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Capítulo 7 · Arruar

Arruar - Parte VII

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Hoje a multidão abafa os tipos, no trânsito urbano. Temem-se os esbarros, olhamse as mulheres, previnem-se os atropelos de automóveis, disputam-se os raros lugares nos bondes... E, talvez, diante da doidice coletiva do mundo, não haja nenhuma extravagância na pequena dose de um vício, de uma vaidade, de um grotesco das criaturas em particular. Quase é necessário viver-se num subúrbio, como o Horácio, da Soledade... Lembremos, quanto possível, os tipos populares de "outro dia", do nosso tempo. Surgem-nos em grupo Bode Ioiô, Maracujá de Gaveta, Barrinhos, Ô Ferro!, Tinisco, Madama Papoula, Cariri... O primeiro vivia pela Boa Vista e insurgia-se com berros e desaforos ao ouvir êsse cognome, que julgava insultuoso. O segundo singularizavase apenas por um defeito físico que lhe dava ao rosto, prematuramente, rugas semelhantes às de um maracujá passado do tempo. O terceiro ficara marcado na vida por imbecilidade que o tornara familiar com suas ingenuidades e pedidos de tostão em troca de palpites de bichos. Era um ébrio o outro, e atordoava os transeuntes, quando não os assustava, se desprevenidos, com o grito estridente que lhe deu o apelido. Tinisco, prêto alto, magro, vendedor de bilhetes, também conhecido por "Castiçal do Inferno", enchia-se de furor ao ser tratado pelas alcunhas e corria atrás dos moleques com um pau... Madama Papoula, preta gorda, cachaceira, pornográfica, andava de quando em quando às voltas com os soldados de polícia. E Cariri, êste era um velho de barbas brancas, roupa de couro, chapéu de vaqueiro, montado numa burra a vender ervas medicinais. Por maldade espalharam que êle furtava crianças, correndo a seu respeito versos entoados com a música em moda: Lá vem Cariri aí Com o seu saco de pegar menino... Não menos popular o Major Pataca, famoso por haver sido presidente da sessão eleitoral da Rua do Caldeireiro em que José Maria foi assassinado. O Major Pataca, muito cioso da farda da Guarda Nacional, com que saía infalìvelmente na procissão dos Passos, mantinha uma banda de música num sobrado da Rua do Imperador. Quando a banda ensaiava, à noite, os ratos, espantados com a desafinação, fugiam dos buracos... Era o que se afirmava. E Lanchê, que vendia, no saguão do Santa Isabel, num baúzinho de flandres, pães recheados de camarões aos espectadores da Sansone ou da Tomba? Nesse mesmo teatro foi popularíssimo João dos Cartazes a distribuir os programas pela cidade e interferindo amàvelmente junto ao bilheteiro para conseguir boas localidades. Bento Milagroso, em Beberibe, fêz época, anunciando milagres da sua "água" capaz de curar a doença mais rebelde. Do mesmo gênero o Homem do Dedo, no Derby. Êste bastava aplicar o dedo na parte afetada. Ambos a princípio encontraram clientes apregoadores das curas mais estupendas, porém depois, como sempre acontece, a desmoralização encerrou a comédia, o que não impediu, há pouco tempo, a fama da "Santa de Tejipió". Um tipo curioso foi o Dr. Facadinha. Metido num fraque, com uma pasta vazia debaixo do braço, passava apressado como se tivesse a chamá-lo importantes negócios... Mas, ao ver certa cara estranha, parava e, com uma choradeira de doenças em casa, pedia-lhe 5$000 "emprestados". Se a vítima pretextava não dispor dessa quantia, diminuía-a para 2$, para 1$, para 500 réis, e por fim para um tostão... Era uma facadinha apenas. Na Rua Nova, no ponto em que os bondes de burros paravam a fim de tomar a

"sota" que facilitava a subida da ponte, havia o cego Leseira. Êle próprio assim se chamava: - Uma esmolinha para Leseira, minha gente! Todos lhe davam uma moeda, depondo-a na cuia de queijo vazia. Leseira pelo tato conhecia os números dos bondes gravados nas plataformas externas, e pela voz os passageiros e condutores ou boleeiros: - "21, você já voltou da Tôrre?"; ou: - "44, a sota hoje está maneira?" Tocava uma gaita, e nela, a pedido, executava músicas em voga: Sussu sossega, Vai dormir teu sono, Deixa essa menina, Deixa essa menina, Que já tem seu dono. Tocava também na sua famosa gaita a valsa Louca, a modinha Querida Flora e outros trechos em voga. Pensamento vestia fraque e tocava flauta. Popularíssimo. De quando em quando parava numa esquina ou sentava-se numa calçada e executava suas músicas prediletas. Não dispensava uma grande flor ao peito, nem a bacorinha. Contam que certa vez, diante de uma casa onde alguém se esforçava por acertar um compasso ao piano, sem consegui-lo, perdeu a paciência e bateu ao postigo. Aparece a moça que não aprendia a lição. E Pensamento ensinou-lhe como se sair da dificuldade. E Budião de Escama? Êsse veio do século XIX e pouco alcançou do atual. Moço desviado pelo álcool, nêle se deixou ficar. Mas sempre bem trajado, mercê das roupas usadas que os estudantes, muito seus amigos, lhe davam. Aparecia de croisé cinzento, cartola, uma rosa na lapela. Freqüentava os cafés da Rua do Imperador ou as vizinhanças da Academia de Direito, então na Praça 17. Tornara-se célebre pelos seus discursos asneirentos e suas estrambóticas definições: "As estrêlas são ovos estrelados na frigideira do firmamento"... Budião de Escama criou no Recife de antigamente um adjetivo: "budionesco", e muita gente boa fêz e faz jus a êle. Pelo seu exótico apuro de trajo, a querer simular juventude há muito finda, chamavam-na Dondon Enfeitada. Vestidos espalhafatosos, penteados grotescos, pretensões a casamento... Sátira, com a sua gaita e suas exibições no teatrinho João Minhoca, do Clube Caradura, onde, com outros, dançava de pastôra, deu sua nota. E o Homem da Vassoura? Vendia vassouras, espanadores, abanas, e assim carregado apregoava com um jeito todo seu e numa voz saudosíssima: - Minha gente! Lá vai o Homem da Vassoura!... Lá vai êle simbora!... Um dos pregões mais típicos do Recife, tanto quanto o da lã de barriguda, tão musical, é o Homem da Ostra, ainda hoje vivo(1), devendo ter talvez seus 80 Cajus: Eu tenho ostra Chegada agora ... (1)o autor escrevia em 1946. (N. do Ed.)

Chegada agora... Chegada agora... Tipos populares também foram os "brabos", os remanescentes dos capoeiras de frente de música. Deram que fazer à polícia em festas, pastoris, carnavais. Inocência Bico-Doce, Nascimento Grande, Apolônio da Capunga, Abdon, tantos outros. Chapéu desabado, calças-balão, sapatos brancos, porretes... E o Pacheco? Era um negociante simplório a quem atribuíam verdadeiro anedotário de ingenuidades e tolices. A ponto de se criar o têrmo "pachecada" para designar qualquer manifestação de falta de inteligência ou de toleima. Pacheco, certo dia, a uma senhora que lhe telefonou indagando se deixara, na sua loja, um guarda-sol, perguntou, pondo o objeto defronte do fone: - "Será êste, Exma?" As profissões ofereceram à cidade figuras também populares. Como donos de cafés, o Girão, do 15 de Novembro, o Vicente, do Café Rui, o Crispim das Empadas. Pianistas como o Artur Cabral, o Britinho, o Josafá, sempre presentes às danças ou aos pianos de cafés. Professôres dêsse instrumento, cujo aparecimento foi de uma importância que muitos anos durou, apresentavam-se o Cláudio Gama, o Cláudio Leal, o Targino, a Cerutti, a D. Marocas Vaz, o Marcelino Cleto. Outra figura familiar: o Mafra, bilheteiro do Santa Isabel. Alto, de cavanhaque, com uma voz de trovão, temível quando o aperreavam por preferência de camarotes para o lírico ou a revista, mas de bom coração. O Joca Arara, com sua casa fúnebre, fazia blagues nos anúncios, gabando suas "viagens de ida". Samuel Vieira tornara-se evidente pelos comícios na praça pública e pela gravata encarnada que usava e lhe deu alcunha. Um dêsses comícios, contra o "sorteio militar", na pracinha da Independência, terminou em muita carreira, fecha-fecha, quedas nos entulhos do logradouro em consêrto, e quebra-lampiões. E já vão se projetando figuras de maior relêvo social. Quem teria sido mais popular no Recife do que José Mariano? Campanhas democráticas, proteção de escravos, defesa do povo, além do seu físico, já por si de um forte poder de simpatia. E o velho João Teixeira, incansável nas suas arengas em favor da construção de um passadiço para pedestres na ponte de Limoeiro? Luís Gomes a pugnar pelo pôrto do Recife e pela estrada de ferro Recife-Arica. O Dr. Cosme de Sá Pereira, jovial apesar dos 80 anos, de croisé e cartola, falando alto, bulindo com os companheiros do bonde da Madalena, arrabalde onde residia há muitas décadas. Homem de saber, de um passado ilustre na medicina, mas simples, bonachão, espirituoso. Contava-se que, recebendo de um amigo presente de belo cacho de bananas, viu o ofertante de passagem num carro e gritou-lhe: - Muito obrigado! Estavam esplêndidas! E, como pela distância não fôsse logo compreendido, tornou-se mais claro com um gesto que traduzia simbòlicamente a natureza da fruta. Outro médico popular, o Dr. Barreto Sampaio. Oculista de mérito e copiosa clínica. Sempre apressado, com as abas do fraque abanando. Mas não lhe falassem num pintor célebre ou num quadro notável. Esquecia tudo. Sant'Ana Araújo, bela alma, estava presente a tôdas as missas de sétimo dia, levado pelos seus deveres de amizade, e vivia com os braços cheios de jornais do dia, pois os colecionava, indo buscá-los às redações. A campanha dantista de 1911 deu-nos uma porção de figuras populares: a começar pelo próprio General Dantas Barreto, de uma popularidade, nesse tempo, excepcional. E com êle Tonico Ferreira, Liberato de Matos, Coronel Sebastião Alves, General Carlos Pinto, os tribunos João Barreto e Oscar Brandão. Sem esquecer o cabo Marrêta. Vale a pena recordar o curioso fato a que êste se acha ligado: ouvem-se gritos de "Viva Dantas Barreto!" no quartel da Polícia. Forma-se curiosidade e levanta-se um escândalo. - "A polícia aderira?" Não, explica o órgão rosista: os vivas não foram ao General, mas à mãe do cabo Marrêta, que fizera anos... Aliás, êsses tipos de evidência transitória em fases pré-revolucionárias são comuns. As vésperas da República houve o caso do jóquei Crispim e em 1930 o de Ulisses José dos Santos, ambos dados como mártires das situações dominantes, e por isso glorificados. Vale lembrar ainda algumas figuras de destaque popular: os Amorins, capitalistas tão famosos pela fortuna que no Recife a palavra "Amorim" tornara-se sinônimo vulgar de riqueza, de grandes posses. - "O quê! 3$000 por essa galinha? Você pensa que eu sou dos Amorins?" Os três Vigários: Monsenhor Silva, de Santo Antônio; Padre Augusto, da Boa Vista, e Cônego João Augusto, do Corpo Santo. O solicitador Alexandre Padilha. De cartola. Severo. Ao entrar no bonde a todos cumprimentava: - Bom dia aos homens! O velho Guedes Pereira, da Costeira. A lista é longa e o espaço é curto. Não se pode, no entanto, esquecer a figura de João Ramos. No tempo do Clube do Cupim, trabalhando pelos escravos, êle pintara a manta. Atribui-se-lhe uma partida pregada a um barão, na qual lhe roubou escrava preciosa, fazedora de saborosos doces. Disfarçaram a negra em dama de alta sociedade: vestido de sêda, sapatinhos de luxo, Chapéu de plumas, leque... Outro Cupim dá-lhe o braço e a leva ao cais de embarque. Ao passar na Rua do Crêspo vê o barão, o senhor, que andava doido por pegar a escrava e provar-lhe os pastéis de nata. Passa o par diante do barão. Cumprimentam-no. O barão retribui a saudação e tira respeitosamente a cartola à "dama": - Minha senhora, meus respeitos!... Não findou aí a popularidade de João Ramos. Nas primeiras décadas do século XX dedicou-se a outra sorte de infelizes: os animais. Fêz-se presidente da Sociedade que os protegia e tomou a causa a sério. Quem não o viu, em plena rua, de calça branca, paletó de alpaca, num sungar de ombros, a mandar um carroceiro aliviar a carga do seu veículo? Os sacos de açúcar diminuíam, e o pobre boi podia continuar seu fadário. De outra vez, obrigava o dono do animal a dar-lhe de beber. Ou intimava-o a tratar de uma ferida no flanco ou na perna do cavalo. E quando conseguiu uma postura municipal proibindo que se carregassem aves de cabeças para baixo? Sem se temer de resmungos, de ameaças, de desaforos, mesmo de chacotas - era assim a alma de João Ramos. Primeiro, os negros. Depois, os bichos. E por falar em negros... Êles encheram as ruas e as casas da velha cidade até muito depois da Abolição. Os da Costa, de carapinhas brancas e com seu linguajar nem sempre compreensível, e os da terra, inteiramente nossos. Negros de carregar fretes, de puxar carroças, de vender água da canoa ou do chafariz, de mercadejar bolos e outras guloseimas, de dar o peito às crianças brancas, de varrer, de caiar, de fazer despejos, de levar recadinhos de amor... Havia os pretos de casa, tão estimados e bondosos, cansados de tomar conta de meninos e querendo-lhes bem mesmo quando já tinham também os seus meninos. As histórias que lhes contavam serviam para tôdas as gerações e conseguiam formar rodas no chão, atentas e fascinadas pela menina dos brinquinhos de ouro ou pela mouratorta.

A princípio êsses negros chegavam da outra banda do mar, nos porões dos tumbeiros, maltratados, sujos, sofredores, e levavam-nos para os armazéns de Santo Amarinho. Dali para os mercados em plena rua, onde os escolhiam, com exames de dentes, de músculos, de agilidade, antes de comprá-los. Os mercados eram um espetáculo banal na cidade. E não menos os leilões dessas criaturas, por sentença judicial ou vontade dos donos, fartos dêles ou em dificuldades de dinheiro: - Vou me desfazer do Ponciano. É a ruindade em figura de gente. Gente, não, que negro não é gente. Não há quem o agüente. - Mas você gostava dêle, major! Gabava-o tanto! - Sim... sim... mas mudou, o diabo. E demais está ficando velho, não presta mais como dantes... E entregava-o a uma casa de comissão pela venda de escravos. - Quando o negro era novo e bom, se fugia, que alarido! Avisava-se o capitão-da-mato, davam-se-lhe os sinais, e punha-se um anúncio no jornal mais lido: 100$000 Fugiu da casa de azulejos na Trempe, como quem volta para a Estância, uma crioula que acode com o nome de Joana, de 17 anos, muito vistosa para a idade, fala mansa e descansada, sem um dente da frente. e uma pinta no ôlho direito. Costuma trazer o cabelo penteado e usa xale. É habilidosa em lavirinto. Quem souber do paradeiro e indicar receberá 100$000. Umas eram hábeis em bordar, outras como doceiras, e não faltavam as de bom engomado, as de cozinha, as arrumadeiras as traquejadas em todos os serviços. As vêzes o anúncio pedia a compra de uma escrava nestes têrmos ambíguos: Compra-se uma mulata que seja bonita, embora não tenha habilidades. Na Rua dos Quartéis- D 5. - Pra que festa? - comentava malicioso um ledor da gazeta. Cenas havia como esta: uma cabrinha (gente e não bixo, alertava a notícia) entrou em uma quitanda com uma sola vedando-lhe a bôca. Indagaram que significava aquilo, e explicou ser um castigo da senhora, a sinhá-branca. O marido comprava apenas um vintém de toucinho e queria ter sopa gorda. Maldava que a escrava bebesse, a furto, a ôlha. Negros e mais negros... Histórias e mais histórias dêles. E também tipos conhecidíssimos na cidade. Um Pai Benedito que vendia água há mais de 50 anos. Quem não conhecia Pai Benedito com seu chapéu de carnaúba esfiapado, sua calça de estamenha, seu "mané-joão" de algodãozinho ou de ganga? Contavam dêle que, tendo ficado liberto pela lei dos sexagenários - e êle já ia para os 80 - preferira continuar a carregar seu balde como sempre, só para não deixar a casa dos senhores onde "Sinhàzinha se criara no seu colo". E entre as dezenas de pretas de mungunzá, de tapiocas, de comidas de dendê, de grudes e de bolos, quem ignorava a existência de Tia Felicidade, retinta na pele, gorducha, bonitona, com sua saia de ramagens, seu cabeção de rendas entremostrando o seio túmido, o xale ao ombro, a rodilha alvíssima? Negra limpa e tentadora, mas bulissem com ela, afoitassem-se, e veriam a repulsa. Vendia bonecas de pano, um

primor de bem feitas. A Abolição dera fim a muitos dêsses quadros e fôra esbatendo os preconceitos. Já então se projetavam no panorama urbano as figuras de pretos livres, e vários dêles ilustres. Doutôres. Quantos de fama, na medicina e na advocacia, e queridos de clientes! Um dêsses homens de côr escura, mas de inteligência clara, era médico e muito suscetível. Sem dúvida reagindo aos que ainda se louvavam de branquidão, sem talvez olhar para trás... tornara-se mesmo Irritadiço, impulsivo, contam os mais velhos. Gostava o esculápio de finas roupas, bons cavalos, luxuoso carro e confortável vivenda. Nesta, por prevenção com o vizinho, uma família de origem portuguêsa, mandou levantar tôda uma puxada para que não o incomodassem com as vistas. De gênero cômico, entre os pretos, apareceu na cidade, já neste século, uma negra gorda, baixota, que, por ter andado pela Europa, parece-nos, voltou de lá empregando a torto e a direito frases em francês pouco hugoano. Deram-lhe, então, a expressiva alcunha de "Madama Negresse". Pela sua avantajada estatura destacou-se no Recife do começo do século atual o corretor Rodrigão. Na procissão dos Passos somente êle era capaz de carregar o grande pendão da irmandade. Ao morrer foi sepultado em duas catacumbas e o pendão nunca mais saiu à rua. Outro tipo bastante popular foi Ângelo Sabiá. De cara muito amarela, por uma afecção hepática crônica, era êle auxiliar da casa fúnebre do Agra. Suas blagues em tôrno do Clube P. M. tornaram-se conhecidíssimas pela malícia De outro gênero, porém, teve-as não menos curiosas. Na época em que as mercadorias por sorteio estavam em voga, êle fazia propaganda de um clube de caixões de defunto... A galeria dos nossos tipos populares é vasta, e a memória sem dúvida deixará escapar a menção de muitos dêles. Ainda procuraremos evocar o Comendador Verga, pachola no seu fraque e eternamente entusiasta das artista do palco no Santa Isabel; o Capitão Zé da Luz, famoso nas suas ascensões no aeróstato Brasil; o destemido sportsman Joviniano de Melo, que se apresenta para dar o salto da morte em bicicleta, de que o francês Prescott tanto se orgulhava, e fá-lo, espetacular e vitoriosamente, perante um público ávido e arrebatado, no Prado Pernambucano . E quem não se recorda dos "naturistas"? Um grupo de cidadãos que resolveram se tornar vegetarianos e andavam pelas ruas de alpercatas, metidos numas roupas de brim ordinário e alguns dêles conduzindo cêstos com bananas, tomates e cajus... Idênticos aos naturistas no vegetarianismo foram os Lucas, na Madalena. Êstes, porém, formavam uma espécie de seita religiosa: barbas e cabelos crescidos, os homens; cabeças rapadas, as mulheres. Todos metidos nuns camisolões brancos e tendo uma burra sem orelha como animal sagrado. Alguns dêles vendiam verduras, e ao chegarem a uma casa faziam. a saudação ritual: - A paz de N. S. Jesus Cristo esteja nesta casa! A princípio cordatos e mansos, parece que depois começaram a ter atitudes menos razoáveis e a policia teve de intervir, indo alguns parar na Tamarineira(1) As letras não terão dado ao Recife algumas figuras populares capazes de provocar curiosidade e simpatia quando entrevistas de um dos antigos balcões de madeira dos (1)Hospício de Alienados do Recife.

sobrados? Num remotíssimo Recife de 1690 não teria já despertado olhares aquêle mordaz poeta Gregório de Matos? Satirizando reinóis, padres, mulatos, em seus versos seria temido e admirado a um só tempo. "Bôca do Interno". Lírico e irônico. Nem a procissão de Cinzas escapara às suas pinceladas caricatas. Já nos últimos anos do século XVIII todos se voltariam para ver o frade carmelita cheio de idéias liberais e também poeta, mais familiar aos recifenses pelo apelido paterno - Caneca - do que pelo nome de pia. Um tipo bem popular do Recife na primeira década dêste século foi o poeta humorístico Gonçalves Lima. Inteligente mas boêmio. Vivia pelas ruas, pelos cafés, num pervagar constante. Fazia versos inspirados e sobretudo satíricos. Um dos seus episódios mais típicos ocorreu poucos dias antes de sua morte no Hospital Pedro II. Numa das suas peregrinações pela Rua do Imperador, êle entra na casa fúnebre do Agra, onde era bastante conhecido. Ali indaga de que classe lhe fariam o entêrro, quando morresse. - De 3.a classe - responderam-lhe, em gracejo também. - Quanto custa? - 60$000. - E o de 4.a? - replica Gonçalves Lima. - A metade: 30$000. O poeta sorri e estende a mão: - Então, passe as 30 lonas... O resto fica aí para o entêrro de 4.a. Ao sair ainda declara: - A vida é um negócio... Foi embora. Dias depois recolhe-se ao Hospital e morre. O Agra faz-lhe o entêrro.

Todo o mundo sabe que D. João, Príncipe Regente, não abrira os portos brasileiros apenas às mercadorias, mas, também, às idéias. Tanto entrariam de agora por diante, sem exigências de bandeiras, as maquinarias inglêsas como as tafularias parisienses, e, aproveitando-se da franquia concedida pela Carta-régia de 28 de janeiro de 1808, os livros e os folhetos trazendo os perigosos francesismos temidos pelos absolutistas num grau de receio igual ao das espôsas em relação às francesas... Tudo quanto procedia de Paris era tão sedutor! Máxime se se continha em páginas de prosa e verso, uns venenos cheios de musicalidade estilística e de provocação ideológica, perfumes sutis responsáveis pelos desvairas da independência na Norte-América e pela Revolução na Europa. E no Brasil as conseqüências políticas não tardariam a se afirmar no movimento de 1817, germinando nas vermelhas bibliotecas do Areópago de També ou na do Sobradinho de Olinda onde morava o Padre João Ribeiro, sem falar nos estudos avançados que o Bispo D. Azeredo Coutinho permitia e estimulava no recém-criado Seminário da colina de Nossa Senhora da Graça. Principiava-se a ler no Recife sem o recato de um pecado. Filosofia e poética, oratória e política, romance e teatro. O danado do século XIX amanhecera trepidante de novidades: constitucionalismo, democracia, igualdade, individualismo, republicanismo... E ainda de quebra: romantismo, de espreita, para quebrar em breve as fronteiras fortificadas do classicismo. Não eram somente os reis a tremer pelo seu direito divino. De igual pavor seriam acometidos sem demora os soberanos dos antigos moldes de criação literária, compelidos, sem guilhotina nem Convenção, apenas numa rápida arruaça de teatro, crismada de "Batalha do Ernani", a uma abdicação em favor dos pregoeiros do colorido e do sentimento na arte.

Literàriamente não se mostraria sáfaro o terreno pernambucano. Desde o seiscentismo, aqui, a nobre vila de Duarte Coelho se ornara de um Mecenas, o Capitão-Mor Jorge de Albuquerque Coelho, a proteger vates e a possibilitar um poema, que, valendo-se do recente invento de Guttenberg, surgiria em letra de fôrma, eivado de Camões, louvando não somente o anfitrião, mas também a terra indígena: Para a parte do sul onde a pequena Ursa se vê de guardas rodeada, Onde o Céu luminoso mais serena Tem sua influição, e temperada, Junto da Nova Lusitânia ordena A natureza, mãe bem atentada, Um pôrto tão quieto, e tão seguro, Que para as curvas Naus serve de muro. Nessa mesma Olinda, ia-se ao teatro de recreação dos padres jesuítas assistir ao auto Rico Avarento e Lázaro Pobre, sem falar nos autos de presépios dançados nas amplas e bonitas naves das igrejas. A arisca Marim dos Tabajaras terá tido nesses dias de fartos açúcares e cruzados, sua promissora vida intelectual, tanto o panorama descrito pela pena do Padre Cardim traía êsse ambiente propício à poesia, com seu confôrto, seus folguedos e sua gente gostadora de luxo. A cupidez flamenga, amando mais o tinir das moedas do que as rimas das odes, aniquilaria com os mosquetes e os falcões, antes de fazê-lo com as chamas, essa civilização olindense. Contudo, seria apenas uma transferência de sítio: o povoado dos Arrecifes iria herdar essa vida social e mental a que o octênio de Nassau emprestaria bases não somente urbanísticas, mas artísticas. A restauração, nas suas conseqüências econômicas, entregaria ao Recife os foros definitivos de cidade-cabeça, pôsto Olinda ainda procurasse lutar pela hegemonia e, sob o aspecto intelectual, retivesse em suas colinas, ainda em plena independência do pais, a Academia de Direito. Inconteste lograsse por essas eras uma particularíssima animação de estudantes sem dúvida inclinados às belas-letras como o seriam às jurídicas. Os versos compor-se-iam nos intervalos dos estudos, e seus autores sairiam pelas ladeiras olindenses a recitá-los, em salões de festas, ou em tertúlias literárias, dedicados às pálidas e tímidas donzelas de seus sonhos... Não faltariam nessa paisagem por si romântica e inspiradora as serenatas em noites de lua cheia, atingindo-se os planaltos onde os templos dormitam entre as copas das árvores, divisando-se do alto o mar, os coqueiros, as praias, as jangadas... Olinda é um constante motivo de evocação e de louvor. Ontem como hoje os poetas, em prosa ou em verso, têm sabido gabá-la. Se agora Paulino de Andrade escreve: No alto, a paisagem verde-escura e acinzentada, Em baixo, o oiro da praia e a saudade do mar... Sugere lendas... reis magos... terra encantada... Fidalgas castelãs... troveiros a cantar... - que se dirá do tempo em que na verdade havia os balcões de xadrez, as gelosias misteriosas, os bilhetinhos de obreias trazidos pelas negras cativas, as moças fugidas por não quererem casar contra a vontade dos pais?... Seu clima místico falaria a Luís

Guimarães Filho : Todos contemplam do Recife as luzes, Mas, oh! memória lúcida e evidente, Com que poder o espírito seduzes! Era na escura Olinda - a penitente Das negras catedrais e negras cruzes Que eu punha os olhos meus saudosamente. Nem sequer para os vates modernos o fascínio de Olinda declina, porque Joaquim Cardoso viria a cantá-lo : E ainda Com as velhas bicas, os velhos Pátios das igrejas, Amparo, Misericórdia, São João, São Pedro, Nossa Senhora de Guadalupe E os Beneditinos e as Irmãs Dorotéias e os padres de São Francisco. O Recife, porém, atraía. A vitória do ancoradouro estendera-se até às letras. Os acadêmicos mudavam-se para as vizinhanças do Capibaribe, trocando as moradas dos sobradões do Amparo, de São Bento, dos Quatro Cantos, pelas "repúblicas" do Atêrro da Boa Vista, embora com o incômodo e a despesa de irem ao alto do Varadouro assistir às suas aulas, em viagens de canoa ou de diligência. Poetas da terra e de fora revelam-se nas estrofes liricas ou satíricas, tão abundantes no século XVIII. Gregório de Matos, enquanto gabava uma bôca: Vossa bôca para mim Não necessita de cravo: Que o sentirá por agravo Bôca de tanto carmim. …............................... Que menina que é tão bela Sempre tem bôca de cravo. - dirigia ao juiz de Iguaraçu, que se agastara com o tratamento de vós, êste epigrama : Se tratam a Deus por tu E chamam a EI-Rei por vós, Como chamaremos nós Ao Juiz de Iguaraçu?

Tu e Vós, e Vós e Tu. A poesia satírica vicejou sobremodo no Recife. Quem ler o Folclore Pernambucano, de Pereira da Costa, ou em pesquisas pessoais percorrer as coleções dos jornais políticos que em verdadeiras chusmas circularam no Recife, no século XIX, e mais ainda os periódicos ilustrados ou não, como O Carapuceiro, Diabo a Quatro, América Ilustrada, Lanterna Mágica, recolherá fartíssimos produtos dessas liras vibrantes de ironias. E não esqueçamos os próprios matutinos: Diário de Pernambuco, Jornal do Recife, Diário Novo, A Província, e outros onde igualmente apareciam poesias dêsse gênero. Poetas anônimos, mas bem felizes em suas chistosas críticas a homens, fatos, costumes: Aquêle que a Pernambuco Presidente fôr mandado Ou há de ser Cavalcanti Ou há de ser cavalgado. A Revolução de 48 daria esta quadrinha não menos espirituosa: Machado que corta lenha Também corta mulungu: Praieiro que tem vergonha Não fala com guabiru. E por que não citar a Frei Antônio da Conceição, no século Antônio de Andrade Luna, nesta sua quadra não menos incisiva? Quando os séculos das trevas dominavam, Nas cruzes os ladrões se penduravam. Hoje domina o século das luzes, Pendentes dos ladrões andam as cruzes. Em outro tom e tema o poeta Antônio Gomes Pacheco, que era padre, glosava um mote que lhe fôra oferecido: Pergunta certa senhora, Sem presumir mal algum, Se quebra jejum um beijo Sendo em sexta-feira dado. desta maneira: Pois se ela o beijo deu Simpliciter não pecou.

Que a lei a ninguém privou Para dar o que fôr seu. Enquanto se fôra eu, Beijo não dera nenhum. Porém como só deu um, Não tem o jejum quebrado, Inda mais sendo êle dado Sem presumir mal algum. Os versos satíricos estiveram em moda durante os séculos denominados em literatura de "formação" e "transformação", êste, sobretudo, e o "autonômico" não terá visto menos essa maneira de criticar os homens e os costumes. Hajam vista as estrofes visando os governadores Furtado de Mendonça, o Xumbergas, Henrique Luis, D. Tomás de Melo, Caetano Pinto Montenegro e o famoso Luís do Rêgo: Luís do Rêgo foi chamado, De raiva ficou maluco: Sete campanhas que tinha As perdeu em Pernambuco. A mulher de Luís do Rêgo Não comia senão galinha: Inda não era princesa, Já queria ser rainha. Encontram-se em tôdas as publicações antigas essas manifestações poéticas de cunho facêto, visando as modas, os vícios, as presunções e os acontecimentos marcantes de cada época. Quem não ficará com uma idéia perfeita do gênero lendo êstes versos, citados ao acaso, de O Carapuceiro, do Padre Lopes Gama? Um homem de bem é hoje Contrabando, infelizmente. O furtar decentemente Não é crime, não senhor, Assim haja um protetor. Estranhos morando em casa Sôbre ser dispendioso É negócio perigoso: Quando não façam conquista São testemunhas de vista. Por seus nomes de batismo Basta que sejam tratadas;

Essas vozes inventadas Por ardilosos maganos Abrirem o passo a mil danos. Mas os poetas apareciam também sem anonimato, como um sapateiro repentista, Manuel Rodrigues de Azevedo, que, numa festa, presente a "deusa de seus sonhos", glosaria o mote: Uma moça que eu cá sei Se a fortuna me chamasse E seus bens me oferecesse Para que livre escolhesse Aquela que me agradasse, Não quisera me elevasse Ao supremo grau de rei. Pobre sou, tal morrerei, Tenho o fausto por quimera: Fôra feliz se me dera Uma moça que eu cá sei. O grande frade patriota que foi Frei Caneca, como se sabe, primou nas musas, pondo-as em altar no qual apenas as sobrepujou o amor à Pátria : Entre Marilia e a Pátria Coloquei meu coração: A Pátria roubou-mo todo, Marília que chore em vão. O Desembargador Antônio Joaquim de Melo, apesar da respeitabilidade do seu cargo, da sua sobre casaca e da sua cartola, gostava de versos, por muito que escandalizasse a gente de seu tempo. Não somente os rimava como coligia os alheios num volume hoje precioso: Biografia de alguns poetas. Dos de sua lavra vale apontar êstes: Você diz que eu sou sua, Se eu sou sua não no sei: O munda dá tantas voltas E eu não sei de quem serei. Todo cativo procura Ter a sua liberdade, Eu procurei cativeiro Por minha própria vontade.

Na galera dos amôres Todos se embarcam cantando, Porém no fim da viagem Todos se apartam chorando. O século XIX, sendo o da soberania política e da autonomia literária, seria também o do máximo prestígio intelectual do Recife. Olinda, com a sua Academia criada em 1827, conservá-la-ia no seio de suas ridentes colinas até 1853, considerada então uma "Nova Coimbra". Núcleo mental de juristas e de beletristas. Sociedades de letras e imprensa na qual O Olindense deixou nome em prélios literários e políticos acompanhando as agitações da época. Consoante acentua Hélio Viana, em sua Contribuição à História da Imprensa Brasileira, foi o primeiro jornal de estudantes no Brasil. Contudo o Recife ia tendo suas ruas povoadas de homens de letras, que as preferiam às ladeiras desertas da capital. Não tardaria que por elas passasse um jovem médico, depois parlamentar e diplomata, tipo de elegância e de galanteria, com um título de visconde, porém familiar à sociedade com o seu nome de poeta: Maciel Monteiro. Dêle se contavam anedotas de conquistas, fazendo-o um homem perigoso aos olhos dos maridos e dos pais. Ela foi-se e com ela foi minh'alma Na asa veloz da brisa sussurrante, Que, ufana do tesouro que levava, Ia, voava... e como vai distante! Outro vate escreveria, para a delícia dos espíritos ávidos de mistério dos adolescentes e leitura clandestina das donzelas, um poemeto em prosa lírica: As Noites da Virgem, com uma página cheia de reticências. Era Vitoriano Palhares, cuja musa, por ocasião da luta contra Solano López, se acenderia em estrofes palpitantes de civismo. E começava-se a ver, também, pela Rua Nova, pela Boa Vista, pelas novenas de Caxangá ou do Poço, um moço moreno, de cabeleira crêspa, insinuante, bonito, ousado. Era da Bahia, cochichavam as moças. Estudante e poeta. Depois, murmuravase de amôres seus com uma atriz do Santa Isabel. Um escândalo. Metido com as "cômicas"! Mas - os seus versos! Que diferentes dos que se ouviam então! Arrebatados, flamejantes, sensuais: Tudo me vem lembrar que tu partiste, Tudo que me rodeia de ti fala; Inda a almofada em que pousaste a fronte O teu perfume predileto exala. - "É dêsse tal Castro Alves". O rapaz que discutia em versos com Tobias Barreto, outro poeta conhecido na terra, e andava lançando uma idéias novas com o título de Escola do Recife. Idéias revolucionárias em Filosofia, em Direito, em Literatura. Havia, dentro das casas, senhoras piedosas que se benziam ao ouvir os nomes dêsses "endemoninhados", Castro Alves, ao sair, pondo o chapéu de massa sôbre os anelados cabelos, mirava-se ao espelho e sorria: - "Tremei, pais de família!" Os condoreiros iam mesmo alto: em pensamentos e em amôres. Nesses remígios, alcançavam as misérias da escravidão e entravam com seu estro na peleja pela abolição: Antes te houvessem rôto na batalha Que servires a um povo de mortalha! Tobias ensinava Filosofia em um sobradinho da Praça Conde d'Eu. Tivera-se já o 13 de Maio e pregava-se a república. Ao grupo estava presente Martins Júnior, com sua cultura jurídica e seu pendor para a poesia. Não mais versos sentimentais, descritivos, piegas. A poesia que cantasse a ciência, porque a ciência era a única verdade e vinha destruir todos os antigos preconceitos da fé. O século marcava-se pelo materialismo. Chegado do Ceará, outro acadêmico de talento escrevia romances: O Cabeleira, Lourenço, O Matuto, e tomava parte em grupos de amadores do teatro para os quais fazia peças com um companheiro não menos contagiado pelas letras: Carneiro Vilela. E Franklin Távora aparecia em livros e na imprensa, mantinha polêmicas, tornava-se falado. Carneiro Vilela ia dando igualmente suas páginas de ficção, tecidas com um fio provocador de intriga, como as de A Emparedada da Rua Nova e dos Mistérios do Recife. Era levada à cena no Santa Isabel sua peça patriótica Brasil- Paraguai. E na América Ilustrada, além de critica de costumes em prosa, ensaiava-a também em caricaturas. Essa queda pelo teatro favoreceu ao Recife casas de espetáculos particulares, como a do Apolo, construída pela Sociedade Harmônico Teatral, e a do teatrinho da Rua da Praia. O trânsito dos anos, como sói acontecer desde que o mundo é mundo, ia proporcionando a variedade dos gostos. Êsses plumitivos reunidos em assembléias históricas ou literárias, com apresentação de trabalhos, aplausos, elogios, e mais tarde consagrações de brochuras, não estariam divergindo, senão em ambientes, dos remotos trovadores dos "oiteiros poéticos". Na praça pública armava-se o tablado, com festões e bandeirinhas, e no trono a "Musa", no seu eterno feminino, recebia as reverências dos vates. A assistência ouvia e pronunciava-se. Oferecia a Musa um tema, e os seus devotos tinham de glosá-la rápidos, seguros, inspirados, para merecer a coroa de louros da noite. Quem não ia ouvir os oiteiros do século XVII? A geração do século XX, em seus alvôres, dispunha dos recintos dos grêmios literários e dos salões em festa para os recitativos ao som da Dalila. Os oiteiros poéticos teriam sido um dos chamarizes mais poderosos da Olinda de outrora. Nêles desafiar-se-iam os menestréis das ladeiras românticas que iam dar na Rua Nova, onde moravam, em sobrados de portas almofadadas e de postigos em xadrez, as muito reclusas sinhàzinhas de olhos lânguidos e longas tranças, motivando talvez versos a jeito dos de título O Cismar da Virgem: Era a hora em que do céu Vem da noite espêsso véu D'escuro a terra cobrir. Era a hora em que pendente Da lua a face indolente Vem tristemente fulgir. …..............................

Era a hora em que a donzela, Debruçada na janela, Mais gosto de contemplar, Porque então ela me ensina, Quando assim a fronte inclina, Que devo a Deus adorar. Era a hora em que eu daria Tesouros de alta valia Para vê-la sempre assim. Era a hora em que se a terra Lá dos céus anjos encerra, Ela é anjo para mim. ….................................... Não cismes, terna donzela, Eu lhe disse - meiga e bela, Que me mata o teu cismar. Deixa o passado no olvido, Que eu também dêle esquecido Só te quero agora amar. Um dos ensejos mais freqüentes e, sem dúvida, mais cobiçados de os poetas de antigamente se exibirem e fazerem, com suas homenagens, suas apresentações, era o das poliantéias. E estas visavam de preferência, então, a família imperial. Quando os Imperadores visitaram Pernambuco, em 1859, o Monitor das Famílias, publicação ilustrada, em uma série de números dedicados ao esplêndido e memorável evento, inseriu dezenas de poesias encomiásticas a D. Pedro II e a D. Teresa Cristina. Foram hinos, quadras, sextilhas, sonetos, pequenos poemas, quase todos os gêneros poéticos em voga. Filha querida da formosa Nápoles Que ao trono do Brasil dais lustre e glória; Arcanjo tutelar a cujo abrigo Vive o Rei, vive o povo e Vive a história. Era uma quadra de uma modesta Alexandrina, esquiva ao realce literário, flor humilde de origem porque nos versos ao monarca confessava : Eis-me hoje a vossos pés, Monarca exímio, Temerosa, porém de prazer cheia, Pobre órfã, educada na pobreza, A vergonha e o pudor a voz me enleia. …...................................................... Somos o povo de um tão bom monarca,

Somos o povo mais feliz do mundo, Temos a glória de ser livre, amando Nosso Rei, nosso irmão, Pedro Segundo. Os cantos patrióticos avultaram. O de um Sr. J. Coimbra tinha estrofes vibrantes: Foi aqui que se deram batalhas, Que o fuzil trabalhou nas metralhas: Pernambuco exultou de altivez; Êste povo empenhando a coragem Deu na guerra valente bafagem, Humilhando em seus pés o Holandês. As poesias não se revelavam apenas nas fôlhas dos jornais: estampavam-se também nos painéis das decorações, em plena via pública. No alto de um belo Arco, no Atêrro da Boa Vista, entre "arregaços e arabescos", "iluminados pelo mágico clarão da luz do gás que lhes presta uma vista benigna e graciosa", liam-se estas quadras: Os leais pernambucanos Bradam dêste ponto ao mundo: De outros Reis cale-se a fama, Glória a D. Pedro II. Se o amor à Liberdade Nos dá renome na história, Também preito à Majestade É florão de nossa glória. Em uma das várias passagens do Conde D'Eu e de D. Isabel pelo Recife, coubelhes receber a homenagem de um moço que viria a ser um dos grandes nomes do Brasil intelectual. O Jornal do Recife assim noticiou o episódio: O sr. acadêmico Tobias Barreto de Menezes, inspirado na augusta presença de SS. AA., improvisou a seguinte saudação poética que recitou com aquiescência de SS. AA. que dignaram-se de honrar ao poeta mandando-lhe pedir uma cópia da mesma: Larga a espada, oh! Mauricéia! Toma d'ouro o teu laurel, Rasga-te, pétrea epopéia, Aos pés da grande Isabel. Grande? Sim - e essa grandeza Não é, não é ser princesa E sim dons de mais possuir, É ser de heróis um renôvo, Ser a esperança de um povo

Que abre a estrada do porvir. …......................................... Que importa o festim de horrores Que se celebra no sul? Vindes a tempo, Senhores, Limpar este céu azul. Vindes ver que denodados Manejam nossos soldados As mais romanas ações. Lançai nos peitos guerreiros Heróicos e brasileiros Mais êsses dous corações. Começava a Guerra do Paraguai. E quantos poetas ela viria a inspirar, entre nós! Vitoriano Palhares estaria pensando no seu Centelhas, e Castro Alves no seu "peregrino audaz". Foi nesse "século das luzes" que se possibilitou a livraria no Recife. Talvez em balcões de diferentes destinos se vendesse a carta de abc ou a tabuada, quando não o folheto de rezas ou o almanaque, mas não era ainda a casa especializada. Ao que se afirma, a primeira foi a do Cardoso Aires, na Rua da Cadeia Velha, no bairro de São Frei Pedro Gonçalves. O dono da livraria viria a ser o pai de um jovem e erudito sacerdote, futuro bispo. Morava com a família por cima da loja, e esta teve imensa popularidade. Afreguesada e querida. Em 28 de janeiro de 1871 um incêndio, começado no prédio vizinho, devorou-a também, e a cidade lamentou-se profundamente. Quando os sinos das igrejas deram as cinco badaladas repetidas de rebate e se soube ser o "fogo dentro do Recife", atingindo a botica de seu Cardoso Aires, foi uma dor nos corações. Há 65 anos estabelecera-se ali mesmo o estimado comerciante, e nunca se aborrecera de vender as histórias de Trancoso, o papel pautado, a folhinha religiosa, o livrinho de novenas ou mês mariano, o envelope ou a obreia, a Chave dos Sonhos, os versos de Lamartine, o tratado de Retórica, o caderno para a venda, o lápis ou a caneta de pena de pato, o registro de santos, o crayon para fazer contas na pedra... E as chamas iam dando cabo de tudo. Mais tarde o Cardoso Aires conseguia reabrir o negócio na Rua da Cruz e agradecia pelos jornais às pessoas que o haviam valido. Por volta de 1900, porém, existia outra loja de livros e papelaria na mesma Rua da Cadeia, então Marquês de Olinda, de um velho Cardoso Aires. Tenha sido ou não a primeira a destruída pelo incêndio em 1871, já contando então 65 anos de existência, outras apareceram em anúncios das fôlhas no decorrer da centúria de 19. A da Esquina do Colégio e a da Rua da Cruz, 56 (provàvelmente a nova do Cardoso Aires) devem ser citadas. Nelas se ofereciam a Gramática Portuguêsa, o Simão de Mântua, as guias das Câmaras Municipais e dos juízes de paz, O Bom Ricardo, a 200 rs., o Telégrafo de Bandeiras e bilhetes para boticas, a 120 rs. o cento. Vendia-se também o periódico sátiro-político A Ponte da Boa Vista. Na Rua das Flôres, D 17, abrira-se a Tipografia Fidedigna, que imprimia, entre outras obras, o livro de sortes O Destino. Custava cinto tostões, trazendo as regras para o jôgo de prendas. No correr dos anos surgiriam a Livraria Acadêmica, na rua do Imperador, já com a Faculdade de Direito ali perto, no antigo Colégio dos Jesuítas. Nela havia penas de aço a 500 rs. a caixa, papel para forrar salas a 2$000 a peça, e obras do momento: «O Manuscrito Materno, de Pérez Escrich; As Doidas de Paris, de Montepin; Eurico, de Herculano; A Judia, de Tomás Ribeiro; A Morgadinha dos Canaviais, de Julio Dinis, e os volumes mais sugestivos de Júlio Verne, Camilo, Dumas pai, Pinheiro Chagas, do qual o Santa Isabel levara, com êxito de aplausos e lágrimas, a Morgadinha de Val-Flor. contudo, já se sussurrava com piscadelas de ôlho: - Leu o novo romance do Eça de Queirós? - Ainda não. Como se chama? - O Primo Basílio... Leia, leia. E lia-se muito, sobretudo por causa das cenas do "Paraíso"... O gôsto literário transitava do romantismo para o chamariz moderno da escola realista. Os homens das "soirées de Medan" tinham lançado a público muitas páginas estranhas e vivas que uns liam no original, tanto o francês era familiar, e outros em raras versões feitas em Portugal. Os "Rougon-Macquart", Madame Bovary, os contos de Maupassant, e já nas letras patrícias O Cortiço, A Casa de Pensão, A Carne, iam substituindo o velho interêsse por Alencar, Macedo, Bernardo Guimarães, ou pelos versos de Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias. A Rua do Imperador teve uma outra casa de livros: a Popular; esta metia-se a obras de ciência, como o Recueil des Lois, de Lepec, o Des Droits et des Obligations, de Louis Ponget, e mais Platão, Plutarco, Marco Aurélio, "moralistas antigos". Ponto de acadêmicos. Assinava-se por 30$000, pagos adiantadamente, o "Atlas Histórico da Guerra do Paraguai, importante monumento das glórias nacionais que constará de 17 mapas formato Jesus, nitidamente gravados no Rio de Janeiro, devendo a publicação achar-se completa em julho de 1874". A livraria do Padre Inácio, certamente austera nos seus balcões, gabava sua Gramática Nacional em versos, o que seria realmente um elemento magnífico nessa época do "aprender de cor". Avaliemos o encanto das regras do infinito pessoal em quadrinhas, a classificação dos substantivos em oitavas ou a divisão de orações ensinada em odes... Junto ao Arco de Santo Antônio houve uma Livraria Econômica. A mais sensacional abertura de estabelecimento de livros foi a Librairie Française, na Rua do Crêspo, n.º 9, esquina da do Imperador, prédio de feição colonial que veio até as primeiras décadas do século atual sem sofrer o insulto da remodelação. Pertencia a livraria à firma Garraux & Lailhacar, e da inauguração dizia o noticiarista do Jornal do Recife: "É uma loja de luxo honrando a cidade que já tem uma Academia." Em 1871 editava a Folhinha Anedótica, publicação em ótimo papel, com mui curiosas gravuras e texto variado. Calendário do ano a entrar: Têmporas, Estações do ano, Bênçãos nupciais, Festas mudáveis, Eclipses, Épocas gerais, Festas nacionais, Dias de grande gala e salvas, Dias de paradas, Lunações... Anedotas ilustradas e uns versinhos de apresentação do Ano-Novo: Horizontes mais fagueiros O novo ano nos traz, Pois o velho, que deixou-nos, Deu-nos glória, deu-nos paz. Mestre López foi pilhado Afinal no Aquidabã; De tantos crimes e horrores

Teve a paga. Triste afã! Morreu à ponta de lança Do nosso Chico Diabo, Sendo armas brasileiras Que da fera deram cabo. …............................... O pior é que sofrendo Vamos a fome cruel, A peste, que decimando Nos vieram dar seu fel. …................................ Houveram fogos e festas, Flôres, versos, falações, Fitas, hábitos, comendas E também novos barões... Casaram moças aos centos, Nasceram muitos nenéns; Pondo de lado desgraças, Aceitai meus parabéns. As moças (é profecia) Mesmo as tornadas canhão Neste ano acharão par E noivas todas serão. Os rapazes venturosos Acharão peixes no ar E até os preguiçosos Hão de nababos ficar. Nessa Folhinha Anedótica, em fôlhas de côr verde, a Librairie Française enumerava suas novidades: papel para todos os misteres, florete, almaço, desenho, fantasia, mata-borrão, música e cartas com as iniciais do comprador. Envelopes variados e até os rendados para "os que amam". Areeiros de vidro ou metal. Sinêtes de osso e marfim. Obreias de cola. Caixas de costura, de perfumaria, de jóias, em charão, veludo, cetim, algumas delas com música. Álbuns em madrepérola, sêda, papelão para retratos. E livros, um rol dêles, desde a Arte de Furtar às famosas aventuras do Barão de Munchausen, das Falenas, de Machado de Assis, à História da Princesa Magalona. Essa Librairie Française por volta de 1900 traduziu em vernáculo seu nome: passou a ser a Livraria Francesa, do João Valfredo de Medeiros, que fôra exaltado republicano e fizera parte do Conselho Municipal. Ainda casa muito afreguesada e sortida, com sua feição antiga de vitrinas fixas e baixas, cheias dos artigos de novidade do tempo. Velhos ali faziam plantão para a palestra, e os jovens para namoros... Suas contemporâneas famosas foram a Ramiro Costa, a Papelaria Pernambucana, a Silveira, a Econômica, mais familiarmente conhecida por Nogueira, livrarias notáveis do comêço do século XX. Por elas andaram os intelectuais de então: os de nomes consagrados e os candidatos a idêntica consagração. Os dois grupos de sempre. Aquêles, sólidos na sua glória; e os outros, vaidosos da nova época e cônscios de ultrapassar os vitoriosos. Essa nova geração ironizava a que a antecedera, chamando-lhe "fin de siêcle", com um quê de decadente, mofada, fora da moda. A jovem era a da centúria entrada em 1901, com umas fumaças de renovação, a começar pela indumentária: calças tabica, jaquetões meio cintados, sapatos amarelos, chapéus de palhinha, colarinhos duplos e altíssimos, à Santos Dumont. Nada de cartolas, croisés, barbas, botinas de elástico... Nas letras, também fingiam desdenhar os velhos autores, embora os lessem regaladamente, preferindo ostentar nas mãos o Canaã, de Graça Aranha, Os Sertões, de Euclides da Cunha, mal assimilados ainda, as Apoteoses, de Hermes Fontes, o Visionário, de Mateus de Albuquerque... E o Eça, porque o Eça ainda foi uma surprêsa para essa geração. Ela procedia de umas leituras meio ou inteiramente furtivas de avelhantados tomos das estantes de um avô, de um pai ou de um tio gostador de livros: a literatura ainda era olhada como uma dispersão de tempo útil, ou fonte de envenenamento mental. Os escritores, classificavam-nos de contadores de caraminholas, e os poetas,em especial, de "viventes do mundo da Lua". Se aos mais idosos a permissão de um convívio com as belas-letras trazia cunho de ocupação menos séria, que dirá dos jovens cujas horas seriam tão necessárias ao estudo da análise lógica, da regra de proporções ou da multiplicação de complexos, quando não a decorar as cruzadas ou mares da Asia? Começava-se por êstes volumes das estantes de casa: os romances de capa e espada de Ponson de Terrail, de Emile Richebourg, de Xavier de Montepin, em trânsito para os açucarados amôres de Pérez Escrich. Porventura mais benéfica, uma atração irresistível para os tomos vermelhos e verdes, com um balão na capa, de Júlio Verne, àvidamente perlustrados até tarde da noite, na ânsia de se "saber o fim". Um rumo melhor conduziria essas primícias de interêsse pela literatura aos romances de Macedo A Moreninha e O Moço Louro, do Alencar de O Guarani e Iracema, à Escrava Isaura, à Inocência, de mistura com As Primaveras, de Casimiro de Abreu, e os poemas indianistas de Gonçalves Dias. Mas vinha o dia do Eça. Quase sempre O Crime do Padre Amaro ou O Primo Basílio, mais cobiçados pelos adolescentes. Encontravam-nos mais escondidos na estante, se não os obtinham de empréstimo para saboreá-los, trancados no quarto. E era a primeira surprêsa do Eça. Sim, a primeira, porque outras depois se imporiam, levando a um culto integral do autor de A Cidade e as Serras. Essa primeira, porém, era tôda de ordem sensual. O que atraia nesses livros, acima do estilo, da ironia, dos flagrantes pessoais, da paisagem, da palpitação social, eram simplesmente os amôres carnais de Leiria e as entrevistas adulterinas do "Paraíso". O acicate resumiase nessas cenas de volúpia, cuja realidade não fôra dado conhecer aos jovens leitores, pôsto a desejassem... A compreensão do Eça por um prisma superior ao dêsses passos de alcovas viria com a conquista de Os Maias, A Correspondência de Fradique Mendes, as Cartas de Inglaterra, A Ilustre Casa de Ramires, As Farpas, que fariam voltar aos dois romances da estréia para, também, melhor penetrar no seu mérito literário. Tinham, todavia, travado relações com o "realismo". E, agora, o caminho desbravava-se para as traduções de Zola e Flaubert (porque o francês do ginásio não dava para lê-los no original), para Abel Botelho, Fialho, João Grave, sem esquecer a "prata da casa" no enlêvo de O Cortiço, Casa de Pensão, A Carne... Preparatorianos vaidosos da importância de fazer exames no Ginásio tornavam-se

os "moços do século XX". E não transigiam nisso, com as afoitezas, os excessos e os rompantes da nova era de que se prognosticavam maravilhas, inclusive de pacifismo... Ironias, suficiências, desdéns, demolições de famas. Mas, aqui para nós, olhos compridos para os escritores em fastígio, cujas figuras viam passar pelo corredor elegante da cidade, à fresca da tarde, nesses tempos em que a vida de trabalho terminava cedo e se jantava às 4 e 5 horas. Entre as moças a espalharem sua graça pelas calçadas das lojas notavam-se também os vultos das letras. Quem não daria uma atenção ao garbo de Alfredo de Carvalho, de fraque impecável, de bigodes eriçados, com um desempeno de homem erudito, viajado e galanteador? - Êle sabe até holandês!" - murmurava-se com certo espanto. E o Petrônio rumava para a Livraria do Nogueira, onde, melancòlicamente, seria vendida a retalho, anos depois, a sua opulenta biblioteca. Outro nome em destaque seria o de Carlos Pôrto-Carreiro, o educador de uma porção de gerações e o famoso tradutor do Cyrano de Bergerac. Descobriam-se na versão belezas superiores às do original e recitavam-se com entusiasmo os couplets dos cadetes de Gasconha, enquanto outros preferiam a cena do balcão com o seu "ponto róseo no i do lábio que se adora". Pereira da Costa aparecia: baixinho, grisalho, de prêto, sem zelos de indumentária, sobraçando jornais antigos, e vindo de arquivos ou bibliotecas onde seu lápis vermelho deixaria rastro do muito pesquisado e anotado para sua obra preciosa sôbre Pernambuco. Mal pensava que os seus Anais ainda estariam inéditos em 1945... Faria Neves Sobrinho, nervoso, ágil, de prosa sedutora, publicara O Poema do Olhar: Olhos, espelho d'alma! Quantas vêzes a sós, esquecido do mundo, Sob o pálio da noite, ampla, estrelada e calma, Eu me fico a cismar, em silêncio profundo, Em tudo que exprimis, olhos, espelho d'alma! E tantos mais presentes nesse cenário da cidade ou dêle arredios, mas em evidência de nomes! Teotônio Freire, assinando crônicas floreadas de estilo, musicais e arrendadas, nas colunas de A Província, autor do romance Passionário. Faelante da Câmara, de uma envolvente simpatia, com seu pincenê de tartaruga prêso a um retrós prêto, e senhor de uma prosa tersa e seivosa. Carneiro Vilela, já prêsa da hemiplegia, nem por isto deixava de mirar as vitrinas dos livreiros, com o seu ar de ironista, temido pela crítica mordaz em que se fazia lembrado seu tirocínio na América Ilustrada, pela pena e pelo lápis de caricaturista, ambos seguros e destros. Lia-se ainda muito o seu A Emparedada da Rua Nova, e emprestavam-se nomes reais àquelas personagens, enquanto um prédio era apontado como o verdadeiro cenário do drama. Outros muitos despertariam a nossa curiosidade e, possìvelmente, a nossa inveja, vendo-os como os víamos às portas das redações, cuja intimidade nos tentava, aspirando de fora o cheiro da tinta de impressão ou espiando as mesas em que rabiscavam os jornalistas de nome feito, ou até os menos ostensivos noticiaristas. Ponto também de reunião desas individualidades em destaque nas letras era a livraria do Nogueira, na qual os novos ousavam penetrar a pretexto de mirar as recentes edições de 3 fr. e 50, entre as quais as novidades de Maupassant, de Daudet, de Leconte de Lille, de Baudelaire... Os intelectuais ali habitualmente reunidos eram os membros da novel Academia Pernambucana de Letras ou do vetusto Instituto Arqueológico. Nenhum ponto de reunião mais cobiçado para os cultuadores da literatura do que essa Livraria Econômica, ou do Nogueira, denominação provinda de seu proprietário, Manuel Nogueira de Sousa, livreiro de espírito e de bom gôsto, cunhado de Martins Júnior, homem que tomava parte sempre nas tertúlias de sua casa. Ali, invariàvelmente, à tarde, encontravam-se e cavaqueavam os eminentes da época, alguns de dobrada eminência: nas letras e na política. Comentavam-se os últimos aparecimentos literários e as futuras chapas para deputados. Não estivessem ali Faria Neves Sobrinho, Gilberto Amado, Artur Orlando, rosistas, penas adestradas na defesa do partido dominante, pelo Diário, e também Gonçalves Maia, Faelante, de A Província, e paladinos da oposição ao "Chico-Flor". A Livraria do Nogueira, nos primeiros anos de 1900, reunia, assim, quase todos os vultos literários do tempo: Samuel Martins, com seu pincenê, saído há pouco da gerência da Caixa Econômica; França Pereira, vate e prosador de méritos; o romancista anticlerical de O Claustro, Manuel Arão; Artur Muniz, muito míope, quase a raspar as lombadas com o nariz; Gervásio Fioravanti, o poeta de Meses, boêmio, blagueur; Regueira Costa, o "amigo de Castro Alves", a quem conhecíamos desde meninos através de sua Seleta Clássica e agora olhávamos com admiração e inveja, sabendo-o confidente do autor de Vozes d'Africa, o companheiro das jornadas heróicas do teatro Santa Isabel quando ali Eugênia Câmara representava a Dalila Tantas outras figuras de expressão intelectual passavam pelos balcões da Nogueira, sem embargo dos tímidos ou ousados novéis rondadores da livraria consagradora, uns atraídos pelo contacto dos "grandes", outros à procura de uma novidade francesa de 3 francos e 50... Outro ponto de reunião de jornalistas era a chapelaria dos dois irmãos Melo, junto à Casa do Krause; nela era habitual Baltazar Pereira, o temível polemista, em prosa e verso, da antiga fôlha de José Maria. Outras figuras de projeção na vida cultural da cidade, mormente professôres da Academia, ali se mostravam. O Dr. Adolfo Cirne, com escritório no 1.º andar, seria dos mais assíduos, vendo-se igualmente Gervásio Fioravanti, o poeta dos Meses, Albino Meira, Neto Campelo (um dos diretores do Correio do Recife), Tomé Gibson, do Jornal Pequeno, Manuel Caetano, de A Província. Pouco adiante, abrira-se em começos do século a Livraria Silveira, e numa das suas dependências, tôdas as tardes, marcavam presença Rodolfo e Aprígio Garcia, Osvaldo Machado, Domingos Magarinos, Faelante da Câmara, Heitor Maia, Artur de Albuquerque, Artur Baía, Machado Dias, Artur Muniz. Professôres, jornalistas, poetas, teatrólogos, chefes de repartições. Formavam o "Cenáculo", Quando Euclides da Cunha, em plena glória de Os Sertões, transitou pelo Recife, o "Cenáculo" ofereceu-lhe um almôço na Pensão do Derby. Os novos tinham como pontos de contacto intelectual os grêmios literários cujos títulos homenageavam figuras antigas e contemporâneas: Casimiro de Abreu, Tobias Barreto, Vitoriano Palhares, Ribeiro da Silva, Castro Alves, Maciel Monteiro... Ou nas mesinhas dos cafés: o Rui, o 15 de Novembro, o Santos Dumont. Leitura de versos, defesa de teses, discursos de saudação, júris históricos, críticas de livros lidos, esperanças de publicações... O livro? Que sonho! Mesadas que não iam ao fim do mês poderiam pretender prover às despesas com a impressão de uma obra? Valia um pouco, porém, ao desejo de aparecer, a imprensa. Os suplementos dominicais de A Província, a coluna "Letras e Artes", do Jornal do Recife, concessões literárias do Correio do Recife, do Jornal Pequeno... Mas que de custo para romper as barreiras dessas redações! Do lado de dentro já sorriam Mário Rodrigues, Júlio Barbona, Mendes Martins, Mateus de Albuquerque, Eugênio de Sá Pereira, Isaac Cerquinho (o Chabi), Caetano de Andrade, Edviges de Sá Pereira, Artur Lima (Pio Piparote), Laiete Lemos, Olímpio Fernandes, outros mais. Do lado de fora, um punhado de pretendentes, numa avidez que não consentiria, hoje, a formação disciplinizadora da fila... Apareciam as revistas mundanas: Cinema, Moderna, Avança, Rua Nova, Cricri, quando não as brejeiras, Pimenta, Besouro, que aceitavam colaboração dos novíssimos, mas em regra duravam tão pouco! Recorriam também às páginas literárias dos livros de sortes. A Lanterna Mágica, do Távora, pôsto que satírica, admitia alguns sonetos. Não houvera até então, nesse período inicial da centúria atual, uma revista de arte e pensamento à altura da Revista Contemporânea ou da Revista do Norte, em que tinham fulgurado Martins Júnior, Pardal Mallet, Adelino Filho, Paulo de Arruda, França Pereira, Demóstenes de Olinda... Fôra, portanto, uma "revolução " o aparecimento de Heliópolis, publicação de cunho artístico e de selecionada matéria, mas de uma geração que surgia para as letras. Um bando de moços de bigodes cuidados, de sonhos nas cabeças, sabendo bem dizer o que pensavam, fôsse em prosa ou em poemas. Ala moça de Ulisses Sampaio, Rodovalho Neves, Mário Linhares, Paulino de Andrade, Costa Rêgo Júnior, Humberto Carneiro, Raul Monteiro, Araújo Filho, Mariano Lemos, Silva Lobato, Agripino Silva. Foi uma revista marcante dessa época de vanguarda. Dessa vanguarda de moços ávidos de aparecerem nas letras, faria parte um jovem romancista, Lucilo Varejão, cujo livro de estréia O Destino de Escolástica provocaria a atenção da crítica de todo o país, assegurando o triunfo seguinte de Do que morreu João Feital, páginas deliciosas da vida do bairro de São José. Em 1902 circulou a Revista Pernambucana, quinzenário de fino sabor literário. Eram seus diretores Getúlio Amaral e Olímpio Fernandes, saía ilustrada com "Vistas do Recife", hoje bem curiosas, e reunia colaboração de poetas e prosadores da velha e da nova guarda. Tanto aparecia um Teotônio Freire como um Manuel Duarte. Não passou do ano seguinte. Mas, merecia viver bastante. Outra revista de bom quilate nas letras foi Pallium, da Sociedade Histórica e Literária Bernardo Vieira de Meio. Em 1900. Tinha como orientadores José Campelo, Leonino Correia, Oscar Loureiro, Franklin Sève e um grupo de cooperadores dos mais em foco no Recife intelectual da época. Nessas publicações, bem assim em outras fôlhas impressas, iam, de permeio a nomes consagrados, afoitando-se outros ainda mal conhecidos e canhestros que, no entanto, viriam, depois, a ter "seu dia". Sonhadores de glórias e de livros... As edições de livros, então, eram verdadeiras batalhas vitoriosas Editôres? No Rio, a Garnier, somente aberta aos "marechais" da literatura; a Alves, inclinada às obras didáticas. Outras, muito retraídas, de raras tiragens. No Recife, as tentativas dêsse gênero quase não tinham expressão de regularidade. O remédio era o livro à custa do autor, por muito que isto representasse de coragem e de sacrifício Os mil exemplares, se tanto, destinavam-se a ofertas, porque as livrarias mal vendiam uma quinta parte. Mesmo assim, do grupo da Heliópolis não poucos se tornariam, então, autores de livros, e com estréias que não foram apenas promessas. Outra publicação de relêvo na primeira década de 1900 foi A Evolução, "órgão racionalista", tendo como diretores e colaboradores Hersílio de Sousa, Leal de Barros, Olinto Vítor, Gouveia de Barros, Raul Azêdo, Rangel Moreira. E não em plano inferior de mérito a Cultura Acadêmica, da Faculdade de Direito, repositório de magníficas páginas de sua especialidade, sem prejuízo das de literatura. O Almanaque de Gaspar Regueira Costa e o de Júlio Pires Ferreira contribuíram sensivelmente para o agasalho de escritores já feitos e de aspirantes a renome; suas coleções constituem hoje manancial farto para pesquisas dêsse gênero. Até as senhoras tiveram seu jornalzinho, O Lírio: Amélia de Freitas Beviláqua, Edviges de Sá Pereira, Maria Augusta Freire, Elisa de Almeida Cunha, Belmira Vilarim, Úrsula Garcia - mulheres a escandalizar as rodas domésticas com êsse seu "despachamento" de se meterem a poetisas e jornalistas. Bons tempos em que o despachamento das moças consistia apenas em aspirarem a ser literatas! Assim rolavam as coisas literárias nesse Recife ainda tão distante das renovações materiais que a segunda década, com as transformações políticas do govêrno Dantas Barreto, o após-guerra, as obras do pôrto, iria possibilitar. A fisionomia urbana era a mesma das gerações vividas no derradeiro quartel do chamado século das luzes, de que Martins Júnior diria enfàticamente: Século dezenove! O bronze de teu vulto Há de ser venerado, há de se impor ao culto Dos pósteros, bem como impõe-se à escuridão Um relâmpago, um raio, um brilho, uma explosão! Contudo, tentavam-se imitar as novidades de fora. As do Rio, por exemplo. 1904 por lá significava o início das remodelações do quatriênio Rodrigues Alves, e com elas, a par do bota-abaixo e do novo Rio, palpitavam os espíritos, querendo renovar concomitantemente as atividades literárias. Entraram em moda as conferências literárias, imitando-se o Rio de Janeiro, "que se civilizava" com a abertura de avenidas. Aqui, também, alargava-se a Rua do Cabugá, botavam abaixo as lojinhas da Praça da Independência. Luciano Pereira da Silva, com suas belas barbas negras, falaria sôbre Grampos, os lindos e perfumados prendedores de cabelos femininos ou de chapéus com plumas e passarinhos. Mário Rodrigues escolheria Pregos, mesmo os dos bondes gerando impaciências para uns que tinham fome e pretextos amáveis para demora defronte de certa casa quando se tinha sêde de amor... Gilberto Amado, ambicioso de ascensões, diria de Nuvens, e Laiete Lemos, sentimental nos versos e nas valsas, preferiria Lágrimas. Adelmar Tavares revelar-seia em Trovas, enquanto Oliveira Melo roçaria os Muros, não como criança a matar lagartixas, mas... bebendo eflúvios descidos de imagens ali debruçadas, ao longo dos sítios de arrabaldes. Não era em vão que os chefes de família eriçavam êsses muros de cacos de garrafas... Ladrões de galinhas apenas? Não. Conferencistas literários também. As trovas, de que Adelmar se ocupou, deram o gracioso volume de Descantes, raridade bibliográfica de hoje. Destinava-se ao cestinho de costuras das moças, quando havia vagares para tais futilidades; hoje, na caixinha do rouge o livro não se acomodaria. Escreviam-no cinco menestréis: Carlos Estêvão de Oliveira, Moreira Cardoso, Silveira Carvalho, Manuel Monteiro e o autor de Mirian. Cada um com o seu retrato, com a sua Indumentária da época e as trovas espalhadas pelas páginas, em coloridas vinhetas, em tipos igualmente a côres. Ouçamos os trovadores nas amostras do seu sentir potéíco : Adelmar: Canto e abre-se a janela.

E aparece a imagem tua. Meu Deus! Que causa tão bela: Um lírio fitando a lua! Nossa amizade está morta; Bem sabes, encantos meus, Que dois pobres numa porta - Perdoe, por amor de Deus! Carlos: Um problema me consome, Mas não lhe dou solução: Como escreveste o teu nome Dentro do meu coração? Dizem que o amor é eterno E é ave de arribação: Chega com o frio de inverno, Foge com o sol de verão. Moreira: Não sei, tão grande parece A tristeza que padeço, Se a tristeza me entristece Ou se à tristeza entristeço. Tuas pupilas me dão Cruéis dúvidas, e ao tê-las Não sei se olhos são estrêlas Ou se estrêlas olhos são. Silveirinha : Ideei um chalèzinho De proporções tão pequenas Que a dois corações apenas Pudesse servir de ninho. Ergui-o em mente, e depois De já se achar concluído, Vi meu trabalho perdido:

Não tinha espaço pra dois... Monteiro: Milagres - terra de Olinda Quando o sol no azul desmaia É corpo de moça linda Deitado à beira da praia. Somos cinco retirantes Pelas estradas reais; Pobres dos nossos descantes, Descantes pobres de mais. Todos dessa geração faziam trovas, ou, se não as teciam em rimas, sonhavam-nas em pensamentos. Não pertencessem todos êles àquela cadeia sentimental de que um dos elos fôra Paulo de Arruda, morto aos 27 anos, malo século repontara, quando decorávamos os versos do seu Nelumbos : Quero esquecer-te e mais te anseio e vejo. Lembro que me feriste cruelmente, Resisto e sofro, luto e te desejo. E nesta luta a alma se me exala: Morro sorrindo, aos poucos, lentamente, Morro beijando a mão que me apunhala. E uma tarde foram levá-lo às alamedas do Santo Amaro para ali deixá-lo apunhalado pela doença e pela vida... Para de lá, de uma coluna de mármore truncada, falarnos: Alma de mulher: Eu fui Paulo de Arruda. Tombe de teus lábios, sôbre o que passou, cantando-te a [Beleza efêmera e o misterioso Gênio, uma palavra ao menos de [saudade. Cidadão: Eu fui Paulo de Arruda. Os preconceitos? Acalcanhei-os. As vãs Grandezas? Renunciei-as.

A Piedade? Foi meu fanal. Fui altivo, fui bom e fui modesto. Que mais desejarias para que eu fôsse digno de ti, [Cidadão? E ali perto dêle, vizinho de sono e de musas, dorme outro poeta morto nesse apontar de uma nova centúria: o corretor-boêmio Gregório Júnior. Levou os quarenta e poucos anos de existência a versejar com chiste e com malícia, quando não com lirismo, pelas bancas dos schip-chandlers do Cais da Lingüeta, entre uma cotação de esterlinos e uma venda de açúcar. Sonetos, quadras, monólogos, cançonetas... Êle também fala ao transeunte da necrópole, e com versos próprios : Eu penso assim: que a gente lavra um tento deixando de existir. Ou seja um grande, um másculo talento, ou seja um pulha, um pobre lazarento, que ande sempre a pedir... Eu penso assim: que a gente lavra um tento deixando de existir. Gregório Júnior, nessa sua poesia eivada de verdade e de sarcasmo, alude a uma dessas homenagens póstumas prestadas a quem em vida nunca mereceu nada de seus coevos e só passou, para êles, a valer, quando não era mais um competidor... As decepções de amor e das letras não matavam o fervor de amantes e de plumitivos. Era uma mística indiferente aos desenganos, aos cilícios, às desilusões. Se uns tombavam, outros porfiavam, e muitos vinham ainda chegando para o início da romagem, cujos caminhos não variam quase. Não houvera sempre o mar, o céu, a praia, a árvore, o Sol, a tormenta, o ocaso, para cantá-los, e, dentro dessa paisagem, a mulher com os seus olhos, as suas tranças, os seus sorrisos, as suas vozes e os seus beijos mais prometidos que dados? 1901, com as privações e os embaraços que os ditames morais infligiam, atiçava mais os temas dêsses versos, que hoje, talvez, não tenham razão de ser, tanto menos se aspira quanto mais se consente e se obtém... O lirismo reflete, assim, não uma época literária e sim um clima social. Não haveria razões para um poeta moderno referendar o motivo dêste terceto de Henrique Soido: Tem tanta graça esta gentil princesa que a palavra nos lábios fica prêsa e os beijos saltam sem querer da bôca. Os beijos de agora não precisam mais de nenhuma perícia acrobática para atingir mentalmente uma varanda, um muro, uma distância qualquer... Êles caem, as mais das vêzes, de bôca a bôca, como um fruto apanhado sem custo e sem susto. Os versos líricos de então refletiam, sim, as distâncias, as vigilâncias, os obstáculos. Eram, a seu modo, recados de amor... Américo Falcão, vate paraibano, alto, elegante, de fraque e chapéu desabado, contentar-se-ia com muito menos: Ama-me sempre assim, quero sonhar, sonhar... Dá-me que eu veja sempre a flor do teu sorriso, Dá-me que eu beba sempre a luz do teu olhar. Sorriso e olhar... Promessas que fôssem e nunca tivessem realidade: pouco importava. Já um sonêto de João Fioravanti o confessara: E é por isto que vive em meus olhos o pranto, Pois não há maior dor, e que nos doa tanto, Que a da gente esperar o que nunca há de vir. Sonhos de poetas do comêço dêste século, em que se sonhava mais do que se objetivava. Bem o expressava Mateus de Albuquerque, no seu Visionário: Asas brancas de arminho, ao sol, pelo infinito, Voando, num sussurrar de música sonora. Partem, vão-se os meus sonhos gárrulos de outrora, Belos sonhos do meu sagrado amor bendito. Castelos côr de céu, verdes pomares, fito, A asa negra da noite amortalhando agora. Olha: não mais ali fulgura o rir da aurora Nem pompeia do amor o soberano rito. Claros dias de sol, noites brancas de estio, Alma que tanto amei, beijos soltos em chama, Dissipados à luz de límpidas estrêlas. Adeus! Meu coração tão êrmo e tão vazio Arde neste deserto e lágrimas derrama, Pois de tanto penar já não sabe contê-las. Um a um, todos falavam assim de suas queixas, de seu ofegos, de suas ânsias, de seus corações. Eram Uriel de Holanda, Miguel Magalhães, Oliveira e Silva, Tondela Júnior, Mário Melo, José de Barros Lima, Olímpio Fernandes... Falavam e queriam dizer o que nem sempre o verso exprimia . Eugênio de Sá Pereira torturava-se: Quero neste papel vazar, gôta por gôta, Todo êste grande amor, todo êste sentimento Que de mim o prazer para bem longe enxota - Disse o poeta a chorar, num túrbido lamento.

E a pena empunha. A idéia entre queixas lhe brota, Como um grito de dor, forte, rude, violenta. E, rôto o coração, rôta a crença, e a alma rôta, Vê de sangue tingir-se o papel, de momento. Escreve! A inspiração em fogo lhe incendeia A mente. E, entre o papel e a paixão que o inebria, Fala, treme, vacila, exulta, chora, anseia. E no fim do poema o papel rompe, louco: Vê que nêle não disse o que dizer queria E que para dizê-lo o Pensamento é pouco. Nem por isso êles, os vates de 1901, deixariam de encher de versos os cartõespostais ilustrados, cujas coleções em álbuns eram o frenesi da época. Não havia quase ninguém sem o seu álbum, luxuoso ou simples, mas cioso de conter as mais sugestivas estampas, muitas delas formando histórias de amor a terminar numa alcova nupcial. Escreviam-se nêles, a pedido dos donos, mormente das donas, pensamentos em prosa ou em versos. Postais de veludo, de cetim, de plumas, de sêda, de madeira, de alumínio... Nas livrarias os colecionadores aguardavam a chegada de novas caixas para escolher primeiro as coleções imprevistas e originais. Vexames de inspiração falha, em certos instantes. Mas, em compensação, pretexto amável para uma declaração, um galanteio, um azedume... Havia as perguntas. Os inquéritos: Quem é que tem mais saudades: Quem fica ou quem vai embora? A um dêsses Oscar Brandão responderia : Ou seja homem ou mulher, Eis a maior das verdades: Só há de ter mais saudades O que mais amor tiver. Nas vitrinas da Francesa, da Nogueira, do Silveira, iam aparecendo os vient de paraître de Paris, trazidos nos Mala Real, aquelas brochuras de 3 francos e 50, os exemplares recentes de Les Annales, Revue de Paris, Mercure de France, ao lado dos livros portugueses tão procurados - Itália coroada de rosas, de Justino de Montalvão, Os Gatos, de Fialho, O Barão de Lavas, de Abel Botelho, últimas Páginas, do Eça - de envolta com o D. Casmurro, de Machado, Carícias, de Garcia Redondo, Inverno em Flor, de Coelho Neto, Pela Sertão, de Arinos, e o êxito extraordinário do Quo Vadis?, que dera ensejo até a uns broches em moda. Muita gente os usava sem saber o que queria dizer "Quo Vadis?"... Contava-se mesmo o caso de um leitor do romance que já a meio dêle mostravase desapontado por não ter surgido ainda êsse tal do Quo Vadis... Perfídias de 1901 atribuídas ora a uma, ora a outra personagem em relêvo, mormente na politica. E assim, por um Recife cujos aspectos urbanísticos pouco haviam mudado nas suas características familiares aos olhos dos avoengos, caminhava essa nova geração de letrados impelidos pelos sonhos e devaneios de aparecer e de triunfar, convictos de uma importância intelectual contemporânea ou futura, planejando novelas e sonetos, numa persuasão de estarem-se notabilizando, embora dentro de um cenário indiferente, zombador ou desentendido. Enquanto muitos das gerações pregressas repetiam, num tom de absoluta verdade, versinhos de antanho postos eternamente em atualidade : Não há ventura Como em ser tolo, Que ter miolo É mal sem cura.

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Sinopse

Leia gratuitamente Arruar: história pitoresca do Recife antigo, de Mário Sette, obra brasileira em domínio público. Edição digital preparada a partir da fonte oficial de Mário Sette, com leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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