Universo da obra
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VII PROVERBIO AMA os teus inimigos, os que beberam agua no teu copo, os que partiram o pão na tua mesa, os que te apertaram contra o coração, os que morderam, sorrindo, a tua mão. Ama nos teus inimigos, como um simples espectador, indifferente ao bem e ao mal, a perfeição da harmonia universal! VIII GRAVADO NUMA ESTELA EPHEMERO, a vida é bella! Irmão, eu fui feliz... Foi minha a agua das fontes virginaes, foi minha a uva de ouro da vinha, foi meu o pão cheiroso dos trigaes. Eu sorri nas manhãs primaveris! Ephemero, a vida é bella! Vê como, sob o céo azul do meu paiz, é luminosa, leve, a pedra desta estela... IX INTERIOR POETA dos tropicos, tua sala de jantar é simples e modesta como um tranquillo pomar; no aquareo transparente, cheio de agua limosa, nadam peixes vermelhos, dourados e cor de rosa; entra pelas verdes venezianas uma poeira luminosa, uma poeira de sol, tremula e silenciosa, uma poeira de luz que augmenta a solidão. Abre a tua janela de par em par. Lá fóra, sob o céo do verão, todas as arvores estão cantando ! Cada folha é um passaro, cada folha é uma cigarra, cada folha é um som... O ar das chacaras cheira a capim melado, e hervas pisadas, á baunilha, a mato quente e abafado. Poeta dos tropicos, dá-me no teu copo de vidro colorido um gole d'agua. (Como é linda a paisagem no cristal de um copo d'agua!) X ELEGIA A dourada manhã dominical, macia, dobram os sinos da matriz de S. João, dobram os sinos para a missa, na alegria da dourada manhã dominical, macia... (Por que não nasci eu um poeta lirico ?) No azul do céo cheio de nuvens pequeninas as andorinhas vêm e vão. Um riso de menina paira no ar, paira no ar da manhã dominical. Dobram os sinos da matriz de S. João... (Por que não nasci eu um poeta lirico ?) Na dourada manhã... XI MADRIGAL MEU caro, meu bom La Fontaine, obrigado, obrigado por tuas fabulas, mau grado todas as sabbatinas que soffri. Os contos de Perrault não são mais bellos que as tuas fábulas subtis. Ah! mundos deliciosos, feiticeiros, de homens ingenuos, de rãs, ainda modestas, de raposas quasi honestas, de lobos que matavam só para comer! Meu doce La Fontaine, dize ! quero saber onde estão os teus cordeiros. Ensina-me onde estão os teus cordeiros... XII ESTE PERFUME... ú, ESTE perfume de lirios e framboesas é toda a infancia! murmuram os riachos em que entravamos os pés descalços, as mãos avidas em busca das lagostas cor de limo, voam as borboletas azues, ziném as cigarras, zumbem os besouros! Este perfume... (Gemem os bambuaes, sõa a busina dos tropeiros, espalha-se no ar o cheiro das tangerinas e dos cambucás; passam caçadores com enfiadas de passarinhos... Como brilham teus olhos de cobiça, teus olhos como brilham novamente !) Este perfume... (não tocas mais os minuetos de Mozart... dize: quem apanha agora as lagostas cor de limo, quem apanha as borboletas azues ?...) Este perfume de lirios e framboesas... XIII EMQUANTO nos altos ramos a cigarra ainda rechina, emquanto ha sol de verão pelo caminho, vamos, Escansão! a hora é divina, enche meu copo de vinho...
Texto original de Epigrammas ironicos e sentimentaes, livro de poemas de Ronald de Carvalho publicado em 1922. Edição Literunico em blocos de poemas, transcrita a partir do exemplar em domínio público da BBM/USP, sem comentários nos capítulos.
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