Leia agora
Histórias das Ilhas

Universo da obra

Histórias das Ilhas

Capítulo 3 · Histórias das Ilhas

O Primeiro Desengano

3 de 20 ≈ 6 min de leitura

Vestiu pela primeira vez fatos de senhora, no dia em que fez quatorze annos.

Ainda estou a vel-a entrar pela sala dentro muito envergonhada, tropeçando na fimbria do vestido comprido, não sabendo se devia rir ou zangar-se com os gracejos que lhe choviam de todos os lados.

Afinal foi sentar-se ao pé de uma meza, e tirou da floreira uma rosa, que tratou de desfolhar e de triturar, persuadida talvez de que escapava assim á attenção geral. Tivesse mais dois ou tres annos e desejaria prolongar o sentimento de admiração excitado pela sua formosura juvenil, em que transparecia a candura e singeleza da creança, da baby da vespera, alliadas á fascinação da mulher que despontava.

Do meu canto, observava aquella esplendida adolescencia, que assim desabrochava de subito, e quasi não podia acreditar que os poucos mezes, que a Georgina tinha estado longe da Madeira, assim houvessem transformado a minha antiga companheira de brinquedos.

E ao vel-a tão differente, sentia em mim o que quer que fosse novo e estranho, e, desejando aliás approximar-me d’ella e contemplal-a muito tempo, tinha a dubia percepção de que alguma coisa nos separava agora, tornando completo impossivel o falarmo-nos como d’antes, quando, n’aquellas manhãs de julho tépidas e luminosas, iamos com um rancho enorme para o banho do mar, e a Georgina, alegre e buliçosa como um passarinho, pulava na frente do bando, com as suas perninhas brancas e rosadas, que appareciam abaixo do vestido de cambraya.

Em quanto ella e as senhoras entravam para as barracas enfileiradas a curta distancia da babugem da maré, nós, os homens—eu já me incluia no rol—enfiavamos cá fóra os horriveis fatos de banho, quasi sempre á direita das barracas, para nos livrarmos do sol, que surgia por traz do cabo Garajao e começava a faiscar nas vidraças do Funchal.

Que bons aquelles banhos!

Era um alvoroço enorme, uma exuberante alegria, quando entravamos de corrida pelo mar dentro, e, passada a primeira sensação de frio, gosavamos a deliciosa frescura, fluctuando ao impulso da onda, de mãos dadas, divisando atravez da limpidez da agua, as pedrinhas brancas semeadas entre os calhaus do fundo ... e as formas tremulas, fugitivas das banhistas. Sobre o mar, levemente encrespado pela brisa, formava-se para o lado do nascente uma esteira luminosa, coruscante. De quando em quando um de nós fazia repuxar a agua em myriades de gotas, que cahiam como chuva de fogo, até irem perder-se na espuma branca de neve.

Uma vez a Georgina apanhou um grande susto. Presumindo excessivamente das suas aptidões de nadadora principiante, quiz afastar-se da terra, mas lembrou-se de repente de que já não teria pé, de que ia afogar-se, imaginou-se até levada por uma resaca, e poz-se a bracejar desordenadamente, gritando, bebendo agua, como se lhe tivessem dado uma enterra. Soffreria provavelmente a morte da Virginia de Bernardin de Saint-Piérre, sem o acompanhamento grandioso e bulhento do temporal, se eu não a tivesse agarrado a tempo e conduzido á praia, Deus sabe com que difficuldade.

Imagine-se a ufania que me causava a recordação da façanha, no momento em que a Georgina me apparecia sob aquelle aspecto novissimo!

—Ah! Se podesse tornar a salval-a, trazendo-a apertada nos braços!... Formulava mentalmente este desejo, que parecia de certo uma enormidade ao meu pudor dos quinze annos, quando notei que a Georgina olhava fixamente para o meu lado.

Desviou a vista, quando a encarei, mas d’alli a pouco estava a olhar outra vez.

Senti então um dos maiores prazeres da minha vida. Comprehendi o motivo por que a julgava outra, adivinhei o que era o sentimento novo que me dominava.

Valeu-me para a descoberta o andar a ler o Visconde de Bragelonne, no ponto em que se descreve a seducção de La Vallière. Lembrei-me até de que o maroto do Alexandre Dumas torna quasi cumplices na queda da pobre Luiza uns passarinhos, que havia na sala e que no momento em que Luiz XIV cae aos pés da namorada, chilream dentro das douradas gaiolas uma toada de indizivel concupiscencia, o que ainda mais entontece a futura carmelita. Ora emquanto eu olhava para a Georgina, tambem cantava um passaro, um melro, empoleirado n’uma magnolia do jardim. Achei de bom agouro a coincidencia.

É claro que não emparelhava a Georgina com a La Vallière—via-a como aquella a quem havia de ser unido para sempre, visto que o amor assim nos destinara um para o outro.

Com uns restos de duvida, olhei em roda de mim.

No lado da sala onde eu estava, não havia mais nenhum homem, a não ser o escrivão de fazenda, sujeito de grande bigodeira e voz soturna, que recitava pelas salas o Noivado do sepulchro e a Doida de Albano.

Era solteiro, mas tinha mais de tres vezes a edade de Georgina. Fiquei radiante. Era para mim com certeza, que estava olhando. D’alli a pouco fomos jantar.

Não comi nada, porque ella, apesar de ter ficado ao pé de mim, não me deu a minima attenção.

Como já tambem conhecia a existencia das coquettes, perguntei a mim mesmo se a Georgina seria uma d’ellas, e resolvi provocar o mais cedo possivel uma explicação decisiva.

Deparou-se-me o ensejo n’aquella mesma tarde.

Achavamo-nos os dois no extremo do mirante sobre o Caminho do Monte, vendo os romeiros que voltavam de festejar a Senhora de agosto.

Os mais não podiam ouvir-nos, entretidos como estavam por um dos espectaculos mais pittorescos dos costumes populares madeirenses. O som dos machetinhos de Braga, machetes de rajão e violas francezas, e o sussurro dos descantes e falatorio dos romeiros abafariam alguma palavra que me escapasse em voz mais alta.

Depois de lhe disparar uma declaração, fiz-lhe não sei quantas recriminações, pelo que me tinha feito soffrer durante o jantar.

A Georgina escutou-me cheia de pasmo, desviou-se um pouco, e medindo-me dos bicos dos pés até á cabeça, disse-me com um supremo desdem:

—O menino endoideceu! Não sabe que é ainda um fedelho e que eu já sou uma senhora! Isso ha de ser somno, por força. O que o Luizinho deve fazer, é pedir á sua mamã que o metta mais cedo na cama!

Fulo de raiva, ia dizer-lhe uma insolencia, quando se approximaram de nós a mãe d’ella e a minha.

D’alli a dois mezes casava a Georgina com o escrivão de fazenda, e d’alli a dois annos ... estava eu vingado.

Histórias das Ilhas

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias das Ilhas, de Maximiliano de Azevedo, coletânea portuguesa em domínio público publicada em 1899. Esta edição reúne integralmente 19 narrativas ambientadas nos Açores e na Madeira, preserva 18 ilustrações narrativas de Celso Hermínio e foi preparada a partir da transcrição revisada do Project Gutenberg para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.

Histórias das Ilhas

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Histórias das Ilhas

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Histórias das Ilhas Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir