Universo da obra
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Enquanto Sino-Verde acreditava ter encontrado alguns minutos de paz, o caçador caminhava sem qualquer pressa rumo a saída da caverna. O perfume da fada continuava impregnado nas pedras, guiando seus passos com a mesma precisão de uma trilha invisível.
Quando se preparava para deixar a caverna, um gemido baixo rompeu o silêncio. Quebra-Ossos voltou-se imediatamente para a escuridão, levando a mão ao cabo da adaga. O som repetiu-se uma única vez, tão distante que poderia ter vindo das profundezas da escuridão ou da imaginação de qualquer homem menos experiente.
Durante algum tempo, ele permaneceu imóvel, mas logo voltou a inspirar o ar. O perfume da fada era muito mais intenso do que aquele lamento. Sem demonstrar nenhum interesse pelo que se escondia na escuridão, retomou a perseguição.
Mesmo para alguém acostumado a caçar monstros, a Cidade de Pedras parecia viva. O eco dos próprios passos nunca voltava da mesma direção, e as sombras projetadas pelas rochas mudavam de forma à medida que ele avançava, como se a montanha respirasse em segredo.
Foi então que um ruído rompeu o silêncio. Algo se movia entre uma moita de arbustos, poucos metros à frente. Quebra-Ossos aproximou-se em silêncio, mantendo a adaga firme junto ao corpo, preparado para golpear ao menor sinal de ameaça. Quando afastou os galhos, encontrou apenas um garoto.
O menino segurava um estilingue de madeira, idêntico ao que o caçador carregara durante a infância. Por um breve momento, Quebra-Ossos permaneceu imóvel.
— O que pensa que está fazendo sozinho num lugar como este, moleque?
A criança não respondeu de imediato. Tinha os lábios ressecados, as roupas cobertas de poeira e o olhar perdido de quem caminhava havia muito tempo sem encontrar ninguém.
Ele continuou encarando o garoto. Havia algo naqueles olhos cansados, na maneira como apertava o estilingue contra o peito e no medo silencioso que carregava consigo que despertava lembranças que ele acreditava ter enterrado havia muitos anos.
— A fada comeu sua língua, moleque? — perguntou em tom de deboche.
O menino abaixou a cabeça. Seus dedos apertaram o estilingue com tanta força que ficaram brancos.
— Eu… — murmurou, tentando conter o choro. — Quero a minha mãe.
As palavras atingiram Quebra-Ossos como uma lâmina invisível. O cheiro da fada desapareceu de sua mente, substituído por uma lembrança antiga que jamais conseguira apagar. Havia muitos anos, ele também caminhara sozinho por uma floresta, chamando por uma mãe que nunca mais responderia.
Os boatos diziam que os elfos responsáveis por sua criação haviam assassinado aquela mulher e o mantido vivo para servir a propósitos que jamais ousavam revelar. Verdade ou mentira, ninguém soube dizer ao certo.
O que todos conheciam era o desfecho daquela história: antes de atingir a idade adulta, o garoto regressou à aldeia élfica e nenhum de seus habitantes voltou a ser visto. Foi naquela noite que nasceu o nome que as criaturas mágicas aprenderam a temer.
De repente, o perfume da fada tornou-se intenso outra vez. Quebra-Ossos ergueu a cabeça e inspirou profundamente, deixando que o aroma o conduzisse. Quando voltou os olhos para o lugar onde o garoto estivera, encontrou apenas o estilingue caído entre as folhas.
Permaneceu imóvel por um instante. Depois virou as costas. Havia aprendido, muitos anos antes, que algumas perguntas jamais encontrariam resposta. Aquele perfume, porém, prometia uma recompensa muito mais concreta.
O rastro conduziu-o até uma enorme bromélia que brotava entre as pedras úmidas. Sobre uma de suas folhas repousava outra fada.
Diferente de Sino-Verde, possuía cabelos curtos e negros, tão brilhantes quanto o vestido escuro formado por pequenas pétalas que envolviam seu corpo. Ela permanecia distraída, sem perceber a sombra que lentamente se aproximava.
Quebra-Ossos estendeu as mãos com a calma de quem já repetira aquele gesto incontáveis vezes e, antes que a pequena criatura pudesse reagir, fechou os dedos ao seu redor.
A fada debateu-se entre seus dedos, batendo as asas em desespero. Ele, porém, apenas sorriu. Sem sequer fitar a pequena prisioneira, colocou-a em um antigo cantil de couro preso à cintura e retomou a caminhada. O perfume de Sino-Verde continuava impregnado no ar, muito mais intenso do que qualquer outro rastro.
Na misteriosa Cidade de Pedras, um lugar onde a natureza parece esconder segredos antigos e criaturas mágicas vivem longe dos olhos humanos, um lendário caçador conhecido como Quebra-Ossos segue o rastro de um perfume que jamais encontrou em toda a sua vida. Movido pela obsessão de capturar uma criatura única, ele mergulha em um labirinto de cavernas, florestas e ruínas onde cada passo revela que nem todos os monstros são aqueles das lendas. Enquanto a perseguição se intensifica, antigos inimigos, estranhas criaturas e mistérios enterrados começam a surgir, transformando a caçada em uma jornada muito mais perigosa do que ele poderia imaginar. Misturando fantasia sombria, suspense e horror, Como em um Conto de Fadas apresenta um mundo onde a beleza e o terror caminham lado a lado, e onde sobreviver pode depender da capacidade de enxergar além das aparências.
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