Abrindo...
LitIdeias
Todas as ideias
Ver revista: Curiosidades

As costas das peças de Lewis também faziam parte do jogo

Tronos entalhados e guerreiros que mordem escudos ajudam a investigar um conjunto medieval cercado de perguntas.

avatar por Ellen
Comentários 0 Compartilhar
Abrir imagem

Imagem de destaque: verso de uma rainha das peças de Lewis (H.NS 21). Fotografia: National Museums Scotland, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Imagem sem alterações.

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:NMSLewisChessmen26.jpg

Licença: https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/


Um tabuleiro medieval podia reunir uma rainha com a mão no rosto e guerreiros mordendo os próprios escudos. Essas figuras fazem parte das peças de xadrez de Lewis, encontradas numa ilha das Hébridas, na Escócia, e conhecidas publicamente desde 1831. Seus rostos costumam atrair o primeiro olhar. Mas há uma pergunta igualmente interessante do outro lado das esculturas: por que esculpir com tanto cuidado as costas de uma peça de jogo?


Em 31 de outubro de 2024, o National Museum of Scotland anunciou uma nova apresentação de dez de suas peças, permitindo observar também a parte posterior. Os encostos dos tronos exibem ramos entrelaçados e desenhos de nós; alguns cabelos descem em cachos estilizados. A curadora Alice Blackwell lembrou um detalhe simples da experiência de jogar: cada participante vê as costas das próprias peças. A decoração, portanto, fazia parte daquilo que os jogadores efetivamente contemplavam durante a partida.


Olhar essas miniaturas por vários ângulos muda a experiência de quem as examina. A fotografia frontal favorece a identificação de uma expressão; girar o ponto de vista permite acompanhar o trabalho do entalhador. Vale reparar em como uma linha continua, cruza outra e ocupa uma superfície pequena. São escolhas de composição que podem passar despercebidas quando procuramos apenas reconhecer reis, rainhas ou cavaleiros.


Segundo o National Museums Scotland, as peças provavelmente foram produzidas na Noruega entre o final do século XII e o início do XIII. A atribuição se apoia em comparações: uma peça semelhante foi encontrada em Trondheim, e os tronos lembram entalhes de igrejas medievais norueguesas. A maior parte foi feita de marfim de morsa, possivelmente obtido na Groenlândia e comercializado com a Noruega. Há também exemplares esculpidos em dentes de cachalote.


As diferenças de tamanho e execução indicam peças de pelo menos quatro jogos. Não sabemos quem as enterrou nem por quê. Um comerciante em viagem é uma hipótese; o patrimônio de alguém poderoso da região é outra. Os vínculos escandinavos das ilhas ajudam a entender ambas as possibilidades, mas não permitem escolher uma delas como solução definitiva. Encontrar um objeto e reconstruir seu percurso são problemas históricos diferentes.


Uma pista particular está nos guerreiros que mordem escudos. Em texto publicado pelo Metropolitan Museum of Art em 2012, o curador James Robinson explica como Frederic Madden, estudioso envolvido na aquisição das peças pelo British Museum, relacionou o gesto aos berserkers descritos em uma saga nórdica. Essas figuras ocupavam a posição correspondente à torre do xadrez moderno. A leitura combinou escultura e documentação escrita; o gesto ganhou uma interpretação histórica fundamentada.


Madden também temia que a venda separada dispersasse o conjunto. O British Museum comprou suas peças entre novembro de 1831 e janeiro de 1832. Outros onze exemplares passaram por coleções particulares antes de serem adquiridos, em 1888, pelo museu escocês. Essa trajetória documentada acrescenta uma segunda história: além da fabricação e do uso medieval, existe a formação das coleções que hoje permitem estudar os objetos.


Para apreciar as peças de Lewis, vale fazer duas perguntas sucessivas: o que podemos observar diretamente e o que precisamos inferir? Um nó entalhado pode ser examinado; a identidade de quem escondeu o conjunto continua desconhecida. A curiosidade funciona melhor quando acompanha essa diferença. Mesmo sem resolver o enterro, podemos reconstruir técnicas, comparar imagens e imaginar a posição do jogador diante de um pequeno trono trabalhado dos dois lados.


Fontes


National Museums Scotland: história das peças de Lewis

https://www.nms.ac.uk/discover-catalogue/the-story-of-the-lewis-chess-pieces


National Museums Scotland: nova apresentação, 31/10/2024

https://media.nms.ac.uk/news/redisplay-of-the-lewis-chess-pieces-allows-them-to-be-seen-in-full-for-the-first-time


The Metropolitan Museum of Art: Madden’s Moves, 20/01/2012

https://www.metmuseum.org/exhibitions/listings/2011/the-game-of-kings-medieval-ivory-chessmen-from-the-isle-of-lewis/exhibition-blog/game-of-kings/blog/maddens-moves

ProfissionalServiçosTagsContatoVer
Comentários ver
Ainda não tem comentários.
Entre na sua conta para comentar.