Terceira Parte — VIII Inverno em Flor · Capítulo 24 de 24
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Terceira Parte — VIII

Bá, de pé desde as cinco horas, arranjava a casa em companhia de Inocêncio que cantarolava, sentindo-se em liberdade, sem a presença dos amos. Sarita, para espairecer, fora passar o dia com a viúva, o «filósofo» descera para a cidade à cata dum livro, o molecote estava apenas com a negra paciente e carinhosa, que o tratava com meiguice de mãe, posto que, às vezes, o ameaçasse investindo com ele. A ama, porém, os olhos pisados de chorar, varria a casa, parando, às vezes, firmada à vassoura, meditativa e triste, os olhos ao longe, seguindo a visão do passado. No quarto de Sarita, impregnado das essências capitosas da sua toilette, demorou-se e, a cada objeto que encontrava, apanhando as roupas que a moça despira diante do leito desfeito, os soluços atropelavam-na angustiadamente: «Coitada de nhanhã! Coitada de nhanhã!»

Varrendo pedaços de papel encontrou uma madeixa loura voando como uma pluma na poeira do soalho; apanhou-a, beijou-a muito, guardando-a preciosamente como uma relíquia.

A casa deserta reboava; mas a agonia foi grande quando a negra desceu aos antigos aposentos de Jorge. A balbúrdia em que estavam os móveis: livros esparsos, folhas de papel pelos cantos, destroços do cavalete, armas caídas e o grande relógio parado, como se também por ele houvesse passado o mesmo vento de desgraça que aluíra toda a vida daquela casa, dantes tão festiva. Tudo recordava à ama um episódio do velho tempo — a cadeira em que o senhor costumava repousar, a sua grande mesa de trabalho, os seus quadros, os seus bibelots, e na câmara o leito amplo e vazio, com o enxergão de arame rebrilhando. A vassoura ia levando a poeira, onde as suas lágrimas caíam continuamente, mas num canto, uma larga folha de papel resistia à vassoura como se estivesse colada ao soalho.

A negra, abaixando-se, apanhou-a; estava escrita: em grandes letras de um talho nobre havia um título majestoso: — História da Civilização.

Habituada ao respeito pelos escritos levou para a mesa a larga folha de papel e lá a deixou debaixo de uma pesada cabeça de númida, de bronze.

— É de nhônhô, com certeza, coitado! Pode ser que ele ainda queira.

E lembrando-se dele, ainda preocupada com o trabalho do enfermo, pensou que melhor seria guardar a preciosa folha de papel em uma das gavetas, mas todas estavam fechadas; deixou-a na pasta entre outros papéis. Passou a arranjar os livros e, fazendo lugar em uma das estantes para um pesado volume de Ferrario, sentiu por trás alguma coisa macia e mole como algodão; puxou: era uma camisa de mulher, fina e rendada. A poeira dera-lhe uma cor encardida, ainda assim a negra reconheceu-a: «É de nhanhã!» e, mirando-a, ficou-se a pensar: «como teria ido parar ali aquela peça de roupa?»

Outras preocupações, porém, outros cuidados desviaram-lhe a atenção. «Coitado de nhônhô!» E, de novo, as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Sentou-se à porta, ao sol, olhando as montanhas azuis.

O jardim viçoso repontava em flores e o jardineiro, já esquecido das cenas que presenciara, passava o alfanje pela grama cantarolando. Passarinhos mariscavam no saibro e a ama pôs-se a pensar nos dias que vinham.

Estava ali como uma abandonada — ia ficar só, esquecida e velha. Via a noite próxima, sem poder, entretanto, traçar o roteiro do seu destino. Era a miséria, a triste miséria que a esperava. Já lhe não sobravam forças para o trabalho e, mais do que tudo: como poderia resistir o seu pobre coração amoroso e fiel a tantos golpes sucessivos da fatalidade? A cabeça foi aos poucos descaindo e pendeu sobre o peito.

Fora sempre martirizada no coração: estéril, adotara na alma os pequenitos dos senhores e a fibra materna desenvolvera-se-lhe nas longas vigílias junto aos berços, nos transes agoniados das moléstias das crianças quando, mais que as próprias mães, redobrando os cuidados, agarrava-se com o seu Deus misericordioso pedindo a salvação dos inocentes.

Mãe pelo amor, via-se então, na velhice, isolada, vindo do cativeiro sem nunca ter tido um carinho, com as carnes maceradas pelo trabalho e pela tortura. Nada, porém, a preocupava tanto como a ideia de que nunca mais o havia de ver: «Coitado de nhônhô!...» Suspirou e, estendendo os braços, voltando-os, esteve a mirá-los perdidamente e, como se ainda os sentisse fortes para o trabalho, levantou os olhos rasos d'água para o céu deixando escapar um suspiro:

— Deus é grande! — E, cabisbaixa, arrastando os passos, entrou vagarosamente na casa silenciosa e deserta.

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