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Histórias das Ilhas

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Histórias das Ilhas

Capítulo 2 · Histórias das Ilhas

Os Filhos Do Frade

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FREI Antonio entrou na cella do guardião, tremulo, sem forças. O religioso que o chamou, dissera-lhe apenas:

—Cuido que é para ires a casa do morgado da Fajã.

O guardião, gordo, pausado, pachorrento, disse a uma e uma estas palavras, que iam fazendo estalar de angustia o coração do franciscano:

—Frei Antonio, o morgado da Fajã manda-me pedir um irmão, que vá acompanhar esta noite, junto do caixão, a menina Beatriz, que morreu ainda agora, de repente. Escolhi a Vossa Reverendissima. Vá buscar o seu breviario e ponha-se a caminho, que d’aqui até lá acima ao monte, ainda é boa a distancia.

O frade saiu d’alli cambaleando, estonteado. Por milagre chegou á sua cella, sem cahir ao comprido, sobre as lages do corredor.

Mal fechou a porta, atirou-se de bruços para cima do catre, e mordeu a coberta de lã grosseira, n’um paroxismo louco, abafando os gritos que lhe irrompiam do peito em catadupa.

Depois, foi a pouco e pouco serenando, as lagrimas correram-lhe dos olhos em fio, e o franciscano esteve tempo infinito, de joelhos no chão, com os olhos erguidos para o alto, mal fitando atravez do caudal do choro a imagem de um Christo, que estendia lamentoso os braços sobre o madeiro da Cruz, n’uma attitude de immensa angustia resignada.

E assaltou-lhe a memoria a recordação de uma dôr egual, a da perda da sua mãe, que morrera assim, de repente, estando a falar com elle. Dôr egual, não! que maior que todas é a de perder-se a mulher amada.

E elle idolatrava-a com tão immaculado culto, que nem a vista da donzella profanára aquelle amor. Só agora, declarada a medonha catastrophe, só depois que o guardião dissera que Beatriz tinha morrido, frei Antonio percebeu o que eram aquelles extasis, aquelles arroubamentos ineffaveis, de quando via, ao longo dos caminhos ou na egreja, a figura gentil e fascinante da morgadinha. Ás vezes, quando surprehendia no peito o intenso tumultuar da paixão, illudia-se, rebuscava na memoria passagens dos livros santos e acreditava que ascetas teriam tido como elle, e mais do que elle ainda, o indizivel goso de antever em vida apparições como essa, mensageiros de Deus destinados a fazer-nos crêr nos archanjos e seraphins.

Mas este mysticismo acabava perante a nova fatal. Não! O anjo era-o, mas da terra! Morto, desfolhado aquelle lyrio de fragrancia extrema: impossivel, impossivel!...

Saiu da portaria do convento quasi a correr, e como lá fóra, pelo campo matisado de flores, o sol esparzia ondas de luz, e nas carvalheiras os melros trinavam alegremente, soltou-se-lhe do peito um longo suspiro de satisfação e o rosto coloriu-se-lhe de prazer. Se Beatriz houvesse morrido, o sol ter-se-hia apagado e os passaros nunca mais soltariam os seus gorgeios.

Quando chegou a casa do morgado, as trevas encheram-lhe de novo a alma. Ao fundo do pateo, n’um quarto baixo, avistou, apenas acabava de empurrar a porta da rua, que estava entreaberta, um grupo de mulheres erguendo as mãos ao ceo, e soluçando muito.

Subiu a escada de pedra, passou o alpendre, e logo na grande sala da habitação fidalga encontrou o pobre pae e viu no rosto afogueado do velho a verdade inteira.

Tinha morrido Beatriz.

Lá dentro, no seu quarto virginal, transformado em capella mortuaria, estava a donzella estendida sobre a cama, em quanto não chegava o caixão, que devia contel-a para sempre, e onde se passaria o drama horrivel da podridão, quando aquelles labios, ha pouco avermelhados pelo sangue dos quinze annos, e aquella carne, mais branca e macia do que as petalas das açucenas, fossem devorados lentamente, cruelmente, pelos vermes repugnantes.

O frade olhou-a e descreu outra vez da morte. Bem a viu immovel, côr de cera, esmaecidas as rosas das faces; não acreditou. E quanto mais a via, mais a duvida o animava, mais o espirito se lhe erguia para Deus, interrogando, mas não pedindo. Seria excusado implorar-lhe um milagre para resuscitar Beatriz, porque Beatriz não podia estar morta!

Ainda assim os labios de frei Antonio murmuravam rezas, e quando a noite já ia adeantada, e todos em casa se tinham recolhido, ainda no quarto funebre se ouviam as orações do religioso, quebrando aquelle silencio de coisas mortas, e echoando flebilmente até aos pannos negros, que forravam as paredes, e de que se destacavam, a um lado, as chammas compridas, pallidas e immoveis dos quatro cyrios do altar.

Sempre com a mesma crença, quando ficou só e sentiu o ultimo alento de vida extinguir-se no resto da casa, levantou-se do logar aonde ajoelhara e chegou-se para o caixão.

Abertas para os lados as duas meias tampas forradas de setim branco, mostravam atravez de um véu de tule a donzella. O frade viu-a e recuou inconsciente, como se houvera profanado uma alcova virginal. Coisa alguma d’aquelle espectaculo lhe trazia ao pensamento a ideia da morte.

Todos, sem duvida, se enganavam. Era horrivel deixar que a levassem para debaixo das lages da egreja, para o frio jazigo da familia, quando ella não estava morta, quando a mocidade nunca se expandira tão exuberante no rosto de Beatriz!

Monge encapuzado ajoelhado ao lado de uma mulher deitada de costas, com a cabeça inclinada para trás, olhos fechados e braços ao longo do corpo.
Ilustração original de Celso Hermínio.

Chegou-se mais. Ergueu o veu, quiz encostar o ouvido ao peito da donzella, e perscrutar-lhe as palpitações do coração. Não poude. As tampas do caixão não lh’o permittiam. Pousou a mão tremula regelada na testa da morgadinha, e pareceu-lhe receber uma impressão de calor.

—Então estava viva!

Quiz chamar alguem, correu para a porta, mas lembrou-se dos tristes sorrisos de desconsolo, que tinham respondido ás suas duvidas, algumas horas mais cedo.

Tornou para junto d’ella.

—Ah! Se podesse sentir-lhe pulsar o coração!... Porque havia de hesitar?

Levantou o corpo um quasi nada, e em seguida um pouco mais, introduzindo as mãos tremulas por baixo dos hombros da donzella. Sem saber como tirou-a para fóra do caixão, e amparando-a nos braços, e achegando-a a si, qual mãe que aperta ao seio um filho estremecido, dirigiu-se cambaleando, quasi louco, para a cadeira de espalda onde estivera velando o morgado.

Fitou-a, e julgou vel-a sorrir. Chegou-lhe ao coração o ouvido e sentiu palpitações.

Então na sua alma operou-se uma transformação sobrehumana. Aquella quadra já não foi para elle camara mortuaria, mas alcova nupcial, e o frade, perdida a razão, esqueceu tudo, e julgou realidade o que mais de uma vez se atrevera a phantasiar, e viu-se esposo de Beatriz, sentindo nos seus braços o corpo da donzella, rendido, indefeso, e gosou toda a suprema volupia de um primeiro beijo de amor.

De repente ouviu-se um gemido doloroso, quasi um grito!

O frade ergueu-se do chão, de golpe.

Beatriz, prostrada por terra, tinha effectivamente voltado á vida, e acabava de sair do estado cataleptico, que todos tinham julgado morte.

Aterrado, espavorido, fugiu do palacio, soltando brados.

A familia do morgado acudiu e poude adivinhar, horrorisada, o que se tinha passado.

Sessenta annos mais tarde, ha pouco tempo ainda, contava-se esta historia em Santa Cruz, na Madeira, para explicar o motivo por que dois velhinhos, muito parecidos e da mesma altura, e que andavam sempre juntos, eram chamados os filhos do frade.

Havia quem dissesse que eram gemeos, mas a opinião encontrava alguns incredulos.

Consta-me até que um investigador consciencioso estabeleceu, com documentos irrefragaveis, que um dos irmãos era onze mezes mais velho do que o outro, porque Beatriz e Frei Antonio...

Silencio! Não é bom revolver o pó das sepulturas.

Duas figuras, uma mulher com expressão melancólica e vestes antigas, e na parte inferior, um homem com bigode, trajando roupas formais, ambos intercalados por desenhos de corações. Ao fundo, há uma paisagem costeira, com barcos e figuras humanas.
Ilustração original de Celso Hermínio.
Histórias das Ilhas

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias das Ilhas, de Maximiliano de Azevedo, coletânea portuguesa em domínio público publicada em 1899. Esta edição reúne integralmente 19 narrativas ambientadas nos Açores e na Madeira, preserva 18 ilustrações narrativas de Celso Hermínio e foi preparada a partir da transcrição revisada do Project Gutenberg para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.

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