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Entre as Nymphéas

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Entre as Nymphéas

Capítulo 6 · Entre as Nymphéas

O cemitério da floresta

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Hontem pela tarde o meu espirito confrangeu-se inteiro perante inesperado espectaculo, cuja reminiscencia me faz pensar ainda e arrasta-me tremula a mão, na tarefa de consignal-o no papel.

Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração sentiu n'aquelle instante d'íntimas reflexões maguadas.

Cortada em rapido declive sobre a beira da agua, em meio à floresta densa, abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa clareira era um cemiterio, um pequeno campo santo solitario e melancholico,--simpatico todavia,--salpicado de cruzes toscas e negras!

A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o oiro refulgente do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas. Ninguém parecia atentar n'esse triste sitio de repouso, sobre o qual a tripudiante passarada das mattas volitava cheia de inconsciencia, garridamente estrepitosa e jovial.

Alargava-se o rio ali defronte, muito socegado, todo brunido das reflexões solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata fundida.

E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemiterio e ao fundo, fechando o horisonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia entoar a langorosa monotonia de uma surdina risonha do prazer, sacudida em amplas vibrações de volupia.

Entretanto, o meu espirito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza empolgou-o forte e minha alma deslisou para as mudas divagações dos sonhos acordados, das reflexões abstractas em que os olhos voltam a força objectiva para o interior e, eliminando o seu poder observador do mundo externo, nada comprehendem do que vem, porque só o cerebro trabalha dentro da materia e o seu meio de acção anniquila-se perante o vigor do espirito.

De quem aquelles despojos materiaes ali inhumados, longe dos centros de povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos à vaidade dos homens, entregues à terra com toda a simpleza das grandes devoluções pungentes, restituidos à obscuridade do nada para sempre, para sempre furtados à ultima recordação marmorea que lhes lembrasse o nome na derradeira falsidade dos epitaphios campanudos?

Quantos heróes ignorados se não ocultariam n'aquelle recinto, sob a leve camada de terra ás pressas lançada pelos vivos por cima de seus cadaveres meio decompostos?

Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pezar, com o recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas cidades, onde até a inhumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido infiel, respirando emfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe o alvedrio, não viria ali mais uma vez insultar com uma dôr não sentida a lamentavel memoria da doce esposa traída, nem a joven viuva leviana, já com o espirito ocupado por amorosos pensares--adulterio posthumo!--apareceria a ostentar o fingimento de uma paixão que não possuia e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piégas ao primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte ironica.

Ali, sim, ao homem honesto e severo, à mulher virtuosa e amante, à innocente creancinha levada ao descanso perennal após breve aparição na terra, grato, gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar alfim, descuidosos na eterna immobilidade dissolvente da ultima pacificação,--separados de toda a fantasia ephêmera e das convenções banaes da fallaciosa hypocrisia social.

Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um marmore a reproduzir o nome de um sêr cuja existencia o tempo consumiu,--candeia extincta, apagado fanal do pelago da vida? Recordar o nome de um morto, perpetual-o petreamente, é ainda uma fórma de insulto, é uma violação que põe o finado na emergencia de se lembrarem dele os maus, os pérfidos, aquelles que não o comprehenderam em vida e que mais uma vez negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu espirito.

Estaes bem ahi, desconhecidos heróes do labutar quotidiano, ó martyres das privações no meio dessa esplendida orgia de verduras amazonicas! Tão bem vos acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemiterio escalvado na rapida ribanceira.

A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes à terra na modesta elaboração de um acto naturalíssimo e a vida que fermenta entre as raizes d'essas bellas e grandes arvores viridantes vae buscar nos vossos cadaveres aquillo que lhe podeis dar:--a cada minuto um átomo de seiva, tirado à tépida fermentação da vosa carne, outr'ora palpitante, porém banal, agora repousada, mas operadora do beneficio que a lei natural do transformismo obriga-vos a prestar-lhe.

Apraz-me sentir que o meu espirito se consolaria quando, após à extincção da minha vida, algum ente querido, depois do ultimo beijo, enterrasse-me o corpo em vossa companhia, ó eternos moradores do cemiterio da selva! Julgar-me-ia feliz, com a satisfação e o orgulho deste ultimo capricho realisado.

Teria, como vós, o supremo requiem dos trillos dos passaros, do farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes n'estas longinquas regiões do Madeira e dos murmurosos beijos do gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre, ora envolto no denso velludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas amplas disseminações de prata fundida que o sol por cima dele parece lançar ás vezes, quando o ceu, sempre misericordioso, não verte sobre vós, lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos prantos pluviaes.

Salvè, desconhecidos martyres da familia amazonica, eternos habitadores do cemiterio da floresta!

Rio Madeira, abril.

Entre as Nymphéas

Sinopse

Leia gratuitamente Entre as Nymphéas, de João Marques de Carvalho, clássico brasileiro em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza os textos amazônicos de Subjectivismo e Objectivismo em 12 seções para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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