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A Neta do Arcediago

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A Neta do Arcediago

Capítulo 1 · A Neta do Arcediago

Um berço borrifado de sangue

Convém, primeiro, saber quem é este cavalheiro, que salta garbosamente de uma carruagem com uma dama vestida de branco, defronte do teatro de S. Carlos, em Lisboa, em uma noite de fevereiro de 1838.

Por não apurar impaciências, diga-se tudo já. Este cavalheiro é Luiz da Cunha e Faro. Aquela dama é... Nem tanta bondade! Não se pode dizer, por ora, quem é a dama. Se o leitor é esperto, como suponho, há de adivinhá-la logo, e, de certo, fica muito contente da sua penetração.

Luiz da Cunha e Faro tem vinte e cinco anos. É um homem feio, segundo a opinião masculina, que se acha em harmonia com a sua. Não era esta, porém, a opinião das mulheres. Algumas que por capricho, em público, o desdenhavam como feio, desmentiam-se em particular... Não digo que fossem todas; mas também não é preciso o sufrágio de todas para a reputação de um homem feio.

A que chamam v. ex.as feio? Feio é o demônio, dizia minha avó. São e escorreito é o essencial—dizem as velhas, quando as ilusões da formosura não tem nada a fazer com elas, nem, por isso mesmo, elas têm direito a optar entre o feio e o bonito.

Luiz da Cunha era trigueiro; tinha a pele bronzeada da cara pegada aos ossos, que lhe saiam, principalmente os malares, em proeminências cadavéricas. Os bordos das orbitas muito salientes contribuíam muito para que o brilho dos olhos negros e grandes luzisse mais na escuridade das cavernas, debruadas sempre de um anel bastante escuro para destacar da cor geral de azeitona. O nariz era notável pela ausência total do cavalete. A boca não se lhe via, coberta pelo bigode espesso, que se não encaracolava nas guias, e caía em luzentes recurvas sobre ambos os lábios. Ora aqui está o que é um homem feio.

Perguntava muita gente a razão fisiológica da cor africana de Luiz, tão diversa da alvura inglesa de seu pai João da Cunha e Faro, que, por esse tempo, contava quarenta e cinco anos, e passava ainda por um dos belos homens de Lisboa.

Pouca gente respondia fisiologicamente a tal reparo, porque muito pouca sabia que Luiz da Cunha era filho de uma mulata.

Agora é que ninguém poderá alegar ignorância. Eu tenho a honra de responder à curiosidade, que foi longo tempo a mortificação de pessoas muito sisudas.

Sabia-se geralmente que o nascimento de Luiz fora uma das multiplicadas aventuras amorosas do fidalgo, seu pai; mas a outra metade produtora, o complemento da machina, em que o misterioso artefacto se fabricara, isso é que os amigos íntimos de João da Cunha e Faro ignoravam.

O leitor não perderia muito ignorando também. Ainda assim, se não quiserem passar ao capítulo segundo, também nada perdem, e ficam sabendo tanto como eu.

João da Cunha frequentara a universidade de Coimbra, quando era mania dos fidalgos deixarem medrar seus filhos na seva opulenta de uma fidalga estupidez. Em quanto seu irmão mais velho estudava veterinária para se não deixar enganar em compras de cavalos, João da Cunha estudava matemáticas para se distinguir na carreira militar.

Cursava o segundo ano, com admirável aproveitamento, quando chegou a Coimbra um moço brasileiro, filho de português, casado com uma mulata, filha de um rico fazendeiro de café, e fabulosamente rica, segundo era fama.

A intenção do brasileiro era formar-se em naturais para cientificamente explorar os vastos terrenos do México, onde seu sogro desenterrara o mais grosso do seu cabedal.

E, com efeito, matriculou-se, ao mesmo tempo que sua mulher, desejosa de cultivar o espírito, recebia em casa lições de francês, e inglês.

Ricarda chamava-se ela. Não lhes quero dizer que era bonita, porque receio que zombem da minha franca ingenuidade; porém, não chegue este capítulo ao fim, converta-se-me esta pena em sovela, se eu não gostasse da senhora D. Ricarda, e a não amasse com o delírio de João da Cunha.

Pois ele ousou?... Ousou... Misérias inerentes ao pecado original! O primeiro homem caiu, e bem forte devia ser esse primeiro homem, saído das mãos do Criador, com toda a substância e rigidez de uma obra perfeita, com todas as harmonias e segredos para desmanchar o sortilégio da tentação!... Como não cairia o acadêmico, degenerado pelas fraquezas de tantas gerações que vieram até ele, desde o Éden?

Que tinha, pois, Ricarda de sedutora?

O que ela tinha! Sabem o que é ter um coração de lume, lume que não se esconde, em quanto há olhos que o dardejem em lavaredas elétricas? Sabem o que é o nervo óptico, ferido desse galvanismo da alma, que se lhe coa nas fibras, que se comunica aos músculos, que se injeta na pupila vertiginosa, que se lança fora do corpo em cintilas contagiosas, até vos pegar uma febre, que se não cura com a quina? Sabem o que é a voluptuosidade da mulher dos trópicos? Não creem que o sol, a prumo, se infiltra nela, e a queima desde os quatorze anos, com uma sede insaciável de gozos ternos, mórbidos, e elanguescidos como a requebrada cantilena de uma carioca?

Ricarda, além de tudo isto, tinha coisas de encantar. Dizia uma coisa singela com tantos artifícios de graça, de meiguice, e de cansaço, que mais valiam as simples palavras dela, que os beijos mais suavemente chilreados de uma europeia. As pérolas, que tão lindo lhe faziam o sorriso brando, raro se mostravam, porque, se os olhos diziam tudo, o sorriso não lhe vinha auxiliar os gestos. E a flexibilidade das formas? Que donaire, que gentileza, que perfeição de estudo, ou que naturalidade tão caprichosa em enriquecê-la!

Bem haja, pois, João da Cunha, que adorou a omnipotência do Criador, sem perguntar ao abade de Salamonde a gravidade da culpa, adorando a mulher do seu próximo, de mais a mais, seu contemporâneo. Bem haja, digo eu meio resolvido a rasgar este período, se o leitor, por uma sobrenatural revelação, me não diz que bem pode ser que o acadêmico não esteja condenado pela mesma razão que Magdalena foi salva. Amar muito! Sem esta virtude, Deus sabe se a ata das santas nos faria menção da dedicada galilea!...

Não quero inculcar a santidade de João da Cunha. Creio até que o homem nunca se lembrou destas honras póstumas, e a universidade, com quanto produza grandes doutores para a mitra, ainda não deu um para a igreja. O matemático era capaz de renunciar à canonização se lhe pedissem a troco o sacrifício de abjurar o amor, que o trazia tão longe da ciência, e tão avesso às obrigações acadêmicas, que, antes de Páscoa, tinha perdido o ano por faltas, e dissera incríveis disparates em duas lições, que o desacreditaram.

João da Cunha soubera insinuar-se na confiança do brasileiro. Era sua visita em véspera de feriado. Falava francês com Ricarda, e solvia, em matemática, as dificuldades que o obtuso marido não vencia.

Seria impertinencia alongar de sobejo este episódio, que não vem ao essencial da nossa história. O leitor, amigo da concisão, quer que eu lhe diga se aquela mulher de fogo se conservou incombustível, como o amianto, na presença do estudante. Não, senhores. Fosse pelo que fosse, a brasileira parece que não tinha ideias muito claras a respeito dos deveres conjugais. Seu marido, alucinado pela ciência, retirou-se cá de baixo para tão alto que não podia ver a terra onde sua mulher vacilava ao pé de um abismo. Acordou, uma manhã cismando num x, que o fizera adormecer às duas horas. Chamou sua mulher, que o costumava saudar em francês do quarto próximo. Desta vez não ouviu língua alguma das que se entendem no globo. Entrou no quarto para contemplá-la no sono feliz de quem não estuda matemática. Achou um leito vazio. Correu a casa toda, chamando-a, com sobresalto, que não era ainda o da certeza. Nem a criada encontrou! Volveu ao quarto de Ricarda. Reparou que sobre a comoda não estava um cofre de marfim. Era o adereço de Ricarda: os seus brilhantes que valiam uma fortuna; os mais ricos diamantes que deram as Minas Geraes; as melhores pedras do Novo-mundo, o valor de quatro dotes opulentos!

Desde esse dia, o brasileiro não tornou às aulas. Sabe-se que foi curado de uma congestão cerebral. Viram-no, dois meses depois, sair de Coimbra, sem estender a mão aos amigos, compadecidos do seu infortúnio. Passara por entre eles sem os ver. Reputaram-no doudo, e vingaram inutilmente a afronta que o enlouquecera, execrando o infame João da Cunha que lhe roubara sua mulher.

Mas, um dia, dez meses depois, passara o brasileiro na rua do Ouro, em Lisboa, e vira numa tabuleta de ourives um anel com uma esmeralda, cravejada entre doze brilhantes.

—Quanto pede por este anel?—perguntou ele.

—Dois contos de reis.

—Comprou as pedras separadas, ou o anel?

—Comprei o anel.

—Há muito tempo?

—Há dois meses.

—O vendedor era português?

—Creio que sim.

—Garantiu-lhe a legítima venda de que era seu? Creio que me não entende... Tem a certeza de que este anel não fosse um roubo?

—O cavalheiro que mo vendeu é um fidalgo.

—Conhece-o?

—Conheço, sim...

—Desculpe estas perguntas, porque eu quero comprar o anel, e não o faria sem a certeza de que amanhã me fizessem as perguntas que eu lhe fiz.

Pouco depois, o ourives recebia dois contos de reis por um anel que comprara por cinquenta moedas. Contente da veniaga, esquecera-se da reserva que lhe fora pedida, quando o comprou, a respeito do vendedor. A alegria fizera-o indiscreto e expansivo. Dois contos de reis era dinheiro para trinta Judas, e demais o ourives não sabia o valor do segredo.

—Visto que me comprou o anel, vou dizer-lhe quem mo vendeu; mas v. s.ª guarde segredo, não porque seja um furto; mas porque é um melindre. Este anel foi-me vendido por um dos primeiros fidalgos de Lisboa; mas o homem pediu o segredo do seu nome, para que o não julguem em más circunstâncias. A v. s.ª posso dizer-lhe o nome...

—De certo pode, mesmo porque eu estou em vésperas de embarcar para o Brazil, que é o meu país.

—Lá me pareceu logo que v. s.ª era brasileiro... Por cá não há quem dê assim dinheiro por uma obra de gosto... Pois, senhor, o ex-possuidor deste anel foi Antônio da Cunha e Faro, e quem aqui mo vendeu, com ordem sua, foi seu filho João.

—Penso que conheci em Coimbra esse cavalheiro—disse com mal fingida serenidade o marido de Ricarda.

—Pode ser, porque segundo ouvi dizer, o tal senhor João da Cunha estuda em Coimbra.

—Pensei que esse sujeito não estava em Lisboa.

—Há quinze dias de certo estava; se quer falar com ele para ir seguro do que lhe digo, ainda que eu lhe prometi de não dizer quem me vendeu o anel, pode v. s.ª procurá-lo em casa de seu pai no Campo Grande.

—Não duvido da sua palavra.

O brasileiro passou a noite desse dia encostado às árvores fronteiras do palacete de Antônio da Cunha. De madrugada vira entrar um embuçado, que se lhe afigurou João da Cunha. Ao escurecer desse dia viu sair o mesmo vulto suspeito, e seguiu-o. No Campo Pequeno viu-o entrar numa sege de praça, que desapareceu pela estrada transversal.

Na noite imediata, a pouca distância da sege, que esperava João da Cunha, estava um cavaleiro encoberto pelo muro da quinta do conde das Galveas. A sege partiu e o cavaleiro seguiu-a de longe, para que o tropel do cavalo se não tornasse suspeito.

A meia légua, na azinhaga de Campolide, parou a sege. João da Cunha entrou num largo portão, que se abriu no momento em que ele apeava. Caminhou por debaixo de uma extensa parreira, que formava uma fresca abobada de folhagem à entrada da casinha campestre, em que morava Ricarda.

O brasileiro de certo não viu a casinha, porque o portão fechara-se nas costas de João da Cunha. O boleeiro entrara com a sege numa cavalhariça a cinquenta passos distante do portão. O marido de Ricarda adquirira aquela imperturbável paciência, que vem depois dos frenesis da vingança. Quase um ano de meditação e estudo na desforra, que mais convinha à sua honra, era sobeja reflexão para não perder com uma imprudência a Vitória que, tão depressa, lhe deparara o acaso do anel.

Retrocedeu para Lisboa.

No dia seguinte passou, a pé, defronte do portão onde entrara João da Cunha. Estava fechado. Circuitou o baixo muro que marcava a pequena quinta. Trepou no lanço que lhe pareceu mais acessível. Não viu alguém. As janelas da casa, à hora do calor, estavam fechadas com persianas verdes interiormente corridas. Desceu para subir outra vez ao muro que fechava a quinta na parte mais remota da casa. Saltou dentro. Os cães de fila acorrentados ladraram; mas o aviso não inquietou ninguém.

O brasileiro embrenhou-se num caramanchão, enxugando o suor que lhe empastava a camisa. Permaneceu aí cinco horas.

Às nove ouviu o rodar da sege; ouviu ranger os gonzos do portão; ouviu abrir-se, mais perto, a porta e janelas como se até ali não vivesse ninguém naquela casa, cujo aspeto risonho bem poderia ser mentiroso.

Minutos depois ouviu passos distantes, que faziam rumorejar a folhagem. E estes passos eram cada vez mais próximos. Viu dois vultos. Eram já distintas as suas palavras:

—E quando partiremos, João?—perguntava Ricarda.

—Logo que eu te veja convalescida de modo que possamos viajar sem perigo.

—Pois eu não estou boa?

—Ainda não. Faz ainda amanhã um mês que sofreste muito... para fazeres completa a minha felicidade... Um filho teu, Ricarda!...—O brasileiro ouviu o ciciar tremulo de um beijo.

—Mas que podemos recear agora? Vamos embora de Portugal. Consegui que vá conosco a ama de leite do nosso Luizinho. Não nos falta nada... Olha, João, eu não posso assim viver tão fugida do mundo. Não temos necessidade disto. Se queres que eu assim viva, obrigas-me a crer que eu pratiquei um grande crime, pelo qual devo ser proscrita da vida.

—E não vivo eu também proscrito da sociedade, para viver contigo só?

—Não há comparação. De dia vives com os teus, de noite comigo. Eu queria que tu viesses aqui passar sozinho, com o coração cheio de saudades, as horas aborrecidas destes longos dias... Vive sempre ao pé de mim, João, e eu viverei contente em toda a parte.

—Pois partiremos, minha filha. Mas é necessário fugir, porque meu pai de certo me não deixa sair de Portugal. A morte de meu irmão morgado veio tolher o meu futuro. Meu pai quer entregar-me a administração da casa que me pertence, e eu, habituado a obedecer-lhe desde criança, acho-me preso de braços quando é preciso ser mau filho...

—Ser mau filho!...—atalhou Ricarda com ressentimento.—Antes ser mau com a pobre mulher que não sentiu os braços presos para ser má esposa... não é assim?

João da Cunha sentara-se no banco de pedra fronteiro ao caramanchão, em que o brasileiro retraía o halito para não perder uma palavra, em quanto a longa distância lhe não permitisse uma pontaria infalível de pistolas que lhe oscilavam nas mãos convulsas.

—Parece-me que estás cansado de mim...—continuou Ricarda, ofendida pelo silêncio de João à última pergunta, que lhe custara a ela uma dor de coração, um desgosto amargo do seu amor próprio.

—Cansado de ti... Não, Ricarda... O amor não se cansa assim. Não tenho tido, desde o primeiro dia em que me viste, uma pequena desigualdade contigo. Tudo o que te prometi foi pouco para o grande sacrifício que me fizeste; mas, se te não dou mais, é porque mais não pode dar o coração. Pudesses tu ser minha esposa... pudesse eu convencer-te...

—De que me amas? Não é assim que se convence uma mulher... O que eu quero é a tua alma... Não me lembrou nunca ser tua mulher, como se diz da que se dá por obrigação de casamento, para ser assim mais feliz... Não falemos nisto... Essa palavra esteve para ser a minha morte... não poderá nunca trazer-me felicidade. Ainda que eu hoje fosse viúva, não quereria ser tua mulher, João.

—Porque?!

—Porque me obrigarias um dia a ser criminosa, como fui...

—De que modo te obrigaria eu a seres criminosa?!

—Considerando-me apenas uma companheira de casa, a quem não é obrigação fazer carinhos, porque a mulher casada é uma posse sem disputa, é uma roseira que dá uma flor, e seca para nunca mais reverdecer... Eu sei que fui muito amada, muito estremecida por...

—Por teu marido...

—Sim... mas, dois meses... e, ao cabo de dois anos, esse homem dava-me a importância que se dá a um sócio de uma casa comercial, e dizia-me que não vira ainda as suas lições, quando eu me sentava ao seu lado com receio de ser grosseiramente desprezada com o seu silêncio. Todas as tuas qualidades pessoais me não fariam impressão nenhuma, João, se aquele homem me soubesse ao menos mentir.

—Foi preciso que ele te desprezasse para eu te possuir o coração.

—Foi... Pois tu crês que a mulher se degrada por prazer, sem que a violentem a isso?! Quem faz a mulher desgraçada e desprezível na sua desgraça é o homem. Tenho pensado muito no que fui para explicar o que sou...

—E, se ele te amasse hoje, Ricarda?

—Se me amasse hoje, desprezá-lo-ia, porque não poderia amar outro homem, depois que te conheço.

—E se eu te desprezasse?

—Se me desprezasses, morreria, matava-me.

—Não morrerás, minha filha...

João da Cunha abraçou-a com veemente transporte. Colou-lhe os lábios ardentes no colo de encantadora nudez, sorvendo-o em beijos deleitosos. Ela deixou-se inclinar para o seio dele, como desmaiada em ebriedade de ternos delíquios. Toda esmorecida e alquebrada, os próprios olhos, sempre fogo, pareciam apagar-se, para que a morbidez das pálpebras, pendendo amortecidas, dissessem ao sequioso amante que aqueles olhos se fechavam para não verem o passado, e deixavam ao coração, estreme de remorsos, o gozo das delícias do momento.

O marido de Ricarda deu um passo para distinguir os vultos entre as frondes da amoreira. O prazer devera tê-los aturdidos para não ouvirem esse passo, e dois que se seguiram. Aqueles braços não se desenlaçavam. O êxtase poderia ser apenas um êxtase de dois amantes que se perdem nas altas regiões do puro espírito; mas o brasileiro, na sua fantasia alucinada, imaginou um crime, que deveria deixar-lhe a ele um remorso eterno, se o não interrompesse com a morte.

Duas balas voaram de duas pistolas. Ouviu-se um grito. Ricarda levara a mão ao seio. João da Cunha correra atrás de um vulto que rompia a direito as murtas do caramanchão em precipitada fuga. Mas, já perto do assassino, sentiu uma dor agudíssima no ombro direito e esvaimentos de cabeça.

A este tempo, o brasileiro era preza de dois enormes cães, que o filaram no momento que ele lançava a mão a uma viga da parreira por onde descera. Os cães laceravam-no, saltando-lhe ao peito. O indefeso moço arremessara as pistolas inutilmente aos cães, que redobravam de furor.

Os criados de João da Cunha, ouvindo os tiros, correram na direção. Encontraram o cadáver de Ricarda, e alguns passos distante, seu amo que dizia em voz desfalecida: «matem esse assassino, que me matou.» Correram onde latiam os cães. Viram um homem encostado ao muro defendendo-se dos saltos deles com as pernas, que retiravam sempre cravejadas por uma nova dentada. Não seria preciso o braço doutro assassino, se a luta se demorasse entre as feras e o brasileiro quase morto de cansaço, e derramamento de sangue. A missão dos cães acabou quando principiou a dos homens. Duas choupadas no peito abriram mais larga fenda ao sangue. Mataram-no sem resistência.

Eu esbocei com repugnância este quadro. Será demasiada fidelidade dizer-vos que a sepultura do brasileiro foi os oito palmos de terra, onde caiu morto? Ainda bem que os cães o não devoraram a pedaços como um passatempo durante a noite. Ricarda foi enterrada no cemitério, de noite, de combinação com o pároco. Os criados conduziram à sege João da Cunha, que não quis retirar-se sem reconhecer o assassino.

Dizem que beijara as faces mortas de Ricarda, e derramara algumas lágrimas, que lhe fazem muita honra.

A sege que o conduziu, tornou a Campolide para transportar ao palacete do Campo-Grande um menino de um mês nos braços da ama.

João da Cunha beijando o neto que seu filho lhe entregava, na suposição de que o ferimento era mortal, dizia lá consigo:

—Parece filho de mulata! Bem me disseram a mim de Coimbra que meu filho fugira com uma!

João da Cunha foi curado em poucos dias. A bala quebrara-lhe a clavícula direita e saíra sem ferir algum vaso importante. O enfermo deixou-se tratar, e não consta que tentasse romper o aparelho para se escoar de sangue.

—Queria viver para o seu filho.—É como ele explicava o desejo da vida.

Isto passou-se em 1813; e o romance começa em 1838.

Já sabem que o filho de Ricarda é Luiz da Cunha e Faro, que apeou à porta do teatro de S. Carlos.

A Neta do Arcediago

Sinopse

Leia gratuitamente A Neta do Arcediago, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora e preservação dos 20 capítulos da obra.

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