Segunda parte II
— Ha muito tempo que não vês tua terra?
— Ha sete para oito mezes.
— E não tens saudade ?
— Se tenho ! E você ?
— Ah!
— Ha muito tempo ?
— Ha dois annos.
— E é longe daqui ?
— Muito longe ! doze dias por mar.
— Você tem mãi ?
— Mãi e pai, graças a Deus. E você?
— Só mãi. Meu pai morreu.
Emborcaram os copos e, pousando-os vagarosamente, olharam-se.
— Ah ! Q uem me dera a minha terra !
— E a minha !
Era ao fundo de uma venda, entre pipas, em volta de velha mesa de ferro. Thadeu e Fabrício bebiam.
O maranhense, nostálgico, encontrara uma alma gémea da sua para ouvir as confidencias de saudade, as longas historias do sertão nortista, sem os sorrisos de incredulidade, sem os commentarios com que os outros sublinhavam os mais ligeiros episódios das suas narrativas. Thadeu acreditava em todas as suas palavras, não distrahia a attenção, interessado e commovido.
Vaqueiro desde os quatorze annos, habituara-se ás vicissitudes da vida errante, noite e dia a caminhar, ora nos campos, ora nas mattas, ou pelos montes onde as onças bramiam. Arredado subitamente desse viver aventuroso e contemplativo, sentia-se deslocado na multidão tumultuosa da cidade. Parecia-lhe um mundo impróprio para a sua alma affeita á soledade. Lá para as suas bandas, quasi desconhecidas, o sol era mais dourado, o l uar mais claro, a gente bòa, hospitaleira e affavel.
A agua branca das fontes, mais limpida e mais fresca do que as que derivavam na terra do LxiHo, tinha o patronato mysterioso das yaras que, á noitinha, vinham á beira húmida pentear os cabellO'S verdes como o limo das pedras, e nuas, cantando maviosas trovas que iam pela noite e pelo bosque fora, embalando e seduzindo os que, Í2Ô MIRAGEM sem perceberem a insidia, eram por ellas attrahidos e desappareciam.
As brenhas tinham o caaipora perseguidor que surgia em noites negras, saltando num pé só, aos silvos.
Os lares eram mais alegres... E que de amores pela farinhada ou quando, para um roçado ou colheita, se ajuntavam os visinhos em mutirões e, d epois de um dia de enxada, ao' sol, e á tardinha, na eira, com o bom cheiro dos mattos floridos, a fartura de carnes, a abundância de doces, o gole e, ao' alvecer da lua, com o® bacuráos andando no meio' da gente, as danças requebradas eb atidas aO' som do «rasgado» nas violas.
E os desafios dos cantadores famanazes! E a vaquejada terrivel quando os marroás desciam da:S malhadas para a ferra!
Fabricio ia de canto em canto, de lenda em lenda, relatando, por miúdo, todos os episódios e misturando scenas da pastoral indigena com O' fabiulario maravilhoso e ingénuo.
— Por que assentaste praça, Fabricio ?
— Huê! Recrutaram-mie. E você?
— Foi por gosto.
— Por gosto. . . ? !
Thadeu encollieu os hombros e bateu com a mão espalmada na mesa para pedir novas doses.
Maluquice. Sei lá!
— Isto não é vida ! A gente nem tem tempo para se coçar. . MIRAGEM 121
— É peíor do qive ser escravo.
— Muito peioT.
— E a guerra? Se vier uma guerra então...
Como ha de ser?
— Antes isso.
— Deus nos livre... !
— Ora...! Assim como assim... A gente tem de morrer mesmo! disse estoicamente Fabrício: tanto faz hoje como amanhan. E fala-se nisso...
— É, fala-se. Com os argentinos.
— Outros dizem que não: que a gente vai para o Norte.
— Fazer o que ?
— Sei lá ! A gente nunca sabe. Mas Deus permitta !
— Deus permitta, sim !
— Você quer ?
— Então ! A ntes o Norte do que a guerra.
— Medroso!
— Não é medo... Mas eu não quero morrer já, soiu muito moço; e depois...
— Que é? Namorada? Você tem, Thadeu?
— Não tenho, mas tenho mãi.
Calaram-se algum tempO'. Fabricic suspirou;
— Coitadas! São ellas que soffrem mais! A minha nem sabe por onde eu ando.
— É velha já... ?
— Velhinha, mas dura que nem páu d'arco! exclamou com orgulho sorrindo. j 'j rrQu^ idade tem?
— Deve andar pelos sessenta, mas ainda atravessa a p é todo aquelle sertão bravo.
Thadeu, que ouvira no quartel repetidas allusÕes á fuga do maranhense, interpellou-o de improviso : foi? — Você já uma vez fugiu do batalhão, não Pabricio encarou-o e acenou de cabeça affirmativamente.
— Porque ?
O outro encolheu os hombros como se lhe aborrecesse aquella recordação e pôz-sé a riscar a mesa com o grosso indicador, fazendo escorrer em fio a cerveja que transbordara.
— E depois, Fabricio...? Elles te agarraram?
— Agarraram, sim. Agarraram porque eu ainda não conhecia esta terra. Fosse hoje!
— Mas por que foi que fugiste ?
— Ora ! s audade. Não foi por causa do serviço, não. Eu queria voltar para a minha terra.
— E onde estiveste? ^ — Ahi por esses mattos. Mas... depois! Ah! m f o o r i t o u . m a desgraça na fortaleza. Sahi de lá quasi
— E hoje ?
— Hoje?! encolheu os hombros: Fugir para que? a gente volta mesmo e ainda por cima soffre e fica com o nome de desertor. Não vale a pena.
Fabricio acompanhava, entretido, o fio de cerveja que escorria lento, pingandO' sobre o soalho negro. De repente, erguenido a cabeça, disse:
— São hora», vamos indo ?
— Vamos.
Tinham chegado ao' campo da Acclamação.
Resolveram atravessar o jardim deserto, escassamente alumiado pelos combustores que, á distancia, pareciam cercados de uma aureola ténue. Entraram. Raros vultos passavam pelas alamedas sombrias, apressados como se fugissem á tristeza dO' sitio. Da folhagem compacta dos bosques exuberantes sahiam, a espaços, sussurros trcnuilos. Caminhavam com os olhos nos lagos lampe jantes onde as estrellas palpitavam e o reflexo da l uz dos lampeÕes fulgia tremulo. De longe, em perenne murmúrio, vinha docemente o choro da cascata.
— Você não imagina como eu gosto d'isto aqui. Quando estou de folga é onde venho passar as tardes. Fico num banco horas esquecidas olhando essas arvores. Parece que estou no Norte.
— Mas é muito triste.
— Qual triste! Quem sabe se você queria que o matto cantasse? disse a rir. É assim mesmo.
Olha! e tomou-o por um braço: Escuta...
E parados, muitounidos, prestaram attenção ao rumor longinquo :
— Não parece mesmo barulho de cachoeira ?
Então...? Não acho triste. É bem alegre até.
Iam atravessando uma ponte quando Thadeu Í24 UIRACtM propôz descançarem um instante. Debruçaram-se olhando as próprias sombras que tremiam nagua.
— Eu só queria que você visse um rio da minha terra. Aquillo sim! ^■^^Bma coisa, Fabricio, interrompeu Thadeu, que'' parecia preoccupado: se houver guerra não se poderá arranjar uma licença de uns dias? " ' "■^^^ Nâo sei, só perguntando. '-^^ Nem para á gente 'deSpedir-se dos seus? to^irí^o sei. ^' - • ^ - ■ •^^ Com quem se pôde saber?
ÃoliíCtífjf o^coínmandantePorque? ^"^'NãíO'' se!; "concluiu Thadeu com triste preseittíinènto. É ò coração que me diz, desde que ■ assentei pra^a : S e eu fôr para a guerra, não torno "^ véfiíiiíiha^ mâi. oiifKrtT.
Fez-se novo silencio. Errava no ar um frémito suave como se tenuíssimos elytros palpitasserrt; gfHlos trilavam na herva rasa dos taboleiros e, díTVeáefn vez, rias ilhotas dos lagos, os gansos ■"' graánkvàrhv ' -'■ - - - . ; . -■ -, ^-i»> Os dois soldados, invadidos pela melaricolia do '^yfíi
T.hadeu voltou-se d'arranque — o sertanejo, debruçado sobre a cerca da ponte, olhava extasiado o c éu cheio de estrellas.
— É você que está cantando'?
— Então...? modinhas da minha terra; e repetiu, sapateando de leve:
O cor.icão da cafusa . . .
Súbito cahiram no silencio do parque repetidas badaladas. Os gansos chalraram com estridor nos lagos, e, logo em seguida, ao longe, soaram cornetas.
— Vão fechar. Vamo-nos embora.
Accenderam cigarros e partiram em passo accelerado.