Universo da obra
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XIV BUCOLICA A MANHÃ parece que nasceu do teu riso, do teu riso de passaro ou de fonte. Vibram na tua voz trilos d'agua fresca, d'agua que escorre por entre avencas e samambaias. E as tuas mãos são duas borboletas brancas voando sobre papoulas e tinhorões, voando na luz da manhã... XV MUSICA DE CAMARA UM pingo d’Agua escorre na vidraça. Rapida, uma andorinha cruza no ar. Uma folha perdida esvoaça, esvoaça... A chuva cáe devagar... XVI GAUDEAMUS IGITUR CONTENTA-TE com ser uma apparencia, irmão! simples capricho da illusão universal. Não digas, tem pudor, que tudo é vaidade, nem que tudo é vão... Tudo é perfeito na alegria universal! Não implores à vida: anda mais devagar... E já que, na verdade, nada mais és que pó ephemero do chão, fumo finissimo do ar, como a fumaça e o pó, gira no turbilhão, voa e revoa, sem parar, no turbilhão! XVII NOITE DE JUNHO LUAR macio, macio como um beijo, brilha nas aguas, estremece nas folhagens... Ha grandes rosas lividas na sombra, lividas como as tuas mãos na sombra. Longe, tremula um clarão de fogueiras, longe... O vento da noite balança as folhagens, desfolha os jasmins, brinca nas trepadeiras. Noite de Junho... Ha vozes brandas ecoando, longe O annel que tu me deste era de vidro e se quebrou... (Noite de Junho, rondas de antigamente...) o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou. XVIII PERVERSIDADE SE teu amigo atraiçoar-te um dia, envenenar-te o vinho, a agua e o pão, sorri com melancolia... Ainda tens puro o coração. XIX JANEIRO A SOMBRA debaixo das arvores é quente, ha um desejo de agua nas folhagens, nas folhagens paradas... A terra é morna como o corpo de um passaro, como o corpo de um passaro sob a plumagem lustrosa. Entre a chuva de ouro de uma acacia zine longa, longamente uma cigarra... XX XX VENTO NOCTURNO VOLUPIA do vento nocturno, do vento que vem das montanhas e das ondas, do vento que espalha no espaço o cheiro das resinas, a exhalação da maresia e do mato virgem, das mangas maduras, das magnolias e das laranjas, dos lirios do brejo e das praias humidas. Volupia do vento nocturno nas noites tropicaes, quando o brilho das estrellas é fixo, duro, quando sobe da terra um halito quente, abafado, e a folhagem lustrosa lembra o aço polido. Volupia do vento morno do verão, carregado de odores excitantes, como um corpo de mulher adolescente, de mulher que espera o momento do amor... Volupia do vento nocturno em minha terra natal!
Texto original de Epigrammas ironicos e sentimentaes, livro de poemas de Ronald de Carvalho publicado em 1922. Edição Literunico em blocos de poemas, transcrita a partir do exemplar em domínio público da BBM/USP, sem comentários nos capítulos.
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