Durante o dia, uma pequena rã dorme agarrada à face inferior de uma folha. Seu dorso verde combina com a vegetação, enquanto a pele e os músculos do ventre deixam ver estruturas internas. É a Hyalinobatrachium fleischmanni, uma rã-de-vidro dos trópicos americanos. Para um predador que procura o contorno de um animal entre as folhas, essa transparência ajuda a dificultar a descoberta.
Em dezembro de 2022, pesquisadores descreveram na revista Science uma mudança surpreendente que acompanha seu descanso: grande parte das hemácias sai da circulação e se concentra no fígado. Quando a rã volta à atividade, essas células retornam aos vasos. O processo permite ajustar a transparência do corpo conforme o estado do animal.
As hemácias são os glóbulos vermelhos, células que transportam oxigênio com a ajuda da hemoglobina. Essa molécula também absorve luz, especialmente em determinadas faixas do azul e do verde. Por isso, mesmo uma pele muito transparente pode revelar os vasos que passam por baixo dela. Reduzir a quantidade de hemácias nesses vasos modifica a passagem da luz pelos tecidos.
Investigar a mudança exigiu cuidado. Ao acordar, fazer esforço ou ficar estressada, a rã já alterava a distribuição das células. A anestesia também interferia no fenômeno. Para acompanhar o que acontecia durante o sono, os cientistas precisavam observar o interior de animais vivos sem perturbar justamente a condição que desejavam estudar.
A solução veio da microscopia fotoacústica, utilizada pela equipe de engenharia biomédica da Universidade Duke. Um laser ilumina o tecido; a hemoglobina absorve parte dessa energia e gera ondas ultrassônicas, captadas por sensores. Os sinais permitem localizar as hemácias. No experimento, as rãs dormiam de cabeça para baixo em uma placa de laboratório. A técnica dispensava a injeção de contraste e possibilitava observar células que uma fotografia comum não mostraria dentro dos órgãos.
Nos vasos da pele e dos músculos examinados em 13 indivíduos, o sinal associado às hemácias caía, em média, 89% durante o repouso. Medidas ópticas também mostraram que os animais adormecidos deixavam passar de duas a três vezes mais luz do que após exercício. Os números descrevem comparações experimentais entre estados de atividade.
O fígado oferecia espaço para guardar as células em pequenos canais dilatáveis, chamados sinusoides. Exames de tecidos confirmaram essa concentração. Em medições por ultrassom de dez rãs-de-vidro, o volume do órgão aumentou cerca de 40% durante o sono. Uma cobertura com cristais refletivos de guanina ajudava a esconder da luz as hemácias acumuladas ali.
A equipe comparou ainda três espécies de anuros tropicais de corpo opaco. Nelas, a redução média das hemácias circulantes durante o descanso ficou em 12% ou menos. O resultado reforça a particularidade observada em H. fleischmanni. A pesquisa não permite atribuir o mesmo comportamento a todas as rãs, nem a todas as espécies conhecidas como rãs-de-vidro.
O armazenamento deixa uma pergunta fisiológica importante: como os tecidos atravessam esse período com tão poucas hemácias circulando? Os autores levantaram possibilidades como uma diminuição da atividade metabólica e o uso de processos de obtenção de energia que dispensam oxigênio. Essas explicações eram hipóteses propostas a partir dos resultados, e o trabalho não identificou todo o mecanismo responsável.
Também chamou a atenção a ausência de coagulação prejudicial durante a concentração e a liberação das células observadas. Compreender essa capacidade pode contribuir para pesquisas sobre circulação e coagulação, mas o estudo não apresentou tratamento nem demonstrou aplicação clínica em pessoas. A descoberta documentou uma solução biológica bastante específica: uma rã capaz de reorganizar suas hemácias enquanto dorme e, assim, deixar mais luz atravessar seu corpo.
Fontes
Glassfrogs conceal blood in their liver to maintain transparency
https://doi.org/10.1126/science.abl6620
Glassfrogs Hide Red Blood Cells in Their Liver to Become Transparent
https://pratt.duke.edu/news/glassfrogs-hide-red-blood-cells-their-liver-become-transparent/
Glassfrogs Hide Red Blood Cells in Liver to Disappear
https://www.amnh.org/explore/news-blogs/glassfrogs-camouflage
Organismal transparency in glassfrogs blood metabolism and convergence
https://www.taboadalab.com/organismal-transparency.html
Glassfrogs hide blood in their liver while sleeping to stay transparent