Universo da obra
Universo da obra
Meia-noite soou na floresta
No relogio de sino de páo;
E a velhinha, rainha da festa,
Se assentou sobre o grande giráo.
Lobishome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a cêa de grande folia.
Junto d’elle um vermelho diabo
Que sahíra do antro das phócas,
Pendurado n’um páo pelo rabo,
No borralho torrava pipócas.
Taturana, uma brucha amarella,
Resmungando com ar carrancudo,
Se occupava em frigir na panella
Um menino com tripas e tudo.
Getirana com todo o socego
A caldeira da sôpa adubava
Com o sangue de um velho morcego,
Que alli mesmo co’as unhas sangrava.
Mamangava frigia nas banhas
Que tirou do cachaço de um frade,
Adubado com pernas de aranhas,
Fresco lombo de um frei dom abbade.
Vento sul sobiou na combuca,
Gallo-preto na cinza espojou;
Por tres vezes zumbio a matruca,
No cupim o macuco piou.
E a rainha co’as mãos resequidas
O signal por tres vezes foi dando,
A cohorte das almas perdidas
D’esta sorte ao batuque chamando:
«Vinde, ó filhas do ouco do páo,
Lagartixas do rabo vermelho,
Vinde, vinde tocar merimbáo,
Que hoje é festa de grande apparelho.
Raparigas do monte das cobras,
Que fazeis lá no fundo da brenha?
Do sepulcro trazei-me as abobras,
E do inferno os meus feixes de lenha.
Ide já procurar-me a bandurra,
Que me deu minha tia Marselha,
E que aos ventos da noite susurra,
Pendurada no arco da velha.
Onde estás, que inda aqui não te vejo,
Esqueleto gamenho e gentil?
Eu quizera acordar-te c’um beijo
Lá no teu tenebroso covil.
Gallo-prelo da torre da morte,
Que te aninhas em leito de brasas,
Vem agora esquecer tua sorte,
Vem-me em torno arrastar tuas azas.
Sapo-inchado, que moras na cova
Onde a mão do defunto enterrei,
Tu não sabes que hoje é lua nova,
Que é o dia das dansas da lei?
Tu também, ó gentil Crocodilo,
Não deplores o succo das uvas;
Vem beber excellente restilo
Que eu do pranto extrahi das viuvas.
Lobishome, que fazes, meu bem,
Que não vens ao sagrado batuque?
Como tratas com tanto desdem,
Quem a c’rôa te deu de grão duque?»
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