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Carcará

Conto de Eder B. Jr.

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Eder B. Jr.

Severino ganhou o nome de Carcará por causa de um carneiro que já estava morto, embora os homens da venda de Antenor preferissem contar que o bicho ainda esperneava quando ele entrou no fogo. A cada vez que alguém pagava outra rodada, as labaredas subiam um pouco mais, obrigando Severino a atravessar um terreno que crescia junto com o peso do animal. Um dos homens chegou a afirmar que vira o couro do chapéu fumegar, e Inácia, ouvindo da porta, apertou os lábios para conter a resposta. Tinha guardado aquele chapéu enquanto o pai entrava na fumaça, com a enxada encostada à perna e a cabaça de água segura entre os pés.

O fogo fora posto para limpar o resto de um roçado e devia morrer no aceiro, depois de consumir o mato cortado. Ficara, porém, uma faixa de capim seco no fundo de uma grota, por onde a chama passou quando o vento virou, alcançando a encosta em que dois carneiros de seu Anselmo tinham se apartado do rebanho. O maior encontrou saída; o outro prendeu a perna num arame quase enterrado e se debateu até que a fumaça o escondesse de quem observava do caminho.

Severino esperou uma baixa da chama para molhar a frente da camisa com a água que restava na cabaça e cobrir o nariz. Inácia viu as costas do pai desaparecerem, enquanto apertava as abas do chapéu com força suficiente para partir uma delas. Um homem a puxou pelo ombro, afastando-a do calor, e a menina continuou voltada para o lugar por onde Severino entrara, à espera de que a fumaça abrisse e o deixasse passar.

Ele voltou arrastando o carneiro pelas pernas de trás, com uma tosse que o fazia parar a cada poucos passos. Inácia reconheceu a orelha queimada quando o pai virou o animal com a ponta do pé; na barriga, a lã se juntara em caroços escuros, e Severino precisou afastá-la com a faca para examinar a carne.

— Esse ainda serve.

Sobre um mourão, um carcará vigiava os bichos miúdos que escapavam do queimado e descia para apanhá-los antes que encontrassem abrigo. Um dos homens apontou a ave aos companheiros e estendeu o braço na direção de Severino, que permanecia abaixado sobre o carneiro. A comparação provocou risos e acompanhou a volta para casa, quando já chamavam pelo pássaro para pedir que ele esperasse ou ajudasse a carregar uma ferramenta.

Seu Anselmo consentiu que a família ficasse com a carne depois de separar para si o que ainda prestava do couro, falando como se entregasse um animal escolhido no curral. Rosa, mulher de Severino, cortou os pedaços estragados e salgou o restante, que pendurou em tiras sobre o fogão. Durante três dias, o cheiro de pelo chamuscado se misturou ao da comida, da qual Severino aceitava pouco: a boca estava ferida por dentro, e ele precisava esperar a dor diminuir entre uma colherada de caldo e a seguinte.

Inácia tinha onze anos, cinco a mais que Bento, e ainda estranhava quando alguém chegava à porta perguntando por Carcará. Rosa continuou usando o nome do marido, mesmo depois que o apelido alcançou as fazendas mais distantes e os homens da venda passaram a repetir a história do carneiro diante dele. Quando o chamavam da rua, Bento às vezes corria para avisar que estavam procurando o pássaro, e Severino erguia o menino pelas axilas, fazendo-o rir antes de sair para o trabalho.


No ano seguinte, dona Celina fechou a escola depois de esperar até maio por um pagamento que vinha sendo adiado. Vendeu a máquina de costura para custear a mudança e foi morar com uma irmã, deixando que os alunos escolhessem alguma coisa da sala no último dia de aula. Inácia levou um caderno de capa azul em que só as primeiras folhas estavam escritas e guardou dentro dele a régua de madeira que usava para traçar margens. Enquanto os colegas disputavam os livros menos estragados, Bento se esticava debaixo do pedaço de ferro que servia de sino, tentando alcançar a corda presa ao alpendre. Propôs que o pai viesse soltá-lo, mas dona Celina lhe segurou a mão e explicou que aquilo precisava ficar.

Em julho, Severino recebeu a chave do armazém de Antenor, onde trabalhava carregando sacos e varrendo o chão depois das descargas. A venda ocupava a frente do prédio; pelos fundos se chegava ao depósito, separado do terreiro por um portão de tábuas que precisava ser levantado um pouco para abrir. Os caminhões traziam milho e feijão debaixo da lona, e Severino os empilhava conforme a indicação do patrão, deixando passagem até o sal grosso que se vendia por peso. As ferramentas ficavam encostadas à parede, longe dos sacos de farelo, onde os ratos apareciam com mais frequência. Parte da mercadoria pertencia a Antenor; o restante era de gente que pagava pelo espaço e vinha conferir suas marcas na estopa.

Severino aprendera a distinguir cada lote pelo lugar que ocupava, até que a necessidade de abrir passagem para uma carga nova obrigava a mudar tudo. Nesses dias, precisava procurar um nó diferente ou a mancha que reconhecia de uma descarga anterior, pois as letras impressas nos sacos lhe diziam pouco. Depois do desaparecimento de duas sacas de feijão, Antenor o chamou à mesa e disse que precisava de alguém disposto a dormir ali.

Combinaram uma quantia por semana, acrescida de uma medida de milho, enquanto as compras da família continuariam anotadas no livro da venda. Severino começou a fazer a conta nos dedos e já recomeçava pela segunda vez quando Antenor abriu o volume de capa preta diante dele.

— Você ainda está com isso aqui.

O dedo do comerciante cobria parte dos números, obrigando Severino a se inclinar para enxergar. Inácia tinha ido buscar querosene e esperava ao lado do pai com a garrafa vazia; aproveitou a demora para somar os valores que conseguia ler, até que Antenor fechou o livro e apoiou a mão na capa, esperando uma resposta.

Naquela noite, Severino pôs a chave sobre a mesa, afastada das tigelas, e explicou que passava a responder pelas mercadorias. A mulher acabou de servir o milho de Bento antes de perguntar onde ele dormiria. Havia espaço entre os sacos, respondeu Severino, e levaria a rede maior. Rosa voltou os olhos para o canto em que o menino já se deitara; o marido acompanhou seu olhar e ficou mexendo a comida, até esclarecer que a rede pequena permaneceria em casa.

Além da rede, Antenor lhe entregou uma espingarda, dizendo que, com Carcará de guarda, queria ver quem teria coragem de entrar no depósito. Precisou mostrar duas vezes como se abria o cano. Inácia observava as mãos do pai, demoradas numa tarefa que parecia simples perto de outras que o vira cumprir: numa matança, a faca encontrava o lugar certo com um movimento só, enquanto ali cada peça exigia que ele parasse e examinasse o mecanismo. Antenor tomou a arma de volta para repetir a explicação, e Severino se aproximou, acompanhando o trabalho dos dedos.

Começou a dormir no depósito e vinha para casa ao clarear do dia, a tempo de lavar o rosto e comer antes de voltar ao serviço. A vigilância se acrescentara ao trabalho das descargas, de modo que uma noite mal dormida podia ser seguida por horas debaixo dos sacos. Entre a chegada de um caminhão e a de outro, ainda precisava atender quem comprava sal ou ajudar a tirar um veículo atolado perto da passagem. Quando se sentava à porta de casa para esperar a comida, cochilava com o queixo sobre o peito e acordava esfregando a nuca.

A primeira medida de milho veio completa, mas na semana seguinte o querosene consumiu parte do que a família esperava receber. Depois apareceu o conserto de uma roda quebrada meses antes, quando Severino conduzia a carroça de Antenor, e a mulher mandou Inácia começar a anotar as despesas. A menina arrancou do caderno as folhas usadas e escreveu o nome do milho na primeira página limpa, reservando a linha de baixo para o querosene. Ao chegar à roda, perguntou o preço, e a mãe, que também o desconhecia, pediu que deixasse lugar.

Quando Severino chegava, Inácia abria a página sobre a mesa para que ele ajudasse a preencher o que faltava. O pai se lembrava de algumas quantias, confundia outras com compras antigas e acabava dizendo que perguntaria na venda. A menina mantinha a régua dentro do caderno, marcando a folha em que os espaços continuavam vazios.


Inácia sentia da rua o cheiro do milho guardado e demorava um instante à entrada quando levava a comida do pai, aproveitando a frescura que o depósito conservava mesmo no fim da tarde. Entre as pilhas havia corredores estreitos, onde encontrava grãos caídos junto às paredes e se abaixava para recolhê-los, examinando os furos de caruncho antes de guardar cada punhado. Severino acabou lhe dando uma vassoura curta, com a qual podia alcançar também o chão debaixo da balança.

O milho recolhido serviu às galinhas enquanto houve galinhas; mais tarde, a mãe passou a separar os melhores grãos para pisá-los no pilão. Desde então, Inácia procurava com mais cuidado, afastando um caixote para varrer atrás dele ou passando a mão pela fresta da soleira antes de desistir. O pai a mandava para casa, e ela respondia que ainda faltava um canto, já estendendo a vassoura para ganhar tempo.

— Esse fica para amanhã — ele dizia, conduzindo-a até a porta.

Uma tarde, Inácia voltou porque esquecera a vassoura e encontrou o pai com a lata aberta entre os joelhos, dividindo a comida com a colher. Ao perceber a filha, Severino juntou as duas porções e remexeu o jantar enquanto perguntava o que ela queria. A menina pegou o que viera buscar e já alcançava a porta quando ele a chamou, pedindo que levasse uma parte para Bento.

— Ele já comeu — respondeu Inácia, apertando o cabo da vassoura.

Severino manteve a colher suspensa e perguntou o que o menino tinha comido. Inácia baixou os olhos para a lata, à procura de uma resposta que permitisse ao pai continuar o jantar. Ele esperou um pouco antes de fechar a tampa e lhe entregar a porção inteira, que a menina levou andando depressa, receosa de ser chamada outra vez.

No dia seguinte, a mãe fez questão de levar a comida pessoalmente e voltou sacudindo o pano no terreiro, zangada demais para explicar o que ocorrera. Quando foi preparar o jantar, separou uma colher de fubá num pires antes de despejar o restante na água quente e cobriu a pequena reserva com um retalho. Bento acompanhava os movimentos dela de perto do fogão, até perguntar se aquilo ficaria para o dia seguinte. A mãe confirmou e afastou o pires do alcance do menino.

Quando Severino chegou, ela mostrou o fubá reservado e esperou que ele levantasse o pano para conferir. O marido se sentou à mesa, e a mulher permaneceu junto ao fogão durante a refeição, enxaguando a colher e passando um pano na borda da panela, até que ele acabasse de comer.

Por esse tempo, o portão dos fundos passou a reunir gente que procurava trabalho ou tentava prolongar o prazo de uma dívida. Havia quem chegasse puxando uma cabra para oferecer em troca de mantimento; outros traziam de casa algum objeto que ainda pudesse interessar a Antenor e esperavam com ele sobre os joelhos. Severino os encaminhava à venda, conforme a ordem do patrão, que preferia tratar das contas no balcão, longe dos sacos abertos e das pessoas que demoravam a sair do depósito. De dentro, Antenor o chamava pelo apelido sempre que alguém insistia em permanecer no terreiro, e Inácia já sabia que o pai teria de interromper o que fazia para conduzir outra pessoa até a rua.

Uma mulher veio mostrar-lhe os dois filhos adormecidos numa carroça, depois que a venda já tinha fechado. Severino procurou Antenor e voltou com a ordem de dispensá-la, ao que ela perguntou a hora em que o estabelecimento abria. Assim que soube, puxou a carroça para a sombra do muro e se acomodou perto das crianças, de onde ainda podia ver o portão.

Na manhã seguinte, Severino deu a Inácia uma moeda para buscar rapadura na outra venda, que ficava longe. Quando a menina voltou, a carroça tinha desaparecido, e ela perguntou pela mulher enquanto entregava o embrulho ao pai.

— Seguiram — ele respondeu, abrindo o papel sobre uma caixa.

Inácia procurou a carroça na estrada, até onde a vista alcançava, enquanto Severino partia a rapadura com o cabo da faca. Ele separou o pedaço maior para Bento e levou à boca um farelo preso à palma da mão; depois pediu o troco, fazendo a menina se voltar para ele e procurar a moeda no bolso.


Damião era filho de uma prima de Rosa e tinha cerca de dois anos a mais que a menina. O dente da frente, partido numa queda no lajedo, aparecia sempre que ria dos desenhos que fazia à margem dos cadernos. Na escola, costumava dar aos homens chapéus maiores que a cabeça e alongava tanto os cachorros que eles quase atravessavam a folha; certa vez desenhou dona Celina com pés enormes, e a professora, ao tomar-lhe o papel, acabou rindo também. Ele passou o resto da aula de olhos baixos, espiando de vez em quando para ver se ela mostrava a caricatura a alguém.

A mãe de Damião morreu antes que a seca apertasse de vez, e o pai, que saíra à procura de trabalho, mandou notícia apenas duas vezes. O menino ficou com uma tia do outro lado do riacho, numa casa em que já dormia muita gente. Inácia o encontrava pela passagem quando ele ia buscar água e às vezes o acompanhava por um trecho, respondendo às perguntas sobre os livros da escola que ainda guardava em casa.

Numa tarde de agosto, a menina o encontrou agachado atrás do armazém, com uma lata de banha que ele escondeu entre as pernas assim que a viu. Havia milho espalhado perto de um buraco no rodapé, onde a ponta apodrecida de uma tábua permitia passar o braço até os sacos encostados à parede. Damião levou o dedo à boca para pedir silêncio, expondo o dente quebrado, e tornou a enfiar a mão pela abertura.

Inácia levava o jantar do pai, que estava na frente da venda descarregando uma carroça e podia aparecer a qualquer momento. Bastava avisar para que Damião fosse embora com o que já tinha, mas a menina permaneceu olhando os grãos derramados, enquanto ele raspava a pele na borda da madeira e puxava outro punhado. Severino surgiu pela quina do muro e alcançou o menino antes que ele pudesse correr, agarrando-o pela camisa com uma força que fez a lata bater na parede.

— Então é você — disse, puxando Damião para perto do portão.

O menino se torcia dentro da roupa e insistia que tinha ido só naquele dia, enquanto Severino lhe prendia o braço nas costas e perguntava quem mais vinha roubar. Damião repetiu que estava sozinho, tentando alcançar com a boca a mão que o segurava. Quando seus dentes tocaram a pele, Severino o empurrou contra a parede e dobrou-lhe o braço um pouco mais, até que Inácia ouviu um som curto por baixo do grito.

As pernas de Damião cederam, e o menino escorregou até o chão assim que Severino o soltou. Segurava o pulso contra a barriga, respirando aos arrancos, com a mão num ângulo que fez Inácia se aproximar antes de ouvir o pai mandá-la buscar a mãe. Ele precisou repetir a ordem para que a menina corresse, ainda apertando a lata do jantar contra o peito e derramando caldo pela tampa.

A mãe veio com pedaços de madeira para imobilizar o braço e um lençol velho rasgado em tiras, que deixou ao alcance da mão ao se ajoelhar perto de Damião. O menino recuava a cada tentativa de examiná-lo, até que ela o convenceu a apoiar o pulso sobre seu joelho. Inácia lhe passava as faixas e observava os dedos dos pés de Damião se encolherem quando a mãe apertava um pouco mais o pano.

— Ele entrou para roubar — disse Severino, do lugar em que permanecia junto ao portão.

A mulher terminou o nó, soltou a ponta da faixa que segurava entre os dentes e pediu ao marido que fosse buscar água. Damião tentou receber a caneca com a mão boa, mas o tremor o obrigou a aceitar que ela a sustentasse enquanto bebia. Antenor apareceu quando os dois já se preparavam para sair, escutou a explicação de Severino e foi examinar a tábua, ordenando que o buraco fosse fechado naquela mesma tarde.

— É assim, Carcará. Se amolece, amanhã está todo mundo aqui.

Damião saiu apoiado na mulher, e Inácia os acompanhou com a caneca que devolveria depois. Perto da passagem, o menino precisou parar para vomitar a água; Rosa o sustentou pela cintura até que pudesse continuar, perguntando a cada poucos passos se aguentava chegar à casa da tia.

Quando voltou, a mulher lavou as tiras restantes do lençol e as estendeu no espaldar de uma cadeira, onde ainda secavam quando Severino entrou, depois de escurecer. Ele trazia quase inteira a comida que Inácia deixara no armazém ao devolver a caneca e pousou a lata na mesa, demorando em pé antes de se dirigir à mulher.

— Não calculei a força.

Rosa continuou sentada, com as mãos no colo, enquanto Severino puxava um banco e esperava algum sinal para se acomodar. Ele mostrou a marca perto do polegar, explicando que o menino o mordera, e sustentou a mão estendida por um tempo antes de baixá-la. Bento brincava no chão com um carrinho de lata, que recolheu para levar até a porta; Severino acompanhou a mudança de lugar do filho e só então abriu o jantar.


Duas noites depois, Inácia acordou com a mãe dobrando a roupa à luz baixa da lamparina. Ao lado da trouxa estava a panela menor, escolhida para a viagem, e a mulher experimentava acomodá-la entre as peças antes de decidir prendê-la por fora. Guardara uma agulha num retalho bem dobrado, que enfiou no fundo do embrulho para evitar que se perdesse. Inácia se inclinou na rede quando viu a mãe envolver também o retrato dos avós numa camisa, protegendo o vidro.

Perguntou aonde iriam, e a mãe respondeu que sairiam para a estrada. A menina se sentou para ouvir melhor enquanto a mulher explicava que uma companheira de lavagem tinha um irmão trabalhando perto da linha do trem, num lugar em que havia água. Sabia o nome do homem e o povoado onde deviam procurá-lo; repetiu a informação para que Inácia a guardasse e acrescentou que levariam um recado da irmã dele.

Severino chegou antes do dia, à procura de uma corda, e parou no batente ao reconhecer os preparativos. A mulher acabava de amarrar as pontas da trouxa quando ele perguntou o que acontecia; ela respondeu que levaria os meninos e tornou a dizer o nome do povoado, de modo que Inácia o ouviu mais uma vez e o repetiu por dentro.

O pai quis saber quanto teriam de andar até lá. Conforme a mãe explicava o pouco que conhecia do caminho, Severino retirou a corda de trás da porta e começou a enrolá-la na mão, para logo em seguida soltar as voltas e recomeçar. Sua camisa estava aberta, deixando aparecer junto ao peito uma costela mais saliente, que Inácia acompanhou com os olhos quando ele se inclinou para examinar a trouxa.

— Lá também passam necessidade.

A mulher levantou o embrulho para experimentar o peso e disse que precisavam de comida para o caminho. Severino propôs pedir um adiantamento, já se voltando para a porta, mas ela o chamou antes que saísse.

— Peça a conta também, que eu quero saber o que ainda devemos.

Ele permaneceu no batente com a corda pendurada da mão, até que um chamado distante o fez olhar para a rua. Quando seus passos se afastaram, a mulher ergueu do chão o braço de Bento, adormecido de través na rede pequena, e ajeitou o pano sobre os pés do menino. Inácia acompanhava os movimentos da mãe e esperava que ela explicasse a hora da partida.

Mais tarde, Rosa enviou Inácia ao armazém com o caderno das contas. Encontrou Severino sentado num saco junto à balança, apertando o chapéu entre os joelhos, enquanto Antenor molhava na língua a ponta do lápis antes de escrever. O pai disse ao comerciante que a menina sabia ler, e este respondeu que já estava ciente, empurrando o livro para o lado para que ela pudesse se aproximar.

Antes de encontrar a conta do pai, Inácia passou por folhas em que Antenor registrava a chegada das cargas e ia abatendo o que saía do armazém. Os nomes dos donos dos sacos apareciam junto das quantidades, e alguns lançamentos tinham uma cruz ao lado. Mais adiante, entre as linhas apertadas, a menina encontrou o nome de Severino e, logo abaixo, uma compra de sal seguida pelo milho que Rosa mandara anotar. O querosene também aparecia, embora a quantia parecesse maior que a de seu caderno, e foi preciso descer algumas linhas para localizar a roda da carroça. Depois dela vinha um valor trazido de outra página, que Antenor virou depressa quando a menina perguntou de onde saíra.

Ao procurar o pagamento, Inácia foi encaminhada a uma coluna que somou duas vezes, sentindo a atenção do pai enquanto conferia os algarismos. Faltavam semanas, e Antenor explicou que certas contas eram feitas à parte, abrindo uma gaveta para remexer os papéis. Um homem esperava à porta da venda e começou a chamá-lo antes que encontrasse o que procurava.

— Depois eu acerto isso direito — disse o comerciante, empurrando a gaveta com o joelho.

Severino respondeu que precisava da conta naquele dia, o que fez Antenor largar o lápis sobre o livro e se virar para ele.

— Está desconfiando de mim, Severino?

Inácia levantou os olhos ao ouvir o nome que em casa parecia tão comum e ali mudava a maneira de o pai se sentar. Ele apertou o chapéu um pouco mais entre os joelhos antes de responder.

— Só quero saber o que é meu.

Antenor puxou o livro para si e começou a ler os valores depressa, descendo o dedo por compras que Inácia procurava acompanhar no caderno. Havia despesas antigas acrescidas de juros, e a conta continuou até alcançar as duas sacas de feijão desaparecidas antes que Severino assumisse a vigilância. O pai se inclinou para alcançar a linha, dizendo que aquilo acontecera antes de receber a chave.

— Foi quando você já trabalhava aqui — Antenor respondeu, mantendo o dedo no lugar.

— Eu trabalhava carregando.

O comerciante afastou o livro da mão estendida de Severino.

— Mercadoria não cria perna.

Severino se levantou, e a mesa estreita deixou os dois tão próximos que Inácia recuou um passo. Viu a mão do pai se fechar na aba do chapéu, justamente onde a mãe costurara com linha grossa a parte quebrada no ano anterior. Da porta, o homem tornou a chamar Antenor, avisando que o caminhão esperava para descarregar.

O comerciante reuniu os recibos soltos, acomodou-os entre as folhas do livro de capa preta e anunciou que deixaria uma medida de milho para a viagem, a ser acrescentada à dívida. Severino poderia partir assim que chegasse outro vigia para receber a chave; a espingarda também ficaria no armazém. Antenor deu essas ordens enquanto saía, deixando o livro fechado na mesa e o lápis atravessado sobre a capa.

Quando o pai tornou a sentar, Inácia lhe mostrou os espaços vazios do caderno e começou a explicar que havia despesas novas na conta do comerciante.

— Eu ouvi, Inácia.

A menina permaneceu com o dedo na página enquanto Severino acertava a copa do chapéu e lhe pedia que buscasse sua roupa em casa. Antes de sair, deixou o caderno na prateleira junto à balança, no lugar onde costumava pousar a lata do jantar, pois esperava voltar à mesa com o pai para terminar a conferência.


O substituto demorava, e Antenor saiu para uma fazenda depois do almoço, deixando recado de que voltaria cedo. Ao fim da tarde, Rosa chegou com a trouxa na cabeça e Bento pela mão, enquanto a panela amarrada por fora batia em suas costas. Severino a recebeu à porta do depósito, explicando que ainda esperava o outro homem, e ela se acomodou na sombra do muro para tirar o peso da cabeça.

Algumas pessoas também aguardavam Antenor, entre elas um velho que pretendia vender duas cabras e conversava com uma mulher sobre a demora do comerciante. Ela queria comprar fiado e tinha chegado antes do almoço, receosa de encontrá-lo já de saída. Inácia reconheceu a tia de Damião perto do portão; o menino estava com o braço preso ao peito e se virou ao perceber Severino, passando a raspar a terra com a ponta do pé.

Bento pediu água, e Inácia entrou para buscar na moringa, acompanhada pelo pai. O calor começava a descer das telhas sobre o depósito, por onde um rato correu até se esconder atrás do farelo. Severino parou diante da cuia que Antenor deixara sobre a mesa, junto da garrafa de querosene, e Inácia se aproximou para ver a medida de milho destinada à viagem. Faltava bastante para alcançar a borda, onde um caruncho caminhava acima dos grãos escurecidos.

— É esse? — perguntou a menina, prendendo o inseto entre as unhas.

Severino passou o polegar na beirada da cuia enquanto, lá fora, a mulher perguntava se ainda podiam alcançar a passagem antes da noite. Ele levou o milho, que ela recebeu num pano e acomodou entre as mãos para avaliar a quantidade. Bento se aproximou quando a mãe se ajoelhou junto da trouxa, acompanhando o movimento dos grãos até que ela começasse a fechar o embrulho.

A tia de Damião veio perguntar pela volta de Antenor e explicou que o menino estava com febre. Severino respondeu que também o esperava, ao mesmo tempo que examinava de longe a mão inchada na ponta da faixa. Deu um passo na direção de Damião, que continuou voltado para o chão.

— Tem que levar na cidade.

— Estou vendo se arranjo — respondeu a mulher, passando a mão pela testa do sobrinho.

Perto do muro, as cabras começaram a roer a palha de um balaio, obrigando o velho a mudar de lugar enquanto Rosa apertava o nó do milho. Ela ficou segurando o embrulho por um instante antes de abri-lo novamente e chamar a tia de Damião, perguntando se tinha uma vasilha. Severino lhe prendeu o pulso antes da resposta, e a mulher interrompeu o movimento para olhar a mão do marido. Ele afrouxou os dedos, permanecendo perto enquanto ela retirava dois punhados e os despejava na barra da saia que a outra estendia.

Bento se abaixou junto do pano da família, e a mãe o afastou com o cotovelo para terminar de amarrar. Severino acompanhou o gesto até que ela se erguesse, depois entrou no depósito, seguido por Inácia, que pensava ajudá-lo a desarmar a rede. O pai passou direto por ela e foi até o milho, onde levantou um saco pela boca para apoiá-lo no joelho antes de acomodar a carga no ombro.

Inácia perguntou se Antenor tinha mandado, mas Severino apenas indicou com a cabeça que precisava passar. A menina se afastou e o seguiu pelo terreiro, até que ele baixou o saco perto da trouxa, soltando poeira pelas costuras. A mãe continuava agachada quando lhe perguntou a quantidade, e Severino se pôs de joelhos para desatar o nó.

— Pegue o que dá para levar.

A mulher olhou para a porta da venda antes de abrir o pano, que Severino encheu devagar, esperando que ela dissesse quando bastava. A tia de Damião permanecia ao lado, segurando o milho na saia, e ele apontou o saco dobrado que a mulher trazia à cintura. Ela hesitou antes de abri-lo, começando por despejar o pouco que já recebera, até que Severino inclinou a saca e acrescentou outra porção.

O velho deixou as cabras amarradas a um mourão e se aproximou para perguntar se também podia levar. Severino conferiu quanto a mulher havia separado para a família e assentiu, procurando ao redor alguma coisa com que pudesse medir o restante. Enquanto servia, alguns grãos saltavam na terra e o faziam se abaixar para recolhê-los; Inácia se ajoelhou do outro lado, devolvendo à saca os que alcançava perto de seus pés.

A mulher que esperava comprar fiado veio perguntar o preço. Outras pessoas apareceram da frente da venda e se detiveram junto da distribuição, procurando saber quanto podiam receber. Severino pediu que aguardassem enquanto arrastava a balança até a porta e buscava uma vasilha para servir. A primeira saca se esvaziou antes que todos levassem sua parte, e ele sacudiu a estopa sobre a vasilha antes de voltar ao depósito para buscar outra.


Antenor chegou quando ainda havia gente esperando, conduzindo o cavalo num passo que se interrompeu assim que viu a balança fora do armazém. Procurou Severino entre as pessoas que fechavam seus embrulhos e desmontou sem amarrar o animal, perguntando o que acontecia. Severino endireitou as costas e pousou a vasilha na balança antes de responder.

— Estou tirando meu pagamento.

Antenor avançou sobre o saco, agarrando a boca da estopa e dizendo que aquela mercadoria lhe pertencia. Chamou Severino de Carcará duas vezes, exigindo que soltasse o milho, com a mesma voz com que o mandava afastar as pessoas do portão. Severino segurou a outra ponta, e o milho começou a cair entre os dois, obrigando uma mulher a recolher seu pano antes que fosse pisado. As pessoas se afastaram do depósito; quem já tinha recebido apertava o embrulho contra o corpo, enquanto os demais abriam passagem para sair do terreiro. Inácia viu Damião e a tia alcançarem o caminho ao mesmo tempo que Antenor chamava Raimundo, o homem que o acompanhava.

Raimundo desceu do cavalo com um rebenque, e Rosa empurrou a trouxa para a filha, ordenando que levasse Bento para longe do portão. A menina pegou o irmão pelo pulso, tentando convencê-lo a acompanhá-la, mas ele resistia para enxergar por trás dela. Antenor mandou Severino soltar o saco e continuou a repreendê-lo depois que a estopa caiu, apontando para as pessoas que levavam milho pela estrada.

A bofetada virou o rosto de Severino, deixando-o por um instante com a cabeça de lado antes que tornasse a encarar o patrão. Raimundo se aproximou por trás, e o estalo do rebenque fez Inácia apertar com mais força o pulso de Bento. O pai levou a mão ao ombro atingido e se virou a tempo de agarrar o braço de Raimundo, que levantava o rebenque para bater outra vez. Os dois tropeçaram na balança, arrastando Antenor quando ele tentou se meter entre eles, até que os três bateram contra o portão.

Severino empurrou Raimundo para longe e lhe acertou um soco no pescoço, enquanto Antenor se abaixava junto da balança para apanhar o peso de ferro. O grito da mulher fez Severino se voltar e erguer o braço sobre a cabeça; o golpe o alcançou perto do cotovelo, dobrando suas pernas até que caísse de joelhos. Inácia prendeu Bento contra a barriga, e o menino mordeu sua blusa, soltando um som abafado que continuou enquanto a mãe corria para se colocar diante do marido.

Duas mulheres permaneciam no terreiro, e uma delas mandava Antenor parar, xingando entre soluços de raiva. O velho voltara depois de deixar as cabras e segurava Raimundo pela camisa, tentando afastá-lo do portão. Antenor exigia a devolução da chave e gritava que mandaria buscar os soldados, falando por cima de Rosa, que procurava um modo de levantar o marido sem tocar no braço ferido.

Ela enfiou a mão na camisa dele para retirar o cordão, cujo nó ficou preso na orelha. Pediu uma faca a quem estava perto, mas acabou puxando de novo, até arrebentar o fio e poder jogar a chave junto dos pés de Antenor. Quando ele tornou a cobrar a espingarda, a mulher apontou para dentro do depósito, onde a arma permanecia pendurada no mesmo prego.

Severino tentou se apoiar no chão e tornou a cair ao pôr peso na mão machucada. O velho o abraçou pela cintura para ajudá-lo, e Inácia viu a mancha escura que descia pela calça do pai, úmida o bastante para prender a poeira. Uma das mulheres desviou os olhos enquanto ele puxava a camisa para baixo com a mão esquerda e experimentava dar um passo, sustentado pelo homem.

A família começou a deixar o terreiro sob os gritos de Antenor, que ordenava a Raimundo que fosse buscar os soldados. Dois homens permaneciam junto da venda, esperando uma compra paga antes da confusão, e se afastaram para deixar o cavalo passar. Rosa recolheu a trouxa e entregou o milho à filha; a menina recebeu o pano pela ponta e deixou que encostasse no chão, até ouvir a ordem de segurá-lo direito. Precisou passar os braços por baixo do embrulho e se inclinar para suportar o peso, acompanhando o pai enquanto Bento caminhava agarrado à sua saia.


Depois da passagem, encontraram um juazeiro num baixio onde Severino pôde se sentar, ajudado pelo velho. O homem precisava voltar às cabras e prometeu pedir água caso encontrasse alguém disposto a levar, enquanto Rosa se ajoelhava para examinar o braço do marido. Severino mantinha os olhos presos aos próprios pés e só se moveu quando ela tocou perto do cotovelo, afastando a mão da mulher com o queixo trêmulo. Bento se aproximou devagar, chamou pelo pai e, ao receber seu olhar, se achegou até encostar a cabeça em sua perna.

Inácia abriu o pano de milho e começou a separar os grãos furados, aproximando-os dos olhos para aproveitar a luz que ainda restava. Às vezes examinava de novo um que já tinha escolhido, demorando sobre o mesmo punhado até ouvir a mãe pedir gravetos para o fogo. Limpou o rosto na manga e se levantou, deixando o milho dividido em dois pequenos montes que pretendia acabar de conferir na volta.

A tia de Damião apareceu mais tarde, equilibrando uma lata de água e trazendo o fubá embrulhado num pano. O menino permaneceu atrás dela enquanto Rosa o chamava para examinar a mão; deixou que afrouxasse a faixa e movesse de leve seus dedos, acompanhado pelo olhar de Severino, que sustentava o próprio braço contra a barriga.

— Damião — ele chamou, esperando que o menino olhasse. — Esse braço...

Damião recolheu a mão boa para debaixo da faixa e se aproximou da tia, que explicou sua intenção de levá-lo à cidade na manhã seguinte. Severino assentiu e baixou os olhos para a lata de água, permanecendo assim enquanto a mulher se despedia. Na saída, Damião deu a volta por trás dela para alcançar o caminho, mantendo distância do lugar em que ele estava sentado.

Rosa pôs a panela sobre o fogo e aproveitou a água que começava a esquentar para molhar uma ponta de pano, com a qual limpou o rosto do marido. Severino pediu à filha que afastasse das brasas o chapéu caído junto de seu pé; a menina o recolheu e sacudiu a terra, passando os dedos pela costura da aba antes de acomodá-lo sobre a trouxa.

Quando o caldo ficou pronto, a mãe deu de beber primeiro a Bento e passou a caneca para Inácia, que queimou a língua na pressa de engolir. A mulher esperou que a filha terminasse para servir o marido, ajudando-o a se endireitar contra o tronco. Severino tentou receber a caneca com a mão esquerda, mas a borda bateu em seus dentes e parte do caldo escorreu pelo queixo, molhando a camisa.

A mulher tomou a caneca de volta e a pousou perto da panela, onde ficaria ao alcance da mão enquanto ela rasgava um pano para sustentar o braço ferido. Ajeitou a trouxa às costas do marido, que arrastou os pés na terra à procura de uma posição, e esperou que ele se acomodasse antes de voltar a oferecer a comida. Severino olhou os filhos e demorou os olhos na estrada, até que ela aproximou a borda de sua boca.

Inácia se sentou junto de Bento para limpar seus pés com a ponta da saia. Encontrou um espinho debaixo do dedão e precisou firmar o tornozelo do menino entre os joelhos para retirá-lo com a unha, mostrando depois o que o fazia mancar. Quando terminou de examinar o outro pé, o pai já bebia, e a mãe inclinava a caneca aos poucos, esperando que ele engolisse antes de oferecer mais.

Uma luz ainda marcava o lugar da venda, para onde Inácia olhou ao se lembrar do caderno deixado na prateleira. Nele estavam as compras que Rosa ditara e os espaços que Severino prometera ajudar a preencher; no livro de Antenor, as mesmas despesas cresciam até consumir o pagamento do pai. A menina tentou recordar o valor da roda e o lugar em que apareciam as sacas de feijão, mas os números se confundiam assim que passava de uma conta para outra.

Precisava do caderno para que a mãe pudesse conferir. Ficara pensando nisso desde a saída, e agora, com o pai sentado e Bento quase adormecido, o caminho até o armazém lhe parecia mais curto do que quando o percorrera carregando milho. Esperou Rosa se ocupar em sustentar a caneca junto à boca de Severino, acomodou a cabeça do irmão sobre a trouxa e disse que ia terminar de buscar lenha. Levou os primeiros gravetos que encontrou até a beira do caminho, deixando-os ali antes de atravessar a passagem.


O portão dos fundos permanecia encostado, com uma das tábuas rachadas pela pancada dos homens, e Inácia o abriu devagar, erguendo-o como tantas vezes vira o pai fazer. Da frente vinha uma conversa entre fregueses que ainda esperavam suas compras, interrompida pelo arrastar de um caixote. A menina ficou junto da parede até ter certeza de que a voz de Antenor estava longe, depois atravessou o depósito guiada pela claridade da porta que dava para a venda.

A rede do pai continuava armada entre os sacos, obrigando-a a se abaixar para passar, e o caderno azul estava na prateleira, com a régua marcando a folha das despesas. Inácia o apertou contra o peito e experimentou guardá-lo por dentro da blusa, preso na cintura da saia. Podia sair pelo mesmo lugar sem que alguém soubesse de sua volta, mas, ao se endireitar, viu o livro de capa preta sobre a mesa, aberto nas contas daquele dia.

Chegou mais perto para procurar o nome do pai. Reconheceu as duas sacas de feijão e desceu o dedo até o total, que no escuro parecia ainda maior. No caderno da família havia espaço para copiar aqueles números, mas o lápis que costumava ficar sobre a mesa também desaparecera. A menina ergueu o livro; o peso a fez apoiar a lombada na barriga, e os recibos soltos começaram a escapar, obrigando-a a apertar as folhas entre as capas. Se o levasse até Rosa, poderiam examinar tudo à luz do fogo e saber onde a conta se alterava.

Passos se aproximaram antes que ela alcançasse o portão. Inácia baixou o livro sobre um fardo de sacos vazios, entre a mesa e a parede, e recuou para a ponta da rede. Antenor entrou com uma lamparina na mão e parou ao reconhecer a menina; atrás dele, a porta por onde se chegava à venda ficou aberta, deixando ouvir um freguês reclamar da demora.

— Voltou para buscar mais?

Inácia puxou um pouco a capa azul de dentro da blusa e explicou que viera pelo caderno da escola, mostrando a régua presa entre as folhas. Antenor pousou a lamparina na mesa e estendeu a mão para tomá-lo, mas ela o recolheu contra o corpo. O homem segurou seu braço para impedir que passasse e olhou o lugar onde deixara o livro de contas.

— Onde está o meu?

A menina sentiu o aperto aumentar e voltou os olhos para a mesa vazia. Antenor a sacudiu, exigindo resposta, e esbarrou com o antebraço na lamparina, que tombou para trás. O vidro se quebrou entre a parede e o fardo onde Inácia escondera o livro, deixando um clarão rente ao chão. Ela se encolheu, tentando apontar, enquanto o comerciante empurrava com a bota um saco caído e tornava a perguntar pelo que faltava sobre a mesa.

Da venda, alguém chamou avisando que ia embora e queria receber o que pagara. Antenor virou a cabeça para a porta e afrouxou os dedos no braço da menina, como se a voz lhe trouxesse outra lembrança.

— Ficou no balcão. Eu deixei lá quando fui atender.

Inácia viu que o livro permanecia atrás da mesa, onde o pusera, e abriu a boca para dizer isso. Antenor a empurrou para junto da rede e atravessou a porta, gritando para o freguês esperar e largar o embrulho que levava. A menina ouviu a discussão se afastar para a entrada da venda, enquanto o querosene derramado escurecia a estopa e uma chama pequena reaparecia debaixo da mesa.

O canto do livro começou a se enrolar antes que ela conseguisse alcançá-lo. Inácia deu um passo, atraída pela capa ainda inteira, mas o calor subiu pelo fardo e a obrigou a proteger o rosto. Um recibo se ergueu com a corrente de ar e caiu sobre a rede do pai, abrindo um buraco luminoso que correu pelo pano. A menina tentou soltá-la do gancho, com medo de que o fogo chegasse aos sacos encostados à parede, e a fumaça a fez largar tudo para procurar o portão.

Saiu tropeçando na soleira, com o caderno azul apertado sob a roupa. No terreiro, gritou que havia fogo, e um dos homens que esperavam na frente apareceu pela quina do muro. Ele entrou no depósito cobrindo a boca com o braço; quando voltou, trazia um saco de feijão às costas e passou por Inácia em direção à estrada, enquanto ela continuava chamando Antenor.

O comerciante surgiu logo depois, puxando pelo embrulho um freguês que protestava contra a revista. Soltou-o ao ver a fumaça engrossar na porta e correu até o armazém, onde precisou recuar com as mãos sobre o rosto. Apontou para a moringa e mandou buscar água, mas um homem já a esvaziara sobre a mesa sem alcançar a estopa em brasa que ardia por baixo. A rede se desprendeu de um dos ganchos e caiu sobre o fardo, cobrindo o livro.

Inácia reconheceu por um instante a capa preta quando o pano queimado se abriu, e apontou para que Antenor a visse. O comerciante tentou chegar até ela, apoiando a mão na mesa, mas retirou os dedos com um grito e bateu no batente ao recuar. Do lado de fora, perguntou à menina por que o livro estava ali; antes que obtivesse resposta, ouviu alguém arrastar um saco pelo outro lado do depósito e correu para impedir que o levassem.

Os primeiros homens tinham aberto passagem por uma porta lateral, empurrando a carga para longe da parede aquecida. Antenor mandou que amontoassem tudo no terreiro e continuou voltando os olhos para a mesa, à procura de uma maneira de chegar ao livro. Um saco foi posto junto do mourão, mas o seguinte passou direto para as costas de um homem que tomou a estrada. Outros o acompanharam, aproveitando a fumaça que escondia parte do caminho. Quando Antenor percebeu, tentou contar o que já estava fora e perdeu a conta ao ver duas pessoas correrem em direções diferentes.

— Ponham aqui! Isso tem dono!

Uma mulher pediu que deixasse passar quem procurava água, e ele lhe agarrou o pano para examinar o volume que carregava. Eram roupas, que ela puxou de volta antes de afastá-lo com o ombro. O homem que tinha saído com feijão já desaparecera, e alguém se aproveitou da discussão para soltar uma das amarras da carroça parada ao lado da venda. Antenor correu atrás, abandonando outra vez o depósito, de onde o fogo começava a sair por baixo das telhas.

Rosa encontrou Inácia perto do portão e a segurou pelos ombros antes que a menina percebesse sua chegada. Passou a mão pelo cabelo da filha, procurando alguma queimadura, e perguntou por que voltara ali. Inácia tentou mostrar o caderno, mas tossiu tanto que precisou se curvar; Rosa a conduziu para longe da fumaça e só então viu a capa azul saindo de dentro da blusa.

Severino vinha pelo caminho com Bento, sustentando o braço ferido contra o peito. Caminhava devagar, voltado para a entrada do armazém, e acelerou ao distinguir a filha ao lado de Rosa. Antenor o avistou antes que alcançasse as duas e gritou por Carcará, apontando para dentro.

— O livro está atrás da mesa. Entre por aquele lado que ainda dá.

Severino parou junto do mourão. As chamas iluminavam seu rosto, e Inácia viu o pai procurar com os olhos o caminho entre a porta e a mesa, como fizera diante do roçado. Antenor se aproximou e lhe pegou o braço para indicar a passagem, atingindo o lugar ferido; Severino o afastou com um movimento brusco, dobrando o corpo de dor.

— Você entrou naquele outro fogo — insistiu o comerciante, procurando contorná-lo. — Entre agora, Carcará. Está logo ali.

Rosa se colocou entre os dois e chamou o marido pelo nome, mostrando que Inácia estava com ela. Severino levou a mão boa até o ombro da filha e a puxou para perto, apalpando-lhe o braço enquanto a menina dizia que tinha conseguido sair. Antenor continuou falando do livro, já procurando outro homem que aceitasse entrar, e a família recuou quando uma telha caiu junto da porta.

O fogo alcançou a divisão de madeira que separava a venda do depósito, e a fumaça começou a sair também pela frente, expulsando quem ainda remexia atrás do balcão. Um caixote foi carregado por dois homens até o meio da rua; ao perceberem Antenor ocupado em perseguir uma carroça, cada um tomou o que pôde e abandonou o restante no chão. Havia gente tentando salvar mercadoria e gente aproveitando a correria para levá-la, mas a cada retorno do comerciante os montes que mandara guardar no terreiro tinham diminuído.

Inácia se manteve perto de Rosa, de onde podia ver a mesa pela porta do armazém. Uma das pernas cedeu, fazendo o tampo cair sobre o fardo, e uma língua de fogo atravessou as folhas abertas do livro de contas. O nome do pai estava em algum ponto daquelas páginas, junto das quantidades que Antenor usava para conferir os sacos; a menina procurou a capa entre as brasas até que parte do telhado desabou e fechou a passagem.

Quando o clarão baixou, os homens que ainda traziam água já a despejavam sobre a madeira caída, tentando impedir que o fogo alcançasse a casa vizinha. Do armazém restava uma parede com a marca escura das prateleiras, e Antenor percorria o terreiro procurando quem tinha saído com a carga. Perguntava por um saco, corrigia a quantidade e chamava pelo dono de uma carroça que ninguém sabia indicar. O pouco que se amontoara perto do mourão tinha sido levado durante a queda do telhado.

Um homem perguntou pelo feijão que guardava ali, pago para ficar a salvo até a chegada do transporte. Antenor apontou a estrada, dizendo que tinham furtado, e em seguida voltou a mão para as ruínas, incapaz de separar o que vira sair do que permanecera debaixo das telhas. O homem insistiu na quantidade. Antenor começou a responder e se calou, olhando para o lugar da mesa.

Raimundo chegou quando já se podia atravessar parte do terreiro, trazendo um soldado que pediu para ver os registros da mercadoria. O comerciante conduziu os dois até onde ficava a porta e indicou o monte de madeira ainda quente, debaixo do qual o livro terminara de queimar. Ao lhe perguntarem se havia outra relação das cargas, tornou a apontar o mesmo lugar. Os recibos estavam guardados entre aquelas folhas, e as pessoas que ele tentava acusar tinham seguido por caminhos diferentes; algumas haviam levado compras pagas, enquanto outras tinham passado pelo depósito durante o incêndio.

O soldado quis ouvir quem vira o começo do fogo. Um dos fregueses disse que Antenor o revistava na frente da venda quando a menina apareceu gritando, e Inácia apertou o caderno azul contra a barriga. Rosa percebeu o gesto e a manteve junto de si enquanto o homem descrevia a lamparina quebrada que encontrara perto da mesa. Mais adiante, Antenor chamava por Raimundo para conferir uma saca esquecida na rua, cujo fundo se abrira e espalhara sobre a terra os grãos queimados.


Rosa levou a família de volta ao juazeiro quando os homens começaram a se reunir em torno do soldado. Inácia caminhava ao lado do pai, segurando com uma das mãos a borda do caderno para que ele permanecesse preso à cintura, e contou à mãe o que tinha feito. Explicou que pegara o livro preto para conferir as contas e o deixara sobre o fardo ao ouvir os passos de Antenor. Rosa perguntou se ela havia mexido na lamparina, e a menina descreveu o braço do comerciante batendo no vidro enquanto a prendia junto da mesa.

Ao chegarem, Bento se deitou sobre o pano que cobria o milho, adormecendo antes que Rosa terminasse de acomodar Severino contra o tronco. A mulher recuperou a caneca perto do fogo apagado e verificou a panela, onde restava um pouco de caldo. Enquanto o aquecia, pediu a Inácia que mostrasse o caderno; a capa estava manchada de fuligem, mas as folhas tinham permanecido protegidas contra o corpo da menina.

Severino tocou a borda azul com a mão boa e perguntou pelo outro livro. Inácia explicou onde o vira pela última vez, antes de a mesa cair, e procurou no próprio caderno a página marcada pela régua. A conta do milho aparecia acima da despesa de querosene, seguida pela roda da carroça; os valores que esperavam do pai continuavam faltando.

Rosa aproximou o caderno da luz e perguntou se Inácia se lembrava de alguma quantia que lera no armazém. A menina ensaiou um número, interrompeu-se para refazer a soma e acabou baixando os olhos para o espaço em branco. Severino acompanhava a linha com o dedo, até que Rosa lhe ofereceu a caneca e precisou segurar também o caderno para que ele pudesse beber.

Depois, devolveu as folhas à filha e pediu que as guardasse no meio da roupa, junto do retrato dos avós. Inácia tirou a régua para endireitar a capa, que se dobrara contra sua barriga, e recolocou-a na página das contas. Enquanto a mãe fechava a trouxa, Bento se mexeu no sono e estendeu a mão pelo chão; Severino alcançou os dedos do menino e os acomodou sobre a própria perna.


Conto inspirado em “Carcará” e na interpretação de Alexia Evellyn. Capa criada com IA a partir de um frame do vídeo da artista.

Assista à interpretação de Carcará por Alexia Evellyn no Instagram

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