que os tigres também o freqüentam. Os transeuntes recuam, encostam-se às paredes, viram os rostos. A gravura deixou-nos todo o flagrante do quadro de antanho Conta-se que os portadores dêsses barris alertavam de longe os moradores com
esta frase : - Abra o ôlho! Abra o ôlho!... Não raro as vasilhas, já meio apodrecidas, rompiam-se em plena rua, e o seu repugnante conteúdo, depois de banhar o escravo, espalhava-se pelo solo. Do que fôssem os locais destinados ao despejo de tais imundícies pode-se bem ter idéia pelas reclamações que enchiam os jornais da época. Bastaria citar a dos passageiros da Trilhos Urbanos do Recife a Apipucos. A estação inicial ficava perto do Arco de Santo Antônio, e ali também os tigres eram aliviados de sua carga. Quem estava à espera do trem ou nêle aboletado, tinha de sentir "o perfume" espalhado. Outros pontos, de igual modo, tornavam-se indesejáveis pelo mesmo motivo, gerando-se queixas semelhantes às dos fregueses da maxambomba. Posteriormente ficou proibido fazerem-se despejos em qualquer sítio onde passasse o rio. Estabeleceram-se, em edital da Municipalidade, os locais para tal serviço. Eram êles: Detrás do Teatro Velho - Travessa do Alecrim - Dita das Cinco Pontas - Dita de São José - Cais do Lessa (fundos do armazém do Sal) - Beco do Capim - Forte do Matos (por trás da casa do Borba) - Rua do Arsenal de Marinha (fundos do Beco Largo) - e Pôrto das Canoas. Na Boa Vista os pontos marcados seriam: Ponte Velha, no fim da Rua dos Coelhos, Barreiras e Rua da Aurora. Êsse edital vinha assinado por José de Barros Falcão de Lacerda, em nome do presidente da Província, e estava datado de 1843. O problema das águas servidas não se apresentava menos grave. Tornara-se usual despejá-las de varanda abaixo, quando se vivia em sobrado. Uma postura municipal de 1831 determinava ninguém o fizesse, sem ser à noite, e isto mesmo com êste aviso prévio três vêzes seguidas : - Água vai!... Água vai!... Água vai!... Multa de 4$000, além de indenização dos prejuízos causados, em caso de infração. Todavia, os banhos inesperados, e mal-cheirosos, não desapareciam da paisagem recifense. As queixas abundavam. Uma fôlha inseriu: Adverte-se ao morador novo da Rua do Crêspo que nessa rua não é costume lançar-se águas das janelas em baixo, porque sendo esta rua muito pública pode causar muitos desastres como aconteceu um dia dêstes. Isto faz um dos padecentes. A cena é de 1852. E é fácil imaginá-la. A escrava debruça-se à janela e derrama estouvadamente o conteúdo seboso da gamela, enquanto o "padecente", com seu redingote cheirando ao alfaiate, recebe a indesejável irrigação. À medida que a cidade crescia, o trânsito dos tigres aumentava. E o volume das águas servidas igualmente multiplicava as dificuldades domésticas em desviá-las dos interiores das casas sem quintal ou perto das quais não existissem marés. As condições higiênicas iam refletindo essa conseqüência de um péssimo sistema de eliminação das fezes e das águas sujas. Sobretudo quando as epidemias, de cólera-morbo assaltaram o Recife, nos anos de 1856 e 1859. Num relatório apresentado à Presidência da Província, em 1854, no tocante à Saúde Pública ressaltava-se o grave inconveniente do "transporte de excrementos em barricas" e preconizava-se a adoção de "latrinas móveis" por serem as "permanentes" inaconselháveis devido à pouca elevação dos terrenos. "Os perigos seriam maiores aqui que em outros lugares." Por outro lado, os quintais viviam sujos de lama e
de lixo. O primeiro surto de cólera foi tremendo. A cidade como que se encolheu tôda de pavor. As fogueiras ardiam pelas ruas e as procissões de penitência repetiam-se à noite, com seus cânticos de súplica que gelavam os corações. Às portas dos templos expunham-se imagens. Entoavam-se a todo momento "Benditos contra a peste". O Carnaval passou fraquíssimo, quase nulo. Verificaram-se para mais de 3.300 óbitos no Recife, nessa epidemia, tendo havido dias de mais de 100. Sem dúvida essa mortalidade terrível deu ensejo a que em 1858 se cuidasse de uma concessão para se organizar emprêsa que explorasse serviço moderno de esgotos. E a 25 de setembro assinava-se um contrato para tal fim, com o engenheiro Carlos Luís Cambronne. Êsse contrato cogitava de um serviço de escoamento das águas servidas para o rio, por meio de canos de ferro ou de grés. Quanto às "matérias sólidas", seriam depositadas em caixas de madeira revestidas de metal, hermèticamente fechadas, que a empresa forneceria a cada domicílio, com capacidade para dez pessoas, em 15 dias. Eram as "latrinas inodoras". De quinzena em quinzena êsses depósitos seriam transportados ao despejo, em local próprio, por carros especiais. A emprêsa encarregar-se-ia também do transporte do lixo. Os trabalhos começariam dentro de 18 meses e estariam prontos em cinco anos. Cada contribuinte pagaria, em quartéis vencidos, a importância anual de 20$000, e, no caso de excederem as pessoas o número, de dez por domicílio, haveria o pagamento de mais mil réis por pessoa. Êsse contrato, que não teve execução pelo Sr. Cambronne, foi renovado em 1865 com o mesmo engenheiro francês e o Comendador Antônio Gomes Neto. Essa renovação de contrato assentava nas seguintes bases: O cessionário, por si, seus sócios e sucessores, obrigava-se a estabelecer um sistema completo de limpeza e escoamento das matérias excrementícias e águas servidas da cidade do Recife, nas casas existentes e nas que viessem de futuro a ser construídas. O sistema constaria de um aparelho de latrina a sifão, com suprimento de água salgada, e destinado ao escoamento das águas servidas, e de uma canalização de ferro, ou grés vidrado, interiormente, por onde tôdas as matérias deveriam ser conduzidas ao mar, no ponto indicado na planta. As obras começariam 18 meses após êsse contrato e estariam concluídas dentro de 4 anos. Seriam fiscalizados obras e serviços pelo govêrno. Nos prédios de sobrados haveria pelo menos uma latrina em cada andar. Haveria latrinas e mictórios públicos. A cidade dividir-se-ia em três -distritos: bairros Recife, Santo Antônio e São José, e Boa Vista. Os preços das latrinas seriam êstes: 3.a classe, 27$000, pagos por quartéis vencidos, anualmente, por uma só latrina ; por duas latrinas, 52$000, e por três, 60$000. Mais 6$000 por aparelho excedente. A emprêsa teria preferência para a remoção do lixo dos domicílios. O sistema proposto era o mais aperfeiçoado então existente, exigindo dupla canalização, emprêgo de máquinas a vapor e adoção de aparelhos a sifão, semelhantes aos de Londres, com completo e abundante suprimento d'água. O sistema de que cogitava o contrata de 1808 tornara-se já muito inferior nas suas vantagens. Serviu de fiador a essa inovação de contrato o Barão do Livramento, nome ligado a vários outros melhoramentos no Recife. Em 1867 a imprensa queixava-se de que até então nada se tivesse feito em matéria de esgotos. Os tigres continuavam na sua tarefa, com o que folgavam bastante os que os exploravam. Possivelmente teriam sido êsses exploradores dos tigres que inspiraram o poeta satírico dêstes versos: As casas hoje se ajuntam, Em fera sociedade, Para oporem-se ao cambrone Que brutalmente as invade. Os contratantes pensaram mesmo em se ver livres do compromisso. Em maio de 1876 propuseram ao Govêrno ceder todos os direitos, privilégios e obras já realizadas mediante a indenização de 1.400:000$000. A Assembléia Provincial, porém, manifestou-se contrária. O povo já começara a chamar de "cambrone" aos aparelhos de latrina, em alusão ao engenheiro que dirigia os serviços de esgotos. Por sinal que êsse francês viveu entre nós longos anos e aqui faleceu, repentinamente, ao tomar um banho. Teceramlhe as fôlhas muitos elogios. A viúva deixou-se ficar em Pernambuco, dirigindo um colégio de moças na Capunga. Outros versos refletiam a azáfama dos trabalhos da emprêsa, de "limpeza e asseio" do Recife: Em casa metem-se canos, Cada quarto está servido, E assim vai ser conduzido Aquilo que o catingueiro Crê que é pomada de cheiro. De fato, em 1871, ao transitar o Imperador D. Pedro II por esta cidade, a caminho da Europa, no paquete inglês Douro, assistiu à bênção das instalações da Recife Draynage e ao início dos serviços. Armara-se um "belo pavilhão" nas Cinco Pontas, e nêle se realizou a cerimônia. Ao centro havia um vistoso repuxo de cinco jorros d'água. Serviu-se uma mesa de bolinhos e bebeu-se champanha. O pavilhão foi visitado nesse dia por 4.594 pessoas, e um jornal lamentou que, para maior agrado, não tivessem mandado para lá uma música. Em 1878 as atividades da emprêsa podiam ser avaliadas por este tópico de um relatório: A colocação de aparelhos orçara em 2:437$712. Em consertos: rs. 10:161$420. As anuidades renderam 101:407$344. Havia entretanto, no bairro do Recife, 400 casas ainda sem latrina. E estavam instalados 8.213 aparelhos. A medida que se ia concluindo a instalação dos aludidos aparelhos, podendo êles serem utilizados, a Recife Draynage publicava nos jornais avisos que decerto envaideceriam os moradores dos prédios a que se referiam, por mais prosaica que fôsse a regalia autorizada. Leiamos um dêsses pitorescos avisos: COMPANHIA RECIFE DRAYNAGE Os srs. Proprietários e inquilinos das casas das ruas do Livramento ns. 1 a 39, do Rangel de 2 a 62, e de 1 a 77, da Penha de 1 a 33, largo da Ribeira de 2 a 14, Duque de Caxias de 31 a 121, Pedro Afonso de 2 a 84, beco do Carcereiro de 1 a 19, S. João de 19 a 63, Concórdia de 126 a 144, travessa do Gás de 2 a 54, Cadeia Nova de 29 a 33, podem fazer uso dos aparelhos de latrina que estão colocados nas suas moradias. Provindo a maioria das reclamações que são diàriamente recebidas do uso impróprio que os moradores fazem dos aparelhos, consentindo que seus fâmulos lancem nos mesmos panos, ossos, espinhas de peixe, e outros resíduos de cozinha, do mesmo modo que faziam pelo antigo sistema dos barris, a emprêsa faz público para conhecimento dos mesmos senhores que os aparelhos são destinados para receberem unicamente as matérias fecais e as águas servidas de uso doméstico, e que tudo mais que fôr ali lançado tende a obstruir os canos, em prejuízo dos srs. proprietários que são responsáveis pelas despesas da desobstrução. Recife, 23 de dezembro de 1872. BROTHERHOOD JUNIOR Gerente interino. E a cidade ia, afinal, na sua parte urbana, sendo libertada dos tigres, nada obstante as campanhas mofinas dos prejudicados. Um exemplo dêsse despeito contra o melhoramento foi o boato de que o surto de varíolas manifestado no Recife logo após a inauguração dos esgotos resultava dos... "aparelhos dentro das casas". Houve até uma representação de grandes proprietários de casas ao Imperador, contra os esgotos. Os malefícios verdadeiros do sistema de escoamento das fezes e águas servidas adotado pela Recife Draynage viriam a se produzir, sim, mas muitos anos depois, quando, pelo acréscimo da população, pela falta de zêlo da emprêsa, pelo mau estado dos canos, pela insuficiência da água, passassem êsses serviços a se tornar responsáveis, em grande parte, pelas péssimas condições higiênicas da cidade, como bem acentuava Otávio de Freitas em vários de seus trabalhos médicos. As caixas das latrinas eram focos de ratos e de baratas; a canalização estourava, contagiando o sub-solo e atingindo veios d'água; as descargas não eram eficientes; a colocação dos aparelhos tornava-se inconveniente e perigosa quando eram próximos às cozinhas, salas de refeições, quartos de dormir. Em 1893 o Governador Barbosa Lima pensa num novo serviço de esgotos para o Recife, uma vez que terminaria dali a poucos anos o prazo da concessão da Recife Draynage, que se confessa incapacitada de melhorá-la. Enfim, a Recife Draynage via-se acusada de responsável pela alta mortalidade da capital pernambucana. Otávio de Freitas apresentou ao govêrno do Estado magnífico relatório acêrca das nossas más condições de higiene, acentuando a urgente necessidade de ser o Recife dotado de outro sistema de esgotos, moldado no que houvesse de mais moderno na época. Incontestàvelmente eram os aparelhos e canos da Draynage os causadores de milhares de casos mórbidos, principalmente os de tifo e disenteria. Notava-se mesmo que os arrabaldes onde não existiam instalações da Draynage ofereciam melhores condições de salubridade do que a parte central da cidade. As epidemias tornavam-se habituais: todos os anos a varíola, a peste, a febre amarela, a disenteria. No quatriênio Gonçalves Ferreira abre-se concorrência para novo serviço de esgotos. Apresentam-se três concorrentes, que, em parecer do Dr. Tôrres Cotrim, foram
assim classificados: 1.º lugar - Dr. Manuel Tapajós; 2.º - Dr. João Teixeira Soares; 3.º - Dr. José Antônio de Almeida Pernambuco. Mas já a 25 de fevereiro de 1908 o Governador Sigismundo Gonçalves anula essa concorrência sob o fundamento de serem de preços muito altos as propostas. Todavia, o Dr. Otávio de Freitas persistia em clamar pela nova rêde de esgotos. Dela dependeria a salubridade do Recife. Morrias-e na "Veneza Americana" como em Bombaim. Em 54 anos tivéramos 109 epidemias. Aliás, doenças como a peste, a febre amarela, a varíola, estavam-se tornando endêmicas entre nós. Que se dotasse a cidade de um serviço o mais moderno de esgotos, e nossas condições sanitárias modificar-se-iam logo. Em agôsto de 1905 desembarca no Recife o engenheiro Mitchell Whitley, da firma Douglas Fox, para levantar uma planta do Recife. Organiza-se a comissão com engenheiros estrangeiros e nacionais, e sem demora êles eram vistos por todos os recantos da cidade e seus subúrbios a visitar casa por casa, tomando medidas e realizando estudos dos terrenos. Os serviços da Draynage, cada vez piores. Quando uma turma de operários abria um buraco para consertar os canos já estourados de velhos, quem é que agüentava o mau cheiro? Nos interiores das casas as latrinas nunca tinham água e só poderiam localizar-se em quartos do quintal. A Repartição de Obras Públicas, em 1908, toma a seu cargo os serviços de esgotos, o que motiva protesto do gerente, o inglês Mackintosk, por intermédio do seu advogado Dr. Milet. Mas, a emprêsa já não dispunha de direitos contratuais: desde 1903 findara o prazo da concessão e a Recife Draynage obtivera apenas permissão para continuar a executar o serviço até nova decisão. Essa decisão, e importante, o govêrno Herculano Bandeira iria tomá-la. De Santos chega o sanitarista Saturnino de Brito, que já realizara a obra de saneamento da grande cidade paulista. Com o seu extraordinário poder de iniciativa, de trabalho, de disciplina, Saturnino de Brito escolhe seus auxiliares, organiza turmas de operários, recebe de Santos alguns especializados, e... mãos à obra! O Recife assiste a uma de suas fases mais curiosas de atividade. Sucedem-se quadros de todos os matizes. Abrem-se valas em tôdas as ruas da cidade, desde as mais importantes às mais modestas. Na Rua Nova, na Pracinha, na Rua da Imperatriz, no livramento, no bairro do Recife, há profundos sulcos de ponta a ponta e montes de terra aos lados. Os grandes condutores, barricas de cimento, ferramentas em filas, e pinguelas para os transeuntes. O comércio viu-se em certos apuros durante alguns dias. E o Carnaval perigou, porque as artérias centrais se achavam quase intransitáveis. Como se brincar de bisnagas e confete ali? Como passar o frevo e o corso? Mas Saturnino de Brito era mesmo dinâmico. Deu ordens para tudo ali se concluir antes do Carnaval, e assim foi feito. Quem lhe desobedecia a uma determinação? Tinha autoridade e prestígio Os bondes, também, andaram mudando de percurso, e ruas que nunca os haviam visto tiveram momentâneamente essa regalia: Avenida Riachuelo, ruas da Trincheira, Florentinas, Augusta, Pátio do Paraíso... Era por essa época que as senhoras usavam umas saias muito apertadas nos tornozelos - as jupes entravées . Querendo uma dessas damas atravessar a vala da Rua Nova, não lho permitiu a saia estreita, e caiu no buraco. Cousas do saneamento! Mas, também, quando os serviços se inauguraram, quando se teve a água farta de Gurjaú, todos os obstáculos, aperreios, mudanças de hábitos, lama, poeira, foram mais que compensados. A inauguração realizou-se a 12 de dezembro de 1915, e desde então o Recife passou a ser não uma das cidades em que mais se morria, mas uma cidade em que se morre porque a morte ainda não se acabou.
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