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As três patas reconstruídas do hipopótamo azul do Egito

O pequeno William, do Metropolitan Museum, reúne crenças funerárias, marcas de fabricação e uma restauração moderna.

avatar por Ellen
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Imagem de destaque: Três patas de William são reconstruções modernas; a pata dianteira esquerda é antiga. Crédito: Hipopótamo (“William”), Egito, Reino Médio, c. 1961–1878 a.C., faiança. The Metropolitan Museum of Art, doação de Edward S. Harkness, 1917, 17.9.1. Imagem: The Met Open Access, CC0. Fonte da imagem. Licença CC0. Imagem integral, sem alterações.

O hipopótamo azul conhecido como William tem cerca de vinte centímetros de comprimento e quase quatro mil anos. No Metropolitan Museum of Art, em Nova York, ele aparece apoiado sobre quatro patas, mas apenas uma delas é antiga. As outras três são reconstruções. O catálogo do museu propõe uma explicação para as perdas: as patas provavelmente foram quebradas de propósito para impedir que a figura causasse dano ao morto que acompanhava. A hipótese faz sentido dentro das práticas funerárias egípcias, nas quais uma representação podia adquirir poderes e exigir cuidados.

Produzida entre aproximadamente 1961 e 1878 a.C., a peça foi encontrada em Meir, em contexto associado ao sepultamento do administrador Senbi II. É feita de faiança, material à base de quartzo, com superfície vitrificada. As plantas desenhadas sobre o corpo remetem ao ambiente aquático do animal. A doação de Edward S. Harkness levou a estatueta ao Met em 1917. Hippopotamus (William), catálogo do Met.

Conviver com hipopótamos no Nilo envolvia riscos concretos. Eles podiam atacar embarcações e prejudicar plantações durante a alimentação noturna. No ensaio da egiptóloga Isabel Stünkel, a documentação inclui até uma receita médica destinada a ferimentos provocados por suas mordidas. As imagens de caça também expressavam o poder de controlar um animal perigoso. A relação religiosa, entretanto, reunia significados diferentes. O hábito de submergir e voltar à superfície era associado à regeneração; a vida nas águas do Nilo ajudava a explicar sua ligação com a renovação da existência.

Por isso, estatuetas de hipopótamos podiam integrar o equipamento de uma tumba. A decoração vegetal reforçava os vínculos com crescimento e renascimento. Controlar o potencial destrutivo da imagem preservaria essas qualidades desejáveis. Stünkel apresenta essa leitura como interpretação arqueológica, sem afirmar que todas as figuras tiveram uma única função ou que cada fratura conhecida tenha necessariamente origem ritual. Hippopotami in Ancient Egypt, Isabel Stünkel.

Há ainda outro detalhe importante para quem observa a fotografia: nem toda marca visível pertence à história das patas. Em uma resposta preparada pelo museu com participação da curadoria e da conservação, os especialistas explicam que as linhas espalhadas pelo corpo são fissuras na camada vitrificada. Elas não atravessam o núcleo da estatueta. Provavelmente surgiram durante o resfriamento após a queima, quando superfície e corpo se contraíram de maneiras diferentes. O desgaste posterior tornou essas linhas mais perceptíveis.

A mesma explicação identifica a pata dianteira esquerda como a única antiga. William chegou ao museu com o corpo inteiro, mas sem três patas. Assim, o visitante vê reunidas uma fabricação egípcia, perdas antigas e intervenções modernas. A distinção impede que se tome a aparência atual como registro intacto do objeto no momento em que saiu da oficina. A #MetKids Question for William the Hippo.

O nome William é muito mais recente que tudo isso. Segundo pesquisa do Met, apareceu em 1931, numa narrativa humorística publicada na revista britânica Punch. Seu autor, o capitão H. M. Raleigh, descrevia uma reprodução emoldurada do hipopótamo que a família consultava como oráculo doméstico. O museu republicou a história naquele ano, e o apelido ganhou circulação. Não era um nome recuperado de uma inscrição egípcia.

Os pesquisadores encontraram correspondências entre a família real de Raleigh e personagens do texto, mas consideram a narrativa essencialmente humorística. Esse último episódio também merece sua etiqueta: é parte da recepção moderna da peça. As crenças funerárias que ajudam a interpretar suas patas pertencem a outro contexto, que exige arqueologia e conservação para ser compreendido. How William the Hippo Got His Name.

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