Universo da obra
Universo da obra
Havia muito tempo que o caçador já não encontrava uma criatura capaz de despertar seu interesse. Lobisomens, ogros, bruxas e serpentes aladas haviam se tornado presas comuns, abatidas com a mesma facilidade com que se colhe uma fruta madura.
Seu nome era conhecido entre as criaturas mágicas como Quebra-Ossos. Segundo os boatos, ele havia abatido o Pé Grande que aterrorizava uma comunidade na Amazônia; afogado uma sereia no próprio lago, depois que ela encantou e matou várias crianças; e arrancado os chifres do último unicórnio selvagem, alguns diziam que o animal devorava o gado do sertão e outros juravam que seu único crime era existir.
Uma coisa era certa, quando a silhueta do caçador surgia entre as árvores, até os monstros aprendiam a fugir. Já os homens, sobretudo aqueles que odiavam seres não humanos, o idolatravam como uma lenda viva.
Certo dia, decidiu aventurar-se por um dos lugares mais curiosos e perigosos do mundo: a Cidade de Pedras. Poucas criaturas ousavam cruzar aquele labirinto de rochas, mas velhos viajantes juravam que, em seu coração, floresciam as raríssimas rosas-jardineiras, cujas pétalas serviam de abrigo para as fadas.
Vista do alto, a Cidade de Pedras parecia uma metrópole inteiramente esculpida em rocha, com torres, ruas e muralhas monumentais. Ao caminhar por entre suas formações, porém, a ilusão desaparecia, revelando apenas um emaranhado de blocos colossais empilhados pela própria natureza.
Logo que cruzou a entrada da Cidade de Pedras, algo o fez parar. Um perfume adocicado tomou-lhe as narinas. Inspirou profundamente e, pela primeira vez em muitos anos, sorriu.
Havia encontrado um rastro.
Quebra-Ossos possuía um faro que nenhum outro caçador conseguia igualar. Com um único sopro de vento, ele conseguia reconhecer uma criatura e seguir seus rastros por quilômetros.
Mas aquele rastro desafiava seus sentidos, já que o perfume se espalhava pelo ar, impregnava as folhas, escorria entre as pedras. Era algo único, tanto que nem mesmo o caçador havia sentido algo semelhante.
Entre passos firmes, Quebra-Ossos percebia o aroma ficar cada vez mais intenso. No entanto, sempre que acreditava ter chegado à origem do perfume, não encontrava nada.
À medida que se aproximava de uma caverna, o cheiro de pedra molhada envolveu seus sentidos. Sobressaindo-se a ele, um perfume doce e irresistível escapava da escuridão.
Sem hesitar, entrou. A adaga deixou a bainha num movimento silencioso. Seus olhos vasculharam cada sombra, enquanto seus ouvidos aguardavam o menor ruído. Qualquer criatura escondida ali teria apenas uma chance de escapar.
A luz do lado de fora desapareceu poucos metros adiante. Restaram apenas o som ritmado das gotas d'água e o eco de seus próprios passos. Ainda assim, o perfume persistia, cada vez mais intenso, como se o conduzisse para as profundezas.
Após alguns metros, encontrou uma rocha coberta de musgo. Ajoelhou-se e deslizou os dedos sobre sua superfície úmida. Um fino pó esverdeado desprendeu-se do musgo e aderiu à sua pele, brilhando por um breve instante antes de desaparecer.
Quebra-Ossos levou os dedos ao nariz e sentiu o mesmo aroma. Num rompante abriu um sorriso assustador.
Uma risada suave percorreu a caverna e desapareceu antes que ele pudesse identificar sua origem. Não era o riso debochado de uma bruxa, nem o chamado de qualquer criatura que já houvesse caçado; havia nele uma estranha delicadeza que tornava aquele silêncio ainda mais inquietante. Sem desviar os olhos da escuridão, o caçador firmou a adaga na mão e prosseguiu, certo de que alguém o observava.
Quanto mais avançava, mais o perfume se espalhava pelas paredes. Pequenas flores brotavam entre as fendas das rochas, como se a própria pedra tivesse aprendido a florescer. Algumas pétalas ainda balançavam, embora não houvesse vento algum.
Então o caçador parou e arregalou os olhos diante do que via. Poucos metros à frente, repousando sobre a pétala de uma rosa-jardineira, estava uma diminuta criatura de pele alva e completamente nua. Os longos cabelos dourados, tão luminosos que pareciam aprisionar a própria luz, desciam sobre o corpo delicado, ocultando apenas parte dos seios. Suas asas translúcidas cintilavam em tons de verde, enquanto ela permanecia adormecida, alheia à presença do caçador.
Aproximando-se lentamente, ouviu uma voz tão doce quanto o perfume que a envolvia:
— Meu caro homem, por que empunhas essa arma?
Entre todas as criaturas que já encontrara, Quebra-Ossos reconhecia apenas quatro como racionais: as bruxas, os elfos, as sereias e os guarás. A capacidade de falar, pensar e viver em sociedade não lhe despertava admiração; para ele, era apenas mais uma deformidade da natureza.
— Você… também fala?
— Claro que sim. Todos nós! — respondeu a minúscula criatura, abrindo um sorriso.
Ele não desviou os olhos dela. Pela primeira vez em muitos anos, uma criatura mágica havia despertado nele um interesse que ultrapassava o simples prazer da caça.
A fada levantou-se e, à medida que seus longos cabelos dourados se moviam ao vento, delicadas folhas e pétalas entrelaçaram-se sobre seu corpo, formando um singelo vestido. Sem demonstrar o menor receio, ela voou até o caçador e fez uma pequena reverência.
— Meu nome é Sino-Verde, fada da natureza. Minha missão é levar alimento ao meu povo. E qual é o seu nome, meu caro homem? — perguntou, aproximando-se dele enquanto um fino pó cintilante escapava de suas asas e dançava diante de seus olhos.
Quebra-Ossos balançou a cabeça bruscamente, afastando Sino-Verde de perto de seu rosto.
— Não lhe interessa, criatura nojenta!
O grito ecoou pela caverna. Assustada, a pequena fada recuou num sobressalto, batendo as asas com tanta rapidez que uma nuvem de pó cintilante se espalhou pelo ar. Pela primeira vez, o sorriso delicado desapareceu de seu rosto.
Sino-Verde permaneceu imóvel, incapaz de compreender a reação daquele homem. Nenhuma criatura que encontrara até então havia demonstrado tamanho desprezo por sua presença e, por um instante, acreditou estar diante de alguém consumido apenas pelo medo. Ainda assim, o modo como ele a observava fazia seu pequeno coração bater mais depressa.
Sem dizer outra palavra, Quebra-Ossos abaixou-se e voltou a tocar a pétala onde a fada estivera. Levou os dedos ao nariz, inspirando profundamente o perfume que ainda permanecia sobre a flor. Em seguida, passou a língua sobre a ponta dos dedos, fechou os olhos e sorriu, como se tentasse decifrar um sabor que jamais experimentara.
— Durante anos procurei por você sem saber o que era. — Seus olhos percorreram o pequeno corpo de Sino-Verde. — Hoje, finalmente, vou descobrir qual é o gosto de uma fada.
A fada não esperou nem um segundo. Assim que compreendeu as intenções do caçador, bateu as asas e disparou pelo labirinto da caverna. A fuga apenas despertou ainda mais o instinto de Quebra-Ossos, que abriu um discreto sorriso antes de segui-la sem a menor pressa.
O brilho esverdeado que Sino-Verde espalhava pelo caminho impregnava as paredes úmidas da caverna, formando um rastro invisível para qualquer outra criatura.
Para o caçador, porém, bastava uma única inspiração para descobrir qual passagem seguir, qual túnel ignorar e em que direção sua presa havia voado.
Em um impulso desesperado, Sino-Verde atravessou uma estreita fenda entre as rochas, tão pequena que nenhum homem poderia segui-la. Do outro lado, encontrou uma galeria iluminada por cristais e permaneceu imóvel, prendendo a respiração enquanto ouvia apenas o gotejar da água.
O silêncio persistiu.
Enquanto a fada acreditava ter despistado o caçador, Quebra-Ossos permaneceu imóvel diante da estreita abertura. Seus olhos não demonstravam frustração, apenas uma paciência inquietante. Inspirou profundamente o ar que escapava pela fenda e um discreto sorriso surgiu em seu rosto.
O perfume da fada ainda se infiltrava pelas pedras, suave, mas impossível de confundir. A estreita passagem não representava um obstáculo. Bastava contornar as rochas e continuar seguindo o rastro que a própria fuga espalhava pelo caminho.
Na misteriosa Cidade de Pedras, um lugar onde a natureza parece esconder segredos antigos e criaturas mágicas vivem longe dos olhos humanos, um lendário caçador conhecido como Quebra-Ossos segue o rastro de um perfume que jamais encontrou em toda a sua vida. Movido pela obsessão de capturar uma criatura única, ele mergulha em um labirinto de cavernas, florestas e ruínas onde cada passo revela que nem todos os monstros são aqueles das lendas. Enquanto a perseguição se intensifica, antigos inimigos, estranhas criaturas e mistérios enterrados começam a surgir, transformando a caçada em uma jornada muito mais perigosa do que ele poderia imaginar. Misturando fantasia sombria, suspense e horror, Como em um Conto de Fadas apresenta um mundo onde a beleza e o terror caminham lado a lado, e onde sobreviver pode depender da capacidade de enxergar além das aparências.
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