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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 1 · Falange Gloriosa

Capítulo I

No princípio de ano, às dez da manhã, o trem parou, como de costume, na vila das Três Barras — lugarejo insignificante que não chega a contar uma centena de casas e nem figura nos mapas mais meticulosos do Sul de Minas — e a esse momento um casal de velhos se levantou, para sair dum carro de segunda classe; como, porém, em janeiro fosse desusado o movimento da estaçãozinha da vila, ou do “arraial”, conforme lhe chamavam os antigos, e notória a pequena espera do comboio, houve no simultâneo embarque e desembarque de passageiros um certo atropelo que lhes tolheu os passos. A sineta deu súbito o sinal de partida. Seguiu-se o trilo do chefe de trem. Um viajante de enormes bigodes que acabava de instalar-se num banco, exclamou, vendo a atitude dos velhos: — Não vão descer? Então depressa, que o trem está saindo! E empurrou-os, solícito, para a portinhola. Os dois, atarantados, tontos, abalroaram numa enorme caixa de papelão que entrava. A caixa caiu para o lado, praguejando, e eles passaram. O silvo da máquina apressou-os mais; e, quase sem fôlego viram-se enfim pisando terreno firme. Era tempo. Os carros, lentamente, já se punham em movimento. — Olá, ó vovô! — gritou o mesmo viajante. O invocado acudiu ao apelo, e correu a tomar a trouxa que o desconhecido lhe passava pela janela. — Muito obrigado! — disse o velho descobrindo-se, e acompanhando com olhar enternecido a quem assim lhes salvava os haveres.

Já a distância, e sorrindo, o viajante dos bigodes gritou alegremente, fazendo-lhe um aceno de despedida: — Não há de quê! Recomendações à velha! — Ó Flávia — disse a esta o companheiro, quando lhe chegou ao pé —, quem é aquele moço? — Não reparei, João… Por quê? — Ele mandou recomendações a você. — Quem sabe se será algum conhecido… — e Flávia esticou o pescoço descarnado para verificá-lo. Mas era tarde; entre fumo e poeira já o trem desaparecia num corte, donde não vinha mais que uma trepidação ensurdecida e remota. Com as pernas mal firmes, e nos ouvidos um imenso rumor subjetivo, ambos quedaram-se um instante, meio apatetados. Era grande o contraste dos solavancos e ruídos do trem com a paz da estaçãozinha das Três Barras, relegada ao centro de uma várzea, entre a chiadeira fanha das cigarras, que gozavam a luz daquela manhã sem nuvens. Os outros recém-chegados abalavam, aos magotes, para a vila. Alguns três-barrenses, palitando os dentes, buscavam conhecidos entre eles, ou assalteavam o negrinho estafeta, pedindo a correspondência vinda pelo ambulante. O agente conferia cargas e dava ordens; carretas de mão barulhavam na areia úmida da plataforma; e de mui longe, em intermitentes lufadas de sons, vinham os surdos arquejos da locomotiva e o amortecido rolar dos carros. Sacudiu o torpor dos velhos a vista de seus companheiros de viagem que se iam afastando, rumo à povoação, entre crianças e os meninos das malas. Na maioria eram pais que vinham matricular os filhos no Ginásio equiparado “Fiat Lux” e na Escola Normal, também equiparada, “Deus, Pátria e Família”, dois importantes estabelecimentos de ensino, que conseguiram vingar e prosperar naquela humilde vilazinha mineira, graças ao gênio de seu diretor, o Sr. Antônio Junqueira Navarro, educador competentíssimo e verdadeiro apóstolo do ensino. Os velhos, que se destinavam à Escola Normal, reagiram contra a fadiga e puseram-se a caminho, em passo lesto, para alcançá-los e guiarem-se por eles.

No meio do grupo mais numeroso, notava-se um moço melancólico, a quem todos prestavam reverente atenção. Era Fortunato Marolo, um dos regentes do ginásio, encarregado pelo diretor de acompanhar à estação os pais que se iam de retorno e esperar os que deviam chegar por não tê-lo podido fazer pessoalmente aquele dia. Aos que não conheciam ainda o Navarro, e nem haviam experimentado os frutíferos métodos de ensino dos seus colégios, a figura do regente, que ali os representava, incutia magnífica primeira impressão, que exigia respeito e dispunha favoravelmente; pois, embora vestido sem alarde, nem muito asseio, o moço respirava unção e santidade, como uma imagem que, cansada da eterna postura de imobilidade e êxtase no seu retábulo, se resolvesse a descer dali e a sair da igreja, para misturar-se com os pecadores. Em seu andar havia o compasso solene de quem acompanha um andor; a voz era lenta e nasalada, com inflexões de canto gregoriano; e com a mão gesticulava molemente, com os ares de quem abençoa. Os velhos, que se avizinhavam, viram a cruz de irmandade que lhe pendia sobre o colete sujo. Por fim, já conseguiam escutar suas palavras. — Graças a Nossa Senhora… Alunos sempre aumentando, doutor… — respondia a uma figurinha grisalha, em cuja cara rechupada brilhavam nasóculos. E a nova pergunta de outro interlocutor: — Só sarampo… constipaçõezinhas… Ah, os que morreram? Eram cardíacos de nascença, disse o Dr. Peregrino, médico dos colégios… Mas morreram na graça do Senhor, com todos os sacramentos. E descobrindo-se, acrescentou com os olhos compungidamente elevados para o céu: — Deus os tenha na sua infinita glória! — Amém — ecoou baixinho João, também desbarretando-se. Os velhos já haviam alcançado o grupo. — E o tifo, de que ouvi falar… — arriscou um fazendeiro de carão vermelho, a quem acompanhavam duas caipirinhas vestidas identicamente e de olhos postos no chão.

— Tifo! — respondeu o doutorzinho grisalho pelo Marolo. — Histórias! São os inimigos do Navarro que propalam isso. Conheço bem esta localidade, cujo clima é salubérrimo. Além disso, nos colégios a higiene é rigorosa. O diretor escrupuliza em tudo. Posso falar assim, porque tenho cá o meu Dariozinho há três anos, no ginásio; por sinal que um pirralho deste, com oito anos incompletos, já cursa o segundo ano… Hem? isto não atinge as raias do milagre? Todos os olhares confluíram para um fedelho esperto, uniformizado de alferes, que caminhava ao lado do pai, com ares de militar. Em vez de se mostrar acanhado ou desvanecido por ser a mira de todas as atenções, o menino carregou o boné sobre os olhos, como contrariado pelas palavras paternas. — É milagre! — confirmou o doutor. — Também os colégios têm um corpo docente de primeira ordem. Além disso, o Navarro possui o condão de incutir nos alunos o amor ao estudo. Ali estuda-se deveras. E não creiam que a disciplina seja rigorosa; longe disso; é toda de meios suasórios e estímulos morais. O resultado é estupendo. Este rapaz, por exemplo, é um travesso insuportável em casa; ninguém o pode tolerar; já no ginásio muda completamente. No ano passado, todos os meses, os boletins trouxeram a nota de procedimento — ótima com louvor. O pequeno, que passara a ouvir tudo com o narizinho franzindo erguido para o ar, aproveitou a pausa do pai para protestar: — Não acredite nos boletins, papai! O Cerqueira é malcomportado e tem também ótima com louvor no fim do mês. O Martinho também; e se o senhor conhecesse o Martinho… — Menino! — censurou o pai, atalhando-o. Dario calou-se, mordendo o beicinho de despeito, e o doutor prosseguiu: — E o aproveitamento! O resultado colhido pelos alunos leva os pais de surpresa em surpresa. Basta dizer-lhes que este menino, que está apenas na idade em que os outros começam a ler, já me escreve cartas em francês quase correto.

— É extraordinário! — exclamou com sinceridade o fazendeiro de carão vermelho, incubando com olhos ternos as suas caipirinhas, na esperança de vê-las um dia fazerem o mesmo. Dario ergueu outra vez o narizinho franzido para protestar: — Decerto! O Sr. Bias dá norma… — Menino! — tornou o pai, severamente. Com o vexame dessa nova censura em público, o abelhudo fechou a cara, embezerrado, murmurando para si outras coisas contra o professor de francês. Os encômios do doutorzinho causaram sensação. Confirmava-se mais uma vez a justiça da fama que enchia Minas, até os rincões mais selváticos. Do seu auditório o mais atento era um negociante de sertões longínquos, com ar palerma, que vinha a Três Barras expressamente para ver o Navarro, de quem era admirador fanático, embora sem conhecê-lo pessoalmente. Aproveitando o pretexto de trazer para o ginásio o filho de um compadre, só de cavalo andara oitenta léguas, distância que lhe parecia curta, comparada com a grandeza do seu objetivo. Em dias remotos empreendera igual romagem, para ver o Rui Barbosa. Os velhos continuavam a ouvir, silenciosos; mas, de cansados, o passo aos poucos afrouxava-lhes; e iam-se ficando para trás, enquanto o vozear dos viajantes se distanciava à frente. Antes de se perderem além, ocultos pelas cercas dos primeiros pomares da vila, Flávia deu ainda um olhar de interesse para as duas filhas do fazendeiro, de vestuários iguais, saias de chita azul, blusas brancas com estrelas cor-de-rosa, cintos amarelos, um laço de fita na trança de uma, outro laço igual na trança da outra… E ambas não ousavam tirar as caras inexpressivas e como talhadas em madeira, das botinas semelhantemente amarelas. O marido fez um gesto amplo, mostrando-lhe o casario da vila, afundado entre os arvoredos das hortas, que se espraiava no lançante de um outeiro. — É bem maior que o Douradinho, Flávia…

— É… — disse ela — e a igreja é muito mais bonita — e apontou para a fachada vetusta, ladeada de duas pesadas torres, que se erguia a meio da vertente. A esta comparação lembrou-lhes a modesta capelinha meio derruída de velhice, e mais conchego que templo, onde tantos anos — tantos! — não perderam uma missa aos domingos. Asiu-os então a mesma saudade do lugarejo que deixaram quatro dias antes, entre os prantos dos velhos conhecidos. Durante quarenta e cinco anos vegetaram ali a vidinha de professores da roça, num velho casarão herdado, por onde passaram muitas gerações de crianças. Isso durava desde a época do seu casamento — aliás um tanto excêntrico, e que o marido com ar magano gostava de trazer à memória da velhota, que se fazia de esquecida. E durante sua vida, a escassa meia dúzia de crianças, que se sentavam nos longos bancos negros de uso, substituía para eles os filhos que lhes faltavam. Lembrava-lhes o salão de aulas espaçoso e sombrio, onde o estralar dos chinelos lépidos de Flávia punha ecos claustrais; tinha três vidraças para o largo, vidraças de descer, e todas em estilhaços; se fazia tempestade e vinha a chuva de viés, era preciso cerrar as folhas da janela, para não alagar o assoalho; e então, na penumbra acolhedora e que fortalecia contra o ribombo dos raios e o vasto fustigar das cordas d’água, as vozes das crianças, cantando alto a lição, davam a nota de um rito litúrgico entoado em família e na paz, contra o esbravejar dos elementos lá fora. No lar, era Flávia a cabeça dirigente, a cuja autoridade, branda e maternal, João se submetia com prazer. Ela a mais sábia, quem tomava sobre si a tarefa mais difícil, ao passo que João se limitava ao bê-á-bá e à geografia. E na geografia, que concepção original não fazia das coisas do mundo! Tinha a certeza de que, se subisse a um ponto muito alto, enxergaria a Terra toda, como num planisfério; e ensinava aos meninos que o mundo era, em vez de laranja, uma espécie de rodeira de carro: no meio, as cinco partes; em roda o mar; em cima, o firmamento com as estrelas; mais para cima ainda — o céu e Deus. Depois de tantos anos dessa vida igual e suave, malgrado a estreiteza de recursos, Flávia começou a sentir certos quebrantos de

velhice, que a faziam recear pelo futuro; pela sua parte João sofria crises amiudadas de antiga moléstia cardíaca. Consultavam-se ambos com o capitão Sousa, vereador do Machadinho que às vezes aparecia por lá como louvado, e que também tinha ciências de carimbamba. Depois do uso de garrafas improfícuas, o Sousa aconselhou-lhes mudança de ares; tendo vários parentes com filhos em Três Barras, prontificou-se a colocá-los com o Navarro. De feito, poucos meses depois escrevia-lhes avisando que havia na Escola Normal um lugar reservado à Flávia. Como fosse conhecida a grande bondade do diretor, a quem todo o mundo se referia com gabos, a velha aceitou incontinente, pensando apenas na moléstia do marido. À simples ideia de mudar, este sofreu muito; apegado aos hábitos de uma vida inteira, custava-lhe quebrá-los assim de repente; mas, como era obediente à mulher em quem achava mais juízo, obedeceu. Passaram então a vender tudo o que possuíam, reservando-se apenas a casa, para a qual não acharam de pronto comprador. Muito galhofou o velho João por ter sido a companheira chamada para regente ou professora de primeiras letras o que ficara indeterminado. Ela, que sabia tanta coisa, ocupar um cargo tão humilde? Não podia tomar isso a sério, e intimamente ria-se da surpresa que ia fazer ao diretor, com seus grandes conhecimentos. Em pouco tempo se tornaria talvez uma espécie de diretora da Escola Normal. Por sua parte, acariciava a ideia de arranjar uma hora para lecionar geografia; e, quando Flávia fosse removida para lugar mais eminente, a ele tocaria inevitavelmente substituí-la no bê-á-bá. E o desejo de ver Flávia deslumbrar, acabou por compô-lo com a mudança. Agora, à chegada, não os agitavam mais as esperanças com que se partiram. Estavam muito abalados daqueles quatro dias de viagem, e, sem que pudessem explicar por quê, sentiam um vago mal-estar. Talvez o cansaço, a convivência com estranhos, a impressão de que o mundo era maior do que supunham, ou a majestade crescente com que às novas referências aos colégios se lhes antolhava o diretor. Por isso, as recordações acudiam-lhes dolorosas, obsidentes. Como

passavam nesse momento a ponte sobre um ribeirão que assinala o começo do povoado, acudiu-lhes à lembrança o córrego do Lava-Pé, de águas claras e rolando sobre seixos finos, à entrada do Douradinho. Era ali que nos dias de festa os agregados dos roceiros desencodeavam os pés da lama das estradas, para meterem botinas rinchantes; e onde as pretas abaixavam as saias novas, que durante as léguas andadas, para resguardá-las, haviam trazido arrepanhadas até os joelhos. Tornariam um dia a rever o Lava-Pé? E entre homens e coisas estranhas, sentiam a angústia dos exilados. Todavia, houve um momento em que, exumando recordações que lhe eram caras, João sorriu. E, já de humor alegre, apoiou a mão nas costas magras da mulher. — Sabe do que me estou lembrando? — Cale a boca, já aí vem com bobagem! — respondeu a velhota, fingindo amuo. — Do dia em que furtei você para nos casarmos — tornou João, rindo-se brejeiro. — Você tem a mania de falar nisso! Não sei de mais nada, já me esqueci… — Você tinha quinze anos e eu vinte… — Cale a boca, João! João calou-se, mas ambos sorriram-se com enternecimento. Era tão bom recordar os tempos da mocidade! E com essa volta do bom humor puseram-se a fazer castelos, escolhendo já com os olhos uma casinha caiada e alegre para sua vivenda. Pensaram no futuro, calculando o tempo que levariam para formar um peculiozinho, se Deus lhes desse mais uns anos de vida, haveriam de voltar para o Douradinho e aí acabar os dias no sossego. Podiam continuar a ter alunos, um ou outro menino pobre para lhes dar alguma ocupação e divertimento. Porque pelo fato de ficarem ricos não iam viver só para mostrar roupas novas e passar os dias na vadiação, com criadagem em casa… A essa ideia de roupa nova e criadagem os dois riram como duas crianças. — Aqui vou ficar moço outra vez, Flávia; creio até que já estou remoçando… Olhe minha barba…

E riam, riam. Depois ficaram constrangidos e sérios, porque já passavam em ruas de mais casas, onde havia pelas janelas rostos desconhecidos que, curiosos, os fitavam. Como eram bem-educados, iam cumprimentando a todos — a velha com uma inclinação de cabeça, o velho soerguendo o chapéu com a mão direita, que na outra levava a trouxinha da bagagem. Guiados pelos carregadores de malas, abocaram por fim no largo; perto da matriz perderam-nos de vista; então desnortearam-se e procuraram com o olhar quem os informasse. Foram felizes, porque nesse momento um indivíduo fechava a porta da sacristia, saindo ao adro. Era um preto baixote e velhíssimo, de aspecto de um gorila encanecido que se mantivesse em equilíbrio sobre os membros traseiros; da extremidade do braço excessivamente longo pendia um molho de grandes chaves. — O senhor é o sacristão? — perguntou Flávia. Curvando-se com gravidade, o preto confirmou que sim. E, à pergunta sobre o caminho da Escola Normal, deu-lhes o roteiro com toda a seriedade, e escrupulosamente, como quem se desempenha de um encargo de responsabilidade. Tomassem à esquerda, seguissem em continuação a estrada que fraldejava em curva a encosta do morro. — Muito agradecida! E os velhos prosseguiram na peregrinação. Andaram mais uma longa rua de casas espaçadas, que ia dar no fim do povoado. Aí encurvava-se sobre o caminho um portão vistoso, à guisa de arco de triunfo, pintado de fresco, do qual, em letras de um metro, saltava o dístico “Deus, Pátria e Família”. Empurraram a grade e passaram. Agora, para cima e para baixo, eram só campos agricultados. Já estavam em dependências do colégio. E iam andando, entre barranca à direita, e uma sebe de trepadeiras do lado oposto. Pouco além viram à beira do caminho uma pequena farda; reconheceram o Dario, filho do doutorzinho de nasóculos que tanto exaltava o Navarro. O pirralho fumava um cigarro de

papel, cuspilhando a cada instante. À aproximação dos velhos encarou-os com sobranceria, expedindo pelo nariz um jato bífido de fumaça. João, que gostava de crianças travessas, pôs a mão no ombro dele. — Está fumando escondido, sô maganão? O pequeno engalispou-se: — Escondido, não! Fumo onde quero, até perto do papai. — Mas seu pai não bate em você? — indagou a velha. — Bate, mas que me importa! Pois ele também não fuma? O diretor não fuma? E os professores? Sou capaz até de fumar na aula, como o carcamano. — Que carcamano? — perguntou João. — Pois o lente de inglês! — respondeu Dario, admirado por haver alguém que não o conhecesse. — O Cavagnari! E acrescentou, enjoado: — Um homem que vive bêbado e não toma banho. A barriga dele é isto. E o menino empinou o umbigo, figurando com as mãos um enorme abdome. — Por que é que você está aí, sozinho? — perguntou Flávia. — Estou esperando o papai. Na Escola Normal não pode ir nenhum menino, para não namorar as meninas — acrescentou Dario com convicção. E, cansado de responder a tantas perguntas, soprou no nariz de João uma espessa baforada, e voltou-lhe as costas. Os velhos riram-se. Flávia apressou o marido para reencetarem o caminho, pois sentia fome, e não deviam fazer-se esperar para o almoço. João despediu-se do pequeno com um puxão de orelhas. — Alto lá! Não admito essas intimidades! — protestou Dario, cerrando as sobrancelhas e desembainhando o espadim boto, no receio de segunda investida. Os velhos, muito divertidos, afastaram-se; longe, porém, ouviram a voz fina do menino:

— Ó careca! João atendeu-o. — Que é? — Lembranças à Glorinha — gritou Dario. — Que Glorinha? — A minha namorada. Dito isto, voltou-lhe de novo as costas, arremetendo furiosamente contra enorme abóbora pendurada do barranco.

Falange Gloriosa

Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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