Uma pequena ave retira uma semente do comedouro e voa até uma árvore. Ela pode estar procurando um lugar seguro para comer ou uma superfície onde consiga abrir o alimento. Também pode estar guardando a semente para depois. Entre as aves que fazem esses estoques estão os chapins, capazes de distribuir alimento por muitas frestas e bifurcações de galhos.
Espalhar a comida reduz o risco de perder toda a reserva para outro animal. Em compensação, exige reencontrar vários esconderijos. O Laboratório de Ornitologia de Cornell descreve como essas aves usam referências visuais, incluindo a posição da vegetação, para localizar os pontos onde guardaram alimento. Algumas reservas atendem a necessidades do mesmo dia ou da manhã seguinte.
Esse comportamento oferece uma oportunidade rara à neurociência: observar o cérebro enquanto um animal realiza um acontecimento que poderá precisar recordar. Uma equipe da Universidade Columbia investigou a espécie norte-americana Poecile atricapillus, conhecida em inglês como black-capped chickadee. Os resultados foram publicados on-line na revista Cell em 29 de março de 2024.
Os pesquisadores construíram uma arena com locais para esconder sementes e acompanharam a atividade do hipocampo, região cerebral importante para a memória. Seis câmeras registravam os movimentos das aves, permitindo relacionar os sinais elétricos aos momentos em que elas guardavam, examinavam ou recuperavam a comida. Assim, os pesquisadores podiam comparar episódios definidos pelo comportamento.
Ao guardar uma semente, a ave apresentava uma combinação breve de atividade entre neurônios. Os autores chamaram esses padrões de “códigos de barras”, uma analogia para assinaturas que distinguem acontecimentos. Um padrão semelhante tendia a reaparecer quando o animal recuperava aquela reserva. Locais muito próximos podiam estar associados a padrões diferentes, e novos episódios no mesmo lugar também podiam receber assinaturas distintas.
O hipocampo já era conhecido por conter células cuja atividade varia conforme a localização do animal. Os novos padrões apareciam junto desse sinal espacial, mas tinham características próprias: eram breves e específicos dos episódios de armazenamento. A equipe propôs que poderiam ajudar a registrar muitos acontecimentos sem confundi-los. Essa função é uma interpretação dos resultados experimentais.
Segundo a apresentação do estudo feita por Columbia, os sinais duravam em média cerca de um segundo. A precisão do acompanhamento comportamental foi importante para encontrá-los. A instituição também destacou uma pergunta para pesquisas futuras: os mesmos padrões apareceriam quando uma ave estivesse longe do alimento e decidisse procurá-lo? O experimento divulgado não demonstrou essa antecipação.
Em um comentário publicado na Animal Cognition em 2025, Tom Smulders e Sen Cheng examinaram justamente esse limite. Os registros mostravam reativação quando a ave já havia chegado ao esconderijo. Isso é compatível com uma lembrança despertada pela visão ou pela interação com o local. Demonstrar uma lembrança acionada antes da chegada exigiria procurar sinais em momentos anteriores.
Os dois pesquisadores ressaltaram que o ambiente experimental e a análise dos dados também importam. Uma arena pequena, com esconderijos próximos, pode favorecer estratégias diferentes das usadas numa área natural. Além disso, reunir muitos episódios em uma média pode ocultar sinais que surgem em instantes variáveis. Portanto, a ausência de antecipação demonstrada não elimina essa possibilidade.
A descoberta permite investigar uma pergunta bastante concreta: o que muda no cérebro quando uma ave guarda alimento e depois volta para buscá-lo? Os padrões registrados oferecem uma pista verificável. Determinar se participam da escolha do próximo esconderijo a visitar requer novos testes, com atenção ao que a ave vê e ao momento exato em que seus neurônios se ativam.
Fontes
Universidade Columbia, Zuckerman Institute. Divulgação institucional do estudo, 29 de março de 2024.
Smulders e Cheng. What is the nature of cache memory in Parids? Animal Cognition, 2025.