Universo da obra
Universo da obra
Esta, Carolina, uma flor infernal de sangue e treva que a Angústia fecundou.
Esta, a harpa maior, a harpa da Dor, cujas cordas são mais puras, mais admiráveis e onde mais alto e majestoso chora todo o incomparável Intangível da minha Saudade.
Este féretro é um oceano rasgado de tempestades, de ventos imprecativos, anatematizadores e negros.
Fluidifica-se deste féretro uma música bárbara de sensibilidade, de martírio.
Aberto diante de mim, assim como eu o estou vendo aqui, que sugestões singulares me traz, que despedaçamentos me recorda, que sombrios idílios e delírios!
Ah! na vida avara como os sentimentos são avaros, como o pensamento humano é avaro para perscrutar uma existência assim!
Onde estão os ascetas que se martirizaram, onde estão os apóstolos que creram, onde estão os santos que ciliciaram e que escutaram de perto, mudos, o eloquente silêncio da Dor, para virem agora, aqui, comigo, aqui, com a minha alma, traduzir os recônditos segredos que aí estão nesse féretro, penetrar nos ergástulos sem nome que aqui estão, nessa alma.
Que purificações e que sugestivas grandezas parabólicas, que transcendentalismos das palavras de Cristo no Sermão da Montanha, ecoando impressionativo e a medo como o ulular primicial e majestoso de imaginários mundos em gestação, poderão, acaso, interpretar esta vida deserta que subiu às mais longínquas e altas cordilheiras da Dor, exprimir os ais que a violinaram, os soluços que a transportaram ao céu, os desencontrados combates que a despedaçaram!
Sim! Vazio é tudo no mundo! Os olhos acordam nesta ânsia viva de chorar e de amar! As ansiedades que em vão se escondem plangem à flor dos sentidos, diluem-se, fluidificam-se e, vagamente, aí vêm então jorrando, vêm vindo as lágrimas
Sim! Criatura dos Anjos que, no entanto, o Inferno possuiu e por fim acabou por estrangular! Coração sangrante! Ser do meu ser! Os outros seres vãos que babujam a terra com a argilosa Infâmia de que são feitos nunca poderão, nunca saberão, melancolicamente não, nunca, que hóstia sanguinolenta e travorosa deram-te a comungar na Vida, que pão tenebroso de Páscoa de lágrimas deram-te a devorar, que cálice de vinho letal, alucinante, sugado ao fel das chagas e das gangrenas propinaram-te à boca verminada pelo primeiro beijo de amor, quando tu tinhas as fomes e as sedes vorazes, cegas, desesperadas do Não-Ser, quando aspiravas às formas celestes, quando sentias, apesar da tua inocuidade de poeira mas, talvez!, poeira de algum divino astro diluído, o insaciável desejo de abranger Infinitos.
Evocações, de Cruz e Sousa, reúne 40 textos de prosa poética simbolista publicados em 1898. Esta edição Literunico apresenta o texto integral em ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo, preservando o sentido, a estrutura, as imagens e a cadência autoral.
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