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Epigramas irônicos e sentimentais

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Epigramas irônicos e sentimentais

Capítulo 1 · Epigramas irônicos e sentimentais

Inscripção a Ecloga tropical

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Inscripção a Ecloga tropical

I
INSCRIPÇÃO
NASCI junto ao mar, Estrangeiro!
entre palmeiras e montanhas,
debaixo de um céo claro, puro, luminoso.
Viram meus olhos as cousas mais bellas que ha no mundo:
as mulheres, as ondas e as arvores do meu paiz natal!
Põe na estela de um poeta amavel e melancolico
a coroa de louros que trazes na mão.

Guarda a tua offerenda!
A vida me sorriu...

II
CANÇÃO DA VIDA QUOTIDIANA
O SOL brilha nas pedras da rua pobre e pequenina,
entre as pedras da rua humilde o matto cresce.
De uma janela aberta vem uma voz dolente,
uma voz sem timbre, uma voz de lagrimas ignoradas...
O sol queima as couves dos quintaes desertos.
Vibra na luz o olho metallico de uma poça d'agua.

(Rua pobre e pequenina, onde o matto cresce,
rua monotona como o céo azul,
rua monotona como a noite cheia de estrellas,
rua dos muros caiados e dos jardins sem flores,
rua dos prégões melancolicos e inuteis,
rua da vida quotidiana...)

III
NOCTURNO SENTIMENTAL
A LUA sobe na alameda.
Sons d'agua, entre-tons de penumbra, luxo
de folhagens de perola e de seda.
A lua sobe na alameda,

uma lua vulgar, humoristica, fria...
Chora na sombra de um jardim tranquillo
a melancolica ironia de um repuxo...

IV
CLARA D'ELLÉBEUSE
VENDO-TE, assim, sob o chapéo de palha enfeitado de cerejas,
o regador na mão, as mangas arregaçadas,
toda cheia de graça e de sol no pomar tropical;
vendo-te, assim, entre arvores carregadas
de frutas coloridas, regando as rosas do rosal,
lembrei-me da tua irmã Clara d'Ellébeuse,
filha do paiz de Francis James;
lembrei-me de Clara d’Ellébeuse, da sua pelle de maçã madura,
do seu chapéo de palha enfeitado de cerejas,

do seu pequeno regador, das rosas vermelhas de Orthez
e dos burrinhos pelludos do paiz de Francis James.

V
RUBAYAT
NÃO perguntes quem encheu a tua taça,
nem quem floriu o teu jardim de rosas,
nem quem poz agua nas tuas fontes,
nem quem vestiu de arvores os montes,
nem quem fez as horas doces ou dolorosas!
Vive, irmão!
Vive, que a vida passa...

Canta!
que a terra é fria e silenciosa.

VI
ECLOGA TROPICAL
ENTRE a chuva de ouro das carambolas
e o velludo polido das jaboticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tepido de hervas, raizes e folhagens.

O ar cheira a mel de abelhas...
E ha nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e ha nas suas vozes agudas e dissonantes
um aereo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de aguas buliçosas..
Epigramas irônicos e sentimentais

Sinopse

Texto original de Epigrammas ironicos e sentimentaes, livro de poemas de Ronald de Carvalho publicado em 1922. Edição Literunico em blocos de poemas, transcrita a partir do exemplar em domínio público da BBM/USP, sem comentários nos capítulos.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657349727674633612380
Formato
A5 cm
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