Uma pedra pode ajudar uma lontra-marinha a abrir o jantar e a conservar os dentes. O uso de ferramentas por esses animais já era conhecido, mas uma pesquisa publicada em maio de 2024 na revista Science investigou o que o comportamento representa para a alimentação. A equipe encontrou uma associação entre o uso de objetos, o acesso a presas difíceis de quebrar e menos danos dentários.
O trabalho acompanhou 196 lontras-marinhas-do-sul, da subespécie Enhydra lutris nereis, identificadas com transmissores de rádio na costa da Califórnia. Em vez de observar apenas uma refeição curiosa, os pesquisadores reuniram registros dos mesmos indivíduos ao longo do tempo. Assim, puderam comparar a frequência de uso de ferramentas com características da dieta e das próprias lontras.
Os dados de campo vieram de cinco áreas: Elkhorn Slough, Monterey, Big Sur, Piedras Blancas e San Luis Obispo. O conjunto disponibilizado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos reúne medidas obtidas durante capturas, como idade, sexo e tamanho corporal, além de observações visuais de alimentação e informações sobre a dureza das presas. Essa combinação permite examinar diferenças individuais sem presumir que todos os animais comem da mesma maneira.
Há um problema mecânico por trás da escolha do alimento. Uma presa pode estar disponível e conter energia, mas continuar difícil de consumir se sua carapaça exigir mais força do que a mordida consegue exercer. Rochas, conchas e outros objetos podem ajudar a rompê-la. No estudo, os indivíduos que usavam ferramentas conseguiam explorar presas maiores ou de revestimento mais duro, ampliando suas possibilidades de alimentação.
A vantagem também aparecia nos dentes. A pesquisa relacionou o processamento com ferramentas a menos danos dentários. Isso importa porque uma dentição muito comprometida dificulta a obtenção de comida. O comportamento pode, portanto, aliviar o conflito entre acessar alimentos resistentes e preservar a capacidade de continuar se alimentando. Não significa que qualquer uso de pedra garanta dentes intactos: a interpretação envolve a dieta e os recursos disponíveis em cada ambiente.
As fêmeas chamaram a atenção. Segundo a Universidade da Califórnia em Santa Cruz, as que utilizavam ferramentas com maior frequência apresentavam menos danos nos dentes do que as que raramente ou nunca recorriam a elas. Os pesquisadores propõem que o comportamento ajuda a compensar o menor tamanho corporal e a menor capacidade de mordida, enquanto atende às exigências energéticas da reprodução. Trata-se de uma interpretação dos resultados, não de uma intenção que se possa atribuir diretamente aos animais.
A oferta de presas também entra nessa história. Quando certos alimentos preferidos ficam escassos, alternativas de concha resistente podem ganhar importância. O estudo sugere que, para algumas lontras, ferramentas ajudam a manter a ingestão de energia nesse cenário. A conclusão se refere aos animais e condições investigados; não demonstra que toda população de lontras dependa igualmente desses objetos.
Há ainda uma diferença importante entre observar uma ferramenta e medir seu benefício. Neste caso, registros individuais, medidas corporais e características dos alimentos foram analisados em conjunto. O resultado aproxima uma cena familiar dos documentários de uma questão concreta de sobrevivência: como conseguir comida suficiente sem comprometer os dentes usados nas próximas refeições.
Fontes
Law, C. J. et al. Tool use increases mechanical foraging success and tooth health in southern sea otters (Enhydra lutris nereis). Science, 384, 798–802, maio de 2024. https://doi.org/10.1126/science.adj6608 . Resumo do estudo: https://pubs.usgs.gov/publication/70254909
UC Santa Cruz, 16 de maio de 2024: https://news.ucsc.edu/2024/05/sea-otters-tools/
Dados e métodos de coleta, USGS: https://catalog.data.gov/dataset/data-from-tool-use-increases-mechanical-foraging-success-and-tooth-health-in-southern-sea-
Imagem: lontra-marinha-do-sul entre algas em Moss Landing, Califórnia. Foto ilustrativa da espécie; não registra uso de ferramenta. Foto: Lilian Carswell/USFWS. Domínio público. Reprodução sem alterações. Fonte e direitos: https://www.fws.gov/media/sea-otter-0