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O Meu Próprio Romance

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O Meu Próprio Romance

Capítulo 1 · O Meu Próprio Romance

I

I MEU difficil nascimento parece marcar o signo da força, que me prendia ao inconsciente. Foi pela sciencia de um medico inglez, que vivi na tarde do domingo de 21 de junho de 1868, na cidade de S. Luiz do Maranhão, quando eu estava condemnado á morte para salvar minha mãe. A sciencia arrancou-me do inconsciente. Realisou-se em mim a formula do meu pensamento philosophico. A unidade da minha vida está no espirito de libertação, que animou o meu ser moral desde a infância até a velhice. Aos doze annos libertei-me da idéa religiosa. Aboli em mim o terror inicial. Desde então a minha vida foi uma aspiração de conhecimento e por este conhecimento tomar posse do universo. Libertei-me do preconceito politico e, o que é mais difficil, do preconceito esthetico. Libertei-me de todo o terror. Se na apparencia fiquei circumscripto ao circulo moral contemporâneo, foi por uma attitude pragmática, nunca por uma subordinação convencida. Desenvolvi o congênito dom de sympathia humana. Activei em mim a bondade. Procurei fazer o menor mal possível. Se a minha vida não se assignalou por grandes feitos sociaes, o drama interior foi intenso e fecundo. 0 meu caso é de um homem em constante libertação espiritual e, sob esta inspiração, construindo a sua existência. A minha vida tem sido a perfeita harmonia entre as idéas e os actos. Realizei e vivi o meu pensamento. Se tal exemplo concorrer para a libertação de outros espiritos, será isto um magnífico feito humano. Nada poderia contribuir para o meu incessante progresso intellectual, como o espirito de negação. Aos doze annos neguei Deus, aos quatorze neguei o direito natural, aos quinze neguei o principio monarchico e o direito á escravidão. Dos dezeseis em deante accrescentei ás minhas negações, a libertação esthetica. Quando cheguei ao Recife, aos treze annos e meio, encontrei Tobias Barretto. Para receber a sua força educativa de negação e critica, o meu espirito estava preparado com a iniciativa da negação religiosa, que realizei por mim mesmo. O prestigio de Tobias Barretto foi fascinante. Eu estava apto para receber todas as demolições do direito natural e da theologia e propagar todas as revoltas contra a metaphysica, contra a ordem política e social. De onde me veiu esta fúria destruidora, esta paixão libertadora, que não me abandonou nunca? Positivamente, ao que foi autonomico, restrictamente pessoal, germinado em mim pelo choque do meu temperamento com as idéas recebidas, juntaram-se correntes hereditárias, que me impulsionam o sangue ardente e não me permittem repouso na ansiedade de negar, de saber e de construir renovando. Quaes foram ellas? Impossível determinal-as. Se me volto para as minhas origens maternas, uma linhagem de políticos, magistrados, generaes, almirantes, advogados. Toda de gente ligada ao Estado, girando pacificamente dentro da ordem, salvo duas excepções, de irmãos de minha mãe, o general, antigo official do estado maior do Duque de Caxias, que não se subordinou ás dictaduras de Deodoro e Floriano e cujas attitudes o levaram á prisão e á reforma, e o joven capitão Adolpho, ardego companheiro de Deodoro e Senna Madureira na questão militar e que morreu ao se proclamar a sua sonhada republica. Do lado paterno as origens remontam a um donatário de capitania, Bento Maciel Parente, de onde se gerou uma profusão de capitães-móres e homens de guerra, que sob os nomes de

Maciel Parente, Maciel Aranha, Teixeira, Tenreiro Aranha, vararam as terras e os rios do Maranhão, do Pará e do Amazonas, em um furor de descoberta, de civilização, de escravização e morticínios de Índios. Depois tudo se acalma, estes furiosos extinguem-se e os seus successores lavraram mansamente as terras que os antepassados ensangüentaram. Já o meu avô paterno, apezar de hercúleo como a velha gente dos Aranhas, era lavrador socegado e filho de lavrador. A sua primeira mulher, minha avó, devia ser microscópica como as suas irmãs nanicas, que ainda conheci. Eram denominadas as "pharóes", o que fazia rir aos que as vendo tão pequeninas, ignoravam a procedência da extranha alcunha. Esta lhes cabia honrosamente por serem irmãs do rapaz genial, José Cândido de Moraes e Silva, o nativista fogoso, que no seu jornal o "Farol Maranhense", enfrentou a reacção dos corcundas, os lusos insubmissos á nova nacionalidade brasileira e preparou no norte a revolução de sete de abril, tirando desta as conseqüências extremistas, promovendo motins populares, batendo-se nas ruas de S. Luiz, perseguido pelo governo, preso, maltratado, morrendo aos vinte e seis annos, na aureola da adoração de uma nação infante. Mais tarde, João Francisco Lisboa consagra esta veneração continuando o "Farol Maranhense" do numero, em que o interrompera José Cândido, com o mesmo sentimento nacionalista e liberal, porém sem o mesmo fôlego e o mesmo imprevisto combativo. Se este respeito á memória do "Farol Maranhense" era de toda a gente, na minha familia a sympathia tornou-se culto. Fui criado neste culto. Imaginava esse tio glorioso como o mais fascinante dos jovens. Nada me encantava como ouvir de meu pae a narrativa das suas proezas, que eu exagerava, engrandecia nos meus sonhos acordados. Era o guia, o modelo da minha infância. Era o heróe do meu sangue. Ainda hoje em qualquer combate de idéas, em toda acção arriscada, em que me empenho, sinto vir a mim, de muito longe, a sua imagem, que me fortalece a audácia e a tenacidade. Não foi privilegio meu ter sido uma criança imaginativa. O privilegio foi a imaginação governar toda a minha vida, impulsionar a minha actividade, dirigir-me, elevar-me e ao mesmo tempo enfraquecer-me e paralysar-me. Pelo excesso de imaginação e pelo goso de imaginar não produzi muito e muitas vezes abandonei a acção emprehendida. Afinal o sonho me fatigava e me entorpecia deliciosamente, dolorosamente. O terror perseguiu-me muito na infância e gerou um mysticismo animista, primitivo. Eu imaginava todos os seres animados. As minhas plantas, os meus bichos, estavam carregados de densos mysterios. Deviam dar-me a boa ou má sorte. Este exercício do jogo com as coisas generalisou-se extranhamente. Eu deitava sorte com tudo o que me apparecia. Para conhecer de antemão se um desejo meu seria satisfeito, recorria a esse jogo secreto. Por exemplo, se ao passar por um cachorro na rua, elle latia, era signal de insuccesso. Se aquelle homem, que vinha na direcção opposta, continuava o seu caminho indifferente a tudo, eu me rejubilava porque tudo correria bem para mim. Jogo arbitrário, improvisado, sem methodo, sem regras, mas jogo em que se fatigava a minha imaginação, na indagação ansiosa e fortuita. Nesse desbragamento imaginativo crescia o terror dos bichos, dos cães, dos bois, das cobras, das borboletas pretas, dos pássaros agoureiros. Quando alguém ia morrer em casa ou nas famílias amigas, tudo me apavorava, as corujas, ou urubus que grasnavam, pairando sobre a cidade, as borboletas escuras que invadiam os quartos. Esta imaginação animista transformou-se mais tarde, ainda na infância, em fervor religioso, gerado pelo terror. Aos sete annos, tendo engulido caroços de pitomba, veiu-me doloroso embaraço intestinal. Fiquei entupido. Foi então que na angustia da minha tortura secreta, depois de todo o esforço inútil para me desembaraçar, com vergonha de communicar a outros o meu vexatório incommodo, fiz a S. Benedicto a promessa de tornar-me seu devoto, seu irmão. O santo preto executou promptamente o milagre. Alliviou-me. Insisti depois com meus pães para me fazer entrar na irmandade do santo milagroso. Este extranho pedido não foi satisfeito sem uma indagação do motivo, que o movia. Meus pães sempre foram de extremada meiguice para com os filhos. Desde a minha infância a nossa amizade foi uma deliciosa camaradagem. Ainda assim me limitei a dizer-lhes que se tratava de uma promessa, sem confessar-lhes a razão desta. Erà o pudor que me inhibia a confissão, pudor, vexame, que sempre me envolveu como uma veste protectora. Graciosamente o meu voto foi cumprido. Na primeira procissão de S. Benedicto appareci muito ufano na igreja de S. Antônio, onde era o culto do milagroso popular. Vestia a minha opa branca, de sobrepeliz, capuz e cordões castanhos e tomei o meu posto entre os numerosos irmãos, no meio da profusão de anjos captivos e de toda uma multidão de pretos e brancos, de senhores e escravos nivelados na devoção exaltada. Desde então a religiosidade se foi desenvolvendo em mim até o exagero. Todos os meus vagares eu os passava nas igrejas em missas, novenas e procissões. Tornei-me familiar dessas cerimonias, conheci intimamente as suas variantes, tomava partido como um velho e ocioso devoto entre as irmandades rivaes. Tornei-me freguez do Santíssimo da Sé, envergando a opa vermelha dos meninos do coro e pelas ruas acompanhando a pé o viatico ás casas dos enfermos. A semana santa era um deslumbramento para o meu espirito ardente. Passava o dia inteiro na igreja, que era a Sé, em cujo largo estava a minha casa. Impregnado de incenso, de balsamo, do perfume das flores, exaltava-me nos officios da treva e da paixão, enfeitava os altares do Senhor dos Passos, do Senhor dos Navegantes, de Nossa Senhora das Dores, seguia de opa roxa as procissões pelos "passos", abertos sobre as ruas, illuminados e festivos, e, quando a "verônica", mostrando á multidão a sacrosanta imagem ensangüentada, cantava plangente o espasmo dilacerante da Mater Dolorosa "6 vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte, si est dolor sicut dolor meus". Oh! que lagrimas puras, de tristeza e melancolia, eu derramava! O caroço de pitomba germinara em mim a extranha, a aterradora e ramalhuda arvore da devoção religiosa. Como se deu a transmudação desse estado de espirito para outro da exaltação do conhecimento scientifico, deve também ter sido sortilegio da minha imaginação. Os estudos pelos quaes me interessei apaixonadamente na infância foram os da astronomia e da geographia. Por aquella me abysmava no mysterio celeste, era o companheiro das estrellas, e queria saber as leis supremas do Universo. Pela geographia era a maravilha das terras desconhecidas o que mais me attrahia. Aos dez annos escrevi um desenvolvido trabalho sobre a África, compillado de Elysée Reclus, da viagem de Stanley e de outros livros da bibliotheca de meu pae, raros na cidade. Mais tarde a passagem de Venus no disco solar em 1882, exaltou-me. Meu pae expandia a sua voCação de astrônomo firmada quando estudante no observatório do Rio de Janeiro. Eu seguia o phenomeno em um telescópio installado por elle e outros estudiosos, no cáes da Sagração. Numa tenaz preparação eu indagava nas conversas com meu pae e nos livros especiaes tudo o que me podia esclarecer com precisão do que se ia passar e quando me deixavam espiar na luneta, não era um menino tolo que via um ponto negro no disco solar.

Era um pequeno presumpçoso que se maravilhava com o cumprimento de uma inexorável lei astronômica. Dos quadros da minha infância nenhum exerceu no meu espirito magnetismo igual ao da casa, em que vivi, quatorze annos, no largo do Palácio. Nasci na rua da Estrella numero dois, na primeira casa á direita na grande ladeira que desce para a Praia Grande, centro do commercio que as águas da bahia não banham. Dessa casa não tenho recordação. Quando a deixamos eu não tinha dois annos. Mais tarde eu a contemplava e imaginava o seu silencio interior naquelles três andares elevados e esse silencio imaginativo tinha a força de me entristecer. Da segunda casa, no fim da rua Vinte e Oito de Julho, restam tênues reminiscencias que não sei se residuos verdadeiros da memória ou imagens justapostas e fabricadas com o que me iam narrando docemente. Vejo-me no corredor interno deante de uma grade de madeira pintada de verde, espiando para os carneiros, porcos e perus que viviam embaixo no quintal. Foram talvez os mais fortes attractivos da Bainha longinqua infância e com elles comecei a improvisar o vocabulário animal e humano, que está na raiz da linguagem primitiva. Vejo-me nos braços de alguém, olhando muita gente na rua, á noite, gritando e carregando lampeões coloridos, accesos. Era uma passeiata patriótica" de commemoração da victoria brasileira no Paraguay. Fizeram-me balbuciar vivas á republica. Nada mais eu vejo ou imagino ver nessa segunda casa. Os meus olhos abriram-se logo depois á magia da casa do largo do Palácio. O seu ambiente incorpif rou-se de tal forma ao meu espirito infantüj que pensar nelle, invocal-o, resuscital-o, é transfigurar-me no menino imaginoso, é perder tudo o que adquiri de cultura e perversidade e voltar ineffavelmente á candura exaltada, aos primeiros jactos criadores ae emoção e belleza. A grande casa, larga e sobretudo profunda, é uma pessoa viva na minha lembrança. Ella via uma paizagem que a engrandecia. Do alto da barreira dominava o cáes da Sagração, olhava a praia do Caju, e, estendendo o olhar por cima do convento de Santo Antônio, deliciava-se mirando o gracioso largo dos Remédios, onde Gonçalves Dias sobre a palmeira de mármore espera ouvir o sabiá, que não vem nunca. O olhar da casa afunda-se para além, para a Gamboa do Matto e para a Currupira e não podendo attingir ás quintas de Roma e Bom Gosto, atira-se por'cima do Anil, não se demora em Vinhaes, porque passando pela Pedreira, vem voltando para S. Marcos, de atalaia a fazer signaes aos vapores e navios, que querem entrar no porto arriscado, pela Ponta da Areia, onde um tiro do velho canhão do forte antiquado, annunciava o paquete do Sul. Marés de S. Luiz, que se differenciam extranhamente durante o dia. Encontro timido do Bacanga e do Anil, que o mar perturba e salga as águas mansas. Foge a maré para longe e as coroas de areias espraiam-se e entopem o porto. Pode-se atravessar com água pelas canellas, a pé, da cidade para a ponta de S. Francisco, e se os vapores não partirem depressa, ficarão para sempre presos nas coroas de areias, como o "Hibernia", o vapor do cabo, na coroa da Minerva, onde se foi esphacelando durante longos annos, por entre os combates encarniçados dos tubarões e dos espardates. A maré enche num cheiro de melancia, que é o odor dos tubarões. As coroas submergem, cáe o vento e sobre as águas correm, porfiando á vela, as canoas dos pescadores e os escaleres da policia marítima e da alfândega. Passa-se o anno inteiro nesse vae e vem diário das marés. Assim foi desde séculos e assim será para sempre. O sol, a dois graus do equador, equilibra dias e noites, numa temperatura igualmente calida. Não ha crepúsculo. Não ha cores. Tudo é luz.

A grande casa protege-se desta claridade, dentro das grossas paredes de pedra e cal, nas immensas salas e nos vastos quartos. Na sombra, a tepida frescura equatorial. O que houver de vento, circulará suavemente pelas varandas e corredores. Na frente da casa, as corpulentas amendoeiras do largo do Palácio. Moleques debaixo das arvores, pedradas para derrubar as amêndoas, inveja dos meninos olhando das sacadas da janella. Carneiros, cabras e bodes soltos devorando o capim de burro, calcetas capinando o largo por onde passam ás nove horas e ás três da tarde, os empregados públicos da secretaria da thesouraria e do Thesouro. Passam matutos deputados provinciaes j ungidos uns aos outros, de passos pesados, as cabeças broncas, chatas, passam os politicos da capital bamboleando em grupos morosos, passa o chefe de policia com duas ordenanças. Vão todos ao palácio bajular o presidente da província. Calor, modorra, indolência. Para mim a inexcedivel attracção da casa estava nos seus quintaes, sobretudo no grande quintal de capim, o ultimo aberto sobre a barreira, que descia para o aterro de areia do cáes coberta de arvores de mamona, que á tarde eram colhidas pelos pobres velhos da vizinhança para fabricar azeite. Esse quintal era o meu reino de menino.. Ali nos reunimos, todas as tardes, uma tropilha de crianças, as de casa, minhas irmãs e meus irmãos, as da vizinhança e os moleques e as negrinhas, crias das familias. Eu era o chefe do grupo e sob a minha inspiração inventavam-se as brincadeiras. Uma vez no quintal, todo o senso da realidade se eclypsava. Passávamos ao plano da fantasia e nos transmudavamos em personagens das nossas comédias infantis. Os meninos eram cavalleiros montados em carneiros, ou em tabocas, fogosos corceis. Tínhamos pagens que naturalmente eram os moleques. As meninas eram princezas, ornadas de trepadeiras de S. Caetano, cujas flores amarellas ou frutas vermelhas se dependuravam por entre as folhas verdes. Vivíamos em campos differentes e vínhamos fazer as nossas visitas ás meninas princezas, montados em nossos ginetes. Uma vez reunidos improvisávamos dansas, jogos, torneios, em que nos esfalfavamos de fadiga e calor. Era á noitinha quando as criadas vitíham cessar os jogos, dos quaesnos arrancávamos transfigurados, renitentes a voltar á realidade quotidiana. Subíamos desesperados para que tudo tornasse á mentira na tarde seguinte. Minha mãe recebia os seus dez filhos com inexgotavel ternura. As criadas nos preparavam para dormir, depois do banho. Vínhamos todos para a merenda, mingau de milho ou de arroz, que minha mãe distribuía em tigelas. Na funda sala de jantar, na grande varanda, minha mãe sentava-se numa cadeira de balanço. Em volta delia, bem junto, ajoelhavam-se os filhos, vestidos de compridas camisolas brancas, ajoelhavam-se no segundo plano as crias da casa e as criadas. Minha mãe puxava a reza, que todos repetiam, emquanto os sinos da Sé tocavam a ave-maria. Finda a reza, iamos para as nossas caminhas, separados em quartos differentes, os meninos e as meninas, guardados pelas criadas. Emquanto, já de noite, os meus irmãosinhos dormiam, eu velava. Era outra hora desejada, porque a velha Militina me contava as historias maravilhosas do seu vasto repertório. A imaginação, que durante a tarde se corporificava nas brincadeiras do quintal, trabalhava pela noite a dentro, transportada nos contos e nas lendas. Esta velha Militina foi uma das educadoras essenciaes da minha imaginação. Alimentou-me o espirito infantil de historias de mil e uma noites, de narrativas medievaes, quando não me entretinha com os episódios tenebrosos da chronica maranhense. De mistura com os gênios do anel e da lâmpada, com as monjas santifiçadas, por Nossa Senhora, ainda vejo o inglez assassinado pelo preto que foi o ultimo enforcado da cidade e está sempre esperneando na corda. Militina era uma mulata brancarona, de cabello cacheado, pequenina, enrugada, mirrada, de cara marcada pela bexiga. Tinha alguma educação, certa exaltação espiritual, memória fiel de historias lidas ou ouvidas, e um dom de contar muito attrahente. Vivera com vários padres, de quem aprendera phrases de latim macarronico. Foi uma dessas "mulas sem cabeças" muito communs então no Maranhão. Entrou no nosso serviço já madura e permaneceu na companhia de minha mãe, envelhecendo, até morrer suavemente em terra, que não era o seu Maranhão. Cresci sob os seus carinhos. Quando delia fui me separando pelos estudos e pela idade, os progressos do seu menino a tornavam ufana. Realizavam-se as suas profecias, baseadas no exame do meu craneo, onde pretendia encontrar as mesmas bocas auspiciosas, que vira num padre genial, a sua grande paixão. Na parte térrea dessa enorme casa, meu pae installara a typographia e a redacção do seu jornal "O Paiz" Vivi sempre em contacto com os operários. Meu pae entendia que todo o homem devia ter um officio. Aprendi a ser typographo e durante annos tirava sempre duas horas por dia para essa aprendizagem. Cheguei a uma certa destreza na arte e pude, com immenso orgulho, prestar a meu pae um auxilio considerado relevante. Era um domingo em principio de 1878, quando meu pae recebeu o telegramma do Rio annunciando a queda do partido conservador e a formação do gabinete liberal de Sinimbú. O "Paiz" tinha de dar boletim. Por mais que fossem procurados os typographos, nenhum, naquelle domingo vadio, foi encontrado. Apenas vieram o impressor e um dos tocadores do prelo. Na afflicção em que vi meu pae, sempre tão zeloso em servir o seu publico, offereci-me a compor o boletim. Executei-me como pude, compuz o boletim e ajudado pelo impressor e pagmador, tivemos a grande alegria de o imprimir e o ver destribuido nessa mesma tarde preguiçosa. Esta proeza de um pequeno operário, voluntário, de dez annos, envaideceu meu pae, cujo orgulho por mim foi sempre exaltado e commovente. Fui o seu jogo, o seu brinquedo, o seu amor. Muito precocemente desenvolveu em mim a tendência para os estudos. Se elle foi um esplendido jornalista, vivo, elegante, se foi um político inspirado por um fecundo e generoso nacionalismo, se foi um extraordinário animador de intelligencias e energias, sobretudo foi um maravilhoso professor, ardente, culto, com o mágico dom da communicabilidade e da fascinação. Ensinava por enthusiasmo. Aos 24 annos, de volta da Escola Central do Rio, fundava um dos mais efficientes collegios, que teve o Maranhão. A saúde, sempre inquietante, obrigou-o a cessar a sua missão educadora. Foi quando passou ao jornalismo, que exerceu como um professorado. Jamais deixou de ter discípulos. Successivas gerações de jovens maranhenses o tiveram como mestre gracioso e inesquecível. Naturalmente, eu fui o seu discípulo estremecido. O meu pendor para o estudo revelou-se muito cedo. Aos três annos perseguia minha mãe para me ensinar a ler. Meu pae mandou organizar na typographia, uma espécie de cartilha alphabetica especialmente para mim. A professora era minha mãe. Assim como tive de aprender um officio, também a minha primeira instrucção devia ser materna]. Tudo isto era o systema do grande educador que foi meu pae. Quando minha mãe, sobrecarregada com a criação de novos filhos que annualmente ia tendo, não poude se occupar exclusivamente de mim, resolveram mandar-me como externo a um collegio de meninas. Passei alguns annos nesse sympathico meio feminino, que prolongava

(1874-1876). a existência familiar. Devo-lhe principalmente o tom de camaradagem com as mulheres, e a comprehensão das suas sensibilidades, que conservei e fui apurando. Se eu quizesse chamar pelos nomes as minhas amizades mortas ou vivas desse período infantil, me responderiam mais vozes femininas do que masculinas. Não se apagou em mim a forte impressão da minha entrada para esse collegio de meninas. Meu pae, grande amigo da directora, senhora de intenso prestigio na cidade, levou-me um domingo á sua presença. Agasalharam-me com tanta doçura, que fiquei definitivamente preso áquelle ambiente. Designaram para minha professora, a filha mais velha da directora. Como as suas trancas de cabellos pretos eram compridas! Comecei a desmanchal-as ali mesmo, sem timidez e fiquei maravilhado, quando os immensos cabellos abriram-se sobre as costas, cobrindo o corpo até os pés. No dia seguinte foi a primeira aula. Tornei-me, além de alumno, o pagem da minha joven professora e a seguia pela casa toda, indifferente á disciplina. As meninas eram numerosas e os meninos, por excepção, apenas quatro, um filho da directora, que se tornou meu fraternal companheiro, um filho de um illustre maranhense e outro que permanece esquecido das minhas recordações. Com o meu camarada maranhense tive o meu primeiro combate. Apezar da cordialidade do meu temperamento, sou sujeito a assaltos de violência arrebatada. Num desses impulsos esbordoei e feri o meu camarada. A' tardinha desse dia do pugilato, estava eu na janella da frente da casa com meu pae quando vejo surgir do lado da Sé em direcção a nós o menino esbordoado com a sua criada. Entraram. Foi a queixa. 0 menino vinha mostrar a meu pae as escoriações e as echymoses, que se lhe estampavam na cara. Desolação. Obstinado, recusei-me a fazer as pazes. Durante longos annos evitei reconhecer esse camarada mofino.

Deixei o collegio aos oito annos e entrei a estudar os preparatórios. Meu pae apoderou-se de mim. Com elle, preparava as minhas lições de portuguez e latim, por onde comecei as humanidades. O seu methodo consistia em trabalhar sob a sua direcção e depois repetir as matérias com outros professores. Assim tive, alem de meu pae, dois professores de portuguez e dois de latim, ao mesmo tempo. Só havia vantagem porque a attenção do alumno se concentrava mais, a intelligencia se aguçava e não havia inconvenientes porque os processos, os methodos, os livros eram os mesmos adoptados por cada mestre. De manhã, três vezes por semana, estava eu em casa do mais moço dos professores de portuguez. A' noite, no curso do velho grammatico Luiz Carlos, o continuador de Sotero dos Rios. Nos outros dias de manhã, latim com o padre Fabricio, reitor do Seminário das Mercez, que sabia de cór os clássicos e se comprazia em recital-os partindo do trecho que o discípulo indicasse. Foi a memória mais prodigiosa que testemunhei. Em compensação, o outro professor de latim, o velho Trajano, irmão de Sotero, depois de um magistério de quarenta annos, gaguejava para nos repetir um verso de Virgílio. Esquecia tudo e mesmo de viver. Secco, pequenino, o pobre velho era conduzido na rua pelo vento. Quando apparecia no Canto da Sé, onde o ar se encana, custava a vencer a corrente do vento que o empurrava, o recuava e o fazia dar guinadas ebrias. Das janellas, a criançada gosava o espectaculo e na rua a molecada vinha pateando o illustre mestre na sua dansa quasi aérea. Dois annos depois eu fazia o meu primeiro preparatório de portuguez. Foi uma novidade o exame feliz do menino de dez annos. Meu pae exultou. Cresceu-lhe o zelo. Comecei o francez e o inglez. Sempre o mesmo methodo, de múltiplos professores. Foi no estudo de francez, que talvez se mostraram os primeiros signaes do meu temperamento literário. Os clássicos portuguezes não me interessaram profundamente. Achava divertidas as anecdotas de Manoel Bernardes. De Camões, só Ignez de Castro me agradava. O resto muito cacete. Dos latinos somente o rythmo de Virgílio me seduzia. Nada tão antipathico do que Horacio, com quem jamais me reconciliei. As primeiras e inesquecíveis lagrimas, que a musica literária me fez derramar, devo-as a Chateaubriand. Depois da iniciação no francez, o livro de estudo era os "Martyres" O assumpto me arrebatava. Gaulezes, merovingios, christãos, cezares, legiões, perseguições, catacumbas, sacrifícios, martyrios, tudo me transportava no vôo da poesia a uma região emotiva allucinante. O encanto maior não vinha do assumpto, estava no rythmo, na phrase. Havia momentos em que esta se apoderava de mim, suffocava-me e o meu único desafogo era chorar, chorar. Meu pae commovia-se com estas crises de emoção que eu procurava recalcar sem poder. Esta primeira erupção da sensibilidade se foi apurando, aperfeiçoando e nunca se embotando. Ainda hoje, cincoenta annos passados, Chateaubriand encontra em mim aquella mesma fiel resonancia dos meus dez annos e os "Martyres", me ficaram para sempre gravados nas cellulas impereciveis, onde se geram e se conservam as emoções da arte. Não reli mais o livro prodigioso. Não esqueci longos trechos e phrases sumptuosas. Quando appareceu o "Quod Vadis", para curar o enthusiasmo de alguns amigos por esse livro falso e nullo, dava-lhes'a ler os "Martyres", certo de que o prestigio de Chateaubriand seria avassalador. Que ânsia tenho de repetir aqui palavras da musica divina: "Sais-tu, me dit alors Ia jeune Barbare, que je suis Fée?" A magia do celta resoava em mim como a vibração de uma sensibilidade longínqua e immortal. Quem sabe se as minhas origens não têm de GRAÇA ARANHA a sua fonte nas mesmas vagas do mar da Armorica ou na mesma seiva dos carvalhos dos druidas e de Velleda? Nenhum dos meus estudos apaixonou tanto meu pae como o da mathematica, e o da geographia e astronomia. O alumno da Escola Central estava no seu verdadeiro elemento e alegrava-se em encontrar no seu filho uma disposição idêntica. Já ás seis horas da manhã a sua voz enthusiastica me despertava cantando: "lenha verde mal accende, quem muito dorme, pouco aprende" Num pulo saltava da cama, preparava-me, tomava o mingau de arroz e ia para a sala dos estudos no mirante. Meu pae me apparecia juvenil, radioso. Na profunda alegria da communhão espiritual a minha intelligencia alava-se. Problemas, equações, figuras, eram acrobacias, cujo jogo e cuja solução me traziam encantado naquelles maravilhosos instantes. Durante o dia estes estudos se repetiam em todas as occasiões em que meu pae estava disponivel. Porfiava elle em preparar-me rapidamente. Assim, nesse esporte, em dois annos pude fazer com brilho os exames de mathematica. Nesse momento estava destinado á engenharia, sobretudo ao calculo, devendo continuar as inclinações paternas. Só mais tarde as circumstancias decidiram que eu me formasse em direito. De par com os estudos de mathematica, appliquei-me á geographia e á astronomia, de que meu pae era mestre considerável. A geographia ensinada por elle era uma coisa viva, uma disciplina seductora. Cessava de ser uma nomenclatura de terras e povos para se tornar o ambiente physico e econômico do homem. Attrahia sobretudo a attenção dos seus discípulos para as terras do futuro, o Brasil, a África, a Oceania. A excitação da minha imaginação foi grande. Todas as terras ignotas e ainda mysteriosas me seduziam. Já referi que compuz nessa época um trabalho sobre a África, que serviu de guia para os meus condiscipulos. 0 gosto da informação exacta ia se impondo ao meu espirito cada vez mais ávido de novidade. Porque meu pae possuia livros, como toda a obra de Elysée Reclus, que ninguém conhecia no Maranhão, eu sentia encanto de descobrir essas novidades e dal-as em resumo aos professores e aos collegas. Que decepção tive quando no exame de geographia o meu ponto escripto foi a velha Áustria, e do de oral, a conhecidissima Allemanha. Eu que era um turuna das terras novas, selvagens, terras do futuro! Tive de me resignar a escrever sobre o moribundo império austro-hungaro, mas no exame oral evadi-me da Allemanha para a astronomia. O ponto de partida foi habilmente procurado, quando, descrevendo os reinos do Império germânico, toquei no Wurtemberg. Falei na cidade de Wief. Foi ahi que nascera Kepler. Expuz de cór as suas famosas leis e pedi para escrever as suas formulas na pedra. Sabia-as na perfeição. Podia deduzil-as, o que fiz deante do auditório surprehendido. Apezar desse brilharete, não me deram a distincção cobiçada e assegurada pela minha applicação. Deram-me plenamente por causa do meu deficiente exame escripto. Nunca mais perdoei a Áustria, culpada do desastre. Vinguei-me delia e da Allemanha na guerra mundial. Foi até hoje a maior humilhação da minha vida. Eu, o menino atilado e estudiosissimo, filho e discipulo do maior professor de geographia e astronomia da cidade, não ter distincção, era de morrer de vergonha. Entrei em casa em prantos. Foi uma choradeira geral de minha mãe e dos inconscientes da casa, meus irmãosinhos e dos criados. Meu pae escondeu superiormente a sua tristeza. O espirito da victoria insufflou-me sempre. Todo e qualquer insuccesso me tortura indefinidamente. Ainda hoje, depois de tudo que venci na vida, a lembrança desse longínquo e insignificante desastre me aborrece. Quando penso nelle, sinto ainda vergonha do menino de doze annos, que eu era então. O estudo da philosophia, que se seguiu, excitou-me muito. Desta vez meu pae não era professor. Entregou-me a dois padres. 0 curso do famoso padre Fonseca era de manhã no lyceu. O professor era a maior figura do clero do norte e um dos mais conspicuos sacerdotes brasileiros. Alto, secco, pallido, asceta, sabedor, argumentador. Tinha bondade e sarcasmo. Contavam-se os seus rasgos de caridade. Contava-se também que uma vez appareceu num baile de carnaval, fantasiado de Diogenes com a lanterna accesa a procurar um homem inverosimil e a fustigar toda a gente com a sua mordacidade implacável. Jogos ecclesiasticos. Padre Fonseca era a alma do jornal a "Civilisação" Combatia ferozmente a irreductivel incredulidade dos maranhenses, animava a campanha do bispo contra o relaxado clero, afundado na sodomia. Padre Fonseca não temia adversários.

Provocava-os. Assim atirou-se contra Tobias Barretto e a polemica que se seguiu foi deplorável. Os adversários acanalharam-se, sem proveito algum para a dialética de ambos. Muito differente o outro professor, o padre Gil. Encobria a sua modéstia numa grande doçura. Marchava como uma criança nos passos do padre Fonseca, receioso de tomar caminho diverso. O que elle me ensinava era indifferente. Para quem vivia na sarça ardente do terrível padre Fonseca, aquellas prelecções apagadas, sem sabor, do louro padre Gil incitavam a distracção e o desinteresse. Para isto ainda mais concorria o ambiente dessas aulas. Era no jardim do Seminário de S. Antônio, á tarde depois do jantar. Silencio delicioso. Cantos de pássaros, murmúrios de repuxos d'água. Seminaristas de negro ao longe passeavam em forma. O padre explicava baixinho em voz sem timbre. O meu espirito pairava metaphysicamente, longe da lição livresca. A imaginação fazia acrobacias no infinito. Não era isto a verdadeira philosophia? O que me ensinavam era baseado na summa de S. Thomaz. O curso era em 1881. Em 1879, Leão 13 tinha baixado a encyclica Aeterni Patris mandando propagar a doutrina thomasina. Naturalmente os meus professores padres obedeciam religiosamente á ordem do chefe da Igreja. Padre Fonseca punha no seu magistério o fervor do seu autoritário gênio. Foi por essa occasião que o meu temperamento se chocou com o do meu mestre. Neste ingênuo conflicto entre um velho esgrimista da polemica e um menino de treze annos, apontava a aurora do homem livre que eu seria. A questão em debate foi a existência de Deus. As provas da summa pareciam-me inacceitaveis. A prova do motor immovel tirada de Aristóteles, desenvolvida pelos philosophos árabes da Edade Media e reconstruída por S. Thomaz, era para mim absurda. A hypothese do motor desejo era demais subtil e ridicula. Na ausência de provas, eu preferia a formula de S. Anselmo, adoptada por Descartes, que explica a existência pela essência. A idéa de Deus seria uma idéa innata, indemonstravel. Foi um alarma na aula a minha opposição. A' tarde desse dia para mim memorável, o padre Fonseca veiu advertir meu pae dos perigos, que corria a minha fé religiosa. A indulgência do meu pae foi perfeita. Procurou sondar o meu espirito de negação. Não posso recordar-me das linhas do seu exame, mas é facto que sem estorvo continuei na minha revolta. Por vaidade, por estimulo esta se foi accentuando, crescendo, e antes de se enraizar acabei precipitadamente, negando Deus. 0 meu espirito voltou ao cháos inicial. Estava prompto para receber a hypothese scientifica, emancipada da theologia, que lhe satisfizesse a ansiedade da explicação do universo.

A casa da minha infância não foi somente a deliciosa morada dos divertimentos infantis e dos primeiros ardentes contactos com o conhecimento. Foi também ali que eu passara alternativamente das zonas do encantamento ás zonas do pavor. Como em todas as grandes casas maranhenses, essa tinha os seus socavões, os seus subterrâneos, os seus quartos escuros. Nesses esconderijos estavam penando as almas dos escravos e não raro os ossos das aves, dos gatos, encontrados nos socavões, eram tidos como de humanos mortos no tronco a bacalhao. O regimen da escravidão não existia em minha familia, mas a casa vinha do passado de outros e trazia comsigo terriveis mysterios. Os negros, que nos serviam, entretiam em nossos espiritos esses terrores. Nenhum menino se aventurava em penetrar nesses logares malditos do casarão. Todos passavam por ahi, de fora, ás carreiras, fugindo á assombração.

O estado de magia, em que eu vivia, era cultivado por dois dos maiores educadores, que tive na infância. Já falei da velha Militina que me contava as historias cultas, lendas árabes, portuguezas, transmittidas ao seu menino com accento dramático e pathetica convicção. O outro mystificador foi o meu maravilhoso Sabino. Esse cafuso teria a idade de meu pae, fora seu escravo, e uma vez liberto consagrou-se a mim. Militina instruída, Sabino analphabeto, me exaltaram a imaginação. Sabino era mateiro e pescador. As suas experiências florestaes e marítimas eram inextinguiveis. Caçador de paca e de veado, que só elle! Pescador de rede, de puçá, de arrastão, não perdia tempo no anzol. Conhecia aquellas marés caprichosas, sahia fora da barra para trazer peixe grande, caminhava sobre as coroas de areia, fazia cercas, curraes e apanhava a peixarada grande e miúda, que era um regalo em casa. Outras vezes desapparecia, deixando-me desesperado com a sua falta. Surgia uma tarde, ao escurecer, immundo, negro, irreconhecível. Vinha do "carvão", em cujo serviço de abastecimento aos vapores se empregava abandonando caçadas e pescarias. A sua feria permittia-lhe algum descanso. Vestia-se endomingado, não trabalhava, passava o dia a contar-me historias e a beber nas tavernas. Por elle familiarisei-me com o currupira, o caboclinho que tem o rastro ao contrario, que o assombrou no matto e de que se livrou dando-lhe fumo. Por elle entrevi o sacy-pererê, a mula sem cabeça, e todos os agoures florestaes. Mas nenhum maior beneficio lhe devo do que a poesia da mãe d'água. Foi o meu primeiro amor. Sabino me contava com tanto deslumbramento a maravilhosa mulher encantada, que elle vira tantas vezes nas fontes, nos poços, nos rios, que o seu êxtase gerava em mim uma dolorosa ansiedade. As minhas entranhas agitavam-se mysteriosas, inconscientes no desejo da formosa mãe das águas.

O conto allucinava-me. Sonhava acordado com a encantada. Quando descobri que para vel-a não precisava ir ao segredo da matta, que ella que estava em todas as águas, poderia apresentar-se ali em minha casa, surgindo do poço tão fundo, não tive mais socego. A' tardinha fugia dos estudos, das brincadeiras, de toda a companhia, e vinha solitário esperar a mãe d'água. Os meus sentidos perturbados me faziam vel-a ás vezes, e ella me sorria emquanto penteava os seus infinitos cabellos dourados. Este amor me seguiu e me deu a magia pela vida a dentro. Um dia para me desembaraçar da divina obsessão, eu transpuz esta profunda primeira encantação para uma obra de arte. Libertei-me da mãe d'água. Pude amar humanamente. Magia. Nas suas infinitas conversas, Sabino conspirava commigo para quando eu fosse grande morássemos juntos. O nosso pacto era conservar-me eu solteiro, termos a nossa casa á bocca do matto, para os nossos passeios a cavallo. Esse plano foi realizado em parte. Sabino acompanhou-me durante o meu curso acadêmico no Recife. Depois foi commigo á minha primeira promotoria em Guimarães, e á segunda no Rosário. Moramos sósinhos, tivemos os nossos cavallos de sella. Galopamos, esquipamos pelos campos, pelas mattas. Pescamos no Itapecurú. Não encontrei o currupira, nem o sacy-pererê, nem o caboclo-peixe. Tinham desapparecido na minha infância. Só nas fontes dos meus olhos boiava a perenne imagem da mãe d'água. A imaginação, excitada pela magia selvagem, ia alar-se ainda mais pela infiltração de outro feitiço. Esse, que já me viera nos contos de Militina, augmentava o seu poder transformador nas primeiras leituras clandestinas. A idade dos brinquedos com os meus irmãos e as meninas vizinhas passara para mim. Os estudos me foram desagregando dessa cellula infantil, a que as outras crianças do meu grupo continuavam ligadas. Desde a geographia das terras barbaras e a astronomia, que me deram o gosto do mysterio e do inverosimil, os jogos infantis se tornavam pobres de sonho. 0 meu desvio foi para os livros das estantes de meu pae. Eu os carregava commigo para o telhado da casa para onde eu passava pela janella do meu quarto de estudos no mirante. Fechava por fora cautelosamente a janella e sentado nas telhas lia desbragadamente. A paizagem era toda a cidade. Bem próximo os quintaes da Sé, mais além Santo Antônio, os jardins do convento, a quinta, até a Fundição, Remédios, a Currupira e as quintas do Anil. Do outro lado, a rua da Estrella até ás Mercez, a rampa do Palácio, o Thesouro, o Bacanga, o porto com os vapores carvoeiros e as barcas, os brigues, as galeras de tão longe, os rasos vapores fluviaes e os ousados barcos costeiros. Tudo moroso, pachorrento e triste nas tardes quentes que a noite fecha rapidamente, quando na Sé batem as aves-marias, os homens se descobrem e as mulheres se persignam. Era a hora, em que eu seguia na traducção portugueza, Don Quixote e Sancho, e vivia no mundo picaresco e tenebroso de Gil Blas. Era o realismo hespanhol que sobretudo me perturbava. D. Quixote para a minha idade infantil figurava então um personagem lendário como o gênio da lâmpada e do anel. A lição de humanidade me escapava. A realidade, a vida que se descobria á minha curiosidade impaciente eu a encontrei pela" primeira vez transposta nas paginas de Gil Blas. Ladrões, rufiões, cortezãs, actrizes, poetas, fidalgos, arcebispos, licenciados, alcoviteiros, ministros, eram conhecimentos novos e quanto seductores! A traducção em que eu Há era maranhense. Até hoje não sei quaes os seus autores. E' uma maravilha de transposição do hespanhol para o portuguez. Nella não se encontra o menor vestígio do texto francez que foi uma deformação de uma obra, cuja matriz só podia ser em castelhano. O portuguez da traducção corresponde á veracidade hespanhola. E' a língua do tempo do romance e cada palavra do picaresco lusitano forma facilmente o ambiente hespanhol. Desta vez a traducção é superior ao original e o encanto de Gil Blas se torna maior. Para mim que vinha alimentado de fábulas, de magias, de prosa poética e que tinha sede de realidade, Gil Blas foi regalo substancial, que me nutriu para sempre. O meu espirito ficou perpetuamente attrahido pela fantasia e pelo realismo. Ao mesmo tempo que me abysmo no mais profundo realismo, me dissolvo no mais transcendente idealismo. Nesse instante ainda infantil, em que me apavoravam os terrores dos socavões e dos tenebrosos mythos florestaes e eu divagava nas scismas lyricas do mirante e do telhado, essa lição de realidade aos dez annos foi uma disciplina. Foi o equilíbrio entre o socavão e o telhado.

Nesse casarão, que era o meu mundo, onde se expandia a minha pequenina vida, tive os primeiros contactos com as personalidades provinciaes. Meus pães eram extremamente visitados. Todo o Maranhão ahi desfilava e eu me familiarizava com os presidentes de província, senadores, deputados, chefes políticos, artistas, professores. Quando chegava vapor do sul, as notabilidades em transito pela nossa cidade vinham saudar meu pae, que era uma das pessoas mais consideradas do norte. Isto contribuía muito para se desenvolver em mim desde a meninice o instincto da sociabilidade. Assim como pela primeira educação em collegio de meninas me tornei simples, confiante e natural com as mulheres, perdi toda a timidez com as pessoas grandes por mais extranhas que fossem. Abordava-as francamente, não receiava de responder-lhes e mesmo de interrogal-as. Era o menino abelhudo, sôfrego de saber tudo. Não tinha receio de indagar do inventor paraense

Júlio César o segredo do seu balão dirigivel e ouvia sem comprehender as suas complicadas explicações feitas para meu pae e não para mim. Nenhum medo de perguntar ao barão de Teffé pelas suas sondagens do porto do Maranhão e de insistir para que acabasse com as coroas de areia. Interrogava o chefe politico Gomes de Castro para que me dissesse quando esperava liquidar os maistas e os libertes. Mettia-me em tudo e não tenho lembrança de uma repulsa das victimas do meu espevitamento. Uma personalidade vejo deante dos meus olhos e de que não me lembro em nenhuma conversa. Entrava em minha casa diariamente. Vinha do palácio da presidência. As ordenanças ficavam na porta da rua. Era o presidente da provincia. Era meu avô materno. Minha mãe, quando elle surgia esfogueado na varanda, levantava-se risonha, tomava-lhe a benção. Nós, seus filhos, a imitávamos para logo nos afastarmos. Vovô não se sentava. Marchava pela longa varanda, abanando-se com um leque e suspirando indignado: "que calor! que calor!" Minha mãe balançava-se docemente na cadeira de balanço. Vovô ia e vinha pela sala. Uma ou outra vez dizia uma palavra. Não acceitava nada para merendar e ao contrario da gente da terra não reclamava o copo d'água. O seu silencio, o rythmo da sua marcha tornava tudo mais calado, mais morno. O homem que caminhava era ágil e elegante. Devia nessa época ter pouco mais de sessenta annos e mantinha os traços da belleza que o fizera ganhar na Academia, o apeUido de "cara linda" Lembro-me bem dos seus olhos azues, da sua pele clara, muito rosada, do seu aprumo no vestuário e da limpeza da sua casa da rua da Estrella, onde viuvo morava com a filha mais velha, uma mulher extravagante, solteirona que envelhecia fazendo versos amorosos por entre as chacotas dos irmãos e dos sobrinhos. Falleceu velhinha no Rio, improvisando versos na

Sua cama de moribunda. Meu avô desappareceu um dia do Maranhão. De presidente da relação fora promovido a ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Quando eu me preparava para conhecel-o bem e já vinha do Maranhão nomeado juiz substituto em Campos, tive na passagem pelo Ceará a noticia do seu repentino fallecimento na epidemia de febres de janeiro de 1889. No Rio, a sua vida se confinava em casa e no Tribunal. Uma atmosphera de immenso respeito o cercava na familia e no foro. A sua honorabilidade immaculada, a sua grande distincção pessoal, a sua aristocracia de pensamento e de hábitos, formavam o halo em que viveu cercado. Não sahia jamais de casa a não ser de carruagem para o Supremo. Recebia os seus velhos amigos como Cotegipe e Paranaguá, Mamoré, Sinimbú, a gente da familia, è muita moça bonita. O velho gentilhomem sentia necessidade desse permanente contacto da belleza feminina em flor. Persistia nelle aquelle ardor varonil, que o tornara um dos mais galanteadores e dos mais afortunados dos jovens do Recife, dos homens do Ceará e do Rio, onde viera como deputado cearense e do Maranhão onde fora maduro como desembargador. Era do grupo dos leões do Norte e o seu rival em conquistas amorosas era o seu primo Maciel Monteiro, talvez mais venturoso e pelo me-nos o único celebrado. Minha mãe contava, ufana, as proezas do pae, que morrera barão de Aracaty, sua terra natal, os ciúmes de minha avó, moreninha brava, pernambucana bonitinha, marcial, filha do general gaúcho Alencastro. Meu pae commemorava as rivalidades do "cara linda" e do primo poeta, com os olhos em êxtase para a minha bella mãe, recitando, eterno namorado, o soneto de Maciel Monteiro: "Formosa! quem pode amar-te sem morrer de amores!" Minha mãe, que nascera no Recife, passara a infância no Ceará, viera para o Maranhão apenas pubere, e logo prestigiada pela admiração da sua belleza. Quando o pianista Arthur Napoleão a viu, registrou nas suas memórias a impressão que lhe fizera a "encantadora mocinha de dezoito annos" Era a Sinhá Graça, a dona das graças, da formosura, do pudor, da sympathia, da bondade. Mais tarde, ajuntou a estes dons, os da energia, do caracter desassombrado, do enthusiasmo, da intelligencia nativa. Morreu aos 84 annos a velhinha phenomenal pela viveza, pela magnanimidade, pela abnegação, pelo ardor juvenil. Na sua longa existência conheceu a felicidade e a amargura. Jamais o desanimo. Uma fé evangélica a fortificou na vida. Era intima com Deus. Repousava confiante, socegada, nelle. Esta intimidade dispensava intermediários entre ella e o seu Criador e Pae. Se tinha ternuras por Nossa Senhora, por São José, por São Francisco de Assis, São Luiz Gonzaga, e ultimamente por Theresinha de Jesus, não era com o indefectível sentimento polytheista que faz de Tribusi). dos santos, deuses. O seu monotheismo era rigoroso, biblico. Deus a entendia e nas horas da afflicção a soccorria muitas vezes de modo sobrenatural e o perfume do milagre embalsamava a existência da devota. O retrato a lápis (crayon-fusin) de minha mãe, ainda solteira, que tenho deante de mim, é do anno do seu casamento, 1867. 0 artista que o desenhou, Horacio Tribusi, maranhense de nascimento, mas filho de italiano, do velho Tribusi, pintor de longas barbas brancas e professor de desenho, deu uma postura e uma expressão da Gioconda a seu modelo. Só lhe falta o sorriso. A belleza é pura, a testa pequena, frontespicio de um proporcionado craneo desapparecendo na cabelleira negra, de onde aponta a orelha esquerda finamente modelada. O rosto oval emmoldura as maçãs macias, descem suaves ao queixo maravilhoso, o nariz grave suspende-se sobre a bocca espiritual, que abotoa o sorriso. Nada mais classicamente italiano. Realidade em projecção racial subjectiva do artista? Quando conheci conscientemente minha mãe, a delicadeza do corpo juvenil tinha desapparecido. Engordara. Â madona virginal fora substituída pela matrona ainda graciosa. Conservava a leveza do andar no compasso senhoril. O seu rosto mantinha-se bello e delicado, e o olhar de olhos negros era ineffavel de doçura e vivacidade. Não ficaram densas as suas feições, como acontece ás bellezas tropicaes. O que se tornara volumoso, fora o corpo, castigado por uma excessiva maternidade. Na velhice, minha mãe emmagreceu e retomou paradoxalmente a sua espiritualidade juvenil. Foi uma velhinha esperta, viva entre os vivos, inspirada por um espirito perpetuamente enthusiasta. Esta chamma consumiu-lhe a materialidade. Acabou santamente com pouca carne e muita alma. O meu avô paterno seguira a tradição dos Macieis e dos Aranhas. Fora lavrador e militar. Batera-se contra a bálaiada e foi major das milícias. Um irmão morreu ao seu lado no combate de Areias. Lembro-me delle já ausente dessas profissões, na tranquillidade do funccionalismo provinciano. Imagino o seu espirito muito limitado. No tempo do nosso conhecimento, a sua grande preoccupação era ó prestigio da irmandade do Senhor dos Navegantes, de que era um dos ardentes provedores no empenho de offuscar o brilho da velha irmandade do Senhor dos Passos. Essas rivalidades de confrarias enchiam grande parte da vida maranhense. Só eram excedidas pelas outras rivalidades, a da politica e da grammatica. Vejo meu avô, muito alto e espadaudo, vestido da opa roxa com capuz azul da sua irmandade, governando a igreja e commandando com a vara de prata dos provedores, as procissões quaresmaes. Depois o vejo deitado em uma rede, pitando um longo cachimbo de taquary no seu quarto da casa térrea da rua de Santo Antônio, na vizinhança da igreja, onde era a sua devoção. Noutra rede, a sua segunda mulher, madrasta de meu pae, também cachimbava indolente e muda. Nos outros quartos ou na varanda, minhas tias, suas filhas, já maduras, cantavam ao violão acompanhadas de seus namorados. As negras, na cozinha ao fundo, preparavam o carurú, o arroz de cuchá, manaués, pamonhas, arroz doce, para as refeições. Cachos de banana amadureciam, dependurados nos postes da varanda, ao canto dos sabiás, das graunas e dos curiós, presos nas gaiolas. No jardim, rosas, cravos, cravinas, mangeronas, malvas, em giráos e canteiros, gira-sóes, bugarys, espiradeiras roseas, limpa sapatos vermelhos. No corredor que ia para a cozinha vivia a velha irmã de minha avó postiça, balançando-se na rede, abanando-se, soprando afogueada, abafada, o tumido carão congesto, o narigão rubro. Tinha a fobia do abafamento. Não tolerava casa fechada,

Jo: paterno de GRAÇA ARANHA abria todas as janellas, não admittia garrafas e frascos arrolhados. Soffria dolorosamente por elles. Nos seus accessos mais violentos sahia do seu quarto á noite e ia desenterrar no quintal, as garrafas que de cabeça para baixo faziam a cercadura dos canteiros. Na familia do meu avô paterno o preconceito contra os negros e os mestiços, era aggressivo. Zelava-se a pureza da raça com furor. Esses Macieis Parentes e Aranhas não se cruzavam com os Índios. O cruzamento com negros e mulatos seria uma abominação. No interior da província, encontrei muitos desses meus parentes, na extrema indigencia, de pés descalços, meros trabalhadores empregados nas fazendas, mas conservando a integral pureza do sangue branco. Eram geralmente louros, de olhos azues, typos que se reproduziram na maior parte dos filhos de meu pae e se mantiveram em dois irmãos meus. Minhas tias paternas, como animaes de caça, farejavam e descobriam o mestiço por mais que este procurasse se disfarçar. Zeladoras infatigaveis do preconceito, se sabiam do projecto de casamento de algum parente, ellas se punham a indagar de todo o pedigree- da pretendida ou do pretendente e se descobriam a menor tintura de sangue negro ou bugre, não descansavam, emquanto não viam desfeito a malfadada alliança. Pobres tias, derradeiras representantes desse preconceito familiar a que talvez eu deva ser branco, morreram a tempo, antes da invasão da mestiçagem na velha familia. As devoções religiosas da minha familia paterna confinavam-se nos cultos da igreja de Santo Antônio, as devoções do Bom Jesus dos Navegantes, de Santo Antônio e de São Benedicto. A do santo preto competia em popularidade com a de Nossa Senhora dos Remédios. A festa dos Remédios sobrepujava em prestigio. Era a festa por excellencia do Maranhão. O largo dos Remédios fica em uma ribanceira á beira do Anil. No centro, um tronco de palmeira de mármore tem no cimo a estatua de um homem. E' Gonçalves Dias. Em baixo no pedestal, os medalhões de Odorico Mendes, João Lisboa, Gojes de Souza, Sotero dos Reis. A poesia, o pensamento, a sciencia, a grammatica. Orgulho do Maranhão. Durante o anno inteiro toda a gente prepara-se para a festa dos Remédios. O maior tributo é vestir nesses dias roupa nova. Não ha moleque que não ponha um fato feito expressamente e as negras vestido novo. As minhas recordações são muito reduzidas. Na adolescência não assisti á festa dos Remédios que era em outubro, quando eu estava no Recife. Lembro-me de uma aglomeração de gente festiva tão numerosa que por sortilegio da imaginação imagino comparável ás maiores multidões que assisti em Londres ou Pariz. Lembro-me do "tanque das tartarugas", estrado de uma casa de um dos maioraes do largo, onde se ostentavam homens enormes e mulheres gordissimas, vendo desfilar o povo de meninas faceiras, rapazes elegantes, a mulataria e a negrada de flor na cabeça. E as barracas de doces, de pasteis, de lanterna mágica, de cosmorama, da cabeça que fala e sobretudo a barraca da sorte, onde eu vinha alviçareiro, cubiçoso, á caça dos brinquedos fantásticos e de onde sahia murcho com uma gaita mesquinha ou um balãosinho de borracha. Que delicia nessa liberdade de chupar, em pleno largo, roletes de canna ou laranjas descascadas, como qualquer moleque! As meninas taludas e os moços bonitos passeiavam, namoravam na rua illuminada que passava pelo "tanque das tartarugas" e ia até a igrejinha. Nós, as crianças, misturadas com a arraia miúda, nos desforrávamos nas chupa-chupas, até a hora do fogo de artificio, que, queimando, nos punha extaticos. Quando, no final, o castello abrazava por entre estrondos de bombas, foguetes de lagrimas coloridas de "pistolas", aquella multidão incommensuravel ia debandando do largo. Não eram somente essas festas de igreja, as novenas, as missas cantadas, as procissões, que divertiam os maranhenses. Para mim, muito acima da festa dos Remédios, havia maior encanto na chegança e no bumba-meu-boi. A chegança é a commemoração da conquista dos portuguezes nas terras dos mouros. O Maranhão era bastante luzo para comprehender e festejar o drama-mysterio representado nas ruas da cidade. Seria como um rancho do carnaval carioca. Misturava-se á historia e á lenda. Vinham marujos portuguezes de uniforme azul e branco carregando a náo catharineta. 0 capitão-general commandando as tropas, dentro do quadro dos soldados o rei mouro primitivo, mouros e mouras escravizados. Um dos pontos em que a chegança representava, cantava e dansava, era em frente á casa de meu pae, sede do maior jornal da terra. Tudo muito severo, quasi religioso, no cerimonial. A musica dava o rythmo grave ás dansas. Fados tristes de Portugal combinavam-se com as ásperas melopéas mouras. A melancolia fluia nessas musicas da" saudade, do captiveiro e do desterro. Para quebral-a, o dialogo por vezes jocoso do capitão-general e do gageiro da náo catharineta, disfarçando nas chalaças gallegas o terror do destino. Como uma desforra á chegança portugueza, o bumba-meu-boi. Pelas ruas frouxamente illuminadas, uma massa sombria, envolta na luz pesada e fumegante dos archotes, movia-se ao clangor das melopéas barbaras. Chocalhos batiam ardentes. Eram os únicos instrumentos para as vozes cantadeiras. Os principaes personagens do drama, o pae Francisco e a mãe Catharina, puxavam as cantorias. O coro negro mugia soturno, profundo, doloroso: "Eh! bumba, bumba meu boi, boi de fama que Chico matou!" E o boi vinha dansando na algazarra dos vaqueiros e da populaça. Esse boi seria um heróe dos pastos do Piauhy, seria o Rabicho da Geralda ou outro famoso touro lendário. Um instante parava o rancho. Representava-se o drama em diálogos e em dansas e cantos. O boi sempre dansando, aguilhoado pela vara dos vaqueiros, desafiado pelo pae Francisco, que o ia matar. Mãe Catharina, plangente, entoava a canção da morte. Busca-pés chiavam, esfusiavam, vomitavam jactos de fogo. O boi intrépido dansava, dansava. Os negros do cortejo pintados de alvaiade de vermelhão e mais pretos tisnados de carvão, pulavam apavorados, em cabriolas com os fogos. O drama continuava dominando o alarido, a confusão, para terminar nitidamente com a morte do boi de fama, que Chico matou. Nesse tempo o que me divertia era o puro espectaculo, a acção theatral. Nenhuma literatura me perturbava para eu interpretar a funcção sertaneja como uma reminiscencia do culto egypcio do boi Apis, nem como a symbolica passagem da era pastoril para a civilisação agrícola. Theatro popular, theatro do sertão, que me vinha deslumbrar nas ruas pacificas da minha cidade. Era no São João, na época dos fogos, das fogueiras, dos jogos de prendas, das sortes reveladoras do futuro, da exaltação sexual das comadres e dos compadres, saltando fogueiras, onde pipocavam castanhas de caju. Merendavam-se batatas doces assadas, cangicas, pamonhas e mingau de milho verde, alcaçar, manaués e pés de moleque. Soltavam-se bichas, bombas, foguetes e corriam pelas ruas loucos buscapés. Em nenhum instante o enthusiasmo collectivo era tão intenso, nem mesmo no Natal. Abi, em vez do milho era a doçura, o prazer e o conchego familiar em torno do peru. Não sei até hoje porque no Natal emquanto o gallo canta, ha matança de perus. O drama do boi era substituído pelo mysterio da encarnação do verbo e do nascimento do Christo. Abriam-se nas casas e em plena rua os presépios, que toda a população visitava familiarmente. Vinham as festas dos pastores. A criançada alvoroçava-se. Quem não tomava parte nos ranchos e cordões, tomava partido pelo pastor mestre ou pela pastora mestra. Minhas irmãs figuravam sempre como pastoras, eu ficava entre as partidárias da pastora mestra, que surgia radiosa, conduzindo o seu grupo de pastorinhas a dansar com arcos de flores e a cantar ao som das tabecas, das flautas e dos violões. Musica singela, fácil, com versos simples que todo o mundo sabia de cór. Tudo era theatro, não mais o selvagem bumba-meu-boi, mas o drama Occidental, civilisado, transportado da Edade Media, e a que os portuguezesa juntavam personagens pittorescos que eram o casal de gallegos. No Maranhão tudo se passava suavemente deante dos presépios, a mangedoura com os personagens evangélicos, humanos e animaes, e no alto a estrella do Oriente. Mais tarde eu vi em Recife essas mesmas representações serem motivos de combate sanguinolentos entre os partidários do cordão azul e do cordão côr de rosa. Tal é a diversidade do temperamento maranhense e do temperamento pernambucano. O gosto do theatro ficou entranhado em mim. Embora recalcado, elle secretamente me conduziu na vida. Não era eu que seria uma personagem dramática, eram os outros e o mundo, que foram sempre o meu espectaculo. Este impulso para transformar tudo em espectaculo me deu o profundo sentimento da technica theatral a tal ponto que a minha composição literária se resente desta orientação. Muitas vezes eu penso o romance como theatro e não raro designar os meus capítulos como actos. Como no theatro, os meus personagens explicam-se por si mesmos. Os scenarios vivem pela luz, pela côr e entram na acção. O que abafou em mim o senso theatral foi o excesso de pensamento, que estorva a acção dramática. Mas mesmo assim esse pensamento denso move-se. Todo elle é acção, o que é da essência do theatro. No restricto quadro provinciano não me foi dado gosar da arte dramática, para desenvolvel-a em mim. Os meus grandes espectaculos foram estes da rua, chegança, bumbas-meu-boi, procissões religiosas, ou os pastores e os reisados. Desforrei-me.desta penúria criando para o meu deleite um theatrinho. Alliei o meu gosto ao de um primo, em cuja grande e triste casa preparávamos as representações. Logo que eu tinha uma vaga nos estudos, corria para ahi. Era no centro do commercio, na Praia Grande. Todo o bairro cheirava a bacalhau, a cebola, a alho e a carne secca. 0 silencio dos negociantes, no grande calor, era interrompido pela cantarola dos pretos do ganho fazendo carretas pesadas de barricas de vinho e transportando pianos dos meus tios, ao som dos chocalhos. O casarão bem portuguez era num becco, tinha dois andares. No primeiro os socegados caixeiros, no segundo a familia. 0 nosso theatro era em baixo, nos quartos que davam para o quintal interno. Gastávamos o nosso tempo em preparar o palco e pintar scenarios, para no fim de grande esforço representarmos em rápidos instantes algumas tolices, escriptas por mim, que pretenciosamente eram intituladas dramas. Essas, muitas vezes, eram tiradas de factos reaes, succedidos no Maranhão. Recordo-me do esforço em pôr em scena uma historia terrível da escravidão, que a velha Militina me contava. Um fazendeiro, casado com uma mulher bonita, voltando um dia de improviso da plantação, encontrara na sua própria cama a mulher em adultério com um escravo. Deu alarma. 0 negro foi preso pelos outros negros escravos e morto. A sua carne foi salgada e assim conservada. A mulher ficou detida no interior da casa, sem mais communicação com o marido e obrigada, para se alimentar, a comer, cozida, a carne do escravo. Viveu emquanto houve dessa carne. Quando esta se acabou, o fazendeiro mandou matar a mulher e atirar o corpo no campo para ser devorado pelos urubus. Como seria possível a um menino compor uma peça de theatro com este immenso horror? Ainda hoje, ao relembrar esta dolorosa historia, me compadeço do martyrio innominavel dessa desgraçada, condemnada a comer por entre lagrimas a própria carne do seu parceiro de volúpia. Imagino as insidias abjectas do appetite animal que a impelliria gosar desses repastos anthropophagicos. A escravidão no Maranhão não contem muitos factos tão horripilantes como este. Geralmente os maranhenses eram brandos e viviam com os escravos, em grande e suave familiaridade. Apenas me recordo de um único facto ter commovido e indignado a cidade. A mulher do chefe do partido liberal fora vehemente accusada de ter matado de sevicias um moleque, seu escravo. Os conservadores, no poder, aproveitaram a miserável circumstancia, processaram e levaram até o jury a odiosa assassina. Desse drama, a impressão mais viva, que me ficou, foi a agitação na minha casa durante o julgamento. 0 tribunal do jury era na vizinhança. Os políticos vinham repousar e esperar a sentença na companhia de meu pae, figura considerável do partido conservador. Ainda vejo a scena, que eu espiava ardendo de curiosidade. Vejo a figura attrahente, fascinante, de Celso Magalhães, o promotor publico. Em torno delle, uma admiração enthusiastica, commovida, que eu não comprehendia, mas cuja intensidade me avassalava. Das impressões que então recebi, ficou-me a imagem de um rapaz muito magro, feio, ossudo, encovado, movei e falador. Não me lembro como se trajava, apenas me recordo de que trazia na botoeira do paletó uma flor vermelha, lagrima de sangue, que por muito tempo se chamou no Maranhão a flor do Celso. Morreu moço, logo depois da subida dos liberaes ao poder, cujo primeiro acto de governo fora demittir a bem do serviço publico o promotor, que ousara accusar a assassina do escravinho Innocencio. Mais tarde, tive consciência do grande merecimento de Celso Magalhães. Foi um dos precursores do abolicionismo na poesia, com o seu poema "Os Calhambólas" Na Academia, foi um dos espíritos tocados da sciencia moderna. Pertencia ao grupo predestinado a realizar no Brasil a reforma espiritual, que o darwinismo e as sciencias physicas tinham imposto á Europa. Foi elle quem primeiro estudou scientificamente o folk-lore brasileiro, num ensaio primacial sobre a poesia popular, dando o signal de partida e a orientação para os estudos de Valle Cabral, Sylvio Romero, Couto de Magalhães, Barbosa Rodrigues e tantos outros. Meu pae o estimava extraordinariamente e o teve como collaborador conspicuo no "Paiz" Os seus folhetins eram vivos, de uma acrobacia prodigiosa, onde a intelligencia não se deixava entorpecer pela erudição. Depois da sua morte e já eu era acadêmico de direito, quando li o manuscripto do seu drama "O processo Valladares", confiado a meu pae. Esse manuscripto foi remettido ao meu tio Heraclito Graça, residente no Rio, que o passou a Arthur Azevedo. Não foi representado nem publicado e jaz na Bibliotheca Maranhense. Arthur Azevedo fez publicar em 1881, na Revista Brasileira (2.a phase), depois da morte de Celso Magalhães, o romance "Um estudo de temperamento", que elle lhe entregara no Recife em 1873. A publicação não foi concluída por ter cessado o apparecimento da Revista. E' um ensaio de romance naturalista, dos costumes provincianos, romance, que anticipava o "Mulato" de Aluisio Azevedo. O Maranhão era fiel á tradição verbal portugueza. A disciplina de Sotero dos Reis e dos seus epígonos grammaticos abafava a espontaneidade espiritual e a liberdade de dizer. Celso Magalhães reagiu contra esse esmagamento e sua prosa vibrante criou novos rythmos para o pensamento. Quando Aluisio Azevedo surgiu com o seu realismo, o caminho estava aberto. Gloria a Celso Magalhães, morto aos trinta annos, esquecido hoje como Rocha Lima, do Ceará, também prematuro e genial representante da cultura livre, num paiz de incultos e aos quaes faltou o intenso dom de poesia, que tornou famosas as mocidades de Alvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e' Castro Alves. A reacção de Celso Magalhães não se limitou á expressão verbal, attingiu á própria cultura. Antes delle pensava-se no Maranhão á portugueza. Toda a illustração, toda a erudição era lusitana ou vinha por Portugal. O próprio Gonçalves Dias, que pelo seu sangue mestiço e pelo seu contacto pessoal com as civilisações européas, devia exprimir a revolta contra o jugo literário portuguez e trazer ao espirito maranhense aspectos mais largos e novos, submetteu-se, e nessa vassalagem talvez se explique a deformação do seu gênio brasileiro. Não precisa remontar a Odorico Mendes para testemunhar a fidelidade maranhense ao espirito portuguez. O propicio e grande João Lisboa não reformou a prosa brasileira. Ampliou-a, enriqueceu-a, coloriu-a, mas guardou o rythmo tradicional. Assim, já eu disse que o seu estylo conserva as características portuguezas, a Unha horizontal, a planície. Mesmo carregado de intenções, de rancores, de sarcasmos, o estylo de João Lisboa é plano, largo, dando a sensação da serenidade. Nesse estylo as agruras, as culminancias abrandam-se, as profundidades e os abysmos mascaram-se e tudo o que é áspero e violento perde-se em tranquillidade, pela vastidão da phrase. Celso Magalhães annunciou na sua expressão viva e nervosa o estylo vertical de hoje, estylo que se eleva em altura e penetra em profundidade. Estylo synthetico, sommatico, explosivo. No pensamento, foi innovador. Se não tem o gênio de Tobias Barretto, nem a sua força demolidora e a de Sylvio Romero, insinuou coisas novas á cultura de seu tempo. Nos estudos do folk-lore e da linguistica, impregnou a orientação de Bopp, de Max Muller, e as visões de Vacherot e Ewald, de Renan em matéria religiosa, e na critica foi discípulo de Sainte Beuve, Taine e Scherer. Tudo novo, tudo fecundo para a emancipação espiritual do Brasil. Emfim, o Maranhão se libertou do jugo da grammatica e da disciplina intellectual dos bisonhos clássicos portuguezes. Celso Magalhães se tornava brasileiro pela revolta, pela inquietação, pela actualidade. Já as "chuvas de caju" tinham passado, os cajueiros tinham florido, e os frutos amadureciam nas arvores. Era tempo de irmos para o sitio, no Caminho Grande. Parte da familia seguia por terra na machambomba carregada de crianças, criados e bagagens. Eu era do grupo superior, de escaler, pelo Anil acima. De manhãsinha, vinhamos a pé, pela ladeira da Barreira a Praia do Caju, onde o escaler de meu tio, irmão mais velho de meu pae, nos esperava. A maré enchia e com a sua ajuda a pequena embarcação subia o Anil. Emquanto deixávamos essa praia do Caju, onde muitas vezes tomei banho salgado em banheiro fechado por causa dos tubarões e onde nas marés baixas, eu com outras crianças vinha apanhar conchas, caranguejos e siris, emquanto passávamos pela praia de Santo Antônio, pela Fundição, pelos Remédios, e olhávamos a estatua de Gonçalves Dias, a quem meu pae, invocando-o, nos estimulava a render-lhe commovido preito, e deixavamos a cadeia, a Gamboa do Matto, e do outro lado, Vinhaes, e penetrávamos na esteira solitária dos sitios, eu ia experimentando a água do rio salobra até que ella passasse a ser doce. Era signal de que estávamos na proximidade do sitio e a alegria da vadiação augmentava.

De longe, na curva das águas, descortinávamos a casa da morada e já na praia estavam os que nos precederam na machambomba. A algazarra dos meninos, dos moleques e negrinhas nos tomava e mal eu punha o pé em terra, eis-me correndo com elles para debaixo dos cajueiros. Sacudindo as arvores, ou trepando nas que se esparramavam pelo chão, nos regalávamos a chupar sob a imprecação das criadas, que temiam as nodoas para as nossas roupas. Mas desdenhávamos esses receios. Sabiamos que nossas roupas eram velhas, reservadas pela previdência de minha mãe, para essa época do sitio, sem preoccupação de conserval-as. As sombras immensas das mangueiras davam uma calida doçura ás alamedas que levavam do porto e da estrada do Cutim á grande vivenda. Passava-se o dia debaixo das arvores, e quando não chovia, eram ahi no chão de folhas seccas, as refeições. Redes armadas nessa sombra das arvores para conversar, para cochilar e dormir a sesta. Era o dominio de minha mãe. Raramente meu pae repousava. O seu gênio andejo e curioso não o deixava socegado. Seguido pelos filhos mais velhos farejava todos os recantos do sitio, embarafustava pelo matto e eil-o radiante de volta das suas vadiações, trazendo frutas e flores selvagens. Passava-se o dia em perpetua merenda, bolos do Maranhão, os famosos bolos podres, manaués, pamonhas, cangicas, alcaçar. Bebia-se garapa, chibé, água de coco dos coqueiros do sitio, e assahy da Jussara, apanhada no alagadiço da fonte. As frutas eram as que davam fartamente os cajueiros, as mangueiras e as goiabeiras. A's vezes tínhamos bacury que era um encanto pelo perfume, pela brancura dos "filhos" e da polpa dos caroços. Fazia-se fogueira e assavam-se castanhas de caju. Um cheiro forte de resina perfumada vagava sob as arvores. A castanha assada era fartamente gosada. Nessas comezainas que intercalavam os almoços e jantares de peixadas, gallinhas de molho pardo, pacas e cutias compradas na estrada aos caboclos da Maioba, perus recheiados, leitões assados, levava-se um mez de bombança. Essa deliciosa estação nos sitios do Caminho Grande, á margem do Anil, ainda tinha menos encanto do que o tempo de nossas ferias na Maioba. Essa era a grande novidade. Começava a allucinação com a viagem. Sahiamos de madrugada do largo do Palácio de bonde e machambomba com os criados e as bagagens até o Cutim. Banho no regato fresco, correndo por entre as sombras das arvores. Cavalleiros que vão para a Villa do Paço. Caboclos carregados que passam para a cidade e nos vendem peixe muqueado, beijús, brôa de milho. Almoço no chão morno. Água fresca do Anil. Pela estrada vão as mulheres e as crianças nos carros de boi chiando como cigarras, que no Maranhão não existem. Meu pae, os seus dois irmãos mais moços ainda jovens, eu e Sabino a cavallo. Quando chegamos ás fontes do Anil, Sabino torna-se prodigioso. Apea-se da montaria e sobe lépido pelas jussadeiras mais corpulentas. Com a sua faca de marinheiro, corta a penca das frutas pretas de maduras. Delirio da criançada, que apanha rapidamente as jussaras que se desprendem do cacho. Adeante Sabino trepa em um burityseiro de cachos amarellos, verdes e vermelhos. Corta o vermelho. Todos imaginam os regalos que os esperam dos refrescos de assahy e burity. Para adeante, sob o sol ardente. Os rapazes a cavallo, galopam para surprehender as lavadeiras nuas no rio da Paciência. Gritos de espanto e de pudor das raparigas. Gargalhadas. Ameaças de furto das roupas. Prazer. Chegam os carros de boi com a familia. De cima da ponte, olham-se as caboclas, apenas com as cabeças de fora, espetadas na água, toldando o rio com as areias remexidas. Os rapazes querem despir-se e caçal-as dentro d'água. Meu pae prohibe e a caravana prosegue, saudosa do breve encanto bucólico. O sitio onde nos aboletávamos era na Maioba, perto desse delicioso Paciência. O seu proprietário, o negociante dinamarquez Martinus Hoyer, homem emprehendedor, tão útil ao Maranhão, o cedia graciosamente a meu pae, cujo gênio hospitaleiro e bondoso ahi se expandia radiante. Vinham convidados da cidade, famílias inteiras que se agasalhavam na grande promiscuidade nortista. Ranchos de mulheres separadas de ranchos de homens, gente em rede, em colchões e esteiras pelo chão, todos contentes dessa folga na roça. Meu pae exultava e queria que a sua alegria fosse a de todos, mesmo da pobre gente da redondeza. Para attrair os caboclos, punha um barril de cachaça no terreiro, surrões de fumo de corda, e não havia matuto que passasse no areial quente da estrada, a pé ou a cavallo, que não fosse chamado para um trago de restülo e uma tora de fumo. Era o principal divertimento diário do sitio, essa generosidade dos brancos de mistura com o acanhamento e a bebedeira da caboclada. Por gratidão, os caboclos vinham com as suas violas cantar ás noites, que deviam ser de luar. Outras vezes improvisavam um bumba-meu-boi, em que não havia, como na cidade, o ataque dos busca-pés, mas havia muita cachaça para excital-os. Não foram somente estas impressões vadias e alegres que colhi nos sitios. Trouxe também delles, uma séria provisão de maleitas. Ainda me perdura a remota sensação de surpresa e terror, das primeiras manifestações do impaludismo. Tremulo de um calafrio desordenado, puzeram-me na rede, que o meu violento tremor sacudia loucamente. Attento aos movimentos absurdos, novos e curiosos desse mal imprevisto e extranho, ao mesmo tempo, espantado do que succedia, me dando o calafrio, e não espaço para chorar, agarrava as minhas mãos nas de minha mãe para me proteger e salvar. Ao accesso de frio succedia o abrazamento da febre e com esta vinha o delirio. No começo, tudo isto me horrorizava e eu implorava para que me curassem sem demora. O quinino em pó, tomado em café amargo, agia lentamente. Os ataques vinham periódicos e eu entrei a esperal-os sem terror, e pouco a pouco gostosamente. O que me attraia nelles era o delirio. Este era incongruente, exaltado, doido, mas que seducção! Nas paredes caiadas, estampavam-se as visagens da minha allucinaçâo. Outras imagens mais secretas, mais desejadas, não se desenhavam nessas figuras extravagantes, exteriorizadas. Ficavam na intimidade das minhas cellulas, para o goso profundo de minha sexualidade revelada, obscura e eterna. Afinal a quinização foi eliminando as sezões, o delirio quotidiano cessou. Em vão, busquei os sonhos acordados da febre extincta. Tudo acabara para o menino macilento e triste, em que me tornei.

Não sei se foi o abalo das maleitas ou o esforço intellectual nesse período do crescimento, que exagerou para sempre a minha impressionabilidade. Seguramente a tendência emotiva em mim é congênita, mas esses accidentes da moléstia e do errôneo regimen de trabalho levaram ao paroxysmo o meu temperamento. Fiquei sujeito a vertigens ou syncopes, geralmente provocadas por emoções violentas. Esses desequilíbrios nervosos acompanharam a minha existência, arriscando-me constantemente a vida. E' possivel que tal exaltação emotiva concorra para o lyrismo dos meus escriptos, para a communicabilidade com os humanos, para captar mais facilmente os fluidos, os iones, os electrones do universo. Infelizmente o excesso de sensibilidade transborda, àvassala, paralysa. O meu trabalho intellectual na sua primeira phase consiste em subjugar, disciplinar a desordenada sensibilidade. O esforço é considerável e exhaustivo.

Um dos espectaculos que mais impressionaram essa sensibilidade, foi o da chegada no Maranhão dos miseros retirantes cearenses, os desgraçados da grande secca de 1877 a 1880. Desembarcavam na rampa do Palácio e subiam a ladeira sob as vaias da populaça maranhense: "Ceará moleque! Cabeça chata! Vae-se embora, volta, porque puzeste Nosso Senhor na jangada e soltaste elle no mar? Bem feito! Castigo de Deus." Os miseráveis, taciturnos, de olhos vidrados pela fome e pela sede, não tinham forças siquer para resmungar o ódio que os esmagava. Marchavam cabisbaixo, silenciosos, carregados de maldições, allucinados pelas perseguições divinas e humanas. Vinham comidos pela fome que lhes deixava apenas o esqueleto ambulante. Reduzidos á extremidade da carne, a pelle, curtida de sol, se lhes agarrava aos ossos. Ouvia-se o ruido soturno da ossadura desconjuntada. Caminhavam pela cidade na cadência sertaneja de quem vae devorar léguas de campo estorricado. Passavam homens barbudos, propheticos, homens pellados de gafeira, sem calças, apenas vestidos de camisa fora da ceroula, mostrando as retesas canellas finas de tanto andar. Quasi todos traziam a cabaça secca, onde recolheram as ultimas gottas d'água do sertão. Passavam mulheres tostadas, desgrenhadas, arrastando crianças portadoras de gaiolas de graúnas, muitas carregando nos braços um fardo, que era o filho morto no vapor. Aboletavam-se no palácio do bispo em construcção no largo da Sé. Levas e levas de retirantes ali foram abrigadas e mal soccorridas por um governo pobre, imprevidente, e impiedoso. Mas havia sempre na cidade gente generosa para soccorrer os famelicos. Estes sahiam a mendigar, afrontando os apupos da molecagem. Tanta miséria me attrahia dolorosamente. Indifferente á fedentina dos sórdidos retirantes, todas as tardes vinha vel-os. Elles foram se familiarizando commigo. Ouvia-lhes, deslumbrado, a narrativa das suas venturas nos campos fartos de carne e leite e chorava com os lances tenebrosos da maldição da secca. E que esperança tenaz e milagrosa de voltar á terra novamente molhada, verde, verde! A linguagem cantante, estropiada, os nhor sim e nhor não, os quero não, chove não, me descansavam da fria correcção luza dos maranhenses. Era gente de typos diversos, caboclos, ciganos, aços, louros. Nenhum preto. Raça de gente livre que jamais conhecera a escravidão, gente toda aventurosa, jogada perpetuamente entre a abastança e a fome. Sabiam esquecer a desgraça, podiam rir e cantar canções sertanejas de vaqueiros, desafios de vagabundos, melopéas ciganas. Ouvindo-os contar e cantar, eu imaginava o sertão. Eu quizera partir para lá com elles, viver-lhes a vida arriscada, ardente, plebéia, evadir-me da ponderação burgueza da minha terra. Seguramente esse contacto diurno e longo com a miséria dos retirantes, remexendo-me o coração, revoltando-me, abriu em mim a fonte da piedade que mais tarde se transmudaria no fecundo sentimento da solidariedade humana. A sahida do Maranhão não demoraria muito. O meu espirito, sôfrego de coisa nova e de liberdade, ia emfim ser contentado. Os meus preparatórios estavam terminados e meu pae decidira, contra a opinião dos velhos da familia, mandar-me sozinho para a faculdade do Recife. Esta resolução foi extremamente benéfica para fortalecer a confiança em mim mesmo. Partir aos treze annos e meio, sem tutela, dono dos meus actos em terra extranha, não poderia haver maior testemunho do meu discernimento, da minha energia. Foi este o mais edificante acto do meu grande educador e pae. Desde então me governei, me dirigi e caminhei, seguindo livremente os meus impulsos e a minha soberana vontade, fazendo a minha própria lei.

O Maranhão, que pela primeira vez, eu deixava, afundava-se na decadência. A sua velha civilização, modesta e lenta, baseava-se como a de todo o Brasil, no trabalho escravo. Quando a emancipação se accelerou, os lavradores maranhenses trataram de vender os escravos para os emperrados fazendeiros do sul. As fazendas privadas de trabalhadores cahiram em lethargia e pouco a pouco, onde foram cultura e producção, espraiava-se a miséria das taperas. Os fazendeiros vieram para a capital disputar empregos públicos. A política ümitou-se a esse jogo de empregar e desempregar cabos eleitoraes. O governo extremamente pobre, desanimado, sem energia para suscitar o trabalho criador, assistia apathico á degenerescencia da provincia. Expandiam-se os vicios ociosos, principalmente os da sensualidade desenfreada. Os harens das fazendas foram transportados para a capital. Todos viviam na mancebia, até os conegos da Sé, incitando os vigários da roça e os frades. As mulatas e as filhas das cunhas espalhavam effluvios aphrodisiacos e entorpeciam todo o Maranhão. A fúria sertaneja imperava numa sede de sangue e numa voracidade de latrocínios. A vida humana, incerta, aos caprichos do bacamarte. Emquanto os instinctos se desbragavam, os espíritos definhavam. Aquella floração intellectual brilhante, artificial, da classe dos senhores, extinguia-se. A poesia e a criação estylizavam-se na grammatica e na copia de clássicos verbaes, longínquos e extranhos. Os que deviam trazer a seiva nova ainda não tinham surgido ou não eram entendidos. A intelligencia desertou o seu antigo solo e o seu êxodo e o das forças da mocidade, precipitaram a decrepitude. A preguiça espiritual marcava o rythmo moroso. Nessa indolência, nesse abafamento, eu me agitava, suffocado e sôfrego. 0 meu rythmo era accelerado. Só eu tinha pressa. De que?

O Meu Próprio Romance

Sinopse

Texto original do manuscrito autobiográfico de Graça Aranha publicado em 1931, organizado a partir da fonte digital da Literatura Brasileira UFSC.

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