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Crónicas Imorais

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Crónicas Imorais

Capítulo 4 · Crónicas Imorais

Artistas

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A morte recente dêsse desventurado Augusto Santo, escultor do Pôrto, veio avocar com amarga intensidade a malfadada sorte que está guardada a todos que teem a suprema desventura de ter nascido artistas em Portugal. Augusto Santo foi discípulo de Falguière, de Rodin e de Soares dos Reis. Ouviu as lições de Taine, e expôs no Salon. Era quási um desconhecido e morreu na maior miséria, num catre humilde de hospital.

Ser desconhecido em Portugal é um caso banalíssimo. Herculano, e êsse Garrett que «num dia de apuro por cem ou duzentas moedas seria capaz de tôdas as porcarias menos de pôr num papel a trôco de todo o ouro do mundo uma linha mal escrita» são, ainda que isto pareça um paradoxo, quási desconhecidos. O grande público não tem ideia dêles e ainda hoje uma das suas edições leva uma eternidade para se esgotar.

A indiferença do público pelos artistas é absoluta, e não vai longe ainda o tempo em que literato era sinónimo de vadio. Camilo no Pôrto, ao tempo, era sómente um janota que para ali quebrava esquinas, um tal que não avezava com que mandar cantar um cego. Quando, pelos romances, ganhava com que forrar de cuidados o passadio de dois meses, não se imagina o escândalo que aquilo produzia nos Antónios Josés da Silva e na rua das Congostas. O Pôrto de então tinha ideias seguras e via as cousas como devia ver. Literatos neste país?! hum! e torcia o nariz como quem dizia que aquilo não era prático, nem por aquele caminho se chegava a ter um rolosito de inscrições, um prédiosito, ou uma velhice sossegada. Era a vida prática, o balcão é que era o caminho. Por isso, quando Camilo, já no apogeu de glória, em cartas duma dolorosa humildade, quási esmolava, para comer, a compra de pratas que os seus admiradores lhe ofereciam, o Pôrto mui devia rir. Êle bem lhe dizia! Não era aquele o caminho...

A Soares dos Réis para lhe fazerem justiça foi preciso que a morte o tomasse. Em vida foi um obscuro obreiro sem amigos, ou quási, e teve uma existência bastante precária. Basta dizer que em tôda a sua vida de trabalho não conseguiu mais do que 4:764$500 réis segundo a autobiografia do artista, que o snr. Joaquim de Vasconcelos, em 1905, confidenciou ao público por intermédio da Revista. Para ganhar essa importância confessa Soares dos Réis que esteve «algumas vezes em relação com a arte industrial». Mesmo assim quem a achar exagerada deduza-lhe o custo do material e de auxiliares indispensáveis e verá quanto fica. O Artista na Infância vendeu-o por 600$000 réis e foi o máximo preço que levou por uma obra sua, se exceptuarmos, é claro, o monumento ao Conde de Ferreira.

Em vida ninguêm o auxiliou, ninguêm o encorajou para prosseguir. Muito ao contrário perseguiam-no, sitiavam-no, roubavam-no, fechavam-lhe tôdas as portas com intrigas soezes, com indróminas de sabidos e ronha de marotos. Concurso a que fôsse, vaga a que concorresse, plano que tentasse viabilizar, certo era a mediocridade arranjista, por portas travessas, frustrar-lhe tôda a ambição e todo o Sonho.

Emquanto o homem viveu não puderam os amigos, êsses amigos do diabo, atormentá-lo mais, nem mais o perseguirem. Depois de morto não houve lamúria que não chorassem e não houve adjectivo sonoroso e amelaçado que a criatura não tivesse. A justiça chega sempre depois da morte, é certo, mas pela injustiça dos vivos.

Com Augusto Santo o caso é o mesmo. Augusto Santo era, antes de tudo, um impersistente. Não possuía a tenacidade avara, fria e reservada, a confiança absoluta dêsses brocadores do Ideal, fadados para o êxito. A menor contrariedade o exasperava. E como se não fôsse bastante a execução perra, o sonho nebuloso, a vida material e a falta de tudo, ainda a minar-lhe a existência a agressividade constante dos outros,—os colegas os primeiros,—não fôsse o pobre diabo roubar-lhes a glória, e numa avidez de faminto a guardasse tôda para si. Augusto Santo foi um perseguido desde que expôs êsse Ismael, a sua única obra a valer, mas ainda assim uma promessa do que o seu temperamento de artista poderia dar.

Como vêem, eu não quero dizer que Augusto Santo era um génio e que a sua morte abre uma clareira formidável entre os Teixeiras e os Lopes da pedra portuguesa. Não. Augusto Santo não deixou fauteuil vago. O que eu quero precisar é que era Augusto Santo um artista a valer, que noutro meio floresceria, um meio que lhe não fôsse hostil como o seu,—tão hostil que até o deixou morrer de fome numa enxêrga de hospital. Com esta hostilidade e com esta ingratidão a arte perdeu, mas ganharam os escultores portugueses. Podem agora catrapiscar a imortalidade à vontadinha, que ela não esperará que êles morram para vir, ou o seu cão, sevandijar-lhes em cima da obra.

Alguns gazeteiros ou gazetíferos, com as palavras de louvor do cliché, justificam porque Augusto Santo não teve carruagem às horas, mesa lauta e colchão fôfo. Foi, dizem êles reprimendando os restos do escultor, porque era um inadaptado, porque desprezou sempre a arte de engorda, a que dá lucros e considerações, e preferiu correr atrás dum sonho que o exauria e que o matava, um sonho de arte irrealisável e irrealisado, arte verdadeira que não tem preço, embora às vezes se venda, e que não se compra, embora às vezes se adquira. E com um desdêm olímpico, absoluto, ditatorial, chamam-lhe... sonhador. Sonhador!... como se isto fôsse o sumo desprêzo ou a máxima compaixão. Deve ser bem triste morrer, assim!

Ao menos se essa turba se calasse e governasse vida, vá; mas vir babujar a sua irresponsabilidade desvergonhada no momento em que o pobre vencido solavancava a caminho do cemitério, é intolerável. Não se justifique, que ninguêm lhe tira o ganho: ela tem a sua utilidade. ¿Quem é que nos havia afinal de fazer os fretes?

Augusto Santo, não reste dúvida, foi um atormentado da forma. Quando a concepção, megalomania conceptiva era nele, lhe fabulava maravilhas, logo o barro, parece que conluiado com os homens, debaixo dos gadanhos convulsos e nervosos tinha formas brutais, aduncas e agressivas. E a sua frialdade viscosa logo ali abafava o delírio artístico do pobre impotente e lhe dava crises de desânimo capazes de vergar um atleta.

Todo o Pôrto cabareteiro e intelectual conhecia estas torturas do artista. Sem fôrças para opôr uma resistência, êle consumia-se em desolações. Cada tentativa malograda deixava-o mais exausto de fôrças do que uma noite perdida a caminhar. O Sonho vampirizava-o e exigia-lhe uma impossível produção de calorias. Todavia nada resta dele, decorrendo como decorreu intramuralhas do seu crânio. Após a criação dêsse Ismael, que noutro meio mais acarinhante, se o não celebrizasse, o evidenciaria, Augusto Santo criara, para si mesmo, responsabilidades. Ficaram por cumprir. A quantos artistas não sucede outro tanto?! Todos o sabem, Portugal artísticamente é um país morto. Capaz duma ressurreição? Certamente. Desde que os poderes públicos olhem com atenção para a Arte, desde que a percentagem assustadora dos analfabetos diminua e desde que o público manifeste interêsse por estas cousas. Arte em Portugal? Os pintores é que sabem o que isso é. Êles bem vêem que não é de sonhos e de belos quadros que se vive. O que dá são as lições, que é como quem diz os quadros que fazem e os discípulos assinam. É uma arte de opereta, de muito riso, com sinfonias de Offenbach e de que só vai mal a quem a toma a sério. Êsses são os vencidos, os Soares dos Réis e os Augustos Santos.

Ê pois mais um artista que sucumbiu em luta inglória com o Destino. Consagrado ou desconhecido, não há dúvida que era um artista. O Ismael o atesta. E já que ninguêm teve que o auxiliasse e que no meio da indiferença geral da gente que escreve e do regosijo da gente que escultura, êle deixou a vida, justo é que eu o admire, ao seu exemplo de intransigência, à luta que sustentou e à tragédia da vida que sofreu. E ninguêm se lembrou dele senão a Morte, que se amerceou de tanto sofrimento. Ó morte remediadora e sacratíssima, amiga dos pobres, remidora dos desventurados e consoladora dos aflitos, eu te bemdigo.


Crónicas Imorais

Sinopse

Leia gratuitamente Crónicas Imorais, de Albino Forjaz de Sampaio, coletânea portuguesa em domínio público cuja edição é registrada em 1918. Esta publicação reúne integralmente a dedicatória e 33 crônicas de crítica social, literatura, arte e costumes, preserva a ortografia histórica e as seis notas de rodapé e foi preparada a partir da transcrição revisada do Project Gutenberg para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.

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