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te vejo nas entrelinhas — Vol. 1, Nº 1 (jan./mar. 2026)

Edição completa · 45 páginas · Editora responsável: Tamara S. Fawkes

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CapaPágina 1 de 45
Página 1 da edição 1, com a composição original da revista

EDIÇÃO DE VENDA PROIBIDA

Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026 ISSN: 3086-3201 Revista Independente

te vejo nas entrelinhas

Crítica: Livros de Sangue: volume 1,

Poesia Cordel Composição Musical Conto Crítica Põe na Estante & mais

Clive Barker [Darkside Books]

Põe na Estante: Fissuras do Abismo

+ Hospedeira do

Caos #leitura2026

18+

Literatura Cinema Música

Autores de todo o Brasil +

Entrevista direto de Angola: Claudio Raul

Expediente e índicePágina 2 de 45

ÍNDICE

POESIA

CORDEL

RESENHA MUSICAL

COMPOSIÇÃO MUSICAL

CONTO

CAPA - ENTREVISTA

CONTO CONVIDADO

LITERARIAMENTE CRÍTICA

CRÍTICA COM PIPOCA

CALMA, TUDO AQUI É FICÇÃO — OU NÃO

PÕE NA ESTANTE

CLASSIFICADOS

FIM: APOIA-SE

03

07

09

10

11

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34

37

40

41

42

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Direitos Autorais: © 2026 Revista Independente te vejo nas entrelinhas. Os textos e composições publicados nesta edição foram devidamente autorizados pelos seus autores e encontram-se registrados para fins de proteção de Direitos Autorais e Depósito Legal. Sobre a reprodução desta obra ou dos textos e composições aqui contidos, consulte a Licença Creative Commons abaixo, clicando na imagem:

Esta edição é uma atualização do arquivo original que possui registro de integridade digital. Hash do arquivo original (SHA-256): de01c8ccb8fc043fd3361bd1d2f44fed424f1a421df4277ad9585e4720fdf47f

EXPEDIENTE:

Capa: M. G. Crave/Tamara S. Fawkes Editora Responsável: Tamara S. Fawkes MTb/DRT: 6661/BA Participaram desta edição: Cassandra Marjani Oliveira, Claudio Raul, Davi Ramos, Franthesca Kally, Jefferson Lira, Keven Gabriel, Lucas Dantas, M. G. Crave, Noélia Dantas, Paulo Brazeiro, Rafael Mazelli, Rodrigo Souza, Roni Pereira, Vitor Paulino, Otávio Segal de Araújo, Talita Demori

Endereço: Dias d’Ávila, Bahia, Brasil E-mail: revistaentrelinhass@gmail.com IG: @leioentrelinhas

Sugira pautas, envie sua opinião, seja anunciante ou parceiro.

Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

Confira aqui a Autenticidade do arquivo original

Revista Independente te vejo nas

entrelinhas

Trimestral Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026 ISSN Online: 3086-3201 Disponível em: www.revistaentrelinhas. com.br

Pág. 01

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EditorialPágina 3 de 45
Imagem da página 3 da edição 1
Imagem da página 3 da edição 1

EDITORIAL

J A N - F E V - M A R 2 0 2 6

SEJA BEM-VINDO[A] À REVISTA ENTRELINHAS

E finalmente saiu nossa primeiríssima edição do que era apenas um modesto A4, agora, em muitas páginas:

nossa Revista Independente te vejo nas entrelinhas!

Não teremos delongas, esta edição comporta um grande arsenal de autores brasileiros [e um convidado estrangeiro] espalhados pelo Brasil que têm na Arte um conforto, uma fuga, sua fonte de inspiração para viver os dias sérios e cheios de horários, e seu prazer. Aqui você vai encontrar Poesia, Cordel, Composição, Crítica, Conto e Entrevista especial [sempre]. De vez em quando seremos surpreendidos com alguma criação fora da lista oficial de editorias. Convido você a

participar ativamente clicando nas palavras

sublinhadas, pois são links, e conhecer mais sobre os autores de cada obra.

Além de poder ler autores independentes [que não

possuem contrato com nenhuma editora,

infelizmente], conhecer novas histórias e aumentar seu catálogo de livros, também é possível fazer parte nos enviando um e-mail nos elogiando [hahaha], com recadinho ou homenagem, buscando ou oferecendo algum produto ou serviço que tenha a ver com as editorias, certo? Faça parte.

Agradeço aos colaboradores desta edição [os próprios autores] que ajudaram na criação da diagramação, capa e com o conteúdo, é claro. Sem vocês esta edição não existiria fora do campo das ideias.

Eu gosto muito de parafrasear um dos meus autores preferidos, o saudoso, Carlos Ruiz Zafón: cada livro possui a alma de cada pessoa que o leu e da pessoa que o escreveu. É isso, você já foi pego! Até o próximo trimestre ;)

Boa leitura.

Editora-chefe Tamara S. Fawkes tamarasfawkes@gmail.com

Pág. 02 Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

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PoesiaPágina 4 de 45

POESIA

POESIA INDEPENDENTE

A moeda de prata rodando nos céus
és cara ou coroa?
cara de um anjo triste
coroa do rei do inferno
vampiro os céus vermelhos
nessa dimensão
com números nos céus
tomando formas de demônios
com corpos de morcego
esses números fazem hemorragia
no meu consciente
quanto tempo estou aqui?
o tempo não muda para mim
Nosferatu
1700 esse ano morri
lá nos Estados Unidos
malditos ingleses
a noite era terrível
por várias vezes nos encontros
com os futuros homens da revolução
morri mordido por um vampiro
com mandíbula de crocodilo
e seios cinzas
aquela criatura me queria
no seu exército
a liberdade à nação veio
10 anos de liberdade
conquistei as estrelas brilhantes
de cada território
dos Estados Unidos da América
enterrando meus inimigos
com seus pescoços
estourados por minhas mordidas
meus olhos negros
vejo a liberdade da América
noite e dia

Keven Gabriel
IG: @paginaceus
Simões Filho - BA

Eu prometi a mim mesmo,
Não amar mais ninguém,
Mas às vezes a chuva cura,
E eu te vejo passando
Há 15 ruas atrás.

E olha que olhar machuca,
Aperta a corrente e altera as veias,
Sorrio quando vejo velhos de varizes,
Cheios de cicatrizes.

Eu te amei por 90 ruas,
Da minha casa, até a tua,
Contei cada quarteirão,
como se nada fosse em vão.

E até a senhora da rua perto da tua,
Lembra-se de mim, quando te vê por
aí, vagando...
— Cadê aquele garoto? Disse a tua
avó.
— Ah vó, ele foi embora...

E o silêncio cala a sala de jantar,
Enquanto a sua irmã vê desenhos na
TV da sala.

E os mauricinhos das casas
próximas,
Não suportaram ver-me,
Logo eu, um nocivo estranho.

Ninguém lê,
Nintendo nada,
Só Mário topa qualquer parada.

Tekken uma bolinha de gude
Em 5 caras quase felizes,
Tentando pensar algo que os ajudem
Enquanto jogam na quadra ao lado,
Querendo tocar, faltando só a bateria.

Eu sou a alma,
Vaga alma.
Alma lisa sem muitos espinhos
escarrado
na face,

Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

Pág. 03

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PoesiaPágina 5 de 45

O barquinho de papel,
Hoje é de madeira,
E haja o que há,
Foda-se tudo.

Esperar a poeira baixar,
Ela não é bem assim,
Há mais poeira nela,
Do que em mim.

Poderia poeirinha,
Vendaval do caralho,
Comprido e infeliz,
Bem que uma Neblina menor
Ficaria melhor na gente,
Nós nos vemos
E tudo acaba 3 abraços depois,
Não vemos nem o bloco passar.

Eu ainda sou a alma,
A alma que Vaga por aí,

Vaga alma,
Talvez um pouco vagabunda.

Intuito, sigo os instintos,
Sigo na valeta,
Próximo ao passeio,
A Luz do poste.

E de estrelas em estrelas,
Eu sigo sem lua,
Poeira espacial,
Vivo lunático,
De espaço em espaço,
De cômodo em cômodo,
Na casa do Boa Ventura,
Em ruas,
Vejo desventuras em série,
De semana em semana,
Nada de ano.

Mudo os planos,
Mudam-se os anos
E essa vida que não dá trégua para a
solidão,
Eu sigo em frente,
Vivo tranquilo enquanto ainda há pôr
do sol.

Olhe os meus olhos vermelhos,
Voltaram,
Com um pouco de cansaço,

POESIA

Caídos da imensidão,
Em cima de uma caixa d'água,
Observando o verde mato,
O grã-fino e o caipira.

Olhe o vermelho de tua cabeleira,
Nesse sol amarelinho,
Há mais lágrimas em mim,
Do que em teus olhos.

E a solidão é te amar,
Não vejo mais o mar,
Nem Rio, nem lago,
Só chuvas de inverno,
Depois que o seu ser nascer,
Será apenas verão.

Lucas Dantas
IG: @lsdluka
Aracaju - SE

Folha de papel

Com uma folha de papel, você me
conquistou
Em um dia, tão cinza, você trouxe cor
Com algo tão simples
Um coração de origami, me fazendo
rir

Afastando os problemas da minha
cabeça
Todos os dias, você passou a me
presentear
Com um origami, me fazendo sempre
sorrir
Um príncipe de papel

Arrebatando uma princesa perdida
Folhas carregadas de palavras
Todas com poemas
Logo se tornando um origami

Palavras como enfeite para essas
belezas
Palavras que iam para o lixo, após
escritas
Ou iriam queimar
Você as transformou em origami
magníficos

Dando novamente a vida
Palavras silenciadas pela vida

Pág. 04
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PoesiaPágina 6 de 45

POESIA
POESIA

Vontades contidas
Desejos loucos, presos em folhas

Que desejam asas para voar
Com uma folha de papel
Você se aproximou
Naquele dia, que estava tão cinza,
você me fez sorrir

Um príncipe de papel, arrebatou uma
princesa perdida
De papéis que suas linhas iriam pegar
fogo
Você as reviveu, em um origami
maravilhoso
São palavras silenciadas pela vida,
presas em folhas soltas, que desejam
voar

Franthesca Kally
IG: @franthescakaly
Pires do Rio - GO

quando eu não tinha amigos,
os livros me faziam companhia.
milhares de personagens de papel
me arrancavam risos,
lágrimas
e despertavam sonhos adormecidos.

eu morava em castelos,
ia para guerras,
tinha dragões como bichinhos de
estimação.

algumas histórias me prendiam
tanto
que eu esquecia do mundo
e o mundo se esquecia de mim.
mas, às vezes,
quando a última página se fechava,
o silêncio era ensurdecedor.

então, vocês chegaram.

nos últimos anos,
vocês deixaram de ser apenas
amigas.
viraram abrigo,
riso partilhado,
minha família escolhida,

almas irmãs.

tudo isso
por causa dos livros.

hoje eu entendo
eles sempre estiveram ali:
me guiando com cuidado,
me protegendo com palavras,
me salvando de mim mesma,
página por página.

foi por causa deles que encontrei
vocês.
e por isso,
serei eternamente grata.

— lendo com a tali

Talita Demori
IG: @talitademori
Timóteo - MG

Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

Pág. 05

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PoesiaPágina 7 de 45
Imagem da página 7 da edição 1

Da chuva ao rio

Já reparou? A água do mar não
aquieta,
Rios se insinuam e descobrem o valor
de sua terra,
Procuram vida na ida, semeiam
sementes na mata,
Missão divina foi dada, vá por água
sem pressa

“O turbilhão me enviou, pra entender
de sua tribo,
Ele me disse na vinda quais eram
seus castigos
me disse também a quem devo
confiar...”,
em uma mão a espada, na outra seu
lar

Amanheço, então, lá do lado errado
Procuro o marcado, o caminho, o
serrado
Malhadas, de cima, vislumbre, um
espetáculo
Qualquer lugar eu me encaixo,
Em cima ou embaixo

Espetáculo sim é descobrir isso tudo,
Faria de novo, mil vezes, meus rumos
Nunca serei, nunca sou, nunca vejo o
mesmo mundo
O ciclo que componho não conhece
seus muros

Não há cela para mim, em seus
conceitos não me acho
Já fui presa, represa, manuseada sem
cuidados
Essa Sina já conheço, assassina e me
ensina,
"Seus inimigos tentarão e tentarão,
minha menina"

"Seus inimigos tentarão, e também
encontrarão

POESIA

Vocês navegarão, pois estão na
mesma praia

Do Oiapoque ao Chuí, no topo,
Himalaias,
shhh... não ouço uma só palavra

Em berços caem, barcos soltos,
Marcam, barcam, traçam roto,
Formam, criam maravilhas
E no caminho tiram vidas

É seu dever, é do mais árduo
Traçar o rumo de meus laços
E não duvide do que foi ensinado
Eles, barco, você, o resto e Eu do seu
lado."

Rafael Mazelli
IG: @rafamazelli
Dias d’Ávila - BA

Pág. 06
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

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CordelPágina 8 de 45
Imagem da página 8 da edição 1

CORDEL

LÁ VEM O CORDEL
LÁ VEM ELE

A história do cordel no Brasil
remonta à tradição oral europeia
trazida pelos portugueses, durante
a colonização, popularizando-se
no Nordeste como uma forma de
literatura em versos, impressa em
folhetos expostos em cordas (daí o
nome) e ilustrada com
xilogravuras, abordando temas
populares, lendas, costumes e
fatos históricos, sendo um
importante patrimônio cultural
imaterial brasileiro, com grandes
nomes como Leandro Gomes de
Barros e Patativa do Assaré.

ORIGEM E INFLUÊNCIAS

Raízes Europeias: surgiu de uma
tradição de poesia popular
medieval (trovadores) na
Península Ibérica, popularizada no
Renascimento na França, Espanha
e Portugal, onde poemas eram
vendidos em feiras pendurados em
cordas.

Chegada ao Brasil: trazida pelos
colonizadores portugueses,
instalou-se na Bahia e se
desenvolveu fortemente no
Nordeste brasileiro a partir do
século XIX, com a impressão em
larga escala.

CARACTERÍSTICAS
PRINCIPAIS

Formato: folhetos
impressos, geralmente
com capas ilustradas por
xilogravura.

Linguagem: versos
rimados e métrica
regular, de linguagem
simples para o público
popular.

Temas: fatos históricos,
folclore, lendas, romance,
desafios (pelejas),
política e cotidiano.

Oralidade: fortemente
ligada à tradição oral dos
repentistas (violeiros que
cantam os versos) e
declamadores.

Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

Pág. 07

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CordelPágina 9 de 45

CORDEL

Minha mãe foi para a
morada eterna

Sua ausência terrena,
Causa aperto no peito,
A gente fica sem jeito.
Mas pego minha pena,
Com a poesia pequena,
Me traz pra o recanto.
Ando com seu encanto,
No lar eterno floresceu.
A minha mãe não morreu
Foi ser mãe em outro canto.

Agora ela está no coração,
Nos meus pensamentos,
Tenho grandes momentos.
Aqui cumpriu sua missão,
Deixou uma simples lição,
Pra não viver de espanto.
Nesses versos garanto,
Que ela não se perdeu.
A minha mãe não morreu
Foi ser mãe em outro canto.

Glosas: Noélia Dantas
Mote: Edvaldo Lima
IG: @anoeliadantas
Banzaê - BA

Pág. 08
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

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Resenha musicalPágina 10 de 45
Imagem da página 10 da edição 1

RESENHA MUSICAL

A maior fraude musical de 2025

Kanye West — Heil Hitler (single)
Lançamento: 8 de maio de 2025

Qual a intenção de Kanye West ao lançar o single “Heil Hitler”? Ganhar “likes”
através do choque? Convicções nazifascistas sinceras? Utilizar o argumento da
“ironia” significa pressupor profundidade em uma obra que não vai além da
provocação odiosa e gratuita. Se ser neonazista já é um absurdo, uma música de
hip-hop que se propõe hitlerista é uma verdadeira aberração, uma fraude
estética e uma completa e debochada falta de autenticidade cultural.

Essa tentativa de forçar a conexão
de
ideias
com
linhagens
simbólicas incompatíveis resulta
em oportunismo imoral. Além de
fazer apologia a Adolf Hitler, a
letra contém versos que remetem
à
vida
pessoal
do
rapper.
A
discrepância insultuosa também
aparece
na
combinação
entre
orquestra, sintetizadores, bateria
com sons de marchas militares e
uma amostra de um discurso do
ditador genocida. Originalmente, a
arquitetura
musical
nazista
pretendia
simular
poder,
disciplina e ordem.

Kanye West — Donda (álbum 2025)

A tentativa de enquadrá-la dentro do escopo musical do hip-hop produz um
amálgama esdrúxulo. Os próprios nazistas diriam que é “música degenerada”
(entartete musik). Esse single é uma apropriação grotesca de um gênero voltado à
resistência negra e o ápice do colapso artístico de uma mente brilhante do rap.

Por: Roni Pereira, jornalista
Leia mais do autor aqui.
Salvador - BA

Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

Pág. 09

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Composição musicalPágina 11 de 45

COMPOSIÇÃO MUSICAL

FUTURO OU PASSADO
SEMPRE SÃO CANTADOS

A PEÇA E O JOGO

Luzes piscam na noite da mente
É tempo que vem e que vai
São ventos que tocam a pele da gente
É tudo, e às vezes demais

E quando o dia amanhece e traz
o fardo de ter que ser
De ser um alguém, de ser sempre
mais
Performar e obedecer

Busco um sentido em todo esse jogo
Eu corro sem olhar pra trás
Mas algo me chama, me puxa de
novo
Só quero encontrar minha paz

Dia desses eu pensei
Em tudo o que já vivi
O que se passou, e o que quero ser
Juntei e guardei tudo aqui

Pois sou parte do todo,
sou peça e o jogo
Eu sou o início e o fim

Se sou o veneno,
também sou a cura
E tudo habita em mim.

Rodrigo Souza
IG: @Rodrigo_SCMP
Salvador - BA

7 VERSOS

Quem sou eu para poder dizer
Que a felicidade não dura pra
sempre?
Estaria mentindo certamente
Pois ela existe entre a gente

Conhecer-te me fez feliz
Finalmente querer quem me quis
Nunca poderei negar
Que é ao seu lado que quero ficar

Palavras não mostram
Realmente o quão me importo
Eu só queria entender
Como explicar esse amor, sem saber

A primeira vez que te vi
Senti algo inédito pra mim
Desde então meu refúgio é teu olhar
O castanho da tempestade que cobre
o luar

Desejo invadir teu pensamento
Ter e dar o melhor dos sentimentos
Quero contigo me casar
E que nosso fruto possa chegar

O que o tempo não cura
A felicidade emenda
A saudade que pune
Também faz com que se aprenda.

Amo tudo em ti
Qualquer defeito ou qualidade
Eis-me aqui a dizer
Parabéns meu amor... Que saudade!

Jefferson Lira
IG: @jeffliraos
Sumaré - SP

Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

Pág. 10

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ContosPágina 12 de 45
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CONTO

HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): M. G. Crave

Edvard Munch, Nas Ondas do Amor, 1896

O DESAPARECIMENTO DO PRETO

Esquecer o preto não é um esforço; é uma amputação. A falta é o único peso que resta quando a solidez cede. A cidade sangra uma palidez anêmica sobre o que antes era concreto. Não há horizonte. Onde deveria haver o contorno firme de um pneu ou a profundidade de um bueiro, há apenas um vácuo translúcido, uma catarata sobre o mundo.

O motorista ao lado não grita. Ele tateia o volante — agora uma massa morna e sem limites — com o terror de quem segura um animal morto. Seus dedos afundam no plástico como se fosse matéria orgânica em decomposição. Ele finalmente entende o que eu sentia desde o berço: que habitar o tempo e o peso deste corpo é uma missão breve e cansativa.

A placa de — PARE — é a última cicatriz de realidade. Ali, o preto ferve. O vapor negro sobe denso e metálico. O cheiro de ferro oxidado invade as narinas. O oxigênio é mercúrio que condensa no vidro. É o suor de um deus em agonia. ✧

Luz esmeralda pulsa no asfalto como uma bile. É a última melodia que tenta ancorar o espírito à Terra. Fecho as pálpebras, mas não há escuro lá dentro. O vapor negro rasga o silêncio como seda.

Uma Presença, que desde o início espreitava atrás das retinas, terminou de recolher seus pertences; ela puxa a profundidade, deixando o mundo oco para que a alma possa, enfim, flutuar.

No vácuo da cor, resta apenas o Sussurro que antes era o som do meu descanso: — Entregue-se. A Sombra desistiu de sustentar sua forma.

Minhas unhas atravessam o chão. Meus próprios dedos dissolvem-se na claridade doentia do ar. A gravidade parou de me machucar. Somos apenas sopro.

𝑴. 𝑮. 𝑪𝒓𝒂𝒗𝒆 Leia mais do autor aqui Mineiros - GO

Pág. 11 Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

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ContosPágina 13 de 45
Imagem da página 13 da edição 1

CONTO

HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Cassandra Marjani Oliveira

Michael Corleone, Paramount

BRANDÃO

Imaginar uma paixão é muito melhor do que, de fato, se apaixonar. Era isso que ela pensava àquela altura, esperando que o homem passasse à noite, voltando do trabalho. Trabalho esse que lhe era um mistério. O que sabia era que andava de cartola, um terno cinzentinho e bem ajustado, barba bem aparada e seus óculos redondos na cara. Chegava de maleta na mão, subindo a ladeira. E ela ali, em meio à penumbra. Chegava perto das nove, saía, iluminada de trás pelas lâmpadas da sala da casa de seus pais, ficava igualzinha uma entidade, mas não sabia disso. Tinha em si uma certa pequenez. E aí, às nove e duas ou nove e três, via o homem passando, para o aquecimento de seu coração. “Boa noite, senhor Brandão!”, cumprimentava, dia sim, dia não, para que ele não pensasse que era uma louca. Que tipo de mulher de sua idade fica do lado de fora esperando que um homem casado passe como sendo uma procissão? Havia dias que se sentia profundamente sozinha nessa ilusão e se tornava inconsolável, mas, naquele dia, o homem disse “Boa noite, senhorita!” e soou como a mais linda promessa de amor para o ouvido tão carente de belas palavras. Se sentia culpada sempre no dia seguinte, como se tivesse aberto as próprias pernas ao senhor Brandão. Não abriria, mesmo que quisesse, não abriria. Nunca.

Ficava horas na casa vazia, sem mãe ou pai, mesmo sendo a casa deles. Cerzia e pensava, sonhava, deixava que a mente fosse longe. Na primeira vez que foi longe até o sexo do homem que morava no topo da colina, ela se arrepiou todinha. Soltou dramaticamente a linha, a agulha e o vestido de dona Marilda que andava a remendar. Correu até a igreja, eram às duas ou às três da tarde. O padre saiu dos fundos com o carpinteiro ali da região, não pôde deixar de notar o aspecto pegajoso do corpo musculento do trabalhador braçal e sua agonia só se tornara pior. Gemia dentro da própria cabeça; ah, Deus, tire o demônio de mim. Mas, sabia, desde que aquilo aconteceu, que o demônio do tesão era o mais frequente. Quando o padre a percebeu, demorou um pouco e logo se ajeitou. O padre também sabia que o demônio do tesão era o mais frequente, ela foi toda mirradinha, encolhida, Deus tenha piedade, implorar ao padre para retirar-lhe o demônio. E então, foi se confessar, tremia dos pés à cabeça. Tinha medo, a coitada, de morrer pelos pecados desde a morte de seu pai, assassinado pela própria ira. Agora morreria através da vagina, o demônio da luxúria. “Jacira, é a terceira vez que vem só essa semana!” o padre disse, tinha uma voz suave, de veludo. Por vezes dizia palavras grosseiras, mas soavam das mais suaves, sorria sempre quando falava. Todos o amavam.

Pág. 12 Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

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ContosPágina 14 de 45

CONTO

HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Cassandra Marjani Oliveira

Explicou-lhe Jacira toda a situação, deixando claro que nada tinha a ver com seus pensamentos obscuros de engolir água sanitária, coisa que também jogou ao Diabo, sendo ele responsável por todas as terríveis partes de seu ser.

Cobiçar o marido da outra, pecado seríssimo. Foi o diagnóstico do padre: “o demônio mora em você, querida!”.

O desespero foi total, mas a penitência foi simples e já conhecida: dez Ave Marias, ajoelhada sobre o milho. E, mais calma, voltou para casa.

Se prometeu não mais sair ao portão, não mais esperar pelo homem da cartola. Era deveras embaraçoso querer o que não lhe pertence, há um senso próprio de injustiça.

Mas ela detestava se sentir mimada, ela que teve tão pouco. Só queria aquele homem. Pensou, pesarosa que se aquela qualquer caísse dura, poderia tê-lo.

Viveriam juntos na casa mais alta da colina, ela cerzindo e ele fazendo seja lá o que ele gosta de fazer. Ela cozinhando e ele fazendo seja lá o que ele gosta de fazer. Ela lendo os poucos livros de romance que conseguiu pegar emprestado da venda da igreja e ele fazendo seja lá o que ele gosta de fazer... Eram perfeitos um para o outro.

Como pode perceber, a promessa de não vê-lo não era válida para seus pensamentos, que se ocupavam de senhor Brandão a torto e a direito.

Pois bem, numa quinta-feira dessas qualquer, quinta que antecede evento chave, ela decidiu varrer a varanda de sua casa, coincidentemente, no exato horário que o homem normalmente voltava para casa. Estava de camisola, oras, não se lembrara de se trocar. Ficaria mal falada caso a percebessem ali, oh, Céus! Mas permaneceu, senhor Brandão vinha subindo, parou perto de seu portão.

A voz grave parecia um trovão, Jacira se molhou toda naquilo e se perguntou se ele percebeu. O homem lhe perguntou por onde andara, respondeu que em casa. Ele lhe confessou que estranhou a falta de seus boa noite. Ela disse que não foi de propósito. Ele acreditou. Perguntou se tinha café, só para que lhe ajudasse a subir o restinho da ladeira.

Não é como se Jacira não tivesse maldado, mas deixou que ele entrasse. O homem entrou, o primeiro choque fora a luz vinda de casa, que lhe iluminou a boca torta. O segundo foram os óculos, revelando os olhos vesgos. A última pá de terra fora a cartola, a tão amada cartola. Era calvo por baixo dela.

Era possível que Deus a perdoasse se fizesse aquilo com um homem feio? Não há cobiça, talvez, apenas, um senso de justiça. Quem há de querer um homem como aquele? Duvidou que sua mulher o tocasse. Porém, foi inevitável para Jacira. Imaginar uma paixão é de mil vezes melhor que, realmente, se apaixonar.

Por: Cassandra Marjani Oliveira IG: @autoracassiemarjani Salvador - BA

Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol. 1, No. 1, jan./mar. 2026

Pág. 13

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ContosPágina 15 de 45

CONTO

HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Tamara S. Fawkes

CAJUEIRO, BODIN, MARROM, VÓ E MAINHA

Agarrei no sono. Acordei em cima do cajueiro de padrinho João. Chupei caju atrás de caju; um mais doce que o outro; enchi a barriga. Mainha ia se retar, eu agora não almoçava tão cedo. Melhor ir caminhar pra ver se ajuda o tempo passar.

Passei pelas cabras de dona Marianinha e falei com Bodin, o filhote já me reconhecia de longe. Pulava de felicidade e a gente apostava corrida entre pinote e carreira até cada canto da cerca.

“Tá doido, menino! Cadê sua mãe pra ver isso?”, gritou a senhorinha.

“Mainha tá em casa, dona Marianinha, não conte a ela, não!”

“E você tá indo pra onde, moleque?”

“Eu tô vendo se a barriga esvazia um pouco pra ir almoçar, comi caju demais.”

“Mas, oxe! Esse menino tem é arte, viu? Vá pontar sua mãe, não, fique aí com Bodin endoidando, viu?…”

Dei tchau a Bodin e às cabras e fui pro terreiro de minha avó. Passei por debaixo dos arames e fui recebido pelas galinhas de voinha. Marrom, Pretinha, Joana e Lilica já eram velhas conhecidas minhas.

“Vocês botaram ovo hoje, gente?”

Minha avó chegou na porta e me olhou sabendo que eu estava aprontando. “Joaquim, filho de Deus, saia desses mato, menino! Corra aqui, me ajude num negócio, venha!”

“Tô indo, vó, deixe eu pegar só mais esse ovo aqui…”

Quando entrei na cozinha de voinha, tava mainha e ela com um bolo todo melado com o chocolate em pó que eu adorava. Eita, é meu aniversário e eu esqueci!

Acordei, novamente na sala de espera. Eita, frio nessa sala. Na rua o calor é de matar, aqui, é esse frio retado. Vou é me ajeitar na cadeira que eu já tava caindo enquanto dormia. A bolsa chega encheu de mijo. Xô ir trocar isso no banheiro, viu?

“Joaquim da Silva, consultório 3; Joaquim da Silva, consultório 3”

Por: Tamara S. Fawkes IG: @tsfawkes Salvador/Dias d’Ávila - BA

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Roni Pereira

MAIS PESOS

I

Era 18 de abril de 1692 quando oficiais locais, acompanhados por cidadãos da comunidade, foram à casa de Giles Corey, um agricultor de 80 anos. Bateram à porta e um dos oficiais anunciou: — Há um mandado contra o senhor. Corey permaneceu sentado. No canto de um dos dois cômodos havia utensílios agrícolas — as primeiras coisas que os homens “a serviço da ordem” notaram ao entrar. Observavam se o velho faria algum movimento brusco para alcançar as ferramentas e usá-las de modo mais terrível. À sua frente, uma grande lareira de pedra quase se apagava. — Corey, não vou repetir. O idoso levantou-se e seguiu com a multidão, sem dizer uma palavra. Levaram cordas, mas não as usaram. Tampouco houve rigor na escolta. No dia anterior, o xerife George Corwin, que expedira o mandado, havia gritado: — Pelo amor de Deus, aquele homem não é capaz de nada... Corey foi conduzido a uma igreja puritana. Os magistrados estavam sentados à frente, atrás de uma mesa simples e comprida. Ele foi instruído a ocupar a “cadeira do acusado”. No mesmo dia, outras três mulheres também foram denunciadas. Uma delas, Abigail Hobbs, estava ali não como ré, mas como acusadora. Não havia uma delimitação clara entre os papéis. A metamorfose jurídica era fácil: o sujeito podia passar de acusado a acusador, de réu a interrogador, e vice-versa. A pouca luz natural que entrava pela igreja recaía sobre a plateia formada por membros da comunidade. Alguns rezavam em voz baixa, outros choravam; havia também os que permaneciam imóveis, paralisados pelo medo. O interrogatório nunca começava de imediato, e o calor fazia o suor impregnar o ambiente. O cheiro misturava-se à madeira, à cera das velas e aos corpos humanos. Os magistrados iniciaram as perguntas: — Você é feiticeiro? — O que há no seu livro? — Você fez pacto com o diabo?

Silêncio para todas as questões.

II

Quase cinco meses depois, em 9 de setembro de 1692, a jovem empregada Mercy Lewis depôs contra Giles Corey e outros acusados. Dois anos antes, em 30 de setembro de 1689, seus avós, tios e primos haviam sido exterminados por nativos americanos, o que a fez, então com 14 anos, buscar refúgio na casa do Reverendo Burroughs. Àquela altura, ele já não era mais seu mestre. Um mês antes, em 19 de agosto de 1692, Burroughs fora executado por bruxaria, e o depoimento de Mercy fora essencial para sua condenação à pena capital. O nome “Mercy” traduz-se para o português como “misericórdia”. A igreja puritana, como casa de Deus, deveria inspirar compaixão, mas a misericórdia divina não era universal: acusados de bruxaria e outros criminosos estavam excluídos dessa bondade. Ao ouvir o depoimento de Mercy

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AUTOR(A): Roni Pereira

os cidadãos de Salem perceberam que a barbárie se situava num ponto em que a compassividade divina parecia inalcançável: “Vi a aparição de Giles Corey vir e afligir-me, instando-me a escrever no seu livro. Assim, continuou a ferir-me terrivelmente, batendo-me e quase quebrando-me as costas até o dia do meu exame, 19 de abril, e também durante o tempo do exame ele afligiu-me e torturou-me gravemente, e várias vezes depois disso, instando-me veementemente a escrever no seu livro. Eu acredito verdadeiramente no meu coração que Giles Corey é um feiticeiro terrível, pois desde que esteve na prisão, ele ou sua aparição tem vindo e atormentado-me gravemente.” Retirado da prisão colonial e conduzido diante dos magistrados, Corey foi questionado mais uma vez: — Culpado ou inocente? — ... — E então? Nenhuma resposta.

III

No dia 17 de setembro de 1692, o xerife George Corwin estava em sua sala quando lhe informaram: — Ele não respondeu. — Então não há outra coisa a fazer — disse, apontando para um documento. Era um mandado para submeter Corey a um procedimento reservado àqueles que se recusavam a se encaixar na dicotomia imposta pela justiça. Corey foi levado ao meio da rua. Oficiais e alguns civis arrancaram-lhe a roupa e o obrigaram a deitar sobre uma prancha. Tábuas pesadas foram colocadas sobre seu corpo, seguidas de rochas e pedras, pressionando o senhor de 81 anos. — E então, Corey — perguntou Corwin —, culpado ou inocente? Nada. Nenhum grito de dor. — Coloquem mais pedras — ordenou o xerife.

***

Dois dias se passaram. Corey ainda estava sob as tábuas e pedras. Corwin insistia: — Homem, pelo amor de Deus, apenas responda à pergunta. Com os olhos esbugalhados, Corey olhou para ele. — Culpado ou inocente? O acusado movimentou os lábios, mas não para dar a resposta esperada. O objetivo não era a dor em si, mas forçá-lo a assumir sua culpa ou inocência. Tábuas, pedras, pressão social e a insistência do xerife formavam uma construção destinada a enquadrar o futuro condenado em um dilema. — Mais peso — disse Corey. — Culpado ou inocente?! — gritou Corwin. — Mais peso... — respondeu ele. — Tudo bem — disse o xerife. — Coloquem mais. Mais pedras foram empilhadas. Apenas a língua de Corey saiu da boca, sendo forçada de volta pela bengala de Corwin; a resposta que esperavam nunca veio.

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Roni Pereira

— Ainda acha insuficiente? — zombou Corwin, subindo sobre as pedras. O juiz e empresário Samuel Sewall registrou em seu diário: “Por volta do meio-dia em Salem, Giles Corey foi esmagado até a morte por permanecer em silêncio; muitos cuidados foram empregados com ele durante dois dias, um após o outro, pela corte e pelo Capitão Gardner de Nantucket, que era seu conhecido, mas tudo em vão.”

***

Ao longo dos meses, os filhos de Corey notaram não ter havido nenhum processo de expropriação. Os campos e cercas agora eram deles e permaneciam intocáveis.

Imagem gerada a partir de descrição pelo Dall-E

Por: Roni Pereira Leia mais do autor aqui. Salvador - BA

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Paulo Brazeiro

CARTÕES POSTAIS

Dentro de nós toca uma música única.

Era uma tarde daquelas bem secas que apenas Brasília sabe entregar. A cada respiração, ele sentia o próprio interior esturricar; estava exausto há mais tempo do que podia recordar. Já não sabia o que significava ouvir os próprios desejos. Preparava-se para caminhar pela cidade quando, subitamente, um sentimento antigo bateu à porta: a vontade de retomar seu hobby. Décadas atrás, ele colecionava cartões-postais, objetos que o tempo tornou obsoletos. Lembrava-se de como as conversas floresciam ao mostrar a coleção; falava-se de viagens, de destinos, de mundos. Hoje, a pressa alheia rotularia o hábito como vintage, como se ele seguisse uma moda efêmera. Mas ele não era vintage. Era apenas alguém que envelhecia de forma comum. Metódico, mas de mente aberta, acreditava já ter vivido o suficiente para aprender o que a vida tinha a oferecer. Duvidava que houvesse alguém capaz de lhe ensinar algo novo. Ou assim ele pensava.

Caminhou até o banco de uma praça que, encravada entre os prédios, surgia como um refúgio arborizado. Ali, a grama verdejante era um pequeno milagre; ao redor, a vegetação ostentava o bege sem vida típico da estação, fundindo-se à aridez do ar, mas dentro daquele quadrilátero a cor resistia. O fenômeno tinha explicação: era fruto do zelo de Seu Joaquim, o zelador do prédio vizinho, que religiosamente regava o jardim ao amanhecer. Dizia que o horário era sagrado, pois o sol forte poderia ferir as plantas. Graças a esse cuidado, o lugar oferecia um alento; a brisa ali parecia mais gentil, filtrando o calor intenso que castigava a cidade.

Uma torrente de pensamentos o inundava. A ideia dos cartões-postais, que o visitara sem aviso, parecia agora soterrada pela aridez da paisagem; a grama morta além dos limites da praça era o espelho de sua própria existência, que secara até levar consigo o interesse por tudo. Havia fantasmas demais em sua mente. O inventário de uma família que se construiu e se desfez com o mesmo estrondo. O último jantar, a revelação brutal, e o peso de ter sido visto por todos em sua completa humilhação. Torturava-se com o abismo entre como poderia ter agido e a covardia que, de fato, o guiou. Sentia-se acorrentado à própria história. Era uma angústia impossível de traduzir em palavras: um buraco no peito talhado em estilhaços de vidro. Buscou distrair-se com o movimento ao redor, ensaiou levantar-se e caminhar, mas a paralisia era mais profunda. As estruturas que o formavam já não eram feitas de linguagem, apenas de significados crus, sem máscaras. O real e a verdade haviam ficado em um passado inacessível. Restavam-lhe apenas as impressões — retalhos de como tudo aconteceu — e a dúvida atroz sobre o que fazer com esse entulho. Ele permaneceu estático.

Observou o movimento ao seu redor: pessoas que caminhavam sem pressa, cães sendo levados para passear. Os passantes demoravam-se sob a sombra generosa da praça, retardando o passo para colher o que restava da brisa antes de se entregarem, novamente, à rudeza do sol. Às três da tarde, o mormaço de uma segunda-feira brasiliense ainda ardia com uma intensidade severa, mais do que qualquer um desejaria suportar. Ele não compreendia a lógica daquela sequência: o impulso de sair, o encontro com o banco, o desejo de partir confrontado pela inércia de ficar. Parecia haver uma regência invisível naquela hesitação, algo orquestrado por uma força superior que o mantinha ali, o que será que estava esperando?

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Paulo Brazeiro

Foi então que viu o menino passar. Ele falava com um amigo, os olhos acesos pela descoberta de uma nova coleção de cartões-postais. Cada gesto de suas mãos traduzia uma empolgação elétrica; descrevia detalhes, texturas e a raridade de encontrar peças realmente belas nos dias de hoje. Pediu que o amigo esperasse enquanto revirava a mochila em busca de um tesouro: um cartão que a tia trouxera da Coreia do Sul. Para o garoto, aquele pedaço de papel era a prova de que, apesar das mutações do mundo, aqueles lugares distantes ainda pulsavam — e ele pretendia visitar cada um deles. A voz do menino chegava a vacilar, tamanha era a amplitude da juventude que tentava caber em suas palavras.

Ao observar a cena, uma rebeldia estranha nasceu no coração do homem. Como era possível testemunhar a mesma realidade e sentir algo tão oposto? Por que ele permitira que aquela alegria se esvaísse? O choque foi físico. Sentado naquele banco, ele se convencera de que não havia mais nada a aprender e que o mundo se resumira ao seu próprio niilismo vazio. Mas ali, diante de uma paixão genuína, um fogo que ele julgava extinto deu o primeiro sinal de brasa. O questionamento o atingiu como um sopro de vida: será que ele ainda podia se sentir diferente? Será que ele ainda tinha direito a ser feliz?

Alguém com todo o horizonte à frente o fizera enxergar o que ele, mergulhado no passado, deixara de ver. No fundo de sua alma, voltou a vibrar uma melodia antiga, eterna e cósmica: o desejo de viver. Ressoou forte, embora em tom baixo. Percebeu, com um aperto, que o silêncio dessa música passara despercebido porque o caos de sua mente era ruidoso demais; o desejo se fora sem fazer alarde, e ele nem notara o vazio. Como pudera ignorar a própria mudez por tanto tempo?

Querer estar aqui, desejar o presente, é uma bênção tão vasta que, se pudesse, ele jamais a soltaria novamente. Mas a lucidez era uma faca de dois gumes: lembrou-se de que fora justamente por desejar viver que sua família se despedaçara. A dor fora o preço de sua busca, e por medo de novos cortes, ele se calara. Mas agora, com os destroços já assentados e o tempo cumprido, o que lhe restava? Seria possível ousar a vida mais uma vez ou deveria aceitar a paralisia? Se o sofrimento era inevitável tanto na estagnação quanto no movimento, que ele ao menos sofresse em evolução. Não haveria redenção sem caminho, e não haveria caminho sem o risco de sentir.

Ele não saberia dizer quanto tempo durou, mas sentiu quando o transe se desfez. Foram cinco minutos que comprimiram uma vida inteira de mudanças. Ao despertar, os meninos já seguiam pela calçada, distantes. Naquele instante, uma certeza se cristalizou: o que ele escolhia, acontecia. E ele decidiu, finalmente, plantar.

Durante aquele breve intervalo no banco da praça, as canções antigas que ele havia silenciado por medo de não ter ouvintes começaram a se libertar de seus labirintos interiores. Percebeu o quanto havia se abandonado; como deixara a curiosidade e o espanto morrerem em nome de uma segurança apática. Uma parte essencial dele já estava morta. Ele entendeu, então, a bifurcação diante de si: poderia permitir que o resto também fenecesse, arrastando uma meia vida moldada por versões de um passado que já não existia, ou poderia escolher a mudança. Poderia, enfim, transformar o que restara da dor em algo novo.

Revolução seria escolher a si mesmo pela primeira vez, mesmo àquela altura da vida.

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Paulo Brazeiro

Compreendeu que recordar a felicidade não era um erro, mas um convite; descobriu que podia, sim, desejar colecionar cartões-postais outra vez. Podia amar novamente. Estava vivo, afinal. Entrara naquela praça como um velho, mas levantava-se dela mais jovem.

Ao erguer-se do banco, sentiu o peso abandonar os ombros. A respiração fluiu e os joelhos, antes rígidos, ganharam uma leveza inesperada; como se o corpo finalmente desse trégua à consciência — ou seria o inverso? Decidiu caminhar sem pressa, disposto a admirar cada fragmento de vida. Pelo caminho, as flores do paisagismo candango deixaram de ser apenas manchas coloridas para se tornarem detalhes urgentes. Ele percebeu, então, que os cartões- postais eram o registro do olhar alheio; a fotografia seria o seu.

Caminhou como um turista em sua própria cidade, maravilhado com o que antes era invisível. Cada prédio era uma obra de arte; no pôr do sol, os ângulos pareciam inventados para serem eternizados. Pegou a câmera e apontou-a para um Ipê Amarelo: as pétalas vibrantes contra o fundo desfocado de um grafite, sob o céu azul brilhante que agora se refletia na música de seu coração. Finalmente límpido. Seco, e límpido.

Quando chegou em casa, buscou cursos de fotografia.

Por: Paulo Brazeiro Leia mais do autor aqui ou em paulobrazeiro.substack.com Brasília - DF

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Otávio Segal de Araújo

FRAGMENTO DE ESTRELA

“Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.” – Álvaro de Campos

Congo Belga, 18 de setembro de 1927. Minha cara amiga, Marie Curie.

Escrevo-te estas linhas e perdoe-me se não lhe escrevi antes. Só agora percebo o quanto me perdi em minhas meditações e o quão necessário torna-se escrever-te esta carta para tentar recobrar a consciência.

Seus profundos estudos sobre a radioatividade abriram-me os olhos para o mundo; jamais imaginaríamos que pedras pudessem brilhar no escuro e emitir energia. Sua pesquisa me inspirou a iniciar a minha em 1896, e ela está perto de chegar ao fim; estou no rastro de uma misteriosa pedra há 30 anos, como comentei contigo no Brasil, em 1926.

Uma pedra citada em diversas mitologias, que contém os poderes de transformar a vida, criar a perfeição material, inclinar-se sobre a matéria e a mente, gerando imortalidade sobrenatural.

Artista: Gabriel Amaral - Instagram: @amaralgabriel___

Pode ser conhecida como Pedra do Céu pelos chineses, Amrita pelos Hindus, Pedra Benben no Egito, a Ambrosia pelos romanos, Pedra do Sol pelos árabes e a mais conhecida, Pedra Filosofal, pelos europeus antigos e medievais. Apesar da diferença cultural, esses mitos referem-se a um mesmo ponto, um elemento capaz de conceder o conhecimento divino.

Encontrei no sítio arqueológico do Monte Stanley, no Congo Belga, a resposta que tanto buscava. Os Mbuti relatavam sobre um fragmento de estrela jogado pelo Deus Khonvoum e diziam saber onde está, mas também diziam que ninguém era capaz de ir lá, pois o fragmento é de um poder tão absoluto que o ser humano se torna um com Khonvoum. Pelos meus estudos e traduções feitas pelos guias, isso era a mesma coisa que morrer.

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Otávio Segal de Araújo

Eu estava há tanto tempo imersa nessa história que não podia dar um passo para trás por conta de um mito antigo, de um povo mais antigo ainda. É claro que eles estavam zombando de mim, mas isso me lembrou seus estudos. Pedras capazes de emitir energia, porém nada muito mágico, apenas química e radioatividade. E imagino que a química trará a resposta para a tal imortalidade dos mitos.

Indicaram que o Monte Stanley, como chamavam os belgas, era o caminho a ser seguido. O monte tem mais de 5 mil metros de altitude. Mas, por incrível que pareça, não fomos para cima; ao contrário, subimos os primeiros 900 metros, e entramos em uma caverna com declive, tive uma estranha sensação de que já estivera ali, como um déjà-vu. Sabia que diriam que eu teria que seguir sozinha dali em diante. Nenhum deles, nem os guias e tradutores, foi comigo. Era como um sonho, apenas eu, uma tocha, meu diário e uma certeza de que ali encontraria a pedra repleta de segredos.

À medida em que entrava mais profundamente na caverna, mais o ar ficava denso e a escuridão tomava o ambiente, sendo minha tocha a única fonte de luz. A minha sombra e a luz do fogo se misturavam e eram constantes fontes de susto. Um insistente barulho mantinha-se no ar, como um bater de asas de insetos e o cheiro de petróleo pútrido tornavam a atmosfera intensa.

Era o cenário perfeito para enganar a mente e confundir a consciência; a mente sabe que eram truques de luz, mas ainda assim se assustava com os vultos. Esses vultos traziam a sensação de estar sendo observada e o odor milenar de morte dava a certeza de que não havia ser vivo algum.

Depois de andar 3,6 km para dentro da montanha, encontrei uma grande região côncava, de uns 5 metros de profundidade, com um grande altar monolito erguido ao centro. Muitas escritas, em diversas línguas, estavam talhadas no monolito e diziam sobre o poder absoluto dos deuses, inefáveis em suas ações, irreconciliáveis, marcados por uma indiferença cósmica. Seres tão grandiosos em sua existência que o universo criado era apenas um respiro em seus sonhos.

Muitas estátuas estavam ao fundo, em suas bases de barro, também com escritas em diversas línguas, nomes para ser mais exata. Pareciam dançar com a luz cambaleante da tocha e cantar com o barulho incessante de asas de inseto. O que cantavam era a música dos Mbuti sobre a morte e a conquista da eternidade. De uma coisa eu tinha certeza: eu já não podia mais distinguir o que era real da minha imaginação.

Decidi escalar o monolito, pois via que um arco-íris passava por cima dele, mesmo na mais completa escuridão, e lembrei de Newton. A energia una dos deuses, quando materializada, pode se fragmentar em cores. A luz divina, vira um arco-íris e, quanto mais perto eu chegava do topo do monolito, mais minha visão começava a brilhar cores estranhas; a respiração ficava lenta e o coração arfava, ofegante, buscando no pouco oxigênio da caverna a sua sobrevivência.

Lembro-me de acordar no chão olhando para o teto, e desenhos dos Mbuti aludiam a uma pedra mágica ou pedaço de estrela que dava vida ao inanimado e tirava a vida dos animais. A morte, para eles, era a imortalidade e a união final com Khonvoum. A imortalidade era a morte, a vida era morte e tudo mais retornava a Khonvoum como um grande ciclo.

Percebi, nesse momento de falta de vida e transe inconsciente dos meus impulsos, que fui longe demais. E sai correndo em direção à luz da caverna, enquanto sentia a presença de seres me perseguindo como abelhas perseguem quem destrói sua colmeia.

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Otávio Segal de Araújo

Quando saí, já não havia caverna, não havia barulhos de insetos e muito menos o cheiro de morte. Apenas pedras acima e um grande Monte de mais de 5 mil metros de altitude.

Ter acesso a esse conhecimento e poder é deveras assustador, e conhecer isso não é um direito; eu diria que é uma impossibilidade à nossa condição humana. Por muito tempo, os mais diversos pensadores do mundo buscaram seu poder e, na incompreensão do que é ser imortal, quiseram compreender os deuses.

Escrevo-te essas linhas na tentativa de avisá-la para não continuar minha pesquisa; os insetos ainda me perturbam e não quero isso para você. Acordei hoje sem saber que dia é e me despeço de ti e da vida com a sombra da pedra em meu inconsciente, e com o remorso de jamais tê-la em mãos. A inexistência da caverna indica que a pedra permanecerá por muito ainda perdida.

Nestas últimas linhas percebo que a vida é uma grande ilusão e o cheiro pútrido da morte milenar a nossa única certeza.

Com amor, sua grande amiga Ana Moura.

CRONOLOGIA DOS ESTUDOS SOBRE A PEDRA:

Zósimo de Panópolis foi a pessoa que primeiro entrou em contato com esse conhecimento no século III e dizia ter encontrado a pedra no Egito, mas nunca de fato a viu.

Depois de muito tempo perdido, o conhecimento foi recuperado por Jabir ibn Hayyan por volta do século VIII, que buscou os rastros da pedra no Iraque e Pérsia. Esse grande pensador árabe manteve tudo em segredo em sua época, pois compreendia o significado e simbolismo do que pesquisava.

No século XIII, Roger Bacon tentou recriar a pedra a partir de um experimento mal-sucedido, e Alberto Magno finalmente compreendeu que não se tratava de uma pedra metafórica ou mágica, pois em um registro, disse que encontrou o local da pedra na Alemanha, mas veio a falecer depois dessa descoberta.

No século XVII, Newton foi o primeiro a perceber como a unidade se fragmenta na materialização e assim ficou conhecida como a Pedra Arco-Íris.

E no século XIX, dizem que o suicídio de Ludwig Boltzmann veio de uma alucinação ao estudar como os átomos podiam conter a inefabilidade dos deuses.

Apesar dos esforços, não há nenhum registro histórico conhecido de alguém que tenha possuído essa pedra.

Por: Otávio Segal de Araújo Leia mais do autor: @profotaviosegal Vitória - ES

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AUTOR(A): Vitor Paulino

CHAMADO AO DEVER

Zayrus despertou no primeiro dia da primavera, como uma planta que floresce no exato instante em que a estação permite — sem antecipação, sem atraso. Ficou algum tempo deitado, observando o teto de madeira escura. Sem pressa, reconheceu aos poucos o cheiro leve de mofo e a ausência de som. Estava sozinho e seguro. O quarto, pequeno e austero, fazia parte de uma fazenda afastada ao sul do Reino de Monte Verde — seu antigo e único lar, que um dia falhara em defender. O teto baixo, as paredes nuas e o baú aos pés da cama eram tudo o que o ambiente tinha a oferecer. O lugar possuía um aspecto de abandono. Levantou-se devagar, com gestos econômicos. Vestiu os trajes simples que lhe haviam sido oferecidos, cobriu-se com o casaco longo acinzentado de bordas pretas e puxou o capuz sobre a cabeça. Na cozinha, a família tomava café em silêncio. A filha mais velha, franzina, de cabelos escuros até os ombros, encarava-o com curiosidade disfarçada enquanto comia. A matriarca segurava um bebê inquieto no colo. Os olhos dela, apagados pela exaustão, mal disfarçavam o receio ao vê-lo adentrar o cômodo. O fazendeiro, de pé junto ao armário, trazia nas mãos uma caneca de infusão amarga e de aroma estranhamente agradável. Conversava com a esposa em tom ameno, mas, ao notar sua presença, moveu-se rapidamente para pegar mais um copo e colocá-lo sobre a mesa. — Bom dia, senhor — disse o homem, tentando parecer casual. — Tomará café conosco? Zayrus estava de pé. Sua voz, calma e inabalável, raramente alcançava a delicadeza esperada pela etiqueta social. — Não quero causar mais transtornos. Partirei ainda hoje para a capital. O fazendeiro hesitou, lançou um olhar nervoso à esposa e forçou um sorriso frágil. — Depois de tanto tempo dormindo, o senhor deve estar com fome... Zayrus não respondeu de imediato. Observou a mesa com atenção clínica: um pouco de fubá de milho e um punhado de bananas secas compunham o desjejum da família. — Em que mês estamos? — Final de abril. — Respondeu cabisbaixo. Ele assentiu levemente, um movimento quase imperceptível. Respondeu em voz baixa, como para si mesmo: — Longo demais. Não era o inverno mais extenso que havia presenciado, mas certamente fora o mais prolongado dos últimos quinhentos anos. — Como estão os estoques? — perguntou, sem alterar o tom. O fazendeiro coçou a barba emaranhada e suspirou com a resignação de quem já esperava a pergunta, mas ainda não havia formulado uma boa resposta. — Não tão ruins quanto poderiam estar... mas não durarão até o meio do ano. Não serão suficientes até a próxima colheita. E não sei o que faremos quando... — a frase se perdeu, engolida pelo receio de dita em voz alta. Zayrus retirou um pequeno saco de couro do bolso do casaco e o empurrou sobre a mesa em direção ao homem. Ao abrir o alforje, o fazendeiro se deparou com dez moedas de ouro. — Não posso aceitar isso do senhor — protestou ele, imediatamente seguido pela esposa. — É demais... O bebê no colo da matriarca agitou-se ainda mais com a tensão no ar. — Sim, sim... — dizia a jovem mãe enquanto o embalava ansiosamente. — Mas, com certeza, não receberíamos uma ou duas moedas... — Silvia... — interrompeu o marido, sem graça. A esposa franziu o cenho e calou-se. Zayrus nada respondeu. Retirou quatro moedas do saquinho e entregou gentilmente uma para

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Vitor Paulino

cada adulto e uma para a menina, deixando a quarta na cesta que servia de berço improvisado para o bebê. Voltou-se para a porta. Quando tocou a maçaneta, o fazendeiro adiantou-se, cauteloso. — Perdão, senhor. — O homem parecia ansioso, deixando transparecer a incerteza em sua voz. — Há algo mais que poderia fazer para nos ajudar. Não é nada que vá lhe custar esforço, para alguém como o senhor... Zayrus deteve-se. Virou-se a contragosto e fixou o olhar no homem de pele parda e olhos atentos. Agora, observando com mais calma, podia ver que seu semblante transparecia muito mais orgulho do que a situação permitia. Parecia cansado e bem mais magro do que na última vez que o vira. Tinha um dos braços enfaixados e mancava de uma das pernas. Como era de costume, os pequenos agricultores da região seguiam para o norte em busca de empregos nas cidades de Monte Verde no inverno. Era, por si só, uma tarefa difícil; após a primeira rebelião contra seus colonizadores, as retaliações foram tão duras e cruéis que, mesmo após cinco anos, o povo ainda tentava se reestruturar. Somava-se a isso um inverno longo, e a catástrofe era inevitável. — O que deseja? — perguntou Zayrus, esforçando-se para não cuspir as palavras. — A dois quilômetros a leste daqui, há uma floresta. É sagrada, e normalmente é proibido cortar árvores por lá. Mas, com a crise, o Lorde local autorizou que derrubemos algumas das extremidades... desde que ninguém se aproxime da árvore central. Zayrus observou-o em silêncio por um instante. Assentiu brevemente e retirou-se. A paisagem do lado de fora não se parecia em nada com o que o pequeno e simples casebre sugeria. Ao abrir a porta, a vastidão da fazenda estendia-se diante dos olhos como um quadro vivo. O terreno da fazenda na qual estava hospedado era amplo e, apesar das marcas do inverno rigoroso, exibia os primeiros sinais de vida retornando à área cultivável. Primos e tios trabalhavam em silêncio coordenado, curvados sob o sol gentil da manhã, traçando com enxadas linhas retas na terra levemente úmida, enquanto mulheres e crianças traziam baldes com sementes e cereais. Não havia muitos animais — apenas um punhado de porcos, galinhas, uma pequena cabra que parecia se locomover com dificuldade e duas ovelhas esquálidas, sobreviventes do árduo inverno, tremendo como se tivessem esquecido o que era o calor. O cheiro de terra recém-molhada perfumava o ambiente, carregado pela brisa leve que tornava o clima quase primaveril, ainda que os ossos lembrassem o frio recente. O céu estava de um azul radiante, com poucas nuvens brancas atravessando preguiçosamente o horizonte — um cenário perfeito para o retorno dos pássaros às escassas florestas que agora, cheias de vida, ecoavam com seu canto. No silêncio, ouvia-se apenas o canto das aves, o ritmo das enxadas golpeando a terra e o grito da velha senhora — alternando-se entre os animais e os netos — compondo, sem esforço, uma sinfonia rústica perfeita. Zayrus respirou fundo, aproveitando aquele momento de calmaria como quem saboreia um raro pedaço de paz. Permaneceu ali por alguns minutos, de olhos fechados, meditando. Então, sem pressa, caminhou até a velha casa de ferramentas. Puxou o machado cravado no toco de madeira como se cumprimentasse um velho amigo e pôs-se a marchar rumo ao sudeste. Saiu pela estrada principal, que conectava as periferias de Monte Verde até a longínqua Praia do Alvorecer. Os arredores da estrada formavam um mar verde de plantações, entrecortado pelo marrom terroso deixado pela ação humana. Os campos exibiam variedades de milho, cevada, raízes, frutas e outros cereais, estendendo-se até onde a vista alcançava. Carroças começavam a chegar, uma após a outra, rangendo sob o peso de sementes, ferramentas e rostos marcados pelo cansaço da vida urbana. Eram os velhos e novos trabalhadores, muitos

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CONTO

HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Vitor Paulino

vindos das cidades em decadência, apostando sua última esperança na terra fértil, agora reaberta com o fim do isolamento invernal. A vegetação nativa havia cedido espaço à necessidade. Árvores centenárias foram derrubadas, e os animais que antes ali reinavam haviam desaparecido ou migrado, espremidos pelo avanço das plantações. A demanda por alimentos não vinha apenas de Monte Verde, mas também das colônias vizinhas e dos lordes de Costa Rochosa, transformando a região em um ponto de extração incessante. A estrada, mantida com certa pompa até a última grande propriedade rural — a Fazenda do Senhor Alberto —, tornava-se a partir dali uma trilha rude de terra batida e pedras. Aquela grande fazenda fornecia quase toda a carne e derivados para os reinos próximos. A influência de Alberto era tamanha que muitos diziam ter sido ele o único cidadão de Monte Verde a sobreviver à queda intacto. Um feito que custou caro, mas cujo preço foi facilmente coberto pelos bolsos profundos dos lordes. Daquele ponto em diante, o caminho descia por um desfiladeiro íngreme e traiçoeiro, serpenteando por cerca de dois quilômetros até atingir uma velha ponte arqueada de pedra, coberta por musgos e histórias esquecidas. Após cruzá-la, Zayrus atingiu o primeiro objetivo da viagem. A visão inicial era de tirar o fôlego: não havia nada além do azul. O céu e o mar se uniam num degradê quase divino, do celeste puro até a espuma branca que lambia suavemente a areia fina. A praia era pequena, protegida a oeste por rochas lisas e cortantes, e a leste por uma muralha viva de carvalhos altos e retorcidos, que formavam uma sombra protetora sobre a areia. Do alto da ribanceira, Zayrus contemplou a cena. À sua direita, a Gruta da Dor Eterna espreitava entre os rochedos. A formação nascera da última grande deformação do rio que cortava Monte Verde — uma ruptura violenta que agora servia como abrigo silencioso para a vida selvagem. Aves, répteis, anfíbios e pequenos mamíferos brigavam por território naquele oásis, enquanto onças patrulhavam pacientemente em busca de uma presa fácil. As espécies exiladas encontravam refúgio na gruta quando não havia lugar melhor para ir. Aquele lugar, há muito tempo, também fora seu refúgio. Seu santuário. Zayrus observava o mundo em silêncio, absorto em suas lembranças. Para ele, pensamentos não eram perturbações, mas extensões da alma, de sua própria essência. Moldava-os com serenidade, como se domasse uma fera traiçoeira, sempre com maestria. Era difícil decifrar o que se passava em sua mente. Apesar de parecer humano, compartilhava o sangue de uma espécie ancestral — alguns diziam que anterior ao próprio mundo que conheciam. Um estalo o tirou de seus devaneios. Algo o vigiava. Seus olhos percorreram o entorno como os de um guerreiro experiente, treinado para sentir o campo de batalha antes mesmo de vê-lo. Nada se moveu. Então, um bater de asas o chamou de volta. Uma ave diferente cortou o céu — bico vermelho, penas multicoloridas — e sua atenção se voltou somente a ela. Sua mente, uma vez mais, silenciou. Aquela sensação incômoda — de que estava deixando algo importante passar — era só mais um resquício da guerra. Um reflexo instintivo que, mais cedo ou mais tarde, ele daria um jeito de enterrar. Confiava plenamente em seus instintos e, naquele momento, concluiu que não havia nada que o ameaçasse. A lua cheia pairava alta no céu sem nuvens, como um farol solitário, quando Zayrus chegou à floresta. O silêncio era absoluto. Apenas a brisa gelada e cortante, o peso do machado em suas costas e os próprios passos o acompanhavam. Cada pisada fazia eco entre as árvores, que respondiam com o som tímido de pequenos animais fugindo, como se a floresta sussurrasse saber de sua presença. Era uma mata antiga, densa e alta, apesar de não muito extensa. As árvores se erguiam como colunas vivas que pareciam transformar o vento em um grito silencioso por reconhecimento.

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CONTO

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AUTOR(A): Vitor Paulino

Zayrus retirou o machado das costas. Segurou o cabo com as duas mãos. Os dedos firmes. Ritualísticos. O machado subiu. — A lua está realmente linda esta noite. O aço desceu. O vento gelado soprou como uma melodia gélida e o som oco da lâmina contra a madeira cortou o silêncio. E o movimento se repetiu. De novo... E de novo. Quando a árvore finalmente tombou, o baque surdo reverberou como um trovão contido. A floresta respondeu: aves alçaram voo às pressas, roedores guincharam e sumiram nas sombras. Antes que sua atenção se voltasse para o ninho de pássaros que havia caído ao seu lado, Zayrus já observava a próxima árvore. O machado subiu. — Tenho assuntos a resolver na cidade. E desceu. Subiu novamente. — Dormi demais desta vez. Estou perdendo meu tempo aqui. O som do machado — seco, firme e sincero — ecoou pela noite. “Para alguém como o senhor...” Uma ponta de desdém surgiu de relance em seu rosto ao lembrar das palavras do fazendeiro. A lâmina cortava o ar. A madeira respondia com estalos surdos. O ciclo recomeçava. A próxima árvore. A próxima queda. A próxima culpa. O tédio. O orgulho. Outra árvore. Outro medo. Outra perda... A ira. E, de repente, não havia mais pensamento. Apenas o som feroz do machado cortando o ar e o grito mudo das árvores que, indefesas, tombaram diante da fúria de um antigo general. Ele travava uma guerra íntima, sem inimigos visíveis, mas ainda assim letal. Cortava tudo o que via ao redor. Sem distinção. Seus movimentos eram limpos, contínuos, ritmados — e, de certo modo, desumanos. A cada golpe, menos força era necessária. A madeira cedia, como se reconhecesse a inevitabilidade da própria queda. O frenesi havia tomado conta. Sua mente era um redemoinho, e o entorno refletia a destruição silenciosa que o corroía por dentro. Outra árvore. Outra queda. Outro grito. Desta vez, agudo. Real. Humano demais. Foi então que, como se arrancassem um véu invisível de seus olhos, Zayrus parou. Já não se reconhecia mais. Lutou para manter sua mente calma — como um cavaleiro domando um corcel durante a tempestade — e, recompondo-se lentamente, virou-se. Atrás dele, a filha mais velha do fazendeiro estava prostrada, como se tivesse visto algo tirado das histórias de terror que sua avó contava. Estava pálida, trêmula, com as mãos cobrindo a boca e os olhos arregalados. Zayrus entendeu o sentimento. Eram poucas as características não humanas que precisava esconder para não ser identificado. Porém, seus olhos cor de jade brilhavam com um fogo intenso, e, nesta noite, queimavam como nunca. Afrouxou a empunhadura do machado, tentando não parecer tão hostil quanto a situação sugeria. A pequena mão trêmula da garota apontou para algo à frente dele. Seu olhar estava confuso e aterrorizado. Diante de Zayrus estava Ela. A Árvore Sagrada. Imóvel. Imponente. Soberana. Maior que todas as outras, mais antiga também. Suas raízes pareciam abraçar a terra desde antes de os mapas serem desenhados e sua identidade receber um nome.

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HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Vitor Paulino

E agora, ela sangrava. Um veio espesso de seiva esbranquiçada escorria do corte profundo que o machado abrira em seu tronco. O primeiro impulso de Zayrus foi instintivo: puxar o machado de volta e terminar o serviço, golpe após golpe, até vê-la tombar como as demais. Mas algo o conteve. — Vá embora. Você não deveria estar aqui, criança. — Sua voz saiu firme, mas mantendo o restante de compostura que ainda resguardava. — Eu... eu também não deveria estar aqui — completou num sussurro quase inaudível, apenas para si mesmo. O silêncio se impôs como uma cortina pesada. Ao redor, a devastação era evidente. Árvores partidas, raízes expostas, pedaços de vida espalhados pelo chão. Zayrus olhava fixamente para a árvore ferida como quem encara um adversário digno. Como quem hesita antes de destruir algo que, no fundo, reconhece como maior do que a si mesmo. E em sua boca, o amargo gosto do remorso começava a se formar — lento, espesso e inevitável.

Por: Vitor Paulino Saiba mais em: vitorpaulino2008@outlook.com Ferraz de Vasconcelos - SP

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CAPA - ENTREVISTA

HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Claudio Raul Luanda - Angola

Deixamos as respostas e o conto do nosso convidado em seu idioma natal, ou seja, o português de Angola.

1) Nos conte sobre a sua infância, há alguma ligação com os seus escritos?

Claudio Raul: Tive uma infância difícil, cresci, tendo minha voz sempre silenciada. Sofri bullying, algo que deixou marcas profundas. Talvez ainda as carregue, mas hoje já não lhes dou tanta importância. É por isso que, sempre que escrevo histórias com temáticas semelhantes, coloco-me automaticamente no lugar da personagem, é quase como se fosse ela a guiar-me, a dizer como a história precisa de ser contada. Talvez sim. Hoje levo uma vida de adulto, mas foi através da escrita que percebi que a minha infância não foi por acaso, era necessário que tivesse sido daquela forma. Já me deparei, enquanto adulto, com perguntas para as quais só encontrei respostas nas memórias da infância, especialmente quando escrevo. De certa forma, é hoje, nos meus escritos, que a minha infância começa a fazer sentido.

2) Por que você escreve ficção?

CR: Escrevo ficção porque é o género artístico com o qual mais me identifico para expor tudo aquilo que não consigo dizer ou mostrar de forma directa às pessoas. Parafraseando um certo autor, é através das fantasias que conseguimos revelar certas verdades ocultas ou que passam despercebidas no mundo real. A arte tem o poder de nos conectar e, muitas vezes, uma das formas mais profundas de acedermos à verdade é precisamente entrando no universo da fantasia e da ficção.

3) Qual é o seu próximo projeto? Já está trabalhando nele?

CR: Na verdade, já estou a trabalhar no meu próximo projecto. Pretendo lançar uma trilogia livros com temáticas centradas na infância, ou seja, no mundo das crianças. O primeiro e o segundo volumes já se encontram completos, editados e com planos de publicação. As histórias carregam uma carga emocional densa, focadas na marginalização das crianças, desde o abandono até às superstições relacionadas com acusações de bruxaria. Com um estilo introspectivo, personagens realistas e emotivas, a narrativa é escrita em camadas de memória, para denunciar e mostrar, de forma crua, os perigos eminentes que rodeiam crianças em situações de vulnerabilidade.

A seguir, confira o conto O Rapaz Epiléptico.

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CONTO - CONVIDADO

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AUTOR(A): Claudio Raul Luanda - Angola

Ele sempre me chamou a atenção no bairro em que vivíamos. Eu já ouvia alguma coisa sobre ele, devido à sua doença, mas nunca procurei aprofundar-me em saber mais ao seu respeito; sempre procurei distanciar-me de tais coisas. Mas, por dentro, quando passava diante dele, surgia-me sempre alguma inquietação sobre o mesmo. Calmo e solitário como ele era, passava sempre despercebido aos olhos das pessoas; pelo menos era o que eu achava, era como se fosse um homem transparente. Exceto quando as pessoas iam solicitar o seu trabalho, pois ele era sapateiro. Não era um dos melhores do bairro e não levava a fama de melhor; entretanto, fazia o seu trabalho tranquilo e bem feito. Certa vez, o meu sapato havia descolado. Olhei para o jeito que se encontrava; parecia ainda ter uma solução. Peguei o sapato e coloquei-o na sacola. E fui à procura de um sapateiro; a minha mente induzia-me naquele que levava a fama de melhor do bairro.

Quando tentava aproximar-me, reparei que o rapaz também estava com a sua bancada montada. Curioso que sou, pois o mesmo sempre me suscitava curiosidade, decidi então optar por ele. — Bom dia — cumprimentei-o. — Bom dia — respondeu ele. Com um sorriso ligeiro, mas com um olhar desconfiado, olhou para mim e disse: — Então, o que queres, boss? — Eu quero que dês um jeito aqui — falei, mostrando logo a abertura do sapato. Ele olhou, reparou e logo em seguida voltou a perguntar: — Cozer e meter cola? — Sim — eu disse. — Vai custar 400 kz — falou. — Darei-te 300 — eu disse; como todo negócio, tem sempre desconto. Ele deu um sorriso, um sorriso que me pareceu sincero, e logo depois também comecei a sorrir. Em seguida, ele voltou a dizer: — Você mesmo que é da minha família ainda me pede mais desconto. Eu fiquei um pouco espantado com o seu comentário, e logo em seguida retruquei: — Família? — Sim, você é sobrinho da Mimi, minha tia — ele disse. Depois do seu comentário, voltei a sorrir. Claro que eu tinha por aí umas três tias com o nome de Mimi, mas não sabia qual delas ele se referia. Também achei que ele estivesse a me confundir com alguém; afinal, a fama que ele tinha de ser uma pessoa que sofre de perturbações levou-me a essa conclusão. Então aproveitei o momento e voltei a sorrir; se calhar, fiquei pensando — era

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CONTO - CONVIDADO

HISTÓRIAS INDEPENDENTES

AUTOR(A): Claudio Raul Luanda - Angola

o início de uma convivência. Entretanto, decidi responder: — Verdade. Sim, sou sim. — Então, estás a ver — ele disse — eu te falei — continuou. — Eu até fico malaique quando você passa e não me saúda. Agora o meu semblante era de seriedade; com que então ele também reparava em mim, fiquei pensando... — Às vezes, quando eu passo, estou sempre apressado e dificilmente olho para as laterais — falei. — Mas não tem problema — ele disse — vou resolver tudo; vem buscar às 12h — concluiu. — Está bem — eu disse. Fiz o pagamento e, em seguida, me retirei. Estava feliz pelo simples facto de poder conversar com ele. Afinal de contas, eu havia tido a certeza de que ele era uma pessoa bem lúcida e acolhedora, não do jeito daqueles comentários pejorativos que as pessoas têm feito ao seu respeito. Ou da fama que ele tinha de ser uma pessoa doente mental. Naquele dia, saí de lá com a certeza de que havia feito uma grande amizade. Quando eram 12h, pedi para o meu irmão caçula ir buscar os sapatos. E, de fato, gostei do resultado; ele havia feito um belo trabalho.

da Cuca e pegar o táxi de Viana. Decidi então ir, enquanto caminhava ouvindo música através dos auriculares, “Linkin Park, o novo álbum, From Zero”, debaixo daquele sol escaldante das 12h. Uma moto havia passado bem perto de mim que me levou ao susto; fiquei olhando a velocidade com que o motoqueiro andava, era impressionante e perigoso. Enquanto meus olhos se distraíam a acompanhar ele, que já estava bastante avançado, reparei que havia alguém deitado no chão, esticando-se como se estivesse a ser possuído por um ser paranormal. Até achei que tivesse sido o motoqueiro o causador, mas quanto mais saltitava o seu corpo, ele esticava a sua mão que parecia como se estivesse a pedir prece para Deus. Fiquei assustado pois era a primeira vez que eu presenciava alguém naquele estado; comecei a caminhar lentamente. Quanto mais me aproximava da pessoa deitada, mais me parecia familiar, pois era perto do local onde o meu novo amigo fazia o seu trabalho. Reparei que não havia ninguém na sua bancada; aproximei-me e quando olhei, era ele que estava deitado ao chão, espumando pela boca. Havia uma senhora que parecia sua mãe ou talvez sua avó; não cheguei a perguntar, pois estava confuso com a situação toda, que apenas fiquei parado, estático. Não conseguia mexer-me para lhe ajudar; estava com medo. Essa doença levava fama de ser contagiosa; não sei quem me havia dito isso, mas eu carregava esse medo. Entretanto permaneci em uma espécie de paralisia; eu não quis acreditar no que estava vendo. Mas eu olhava para as pessoas a passar como se nada tivesse acontecido; claro que elas também não tinham a obrigação de parar, mas ao menos deveriam, se calhar, mostrar que estavam a sentir alguma coisa, como empatia ou solidariedade. Naquele momento, parecia que ninguém se surpreendia com a situação; o semblante era notório. As pessoas mostravam-se cansadas e

*** Passaram-se alguns dias. Agora, sempre que eu subia para a rua, tinha que o saudar, e ele, como sempre, respondia com um grande sorriso e satisfação. Pelo menos para mim, ele já não precisava mostrar aquele semblante solitário e melancólico que na maioria das vezes pairava ao seu redor ou perante as pessoas que o menosprezam ou que o olhavam com certo preconceito. Na verdade, eu nunca antes havia entendido direito o que de facto se passava com ele até chegar aquele dia.

*** Era mais um dia de trabalho como sempre, eu já estava preparado, mas não tinha dinheiro da mota, então tinha de subir a pé até a Ponta

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aborrecidas com a situação. Talvez eu fosse quem estava a pensar e a importar-se demais. Dava a entender que algumas esperavam que ele se levantasse e que deveria parar o que estava a fazer e passar a agir de forma normal, apesar de saberem da sua doença. — Isso é uma cruz que a mana Ngueve está a carregar — falou uma das senhoras que passava com a banheira na cabeça. — Esse até pode embora ir! Pode já morrer, — para poupar o sofrimento da mãe — respondeu a senhora ao lado. — Todos os dias ter de cuidar de um filho assim — é sofrimento! — Relatava ela, outros comentários parecidos surgiam em volta. Procurei ignorar, embora quisesse falar alguma coisa, mas só de saber que eu também não estava a fazer nada, isso me deixava igual a eles. Quando fui prestando um pouco de atenção, parecia que já era uma coisa bem habitual, e pelo semblante e a calmaria da senhora que se fazia presente, dava a entender tudo isso. Mas para mim, aquilo foi um choque de realidade; cada suspiro e salto que ele dava de gota era como se fosse um suspiro de sua vida. Uma voz ecoava dentro de mim: “Força, amigo! Acorda, vai, luta! Dará tudo certo.” Depois, houve uma pausa; sua cabeça acabou rolando de lado, bem na minha direção. Seus olhos estavam brancos e me encarando; achei que ele tivesse recuperado a consciência, mas estava enganado. Logo em seguida começou novamente… A senhora que parecia sua mãe decidiu levantá-lo e colocá-lo sentado; só assim ele recuperou um pouco, se levantou, começou a andar de um lado para o outro e logo depois se sentou, colocando suas mãos na cabeça como se estivesse a refletir em tudo que havia acontecido.

Naquele momento, olhando para ele, para o meu amigo, senti e compreendi seu isolamento; compreendi aquele sorriso, compreendi aquela tristeza. Nós é que éramos os verdadeiros loucos; ele era apenas um homem normal em um mundo louco, um mundo que o julga por uma doença permanente que ele não escolheu ter. Como pode uma pessoa que se acha normal exigir que alguém que sofre de uma doença permanente ou de perturbações mentais seja normal de uma hora para outra? Se ser normal é pensar desse jeito, então prefiro ser um louco solitário e afastado como o meu amigo. Mas naquele momento olhei para ele com tristeza. Sim, eu sou sua família — falava dentro de mim — sou seu amigo e tu não estás sozinho; estou contigo. Eu te entendo; agora compreendo sua solitude, sua angústia. Você não tem culpa; és apenas uma vítima. As palavras dentro de mim eram secas. Pois eu me sentia culpado e incapaz por não ter feito nada a respeito, por ter ficado parado como os outros. Senti-me um deles. Decidi então dar meia-volta e ir para o meu trabalho, pois não quis que ele me visse e ter que deixar as coisas estranhas do jeito que já haviam sido. Agora sei que aquela doença é uma cruz que ele carrega; é a praga que não curará e que lhe perseguirá pelo resto da sua vida. É uma pena que para nossa sociedade ele está condenado a uma vida de desprezo, preconceito e discriminação, pois ninguém dá absolutamente a mínima para ele. Mas independente da situação, meu amigo, ainda há pessoas que se importam.

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CONTO - CONVIDADO

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AUTOR(A): Claudio Raul Luanda - Angola

Sobre o Autor

Cláudio Raul da Costa Lourenço é um jovem angolano, nascido em Luanda, em 22 de outubro de 1996. Concluiu o ensino médio em Educação, com especialização em Ensino Primário, na Escola Dom Bosco. Possui formação em Editoração, Diagramação e Capista pela Universidade Metodista de Angola. Atualmente, é estudante universitário no curso de Psicologia, além de atuar como ativista social em colaboração com a ONG “Angola Hungle Relief”. Diletante e entusiasta das Artes e da Literatura, Cláudio é colunista do blog brasileiro “Choque Cultural Buíque” há mais de quatro anos; onde mantém o espaço “Escritas Inquietas”, dedicado à análise de obras literárias por vezes consideradas impuras. Inspirado por Kafka, acredita que todos podem viver emoções profundas através de livros densos. Suas histórias, publicadas em diversas plataformas, são marcadas por um forte humanismo e foco nos mais vulneráveis e marginalizados. A sua escrita sincera e crítica expõe a desigualdade social, o peso das instituições opressoras e a indiferença do sistema. Com uma voz introspectiva e empática, Cláudio denuncia, acolhe e emociona guiado sempre por uma consciência social firme e um olhar atento à dor alheia. Nos momentos livres, dedica-se à leitura, à escrita, e encontra inspiração no rock, séries, filmes e animes, que alimentam a sua criatividade.

Claudio Raul Fale com o autor: raulclaudio547@gmail.com IG: claudioRaul_7

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LITERARIAMENTE CRÍTICA

TUDO AQUILO QUE LI

AUTOR(A): Davi Ramos

Livros de Sangue: volume 1

Título: Books of Blood vol.1 Autor: Clive Barker Editora: Darkside (Brasil, 2020. Trad. Paulo Raviere) Sphere Books (Reino Unido, 1984)

Introdução:

Conheci os Livros de Sangue há quase dez anos, quando procurava referências para um projeto de horror e ficção especulativa. Tratava-se de minha versão de Twilight Zone que nunca saiu do papel. Daquele período restaram duas convicções. A primeira: só a literatura me permitiria contar as histórias que eu quero. A segunda: Clive Barker é um bruxo. Seus contos se fixaram em minha pele como uma escrita de sangue da qual jamais consegui me desvencilhar. Desde então as suas histórias estiveram presentes em tudo que escrevi. Às vezes de modo inconsciente. Barker divide esta honra com Greg Egan, um bruxo de outra ordem. Em 1984, a primeira edição americana de Livros de Sangue vinha com as seguintes palavras de Stephen King na capa: “Eu vi o futuro do horror... seu nome é Clive Barker” . Hoje a coleção de seis volumes e trinta contos é considerada um clássico obrigatório do horror.

1

Clive Barker é o criador do personagem Pinhead, que apareceu primeiro em sua novela The Hellbound Heart em 1986. Em 1987, escreveu e dirigiu o filme Hellraiser, que o tornou famoso mundialmente.

Os Contos

Livro de Sangue Com dezoito páginas, este é o conto mais curto do volume. Os parágrafos iniciais narram, com sutileza e poesia, o movimento dos mortos e as vias etéreas por onde transitam. Do lado dos vivos, um romance terno e delicado enquadra os eventos da trama. O enredo amoroso quase sucede em obscurecer a finalidade pragmática da história, escrita para servir como elo de ligação entre os contos da coleção. Livro de Sangue nos introduz com êxito ao universo do autor mas falha em alcançar brilho próprio. ★★★☆☆

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O Trem de Carne da Meia Noite

Aqui, somos brindados com uma história alucinante sobre a cidade de Nova Iorque, as suas origens e seu significado para os que vivem nela. Leon Kaufman costumava idolatrar a cidade e tem sua paixão renovada após um encontro bizarro no subterrâneo da metrópole. Este conto se gravou em minha memória desde a primeira vez que o li quase oito anos atrás. Relendo-o nesse último mês, os sentimentos acumulados desde então vieram à tona com violência. A imagem que eu tinha era a de uma pequena obra-prima, uma dessas histórias definitivas que são sempre lembradas quando mencionamos certos temas. A releitura adicionou detalhes a este panorama conturbado. Apreciei melhor a sofisticação com que é narrado o personagem do Açougueiro, um assassino em série dedicado a uma causa nebulosa e antiga.

Referências subjetivas à alma de uma cidade por vezes me parecem vazias e esotéricas. No caso de O Trem... a assertiva é inteiramente justificada. Leo Kaufman vai da apatia ao transe em sua relação com uma forma ancestral e abominável corporificada no subterrâneo da cidade de Nova Iorque.

Esta é uma obra ímpar na densidade de seus conceitos, na coesão com que os agencia e na maestria com que combina o pessoal, o coletivo e o simbólico para dizer algo verdadeiro e sinistro. Algo tão belo e tenebroso que não conseguimos parar de olhar. Como mágica, O Trem de Carne da Meia Noite é maior que a soma das partes. Transcende as barreiras do humano para dizer algo profundo sobre nós mesmos. Algo que nos aterroriza e preferimos ignorar. ★★★★☆

O Yattering e Jack

Esta é uma divertida comédia de horror sobre um engenhoso demônio tentando enlouquecer Jack Polo, um homem resiliente e de infinita paciência. Esta história lembrou- me do clássico O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, em que um fantasma falha em aterrorizar um hóspede eminentemente prático, que encara as suas aparições com naturalidade.

LITERARIAMENTE CRÍTICA

Aqui, entretanto, as diatribes do ser das trevas são em maior escala, com caráter exuberante e grotesco. O objetivo é o riso mais que o temor, que Barker alcança com facilidade. Se em algumas histórias suspendemos o julgamento até a recompensa de um final estrondoso, Yattering e Jack é um deleite cômico do início ao fim. ★★★★☆

Blues do Sangue de Porco

Redman é um ex-policial contratado como professor em um reformatório. Ao investigar um caso de abuso, descobre uma porca gigantesca em um chiqueiro no interior da imensa propriedade. Circunstâncias místicas envolvem o animal, que talvez seja parte ativa no desaparecimento de alguns alunos. Uma breve pesquisa mostra que, para muitos admiradores, Blues do Sangue de Porco está no mesmo nível dos outros contos da coleção. Talvez estejam certos. Para este leitor, entretanto, a trama investigativa foi deveras nebulosa. Digo isso com plena consciência das minhas limitações. Não sou dado à decifração e provavelmente não tenho constituição para o tipo de sutileza empregado nesta obra. Uma vez explicada, a conclusão não é particularmente complexa. A tortuosidade advém do espaçamento entre as informações cuja conexão é apenas implícita. A intenção, me parece, é aproximar o leitor do estado de confusão e assombro do protagonista, progressivamente enredado em um mistério que desafia os princípios fundamentais de sua realidade. Assim como Redman tem dificuldade em compreender este universo aterrorizante, somos convidados a experimentá-lo por meio dos sentidos e do medo. Ao menos era essa a intenção. Do meu ponto de vista, o autor exagerou na obscuridade, pondo a perder o projeto. O que devia ser uma história de horror tornou-se um exercício intelectual que falhou em ativar as emoções deste leitor. ★★☆☆☆

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LITERARIAMENTE CRÍTICA

Sexo, Morte e Estrelas

Terry Calloway é um diretor teatral amargurado às voltas com a estrela de sua peça prestes a estrear. Diane é uma atriz de novela incompetente e superficial. Quando um homem misterioso, de pele seca e retorcida, adentra o camarim, eventos estranhos se sucedem. A arte, os mortos e os vivos, afinal, dividem a mesma cena e a mesma ânsia de existir. Mais que isso seria contar demais sobre essa obra hilariante, excitante, erótica e grotesca em igual medida. Em tom farsesco, Sexo, Morte e Estrelas é uma macabra carta de amor ao teatro e às artes. ★★★★☆

Nas Colinas, As Cidades

Mick e Judd são um casal recente. Mais velho, Judd é o elemento racional e obsessivo. Mick é artístico e intuitivo. Brigam frequentemente enquanto cruzam a Iugoslávia de carro. Quando pegam uma estrada de terra não mapeada, encontram algo vivo e grandioso feito de gente. Obra prima absoluta do horror borgiano, este conto desafia a compreensão. Descrevê-lo seria como reescrevê-lo. Fico na fronteira entre dizer tudo ou coisa alguma. Nas Colinas, As Cidades toca em uma parte de nossas mentes que desconhecíamos até então. Desperta um desejo inconsciente de pertencimento e sentido. A ambiguidade de desejar-se pleno e também parte. O conto é aterrador na maestria com que vai do particular ao coletivo, encenando a metáfora da parte que se dissolve no todo e vive ainda. Um colosso dividido, um trecho que sangra e padece, indissolúvel e distinto no gigante por onde grita. ★★★★★

Conclusão

A escrita de Clive Barker é exata e expressiva. Nunca falta o necessário — sempre sabemos onde estamos e o que há de relevante no cenário. Seu estilo é competente e sensato. Não escreve de modo seco, mas ressalta o essencial enquanto ignora o irrelevante. No gênero horror isso significa que, embora o leitor por vezes chegue ao final de um conto sem saber a cor do cabelo do protagonista, terá sempre uma ideia precisa e inescapável de seus elementos mais funestos. Barker erige, ao redor do leitor, paredes de pala-

-vras agourentas. Uma verdadeira prisão da qual a vítima (o leitor) não pode escapar. Na verdade, não queremos escapar. O melhor horror é aquele que nos sentimos forçados a acompanhar. A mera listagem de elementos repulsivos não seria suficiente para manter a nossa atenção. Seria como o terror da vida real. Algo trivial que compreendemos de pronto e de que fugimos sem pensar. As melhores obras de horror nos amedrontam e fascinam em igual medida. Sim, o monstro é sórdido e repugnante. Mas deve ser também curioso e enigmático o suficiente para compensar os sentimentos negativos inerentes ao gênero. Sem o mistério cósmico de sua origem e funcionamento, Pennywise é só um palhaço asqueroso. Sem a sua causa nebulosa, o Xenomorfo é um assassino mecânico e ignóbil. Sem o histórico perverso de sua família de canibais, Leatherface seria apenas um sociopata aleatório e grotesco.

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Clive Barker entende isso muito bem. Suas criaturas, ainda que bizarras, são cheias de nuances, racionalizações persuasivas e detalhes intrigantes. Suas histórias funcionariam mesmo se o elemento do horror fosse removido — se sustentariam no drama, nas relações pessoais e especialmente nos elementos de sobrenatural e realismo fantástico. O horror, entretanto, tem a capacidade de nos levar a lugares que nenhum outro gênero alcança. Como uma coceira persistente nos faz perscrutar a ferida e sentir o que há dentro dela. Quando faz uso de criaturas e clichês bem conhecidos, Barker leva as premissas até os limites do concebível, do grotesco e do horripilante. Nas melhores histórias, os três nos atingem de uma vez como uma abominação imensurável.

Por: Davi Ramos Leia mais em: https://daviramos.com/br

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CRÍTICA COM PIPOCA

RESENHA

TUDO AQUILO QUE ASSISTI

AUTOR(A): Cassandra Marjani Oliveira

STRANGER THINGS: O FIM

Imagem: Netflix

Autores: The Duffer Brothers Onde: Netflix (2016)

Q uando Stranger Things se iniciou em 2016, a

história era um poço mágico de sensações de nostalgia, esperança, senso de aventura e amizade. Misturando aquilo de mais humano nos contos de Lovecraft com a vulnerabilidade e imaginação embebidas nas histórias de Stephen King, além da cinematografia regada a referências aos filmes de Steven Spielberg e ao jogo de rpg Dungeons and Dragons. Na segunda e na terceira temporadas vimos a série crescer ao redor de seus personagens e expandir sua mitologia. Em 2017, nos foi oficializado o protagonismo da Eleven, personagem de Millie Bobby Brown, e o interesse no traumatizado Will, de Noah Schnapp.

É nessa temporada também estabelecida a presença do, até então, grande vilão: O Devorador de Mentes. Personagem inspirado nos monstros lovecraftianos e nos horrores cósmicos. O Devorador de Mentes foi, por muito tempo, a imagem mais assustadora da série, com sua formatação nada humana e, nem mesmo, física. Ao menos, até a terceira temporada, onde o personagem ⼀ em mais de um sentido ⼀ se torna ambas as coisas. Um enorme corpo físico, de dimensões de poder gigantescas, andando pelas

ruas de Hawkins, Indiana. Nessa leva de episódios, lançada dois anos após a anterior, alcançamos o ápice da série, em minha humilde opinião. O horror se torna mais próximo, tangível, e os personagens são genuinamente postos à prova. O que, em muitos momentos, me fez questionar se todos eles chegariam bem no final. É nessa temporada, também, que Hawkins está ainda mais viva. A mudança que o shopping e o verão trazem não se apega apenas ao estético, mas o roteiro também se empenha em tornar a vida desses personagens diferentes de frente às mudanças e a estação completamente distinta na qual a temporada se passa. As relações dos personagens se estreitam e se tornam mais realistas e o grande vilão é, de fato, grande e imprevisível.

Talvez por ser a última série lançada antes do modelo absolutamente emburrecedor e hiperfocado em lucros da Netflix, o terceiro ano de Stranger Things é o último em que a história se parecia consigo mesmo. Sem roteiro mega expositivo, sem medo de magoar seus fãs e sem uma tentativa de ser, apenas sendo. A terceira temporada é uma mudança de paradigma sutil, apenas naturalmente evoluindo da infância para a adolescência, enquanto mantinha a escuridão fazendo sombra à estética de verão.

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Já a quarta e a quinta temporadas… Bom… Existem erros e acertos em ambas as temporadas, mas a quarta é o início do fim. Foi quando a série alcançou seus maiores números e, também, quando se tornou mais ridícula. Existe, é claro, um mistério interessante ao redor das mortes grotescas que acontecem na primeira metade da temporada, o modus operandi do vilão é interessante e apresenta uma violência nunca antes vista na série, muito mais horrorosa e assustadora do que a visceralidade dos demogorgons, já que o tal vilão é, por algum tempo, um enigma e, também, imbatível.

O ano 4 da série é entrelaçado pelo mistério do que aconteceu com Eleven no laboratório, sua relação com as outras crianças e com o misterioso Henry, além do luto e das mudanças causadas pela destruição do Mind Flayer e da “morte” do Hopper, personagem de David Harbour.

Então, uma mudança acontece e nos é revelado esse vilão: humano, com uma história de formação e um mega plano elaborado e carregado de furos. É nesse momento que a série passa por uma “marvelização”. Mas, com muito menos coisas em jogo e um distanciamento astronômico do que a série foi em seus três primeiros anos de existência. A nostalgia, o horror, o mistério instigante, tudo convergiu em um único nome: Vecna — ou Henry ou Um.

O vilão levou Hawkins a uma semirruína ao fim do episódio nove da quarta temporada. Lembro que todos tinham teorias e expectativas de que, apesar de todos os furos e problemas narrativos, o fim dramático desta quarta parte levaria a uma quinta temporada que valeria a pena, com catástrofes épicas, uma guerra insana e um cenário apocalíptico. Mas, quem assistiu, se deparou com uma série que se perdeu de si mesma. Talvez até tenha colapsado.

Um dos principais problemas dos últimos episódios de Stranger Things é a falta de cuidado com as expectativas que criaram no ano anterior, não existe uma tentativa de continuidade. Rachaduras enormes no chão que sugam o que está perto para outra dimensão são facilmente tampadas por placas de metal e a população segue com suas vidas como se nada estivesse acontecendo. Enormes animais quadrúpedes com uma boca gigante em formato de flor invadem um hospital e ninguém vê. Personagens utilizando objetos para contar um plano estapafúrdio em mais de duas cenas por episódio e, muitas vezes, o plano nem é tão estapafúrdio a ponto de ser impossível explicar usando apenas a oralidade. Tudo é feito da forma mais artificial e conveniente possível. A temporada é criada mirando em quem não quer pensar, mas aqueles que pensam notam as pontas mal coladas.

Notam tanto que os fãs criaram até hashtags pedindo pelo “final verdadeiro” sem aceitar que a temporada terminou completamente oposta ao que era a série em seu auge.

Cresci com Stranger Things, acompanhei sua primeira temporada na semana de estreia, também a segunda e a terceira e a quarta. Enfim, estive sempre aqui. Aberta às ideias, esperançosa e ansiosa para ser encantada, assustada ou contagiada pelas histórias desses personagens. Meu investimento na série nunca foi com apreensão, eu sempre confiei em Stranger Things para entregar aquilo que a série prometeu lá no início. A mudança de prioridades dos criadores da série, os irmãos Duffer, não veio sem sacrificar essa confiança.

Nesta última temporada, tudo o que piorou na anterior conseguiu ficar ainda mais explícito. Furos, ideias iniciadas e nunca completamente desenvolvidas, episódios ridiculamente longos, repetitivos e formulaicos e ⼀ talvez o maior problema ⼀ na quinta temporada nada, nada mesmo, acontece. Com exceção, talvez, dos episódios quatro e cinco, a épica última temporada da série parece um amalgamado de marasmo, piadas ruins, desenvolvimento pífio de personagens e más escolhas de quem a escreveu. Hawkins nunca soou tão extremamente vazia, morta, sem qualquer resquício da cidade viva e afetada pelo sobrenatural que vimos anteriormente.

Imagem: Netflix

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Ao contrário dos episódios que antecederam esse final, os últimos oito episódios pena em demonstrar qual é seu fio narrativo. O que essa temporada quer contar? Qual a ideia que junta todos esses personagens nessa temporada em específico?

Nancy, Joyce e Eleven são personagens quase completamente apagadas para destacar e priorizar histórias que levam nada a lugar algum, como a dos militares, que pesam a temporada e criam uma sensação de estagnação. As personagens que já foram primordiais para o projeto, jogadas para escanteio como se nada fossem. Max e sua jornada para escapar de Camazotz, apesar de inicialmente promissora, acaba de forma anticlimática, como se o final fosse pausado por um momento, prolongando o momento de catarse, até que ela se perca.

A adição ou expansão de Holly, quase como uma protagonista da temporada, é uma excelente surpresa. A atriz mirim Nell Fisher consegue ser a única a nos fazer torcer por sua personagem, já que a pobre caçula dos Wheeler come o pão que o diabo amassou e o perigo chega a ser palpável em sua trama, o que a destaca do resto.

O último episódio é ridículo. Apesar de certas viradas legais, o capítulo final não pesa tudo que foi pensado e definido anteriormente na série. Os monstros somem em meio a batalha final, os personagens conseguem vencer tão fácil que cheguei a me perguntar se não era algum tipo de alucinação, uma ideia do que poderia ter acontecido. A sensação de exposição e perigo não existe, todos vão sobreviver e ficar felizes para sempre. Eu já sabia que seria assim antes de dar play, o que é um grande problema.

Se formos pensar em quantos personagens estão nessa última temporada, chegamos a conclusão que metade deles deveriam ter morrido há umas duas temporadas. Sobram personagens. Para resumir minha sensação, gostaria de questionar: que tipo de série apresenta perigos apenas para que seus protagonistas consigam sobreviver todas as vezes? Como você define e demonstra esse perigo sem que isso afete seu grupo, honestamente EXTENSO, de personagens?

CRÍTICA COM PIPOCA

Não sofri com o final, lágrimas foram derramadas ao me despedir da série. Dez anos acompanhando uma obra é muita coisa. Mas, é fato que a resolução decepcionou. Uma oportunidade desperdiçada. A quinta temporada de Stranger Things é o retrato de um entretenimento cada vez mais raso, fácil e sem inspiração.

Nota: /10

Por: Cassandra Marjani Oliveira IG: @autoracassiemarjani Salvador - BA

Imagem: Netflix

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CALMA, TUDO AQUI É FICÇÃO — OU NÃO

OLHOS PARA VER, OUVIDOS PARA OUVIR

“Como é acima, é abaixo. Como é dentro, é fora.”

“O reino de Deus não está distante, mas aqui e agora.”

“Quem quiser salvar sua vida, a perderá. Mas quem perder sua vida por mim, a encontrará.”

Dentro de nós existe um portal. “Se trouxeres luz ao que tem dentro de ti, isso te salvará. Se não trouxeres luz ao que tem dentro de ti, isso te destruirá”, ou seja, todos temos uma falsa identidade, ao compreender isso e buscar sinceramente encontrar a chave, temos acesso ao caminho que nos leva até o nosso verdadeiro eu. O caminho está dentro de nós, o mapa está em nós, basta encontrarmos a chave para abrir esses espaços e, assim, conheceremos a verdade. Nossa última chave amplamente conhecida [porém, não em 100% do mundo] foi tão repudiada pelas autoridades de seu tempo, que acabou sendo destruída; contudo, sua mensagem foi espalhada entre mais de 2 mil anos; infelizmente, de maneira errônea, religiosa. Ele foi nosso mentor, nosso professor, nosso alerta, trouxe o ensinamento de que já possuímos o caminho que nos leva, que nos liga, ao Supremo. Em seu tempo, o nome que todos poderiam reconhecer era, entre outros, “Adonai”, sendo assim, foi usado sabiamente. Não podemos dizer o mesmo dos que se apropriaram de seus ensinamentos, transformando-os em uma nova Lei e nublando qualquer chance de real entendimento, o que era seu objetivo. Ainda hoje, mais de dois milênios depois, as nuvens e a neblina teimam em nos deixar perdidos. Amedrontados, não estamos prontos o bastante para [de fato] nos apropriemos da chave que ele nos indicou para abrir as portas do conhecimento que realmente importa. “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”: encontre a chave, pegue o mapa e siga o caminho. O Hermetismo diz que todo conhecimento chega a nós quando, e se for, a hora certa de conseguirmos entendê-lo. Bom, há sempre uma nova chance, talvez esta seja a sua nova chance. Você não precisa de senha, intermediário ou de aprovação; só precisa ter sinceridade em seu coração, sede pela verdade. E o que significa isso? São palavras de efeito? Vazias? Não: toda vez que você se dedica a entender ou aprender algo, você é sincero de coração e está buscando a verdade. É isso, simples assim. Busque sua verdadeira identidade, compreenda-a, e o mundo se vol-

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tará contra ti, pois desta forma, já não poderá ser controlado, posto em uma caixinha específica, etiquetado de acordo com o desejo do mundo.

Palavras-chave: Hermetismo, Macrocosmos, Microcosmos, Gnósticismo, Consciência Crística, Universo, Judeus etíopes, Judeus essênios

Por: Tamara S. Fawkes IG: @tsfawkes Leia mais aqui. Salvador - BA

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PÕE NA ESTANTE

PÕE NA ESTANTE

PÕE NA ESTANTE PÕE NA ESTANTE

O caos não ficou em Andenia. Ele veio atrás de Laura.

por Marcella Albuquerque

Laura sobreviveu a portais, monstros e escolhas impossíveis em Andenia. De volta ao mundo humano, ela precisa enfrentar algo ainda mais difícil: o peso do que ficou para trás e o medo de que o caos nunca mais a abandone.

#fantasiasombria

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[Legiões cinco, seis, oito, nove e dez: hora de acordar.]

por Tamara S. Fawkes

Esta é uma #ficçãocientífica que se passa em terras nacionais e tem como narrador um ilustre e medonho convidado: o Cavaleiro Amarelo. Prepare-se para uma história de aventura com ação, humor e destruição iminente. #scifi

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Cuidado: você pode se perder em seus próprios abismos...

Por Vitor Hugo

Fissuras do Abismo é uma coletânea de contos de terror que tratam sobre os abismos que nascem em nossas almas e que, às vezes, nos consomem de dentro para fora e, outras vezes, devoram os que estão em nosso caminho! Então, se você gosta de um bom terror psicológico e de contos que vasculham os cantos mais obscuros da mente, Fissuras do Abismo é o que você procura.

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Ele está de volta!

O Maior Detetive Que Ninguém Nunca Ouviu Falar, Ciro Roque Gomes, voltou para resolver mais um grande, misterioso e divertido caso: o desaparecimento de uma rara camisa vermelha! Acompanhe Ciro, Ualisson e outros loucos e hilários personagens, enquanto tentam desvendar mais este mistério. E se tiver um liquidificador quebrado em casa, pode trazer que ele conserta também! #humor

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Sou Íris Nascimento, dona da @VidLovee Encadernadora Artesanal. Meu ateliê nasceu do desejo de viver de arte e transformar o papel em algo que acompanha histórias reais. Os Traveler’s Notebook Midori, costurados 100% à mão, se tornaram o coração do meu trabalho e o grande sucesso do ateliê. Acredito que escrever faz bem, organiza pensamentos, acalma e que um caderno pode ser o seu melhor amigo no dia a dia.

“Nada aqui existe por acaso. Nem por tendência, nem por pressa, nem só porque vende. Eu crio a partir do que faz sentido existir. Do que combina, conversa, acrescenta algo ao espaço, como aquelas histórias que ficam com a gente mesmo depois de fechar o livro. Cada escolha carrega intenção. Não a que eu explico, mas a que você sente no detalhe, na presença, na vontade de ficar mais um pouco. Eu compartilho o que vale dividir: aconchego, pequenas pausas, companhia para os dias comuns e para os capítulos mais silenciosos. Nada aqui é feito para convencer. É feito para acompanhar. Como um livro bom deixado na cabeceira, sempre pronto para ser aberto.” @kcboutiquedoaroma

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Yanna Vasconcelos é cearense, formada em Direito pela Faculdade Luciano Feijão, é revisora textual e apaixonada pela leitura desde os oito anos. Começou a escrever com catorze anos, sendo Confusão - O Fogo da Ira o seu primeiro livro. Superou grandes obstáculos e escrever sempre foi o seu refúgio, principalmente por causa do TDAH e outros transtornos que ela teve que enfrentar. Venceu o prêmio do Festival Loba 2025 com o livro Diário de uma UTI. Solicite sua revisão através do Instagram: @poxannie ou @yannavasc_

Lorde Jimmy é Designer, trabalha como ilustrador editorial e como artista plástico, há mais de 10 anos, transitando dentro das temáticas e estéticas como fantasia medieval e narrativa clássica. Como ilustrador tradicional, a maioria dos seus projetos é feita em bico de pena e nanquim sobre papel, mas transita por técnicas usando grafite, carvão a até mesmo arte digital (totalmente digital ou só em parte). Já atuou em vários cenários distintos da arte, porém a produção literária e a criação de obras para edições especiais são suas paixões; sendo assim, Jimmy deseja muito expandir sua produção. Confira portfólio e Instagram em: @lordejimmy

“Neste trimestre faz-se 8 anos que você dirigiu 1h para um lugar desconhecido, em outra cidade, “para me dar colo” por estar triste após torcer um pé. Ali nasceu um período genuinamente feliz em minha vida; nossos caminhos [outra vez] se cruzaram. Hermeticamente falando, não tinha como ser diferente. Obrigada por toda paciência, insistência e devoção ao nosso amor. Obrigada por ler cada coisa que escrevo e ser o meu “bem”. Que A Fonte se inspire em você e demore para nos querer de volta. Eu Te Amo < 3” Para: Rafael Mazelli

Otávio Segal de Araújo é escritor, professor de filosofia e diagramador textual. Se você tem textos para livros de até 100 páginas, ele pode te ajudar. Atendendo principalmente escritores iniciantes, Otávio tem preços acessíveis para este público. Dê forma ao seu livro! WhatsApp: 27 99826-7356

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FIM

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