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Capítulo 1 · Sermão sobre a Fugacidade do Mundo

Sermão sobre a Fugacidade do Mundo

Qatari ibn al-Fuja'a subiu ao púlpito dos azraquitas, que eram um dos ramos dos Banu Mazin ibn Amr ibn Tamim. Louvou a Deus, exaltou-O e então disse:

Depois disso, eu vos advirto contra o mundo, pois ele é doce e verdejante, cercado de desejos, sedutor pelo pouco, afeiçoado ao que é imediato, inundado de esperanças, adornado de fantasias e embelezado pelo engano. Seu verdor não dura, e sua desgraça nunca é segura. É traiçoeiro e nocivo, mutável e fugidio, esgotável e perecível. Quando chega ao limite dos anseios daqueles que o desejam e nele se comprazem, não passa daquilo que Deus, poderoso e sublime, descreveu:

“Como água que fizemos descer do céu, com a qual se mistura a vegetação da terra; depois ela se torna palha seca, dispersada pelos ventos. E Deus é poderoso sobre todas as coisas.”

Ninguém experimenta nele alegria sem que depois dela venha a lágrima. Ninguém encontra o ventre de sua prosperidade sem que ele lhe ofereça as costas de sua adversidade. Nenhuma chuva contínua de bem-estar se estende sobre alguém sem que sobre ele desabe uma nuvem de provação. É próprio dele que, pela manhã, se mostre aliado e vitorioso em favor de um homem, e, ao anoitecer, se torne contra ele, abandonando-o e desconhecendo-o. Se um de seus lados se torna doce e agradável, outro se torna amargo e pestilento. Se alguém se reveste das graças de seu viço e de seu conforto, as calamidades do mundo logo o cobrem de aflição. Ninguém anoitece sob a asa da segurança sem amanhecer sobre as penas do medo.

Enganador é tudo o que nele há; perecível é tudo o que sobre ele existe. Nada há de bom em suas provisões, salvo a piedade. Quem dele toma pouco acrescenta aquilo que lhe dá segurança; quem dele toma muito acrescenta aquilo que o arruína.

Quantos confiaram nele, e ele os lançou na desgraça. Quantos nele repousaram tranquilos, e ele os derrubou. Quantos se pavonearam nele, e ele os enganou. Quantos nele ostentaram grandeza, e ele os tornou desprezíveis. Quantos nele se encheram de orgulho, e ele os devolveu humilhados. Quantos portaram coroas, e ele os lançou de rosto e mãos ao chão.

Seu poder passa de mão em mão. Sua vida é turva. Sua água doce é salgada. Seu doce é amargo. Seu alimento é veneno. Seus vínculos são ossos carcomidos. Seus frutos são espinhos.

Seu vivo está exposto à morte; seu saudável, à doença; seu protegido, à opressão.

Seu rei é despojado; seu poderoso, vencido; seu são e seu íntegro, atingidos pela calamidade; aquele que o possui e acumula, saqueado. E, além disso, vêm as agonias da morte, seus suspiros, o terror do que se descortina e a permanência diante do Juiz justo, para que retribua aos que fizeram o mal segundo o que praticaram e recompense com o melhor aqueles que fizeram o bem.

Não habitais vós as moradas daqueles que, antes de vós, tiveram vidas mais longas, deixaram sinais mais evidentes, reuniram maior número de homens, dispuseram de exércitos mais densos, de equipamentos mais sólidos e de sustentáculos mais firmes? Serviram ao mundo com toda espécie de servidão, preferiram-no com a mais completa preferência e, contudo, partiram dele contra a vontade, abatidos e humilhados.

Chegou-vos por acaso a notícia de que o mundo lhes ofereceu de bom grado algum resgate? Ou de que os livrou de qualquer calamidade entre aquelas com que os seduziu? Ao contrário, sobrecarregou-os de desastres, debilitou-os com infortúnios, esfregou-lhes o rosto no pó, ajudou contra eles as vicissitudes da morte e os oprimiu com calamidades.

Vistes como ele se voltou contra aqueles que lhe obedeceram, o preferiram e nele se fixaram, até que partiram dele para uma separação eterna, até o termo final.

Acaso lhes deu outra provisão além da desventura? Acaso os cercou de outra coisa além da estreiteza? Acaso lhes iluminou o caminho com algo além das trevas? Acaso lhes deixou outra herança além do arrependimento?

É este, pois, que preferis? É por ele que vos consumis? É nele que repousais tranquilos?

Deus, bendito e exaltado, diz:

“Quem desejar a vida deste mundo e seu esplendor, nós lhe retribuiremos plenamente suas obras nele, e nada lhes será diminuído. Esses são os que, na outra vida, não terão senão o fogo. O que fizeram aqui se perderá, e será vão tudo o que praticaram.”

Que morada miserável para quem não a toma por suspeita e não vive nela temeroso dela.

Sabei, embora já o saibais, que inevitavelmente a abandonareis. Ela é somente como Deus, poderoso e sublime, a descreveu:

“Brincadeira, distração, ornamento, vanglória entre vós e competição por maior quantidade de bens e filhos.”

Tomai nela por advertência aqueles de quem Deus, exaltado seja, disse:

“Ergueis em cada elevação um monumento, entregando-vos à frivolidade? E construís fortalezas na esperança de permanecer eternamente?”

E aqueles que disseram:

“Quem é mais forte do que nós em poder?”

Tomai também por advertência aqueles de vossos irmãos que vistes serem carregados para os túmulos, sem que fossem chamados cavaleiros; descidos às sepulturas, sem que fossem chamados hóspedes. Fizeram para eles da cova um abrigo, da terra uma mortalha e dos ossos desfeitos uma vizinhança.

São vizinhos que não respondem a quem os chama nem afastam injustiça alguma. Se a terra se torna fértil, não se alegram; se vem a seca, não se desesperam. Estão reunidos, embora cada qual esteja só. São vizinhos, embora distantes. Separados, recebem visitas, mas não visitam. Os sábios já perderam seus rancores; os ignorantes viram morrer seus ódios. Não se teme o dano que possam causar, nem se espera que afastem mal algum. São como se nunca tivessem existido.

Deus, exaltado seja, disse:

“Eis suas moradas, que depois deles quase não foram habitadas. E fomos nós os herdeiros.”

Trocaram a superfície da terra por seu ventre; a amplidão, pela estreiteza; a companhia dos seus, pela solidão; a luz, pelas trevas. Chegaram ali descalços, nus e sós. Partiram, porém, com suas obras para a vida permanente, para a eternidade sem fim.

Deus, bendito e exaltado, diz:

“Assim como iniciamos a primeira criação, nós a repetiremos. É promessa que nos cabe, e certamente a cumpriremos.”

Acautelai-vos, portanto, contra aquilo de que Deus vos advertiu. Tirai proveito de Suas exortações e agarrai-vos à Sua corda. Que Deus nos preserve e vos preserve pela obediência a Ele, e nos conceda e vos conceda cumprir o direito que Lhe é devido.

Então desceu do púlpito.

Sermão sobre a Fugacidade do Mundo

Sinopse

Tradução integral direta do árabe do sermão atribuído a Qatari ibn al-Fuja'a sobre a transitoriedade da vida mundana, preservado na compilação clássica Al-Iqd al-Farid e publicado em domínio público.

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