Primeira Parte — I
COELHO NETO
Inverno em flor
SEGUNDA EDIÇÃO
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
de Lello & Irmão, editores
RUA DAS CARMELITAS, 144
1912
Ao Dr. Érico Coelho
Fazenda «Boa Esperança» — 1894.
Jorge Soares costumava dizer: «Sou dos poucos homens que podem narrar a história da própria vida desde as primeiras manifestações intrauterinas.»
A mãe e as tias, ao longo da sua infância amimada, contaram-lhe, por miúdo, todos os casos anteriores ao seu nascimento e os trabalhos que dera em criança, os sustos que pregara, os colos que molhara, as suas graças, as suas manhas: como uma tarde o foram achar engatinhando nu, rechonchudo e forte, quase a rolar a escada da varanda; a primeira palavra que tartareara, tudo, enfim, até que o professor Sarmanho, sisudo e austero, arrancou-o ao afago amolentador das saias encerrando-se com ele numa sala vasta, onde passava sonolentas horas soletrando a carta e somando parcelas. Distraía-se com as borboletas que entravam batendo as grandes asas sucumbindo, quase sempre, espatifadas a uma pancada da régua que o inflexível Sarmanho brandia como uma batuta, berrando, com furor, as vogais.
Desde que D. Antônia, num triste domingo enevoado, abandonou a mesa, às pressas, engulhando, a queixar-se do estômago, desconfiada das negras «que deitavam feitiço na comida», as irmãs de Jerônimo Soares, o Mata boi, como era conhecido no Piraí por ter derrubado e morto, com um murro, um boi de canga, cochicharam sobre a gravidez da cunhada. Jerônimo, porém, descorçoado, saiu-lhes em resposta com palavras de mofa:
— Tinha graça, aos quarenta anos. De certo que havia de enjoar: não comia senão guloseimas indigestas: coalhadas, paçocas e frutas verdes. Até não sabia como ainda tinha estômago. As irmãs, porém, insistiram: «que aquilo era gravidez».
Jerônimo, incrédulo, sorria, abanando com a cabeça:
— Se queriam que a tal gravidez desaparecesse, arranjassem um chá de folhas de laranjeira ou um pouco de macela. Uma manhã, porém, ele mesmo, ao sair do quarto, esperou que as irmãs acordassem e disse-lhes confidencialmente:
— Olhem cá... Pelo sim, pelo não, o melhor é vocês irem arranjando alguma coisa para o que possa vir.
D. Antônia que, a princípio, vivia cercada de crioulinhos, criando-os carinhosamente, maternalmente, foi, aos poucos, esquecendo-os. Os pequenos rolavam pela sala choramigando e, muitas vezes, foi necessário que os carregassem para a cozinha porque a senhora sentia-se nervosa com os gritos das crianças. Passava os dias afundada na rede, lendo brochuras, enfezada, de mau humor.
Se uma negra cantava, irrompia irada contra a falta de respeito; tirava presságios fúnebres se uma ovelha tresmalhada vinha balar perto da casa; isolava-se. Às vezes, procurando-a por toda a casa, iam as cunhadas encontrá-la de joelhos na capela, agarrada ao altar, soluçando. Traziam-na carinhosamente, interrogavam-na sobre as suas lágrimas:
— Pois não fora ela mesma quem pedira um filho à Nossa Senhora?
— Sim, pedira... Mas desconfiava daquilo. Beija-flores pardos revoavam pela sala; tinha constantemente sonhos maus, com água, com carne. E falava, aterrada, dos partos na sua idade: eram quase sempre fatais. Sentia alguma coisa que lhe saltava no ventre: umas vezes eram como pontapés sobre os rins, ou então um grande bolo que lhe subia ao peito como se a fosse sufocar. À noite, acordava em sobresalto, sem ar, o coração aos baques. Aquilo não era natural. E meneava tristemente com a cabeça em desalentos presagos. Mas as cunhadas animavam-na:
— Era assim mesmo, quando a criança movia-se. E, para convencerem-na, mandavam vir as negras de casa, fechavam-se com elas, interrogando-as sobre os fenômenos da gestação:
— Se não sentiam movimentos, dores, ânsias... E as negras, passivamente, submissamente, iam afirmando: «É assim mesmo, nhanhã. É assim mesmo.» Outras adiantavam: «Que às vezes até ouviam o choro da criança.» E D. Antônia, apreensiva, passava os dias em beato recolhimento com os santos, fazia promessas, pedia às cunhadas, às mucamas que rezassem com ela à Senhora do Parto para que lhe desse uma boa hora.
A vida rural enfarava-a. Diziam-lhe que saísse em passeios lentos pelas terras, recusava-se e, poucas vezes, aparecia à varanda para olhar o terreiro e o engenho. Os negros evitavam-na receosos e, em uma noite santa, como os escravos cantassem no quadrado diante da capela, D. Antônia teve uma violenta crise de choro, clamando:
— Que fizessem calar aqueles diabos. Parecia que estavam encomendando um morto. E o feitor saiu a dispersar a gente, mas a senhora, aterrada com o silêncio que se fez, tremia à ideia de um castigo da Mãe de Deus que os escravos glorificavam. Arrependida, chamou de novo o feitor, ordenando-lhe que abrisse a capela para que os negros cantassem.
Não sabia que era o Terço que eles estavam entoando, mentiu. E, recomeçando, pouco depois, o canto religioso, ajoelhou-se no seu quarto e, por entre lágrimas, pôs-se a repetir as palavras do coro que iam pela grande noite como uma santificação.
O ventre crescia-lhe. Uma manhã atirou-se aos braços do marido soluçando: «Ia morrer. Não tinha forças para resistir àquele parto» e, em segredo, anunciou-lhe: «que eram gêmeos». Jerônimo estremeceu: desconfiava também. Já havia falado às irmãs; todavia, para animá-la, fanfarronou:
— Melhor, filha. Um casal, hein! Que dizes? Um rapaz e uma rapariga... isso é que é. E tens medo...? Medo de que? Pois a Balbina, que é um espicho, não teve dois rapagões e não está por aí sacudida? Até parece que ficou mais forte. E quantas! E quantas! Isso é uma coisa à toa. Não me tens a teu lado? Já não tens confiança no teu velho? Deus é grande, filha. Hás de ser feliz e, se forem dois, melhor. E a rir, passando-lhe o braço forte pelas costas: Eu fico com o rapaz e faço-te presente da pequena. Ria e D. Antônia forçava um sorriso triste.
Foi em uma noite fria de Junho que ela, em lágrimas, pedindo que acendessem velas do Santo Sepulchro e queimassem palmas bentas, recolheu-se ao quarto alanceada pelas primeiras dores.
Escancararam-se as portas da capela e as mucamas, ajoelhadas, pediram por ela à Senhora do Parto. Uma negra benguela, mãe Victorina, fechou-se no quarto com a parturiente e um pajem partiu a cavalo para chamar o médico.
Jerônimo, as mãos nos bolsos, nervoso, passeiava pela varanda. Se alguém aparecia na sala interrogava ansioso: «Então? Ainda gemendo muito. Não estava melhor.» Vieram chamá-lo: D. Antônia exigia a sua presença, queria-o junto a si. Negou-se: «Não tinha coragem. Deixassem-no.» E sentou-se no banco, olhando vagamente a paisagem que o luar empalidecia.
Ideias sinistras passavam-lhe pelo espírito: a mulher morta; o filho, um mostrengo. Erguia-se, caminhava pela varanda, parando, de vez em vez, para lançar os olhos ao longe, a ver se o pajem aparecia. Julgava, a todo momento, ouvir bater à porteira. Eram eles, decerto. Esperava...
E ninguém para animá-lo! Que teria acontecido?! O grande silêncio da casa impressionava-o. Atreveu passos pelo corredor, em pontas de pés, mas, não longe do quarto, ouviu um grito estridente e longo. Recuou com os olhos transbordantes de água, os lábios em trêmulos, balbuciando baixinho:
— Pobre criatura! Pobre criatura!
E esfregava as mãos úmidas. Vinha de volta para a varanda, quando novo grito atravessou-lhe a alma. Desatou a chorar como uma criança e fugiu.
Quando uma das irmãs apareceu na varanda, procurando-o, avançou, os braços estendidos:
— Então, Júlia? Então? Anda! Então?!
A irmã atirou-se-lhe aos braços, sorrindo:
— Um menino!...
Jerônimo, trêmulo, apertando-a muito:
— E perfeitinho, Júlia...?
— Ora! Lindo! um meninão! Vai vê-lo. Já podes entrar. E acompanhou-o.
Jerônimo precipitou-se para o quarto morno e abafado. Vendo a mulher pálida, estirada nos lençóis brancos, os olhos amortecidos, os braços languidamente abandonados ao longo do corpo, ajoelhou-se, e tomando-lhe uma das mãos, cobriu-a de beijos e de lágrimas:
— Então, filha? Então? Então? E perfeitinho... Um rapagão, hein? E do fundo do quarto, na penumbra, um grito agudo partiu.
Jerônimo ergueu os olhos molhados para os olhos meigos da mulher e, levantando-se, beijou-a na fronte fria.
— É ele! — suspirou D. Antônia. E Jerônimo acenou que sim: era ele! esse sonho de vinte anos solitários, a florescência do amor que ali tinham no fim da existência, quando já se lhes esterilizara no coração a suave esperança. E ambos sorriam, ouvindo enternecidamente o choro da criança que a benguela vestia.
Cresceu rechonchudo e forte, de colo em colo. A mãe trazia-o sempre agasalhado em flanelas e, se uma nuvem escurecia o céu, eram mantas, toucas de lã e o encerramento nos quartos mais íntimos onde não chegassem correntes de ar.
A ama, uma negra robusta e nova, era vigiada como uma criminosa para que não saísse e o filhinho tenro, de quem se separara, passava os dias deitado em panos, a um canto da sala de jantar, às moscas, lambido pelos cães que entravam. De vez em vez, quando o «senhor» adormecia, tomava-o carinhosamente ao seio, mas as senhoras intervinham rezingando: «Que o moleque era um bezerro! Era um mamar sem conta!» e apartavam-no do colo maternal, traziam xícaras e, às colherinhas, empanturravam-no de leite morno, para que os peitos criadores não minguassem na boca sedenta do escravo. A mãe sorria resignada. Quando o negrinho chorava, para que ela não se amofinasse, crioulinhas tomavam-no ao colo e saíam com ele para a varanda, ninando-o.
Jerônimo enfurecia-se se, ao voltar da roça, encontrava o filho enrolado em panos, cheio de abafadouros. Vociferava contra os trapos; às vezes tentava arrancá-los, as mulheres, porém, investiam defendendo a criancinha da «brutalidade.»
Aquilo não era sistema de criar filhos, bradava o homem: saíam umas coisas entanguidas, sem préstimo. A criança é como a planta: quer ar e sol para ganhar sangue. Vissem o filho da Mariana, um brutinho! criado ali assim ao Deus dará. Vissem aquilo!
E obstinava-se em propor passeios com o filho pelos cafezais, à hora fresca da manhã que robustece e dá vida.
Deixassem-no a seu cuidado e haviam de ver o bicho que dali saía. D. Antônia resmungava, as tias acudiam enternecidas, com beicinhos, apertando muito o pequeno que desatava a chorar assustado. Jerônimo augurava um maricas.
Homem, o melhor é guardarem-no em uma redoma. Isso tem lá jeito! E insistia em mostrar os crioulinhos que patinhavam na água, chafurdando na lama, nus, como os bacorinhos que fossavam na fermentação fecunda dos fumeiros, gabando-lhes a saúde, a alegria, a rijeza dos corpos retintos.
As crianças queriam justamente aquilo. Deixassem-se de luxos. D. Antônia intervinha:
— Se havia de mandar para onde os moleques seu filho, um inocentinho, que mal engatinhava. Aquilo até não parecia de um pai. Assim como assim o melhor era abandoná-lo de uma vez na estrada. E Jerônimo, lentamente, explicava:
— Ela bem sabia o que ele queria dizer. De certo que o pequeno não estava em idade de ir para o campo nem de meter-se nos córregos. Falava contra os abafamentos, contra a maldita mania de fecharem tudo, isso sim. Não era nenhum doido para aconselhar que deixassem o petiz com os crioulos, ao sol. Era um modo de falar; ela bem sabia.
Se o pequeno choramingava, D. Antônia precipitava-se aterrada, tomava-lhe o pulso, examinava-lhe o ventre, pedia médicos, folheava o Chernoviz, banhada em lágrimas, trêmula. As tias lembravam tinturas homeopáticas e a capela iluminava-se como para uma festa.
Às vezes, durante o dia, uma das senhoras entrava no quarto, em pontas de pés, ia ao berço, debruçava-se: a criança dormia sossegada e tranquila e a ama, estirada a um canto, repousava. O pequenino rosto não tinha uma contração, os bracinhos abertos jaziam imóveis como os de um morto. Era o bastante para que a desconfiança nascesse: «Meu Deus! Mariana... o menino teve alguma coisa?» A ama, despertada em sobresalto, atônita, como se tivesse sido surpreendida em crime, respondia:
«Que nhonhô adormecera ao colo, depois de ter mamado.» E, apróximando-se do berço, confirmava: «Que estava dormindo.»
— Mas tão quieto!!
E a senhora não se convencia; deixava o quarto em pontas de pés e saía a comunicar a sua suspeita. Acudiam as três, aflitas, os olhos em lágrimas; invadiam o quarto, cercavam o berço, observavam. O pequeno continuava dormindo. D. Antônia rolava os olhos cheios de angústia, queria que fossem chamar o marido; ajoelhava-se inclinando o rosto sobre a pequenina boca e imóvel, atenta, procurava sentir o hálito da criança.
As outras interrogavam com acenos e ela, desalentada, levantava o olhar súplice, dolorido, meneando com a cabeça grisalha. E não se continha: «Meu filho! Meu filho! Jorge, meu filho!» E as outras: «Jorge! Jorge!» e sacudiam o berço. A criança tinha um estremecimento, abria os olhos espantados e chorava. Que alívio para as pobres senhoras. Com que ternura frenética tomavam-na nos braços, como a beijavam! De uma feita, Jerônimo encontrou-as nessa lida. Teve um acesso de raiva tratando-as de «desmioladas!» E como uma das irmãs aludisse à suspeita, explodiu:
— Qual morto, qual nada! Queriam vocês que ele dormisse dizendo mamãe, papai, ou virando cambalhotas? Só de doidas!
A ama era logo chamada e aparecia com o túmido peito nu, tomava a criança e o homem, a olhar o pequeno que sugava cavando as bochechas, ia dizendo enlevado:
— Aí têm vocês o defunto. Deem-lhe disso, deem-lhe disso!
As mulheres contemplavam sem uma palavra, com um piedoso amor nos olhos enternecidos.
E nesse meio de carinhos e de cuidados cresceu, como um arbusto em sombra, o pequeno Jorge, até que um dia a ama, surpreendida, ouviu o seu primeiro balbucio. Lágrimas jorraram e, como Jerônimo andasse pelos eitos acompanhando a colheita, foi despachado um moleque para chamá-lo. O homem fustigou o cavalo e apareceu esbaforido, rubro, alagado em suor e logo na varanda D. Antônia, radiante, deu-lhe a grande notícia, e em torno da criança, que a ama sacudia nos braços fortes, reuniram-se todos instando com o pequeno para que repetisse a doce palavra, e ele, sorrindo, agitando os braços, gaguejou hiatos, súbito emborcando no seio da ama como em mergulho.