Segunda Parte — IX Inverno em Flor · Capítulo 14 de 24
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Segunda Parte — IX

Quando Sarita apareceu na sala de jantar, Jorge, que passeava ao longo da varanda, foi-lhe ao encontro, mal ouviu a sua voz fresca, de um timbre cristalino e meigo. Pelo corpo gracioso caía-lhe folgado um leve vestido Império ajustado à cinta por uma longa fita, cujas pontas quase lhe tocavam os pés. Tinha o ar infantil nesse traje de baby e o padrasto mirava-a, sorrindo, enlevado na graça que toda ela esparzia quando a calva rútila de Cesário iluminou a porta. Beijavam-se justamente e o filósofo, abrindo os braços como se os quisesse abençoar, saudou a moça que respondia às queixas de Jorge baixinho, risonha, com uma ponta de vexame pudico.

— Ora graças! Folgo de a ver, restituindo o sono e o apetite a mestre pensativo que me não deixou pregar olho anteontem... E com um forte shake-hands: Então: que novas nos dá desse admirável Cosme que ontem não quis trazer o violino à sala? e que boas notícias há sobre moços e moças de beiramar? Conte-nos...

Mademoiselle, num passo sereno de religiosa, apareceu no corredor com a cadelinha. Sentaram-se à mesa onde Inocêncio começava a pousar os pratos. Sarita, desdobrando o guardanapo, encolheu os ombros, risonha e Cesário, servindo-se de kirsch, “o álcool precursor”, chamou o testemunho de Miss Kate:

— Disse eu, Miss, que se ela não voltasse tão cedo arriscava-se a encontrar o nosso homem morto de tristeza.

Miss, com um sorriso frio, acenou afirmativamente andando com os olhos claros de Cesário para Sarita.

Jorge adiantou:

— Tu também, Cesário. Apesar da aparente indiferença andavas aborrecido. E dirigindo-se à Mademoiselle: Porque a verdade é que nós três fazemos um trio magnífico de silêncio.

— Menos eu! bradou Cesário.

— Ainda quando estou só arranjo um interlocutor imaginário para conversar. Menos eu.

Jorge continuou sem desconcertar-se:

— Miss encerra-se com os seus livros; eu, por outro lado, a folhear antigualhas, Cesário a procurar a frase inicial da sua obra. Imagina, minha filha... E riram. O filósofo, com a boca cheia, protestou:

— Perdão, mais de uma vez chamei-te para o terreno da discussão, proporcionando-te ensejo de seres útil à tua pátria e ao mundo, colaborando na História. Fugias. Buscavas a solidão. Mesmo Mademoiselle, Miss, emendou, mesmo Miss prestava-se gentilmente a desanuviar o teu espírito com os divinos acordes. E tu? Era só: porque fez mal, e porque não devia ir, e porque não gosto de tal gente, e porque a casa fica como se nela houvesse morrido alguém, que sei!

— Então era eu a causa dessa tristeza? indagou Sarita com um sorriso ingênuo.

— Só! afirmou Cesário. Só a menina. Está aí a Bá para dizer a verdade. O copeiro servia sorrindo e Jorge, entre vexado e contente, com uma grande voz:

— Ora, Cesário! se eu fazia silêncio, tu não perdoavas as Moretti com a tua sátira.

— Crítica, disse o filósofo, critica; porque, francamente, acho aquilo uma nichée incomparável, começando no Cosme e acabando nos recheios de Heloísa que consegue dar ao corpo a forma de um violão. Crítica! E não é de hoje que me atiro contra aquela gente: desde a serenata de Schubert esganiçada pelo violino até os coleios da pequena, que tanto se estorce e desengonça dentro do colete, que faz a gente pensar em uma víbora a querer fugir pelo gargalo estreito de um frasco. Não é de hoje que as critico. Riram todos. Mademoiselle levou o guardanapo à boca e estrebuxava, com os olhos cintilantes.

Sarita interveio:

— O senhor é implacável!

— Não há tal: sei apenas ver, digo a verdade. E com o talher erguido, o sobrolho carregado: Ó menina! pois então aquela senhora julga que alguém lhe toma a sério as cadeiras? Houve uma explosão de gargalhadas e o filósofo, sempre com os olhos cravados em Sarita, parecia desafiá-la a dizer a verdade e foi preciso que Jorge, sacudido pelo riso, batesse-lhe no braço:

— Vamos ao almoço, Cesário — para que ele baixasse o talher. E Mademoiselle, com os olhos úmidos, duas grandes rosas nas faces, desviou a palestra, falando baixinho à Sarita da Dama macabra de Saint Saëns, que lá estava na estante do piano para que a estudassem.

Jorge, porém, ouvindo as palavras da professora, acudiu:

— Que estudassem, e mais outras peças a quatro mãos, porque pretendia receber alguns amigos no dia dos anos da filhinha.

Cesário devorava resmungando e, como os três fechassem a conversa sobre a festa planejada, entabolou uma discussão com Inocêncio a propósito de um cão que andara à noite pelo jardim a uivar como um demônio, recomendando ao moleque que nunca mais esquecesse o portão aberto; e espetava azeitonas rolando-as na boca desdentada como se lhe queimassem a língua. Ao fim do almoço, na frescura da varanda clara, ao sol, os dois homens digeriam pacatamente, ouvindo os pássaros que chilreavam no saibro ou entre a folhagem viçosa quando o filósofo, voltando os olhos para o amigo, viu-o lívido, ansiando, a cabeça meio tombada sobre o ombro, os olhos amortecidos, a boca entreaberta. Levantou-se num salto e, agarrando-o pelos ombros, sacudiu-o:

— Eh!

Jorge!...

Jorge! Que é isso?

Jorge balançava-se molemente, flacidamente entre as mãos fortes do filósofo como um corpo morto.

Cesário pôs-se a chamar: Inocêncio!...

Inocêncio!... Mas o amigo parecia recobrar alento; os olhos readquiriam o brilho, voltava-lhe a cor ao rosto, e pouco a pouco, a cabeça foi-se-lhe firmando até que respirou aliviado, impondo a mão ao peito, sem desviar os olhos do filósofo que o sustinha sempre pelos ombros, acompanhando-lhe, aterrado, todos os movimentos da fisionomia.

— Ah!

Cesário...

— Mas que é isso, homem! exclamou o filósofo pasmado. Que é isso? e, com um sorriso contrafeito: Deste agora para colapsos femininos?

— Não sei que é; atribuo ao estômago: dispepsia. Há dias tive uma dessas coisas, na chácara, justamente depois do almoço: caí e magoei-me. Procurou ver na mão direita o estigma; havia efetivamente uma pequena escoriação, perto do punho; mostrou-a a Cesário: Vês? Mas foi coisa passageira; agora, outra vez.

— E por que não disseste?

— Não valia a pena. E implorando com o olhar, cheio ainda de uma languidez mórbida: Mas não digas nada. Isso é uma coisa à toa... questão de estômago. Vou amanhã a um médico.

— Devias ir já. Porque amanhã, se temos um dia magnífico para um passeio? Vamos hoje. Essas coisas combatidas de pronto não têm consequências, mas, adiadas tomam-nos conta do corpo, meu amigo, e adeus.

— Ora! suspirou Jorge, limpando a fronte úmida e gelada. Não morrerei disto. É estômago, tenho certeza.

— Pois sim, seja o que for, o que é indispensável é que vás a um médico, nada de charlatães que se ponham a dizer coisas para dar valor à consulta. Vamos, levanta-te. Sentes alguma coisa nas pernas?

— Dormecia... e começou a esfregar as coxas lentamente. Por fim ergueu-se pelo braço de Cesário e caminhou encostando-se à balaustrada:

— Que brincadeira!

— Brincadeira, hein!? pois sim... mas amanhã vamos ver isso. Nada de síncopes; essas moléstias começam, às vezes, por uma insignificância e, quando a gente pensa que é uma leve indisposição, entra-nos pela casa dentro a certidão de óbito. Fortes acordes soaram no interior da casa e Jorge, voltando-se para o lado do salão:

— Olha Sarita...

— Sarita e a Cegonha, repetiu o filósofo, sempre amparando o amigo ao seu braço forte. E, à límpida claridade morna, os dois ficaram calados, os olhos ao longe, ouvindo os compassos trágicos da Dança macabra.

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