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Capítulo 6 · Arruar

Arruar - Parte VI

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As modas e o bom gôsto, requintes peculiares à finura da sociabilidade, foram-se apurando no Recife por todo o transcurso do século passado de forma intensiva, mercê das circunstâncias de progresso inerentes à época, de profundas transformações políticas e econômicas. Sente-se êsse evolver acentuado nos escritos contemporâneos, que, por sinal, também refletiam as mudanças ambientes, num sôpro mais largo de espiritualidade, possibilitado pelo duplo fenômeno da Independência e do romantismo. Tínhamos, então, um panorama brasileiro, quer no regime quer na literatura. As rajadas das novas idéias transpunham o oceano e varriam o nosso país, trazendo-nos os moldes do constitucionalismo e da democracia, como, igualmente, o dos livros e o da imprensa. A tudo, no entanto, íamos dando, como já déramos à raça, um tempêro nacional. Os costumes não poderiam furtar-se a modificações. Nos indumentos e na prática do comércio. A segunda e a terceira décadas do século XIX assistiam à especialização das casas comerciais, das lojas como lhes chamavam. Menor o número daqueles armazéns mistos, onde a vendagem dos gêneros alimentícios alternava com a das fazendas e miudezas. Aventuravam-se as "casas de modas", em geral estrangeiras, francesas notadamente, oferecendo artigos com uma distinção que se traía pelo próprio sistema do reclamo. Pôsto não fôssem ainda freqüentadoras das ruas as famílias, em compras, vigente o uso de se adquirir quase tudo a domicilio nos baús dos mascates, já apareciam nesses estabelecimentos modernos senhoras mais libertas dos preconceitos sociais da época, embora acompanhadas dos maridos ou dos pais. A visita às "lojas", - e

não mais, prosaicamente, "boticas" - gerava um prazer arrastador de outras famílias. Alegrava-se a vista, topavam-se conhecidas, discutia-se por trás dos leques padrões e figurinos. E já se ia às costureiras acertar os modelos ou fazer a prova. Que disso falassem os rigoristas e os maldizentes: - "As mulheres agora só vivem na rua." O número crescia. Sobretudo quando apareceu a sege e o bonde. Era tão fácil vir mesmo de longe à cidade! Outro mundo estava-se criando no ambiente urbano. Os próprios anúncios das fôlhas revelavam tais mudanças. Havia pequenos clichês em que um alfaiate assentava melhor a casaca do freguês, com gabos à perícia da tesoura e à qualidade da casimira; com um caixeiro a desdobrar em face da dama uma peça de certa sêda em moda; com uma basta e ondulada cabeleira feminina originada de um famoso óleo perfumado de Paris... O faustoso e apurado panorama dos salões no Segundo Reinado condicionava-se a essas transformações de elegância. As casacas pretas ou de côres, de golas de veludo, as saias armadas e os corpinhos de pafos, além das caçoletas de ouro e diademas de brilhantes, sem esquecer os leques de plumas, os borzeguins de cetim, as lunetas de tartaruga, as cartolas reluzentes e as chapelinas de gorgorão, permitiam a existência de lojas cujos interiores seduziam os olhares e atraíam fregueses. Já os tecidos tomavam nomes alusivos a acontecimentos e figuras em evidência: Criméia, Maioridade, Sebastopol, Varsoviana, Regente... Mais tarde seriam Abolicionista, República, Aquidabã, Jagunço, Capoeira, Sangaio... As revistas de modas, com desenhos, como A Estação, vendiam-se na Côrte a 12$ a assinatura anual, e nas províncias a 14$000. Jornal de Modas Parisienses. Tudo era, neste particular, parisiense. O Carapuceiro afirmava só faltar se cuspir à francesa. Até as crianças, ao nascer, vinham em um cestinho de Paris... As modistas da França, em aqui chegando, não se limitavam a cortar e coser. Abriam também suas casas de nouveautés. Madame Routier, por exemplo, vendia chapéus de montaria, turbantes e capelas, bicos de blonde, capotinhos de retrós para proteger penteados. Madame Théard no seu sortimento dispunha de balões, aspas para os ditos, baleias para espartilhos e corpinhos, e fazia pregas a 20 réis o côvado. Outra francesa, Madame Milochaud, tinha. vestidos para a Quaresma, romeiras, anquinhas a 1$500, manteletese chapéus de filó ou palha do maior gôsto de Paris. Quanto ao custo dos feitios, poderemos saber o de uma modista do tempo: Vestido de gorgorão, sêda, gros de Naples, popelina 10$ De cambraia ou gaze ….................................... 8$ De lã …....................................................... 6$ De chita …................................................... 3$ Vestido de noiva ….......................................... 20$ Os vestidos de noiva eram costurados a preços convidativos para os que hoje vivem, mas certamente "pelos olhos da cara" no julgamento econômico dos contemporâneos. O sexo forte também mal se arranjava com a tabela dos alfaiates: casacas debruadas, pretas ou de côres, 26$; sobrecasacas, 28$; jaquetas de pano, 16$; calças, 12$; colête de veludo, 7$. Convém ressaltar que os preços se referem à fazenda e ao feitio. E são de 1842,

quando um par de luvas de sêda custava duas patacas. A arte do reclamo andava bem adiantada nesses dias distantes. Assim, um anúncio provocava as sinhàzinhas casadoiras : A Ilma. Sra. que quiser se apresentar no tão suspirado dia do casamento com um vestido digno do magnífico ato mande comprar na loja de miudezas do Cardeal, junto à botica do sr. Bartolomeu. E, sem dúvida, a noivas encantadoras cingindo encantadores trajos de núpcias destinar-se-iam aqueles delicados leques de madrepérola com penas e pinturas, borla de sêda e frasquinho de cheiro. E as caçoletas para colocar daguerreótipos - o retrato do noivo? Ofereciam-nas as lojas em versinhos : É tão barato que faz animar; quem vir a pechincha não deixará de comprar. As saias de roda e de babados impunham-se. Arcos e anquinhas. A ponto de um critico ironizar : Dizia-se antigamente que a mulher quanto mais pequena melhor, porque levava menos pano nos vestidos; hoje, alta ou baixa, bojuda como uma pipa ou esguia como um espêto, gasta as mesmas varas de côvado: o que sobeja no comprimento acomoda nas ancas, embora pareça campainha de cima de mesa. A vaidade e a preocupação dos trajos ia dominando as cabeças femininas. Pouco importavam possibilidades pecuniárias de pai ou marido, contanto que se acompanhassem os figurinos do Jardim das Damas. Os hábitos de sociedade iam-se afastando bastante dos tempos em que se vivia em casa brincando o "jôgo do limão" com o Chora, Mané, não chora, porque não vê o limão. E, de mão em mão, o limão se escondia, até que, na roda, alguém o encontrava. Aconselhava-se: "tôda moça que quisesse casar devia ser examinada em ler, escrever, contar, coser, remendar, tomar ponto de meias, princípios de cozinha e fazer torcidas". As torcidas eram para os candeeiros de azeite de peixe ou carrapato. Uma das inovações marcantes do século passado foi a dos cabeleireiros. Homens e senhoras, mas franceses na maioria. Madame Marie Lavergne, na Rua do Crêspo, n.º 14. Era sucessora de um Sr. Godofredo e mantinha êstes preços: Penteados de Exmas. Senhoras feitos no estabelecimento ….. 2$000 Na residência …........................................................ 4$000 Assinatura por mês, sendo um penteado por dia, na residência das freguesas ….................................................... 100$000

Para os penteados de noivas, condições especiais. Penteava coques a 1$500 cada

um. Como se vê, já as damas costumavam vir às lojas, embora em gabinetes discretos, fazer penteados. E algumas, de posses vultosas, pagavam mensalmente a alta soma de 100$000 para ter suas tranças e cachos bem armados à moda de Paris. Algumas dessas cabeleireiras aplicavam cosméticos, carmins e veloutine, pós de flor de arroz, aderentes e invisíveis. Uma caixinha com borla custava 5$000. O Gustave era também cabeleireiro francês de fama. Bem assim o Delsuc, da Rua Duque de Caxias, n.º 7 A, 1.º andar, que dispunha de 12 oficiais para barbear, 6 para cortar cabelos e "3 ditos para o postiço". Seu estabelecimento denominava-se enfàticamente A Tesoura de Ouro. O recato para as senhoras era indisfarçável. A própria Madame Lavergne e outras colegas de negócio frisavam ter uma sala em que só teriam ingresso as senhoras que se quisessem pentear em seu estabelecimento sem estar expostas às vistas dos mais concorrentes. Não admira tal discrição feminina, porque entre os homens havia quem não se expusesse ao desfrute de cortar cabelo aos olhos dos transeuntes. Mr. Théard, sem dúvida espôso da que fazia pregas, declarava continuar por cima da loja do Sr. Brandão, porque muitas pessoas acham melhor cortar o cabelo num sobrado do que numa loja. Seu preço seria sempre o de 320 réis , Depreende-se que começavam a surgir cabeleireiros em andar térreo e a aumentar suas tabelas... Também as sapatarias acentuavam ter gabinetes reservados, onde as damas experimentariam os calçados com "a decência-desejada". E compravam os sapatos gaspeados a 4$200, para si, enquanto escolhiam também os de lustro, para meninas, a 1$500. Quando não uns chinelos de tapête, para levantar da cama, a cinco tostões. O Recife andava na verdade muito mudado para os velhos. Tinha até um professor de dança. Luis Cantarelli, na Rua das Trincheiras, n.º 19. Ensinava também em colégios. Com certeza teria altas credenciais para naqueles tempos se meter a dar lições de volteios às alunas dos educandários... Outra modalidade de profissão há pouco aparecida, e em prosperidade: a dos dentistas. Quase todos também franceses: Paulo Guignaux, Frederico Gauthier... Colocavam gengivas artificiais e dentaduras completas. Pagava-se pela extração de um dente 3$000, e se se empregasse o "eterizador", mais dez tostões. A obturação a ouro custava 5$000. A clientela dos consultórios justificava a abertura de novos gabinetes e a competência dos preços. O Osório, já nosso patrício, ornava seu anúncio com umas ilustrações de molares, de dentaduras parciais ou completas, e punha acima delas o seu retrato barbado, porventura para impor mais confiança e respeito. E ia mais a um requinte nacionalista: em letras grandes - Dentista de Pernambuco. Em compensação, Madame Tomás fazia questão de se apresentar como "Parteira Francesa", diplomada por Paris. Dessas assistentes gaulesas ter-se-ia originado o costume de se garantir aos meninos virem da França os irmãozinhos... Na ciência odontológica já se percorriam caminhos longínquos dos da arte do José Anacleto, dentista e sangrador bem conhecido, que sangrava e tirava bem dentes, por preços à vontade de quem lhe desse a preferência, chumbava, separava perfeitamente os dentes de frente, aplicava ventosas sarjadas... E os consultórios de dentistas iriam servindo de pretexto a muito passeio às ruas... Outra inauguração de ruído, na cidade, foi a da Casa de Banhos do Pátio do Carmo. Nasceu do novo sistema de abastecimento d'água do Prata. Tratava-se de um grande estabelecimento, com 18 quartos, 10 para homens, 4 para senhoras, 2 de

chuvisco e 2 de duchas. Caldeira a vapor para banhos mornos. Respeito e boa ordem, absoluta separação dos sexos. Um banho môrno, com direito a toalha, sabonete e... aguardente, custava 1$000. Ditos de farelo, também dez tostões; o sulfuroso exigia mais 500 rs , E os de ducha circular, 2$000. Banheira forrada com lençol, mais 5 tostões. Havia assinaturas. Vinha essa casa balneária substituir a falada "Barca de banhos" que existira no Capibaribe, muito freqüentada no seu tempo, com café e bolinhos, e sala para recreio - e motivo de vários banhos de igreja... As lojas de jóias também se tornaram numerosas na cidade de outrora, e, singularmente, quase tôdas situadas na Rua do Cabugá. A nomenclatura dos artigos de ouro, prata e pedras preciosas nelas oferecidos alongava-se nos reclamos, tentando a imaginação dos que não compreendiam uma apresentação social sem êsses atavios de luxo. Estabelecimento curioso foi o de Manuel Pedro de Melo, sob o título O Profeta, na Rua das Cinco Pontas. Êsse negociante ostentava seus dotes de empreendimento, de "dinamismo", e, não "querendo restringir-se às formas comuns de comerciar", declarava aceitar pelos gêneros de sua casa, além de dinheiro, açúcar, algodão, milho, feijão, bois, cavalos e escravos... Isto foi em 1864. Mas, em regra, sentia-se que, com a era do gás, da água encanada, do bonde de burros, das carruagens, do vapor, tudo estava avançado. Os bailes, os teatros, os prados, as "partidas", as festas de igreja, o próprio Carnaval, impunham modas e costumes outros. Vendiam-se fantasias para os três dias de Morno. Falava-se na companhia lírica. Elogiavam-se os extratos de Houbigant, de Piver, de Atkinsons, de Roger-Gallet. Havia as tinturas para os cabelos e as barbas, no cabeleireiro Odilon, na Rua da Imperatriz,que chegou ao século XX. As lojas, que a comêço eram apenas identificadas pelo local ou por uma particularidade do prédio, passavam a ter nomes. Não mais a Loja junto do Arco, da esquina da Rua da Cadeia Nova, em frente da Boneca, do Atêrro da Boa Vista, das listras, das seis portas. Agora, a Maison Moderne, a Boa-Fé, a do Balão, a da Fragata Amazonas, a do Elefante de Botas, a do Pavão. Esta apregoava alpaca da côr dos cabelos de D. Maria Pia. E também os soutembarques de gros de Naples pretos ricamente enfeitados. Sem dúvida, dêsse modêlo de indumento nasceu a expressão sutambaque, usada depois para definir um casacão pesado e incômodo. Loja interessante era O Rival sem Segundo, de um Zé Bigodinho. Vendia, entre outras causas: Varas de babado bordado do Pôrto a ….... $200 Dúzia de tesourinhas a ….................... $480 Carretéis de retrós a …...................... $080 Frascos de água-de-colônia a …............ $500 Dúzia de penas de aço a ….................. $060 Silabários com estampas para meninos ... $320 Dúzia de meias finas para senhoras a .... 4$000 Realejos a …................................... $100

Sem esquecer pentes para alisar e para tirar piolhos. Os primeiros anos do século XX ainda conheceram um comércio que fechava às 9 horas da noite. Escurecendo, as famílias saíam mais à fresca a fazer as suas compras. Senhoras de matinée e sem chapéu... A comodidade delas justificava o excesso de trabalho dos caixeiros. Era argumento contrário à idéia do fechamento do comércio às ave-marias. Não admira, porque em 1886, ao se pôr em execução a lei de descanso dominical, os críticos ironizaram, achando que as cozinheiras e... as parteiras também deviam ter direito a tal repouso. E outros achavam que soltar caixeiros aos domingos seria concorrer para sua perdição moral. Iriam vadiar, beber, jogar... Defendiam também o fechamento das lojas às 9 da noite os homens que depois do jantar iam prosar à porta dos estabelecimentos ou mesmo lá dentro, em cômodas cadeiras. Costume do tempo. A abertura das casas de Madame Júlia Doederlein e Emília Brack, na Rua Nova, trouxe uma nota viva e inédita ao comércio recifense. Ao invés de caixeiros, moças nos balcões. A zombaria, a malícia, a indignação soltaram-se. Mas a inovação deu certo. Os estabelecimentos Casa Alemã e Casa Inglêsa, mais conhecidos por Madama Júlia e Madma Brack, serviram de modêlo a muitos outros, no gôsto, na elegância, nas novidades de exposições e de serviços rápidos. Aparelhagem elétrica para a iluminação e para os trocos. Orquestra aos sábados. Uniformes das caixeiras. Estudantes pelas portas, "grelando" as moças. Algumas delas deixaram o balcão para serem donas de casa bem felizes. Uma, morreu românticamente a dançar. E mereceram versos : Tão formosas, feiticeiras, Numa troça sem rival, As caixeiras do Recife Vêm brincar o Carnaval. Nesses dias de folia, De requebros sem igual, Vamos nós, tôdas primores, Divertir o Carnaval. Nossos casacos tão lindos, Nossas saias a voar. Prenderemos os coíós Sempre assim a pandegar. Pelas ruas em folia Sem temer nossos patrões Vamos tôdas, companheiras, Alegrar os corações. Muitas outras casas comerciais acompanharam os processos de mostruário e de venda de Madamas Júlia e Brack. A Viúva Guilherme, o Louvre, a Maison Chic, o Paradis des Dames, o Coelho, a Rosa dos Alpes, já vinham, aliás, se destacando no comércio recifense, dispondo da melhor freguesia e recebendo da Europa os mais apurados sortimentos. Seus donos viajavam constantemente para o Velho Mundo: os Gurgel do Amaral, o Cupertino Bastos, o Carlos Vilela, o Domingos Coelho. E outros.

Do que se conhece do passado remoto, sabe-se que, após os mascates percorredores de ruas e arrabaldes, o comércio fixo apareceu no antigo burgo do Arrecife, onde a cidade nascera. Comércio ainda misto. Sabão e chita, carne-de-ceará e chapéu, manteiga e xale. No andar térreo a "botica", nos superiores a morada do comerciante. Depois do domínio holandês, o bairro de Santo Antônio, a ex-Mauricéia, começara a ter existência urbanística para os portuguêses. Abriram-se por suas ruas casas de negócio. Terá surgido a Rua Nova, cujo nome é uma definição. Na ponte que Nassau lançara ligando a Mauricéia ao pôrto, construíram de um lado e outro lojinhas onde se vendia um pouco de tudo: gangas e louça da China, panos de fábrica e chapéus de Braga, miçangas e quinquilharias... Ao se arruinar a ponte, transferiram-se êsses magasins, como os classifica F. P. do Amaral, para a série de casinholas edificadas então na pracinha da Polé, ou seja a nossa Praça da Independência. Essas lojinhas vieram até 1905, quando foram demolidas pela Prefeitura. A Rua do Queimado até o Livramento, e mesmo alcançando a Ribeira, hoje Mercado, viu também estabelecimentos de mercancia, embora menos importantes que os das ruas mais centrais. Aliás, por ali se aboletaram muitas firmas em grosso, depois. A Rua do Queimado ainda pelo princípio dêste século tinha um comércio de plano modesto, no qual, às portas das lojas, caixeiros insistiam para que os matutos vindos à praça ali entrassem e comprassem. Outra expansão comercial verificou-se na Boa Vista quando se realizou ali o grande serviço de aterragem que deu motivo à Rua da Imperatriz. Todo o mundo chamava a essa zona, criada pelo desaparecimento dos mangues, o Atêrro da Boa Vista. Embora a princípio com muitas casas residenciais em prédios de um só andar, a Rua do Atêrro foi ganhando sobrados e conhecendo lojas. Eram comuns anúncios de estabelecimentos comerciais no Atêrro da Boa Vista, uns na "quina da Matriz", outros "defronte da Boneca", e ainda alguns no "caminho que vai para o Hospício". A primeira livraria que parece ter havido na cidade foi a do Cardoso Aires, pai do bispo dêsse nome, na Rua da Cadeia Velha, atual Avenida Marquês de Olinda. Por sinal que se incendiou e muito se lamentou o desaparecimento do balcão em que se vendiam as obras de Hugo, de Macedo, de Lamartine, e cartas de abc com tabuadas... Outra livraria de fama foi a do Pátio do Colégio, sem dúvida por se tornar vizinha da Academia. Mais tarde, na Rua do Crêspo, inaugurava-se a Francesa, de Lailhacar & C., com largos gabos de imprensa. Além dos artigos de livraria e papelaria, tinha à venda objetos para presentes, como caixas de charão, estojos de costura com realejos, papel para cartas com vistas da cidade. A firma editava a Folhinha Anedótica, que em 1871 abria com versinhos alusivos ao término da Guerra do Paraguai : Mestre López foi pilhado Afinal no Aquidabã. De tantos crimes e horrores Teve a paga! Triste afã !

E fazia profecias para o Ano-Novo com chiste: As moças - é profecia -

Mesmo as tornadas canhão, Neste ano acharão par E noivas tôdas serão. Nessas livrarias de antanho muitas novidades se expunham à venda: as Espumas Flutuantes, de Castro Alves; O Moço Louro, de Macedo; o Chernoviz, A Cigana, livros de sortes, uma Gramática Nacional, em versos, livros de leitura de Landelino Rocha e Abilio César Borges, o Almanaque das Senhoras, de Guiomar Torresão, o Método de Ahn, Suspiros Poéticos, Leitura Repentina, de Castilho, e, para nosso assombro, o Barleus a 30$ e o Castrioto Lusitano a 5,... Não esqueçamos a Revista do Norte, de Martins Júnior, Artur Orlando, Adelino Freire, Pardal Mallet e Teotônio Freire . Todavia, corriam êstes versinhos : Não há ventura Como ser tôlo, Que ter miolo É mal sem cura. Na loja de livreiro de Manuel Marques Viana, na Rua da Penha, à ilharga do Livramento, se faziam subscrições para o República, de dezembro a março, por 3$, e daí por diante a 2$000 o quartel. Essa liberdade de subscrições para o República não causa admiração, porque em 1889, antes do 15 de novembro, uma loja da Rua do Queimado convidava a freguesia a comprar os artigos de sua especialidade para irem bem vestidos assistir a "próxima proclamação da suspirada república". A política invadia o terreno do reclamo. Era o progresso. Já iam distanciados os tempos em que se vendiam as estamenhas mescladas para escravos e as camisas e calças para moleques, de fazenda escura, trançada, bem encorpada, a 2 tostões o côvado. Agora, com a Abolição, as mulatas e crioulas estariam competindo com as brancas na aquisição das agracianas, dos basquines de guipura, das bareges transparentes, das popelinas sortidas... E, muito puxadinho, se a sorte lhes sorrisse, um xale de toquim, sonho dourado de tôdas as cabeças femininas: Meu papai, eu quero, quero, Quero um leque de marfim, Quero um anel de brilhantes, Quero um xale de toquim. O leque, o anel e o xale. Muita mulherzinha côr de canela, de cara bonita, fugindo à senzala pelo 13 de Maio, estaria pelas ruas da cidade a ostentar essas prendas. E a comer seu pastel ou tomar seu sorvete. As pasteleiras e as lojas de sorvetes vulgarizavam-se no Recife. Sobretudo o sorvete, deliciosa novidade da época, quando o gêlo ainda vinha de fora. As famílias iam-se acostumando a tomá-lo, embora em "salas especiais com tôda a decência". De início era a "neve". Mas a expressão "sorvete" preponderou. Veleiros americanos anunciavam vender gêlo a bordo. Quem o fôsse ali buscar, perto

dos arrecifes, pagaria menos. Anunciavam-se sorvetes com freqüência. Assim, por exemplo: Hoje haverá sorvete no Atêrro da Boa Vista D. 3. A rapaziada era solicitada para ir apreciá-lo : de mangaba, de caju, de abacaxi e de creme. E poesia: Das 10 às 9 freguesas A sorveteira está pronta: Um sorvete a dois tostões, Não há cousa mais em conta. Rapazes do grande tom Cá da terra e de além-mar, Se vos quereis refrescar Com o belo, gostoso e bom, Deveis a bôlsa afrouxar. Havia sorvete até no Poço da Panela. Sem dúvida quando lá funcionavam companhias francesas no Teatro-Ginásio Campestre. O sorvete alcançou tal fama que certo cidadão era convidado a pagar uma conta de sorvetes há tempos saboreados... O Café Rui, da Rua Nova, e o Familiar, defronte, não deixavam de apregoar os que fabricavam. O "creme duplo" do Café Rui andava em grande voga. E para apreciá-lo reuniam-se nas redondas mesas de tampo de mármore as famílias inteiras: desde o barbado chefe à molequinha de criação. O século XX principiara disposto às novidades. No Carnaval, o confete e o lançaperfume, expostos à venda em casas de modas. Clubes de mobílias e de relógios. Apareciam as mitenes e as zitas. Ouviam-se na Violeta os primeiros grafofones. Que maravilha! Cilindros de carnaúba que nos deleitavam com as óperas, as modinhas e as sonatas... Aboliam-se os croisés; vestiam-nos apenas figuras apegadas à tradição da indumentária. Afoitavam-se os paletós-sacos e os jaquetões em atos que outrora por favor admitiam o fraque. E os chapéus de palha, até nos médicos! As senhoras já se permitiam-as blusas menos cativas dos pafos e as saias sem balões, embora com as de madapolão por baixo. Os namorados compravam nas livrarias os cartões-postais ilustrados. Coleções disputadas a cada vapor vindo da Europa. Permuta para o resto do mundo. Pensamentos e versos. Os postais enchiam os mais bonitos álbuns, de capas de sêda, veludo, madrepérola. Substituíam os de retratos de família. As noivas mostravam os seus postais às amigas. Ia mudando de novo o mundo. E com êle as modas e o comércio. Trastes, trajos, quinquilharias, jóias, regalos, não eram mais os de dantes. Quem compraria mais um tremó ou um baú? Quem procuraria obreias ou anquinhas? Quem se vestiria de gros de Naples ou de jaqueta? Quem levaria para casa uma caixa de música ou um cosmorama? .. Na Rua Nova ostentava-se uma revolucionária novidade do tempo: um cinematógrafo por sessões. ____ A arte do anúncio não é, como supõe muita gente, privilégio do espetacular século XX, tampouco daqueles derradeiros lustros da não menos alvoroçada centúria anterior. Pode-se ter certeza de que mesmo no início da época oitocentista o reclamo encontrava aprêço já singular. E havia anunciantes dotados de maior espírito que muitos lojistas de agora... Inteligência, argúcia, chiste não lhes faltavam, isto não! E até uma poeirinha de malícia, por pudicos que fôssem os costumes. A maneira de atrair, de envolver, de conquistar fregueses, poreja, dêsses anúncios de há cem anos, em jornais cujo papel amareleceu e vai-se esfarinhando. E não se lançará uma novidade, antes uma reafirmação, dizendo-se do quanto essas manifestações de tino comercial nos falam hoje como cenário e psicologia. Movimentam-se ante os nossos olhos as gerações que palpitaram seduzidas pelo que se anunciava, e como que lhes penetramos as almas, num desdobramento de vaidade, de pecúnia, de utilidades. Por si só o anúncio constitui espelho das variadas cenas do viver de outrora. Cada um, na sua face clara e nítida, apresenta uma tonalidade dêsse cenário longínquo: ora a moda, ora o paladar, ora a ganância, ora a astúcia... O cabeleireiro José Ricardo Coelho, dono de O Mundo Elegante, na Rua Nova, n.º 37, 1.º andar, não somente apregoava seus "coques, cache-peignes, frisettes", mas também ensinava a tirar medidas para chinós. êsses cabelos postiços andavam indisfarçàvelmente em alta moda, porque todos os cabeleireiros lhes teciam gabos e dêles davam preços, inclusive o Odilon Duarte, que, de barbas brancas, ainda conhecemos ali na Rua da Imperatriz, na primeira década de 1900. O cuidado com os penteados revelava-se na profusão de anúncios dos cabeleireiros e cabeleireiras. Vinham condições de serviços feitos nos estabelecimentos, em gabinetes reservados, longe das vistas estranhas, consoante era acentuado, e a domicílio. Havia mesmo assinaturas mensais. E preços especialíssimos para as noivas. Maria Lavergne tinha "coques não somente de trança como de cachos", muito próprios para bailes e temporadas líricas. Outros anúncios bastante saborosos foram os das máquinas de costura, verdadeira revolução na atividade das modistas e no próprio trabalho doméstico. Os mais tentadores modelos expunham-se em clichês, junto com as condições de compra, vigorando o sistema do "pagamento em quartéis". As máquinas faziam obra de 30 costureiras, e nelas se podia coser com dois pespontos, embainhar, franzir, bordar e marcar roupa com perfeição. Vendiam-se por 80, 90, 120$000, conforme o tipo. Outros anúncios de evidente sugestão para olhos femininos eram os das costureiras, a que já aludimos, vulgarmente conhecidas por "madamas", por serem estrangeiras, e que também vendiam fazendas, adornos, perfumes: a Madama Routier, da Rua Nova, a Scasso, no Atêrro da Boa Vista, a Lecomte, a Théard, a Milochaud, a Rey, a Potellier, a Pigeon, a Fanny, a Gérard, cada qual acentuando, em enumeração provocadora, que seus artigos estavam em plena voga em Paris e Viena. Que fôssem ver as romeiras de blonde, os babados e babadinhos, as anquinhas ou tournures, os sutambaques, os vidrilhos em golas e capotas, os manguitos, os capotinhos de retrós, os xales de toquim... Os tecidos traziam nomes dêste padrão: Frondelina parisiense, Barege de sêda, Duquesa de França, Beleza da China, Foulard de Paris, Basquine de veludo, Popelinas, quando não aludiam a acontecimentos da época - Varsovianas, Regência, Sebastopol, Criméia, Napoleônica. As tesouras do Delsuc, do Arruda

Irmão, do Paul Julien e de outros, por seu turno cativavam os "leões do norte" com os gabos à perícia dos artistas, aos seus figurinos, e com os clichês de seus anúncios. Sem falar nos preços: sobrecasacas, 18$; sacos pretos, 7$; calças de casimira, 4$; calça branca, 1$600; brim de linho, 3$500; paletó de alpaca, 3$000. Todavia, já nesse remoto 1859 havia lojas como a do José Gonçalves Malveira, na Rua do Crêspo, n.º 10, que recebia da Europa, pelo vapor inglês Tyne, cortes de vestidos de sêda com três babados, ricamente bordados a veludo, para 230$, 200$, 180$, o que constituiria uma "loucura de desperdício" quando um corte de cambraia bordada custava 4$000 e um borzeguim para senhoras apenas 3$500. Quem não sente palpitar nesse anúncio a ânsia curiosa das moças de então por adquirir uma dessas novidades da Exposição de Paris?... Quantos sonhos, quantas lábias, quantas invejas e quantos triunfos num salão, num camarote, numa corrida, numa novena! Madama Théard era uma psicóloga: "chegada de França, pelo último vapor inglês", "que ela mesmo escolheu". " E que dizer, como moldura da cidade, daquele aproveitamento da noite de luar, sem dúvida quando as candeias e azeite mal davam para aclarar os caminhos ? E o comércio de portas abertas até tarde para que as damas pudessem vir com os maridos fazer compras, mais à vontade, sem cadeirinha ou sege... O reclamo atingia tôdas as utilidades mais cobiçadas, de luxo ou de primeira necessidade, como as toalhas de credência da Bretanha bordadas de labirinto com bico, o dedal de ouro, a manteiga de Copenhague em latas amarelas, o extrato Moskari, de Houbigant, ou o Ylang-Ylang, de Piver, as saias de cabeção, o creme Simon. para tirar manchas do rosto, o impagável sorvete de creme, as capotas pretas com vidrilhos, pulseiras de frocos, os chambres para senhoras e homens, riscado escuro e largo para escravos, casacas para a quaresma, as mesas de charão e as chapelinas de palha... Até uma máquina de escrever Fairbanks se anunciava, em 1879, com ilustração. Quem teve sua aura anunciadora foram os dentistas. Já os barbeiros que anunciavam dentes iam perdendo a clientela, como aquêle José Anacleto, que se oferecia assim: ESPECÍFICOS PARA DOR DE DENTES José Anacleto continua a sangrar e tirar bem dentes, chumba dentes furados, separa bem os da frente, e aplica ventosas sarjadas. Pode ser procurado a qualquer hora nos seis dias da semana na rua da Gamboa do Carmo n.º 20; vende específicos odontálgicos, remédios infalíveis e muito próprios para aplacar e destruir as dores de dentes pela cárie, a 1$ e 2$, o frasquinho com folheto assim como pós dentifrícios e tônico para limpar e conservar perfeitamente os dentes sem alterar o mármore polido, fortalece as gengivas. Os especialistas em odontologia tomavam o seu lugar, e eram quase todos franceses: Frederico Gauthier, J. Jane, Paul Gaignoux. Havia dêles anúncios neste teor: MASSA ADAMANTINA Rua do Rosário n.º 36, segundo andar, Paulo Gaignoux, dentista francês, chumba os dentes com a massa adamantina. Essa nova e maravilhosa composição tem a vantagem de encher sem pressão dolorosa tôdas as anfractuosidades do dente, adquirindo em poucos instantes solidez igual à da pedra mais dura, e promete restaurar os dentes mais estragados com a forma e a côr primitiva. A abundância de dentistas estrangeiros levou o Osório, em reação, a aparecer, vaidosamente, com o título de "dentista de Pernambuco", no que foi secundado, num prelúdio de feminismo, por uma senhora Rosa Jane - "dentista pernambucana". Não faltava aos anunciantes o tom facêto. As vezes nos próprios títulos: "Barato que admira", "Pechincha para os belos passeios do campo", "É caro mas é bom", "Isto não é pomada", "Barato assim só para acabar". Quando o vapor Santa Fé sofreu um comêço de incêndio no pôrto de Recife, muitas mercadorias levemente avariadas foram vendidas com abatimento. E a expressão :- "É do Santa Fé" - serviu depois até para se anunciarem aluguéis de casas convidativos. É de acentuar a visão larga de certos negociantes do Recife no tocante aos benefícios do reclamo. Hajam vista, entre outros, os anúncios. vistosos, amplos e pormenorizados da Loja do Pavão, do Elefante de Botas, da Fragata Amazonas, da Loja do Balão, da Casa da Boa-Fé ou da de Seis Portas, do Paradis des Dames, de A Safira, da Flor de Ouro. O dono da loja da Rua do Cabugá, n.º 6, publicava: Oh! lá senhores namorados! Tenho para vender cartões dourados com coleção de cartas, com ricos e delicados bordados, muito próprios para a rapaziada. E outro: O proprietário da Confeitaria à Rua do Rosário faz ciente à rapaziada que chegou o suspirado gêlo para fabrico de belos sorvetes, diàriamente das 11 da manhã às 10 da noite. Adverte não deixem de tomar 2 cálix por dia pelo menos porque refresca os intestinos como afugenta a peste da febre amarela. Aí temos nesse anúncio informações de vários gêneros: a vinda do gêlo, por não ser fabricado ainda (1852) entre nós; o fechamento dos cafés às 10 da noite; o uso do gêlo para evitar a febre amarela... O Grande Hotel Central, da Rua Larga do Rosário, que mais tarde se gabaria de "já ter a luz elétrica", ao se inaugurar anunciava: GRANDE HOTEL CENTRAL

No centro da Veneza Americana. No centro do comércio. O mais perto das vias férreas. O mais perto do embarque no cais 22 de Novembro. O mais perto dos teatros. O mais recomendável dos amantes do cômodo. O único que tem no seu interior casa de banhos. O único em que as famílias podem hospedar-se sem receio de encontrar-se com pessoas da vida suspeita. O único onde atualmente se acha o melhor chocolate espanhol que se pode tomar a qualquer hora. Também se vende a libras. O único finalmente que oferece completas comodidades por ser o mais espaçoso do Recife. A Livraria Francesa, recém-inaugurada com um luxo digno de uma cidade que já tinha uma Academia de Direito, anunciava' "English Books - Just received per "Douro" - e na "Biblioteca Rosa" o Que amor de criança!, da Condêssa de Ségur. Também vendia, entre outras causas, obreias para cartas e areeiros para enxugar a tinta. Pianos e músicas eram também oferecidos em grandes reclamos ilustrados. Em uns a moça a tocar o instrumento em voga. Em outros, o piano apenas, ou um conjunto orquestral, ou a pauta de uma composição musical. Os chapéus de massa ou de mola tinham seus clichés saborosos, como também os calçados franceses, os retratistas, os carros de aluguel, os remédios, os mosquiteiros e dosséis para camas, os candeeiros, as lunetas, os manequins... Êsse capitulo das ilustrações em anúncios, antigamente, é não somente curioso, mas também instrutivo. Revela um evolver do comércio nas suas práticas de competência, de bom gôsto, de inteligência, desdobrando aos olhos do pesquisador as transformações das modas, do progresso. Casas comerciais houve, pelos meados do século XIX, que primaram pelos reclamos, pagando-os de colunas abertas. A União Mercantil e a Fragata Amazonas, a do Elefante de Botas, a do Baliza, a Loja das Listras, eram estabelecimentos que enumeravam seus artigos com preços e adjetivos qualificativos. A do Pavão publicava em mais de uma coluna pequenos reclamos assim intitulados : Os balões do Pavão As percales do Pavão Os bramantes do Pavão As anquinhas do Pavão E assim por diante. A Nova Economia, "confronte à Ilma. Câmara Municipal", dispunha de queijo londrino a 900 rs. a libra, dito do reino a 2$300, dito do sertão a 500 rs. a libra. Doce de goiaba em latas a 2$, conservas sortidas a 800 rs. o frasco, ervilha a 700 rs. a lata, vinho do Pôrto de 800 rs. a garrafa, Moscatel a 1$500, azeite doce refinado a 800 rs. a lata, cerveja Tenent a 6$200... a dúzia, bolachinhas inglêsas a 500 rs. a lata...

Não eram nada raros os reclamos em francês. Até os do Teatro Santa Isabel. Ainda nos últimos anos do século passado a Maison Chic, que, por sinal, deu à arte do anúncio uma nova forma, com seus clichês de blusas, de espartilhos, de roupinhas de meninos, de cartões postais e de visitas, teve uma modalidade parisiense: começava todos os artigos pela frase: Ce qu'il faut !... Através dos anúncios é-nos dado acompanhar as etapas do progresso na vida de nossos antepassados no seu confôrto e no seu bem-estar. É o relógio que aparece, aquêles relógios de paredes, de pêndula, com os mostradores marcando as horas e os dias do mês; os cabeleireiros, os leilões, os colégios, os professôres de música e de dança, as casas de modas e de banhos, todo um evolver de hábitos, de requintes, de cultura. Faz-se mesmo um confronto apreciável entre os anúncios do começo do século XIX e os do XX, e tem-se uma espécie de cosmorama dessas duas etapas de nossa civilização. Ao realejo que toca harmoniosas peças, de 1840, opõe-se o grafofone que se possibilita em clubes, a 5$ por mês, em 1902... À casaca verde em moda por volta de 1050 afoita-se a fazer sombra o jaquetão de 1900. E que dizer do vestido de saia-balão diante da saia escorrida? Até nos preços o estudo de confronto elucida: não mais, na primeira década dêste século, aquêle queijo-do-reino de. 2$300 da Nova Economia, porque já subiu para 5$000... E hoje, excussez du peu... Cr$ 60,00. Uma casa na Rua da Glória ou do Pires que se alugava a 6$ por mês, está pela hora da morte. Agora custa 30$000. Para ricos. .. Os anúncios contam-nos de tudo isso. É uma história perfeita da cidade, em que havia, entre os ramos de negócios êstes : ATENÇAO Vende-se uma famosa negra, moça, de nação; com um lindo molequinho de 3 meses, muito esperto e nutrido, sabendo a dita negra engomar, ensaboar e vender na rua, além do muito e abundante leite que tem a sua boa conduta e fidelidade a torna digna de possuir-se, por isto que existe na casa há 8 anos e que só por motivos que se dirão ao comprador porque se vende, quem pretender dirija-se à rua dos Martírios n.º 14. ____ Casa de consignação de escravos, na rua dos Quartéis n.º 24. Compram-se e recebem-se escravos de ambos, os sexos, para se venderem de comissão, tanto para a província como para fora dela, oferecendo-se para isso tôda a segurança precisa para os ditos escravos. Se outrora se comprava um palanquim de cúpula, agora se queria uma sege com vidraças; à lanterna magica, que se vendia com elogios às suas vistas, opunha-se o animatógrafo; o azeite para candeeiros foi desaparecendo da coluna de anúncios quando se intensificou o reclamo dos bicos de gás... Ao brigue muito veleiro sucedia a barca de vapor...

O custo de certos artigos também poderá oferecer aos curiosos do passado um atrativo, senão um interêsse econômico: as camisas Inglêsas que se vendiam a 12$ meia dúzia; o madapolão de 3$500 a peça; a casimira preta de 4$.000 o corte; o paletó francês sôbre casaco balão de arcos para moças, a 3$, forrado a sêda, por 20$, na Loja dos 500 Paletós; a cambraia suíça de 2$500 a peça; as chitas francesas de 3,60 rs. o côvado; as botinas para senhoras a 4$ o par; saia branca de 3$; bramante de linho de duas larguras a 1$800 a vara; caixas de mariscos para costuras a 8$; frascos de banha a 1$500; vestuários para meninos a 3$500; o espartilho do mesmo preço; as meias de 5$ a dúzia e o chapéu de palha a 2$... e escarradeiras para sala a 5$. Na década de 1850, na Rua dos Quartéis, o estabelecimento comercial de Manuel Antônio de Jesus vendia, para acabar, pentes abertos para atar cabelos a 2$ a dúzia, caixinhas com obreias pretas e de côres a 60 rs., ricos espelhos para paredes a 1$500. dúzia de brincos de côres para orelha a 100 rs., dúzia de berimbaus a 60 rs., dúzia de torcidas para candeeiros a 60 rs., linhas de carretel de 200 jardas a 60 rs., canivetes de mola a 240 rs., tesouras para costura a 160, 240 e 320 rs., leques finos para senhoras a 1$, caixas para rapé a 120 rs., escôvas para cabelo a 400 rs., lenços de sêda a 600 rs.; luvas de fio de Escócia a 400 rs. o par, óculos de armação de aço a 400 rs., bico prêto de linho a 100 rs. o côvado... Era nessa mesma época, em que o leque estava no apogeu, que o Vapor das Novidades, na Rua da Imperatriz, apregoava: AO SEXO AMÁVEL Venham moças e não tardem Um lindo leque comprar. Olhem que pelo preço é de graça, Se tardarem não hão de encontrar. Um leque de marfim custava ali 3$000. Pouco a pouco as possibilidades de aquisição modificavam-se. A República, com a descida do câmbio de 27 para 10, já provocava um anúncio sob o título "Festas de 1891", que apresentava preços bem mais "salgados". Alguns anunciantes revelavam certa finura nos seus processos de negócios. Haja vista o cabeleireiro francês Gustavo, zeloso de aperfeiçoamento na arte de pentear, que avisava a sua gentil clientela encontrar-se sempre no seu atelier o "Monitor do Cabeleireiro onde acham-se descritos e desenhados todos os penteados modernos para soirées, casamentos e bailes"! O Paredes Pôrto, da rua da Imperatriz, 52, inseria com reclamo a seu modo singular :

Os versinhos populares, de tanto valor como fotografias da vida recifense de outrora, como que nos revelam o comércio dêsse tempo: Como vai tia Nazu? Inda usa da luneta Do tamanho de um cometa? Traz fitinhas e babados Nos vestidos decotados? E a tia Nazu sai às compras: À Lira finas botinas, À Numa Pompílio, dentes, Ao Zé Bigodinho pentes, À Pavão grandes trouxinhas, À Arara bicos, rendinhas. À Siqueira trazem luvas, À Agua Branca toucados. À Esperança frisados, Crista à Galo Vigilante,

Cheiro, à Museu Elegante. Também os médicos iam se anunciando de maneira a trair a ânsia de competência. O Dr. Cosme de Sá Pereira, que faleceu com quase 100 anos e todo o Recife ainda do comêço do século conheceu pelo seu espírito folgazão, assim se pronunciava funcionalmente: O Dr. Cosme de Sá Pereira continua a residir na Rua da Cruz n. 53, 1.° e 2.° andar, onde pode ser procurado para o exercício de sua profissão médica, e com especialidade sôbre o seguinte 1.º moléstias de olhos; 2.º moléstias de peito; 3.° moléstias dos órgãos gênito-urinários. Em seu escritório os doentes serão examinados na ordem de suas entradas começando o trabalho pelos doentes dos olhos. Dará consultas todos os dias das 6 às 10 da manhã, menos nos domingos , Praticará tôda e qualquer operação que julgar conveniente para o pronto restabelecimento dos seus doentes. O seu colega Dr. João da Silva Ramos mantinha uma casa de saúde: João da Silva Ramos, médico pela Universidade de Coimbra, dá consultas em sua casa das 9 às 11 horas da manhã e de 4 às 6 da tarde e recebe doentes, mesmo alienados, em sua Casa de Saúde, onde pratica qualquer operação cirúrgica. Os preços ali, são de: 1.ª classe - 3$000 diárias 2.ª classe - 2$500 diárias 3.ª classe - 2$000 diárias. No capítulo das especialidades de alguns médicos há particularidades hoje tidas por estranhas. Exemplo: o Dr. Nunes da Costa era médico operador e parteiro, mas especialista em olhos e estreitamento de uretra. A parteira francesa Madame Tomás, de primeira classe pelas Faculdades de Paris e Rio de Janeiro, fixara residência no Recife e podia ser procurada para "os misteres de sua profissão na Rua do Queimado n.º 300, 2.° andar". E logo, para provar que estava sendo assoberbada de serviços, pedia às senhoras "que possam necessitar de seus serviços, que deverão preveni-la com antecedência, a fim de saber para onde tem de dirigir-se quando a qualquer hora do dia ou da noite, tenha de ser chamada". Inseria-se êste anúncio, que por si fala bastante: GRANDE DIVERTIMENTO

Terá lugar domingo 29 do corrente a abertura do Salão Recreativo na praça da Concórdia, Pôrto das Canoas, n.º 3, o qual se acha montado com asseio e comodidades para os freqüentadores, sendo esta a ocasião oportuna que ainda uma vez os apreciadores de espectros e figuras poderão apreciar por meio de ótica os dificultosos movimentos que se pode executar em duas máquinas construídas pelos srs. r. & A. Milten. Eis os espectros e figuras que serão postas em execução:

O Anjo da Paz - A Morte divertida - O mágico índio - O engana-meninos - A boa cozinheira descobrindo a panela - Satanás em apuros - A Morte encapotada - Cupido doméstico - O Barão dos ratos - Satanás fritando meninos - As graças de uma velha - As doudices dos namorados - O dia e a noite de um noivado - O gorducho na paz e o magrelo na guerra - Gordo como um bacalhau e magro como uma pipa. Entrada de cada pessoa 1$000. Nesse anúncio temos uma antecipação remotíssima do cinema. E os títulos das cenas, com seu chiste, ironia e malícia até, dão-nos idéia da curiosidade, do riso, dos muxoxos de nossos avós, ao freqüentarem o Salão Recreativo do Pôrto das Canoas... Os pastoris também enchiam de atrativos os reclamos dos teatros Santo Antônio, Apolo, Encruzilhada, Beberibe, Caxangá. Não menos os "bailes mascarados", como o do Santa Isabel em 1852, no qual as senhoras mascaradas teriam entrada grátis, sendo expressamente proibida aos homens disfarçados em mulheres a entrada sem o competente bilhete. No Carnaval eram os anúncios de máscaras de pano ou cêra, com mola ou sem cordão, a cêra para as limas, os tratos de aluguel, de variados tipos, e durante os três dias as famosas mascaradas a cavalo que tanto ruído produziam e tanta gente arrastavam: O grande grupo do ano passado participa que se acham inscritos mais de 50 assinantes para as cavalhadas burlescas nos três dias de Carnaval, e continua a estar aberta a assinatura para êste interessante divertimento até o dia 20 do corrente na Rua do Queimado n.º 45: depois dêste dia não se recebem mais assinantes. Quanto às festividades religiosas encontram-se todos os seus pormenores em anúncios do tempo. Programas das cerimônias, das tocatas religiosas e profanas, das procissões com pautas e itinerários, com vestidoras de anjos, e até oferecimentos de casas "em ruas de procissão". Por ocasião de costumadas festas do frontispício do Carmo, saiu um anúncio ornado de clichês ilustrando a programação e até com uma novidade: após a procissão subiria aos ares um balão "de nova invenção nunca visto nesta cidade, feito por um maquinista pernambucano". E que nos sugerirá de peculiar aos velhos tempos da nossa hoje tão americanizada urbs êste reclamo?: Mr. Douvizy has the honour to inform the public specially his numerous customers that he has just arrived in this town with a rich splendid assortiment of hats of the last Paris fashion and that he has the honour to be at your orders at Mrs. Maia Irmãos & C. Street 1.º Março 14. Êste reclamo tem a data de 24 de dezembro de 1886 e, digamo-lo ainda, aparecia também em francês. Os anúncios em jornais do século atual já apareciam, em regra, sob a responsabilidade de firmas comerciais não existentes no meado do anterior. Raras as que ainda vinham de lá; quase tôdas eram das últimas décadas da época oitocentista e várias criadas no 1900. Por menos que se creia, as firmas de comércio, máxime no ramo de

varejo, têm vida efêmera: ou a falência, ou a liquidação, ou a morte de um sócio, ou a sucessão dos donos, levam a casa a novo nome, quando não a extinguem de todo. Hoje em dia contam-se as lojas do Recife que tenham mais de 20 ou 30 anos: a Maison Chic, Krause, a Coelho, a Carinhosa, a Livraria Ramiro, poucas outras. A Padaria Japonêsa, bem antiga, pelas contingências da guerra passou a se chamar "Imperatriz"... A Chapelaria Colombo, mudando de prédio, também alterou sua denominação. E assim se vão as velhas casas do comêço do século, nossas conhecidas de mocidade, quando andavam em plena voga a Viúva Guilherme, o Louvre, a Estrêlas do Brasil, A Reforma, as Chapelarias Adolfo e Rafael, os ourives Couceiro, Goetschel, A Botina Inglêsa e O Pé Chinês, as lojas de pianos e músicas Prealle e Paiva, as de miudezas A Liga, Graciosa, Rosa dos Alpes, Risonha, O Novo Mundo, os alfaiates Falbo, Melichareck, Manuel do Carmo, as casas de artigos para homens Metrópole e Gondim, sem esquecer as Madamas Júlia e Brack com suas caixeiras. Era dêsses estabelecimentos ciosos de modernismo e de elegância que saíam nas fôlhas os reclamos. Uns sóbrios, sintéticos; outros, derramados, com discriminação de artigos, como os da Loja do Anjo, do qual se podem apreciar os preços, de 1908, comparativamente aos dos anúncios de tempos passados. Que carestia, meu Pai do Céu!... Faltavam ainda, porém, seis anos para principiar a Grande Guerra, e, depois... Que se peça agora o custo daquela casimira preta inglêsa de pura lã, se houver... que custava, no primeiro centenário da abertura dos portos, 6$000 o metro. A GRANDE LIQUIDAÇÂO DE FAZENDAS NA LOJA DO ANJO 56 - Rua Duque de Caxias - 56 A SABER: Morim americano de 15$ a 6$ a peça. Cretones alemães de 600 a 300 e 320. Morim de 4$ a 2$500 a peça. Algodão de 4$ a 2$ a peça. Organdís estampados de 400 a 200. Voile indiano de 800 a 300. Brim para roupa de menino de 800 a 400 e 500. Brim pardo para vestido de senhora de 600 a 400. Brim de linho para vestido de senhora, desenho novos. Brim branco n. 6 de 5$ a 2$500 e 3$. Bramante cru 4 larguras de 1$500 a 1$. Dito para ceroulas de 1$200 a 600 e 700. Atoalhado branco lavrado de 5$ a 2$500 e 3$. Pano de côr com 2 largs. para mesa de 3$500 a 1$800. Lenços de Bretanha de 6$ a 2$500 e 3$. Lenços de sêda japonêsa de 1$ a 400 e 500. Cardonete para ceroulas tecido novo de 1$800 a 800. Tafetá para fôrro de vestido em tôdas as côres de 800 a 400.

Sarjelim em tôdas as côres de 500 a 300. Lindíssimas blusas bordadas de 7$ a 3$ e 3$500. Cambraia suíça transparente 2 largs. de tôdas as qualidades. Sêdas lindíssimos desenhos de 6$ a 2$ e 2$500. Gaze de sêda com 2 largs. em tôdas as côres de 2$500 e 3$000. Capas ricamente bordadas para senhora de 35$ a 15$ e 20$000. Casacos de casimira e de fêltro de 100$ a 25$, 30$ e 40$. Camisas com um pequeno toque de môfo, para homem de 8$ a 4$. Camisas para senhora. Espartilhos a 4$ e 5$. Saias de castor para senhora em tôdas as côres de 8$ a 4$. Meias fio de escócia de 60$ a 24$ dúzia. Ditas brancas e de côres a 500 o par. Mosquiteiros para cama. Cortinados de croché a 10$. Ditos de côr para janela. Ditos em todos os tamanhos para cama. Guarnições de panos de croché. Sobretudo de pano, impermeável para homem de 80$ a 40$ e 45$. Pano para hábito de N. S. da Penha. Casimira preta inglêsa pura lã de 12$ a 6$. Tapêtes para sofá de 25$ a 18$. Ditos em todos os tamanhos sem competência em preços, LOJA DO ANJO Grande quantidade de retalhos de sêdas, lãs, chitas e brins. 56 - Rua Duque de Caxias - 56 . Reclamos se popularizaram, como o do vinho Talher, do Elixir Sanativo, da Cássia Virgínica, da manteiga Bretel, do cigarro Santos Dumont, do Café Java, da Padaria Polaca, da Bola de Cambará, "que cura tosse e constipação", da bolacha Ingrata, do Tônico Camacá (1), uns com gravuras típicas, outros em quadrinhas que se sabiam de cor. Reclamo que bastante intrigou as recifenses foi o de quando se alargou a então Rua do Cabugá. Em um dos prédios novos apareceu uma enorme interrogação de metal. E todo o mundo indagava o que queria dizer aquilo. Os jornais falaram. Achavam-no inestético. Julgavam-no engraçado. E, por fim, era o nome da antiga Casa de Especiarias do Cristóvão, que para ali voltava com o nome de O Grande Ponto. Outros seriam os motivos de modas para conceituar tais reclamos. Longe iam aquelas casacas de bom pano, em verde, à moderna, que custavam 28$, ou os cha- (1)Preparado para os cabelos, principalmente de mulher

péus vendidos pelas lojas francesas da Rua Nova, quina da Matriz, em suas caixinhas de pau. Em 1900 enchiam as vistas os mitenes de sêda, as zitas para tornar mais esbeltos os corpos espartilhados, as bolsinhas de camurça penduradas nas cinturas, os colarinhos duplos para homens, de oito centímetros de altura, os sapatos amarelos "pés-de-galinha", os "fracs rayés" para as moças... A arte de anunciar tomara impulso mercê dos avanços na imprensa, mas, quanto aos recursos de sagacidade dos anunciantes, nada havia; como não há, de novo debaixo do sol. Anúncio que aparecendo agora nos jornais causaria o maior dos chamarizes seria o daquele Novo Hotel Rocambole do Pátio do Têrço n.º 7, a convidar os que viessem "Contemplar as belezas da poética Recife" a fazer ali suas refeições. Dispunha de "gabinete reservado para as Exmas. Famílias" e oferecia "jantar com três pratos - sopa, pão, farofa, arroz, café, doce, frutas, queijo e... vinho, tudo por mil réis. Isto em 1886 - ano que, ao nascer, levava o Jornal do Recife, após aludir a "ummal-estar visível", a "uma agricultura definhando", a "nenhuma solução da questão social", a perguntar aflito e desalentado: - "Para onde vamos? Para onde nos levam?" Quem não lhe responderia hoje, ansioso: - Ao Novo Hotel Rocambole!

Qual o sistema de iluminação naquele primitivo burgo dos Arrecifes habitado pelos pescadores de cavalas e ciobas e pelos vigilantes dos trapiches que serviam à opulenta vila de Duarte Coelho? Nas noites bem fechadas, sem uma estrêla no céu, de que modo se guiariam até às palhoças de morada os homens vindos da pesca? Iriam à frente do bando com uma tocha alimentada por azeite de peixe, de chama vacilante aos arremessos do vento, enquanto atrás gente da família carregava os samburás pejados de peixe. A cena teria sido essa, por muitos anos, nessa língua de terra que a linha de recifes protegia do mar e o contôrno do rio envolvia mansamente. Mas quando êsse "povo" veio a tomar o aspecto fixado pelo lápis de Post, por volta de 1645, com ares de vila importante, mostrando igreja, sobrados, torreões, armazéns de recolher, guritas e fortalezas, penderiam das paredes lampiões ou andariam ainda os moradores de archotes às mãos? E no tempo da Cidade Maurícia, famosa pelos melhoramentos, haveria um serviço de iluminação pública em roda do Palácio das Tôrres ou do da Boa Vista? Mergulhariam no escuro as alamêdas do belo parque de Nassau, mal o sol se escondesse, quando não houvesse o nosso esplêndido luar? E a ponte, aquela obra tão notável para a vida urbana, será que à noite não, disporia de um simples candeeiro de quando em quando para alumiar os transeuntes? É bem verdade que se fechavam as portas e as sentinelas não permitiam passagem após as ave-marias. Todavia, os que tivessem uma senha precisariam às vêzes transpor a ponte, viessem para a Mauricéia ou se destinassem ao bairro do pôrto. Há uma velha gravura da antiga ponte da Boa Vista, do tempo dos banquinhos, em que se podem ver lampiões de suspensão. É, porém, de época posterior ao príncipe flamengo, e por ventura será a mais remota estampa em que se possa apreciar

indícios de um sistema de iluminação pública. Nesse desenho incontestàvelmente há prova de que já o Recife passara a clarear artificialmente seus logradouros. Nos dias festivos, sabe-se, punham-se luminárias. O costume é velhíssimo. E o próprio Maurício de Nassau, ao ter noticia da restauração de Portugal, em 1640, ordenou manifestações de júbilo público, entre elas as luminárias de praxe. Eram as famosas tigelinhas, tão gabadas pelo seu efeito feérico. Se não nos socorrem, neste particular, documentos precisos, não se nos acusará de imaginativo em excesso por admitirmos quase com certeza que já no século XVI pelo menos Olinda teria nas suas ladeiras e pátios lampiões de azeite de carrapato permitindo um tráfego mais seguro aos seus habitantes. Ao menos, nas fachadas de seus sobrados senhoriais existiria um dêsses prestimosos fachos protegido por vidros e estendendo seus benefícios a uns poucos metros em redor. Para o resto da cidade, o uso das tochas. Quanto ao século XIX, temos documentação iconográfica suficiente para apreciarmos a iluminação pública da época. Não sòmente a de Pernambuco; também a do Rio de Janeiro, da Côrte através das gravuras de Debret, de Rugendas, de Biard e tantos outros que nos visitaram e nos deixaram desenhos preciosos. Aquêles candeeiros que se desciam ou se faziam subir por meio de roldanas e cordas teriam sido o modêlo em moda também no Recife. Os negros, tôdas as manhãs, viriam limpá-los, enchê-los de combustível, e à boquinha das noites acendê-los. Se não houvesse lua... Também, quanto ao próprio Recife, possuímos uma farta coleção de estampas, sendo as mais interessantes as de Schaplitz e Carls, de épocas diferentes, por sinal, umas mais remotas, outras mais próximas de nós. E nessa coleção de aspectos antigos não faltam os lampiões, e já de vários tipos: os de suspensão e os de colunas. Nos largos, nas ruas, nos cais, nas pontes, nos becos e até nos "caminhos". A cidade estava longe de viver às escuras, por precária que fôsse a intensidade da luz. Existia até, em 1831, uma emprêsa encarregada dêsse serviço. Fôra êle arrematado em praça nesse ano. Quatro anos depois o contratante desculpava-se do "esmorecimento dos lampiões", justificando-o com a falta de azeite de peixe no mercado. Recorrera ao de carrapato, menos eficiente. Prometia uma remodelação nos candeeiros de modo a se tirar o melhor proveito dêsse outro combustível, embora êle "se revestisse de mais melindres, a ponto de o fabrico de torcidame precisar ser reformado". Esperava-se entretanto o brigue Globo com um grande carregamento de azeite de peixe. Concluía o contratante por estar certo da indulgência do público, porquanto tinha consciência de haver elevado a iluminação em Pernambuco a um "conceito de ser a melhor conhecida daquém e dalém-mar", e "se mesmo houver algum mais impertinente ralhador que estranhe e não perdoe, paciência, que o arrematante para ouvi-lo tem orelhas muito boas". Os candeeiros eram oferecidos à venda com alusões as mais elogiosas aos seus préstimos : Lampiões para gás, modernos. Gás a 320 réis a garrafa. E êste outro: Candeeiros de gás muito cômodos e econômicos que basta prepará-los de 12 em

12 noites com duas garrafas de gás e acesos das 7 à meia-noite. Entrara em moda, para iluminação, o querosene, a que vulgarmente se passara a chamar de "gás". Era já uma transformação para melhor. O azeite de peixe e de carrapato iam caindo aos poucos do uso. Todavia, em 1839 ainda houvera um contrato para fornecimento de azeite e algodão para as cinco luzes da cadeia. E para a escola noturna de Fora-de-Portas tinham sido fornecidos dois candeeiros de azeite. Tão rendoso era o negócio da venda ambulante de azeite que se pediam para alugar negras afeitas a êsse comércio: Precisa-se de pretas para vender azeite de carrapato, habilidosas nesse serviço. Era um anúncio comum no comêço do século passado. Um Sr. Gaumont, dourador, com loja na Rua Nova, 52, fabricava candeeiros tanto de gás como de azeite e alugava candeeiros e lustres de 10 bicos, para bailes. Como se vê, estavam em voga os dois sistemas: azeite e querosene. Em luta ainda, como se dá hoje entre a eletricidade e o gás carbônico. Nas residências, após a vela de sebo adotavam-se as candeias de azeite, as famosas candeias de torcidas a que alude a quadrinha: As mulatas da Casa Forte Estão-se vendo numa lida: Sem azeite para a candeia, Sem algodão para a torcida. Os versinhos sem dúvida refletiam uma crise do tempo. Com o querosene apareceram os candeeiros de cima de mesa, mais ou menos de bom gôsto e finos, os de suspensão com arandelas vistosas. "Candeeiros belgas" - um modêlo de aprêço. Uns em vidro branco, outros de côres com enfeites gravados, alguns de cristal, com pingentes. Variedade de tipos de que os jornais já publicavam reclamos ilustrados com o título pomposo: BOA LUZ! A firma Viana Castro & Cia., estabelecida na Rua da Imperatriz, n.º 6 declarava que, “tendo recebido de uma das mais importantes fábricas da Europa a incumbência de apresentar neste mercado os seus magníficos candeeiros para querosene, resolveram fazer uma exposição dos mesmos candeeiros, das 4 horas da tarde às 9 da noite, e para ela têm a honra de convidar ao respeitável público”. E acrescentava: "Mais de 100 qualidades." Não se sabia o que escolher - diriam os visitantes, encantados com os variados feitios dos candeeiros. E que luz! Uma casa de fazendas da Rua Imperial, que também vendia candeeiros, resolvera liquidar êste último artigo com grandes abatimentos. Assim, anunciava "vender ricos e elegantes candeeiros a gás, muito bem preparados, com bom maquinismo, chaminé e globo .moderno, escôva francesa, lindo abajur chinês a 12 dúzias de pavios por 8$, 7$ e 6$000, e os dourados que a princípio se vendiam por 25$ e mais, a 12$000". Foi em 1847 que se agitou no Recife a idéia de se adotar na iluminação pública o

novo processo do gás carbônico tão em moda na Europa e de que se diziam maravilhas. Era um "passo agigantado" no progresso das cidades. Mas dez anos decorreram antes da Lei provincial n.º 386 aprovando o contrato com Henry Gibson, Manuel de Barros Barreto e Filipe Lopes Neto para explorarem tal serviço na capital pernambucana. Em 1858 o Diário de Pernambuco, na sua curiosa seção "Página Avulsa - Bom Dia", que, pode-se dizer, constituiu na imprensa recifense o embrião do noticiário, afirmava já não se poder duvidar que muito breve seria a cidade iluminada a gás carbônico. Sem dúvida os postes mostravam-se pelas ruas, o gasômetro surgia, os canos eram metidos pelo subsolo. A ponto de os mordazes comentadores das obras dessa natureza dizerem em versinhos que os inglêses estavam tomando conta da terra por baixo para depois a tomarem por cima. Êsses "poetas" de outrora se vivessem hoje modificariam suas quadrinhas para se prevenirem contra outras gentes que assaltam os territórios alheios pelos ares... A 26 de maio de 1859 realizou-se a inauguração do primeiro trecho da cidade iluminado a gás carbônico. Compreendia a Rua Nova e suas proximidades. Anunciarase o início do serviço para 25 de janeiro, mas tivera de ser adiado por faltar uma peça do maquinismo que somente poderia vir da Europa. Já nesse tempo o Jornal do Recife mantinha uma animada "Gazetilha" e nela publicara: Não há dúvida que a noite de 25 será de divertimento. Muitas pessoas de outros bairros virão ver a iluminação. E no dia seguinte : A população passou por uma decepção. Houve um acidente no gasômetro que não permitiu a inauguração. O gás virou lamparina. O Diário de Pernambuco, mais austero, explicava: Deixou de ser possível o início dos serviços de luz do gás por falta de cilindros para destilação. Só depois de 4 meses. A 28 de abril, experiência em frente do Palácio da Presidência com o maior êxito. Afinal, a 26 de maio Santo Antônio teve luz a gás. Todos a acharam bonita e forte. A cidade encheu-se de gente. Houve músicas em coretos. E zombava-se da triste figura dos lampiões a azeite, que nem pareciam acesos, nas outras ruas. A 18 de junho acendiam-se os lampiões do bairro do Recife, e a 8 de agôsto oficiava a Presidência ao Engenheiro Francisco Rafael de Melo recomendando-lhe autorizasse o início da iluminação a gás do 2.º distrito da Boa Vista. No mesmo ofício permitia-se o contrato com o Sr. Antônio Borges Galvão Uchoa para iluminar a azeite a povoação dos Afogados até chegar ali o gás. Pouco a pouco a cidade no seu centro substituiu o azeite pelo gás. E também os arrabaldes, porque não tardou que a emprêsa prometesse 100$000 de recompensa a quem indicasse com tôda a ciência quem estava danificando os lampiões nas estradas do Poço, Passagem, Afogados e Motocolombó. As reclamações já surgiam. Algumas pitorescas. Achavam uns que os acendedores

de lampiões deviam usar uma farda e um boné com o dístico "Gás". Evitar-se-ia assim "aqui um homem quase nu e acolá um outro de casaca, nesse mister". E também que um ladrão trepasse nas escadas perto dos muros das casas a pretexto de, limpar os vidros e as torcidas, mas com a idéia de pular para dentro dos quintais à cata de galinhas e frutas, ou... para bulir com as molecas. A fôrça da luz igualmente era alvo de queixas : Neste sistema os inglêses Encontraram nova mina: "Não nos dão nem gás nem velas, Porém luz de lamparina ."

As vêzes faltava luz de repente. Era um transtorno e um perigo, principalmente se se estava numa dança. Por isso outros versinhos pediam ao inglês do gás que não consentisse tais eclipses quando houvesse bailes.... A veia satírica não se cansava. O “Sineiro da Sé" nas suas deliciosas cartas ao amigo Dr. Tirilolé dizia: Depois de ver tudo isto Vi aceso o gás amigo. É tal qual azeite antigo! Por isto canta a menina: "O gás virou lamparina". Nem por essas ironias a iluminação a gás carbônico deixou de ser um dos mais belos números do programa de recepção aos Imperadores na sua primeira visita ao Recife. Em vários pontos da cidade ergueram-se pavilhões, colunas, arcos, pirâmides, e dêsses monumentos a luz a gás constituiu o máximo relêvo. Os cronistas não escondiam o embevecimento: A noite tôda a cidade iluminou-se. Uma só casa por mais nobre que fôsse não deixou de tomar parte nesta manifestação de regozijo geral. Mais de 200.000 luzes afugentavam as trevas. É bem verdade que nesse 1859 apenas uma parte da cidade possuía luz a gás, mas, incontestàvelmente, ela foi que ofereceu maior contingente de realce noturno aos engalanamentos urbanos. Todavia, o capitulo "Iluminação" nas reportagens do Monitor das Famílias é extenso e derramado. Exalta-se o brilho das luminárias na Rua da Cruz, Lingüeta, Praça do Palácio, Rua da Boa Vista, Cais do Colégio. Os bicos de gás dispunham-se em desenhos, ressaltando dísticos patrióticos e emblemas imperiais. No Atêrro da Boa Vista, a iluminação "lembrava-o céu". Escadarias, um imponente arco, um pavilhão chinês, duas ordens de galerias e um camarim para SS. Majestades. E nesse camarim oito consolos de jacarandá com tampos de mármore e sôbre êles candelabros de cristal com quatro luzes cada um. Um espelho de moldura dourada e dois jarros de fina porcelana "donde de contínuo exalavam puras emanações

as cândidas flôres que produzem os nossos mais belos jardins". Três lustres também de cristal, alcatifas, duas cadeiras de espaldar estofado e forradas de damasco carmezim. E luzes, muitas luzes. Além das centenas de bicos de gás, o refôrço de 1.640 lampiões com velas de espermacete. É de se imaginar o esplendor. Luminárias iguais ou superiores só as de que se enfeitara o Recife para receber os Voluntários da Pátria, de volta do Paraguai. Em 1864 contava a cidade com 1.067 lampiões a gás, assim distribuídos: Bairro do Recife ….............................. 167 Santo Antônio …................................ 263 São José …....................................... 234 Boa Vista …...................................... 282 Afogados …...................................... 34 Passadiço …...................................... 4 Ponte provisória ….............................. 8 Santa Isabel …................................... 20 Boa Vista (ponte) …............................. 5 Madalena …...................................... 20 No mesmo ano de 1859 a companhia de iluminação a gás declarava-se preparada para "colocar canos nas casas para fornecimento de gás", que seria pago à razão de 10$000 por mil pés cúbicos. A colocação dos canos do principal às portas das casas correria por conta da emprêsa, e nos interiores o serviço seria feito pagando o consumidor mil réis por pé. Os candeeiros, braços, lampiões, etc., obedeceriam a preços relativos às suas classes. Três pés cúbicos de gás davam uma luz igual a 5 velas de espermacete, vendidas aqui em pacotes de 6 em libra, consumindo 250 grãos de espermacete por hora. E êsses três pés cúbicos custariam apenas 30 réis, enquanto as velas custavam 200 réis por hora. Uma luz de azeite de côco custava 100 réis, também numa hora. Haveria um registro para marcar o consumo. Tôdas essas vantagens constavam de um anúncio da emprêsa. E tempos depois ela oferecia 40% de desconto nas despesas de instalação domiciliar, facilitando assim a extensão do uso do gás. Em 1879 os lampiões subiam a 1.879, e a despesa com a iluminação pública orçava em 114:434$700, tendo sido os contratantes Fielden Brothers multados em 4:124$880. Sobretudo ao comércio o novo sistema de iluminação viera a servir. Puderam as lojas apresentar melhor sedução de vitrinas e mostruários à noite. Facilitou-se a visita das famílias, mais à vontade, sem os chapéus e trajos de luxo, a escolha mais proveitosa das fazendas no seu padrão e no seu tom, enfim um aumento sensível de apurados. Saíam muito mais às ruas depois das ave-marias do que outrora com a meia escuridão do azeite de peixe. Mas, por fim, já os combustores comuns não iam satisfazendo, em número, nas ruas comerciais. Adotaram os negociantes uma iluminação especial, mantendo a suas custas lampiões extras. Os da Rua do Crêspo resolveram manter a iluminação especial adotada na festa do Arco de Santo Antônio. Os da Rua Nova e Cabugá também imitaram os colegas da Rua do Crêspo. Depois, foi a vez da Rua da Imperatriz. Êsses lampiões especiais mantinham-se acesos até às 9 da noite, quando o comércio fechava.

Um comerciante da Rua Nova comprometeu-se ao acôrdo para ter luz extraordinária, porém não pagou a sua quota. Daí, por vingança, manterem o poste à porta do caloteiro, mas sem o lampião e com esta legenda : O 54 Ainda não pagou o gás Mas tem a satisfação De ver o bico sem luz E a coluna sem lampião. A princípio, em noites de luar não se acendiam os lampiões a gás. Posteriormente essa restrição cessou, porque havia muitas vêzes a ausência da lua em dias em que deveria estar presente. Contudo, em 1905, numa renovação de contrato, e por medida de economia, tornou a vigorar o apagamento dos combustores em noites de lua plena, aparecesse ou não... Muito glosou a oposição essa medida de poupança, chamando-lhe de "contrato com a lua". Embora com a adoção das camisas incandescentes a luz do gás tivesse melhorado bastante, já não estava atendendo bastante às exigências da época no comêço do século XX. Daí terem-se feito experiências, por volta de 1905, com a iluminação pública por meio de lâmpadas a álcool. Organizou-se uma Companhia de Luz e Fôrça Motriz pelo Álcool, e por sua iniciativa as ruas do Cabugá, Nova, Duque de Caxias foram também iluminadas por êsse sistema. Luz inegàvelmente simpática: forte, alva, suave. Mas as tais lâmpadas eram muito complicadas e caprichosas. De quando em quando encrencavam e davam trabalho. Nos domicílios, onde também obtiveram voga, deram muito que fazer: quase sempre, numa noite de festa, em meio ao jantar, numa hora de doença, murchavam a luz ou se apagavam de todo. Quando não estouravam. Embora festiva a inauguração das lâmpadas a álcool nas nossas ruas, elas duraram pouco. O gás voltou a dominar. A eletricidade vinha surgindo. Casas comerciais, raras ainda, dispunham dêsse melhoramento mercê de motores próprios. As casas da Júlia e da Madama Inglêsa, a Photographie Chic, uma outra qualquer. Saia gente de seus lares para ir ver a "luz elétrica". Falam os jornais antigos de um foco elétrico na fachada de Bourgard & C. (do telefone), que deu que falar no Recife. Outra amostra; na festa do Cajueiro, do Hospital Português, mereceu comentários: "Cavalheiros e damas admiravam a maravilha dessa luz". Os moradores de Fora-de-Portas, por essa mesma época, 1882, tomaram um susto tremendo. A noite avistaram um clarão celestial para os lados do mar. Acendia e apagava misteriosamente. Houve sustos, rezas, até começos de mudança. Soube-se depois ser uma galera surta no Lamarão a fazer fulgir sua lâmpada elétrica no alto de um mastro. Em 1886 deu-se uma concessão ao Sr. José da Silva Loio Júnior para explorar um serviço de iluminação elétrica na cidade. Os empresários Fielden Brothers protestaram. Seria desnecessário o protesto, porque tal melhoramento somente vinte e tantos anos depois o Recife o desfrutaria. Em 1895, nova tentativa. Editais de concorrência. Fracasso. A luz elétrica ofereceu-se abundantemente em público no Derby, quando Delmiro

Gouveia manteve ali seu grande Mercado da Estância, com vários divertimentos, na campina onde existira o prado de corridas. Orgia de luzes. Ponto de atração da cidade inteira. Teatro. Hotel. Jogos. Até bonde se teve para o Derby. Propriamente serviço regular de iluminação elétrica no Recife quem no-lo deu foi a Pernambuco Tramways. Essa empresa estabeleceu o transporte coletivo por energia elétrica, adquirindo a Ferro-Carril e as companhias dos trens suburbanos. Também comprou a Companhia do Gás, em 1913, obrigando-se a ir substituindo o antigo sistema de luz pela eletricidade; quer nas vias públicas quer nas residências. O primeiro trecho inaugurado foi o do centro da cidade, a 28 de março de 1919. A luz elétrica triunfou inteiramente hoje. Todavia, há que fazer um reparo de justiça. Olinda, nossa cidade-mater, teve iluminação elétrica primeiro que a sua rival, o Recife. Ali êsse sistema de luz foi inaugurado a 14 de julho de 1913. É bem verdade ter tido Olinda gás carbônico e posteriormente voltado ao querosene em seus lampiões de ruas. Uma volta ao passado... Desforrou-se, porém, com a eletricidade muitos anos antes que a cidade dos mascates... O Recife, hoje em dia, quase todo se envaidece de sua iluminação pública. Vai muito distante o tempo daquele Antônio dos Lampiões a quem se atribui o primeiro contrato de azeite de carrapato, ao alvorecer da nossa independência. Lâmpadas elétricas pelas avenidas, pelos parques, pelas estradas e até pelos becos. Contudo, há uma emoção singular quando ainda vemos, em trechos menos estensivos da cidade, aquêles lampiões de braço, fincados nas, paredes. projetando-se para a rua, numa elegância que não é, fácil imitar embora sem luz. E êles vão se sumindo de todo da paisagem recifense.

- "Menino, você já está no tempo de ir para a escola!" Era uma frase vulgaríssima de antigamente. Emitida, quase sempre, num tom misto de interêsse pelo saber e de ameaça de uma disciplina mais forte. Essa escola não seria apenas a instrução, mas, igualmente, a cama, a palmatória e as orelhas de burro. Estava dentro da pedagogia de sua época. Nelas aprenderam nossos antepassados e deram para gente. Há, porém, a curiosidade de conhecermos como teriam sido estudantes êsses avoengos, qual o seu clima escolar, de que maneira viveriam em contacto com os mestres e condiscípulos. Sem dúvida a ressurreição é impossível no seu colorido próprio. Não há fotografias nem reportagens. Resta-nos imaginar e interpretar, cada um a seu modo, através de indicações sumárias e de elementos indiretos. Teremos, então, uma visão dos meninos de outrora com seus livros e cadernos feitos em casa amarrados numas correias de argola, metidos nuns trajos de fazenda grossa, de gorros ou chapéus de palha desabados a cobrir as cabeças tiranizadas pela soletração, pela tabuada ou a análise lógica nos Lusíadas... A caminho da escola ou do colégio. Onde seriam êsses educandários? Qual o seu aspecto? Que tipos teriam os professôres? Quais os seus métodos de ensino? Leiamos, antes de tudo, êste anúncio de 1879: José Bethencourt Amarante, administrador da lojinha de fazendas e calçados à Praça da Boa Vista n.º 16, propõe-se novamente a lecionar pequeno número de meninos as primeiras letras e noções gramaticais; promete agradar aos senhores seus pais, pois quando se puxa muito êles (meninos) entendem que já é martirizá-los.

Temos aqui duas cenas pedagógicas dignas de reparo. A improvisação do mestre ou, o que talvez seja mais certo, o empecilho da verdadeira vocação. Teria o Sr. Bethencourt jeito para o magistério, mas, rendendo pouco, não lhe dando para viver, ou não tendo conseguido uma cátedra oficial, dera para vender chitas e sandálias. O novo processo de conduzir alunos, sem puxar demasiado por êles, é igualmente sintoma de já se estar reagindo contra os excessivos rigores das escolas. Adaptava-se como ser inteligente que era. Há ainda a considerar certa coragem em vir de público confessar a prática do magistério, de vez que se sentem em publicações dêsse gênero o recato, o vexame, o cuidado em esconder pelo menos o nome de quem ensina remuneradamente, Quase sempre os oferecimentos vêm de "um senhor que possui alguns conhecimentos" ou de uma "senhora honesta capaz de ministrar lições de leitura, contas e bordados". Indicava-se a rua, o número da casa, embora se ocultasse a identidade do mestre. Poderia afetar talvez as suscetibilidades de algum parente mais altamente colocado, pôsto esquecido dos membros da família menos aquinhoados. Desmanchar-se-ia porventura o casamento de uma filha, de uma irmã, com essa revelação ostensiva de "ensinar meninos". As indicações tornavam-se até mais vagas, como as dêste aviso: Um moço casado e sua senhora, ambos com bastante prática de ensino, se oferecem para lecionar nesta cidade ou em algum engenho primeiras letras, gramática portuguêsa, geometria, geografia, inglês e a falar francês, costuras e bordados. Quem quiser deixe carta fechada nesta tipografia com as iniciais M.R.S. Já por si a prevenção contra o exercício de funções remuneradas era arraigada e imperiosa. Seria feio trabalhar para fora: costuras, labirintos, bolos, para vendagem, constituíam indícios de aperturas pecuniárias, de declínio social, de deslustre do nome... - "Sabe? D. Carminha está cosendo para fora!" E seguia-se o comentário: - "Quem diria, hein? Neta de um barão!" Daí esta proposta cujas entrelinhas dispensam maiores explicações: Uma pessoa capaz e com as condições precisas propõe-se, mais por entreter o tempo do que pelo interêsse que lhe possa resultar, a ensinar em sua casa as primeiras letras até ao prefixo número de 20 alunos. Rua da Alegria, 2.ª casa ao lado esquerdo, indo da Ribeira. A assiduidade e o método que pretende empregar não deixará de produzir em breve prazo os melhores resultados. Mais entretenimento do que interêsse... Uma pedagogia de passatempo. Daria mesmo os resultados pretendidos? Por causa das dúvidas um outro se fazia mais explicito e ousado: Qualquer sr. que precisar de um hábil professor para aprender ou mandar ensinar retórica, filosofia, latim e francês dirija-se à rua da Cadeia n.° 59 onde achará com quem tratar. Adverte que suas lições podem ser presenciadas por qualquer curioso e que promete em pouco tempo mostrar o seu desvêlo. Duas boas amostras do tempo. Em ambos o escrúpulo do nome. Num, a preocupação de desdém pelo dinheiro; noutro, a vaidade de não temer a crítica à sua competência. Maior desassombro revelava o Sr. Antônio Gonçalves Domingues. Êste se apresentava inteiramente identificado e lançava ao público a declaração escandalosa de adotar métodos abreviados nos quais a férula não tinha lugar. O nosso Sr. Domingues assumia êste compromisso inacreditável para seus contemporâneos: ensinar sem o auxílio da palmatória. Quantos risinhos de zombaria entre os colegas de classe! Quantos, do alto de sua autoridade, com uma voz adequada para o momento, não teriam sentenciado: - "Êsse professor das arábias é um maluco!" Se, todavia, alguns assim se manifestavam, descrentes, outros iriam admitindo a possibilidade da abolição da férula. E preferiam mesmo a escola onde ela não se aplicasse mais. Versinhos refletiam a reação: Qualquer bichano careta abre hoje sua escola e de palmatória em punho nos alunos bate sola. E os coitados dos meninos por não saberem a lição vivem sofrendo o castigo desta nova inquisição. Pois que são inquisidores os mestres que por aí há que julgam que mais ensina quem mais nos alunos dá. Bem custoso terá sido, entretanto, convencer os pedagogos da eficiência, sem a férula, da assimilação mental dos compêndios de Doutrina Cristã, de Caligrafia, de Gramática Portuguêsa, de Noções Gerais de Aritmética Prática, vendidos nas livrarias de então a da esquina do Colégio ou da Rua da Cruz, por exemplo. Nem tampouco o ensino de "fazer labirintos com perfeição" dispensaria pelo menos uns cocorotes... Em 1828 exigiam-se exames para a regência de cadeiras primárias que fôssem criadas. Já não se permitiam improvisações muito amplas. Ao menos os candidatos provariam diante de banca suas habilidades antes de irem gozar os proventos dos 200$ anuais nas escolas de Iguaraçu, de 240$ em Goiana ou em Garanhuns. Nesse comêço do século XIX havia aulas de Botânica e Agricultura no Jardim das Plantas, de Olinda. E no Liceu Provincial existiam as cadeiras de Gramática Latina, Retórica, Poética, Filosofia Racional e Moral, Aritmética, Geografia, Inglês, Desenho, Francês, História, Física, cálculo e Comércio. Nos bairros do Recife e Boa Vista funcionavam duas cadeiras de Latim. Em 1837 o professor Belarmino de Arruda Câmara apresenta um plano de colégio de educação primária na cidade do Recife, sob o título "Colégio da Conceição", sob as seguintes bases: Os pensionistas pagavam 200$ anuais e os externos 24$000. Os primeiros tinham direito a um primeiro almôço, jantar, ceia e roupa lavada. Ensinar-se-iam: Doutrina Cristã, leitura, escrita, contas, Gramática Portuguêsa, Geografia, Latim e Francês. Em aulas extraordinárias, danças, Música e Desenho.

Seriam feriados: véspera de São Tomé até Reis; da 4.a feira de Trevas à Páscoa. Exames no fim do ano. Uniformes: calça branca. parda ou azul; sobrecasaca azul de ganga e gravata preta. Para as saídas usar-se-ia: calça preta ou branca, jaqueta azul. Os alunos internos, de 6 a 14 anos, trariam cama de lona e baú com roupas. Vamos assistir às refeições: ao almôço, chá ou café, pão com manteiga; ao jantar, carne cozida com verduras, arroz, prato do meio e frutas do tempo; à ceia: letria, arroz-doce, ervas com pão. Nos dias de preceito: peixe ou bacalhau. Não haverá castigos grosseiros, mas jeito e brio. Não é tão difícil assim vivermos um pouco a época de escolares dos nossos avós mais remotos. Essas condições do Colégio da Conceição nos proporcionam um quadro nítido dêsse quotidiano, a ponto de vermos os estudantes com sua garbosa fardinha quer nas atividades comuns da vida escolar, quer nos dias solenes de festas ou agradáveis de saída... Partilhamos de suas refeições; sentimos o perfume do cozido com verduras, provamos o arroz-doce, bebemos o chá verde... Assistimos aos argumentos de doutrina ou de tabuada; ouvimos uma boa tradução do Método de Ahn ou leitura da Cartilha Maternal ou do Primeiro Livro de Abílio César Borges. Outro colégio notável foi o do professor José Soares de Azevedo. Era o Pernambucano. Em 1841 realizou pomposa distribuição de prêmios. Desfile dos alunos, missa cantada no Convento de São Francisco, oração pelo Padre-Mestre João Capistrano. O educandário ficava no Atêrro da Boa Vista, n.º 6. Êsse professor Soares de Azevedo, ao contrário dos "anônimos", teve grande evidência no magistério pernambucano. Alcançou uma cadeira oficial no Liceu. Ensinou particularmente por longos anos, enchendo os jornais de anúncios. Por vêzes mesmo aparecia com publicações literárias ou de ordem pedagógica. Percebe-se sua importância na época através dessa publicidade, dos cursos que manteve e até de intrigas em que o quiseram meter. Outros: professôres também obtiveram renome nesses tempos: Filipe Néri Colaço, que ensinava Aritmética, Álgebra e Geometria; Antônio Vicente do Nascimento Feitosa, mestre de Filosofia Racional e Moral; Alberto Lavenère, que “ensinava Francês, Geografia, Matemática e Desenho; Bernardo Fernandes Viana, que ensinava meninos a 2$ por mês dando somente tinta, e a 2$500 dando todos os pertences de escola, sendo lição de leitura 2 vêzes ao dia, contas, uma vez; na 2.ª- feira, tabuada pequena e dobrada; pesos e medidas, algarismos e vinténs até patacas, explicação de regras de civilidade." Na 3.ª-feira, doutrina e ajudar missa. Sábado: tôda a doutrina. O Colégio de Santo Antônio também expunha suas condições de matrícula, de ensino e tratamento. Acrescentava serem os banhos às 4as. e sábados, parcimônia explicável pela dificuldade de água numa época em que não havia ainda torneiras e o "precioso líquido" vinha de longe em canoas. Fornecia porém a direção do colégio velas de espermacete para o estudo à noite. Os preparatórios ensinados obedeciam ao programa oficial:1.º ano - Gramática Nacional, Latim, Desenho Linear e Figuras, Geografia Descritiva e Civil; 2.° ano - Latim, Aritmética, Francês, História Sagrada, Geografia e Desenho; 3.º ano - Latim, Aritmética, Francês, História (Romana, Grega, Idade Média), Inglês, Geometria, Botânica e Mineralogia; 4.° ano - Latim, História do Brasil, História Geral (Idade Moderna), Botânica, Geometria, Zoologia e Ciências Físicas; 5.° ano - Álgebra, Física, História da Literatura, Trigonometria, Filosofia Racional e Moral e Retórica; 6.° ano - História da Literatura Nacional, Astronomia Elementar.

Do sexo feminino, o Colégio Francês do Espírito Santo exigia o seguinte uniforme: vestido branco, singelo, com avental de sarja preta. Em contraste com essa singeleza, outro estabelecimento escolar para meninas contratava um professor de danças, o que muito teria dado que falar. Logo professor!... Que credenciais de moralidade precisaria apresentar êsse dançarino para se conceituar perante os pais das sinhàzinhas de seu tempo? Um educandário que teve grande realce foi o Internato Pernambucano, na Ponte d'Uchoa, fundado por Manuel Alves Viana, no ano de 1876. Publicava um anúncio ilustrado de um sabor especial. Representava o prédio que é o atual palacete Batista da Silva, e no parque viam-se os alunos em recreio. Um trepado numa bicicleta de rodas de tamanhos diferentes; outro, num carneiro; uns pulando em cordas; outros manejando halteres; vários jogando bolas ou petecas; enfim, todos distraidíssimos e folgazões, apesar das compridas jaquetas que vestiam. No texto gabava-se a situação do colégio, num arrabalde dos mais salubres do Recife; o confôrto do prédio, o corpo docente culto e moralizado, o abono do aproveitamento nas listas de aprovações, a excelência da alimentação, provada pelas visitas espontâneas e inesperadas de pais de alunos. Êsse Internato Pernambucano, em 1882, entre seus alunos distintos apresentava os nomes dos Srs. Artur Henrique de Albuquerque Melo, Valfrido da Cunha Antunes, José Matias Gonçalves Pereira, José Austregésilo Rodrigues Lima, João Luís dos Santos e Teodorico de Oliveira. Êles terão tomado parte animadamente nos folguedos de recreio que o desenho tão vivamente nos recorda. Houvera um colégio para meninas na Tamarineira, que depois se transferiu para os Coelhos. Estava no 14.0 ano de existência em 1867, e a diretora, "em prova de aprêço em que considera o progresso das idéias civilizadoras do pais, oferece ampliar a instrução das meninas com o ensino da língua inglêsa, a língua italiana, o canto, a pintura, a aquarela, à la gouache, estas subordinadas ao desenho, flôres, e demais obras de cêra. A diretora espera sem vaidade e despida de estudado fanatismo e hipocrisia, segura nas garantias que possui, ser atendida e acreditada." A viúva de Mr. Cambronne, o que fôra contratante do primitivo serviço de esgotos da cidade, mantinha na Capunga seu Colégio. Francês, e o velho professor Raimundo Honório já ensinava na Rua do Sebo, no 3 de Dezembro, que dirigia. Nem se pense que na segunda metade do século passado a instrução secundária estivesse descuidada. Basta citar os nomes dos estabelecimentos de ensino nessa época: Santíssima Trindade, nos Coelhos, n. 20; Nossa Senhora da Saúde, Rua da Imperatriz, 17; Santa Genoveva, Cotovêlo, 154; Externato Gadauet, na Rua do Hospício; Nossa Senhora da Conceição, Rua São Francisco, 72; São Francisco Xavier, dos padres jesuítas, na Rua do Hospício; Nossa Senhora da Penha, na Rua do Cabugá, 7, 1.º andar; Imaculada Conceição, Rua Augusta, 280; 11 de Agôsto, na Rua da Glória; Instituto Acadêmico, na Rua Visconde de Goiana; 19 de Abril, Rua do Progresso; Santa Lúcia, Rua do Queimado; 12 de Maio, no Corredor do Bispo; Institution Française de Demoiselles, Rua do Sebo; Instituto Nossa Senhora do Carmo, Rua de São Francisco, e Nossa Senhora das Vitórias, Rua do Hospício. Êsses colégios foram mais ou menos contemporâneos. De épocas próximas, ainda o Pedro II, na Rua do Sebo; o Americano, na Rua da Imperador, 42, de D. Maria Cândida Bandeira Magalhães, auxiliada pela irmã, D. Ana Pinto Bandeira de Magalhães, e no qual as aulas de Geografia, Aritmética e Gramática Portuguêsa eram ministradas pelo ilustrado lente do Ginásio Dr. João Batista Regueira Costa, e as de Música pelo inteligente pianista Cláudio Ideburque Carneiro

Leal; o Nossa Senhora da Graça, na Ponte d'Uchoa, cuja diretora era A. Caroll; o Americano, sito na Estrada de João de Barros, n.º 24; o Colégio d'Aurora, do professor jubilado Silvano Tomás de Sousa Magalhães, que expunha seus métodos de ensino, corpo docente, etc. Os alunos internos pagavam anualmente, por quartel de 105$, a importância de 420$000, com direito a médico e botica; semi-internos, 216$; os externos, mensalmente 5$000. A instrução compreendia: 1.º - Ler e escrever; 2.° - Princípios gerais de moral; 3.° - Doutrina cristã e civilidade; 4.° - Exercícios gramaticais; 5.° - Noções de aritmética; 6.º - Seu desenvolvimento em aplicações práticas, quer em inteiros e quebrados, quer em decimais e regras de proporções. 7.° - Sistema de pesos e medidas do império; 8.° - Elementos de geografia e história, com especialidade do Brasil ; 9.º - Geometria retilínea. Em 1868 o Colégio de São José, ainda hoje existente, já se anunciava. Estabelecido na grande casa contígua à igreja de Nossa Senhora da Soledade, dirigido pelas Irmãs de Santa Dorotéia, sob a proteção do Revdmo. Sr. Dr. Vigário Capitular da Diocese. Internas pagavam 35$ mensais, meio-pensionistas 15$, e externas 5$ não sendo pobres. Logo que pudesse, admitiria também internas sem recursos pecuniários. Êsse colégio inaugurou-se a 21 de janeiro. Missa cantada pelo Deão Faria, tendo como ministros assistentes os Cônegos Castilho e Sousa Gomes. Pregou ao Evangelho o Superior e Visitador da Missão Jesuítica Padre Razzini. Os acompanhamentos da missa foram feitos a harmônio e côro por parte de irmãs e educandas. As meninas do São José andavam de vestido branco com faixa azul na cintura. A propósito de indumentos ocorre citar o enxoval exigido pelo Colégio de Nossa Senhora das Vitórias. Êste educandário era dirigido pela Baronesa Lucie d'Herpent e seus dois filhos: Mme. Blanche d'Herpent Torgo e Barão Jules G. Vander Dussen d'Herpent. Eis o enxoval : 1 vestido prêto; 1 véu para missa e atos religiosos; 1 chapéu de palha; 2 vestidos brancos; 1 colchão; 2 travesseiros; 1 cobertor de lã; 2 ditos de chita; 6 fronhas; 6 lençóis; 6 toalhas de rosto; 3 ditas de banho;

6 guardanapos; 1 talher; 1 copo; 1 vaso com tampa ; 1 bacia para banho. E mais objetos para toucador e dormitório. Como se vê, era completo. Dava como referências de sua idoneidade os nomes dos Drs. Herculano de Sousa Bandeira e Henrique Pereira de Lucena. Colégio grã-fino. A abundância de educandários no Recife, alguns com tão boas, credenciais, não evitava que muitos pais preferissem enviar seus filhos aos da Europa. A Europa era o grande preconceito do tempo. Muito rapaz e muita moça voltou de lá arrastando os erres e fazendo curvaturas de salão, embora escrevesse português como um vendelhão de curtas letras. O Colégio para meninos em Wandsbeck, na Alemanha (subúrbio de Hamburgo), oferecia suas imensas vantagens civilizadoras mediante 1.000 marcos anuais, menos Dança e Desenho, que iriam à parte no pagamento. Afirmava germânicamente que "daria educação exemplar" aos... mestiços sul-americanos. Também o Instituto São Bernardo, fundado em 1862 sob a proteção do Sumo Pontífice Pio IX, estêve no auge. Dirigia-o o bacharel em Matemáticas Bernardo Pereira do Carmo Júnior, ministrando educação física, intelectual, moral e religiosa. Já contava, após alguns anos de vida, numerosos ex-alunos na Faculdade de Direito. Era na Rua da Aurora, n.º 32. A Escola Normal foi criada em 1864, tendo como diretor o Cônego Francisco Pereira de Brito Medeiros. Entre os seus primeiros professôres figuram os Srs. Bacharel Jorge Dornelas Ribeiro Pessoa, Maximiano Lopes Machado e Miguel Arcanjo Mindelo. As aulas começavam a 25 de julho. O Recife civilizava-se. No ano seguinte abria-se "com luxo" a Livraria Francesa, de Garraux & Lailhacar, na Rua do Crêspo, n.º 9. "Honrava à cidade que já conta uma Academia de Direito". Nesse tempo o Sr. João Valfredo de Medeiros, que viria ser o dono da Francesa no comêço dêste século, era o proprietário da Livraria Acadêmica, na Rua do Imperador, 79. Vendia-se em 1.ª edição a Gramática Portuguêsa de Salvador de Albuquerque, de mistura com O Judeu Errante, O Conde de Monte-Cristo, e A Revolução de 48, por Lamartine. E saía A palmatória, periódico critico e divertido a 40 rs. o exemplar: "Cheguem, rapazes do tom, Descobriu-se A Palmatória. Venham comprá-la, é barato, Venham cobertos de glória." No Palacete da Rua da Praia ensinava-se leitura repentina por cartilhas - método para cortar o vício de as crianças comerem as últimas sílabas das palavras. Feriados os sábados. O professor dava, livros e velas para o estudo à noite. Perto, da livraria do padre Inácio. Tobias Barreto teve um colégio, o 25 de Março, na Praça do Conde d'Eu. As escolas primárias eram em número de 100 no ano de 1861, com a freqüência

de 3.568 alunos. Dez anos depois subiam a 269, com 9.822 alunos. Já em 1886 a matrícula das masculinas atingia 6.420; das femininas, 5.121; das mistas, 1.231. Nas noturnas, 135, alunos do sexo masculino. Nas particulares: masculinas, 316,; femininas, 256; mistas, 26 alunos. O diretor interino da Instrução manda fornecer 4 candeeiros e uma lanterna para o serviço na escola noturna da freguesia do Recife (Fora-de-Portas), de que era professor meu avô materno. Antônio Rufino de Andrade Luna. A escola feminina ali também mantida era dirigida por sua espôsa, a professôra Emília Cândida de Melo Luna. Foi isto em 1871. Nesse ano a verba destinada à instrução pública da Província era de 408:861$200. Havia 312 escolas primárias. Matricula de 6.398. alunos nas masculinas, de 3.124 nas femininas e de 106 nas particulares. Na Escola Normal, 49. Na escola prática anexa, 114. No Liceu Provincial existiam 18 cadeiras. Alunos internos, 149; externos, 42; semi-internos, 14. Existiam no Recife 17 colégios secundários para meninos, com 626 alunos, e 9 para meninas, com 85 alunas. Na Faculdade de Direito, 348, e no Seminário, 64. O Liceu Provincial foi fundado em 1.º de setembro de 1825, sendo seu primeiro Diretor o Padre-Mestre Miguel do Sacramento Lopes, também jornalista e famoso pelo seu jornalzinho satírico O Carapuceiro. Nasceu o educandário no Convento do Carmo e depois de ter andado de empréstimo por vários prédios, inclusive um dos torreões da antiga Alfândega, veio a ter seu vistoso edifício próprio, à margem do Capibaribe, onde ainda hoje funciona. Deram-lhe, posteriormente, o nome de Ginásio Pernambucano, sendo que nos começos da República, sem resultado, quiseram impor-lhe a denominação de Instituto Benjamim Constant. Teve, por alguns anos, internato, enquanto o Colégio das Artes, anexo à Faculdade de Direito, também de renome, aceitava apenas alunos externos. Cogitava-se de fundar uma Casa Modêlo, a exemplo das Casas de ABC dos Estados-Unidos e da Côrte. Em 1874 estavam matriculados na Escola Normal: 55 homens e 44 senhoras. No dia 31 de julho de 1872 reúne-se na Rua do Cabugá, n.º7, sobrado onde residia o Dr. João Dinis Ribeiro da Cunha, um numeroso grupo de professôres para tratarem da criação de uma associação que auxiliasse a causa da instrução no Recife. Faria também, por todos os modos úteis, a propaganda da alfabetização. E nessa data fundou-se a Sociedade Propagadora da Instrução Pública. Surgiram depois, sob seu patrocínio, várias escolas primárias; entre elas a que subsiste até hoje com o nome de Escola Normal Pinto Júnior. Ao nascer, era simplesmente A Propagadora e votavase também a formar professôres primários. Inaugurou-se a 11 de agôsto do ano acima citado. As aulas passaram a ser noturnas para as normalistas, atendendo-se a que se tornava mais fácil a freqüência de moças pobres, que não dispunham de trajos "decentes" para andar nas ruas à luz do sol. Foram lentes da Propagadora Martins Júnior, José Higino, Olinto Vítor, Buarque de Macedo, Cônego Melo Luna, Landelino Câmara, Franco de Sá, Regueira Costa, Afonso Olindense, Artur Orlando, Luís Pôrto-Carreiro, Leal de Barros, Virgínio Marques, Alcedo Marrocos, José de Freitas Morais Pinheiro, Arnóbio Marques, Luna Freire, Cícero Peregrino, Vicente Ferrer e muitos outros nomes de relêvo no magistério. Nenhum dêles ganhava um vintém na Propagadora, e todos se esforçavam na assiduidade e no método de ensino. O Dr. Pinto Júnior foi de tal modo um de seus valorosos e dedicados servidores que por sua morte a Escola lhe tomou o nome, numa homenagem merecidíssima. Hoje todos lhe chamam Escola Pinto Júnior, mas até o começo do século em curso era A Propagadora.

E as suas alunas "as moças da Propagadora". Êste mesmo século XX herdara do anterior novos estabelecimentos de ensino que tiveram fama depois. O 11 de Agôsto, na Rua da Glória; o 19 de Abril, dos irmãos Pôrto-Carreiro, na Rua do Hospício (hoje Escola de Engenharia); o Coração Eucarístico, também na mesma rua, no prédio de esquina em que estêve depois o Ginásio do Recife; o Santa Margarida,a princípio na aludida Rua do Hospício; o Instituto Aires Gama, na mesma artéria boa-vistana: o Instituto Pernambucano, com seu apogeu na Rua da Aurora; o Pritaneu, na Rua da Soledade. O Aires Gama, de Alfredo Gama, deu a nota com seus espetáculos de fim de ano ou na data natalícia do diretor. Esplêndidos números de declamação, canto, comédia, orquestra. Não ficava um lugarzinho vazio para ninguém. E muito homem velho ou maduro de agora ali se exibiu numa cançoneta, num solo, num recitativo, num papel de teatro. Alfredo Gama era o maestro, o ensaiador, o compositor. Cândido Duarte, dirigindo o Instituto Pernambucano, votava-se mais às cerimônias e festas cívicas. Teve um batalhão luzido formado de alunos, ao qual um instrutor do Exército ministrava ensino militar. Nas paradas dos batalhões de linha em datas nacionais a "tropa" do Pernambucano não faltava, com sua banda de música própria. Dos colégios de meninas o Santa Margarida tornou-se o de maior destaque. De suas festas de encerramento de aulas e distribuição de prêmios guardam-se ainda vivas recordações pela finura do ambiente, pela seleção das famílias de alunas, pela graça e arte dos programas. Também as tardes de premiação no São José, embora com um aspecto mais religioso, revestiam-se de solenidade e brilho. Famílias da alta sociedade desciam dos seus carros próprios defronte da "grande casa" junto à igreja da Soledade, e iam enchendo o salão de honra. O bispo comparecia, distribuía os prêmios de maior importância. Havia muito contentamento, muitas lágrimas de emoção, muitos beijos de pais, muita vaidadezinha mal disfarçada porém estimuladora. Apareceu a moda dos quadros de formatura para os colégios de moças. Com uns passe-partout de inspiração do Vera Cruz Tondela, Piereck, Monteiro & Cia. Eram expostos dias antes, e lá iam vê-los pessoas das famílias, conhecidos, compadres, curiosos e... tantas vêzes olhos que visavam entre todos um só retrato de concluinte. Essa moda dos quadros de formatura iniciou-a o Colégio Pritaneu - um dos educandários femininos de maior renome no Recife. Nas quintas-feiras da Paixão alguns colégios saíam em duas filas para visitar o Santo Sepulcro. Ou para ir ver no cinematógrafo, que era novidade, a vida de Jesus. Para assistir à passagem de procissões, igualmente vinham à rua Colégios, quer de um sexo, quer de outro. Não se poderão esquecer os educandários de caridade. Êles, na sua modéstia, realizam uma obra imperecível e nunca bastante admirada. Santa Teresa, de Olinda; Jaqueira, Magalhães Bastos, da Várzea; Estância - cada um dêsses tem sua história de dedicações de proteção e de alfabetização. A casa dos Expostos, no govêrno de D. Tomás José de Melo, 1789, por haver sido extinta aqui a Ordem dos Capuchinhos, foi instalada na igreja da Penha, com sua respectiva "roda". Em 1840, restaurada a missão capuchinha no Recife, passou-se a Casa dos Expostos para um prédio da Rua da Aurora, onde esteve até voltar, em 1&55, para a Rua da Roda. Posteriormente as órfãs tiveram por teto um edifício na Jaqueira, junto ao qual se levantaria o magnifico prédio do Hospital Infantil Manuel Almeida. Nessa Casa dos Expostos as irmãs de caridade estabeleceram uma escola primária, além de ensinarem trabalhos manuais.

Houve no meado do século passado um Colégio dos Órfãos e outro das Órfãs. O primeiro, criado em 1831, foi mandado estabelecer-se no convento deixado pelos Carmelitas Descalços, cuja ordem deixou de funcionar em Pernambuco. Depois, transferiram-no para um prédio na Rua da Aurora, e dali para o da Rua da Glória, onde posteriormente estêve o Instituto dos Cegos. Os órfãos passaram-se para a Colônia Frei Caneca. O das Órfãs foi inaugurado num sobrado da Rua da Aurora, e depois mudado para o Convento de Santa Teresa, em Olinda. Mais recentes, os recolhimentos de crianças desvalidas, com escolas, desdobraram-se pela Casa da Estância (São Vicente de Paula) e Magalhães Bastos, na Várzea. Todos êsses estabelecimentos vieram a ser subordinados à Santa Casa de Misericórdia. No Colégio da Jaqueira verificou-se em 1912 uma das tragédias mais dolorosas de que os recifenses já tiveram notícia. Certa manhã uma das irmãs precisou administrar um vermífugo a cêrca de cem alunas que dêsse tratamento estavam necessitando. Aconteceu que, mal ingeriram o remédio, tôdas as órfãs começaram a sentir-se mal. Uma intoxicação violenta e gravíssima. Algumas meninas já agonizavam. Chamam o médico. É um envenenamento sério. Alarmam-se o colégio, a vizinhança, a cidade inteira. Correm médicos às dezenas para o orfanato. Verifica-se que, ao invés de sêmen-contra (vermífugo), as educandas tinham ingerido cólquico. 88 meninas intoxicadas. 18 já estão prestes a expirar. Outras sofrem. Aplicam-se medicamentos adequados. Mas às 4 da tarde havia 35 cadáveres; à noite, 42. E eram cenas terríveis. Uma das meninas, a pequena Laura, dizia entre dores atrozes: - "Quero morrer logo. Minhas companheiras já foram; quero ir também para o Céu." Uma mãe encontra a filha já morta, na mesa do necrotério. Ali se atulham os ataúdes, enfeitados de fôlhas de pitangueira. Brasilina, uma pardinha, levou dias entre a vida e a morte. Todo o Recife acompanhava pelo noticiário das fôlhas sua agonia e suas esperanças de salvação. Um dia, perto de morrer; outro, livre de perigo. Por fim, ela venceu a morte. Outras - 43 - também escaparam. Foram para a sepultura 45, umas juntinho das companheiras, como no dormitório do orfanato. Uma negligência de farmacêutico gerara essa tragédia. Ia-se, porém, trabalhando pelo Saber. Obra de séculos e de gerações sucessivas num labor humilde, constante e desprezado... Com muito ou pouco tino pedagógico. Com espírito de apostolado ou mácula de entranhado interêsse pecuniário. A eiva não é de hoje. Que o afirmem êstes versinhos: A instrução secundária Vai por aí muito mal, O estudo é tal ou qual, Mas ostenta-se garboso Monopólio escandaloso. Só conta ser aprovado O que estuda em certa parte, Não se vive aqui sem arte. Amigo, é bom estudar Com quem tem de examinar.

A boa mensalidade Bem paga com prontidão Produz certa mansidão Que vem acabar em A; O rigor não chega lá. E como êste garante Colégios particulares Em mui bonançosos mares Navegam afortunados, Os RR ficam burlados." Havia professôres improvisados ou de bem orientada profissão. Alunos estudiosos e vadios. Bons e maus programas. Críticas justas ou malévolas. Esta seria plausível ou refletia vingança: Pede-se a um professor do pátio do Têrço que não abandone seus alunos para vir pedir dinheiro emprestado na rua, dinheiro nunca pago. Enquanto isso os alunos oferecem cravos às vizinhas, das janelas das escolas... Como se vê, nesse distante 1871, os pobres professôres já viviam em aperturas financeiras, a ponto de darem facadas pelas ruas, e os meninos das escolas já eram bastante sabidinhos para tecerem galanteios às meninas das redondezas. E ainda há quem corra atrás do inédito... O Carapuceiro, por seu lado, criticava amargamente a orientação dada aos Cursos: O Latim se ensinava em 6 a 8 anos. Agora, mais o Francês, o Inglês ao mesmo tempo, e ainda sobra vagar para a Geometria, tudo em 3 meses de férias; mais 3 ou 4 para os restantes preparatórios; e matricula-se imediatamente se se é um abismo de jurisprudência. Êste tópico, sem dúvida, foi muito glosado entre os graves senhores em conversanos banquinhos da Ponte da Boa Vista. E um dêles, limpando ao lenço de barras a luneta cativa por uma fita preta à casa do sutambaque, sentenciaria: - Aprender só no meu tempo, com a palmatória...

Os versos populares escrevem também a história de uma cidade. Não somente a história política, mas a social. Recolhê-los, quando não descobri-los, por escondidos em publicações esquecidas, é reconstituir colorida e saborosamente o passado, quer nas linhas mestras, quer nos pormenores, nos seus diz-que-diz, nas suas malícias, num quotidiano característico. É farta a contribuição da musa do povo. Uma fôlha diária, um almanaque, um livro de sortes, um hebdomadário ilustrado tôdas essas fontes se oferecem dadivosas aos que em sua busca andam ávidos de um flagrante antigo. Lemo-los com a curiosidade de quem almeja penetrar as épocas transatas e interpretar-lhes o cenário, o ambiente, a vibração, conhecendo-lhes os fatos do dia, os comentários, as criticas. Já Pereira da Costa agasalha, no seu excelente Folclore Pernambucano, versos populares em tôrno da inauguração da primeira ponte do Recife, aquêle notável acontecimento do século XVII, vendo-se um boi voar e atravessando-se a pé enxuto o Capibaribe, embora pagando o pedágio: Foi um dia de encantos, De graças, recreio Para o Conde que o bôlso De florins viu cheio. E, depois, os vates não pouparam os homens públicos da época o Mendonça Furtado, o José César de Meneses, o ouvidor Bacalhau - sem esquecer o bandido Cabeleira: Fecha a porta, gente, Cabeleira aí vem Matando mulheres, Crianças também. D. Tomás de Melo, governador, teve seu quinhão de ironias, principalmente no tocante aos seus amôres por D. Brites: D. Tomás quando se foi Deixou muito cabedá Pra dotar a D. Brites Quando ela se casá. Êsses pedacinhos de sátiras pròpriamente históricas, citadas de Pereira da Costa, mostram quanto a verve dos poetas populares se adestrava para as manifestações de tempos posteriores, mormente no decorrer do século XIX, em que a cidade iria alcançar grande desenvolvimento e assistir a profundas transformações. A navegação a vapor facilitara o enxame de visitantes estrangeiros, o estabelecimento de um comércio parisiense, as ousadias de uma sociabilidade menos ronceira. Realizavam-se saraus a que se comparecia trajando casacas, e vestidos de gala trabalhados por artistas francesas, dançavam-se as quadrilhas e beijavam-se as mãos das damas, usavam-se os carnets: Há sujeitos tão devotos Que trazem nas carteirinhas Para se não esquecerem Os nomes das sinhàzinhas. E quanto à moda dos galicismos, dizia-se rimadamente: Ora, eu falo do francês Que todos querem versar Quando nem mesmo falar Sabem o seu português. Como se vê, essa crítica seria oportuna ainda, inteirinha, nos tempos atuais, substituindo-se apenas o francês pelo inglês... As preferências iam, como é de supor, para tudo quanto trouxesse rótulo de fora. Da terra, nada servia. A polícia proibia os pastoris e aplaudia o cancã. Quer o artigo de comércio, quer os artistas de vários moldes. Sem dúvida, êsse" clima estrangeirista, também não raro nos dias de hoje, deu margem aos seguintes versinhos:

Mademoiselle Camille Na cidade de Paris Quando lava roupa suja Tem-se em conta de feliz. Mas, depois, vem ao Recife, Faz coisas que não se diz, Pois medita no teatro Tem-se em conta de atriz. Enquanto tais modismos se verificam, a política ferve e apresenta motivos de glosas pitorescas. Os partidos digladiam-se. Um sobe, outro desce, e se existem fiéis votados até ao sacrifício, outros se mostram com raízes de convicção menos profundas: Nada, nada, minha gente, Tem razão o vencedor; Viva o partido que vence, Hoje eu sou conservador. Os conservadores haviam subido entre passeatas e vivas. E discursos, em que já achavam o govêrno imperial uma perfeição política, ao invés de um trono carcomido... No comércio, também, as sátiras não davam tréguas. Máxime quando as movia uma competência arrepiada ou um fracasso de negócios. Dai a mordacidade : No embarque do açúcar Lá da casa do Amorim Vai em cima o bom açúcar E em baixo só o ruim. E que dizer dos velhos aspectos da cidade? O rio tentava a um banho. Tão mansas as águas e tão frescas nos dias de calor de março! Muitos não resistiam. Atiravam-se ao Capibaribe e nadavam à vontade. Mas a crítica moralista se pronunciava: Qualquer súcio, novo ou velho, À luz do sol ou da lua, No cais chamado do Apolo Vai lavar a pele sua. Não clamo porque se lave Todo e qualquer maganão, Mas é que essa brava gente Banha-se em trajo de Adão.

Os melhoramentos da cidade, todos êles, tiveram seus cantores. A nova iluminação a gás carbônico, por exemplo, com poucos meses de inaugurada e gabada, já fazia jus a esta quadrinha : Depois de ver tudo isto Vi aceso o gás amigo, É tal qual azeite antigo, Por isto canta a menina: "O gás virou lamparina." Alude-se claramente a uma canção em voga, em que o novo sistema de iluminação pública já padecia remoques e censuras. Não menos do que o gás, os transportes urbanos modernos deixaram de provocar comentários. Assim, o trenzinho que ligava o centro da cidade aos arrabaldes mais distantes, vulgarmente conhecido por "maxambomba", entrava em uma variedade de poesias populares dêsse tempo. A propósito de penteados femininos havia êstes versos : Não gracejo, falo sério, Teu penteado de arromba Não tem que ver, Micaela, O cano da maxambomba Em 1874, a 1.º de janeiro inaugura-se o telégrafo submarino entre a Côrte e Pernambuco e a 23 de Junho entre o Recife e a Europa . Festas, regozijo, telegramas de D. Pedro II nos jornais da terra. Pois não tardaram êstes versos irônicos: Os telégrafos inglêses São boas teias de aranha, Onde o cobre dos fregueses Como mosquitos se apanha. E os bondes? Os bondes a burros, inovação que dera lugar a um rosário de elogios e de satisfação! Não mais as diligências, nem as cadeirinhas, nem as rêdes ou canoas? Agora, sim, transporte regular, freqüente, rápido. Passear no bonde, que delícia ! Os ônibus do Cláudio, para Apipucos e Caxangá, tinham suspendido as viagens à falta de fregueses. Contudo, não tardara esta queixa : As goteiras são tantas e tão grossas Que parece correr a água a potes, E aos pobres passageiros encharcados Não valem nem chapéus e nem capotes. O sistema de retirada do lixo dos domicílios em carroças, pretextara reclamação

contra os vasilhames postos às portas das casas: De sorte que ninguém pode Passar pela rua tal Sem dar com a inimitável Limpeza municipal. Não admira tal crítica, porque, ao se estabelecer o serviço de esgotos, em substituição aos famosos e repugnantes "tigres" de então, houve quem publicasse êstes versos que falam por si: As casas hoje se ajuntam Em fera sociedade Para combater o cambrone Que brutalmente as invade. "Cambrone" ficaram sendo chamados os aparelhos sanitários, por uma ironia ao nome do gerente da emprêsa. A instrução teve seu bocado. As escolas aumentavam de número, não somente as do govêrno, mas também as particulares. Os métodos pedagógicos ainda consentiam a palmatória e a orelha de burro. E, então, rimava-se: Qualquer bichano careta Abre hoje a sua escola E de palmatória em punho Nos alunos bate sola. Ou esta sorte : Dizes asneiras em penca E mal o teu nome assinas: Estás no caso de ser Professôras de meninas. Cena de rua: o Bispo passa; todos correm a vê-lo no carro a abençoar o povo; uns se ajoelham, todos se descobrem: Nisto vem o sr. Bispo, Lá vai repique geral; O garrita dá sinal, O meão faz din-din-dão, O grande bate também.

Êstes versos têm um sentido evidente de combate aos excessos de ruídos da cidade de outrora. E os sinos eram responsáveis, nesse tempo, por grande parte de tais excessos. A água encanada, outra maravilha de comêço do século passado, mereceu o seu "poemazinho" : Corri ruas, pátios, becos, Visitei lojas, boticas, E fui ver até as bicas Ou caixa d'água do Prata Que da gente a sêde mata. Quando se tornaram comuns com a facilidade de transportes, as moradias nos arrabaldes, no "mato", todos os sonhos eram obter ali um chalé entre árvores de sombras e de frutas, com criações fartas, bom banho de rio perto, festejos de Natal próximos, sossêgo, frescura e saúde. Que bom ! Morar fora da cidade, Carro ter mui bem montado, Assim como bem fardados Criados de casacões, De luvas, cintos, calções. Casa sempre ter de amigos Cheia todo o santo dia, Piano com melodia Tocar a sinhá dengosa Que se assusta por nervosa. E seguia-se como um pequeno quadro da vida encantadora nesses recantos rústicos: Depois de jantar à grande No jardim ir descansar, Chá, café ir lá tomar De balanço nas cadeiras, Debaixo de trepadeiras, Tendo à frente chafariz Correndo perenemente, Onde se vê permanente Figura marmorizada De Ninfa sempre molhada. Quem não está vendo os nossos antigos solares suburbanos, alguns dos quais ainda hoje conservaram êsses aspectos, lá pelas bandas do Poço, do Caldeireiro, de Apipucos? O arvoredo, os tanques de azulejos, os caramanchões, as estátuas de louça, os terraços de pedra de lioz, os sótãos de balcões envidraçados... Falta apenas a gente de outrora para apreciar êsse cenário realmente sedutor. Os, moradores de agora estão no cinema, suportando o calor e o apêrto, para admirar... os quadros da vida norte-americana... Um hotel oferecia-se em versos : Barato, sim; fiado, não; No hotel podem entrar, Pois quem tiver dois cruzados Aqui pode almoçar. E quando bater 3 horas Venham aqui bem jantar, Mas tragam 1$500, Pois mal não hão de passar. Outra cousa, meus senhores, Eu vos quero é avisar: Que tragam dinheiro miúdo, Pois não tenho pra trocar. Anúncio completo. Sinceridade em declarar que faz preços razoáveis, sem admitir calotes. Diz-nos o custo das refeições e a hora em que são servidas. E, por fim, consolamo-nos em saber que já nossos avós se viam aperreados com a falta de moeda divisionária... E os médicos... seria crível que êles escapassem à sátira dos antigos ? Com seringa de Pravaz Dando injeções de morfina, Matarás a humanidade Em nome da medicina. Também as eternas guerras européias despertavam nossos entusiasmos e nossas antipatias. Hajam vista êstes versos de 1870, eternamente verdadeiros: Foi a França, ela só, que, erguendo a voz, Dos tiranos dobrou negra cerviz; Se o mundo é liberal, no grande espaço, Não se deve a Berlim, mas a Paris. As cheias que quase todos os anos e impetuosamente investem do interior contra o Recife, flagelando arrabaldes, derrubando mocambos, paralisando o tráfego, ameaçando as pontes e enfeitando de baronesas o rio, também tiveram os seus poetas. Uns para ironizar a abundância das chuvas, que no ano de 1895 caíram com tal impetuosidade e duração que a procissão dos Passos foi transferida por quatro vêzes na sua saída da igreja do Carmo e acabou se realizando sem aviso prévio na primeira tarde em que houve uma estiada. Outros para sugerir medidas de engenharia capazes de evitar essas inundações periódicas: Aterros e mais aterros Pelos rios e marés, Lojas, vendas e cafés Onde só era alagado. Eis o caldo transtornado... Deve haver estudo sério, Camboas, barcas, canais, Para as águas pluviais, Devem nossos engenheiros Abrir com bons empreiteiros. Se não lá um belo dia Adeus, risonho Recife! Pega-te a água em cafife, Que se do mal escapares Sofrerás muitos azares. Como se vê, atribulam-se as cheias aos grandes aterros que se haviam realizado e temia-se o desaparecimento do Recife por um assalto decisivo das águas. O engraçado é que neste 1944, em face de um inverno rigorosíssimo, com enchentes devastadoras, renasceu a critica aos atuais aterros e o mêdo do "dilúvio"... Nada fugia à crítica dos versejadores. Aí por 1870, teceu-se muito humorismo em tôrno das parteiras francesas, tão em moda: Hoje tudo tem mudado Té na classe das parteiras, Hoje temos estrangeiras Que se umbigos cortam bem, Cortam a língua também. No meu tempo, oh! belo tempo! Era Joaquina Tarracha Que comendo uma bolacha Dava conta da emprêsa Com asseio, com limpeza.

E depois que dava conta Da tarefa trabalhosa Ia logo pressurosa Dizer ao pai da criança: Olhe! É sua semelhança! A propósito do costume de dar cafunés, prazer a que tanta gente se submetia com delícia, corria esta quadrinha expressiva! Dá-me, dá-me, Iaiàzinha! Nada além juro querer: Cafunés depois do chá Para ledo adormecer... Na musa popular de outrora, a mulher se faz sentir a cada passo. Pudera não! Sobretudo na crítica às modas, os poetas tomam a gentil criatura para tema: Seu vestido não tem cauda, Tem tamanho regular! Para quê essa bobagem De querê-la arregaçar? Aqui, descrevem-se trajos da moda: Manguitos de puro linho, Dominós bem enfeitados, Chapelinhos desabados, Leques de sândalo fino, Balões de bôca de sino. E a propósito dos requintes femininos no preparar a toilette: Nisto leva duas horas: Prega, cose, bota, tira, No espelho onde se mira, Cabeções, cintos, anquinhas Desta que tem camarinhas. Já as mulheres começavam a encher as ruas, fugindo à clausura dos balcões de xadrez. Faziam compras, passeavam de sege., tocavam piano, iam a bailes, viam o cosmorama, tomavam até sorvetes, embora em sala discreta, somente para as famílias. A propósito de tais usos manifestavam-se os moralistas:

Muita moça sai à rua Somente pra se mostrar E vai toda enfeitadinha Como se fôsse casar. E outro, mais pérfido e injusto: As moças do tempo de hoje Não vestem senão filó: Por cima muita farofa, Por baixo... canela só. Êste vate queria talvez que, para dar-lhe uma prova em contrário, a moça visada ao tomar o carro ou bonde erguesse um pouco, mais a roçagante saia e lhe confiasse a vista do começo da sua perna bem feita... Mas, que esperança! Se o quisesse... fôsse viver no meado do século XX. A mordacidade com as mulheres, entretanto, não esmorecia. Ao contrário. Tomava por vêzes um azedume de namorado que levara taboca. O que escreveu esta quadra revela-se um despeitado: As mulheres quando se ajuntam Para falar da vida alheia Começam na lua nova, Acabam na lua cheia. Outro compôs esta oração para uma bôca feminina: Tenho pecado, Senhor, Porque vivo a namorar; Porém, deveis atender Que preciso me casar! As épocas passam. Não para a musa popular nas suas ironias, chacotas e maldades. Já pelos nossos dias os versos daquele gênero esfuziam com mais ou menos espírito e pimenta. Quando se deu o falecimento do nosso eminente Barão do Rio Branco, às vésperas do Carnaval, no Recife êsses dias de folguedo sofreram muito na sua animação. Embora não se houvesse proibido o Carnaval, êle decorreu incontestàvelmente frio. Por isso aventou-se a idéia de outro reinado de Momo, após a Quaresma. E assim se deu: o domingo, a segunda-feira e a têrça que se seguiram ao sábado de Aleluia tiveram honras carnavalescas. Um vate satírico espalhou esta quadrinha, cantada com a música de Iaiá, me deixa subir esta ladeira: Êste ano houve

Aqui por exceção Dois carnavais Pela morte do Barão. Na mesma época, entre nós, criara-se o serviço de combate aos mosquitos, com as visitas domiciliárias dos guardas sanitários e a destruição de focos: A medida higiênica inspirou um poeta para se "vingar de um piano da vizinhança que o incomodava noite e dia: Êste piano, quando toca, Meu Deus! coisa extraordinária! Espanta até os mosquitos Da polícia Sanitária... Quando se exibiram no Recife os balões dos aeronautas Ferramenta e Zé da Luz, versos glosaram o acontecimento. No dia da subida do Nacional cantou-se pelas ruas: O pau rolou, Caiu, O Ferramenta Já subiu. E ao se saber que Zé da Luz partira uma perna numa queda, após ter obtido uma patente de oficial da Guarda Nacional, também foi cantada esta quadra: Zé da Luz era tenente, Mas passou a Capitão E quebrou a sua perna Na descida do balão. A campanha dantista de 1911 foi de uma notável fertilidade da musa popular. Hinos, sonetos, sátiras não faltaram. Entre os inúmeros versos aparecidos na época, releva citar êstes, que bem demonstram o entusiasmo partidário reinante e foram escritos após a eleição: Vencemos em tôda a linha: As adesões já são tantas Que o Rosa só tem Rosinha, O resto é todo do Dantas. A mania de colecionar postais, no principio dêste século, sugeriu esta piada: Não se fizeram pra isto

Êstes bilhetes postais: Para trazer em apuros As algibeiras dos pais. Outra mania era a dos pianos, e a propósito O Carapuceiro aconselhava. : Não reprovo a vossa filha Que aprenda algum instrumento. Honesto divertimento São o toque e a cantoria E que muito se aprecia. Mas, vêde a quem confiais De ensinar, a alta função; Tem-se visto maganão Que enquanto o solfejo ensina Vai fugindo com a menina. Êsses conselhos do jornalzinho do Padre Gama abrangiam outros setores da moral prática. O dos indumentos, por exemplo: Se vossa filha ou espôsa Já com seis varas de cassa Para vestido bem passa, Por cumprir com a modernice Dar-lhe mais é patetice. Não seria justo, nem imparcial, omitir, neste passeio pela cidade antiga, através da musa do povo, as críticas provocadas pelos homens de letras ou que a tal se pretendam. Vejamos êstes versos: A república das letras Isso é cousa de espantar! É uma república mesmo É um comércio sem par Como nem o de Paris. A palavra a todos cabe, Mas se um diz o que sabe Outro não sabe o que diz. Cada qual é um literato, Cada qual é-um escritor, Cada qual é um poeta, Cada qual é um orador.

E com jus se crê das suas Vãs pomadas impingir. Estavam na moda as pomadas - as perfumadas e as de tingir. Cabeleiras de jovens e de velhos não prescindiam delas. Tal a voga das pomadas, que a palavra tomou um outro sentido: o de engodo, embuste, diríamos hoje "fita". E cantava-se: Pomada, pomada; Pomada de primor, É com ela que se vence Nos negócios e no amor...

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Sinopse

Leia gratuitamente Arruar: história pitoresca do Recife antigo, de Mário Sette, obra brasileira em domínio público. Edição digital preparada a partir da fonte oficial de Mário Sette, com leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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