Um misto de medo e esperança. De horror e convicção. De desalento e fé, essa fé quase ferida que, ainda assim, insiste em permanecer viva.
É possível que estejamos mesmo diante dessa escolha brutal? Entre o trabalho por um país menos desigual e o fantasma de 1964, rondando as nossas portas como se a história não tivesse deixado cicatrizes suficientes? E tudo isso decidido pelo voto, esse pequeno gesto de mão que carrega o peso imenso de um país inteiro.
Em que momento tentaram nos convencer de que o ódio era força e o amor, fraqueza? De que apontar armas era coragem, espancar mulheres era poder, discriminar era direito, corromper era esperteza e desumanizar o outro era uma forma de vencer?
Não. Não aceito que sejamos isso.
Somos o abraço que demora porque a saudade é grande. Somos o sorriso que se abre mesmo quando falta quase tudo. Somos a mão estendida, o prato repartido, a porta que se abre, o colo que acolhe. Somos gente que ainda embala os filhos pensando num amanhã que não tenha medo como herança.
E talvez seja justamente isso que tanto incomode: ainda acreditamos. Apesar de tudo, apesar dos golpes, das mentiras, da brutalidade vestida de virtude, ainda acreditamos que um país pode ser mais do que a soma de seus ódios.
Há uma ternura feroz em nós. Uma delicadeza que não se ajoelha. Um amor que não é ingenuidade, mas escolha. E escolher o amor, quando o mundo nos oferece a violência como resposta, é um ato imenso de coragem.
Somos muitos. Somos diferentes. Somos imperfeitos. Mas somos muitos os que não desistiram de sonhar com um Brasil onde ninguém precise odiar para existir, onde a dignidade não seja privilégio e a esperança não seja tratada como crime.
Que os nossos filhos herdem menos medo e mais horizonte. Que aprendam conosco que a força não está no punho fechado, mas na mão que ampara. Que a liberdade não floresce sobre os escombros do outro.
O amor também é uma forma de resistência. Talvez a mais difícil. Talvez a única capaz de nos salvar de nos tornarmos aquilo que combatemos.
Por isso, não. Não entregaremos o futuro ao ódio. Não deixaremos que nos roubem a delicadeza, a memória, a coragem de acreditar.
Ainda somos o povo que abraça. E um povo que ama, quando se reconhece, quando se levanta, quando caminha junto, é capaz de mudar o rumo da própria história.
Que o nosso voto seja consciência. Que a nossa esperança seja luta. E que o Brasil volte a caber inteiro dentro da palavra “nós”.
Porque o Brasil não pode ser propriedade do medo. O Brasil é de quem o ama, de quem trabalha, de quem cuida, de quem sonha.
E nós ainda estamos aqui.
Com medo, sim.
Mas de mãos dadas.
E, apesar de tudo…
com amor.