Universo da obra
Universo da obra
ESTÁ prestes a findar a rude labutação.
Os cachos túmidos, e alourados pelo sol estivo, já quasi desappareceram das videiras, e o môsto, o sangue da vinha, corre a flux, denso e espumante, pela bica do lagar, espremidas as uvas sob os pés dos homens, que aturam tempos sem fim n’aquelle trabalho, como se os vapores saídos do engaço lhes augmentassem as forças com a excitação da meia embriaguez.
A mesma animação nos demais trabalhadores, que, ajoujados ao peso dos cestos vindimos, levam os cachos para o lagar escuro e fresco. Qual d’elles, para expandir a alegria ou sentir menos a faina, entôa a meia voz um dos cantos populares da ilha do Pico, dando á melodia mais triste uma expressão festival.
Alguns, para mourejar na freguezia de S. Roque, vieram de longe, de muito longe, e estão alli ha perto de um mez, separados das familias, anciosos por lhes ganharem um pedaço de pão.
Um d’estes era o João Ignacio.
Tinha abalado da outra banda da ilha, dos cabeços perdidos nos matos sobranceiros á villa das Lages, deixando a mulher, as filhas—duas moçoilas frescas e desempenadas, e o filho, um rapazote que dentro em pouco já poderia ajudal-o.
A mulher, coitadinha! estava muito acabada, não pela idade, mas pela doença.
Pois o João Ignacio ia ter uma grande satisfação.
Mandado pela mãe, o pequeno tinha feito a enorme caminhada e já andava alli perto, deitando inculcas, para saber onde encontral-o. Trazia-lhe noticias frescas de todos os de casa: da doente, das irmãs, e até do Calçado, muito rosnador com a velhice, e da porca, que estava gorda, gorda—uma perfeição de animal!
O João Ignacio topou o filho á porta do lagar, onde tinha despejado mais um cesto.
Deitou-lhe a benção, arredou-o de si um quasi nada para miral-o de alto a baixo, e tendo-o visto são e escorreito, deu-lhe uma palmada no hombro.
—Basta que sim! Estaes rijo como...
E sem enunciar o termo da comparação, perguntou pressuroso:
—Como vae a porca?
—Álhora!... O pae então pergunta-me pela porca, e não quer saber da minha mãe?
—Eh! rapaz! A porca custou dinheiro e vossa mãe não me custou nada!
Leia gratuitamente Histórias das Ilhas, de Maximiliano de Azevedo, coletânea portuguesa em domínio público publicada em 1899. Esta edição reúne integralmente 19 narrativas ambientadas nos Açores e na Madeira, preserva 18 ilustrações narrativas de Celso Hermínio e foi preparada a partir da transcrição revisada do Project Gutenberg para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.
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