Primeira parte I Miragem · Capítulo 1 de 24
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Primeira parte I

Primeira parte

Maio, em flor, findara entre lagrimas, A casa do Madruga, silenciosa e fechada, parecia entregue ao tempo e ás hervas que começavam a cobrir as muros. O jardim murchava á falta de rega e de trato e cabras errantes, atravessando a cerca de espinhos, andavam pelos canteiros, devastadoramente, roendo os brotos das roseiras, arrancando as mudas tenras. Porcos fossavam a terra descobrindo as raízes e os pequenos, de parceria com os animaes, assaltavam O' pomar devastando as arvores como uma praga.

A familia emigrara para o Paty, onde a viuva fora esconder a sua tristeza e o seu luto, não podendo supportar a saudade do marido ali, entre as arvores que elle plantara, esbarrando com os IO MIRAGEM objectos de que elle se servira. No dia seguinte ao do enterro, á luz bruxoleante da manhan brumosa, sahiu o pequeno grupo num carrejão coberto de palha e, desoladamente, com o agudo chiar das grandes rodas, ao passo grave dos bois, lá se foram os três — a viuva e os dois filhos :

Thadeu e Luiza.

Thadeu, homem feito, mas enfermiço' e fraco, sem vigor para o trabalho dos campos, vivia como caixeiro em uma venda no alto do Rio Bonito.

Luiza, sadia e graciosa, já púbere, de carnes exuberantes, collo rijo, lindas cores, amadurecia agarrada á mãi, bordando letras em lençarias, fazendo pannos de crochet 0'U correndo as terras de casa, descalça, os cabelos soltos, á cata de frutos silvestres.

O morto, bello typo de homem, nascido para mourejar, plethorico, de constituição formidável e primitiva de colosso, soberbos músculos, saúde de ferro, vivera em luta constante pela vida.

Corria a tudo, de tudo entendia. Ás vezes viamno passar carreando, vara ao hombro, descalço, amplo chapéu de palha á cabeça, o casaco pendurado num fueiro do carro. Diziam-lhe graças, respondia, sempre de bom humor: «Cá se vai!»

E gritava, afalava á junta em voz cheia e reboante. Outras vezes apparecia tangendo tropas de muares, vendia-os, trocava-os, sempre alegre e á boca pequena dizia-se que elle comprava clandestinamente o c afé que os negros roubavam ás tuMIRAGEM I I lhas das fazendas. Se lhe falavam nisso, dava de hombros, arregalando os olhos:

— Homem, olhem que é negocio! Achasse-o eu ... !

E escancellava a boca em cachinada estrorir dosa. E os outros riam com elle.

Era um solido másculo, de alma ingénua e meiga. Português, do Ribatejo, criado na lezíria, amava o campo. A sua mesa era abundante. Havia sempre um quinto^ ao torno e a dispensa regorgitava como um celleiro, porque para elle a vida «era o que se comia e bebia.» A familia, se não ostentava, apparecia sem miséria em toda a parte. As festas da Rosário e da Conceição, Luizia concorria com a sua prenda e, uma ou outra vez. alumiaram os altares cirios oblativos da familia Fogaça, que o homem era de muita crença e valia-se dos santos para todos os fins : para que os milhos crescessem, para que não lhe viesse o miai do fígado, pela saúde da mulher, pela asthma do filho, pelo' noivado da filha de que já se falava, coiTendo que certO: Manoel do Carmo, de Ferreiros, andava a corresponder-se com ella, mysteriosa mente, pelo Vassourense.

O filho era o sentimento do velho : sempre doentio e magro. Vinham-lhe, ás vezes, accessos de febre, anciãs, e ficava de cama semanas e semanas. Sempre que falava delle contrahia-se-lhe o rosto e, sacudindo a cabeça, cheio de desesperança e d e magua, resmungava:

— Não vai long-e ! E tinha por elle misericórdias de a ffecto, fechava os olhos a muita coisa. Pobre rapaz! É um coitado! Que se ha de fazer? deixal-o. Ha de ser o que Deus quizer.

A mãi, mais rispida, revoltava-se :

— É um preguiçoso, um mollenga, um vadio !

E, se Manoel Fogaça acenava-lhe que deixasse, agourava rezinguenta :

— Que elle havia de da:r o pago, o marmanjo.

Metade do que elle dizia era manha. Fosse-lhe atraz das lamurias e havia de vêr...

Uma tarde achava-se o velho no jardim, de camisa de meia e tamancos, regando os canteiros, quando o filho appareceu á cancella, sacudido por uma tosse rouca. Fogaça voltoií-se e logo, alarmado, exclamou :

— Que é isso ? ! Já ahi vens deitando a alma I>ela boca. Thadeu encolheu os hombros e entrou devagar, cançado, dizendo o que, até então, tentara occultar: «Noites em claro, com o peito ardendo em fogo e aquella tosse horrivel que lhe rebentava os poilmÕes em sangue. De manhan estava que nem podia e tinha de ir para o balcão, de servir aos freguezes carreg'ando pesos.»

Fogaça ouviu-o calado, por vezes caramunhando, d'olhos húmidos. Por fim tomou-lhe o pulso e, enca/rado nelle, disse baixinho : — Estás quente, rapaz. Estás com febre. Entra. Vai dçitar-te. Não fi

— Medo da velJia, hein? e sorriu. Deixa-a lá.

Estás doente, que diabo!... Quem sabe se has de ir para a Misericórdia se tens a casa de teus pais. Era o que faltava... Trata-te e depois...

Maria Augusta ao \^cr o filho, estacou de mãos nas cadeiras, clhos carregados, balançando ameaçadoramente bo usto :

— Deixa-o, mulher. Não augmentes a afflicção ao afflicto. Está a arder em febre. Basta vêr-lhe a cara. E lá o foi conduzindo, enxugando-lhe a testa com o seu grande lenço vermelho.

E interrogava-o : N ão tens fome ? Pois é preciso comer e ter cuidado comtigo — nada de humidade: É d eitar a horas, acordar cedo, apanhar sol nesse corpo e deixar andar o barco. Has de tomar geito. És moçO', que diabo!... Na tua idade a natureza ajuda. Com uns chás, boas sopas e regimen isso vai-se embora e ficas ahi um turuna, has de vêr.

Com a filha era impertinente, rispido. Não raro. bradava em rebentinas :

— Que não queria derretimentos. Visse bem !

Desancava a páu o primeiro patife que lhe rondasse a porta! Desancava-o e a ella também.

Luiza refugiava-se, chorando, junto de Maria Augusta. , S obrevinham rusgas :

— Que a pobresinha era quem pagava as favas, só p orque era mulher. O outro, o^ maricas, lá estava repimpado na cama, comendo e bebendo á tripa forra. Esse podia fazer o que quizesse.

Era só chegar com a manha e encontrava carinho e d esvelo. Para a coitada eram só palavrões c maus modos. Isso não. Tão filhO' era um como outro.

Manuel Fogaça, quando via a mulher abespinhada, lo'nge de lhe dar troco, punha-se a rir es-, trondosamente, com o que mais a enfurecia. /

— Ai, a ira ! Não te damnes, filha. Olha que; assim nascem-te os cabellinhos brancos e vaose-te os dentes antes do^ tem.po.

E sahia para o jardim on estirava-se no sofá, de perna alçada, tamborilando na palha do encosto, a t rautear cm tom de mofa, piscando o olho ].r€£c'rO'. A filha intervinha então, fingindo amuos:

— É c'.:e fazes por isso, dizia placidamente.

Vê lá se me liT.zem queixas delle? Já alguém o viu debruçado a cercas conversando com raparigas? Quem se gaba de lhe ter visto os dentes?

Ninguém! Gente de bem quer-se assim... E moças então! Ollia que não é por trazer o rosto muito descoberto que se ganha fama de virtude.

Quem se recata não se queima ao sol, já diziam os meus.

Luiza avançava colérica:

— E que é que dizem de mim? que namoro?

É essa sucia de nãO' sei que... Cambada de aduladores! De s orte que a gente não pôde chegar á porta para vêr quem passa que não digam logo que está namorando?

E impetuosa, fechando o punho, esmurrando D ar : Pois namoro ! Não é da conta de ninguém. >íamóro mesmo, ora ahi está!

Chorava, murmurando, por entre soluçois, cont-a os intrigantes:

— Que olhassem para as suas casas, não fariam pouco. Ella não era a única moça d' ali; outras havia que até passeiavam de braço com os rapazes e na igreja, ao domingo, ajoelhavam-se junto delles para conversar. Dessas ninguém falava. O m acaco não olha para o seu rabo. Sucia !

As lutas domesticas rematavam-se quasi sempre em frente do baralho — á bisca de quatro :

Fogaça e a filha, Thadeu e Maria Augusta. E novas discussões travavam-se entre os parceiros

— porque um não fizera signal do az ou do rei e, quando succedia ser ralada a sete era uma algazarra que se ouvia á distancia: ria um par, outro bramava em fúria. Se era Fogaça quem ralava tremiam os moveis, taes eram os saltos que dava pela sala para fazer gana á mulher, bailava com as duas cartas na mão, esfregando-a§. «Cá tstá, raladinha da silva!»

Maria Augusta revoltava-se contra o filho:

Que nem para aquillo prestava... Pois se já estava a c ochilar, o pamonha. l6 MIRAGEM

— Qual cochilo, senhora, tornava Fogaça ; é que aqui joga-se ! Queixa-te ao bispo ! E ria com ambas as mãos no ventre. Maria Augusta repellia as cartas: «Que não queria mais saber de jogo» e levantava-se resmungando. Instada, porém, tornava á mesa com avisos ao filho :

— Que se estava disposto muita que bem, se-| não, que se fosse deitar, porque ninguém o que-/ ria ali para vêr-lhe o céu da boca.

E recomeçavam.

Aos domingos sabiam cedo para a missa. Fo^ gaça vestia a andaina de panno, calçava sapatos e atava uma gravata. Maria Augusta, em grandes saias, carregada de ouro antigo, e Luiza, vestida singelamente, o ar recolhido de commungante, o livrinho entre as mãos cruzadas sobre o collo farto de mulher precoce.

Na igreja. Fogaça deixava a familia e ficava no adro conversando; só entrava quando^ tocavam a «Sanctus». Ajoelhava-se a um canto, benzia-se e inclinava a cabeça sobre o largo peito onde a camisa fofa espocava, com um grande botão de ouro no papo.

A porta, finda a cerimonia, apartavam-se — as mulheres recolhiam-se á casa, elle subia ao Rio Bonito para abençoar o filho. Encostava-se ao balcãO', bebia um trago e conversavam. Despedia-se por fim e descia, com ligeiras paradas aqui, ali, indagando de uns, mandando lembranças a outros, cumprimento aqui, graçola adiante; e tomava o caminho de casa vagarosamente. Almoçava, dormia um somno e o resto do dia dedicava ao jardim e ao poleiro, onde vários gallos terríveis preparavam-se para as rinhas, no sitio do Correia, para as bandas de Massambará.

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