Primeira parte VI Miragem · Capítulo 6 de 24
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Primeira parte VI

A terra vencera o homem. Lá fora na grande noite a chuva; torrencial alagava os campos, rolava em enxurros pelos vallados; os ventos vergavam os galhos, retorciam-n'os estrondosamente. As arvores debatiam-se em convulsões frenéticas, agitando fantasticamente os ramos em movimentos de agonia e de desespero, sob a tormentai implacável. As vidraças afogueavam-se em clarões lividos de relâmpagos. As súbitas, como em derrocada, estrépitos de raios atroavam o espaço. ■ Thadeu, d'olhos semi-cerrados, em somnolencia de febre, as mãos cruzadas no peito, ouvia o reboar da trovoada e o tamborilar da chuva ora leve, ora violenta, ás bátegas.

Adoecera no campo. Cahira sobre os montes de herva capinada, golfando' sangue. Damião, que lhe fora levar a marmita, achou-o quasi desfallecido, de bruços, o rosto mascarrado de coágulos, a b oca purpúrea, ansiando e gemendo.

Correu a cliamar o pai, apezar das instancias de Thadeu — «que aquillo não valia nada, não fosse incommodar o pobre homem.» Mas o pequeno, á vista do sangue que empastava o chão, partiu a correr em busca de Nazario, sem ouvir as supplicas de Thadeu que rolava afflicto, comprimindo o peito, respirando com ânsia, falando ao Turco que velava, estirado sobre os capins:

— Ai ! Turco ! Eu morro ! Eu morro, meu velho !

Mais do que o próprio soffrimento sentia a derrota da sua fraqueza, comprehendendo que estava para todo o sempre perdido, que o seu trabalho fatigante e pertinaz de três longos mezes ia desapparecer com os transbordamentos da terra fertilisada pelo estio que entrara. As raízes detoradas reviçariam ao sol, voltariam á vida! os renovos possantes dos vassouraes bravios e toda a vegetação agreste derrubada, dentro em pouco, com aquelles caloces que faziam amadurecer rapidamente os f rutos, repontaria miais vigorosa, mutilisando a laibuta aturada do seu braço, abafando as suas esperanças.

Sentia em torno de si pullular e crescer a flora maninha. A seiva fluia secretamente revivescendo os caules, passava em effluvio renovador pela Çid MIRAGEM terra e seus olhos amortecidos humedeciam-se diante da inclemência estival que fecundava obstinadamente a g leba.

E tudo, em torno, em alegria triumphal, parecia zombar da sua fraqueza e da sua impotência: aves «•azillavam, vinham voar perto do seu corpo, pousavam ao alcance do seu braço catando palhas para novos ninhos; folhas seccas cahiamIhe sobre a cabeça: as arvores queriam mustrarIhe que renasciam. Corymbos balançavam-se com o vento desabotoando em flor e, não longe, o ca.- poeirão cerrado alteava as grimpas verdes e florecentes crescendo, revigorando-se, sempre vivo e sempre forte, absorvendo' a seiva das arvores tombadas, vivendo da morte dos troncos fraternaes que adubavam a terra, como os cadáveres adubam os campos de batalha, mais ricos depois da sarlgueira, retribuindo com a vida o tributo da morte.

O sol, vivido e rispido, mordia-lhe as carnes, picava-lhe o rosto; a terra adusta queimava-o como se uma conspiração tacita houvesse sido combinada entre a luz e a lande para abrasal-o como elle quizera incendiar as mattas.

Quando Nazario chegou esbaforido, encontrou-o sentado, a olhar airadamente.

— Ó rapaz ! E ntão ! Que foi isso ?

Encolheu os hombros, resignado:

— Canceira.

— Pois de ççrto ; é natural Um pobre corpo como o teu pôde lá com esse trabalho brutal?

Pensas que puxar enxada é pana qualquer? Deixa-te disso. Vamos dahi. Manda ao diabo a lavoura. Ganhas a vida de qualquer modo, a questão é q uerer trabalhar. Não viveste até hoje sem isso, então? Anda, vamos; levanta-te! Como Tliadeu não se movesse, adiantou-se. Não podes? Ora vejam... Aqui assim com um sol de matar passarinhos. Anda dahi.

Tomou-o pelos braços, guindou-o e, amparando-o, veiu com elle vagarosamente pelos caminhos, resmungando:

— Que loucura ! Um homem doente a trabalhar como um negro. Isto é para quem tem saúde. Teu pai, que era um touro, esse sim, podia passar a vida toda no campo que até lucrava. .0 sol, que lhe conhecia a tempera, podia vir abaixo com todo o seu fogo que elle não se dava por achado. Mas tu! És lá homem para isso?! E apalpando-lhe as costas : Olha como estás encharcado... Esquece-te dessa coisa de terras.

Deixa o matto... que cresça. Que o leve o diabo! Outros que o tomem á conta, tu não, que não podes.

Como passassem pela clareira recentemente capinada, Thadeu deteve-se contemplando :

— Quasi prompta ! c onsiderou com tristeza.

— Quasi prompta o que, homem de Deus !

Quasi prompta o que ! Caminha, que este sol escacha. Deixa-te de coisas... 68 ^ MIRAGEM • — Com miais um mez de trabalho tudo isto ficava em estado de ser semeado, entretanto...

Ansiou afflictO' e a tosse sobreveiu.

Nazario tomou-lhe a fronte. No via golfada de sangue jorrou.

— Olhem p'ra isto ! d izia o ferrador commovido. Olhem p'ra isto! Isto até é não ter juizo na cabeça. Diabos levem a terra...! Queres descançar um bocado? Também não vale a pena, estamos perto de casia... É mais um passo. Ora que doidice! E não arredava os olhos do sangue que ia sumindo, chupado pela terra calcinada e ávida.

Os bois, que pastavam, levantaram os olhos para vêl-os. Nazario tocou-os: • — Eh ! bichos ! E passaram.

No terreiro, Thadeu voltou-se ainda uma vez para olhar a planície e, descobrindo as terras, limpas e nuas, capinadas de fresco, não conteve as lagrimas.

— Que tens, rapaz? Por que choras, homem?

Ai! Mau!

E como lhe seguisse o olhar descobriu o motivo da tristeza, acudindo :

— É ainda pelo trabalho que choras? É pelo trabalho perdido? Dcscança que nada se perde na terra — é o melhor banco. Não é para ti, será para os teus filhos. É assim mesmo. Olha, cu também tive essa mania de terras, felizmente recuei a t empo, comprehendendo que não é tão facil lidar-se com ellas como parece. E sou forte, tenho saúde, graças a Deus! Terras, eu? dlêemm'as de graça que não as quero. Cá para mim bastam-me os sete palmos de ámanhan.

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