
Vol. 1, No. 4, out./dez. 2026 ISSN: 3086-3201
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Revista Independente
te vejo nas
entrelinhas
Especial Selo Literúnico na Bienal do Livro de São Paulo 2026
Especial Selo Literúnico na Bienal do Livro de São Paulo 2026
Poesia Comp. Musical Conto
18+
Resenha Ensaio & mais
Literatura Cinema Música
O Banquete da entrelinhas
Autores de todo o Brasil + Rock baiano com Wiliana Cardoso; a escrita bizarra de Roni Pereira no quadro Entrevista & Resenha com O Sétimo Juramento, da moçambicana Paulina Chiziane

O Banquete de Platão, representado por Anselm Feuerbach [1873], Alte Nationalgalerie, Berlim Alemanha


EXPEDIENTE
Editora Responsável: Tamara S. Fawkes MTb/DRT: 6661/BA
Design Editorial e Diagramação: Ilustrações e imagens sinalizadas quando de autoria pública ou privada; direção visual Tamara S. Fawkes
Participaram desta edição: Ágape, Aguinessi Naná, Alberto Busquets [entrevista], Allena Batista, Cassandra Marjani [colunista], Cynthia D. Jonas [entrevista], Diego Campos, Douglas Sacramento [colunista], Edimar Silva, Edson Briato, Eduardo Reghim, Eliz Leão [entrevista e conteúdo autoral], Elton Belmiro, Itales Poetizador, Jefferson de Lira, Jefferson Virgílio, João Batista de Souza, Kelly Pinheiro, L. Nocturne, Lucas Barreto, Marco Simões, Michelle Louise Paranhos, Otávio Segal de Araújo, Rafa Mazelli, Raquel Pacífico [entrevista], Renata Bueno, Roni Pereira [entrevista e conteúdo autoral], Sheyla Duarte, Tamara S. Fawkes, Tanise Sutil, Uiara Ashanti [entrevista], Wiliana Cardoso [entrevista e conteúdo autoral].
Endereço: Dias d’Ávila, Bahia, Brasil E-mail: revistaentrelinhass@gmail.com
IG: @leioentrelinhas Sugira pautas, envie sua opinião, seja anunciante ou parceiro[a].
Revista Independente
te vejo nas entrelinhas
Trimestral Vol. 1, No. 4, out./dez. 2026 ISSN-Online: 3086-3201 CNPJ 68.291.250.0001/61 Disponível em:
www.revistaentrelinhas.com.br
Direitos Autorais: © 2026 Revista Independente te vejo nas entrelinhas. Os textos publicados nesta edição foram devidamente autorizados pelos seus autores e encontram-se registrados no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional [em trâmite], para fins de proteção de Direitos Autorais. Esta publicação cumpre com o envio para Depósito Legal, nos termos da Lei nº 10.994/2004.
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026
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ÍNDICE
Editorial Capa: Entrevista com Roni Pereira
Poesia Entrevista com Wiliana Cardoso Composição Musical
Capa: Especial Selo Literunico: Entrevistas + Põe na Estante Conto: O Último Trem das Seis
Conto: #PraCegoVer Entrevista com Raquel Pacífico Conto: Tonho
Conto: A Verdade Vos Libertará Conto: A Viagem que A Gente Perdeu
Conto: E Se...
Conto: Passas ao Rum
Conto: Mais Cinco Minutos Conto: Memórias Conto: O Fim do Mundo
Ensaio: Luz à Vida Ensaio: O Banquete e o Amor Platônico Capa: Coluna Fiando & Desfiando Entrevista com Uiara Ashanti Capa: Resenha Literária
Capa: Coluna A Cereja do Bolo Antes do FIM
FIM
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.3, jul/set. 2026
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A gente cuida de tudo
para você! Na Revista & Selo Editorial Independente te vejo nas entrelinhas,
estruturamos o seu projeto do início ao fim.
Traga sua história para o mundo com a entrelinhas
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Editorial
OUT-NOV-DEZ 2026
SEJA BEM-VINDO[A] À REVISTA entrelinhas
Na entrelinhas você vai encontrar: Literatura, Cinema e Música. De vez em quando, seremos surpreendidos por alguma criação fora da lista oficial de editorias. Nesta edição concluímos nosso primeiro ano de publicação no cenário independente. O artistas foram convidados a falar sobre memória, espiritualidade, fim de ciclos e recomeços, tudo ligado ao tema ❝travessia❞. Você vai ler poesias, entrevistas, contos, composições musicais, resenha, ensaio e colunas que atravessarão contigo cada página até que chegue o fim do ciclo, o fim de 2026, aqui na entrelinhas.
Convido você, artista independente de qualquer área, a participar ativamente clicando nas palavras sublinhadas, pois são links, e conhecer mais sobre os autores de cada obra. Agradeço aos artistas que fizeram parte desta edição. Sem vocês este número não existiria fora do campo das ideias!
Cada participante é cúmplice — cada leitor, agora não tem jeito, também o é. Estou aqui esperando por você, envie um e-mail, comente algo que leu nesta edição. Não se preocupe: nenhum nome será divulgado.
Vejo você em 2027. Boa leitura.
Editora-chefe Tamara S. Fawkes tamarasfawkes@gmail.com
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026 Pág. 6
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Entrevista entrelinhas
Meu nome é Roni Pereira, sou escritor e bebedor inveterado de rum. ❞
Roni, conte por que você gosta tanto da sátira, do bizarro, do sarcasmo tão presentes em suas histórias?
A esmagadora maioria das minhas histórias é ambientada em Salvador, uma cidade violenta e onde você pode morrer por bobagem, o que por si já é um absurdo. Rubem Fonseca escreveu que a verdade pode ser mais bizarra que a ficção, porque a verdade não precisa obedecer ao critério do possível. A ficção, por outro lado, tem que ser verossímil. A filosofia da minha escrita provém dessa percepção de Fonseca, que aliás está logo no início de um romance muito bom dele, “Mandrake: A bíblia e a bengala”. A sátira na minha obra existe para fazer crítica social. O que eu faço é apenas exagerar um pouco o que já existe. A verdade é que Salvador me dá muito medo. Tem lugares onde não se pode vacilar nem quando for comprar pão. A sátira e o sarcasmo são métodos para lidar com isso.
Nos conte um pouco sobre sua obra mais antiga e a mais recente. Tem como comparar as duas?
Eu escrevo há anos, mas rejeito tudo que escrevi antes de março de 2025, que foi o começo de uma nova e prolífica fase de escrita — mais de 80 contos em 1 ano e cinco meses. Não se acham essas obras publicadas antes de março do ano passado nem no Recanto das Letras,
embora às vezes eu faça reciclagem de enredo. Então, a minha obra mais antiga é um conto intitulado “Histórias de [supostos] super-heróis em Salvador [1]”, publicado em março/2025. A mais recente chama-se “Gêneros Criminais: três contos curtos sobre violência urbana”, autopublicada no último dia 18. São duas sátiras, mas em março do ano passado eu estava numa fase em que imaginava como seria se houvesse super-heróis em Salvador. Eu me achava um autor de quadrinhos que escrevia em prosa. Faz tempo que me afastei disso. Hoje eu me considero sobretudo um autor noir e pulp e estou mais interessado em retratar satiricamente a violência soteropolitana.
Alguma dessas histórias rendeu problema com o público leitor?
Não. Quase ninguém me lê.
Vejo que você ainda não tem uma obra só sua publicada de forma impressa, mas está presente no Recanto das Letras, existe esse desejo?
Existe, mas por ora não estou muito preocupado com isso. Eu só quero escrever e, claro, quero leitores. Tanto faz se for publicando impresso ou não.
Sobre o exercício da escrita, de onde vem a sua inspiração, suas referências, como funciona sua
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026 Pág. 7
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Entrevista entrelinhas
mente até o momento de realmente pôr as palavras no papel?
Às vezes pego fatos da minha própria vida ou acontecimentos banais na rua e exagero até ficar absurdo. Em “Gêneros Criminais” e “Erros no Capítulo 2”, os protagonistas são assassinos que estão fazendo mestrado. “Os Palhaços” surgiu quando vi um congestionamento no bairro onde moro. Eu costumo pensar na ideia e numa imagem de abertura. O desenvolvimento vai aparecendo à medida que escrevo no Word. Tenho muitas referências: minhas histórias costumam abordar jornalismo; adoro o livro de Eclesiastes e as figuras de linguagem que há na Bíblia; gosto de autores policiais, como Fonseca e Elmore Leonard; e atualmente estou gostando muito de Yukio Mishima.
Você tem um ritual específico quando decide escrever uma história? Qual a sua rotina de escrita?
Não tenho. Mas escrevo todos os dias. Atualmente, mais ou menos 500 palavras por dia — relativamente pouco se lembrarmos que David Goodis escrevia 10.000 palavras diárias. Já escrevi mais ou menos 1.000 palavras diárias. Talvez eu volte a escrever 1.000/dia já que estou começando um romance.
Ainda no campo da sua escrita, sobre seu processo criativo, você se vê como qual tipo de escritor?
Acho que sou uma mistura de satirista com autor policial/pulp.
Para quem você escreve?
Para mulheres.
Por que você escreve, Roni?
Para impressionar mulheres. Pena que estou fracassando desgraçadamente. Brincadeira. Nunca parei para pensar nisso. Eu queria ser criador de desenhos animados quando era criança. Quando virei adolescente e passei a ler gibi, queria escrever histórias em quadrinhos. No início da idade adulta eu queria escrever light novels e romances. Depois, virei jornalista, que também conta histórias [verdadeiras]. Criar e contar histórias sempre foi uma paixão, então deve ser isso.
Gostaria que você comentasse algum texto lido nas edições passadas da entrelinhas e que você gostaria de indicar para quem está lendo sua entrevista.
Os trechos do romance [Eu sou ONI] da nossa querida publisher são legais. Leiam. [SIM, LEIAM!]
Roni Pereira é um escritor nascido
e criado em Salvador. Sua ficção existe para escancarar o absurdo da vida urbana contemporânea.
Leia a obra do autor: www.recantodasletras.com.br
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Poesia
Belchior
Poesia
POESIA INDEPENDENTE
Um Sonho Adormecido
O dia em que eu deixei você foi o dia mais triste de toda a minha vida… Ganhei
a solidão como prêmio de consolação e perdi a sua preciosa e indescritível
companhia. Penso às vezes se era necessário eu te deixar; agora a sua falta,
presente na minha vida, é sentida. Sim, eu enxerguei o seu valor, mas a minha
pessoa não te merecia e eu não era digna de você. A perspectiva de vida que eu
tinha, já não tenho mais… Sonhos adormeceram dentro de mim, e outros
morreram depois que te deixei pra trás. Olho para os céus e já não enxergo o
brilho das estrelas e nem tampouco da lua. Tem sido desafiador pra mim
aceitar que, sem você e sem a sua companhia, a vida continua.
Por Itales Poetizador
Dias d'Ávila-BA
IG @itales_poetizador
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Pág. 10
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Poesia
Acreditar
Acreditar é seguir caminhando,
Mesmo quando a estrada escurecer,
É guardar no peito um sonho brilhando
E ter coragem para não desistir de viver.
É plantar esperança em cada dia,
Mesmo sem saber quando vai florescer,
É transformar lágrimas em poesia
E fazer do impossível um motivo para
vencer.
Acredite na força que existe em você,
Nos sonhos que ainda vão acontecer,
Pois quem acredita consegue perceber
Que sempre há um novo caminho para
escolher.
E quando o mundo disser: “não vai dar”,
Olhe para o céu e continue a lutar.
Porque sonhos podem até demorar,
Mas quem nunca deixa de acreditar
Sempre encontra uma razão para
recomeçar.
Por Lucas Barreto
Dias d'Ávila-BA
IG @lucasbarreto74
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Pág. 11
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Poesia
Doce que Insiste
A pele que carrego
Não é doce
Nem amarga
A pele que carrego
Não tem pelos
Mas também os tem
A pele que carrego
Tem muitas rugas
Mas é jovem
Me olho no espelho
Sou um marshmellow
Caramelo-salgado
O mar entrega sal e recebe doces
Pois as sereias que cantam
São também silenciosas
Basta aprender a ouvir a melodia do
silêncio.
A nostalgia é o amargo que insiste em ser
doce.
Campo Grande-MS
IG @allenabatista
allena.escritora@gmail.com
Leia mais da autora clicando aqui.
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Pág. 12
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Poesia
Que saudade que me dá
Daquele velho tempo
O que passou, passou
Não vai voltar com o vento
Quando amamos uma pessoa
É difícil de esquecer
Queria voltar no tempo
Mas não ter que te ver sofrer
Os momentos guardados na mente
Que comigo estão sempre presentes
Me fazem sentir cada vez mais
A ausência que você me faz
O que antes era insignificante
Hoje não passa despercebido
Saudade de tudo que como você foi
vivido
Às vezes quero te dizer certas coisas
Que agora não dá mais
Aproveitar certas coisas
Que ficaram para trás
Tudo mudou sem você aqui
Saudade desse tempo
Que nunca terá fim
In memoriam [Renato Bueno], falecido
em 2010, escrito em 2013.
Por Renata Bueno e Sheyla Duarte
Dias d'Ávila-BA e Salvador-BA
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Pág. 13
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Poesia
Anotações da Terapia
Na cadeira da psicóloga,
Fiquei a me perguntar:
Será que vejo quem sou
Ou o que querem enxergar?
Atrás de aprovação,
Esqueço de me admirar.
Aos trinta eu imaginava
Uma vida bem sonhada:
Dois filhos, marido e casa,
Uma carreira encaminhada.
Um café cheio de risos,
Numa manhã ensolarada.
Hoje busco algum sentido
No que a vida me apresenta,
E aprendi que estar sozinha
Também cura e alimenta.
Há mistérios que não vejo,
Mas sinto o que me orienta.
Perdoo quem fui um dia,
E as certezas que guardei,
Deixo ir o que não serve,
Solto tudo o que sonhei.
Já não temo o desconhecido,
Pois no caminho me encontrei.
Por Kelly Pinheiro
Cabreúva-SP
IG @kcpinheiro17
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Pág. 14
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Poesia
CONTATO
Talvez o que me falta
Seja o contato,
Sentir o tato do fato
De que eu preciso me conectar,
Sentir o toque da limpeza,
O som do maracá, ir pra mata
meditar,
Aos encantados oferendar
Meu tempo, a minha poesia.
Quero ir adiante, mais profundo,
Observar as raízes
Da rainha samaúma
Ver como posso me revigorar de
saber.
Minha xanduca deve começar a
ferver,
Em direção aos alvos
A fumaça deverá percorrer
Para os portais dos encantados
Devo me encaminhar
O que me espera no fundo do rio?
O que me espera no fundo da mata?
O que tem naquela caverna inabitada?
Por Ágape
Rio de Janeiro-RJ
Substack
IG @agapecarmesim
Talvez o que me falta seja contato,
A falta de sentido,
De destino,
De rumo ao objetivo.
Quero alcançar,
Mas o silêncio
me assusta.
Eu preciso ouvir...
O silêncio da mata,
O aviso dos ventos,
O recado dos rios,
A mensagem das cachoeiras.
Será que terei permissão para realizar
tamanha investigação?
Que mãe Ticê me permita ser livre
Para sentir a natureza.
Quero tocar nesse chão que respira,
Nessa raiz que me avisa.
Ó grande rainha samaúma,
Que nos ensina sobre
Tempo, paciência, crescimento,
Dá-me a capacidade
De viver com discernimento.
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VINHETAS
“hiragana”
Na escola,
os colegas perguntavam:
“Você não escreve mais
aquelas bobagens
que chama de histórias?”
E eu sempre dizia:
“Irmão, se eu te contar
você vai mandar eu assistir
a um anime
e esquecer isso.”
A professora me acusou
de matar aula.
Minha mãe diz:
“Você não pula mais pela casa.”
Minha namoradinha
me pergunta
por que não levei ela pra ver
a TV a cabo.
Eu ligo o aparelho:
as vinhetas psicodélicas
tinham sido sepultadas
sem minha autorização.
Agora só há anúncios.
Poesia
CONSULTÓRIO
Estava esperando ser chamado.
A atendente gritou
e me mandou pra sala X.
O homem calvo estava lá.
Linhas trêmulas
tomam o consultório
e formam o doutor.
Um homem aparece e diz:
“É Squigglevision, meu amigo.”
Respondo:
“Obrigado.”
Ele coloca uma peruca ruiva,
fecha a cara
e volta pra recepção.
O doutor diz:
“Não fique bravo.
Temos baixo orçamento.”
Enquanto peço a fluoxetina,
olho pros lados.
O doutor pergunta:
“Além de ansioso,
o que mais você tem?”
Procuro a caixa de som,
com medo
de a música tocar
e o episódio acabar.
Por Roni Pereira
Salvador-BA
Leia mais em Recanto das Letras clicando aqui.
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Poesia
À noite me vem esse pensamento estranho de que estou sumindo, sabe?
De que a vida, o mundo, estão se preparando devagar para minha partida.
Meu filho teve um filho, e, agora, sua família consiste da esposa e da nova cria.
Meu vizinho, aquele que brincava comigo quando criança, já não está mais entre
nós.
Primeiro, foi sua mãe, dona Maria; agora, ele, de mal súbito, se foi.
Aquela rua que eu passava todo dia pra ir à escola se transformou num
condomínio fechado, e a loja que eu colava os olhos na vitrine fechou.
Minha profissão sumiu. Foi substituída por uma nova tecnologia com a qual eu
não converso muito.
As músicas que eu ouvia estão sendo a cada dia menos tocadas e as que surgem
são bonitas, mas confesso que não gosto tanto.
O ano em que nasci está longe e já são adultos e independentes os que nasceram
vinte anos depois de mim.
Me olho no espelho e não se parece mais comigo a imagem que aparece.
Meus joelhos doem, os pés incham. A coluna tá cansada; os cabelos, diferentes.
Nada mais é como antes. Eu não sou como antes!
Não me sinto velha, mas meus gostos agora são chamados de excêntricos.
Os anos acumulados não me assustam. 50, 60, 70...
Mas confesso que essa percepção de que tudo está sendo preparado pra minha
partida tem me incomodado.
Nada levo, é fato e não seria objetivo. Mas o que deixo? O que se imortaliza ante
minha partida?
Uma frase, um corte de cabelo, um sonho, uma vontade, um desejo... Não. Nada.
Talvez, apenas a saudade vez ou outra possa alfinetar algum amigo que vá ficar
um pouco mais que eu.
Essa estranha e justa sensação de desprendimento me acorda no meio da noite e
eu procuro a coerência, mas a História, essa que me trouxe até aqui e que irá me
levar, conta que tudo é desse jeito faz milênios.
Estou, sim, indo embora, e o mundo minuciosamente se prepara para minha
partida.
Por Wiliana Cardoso
Camaçari-BA
IG @willysendowilly
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Pág. 17
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Entrevista entrelinhas
❝
Wiliana Cardoso Baixista e escritora IG @willysendowilly
Nos conte a história da banda Sumairu, como e quando ela surgiu, qual a inspiração. Notei outro idioma na divulgação, qual é?
Criada em maio de 2016 e formada por jovens de Camaçari, a banda Sumairu [@sumairu_oficial] tem como proposta principal resgatar a boa música, através de uma cultura fortemente presente entre os adolescentes, que é o Anime Songs. Músicas nostálgicas de Pokemon, Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco, Naruto e outros animes fazem parte de um repertório que pode passar por Angra, Queen e demais vertentes do Rock’n Roll, o que define nossa personalidade e nossas influências. Sumairu significa “sorriso” na escrita romanji da palavra em inglês “smile”, do japonês “hiragana”, palavra que traduz fielmente o espírito dos integrantes, que, com sua alegria e energia, contagia as pessoas por onde passam.
Quem compõe a banda hoje? Ela mudou alguma vez desde o lançamento?
Hoje, a banda é composta por Aul Hydeist [@aulhydeist], nosso vocalista, Luddy Brito [@britoluddy] na guitarra base e backing vocal, Nildo Rodrigues [@nildo.rodriguess] nos teclados,
A artista deriva da pessoa simples e tímida, de mesmo nome, que encontrou em algumas formas da arte um jeito de se expressar.
arranjos, guitarra solo e backing vocals; Dani Guiguido [@daniguiguidoo] na bateria e backing vocals; e por mim, Wiliana Cardoso [@willysendowilly], no baixo. De 2016 pra cá, tivemos pequenas mudanças, com a entrada e saída de alguns músicos, mas estamos com essa formação já há cerca de 8 anos. Eu entrei em 2017 e estou aqui, na minha casa formada por sorrisos, desde então.
Onde a banda costuma se apresentar?
A Sumairu é uma banda de muitos projetos, então essa é uma pergunta bem interessante, porque nós cabemos em muitos lugares e momentos da música e ainda fomentamos a cultura através da montagem de eventos na cidade, como o Mamonas pra Sempre, que aconteceu em 2017, o Raul Rock Seixas, que teve duas edições, o Rock Solidário, que acontece todo ano, entre outros.
Imagem: arquivo da banda
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Entrevista entrelinhas
16/10 - Anicam - Evento de Cultura Pop oriental em Camaçari 31/10 - Halloween Rock Fantasy, Camaçari, no Armazém Sumairu
Conheci você no lançamento do livro de poemas “Rota e Raíz”, da colega Rute Roberta, você declamou e foi lindo. Nos conte sobre sua ligação com a escrita e a leitura.
Eu leio e escrevo desde muito pequena. Na verdade, desde que me lembro de mim. A leitura me mostrou novos universos e novas possibilidades. Abriu meus olhos e minha mente pra tudo que posso dizer que sou. Já escrever… aconteceu de forma bem natural, como uma maneira para me expressar. Eu sou de fato muito tímida, e a escrita nos dá essa liberdade e nos abre esses horizontes infinitos, então, acho que se tornou um complemento de minha personalidade.
Como você foi parar ali, fazendo aquela declamação? Realmente as palavras ritmadas gostam da sua voz!
❝
Hahahahaha, obrigada! Bem… eu fui parar ali porque Rute é uma pessoa gigante, né?! E ela movimenta tudo e todos ao seu redor. Conheço Rute há muito tempo, uns 15 anos talvez… e tenho feito parte disso, desse mundo que ela movimenta, então, lá estava eu, corajosamente, recitando!
Agenda de shows
Temos agenda para outubro até dezembro?
Temos sim! Mas ainda tem espaço pra quem quiser escutar boa música e se divertir. Por favor, nos procurem! Hahahaha
Abaixo, um trecho do poema de Wiliana Cardoso. Confira completo na seção Poesia [volte duas páginas].
À noite me vem esse pensamento estranho de que estou sumindo, sabe? De que a vida, o mundo, estão se preparando devagar para minha partida. Meu filho teve um filho, e, agora, sua família consiste da esposa e da nova cria. Meu vizinho, aquele que brincava comigo quando criança, já não está mais entre nós. Primeiro, foi sua mãe, dona Maria; agora, ele, de mal súbito, se foi[...]
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026 Pág. 19
❞
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Composição
Musical
Comp. Musical
MÚSICA INDEPENDENTE
Divina Harmonia
Sua forma de existir
Minha forma de sucumbir
O mar parece agitado hoje
A noite parece mais escura
A nudez do seu olhar
O gosto de menta da sua língua
O toque macio dos seus dedos na pele
O calor saindo de sua parte íntima
Seu nome é poesia
Sua criação é uma harmonia
Nossos corpos perto do rio nus
Formando uma música divina
Criando uma nova nota
Uma divina harmonia
A saudade bate
Sempre que acabamos o ato ela me
abate
Um movimento brusco
E voltamos ao chão
Fazendo amor como dois animais
Embaixo do rio, perto dos barcos
A nudez do seu olhar
O gosto de menta da sua língua
O toque macio dos seus dedos na pele
O calor saindo de sua parte íntima
Seu nome é poesia
Sua criação é uma harmonia
Nossos corpos perto do rio nus
Formando uma música divina
Criando uma nova nota
Uma divina harmonia
Sua mão em minha calça
Meus dedos com seu amor
Como um deus tomando ambrosia
Me deleito do seu néctar
Você é uma música esculpida por
Apolo para ser admirada e escutada
Seu nome é poesia
Sua criação é uma harmonia
Nossos corpos perto do rio nus
Formando uma música divina
Criando uma nova nota
Uma divina harmonia
Por L. Nocturne
Marabá-PA
IG @l.nocturne__
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026
Pág. 22
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Comp. Musical
Uma Canção Pra Dizer Adeus
O céu ja não brilha mais
A noite já não tem mais fim
As trevas tomaram de vez
Alguma coisa dentro de mim.
A dor da saudade é maior
O sorriso se desfez
E nosso único desejo
É vê-la mais uma vez.
Sorrir, viver
Brincar, amar
Nada disso tem sentido
Não vai mais nos consolar.
Só quero poder viver
Com você momentos suficientes
Para que você possa dizer
Que eu um dia fui sua vida
Para dizer também,
Que minhas palavras não são
Palavras perdidas.
Na vida tudo acaba
E achamos injusto
Falamos que acaba cedo
E tememos o fim de tudo...
E, no dia em que nos sentimos fortes
A notícia da queda de um dos seus
Dói tanto que mal conseguem fazer
Uma Canção pra dizer Adeus.
Por Jefferson de Lira
Sumaré-SP
IG @jeffliraos
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026
Pág. 23
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Simples Verdades
Em paz, sigo em paz
não mais, não ouço mais
se chove em meu quintal, eu
não sei te dizer
se molha o meu varal, eu não
o verei
São simples demais eu sei
e irão me encontrar vazio
vão me aquecer no frio
em passos a beira do rio
antes de eu começar a achar
que já sofri
Em paz, sigo em paz
não mais, não ouço mais
se chove em meu quintal, eu
não sei te dizer
se molha o meu varal, eu não
o verei
São simples demais eu sei
e irão me encontrar vazio
vão me aquecer no frio
em passos a beira do rio
São simples demais eu sei
e irão me encontrar sozinho
vagando em meus calafrios
a metros de não ter vivido
E antes de eu começar a
achar...
E antes de eu começar a
achar...
E antes de eu começar a
achar...
Comp. Musical
E antes de eu começar a
achar...
E antes de eu começar a
achar...
Por Rafa Mazelli
Dias d'Ávila-BA
IG @rafamazelli
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026
Pág. 24
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Começamos querendo publicar nossos livros.
Eliz Leão & Eder B. Jr., fundadores do Literunico.
“O Literunico reúne autores, obras e leitores em um espaço dedicado à literatura independente.”
Literatura independente com espaço para acontecer.
Alcançar onde os olhos possam chegar e os braços possam abraçar.
Pág. 25 Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026
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Especial Literunico Eliz Leão
Artista, escritora e co-fundadora, juntamente com Eder B. Jr., do literunico.com.br
Olá, Eliz! Seja bem-vinda às nossas páginas, agradeço sua boa vontade em participar desta edição, é a última de 2026! Antes de tudo, por favor, apresente-se para nós!
Somos ambos autores e desde muito cedo escrevemos. Quando nos conhecemos, eu tinha uma página de poesias minhas e de outros autores no Facebook, e ele continuou uma poesia que escrevi a esmo, sem esperar que ele a completasse. Quando, por fim, resolvendo escrever de fato um livro, passamos por muitos percalços, e diversas pessoas tentaram tirar nosso dinheiro, na faixa dos R$15 mil reais pra publicarmos. Pesquisamos muito e simplesmente começamos a publicar independentemente. Isso tudo é só a ponta do iceberg que existe para um autor ser lido. Então, criamos o Literunico, e, de lá uma plataforma literária que só foi crescendo e crescendo cada vez mais. E sim, ele criou a plataforma mais por mim do que por qualquer coisa.
Me chamo Eliz, sou formada em dança, sou artista plástica, artesã e tenho várias outras profissões, mas só lido com a arte ou com escrita hoje em dia.
Quem é a Eliz escritora?
A Eliz autora é uma pessoa que coloca no papel principalmente seus sonhos, os de verdade e os almejados, suas ideias de mundo ideal, de justiça social e dignidade para povos, transformando tudo em fantasia.
O que as pessoas do mundo real [fora dos eventos e das páginas ficcionais] não sabem?
O que é o Literunico? Para quem ele é feito?
As pessoas não sabem, mas eu tenho diversas profissões e não trabalho mais com nenhuma delas, pois meu cérebro precisa de novas aventuras, que só encontrei na literatura.
O Literunico é feito para toda a comunidade literaria brasileira: autores poetas, romancistas, capistas, bookstans, e tudo que envolve a fritura e existência de um livro. Nele você pode publicar em e-book, tendo o seu próprio leitor de áudiobook, pode imprimir, pode pedir resenhas, capas, diagramação, revisão, leitura coletiva. ❝
Nos conte a história do Literunico, como ele surgiu. Vi um post onde você diz que seu marido, Eder, criou a plataforma como um presente para você. É isso mesmo?
Revista Independente te vejo nas entrelinhas | Vol.1, No.4, out/dez. 2026 Pág. 26
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Especial Literunico
Todo valor que o autor investe, ele tem de retorno, pois cobramos apenas 10% de todas as vendas feitas pelo site.
❝
A plataforma possui diversas possibilidades para os autores e leitores, quem gerencia todo aquele cenário?
Eder gerencia tudo, mas eu dou ideias e testo tudo.
Vamos falar um pouco sobre números: quantos livros estão disponíveis hoje no Literunico? Quantos autores têm obras publicadas?
Mais de mil livros, e perdemos as contas de quantos autores publicam conosco. Além disso, temos também obras de domínio público, tanto nacionais quanto internacionais, traduzidas por nós.
Sobre o ecossistema Litverso: O portal apresenta conceitos intrigantes como as ❝Relíquias❞ e os ❝Simbiontes❞; como esses elementos de gamificação e colecionismo funcionam para engajar os leitores e criar uma comunidade mais viva dentro do Literunico?
Os simbiontes fazem parte do universo de livros do Eder. Todo perfil criado ganha um ovo e, quanto mais ele é cuidado, mais rápido ele nasce.
Para auxiliar nisso, instalamos o Aurélio, que é um cãozinho caramelo que ajuda as pessoas a navegar no site. Colocamos essas coisas por saudosismo de jogos, bichinhos virtuais etc. Então, além de ser um ecossistema literário, o usuário também pode se divertir. As relíquias são nada mais que itens colecionáveis virtuais exclusivos do mundo do livro, que servem como apoio ao autor e que ao mesmo tempo, servem como demonstração pública da ligação do leitor com a obra.
O posicionamento de mercado do Literunico chama bastante atenção pela taxa de 10%; de onde veio essa definição. Que comparando com a gigante Amazon, está bem abaixo do mercado?
Na definição de que seria uma forma justa de favorecer os autores independentes em detrimento do abuso que o mercado tem em relação a produção autoral.
Como foi estar na Bienal de São Paulo este ano com o Literunico?
❝
Uma loucura!
E o futuro, o que vocês planejam para quem faz parte da plataforma?
Sucesso completo e irrefutável, nada menos que isso.
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Mural Bienal do Livro de São Paulo 2026
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Especial Literunico Alberto Busquets
[...] a poesia é terapêutica, e me amparou em momentos bem difíceis. ❝
Escritor e advogado Natal-RN
Quem é o Alberto escritor? Vi que você é terapeuta e vive dividido entre Brasil e Portugal. Explique para a gente como você administra essas idas e vindas e como o lado terapeuta aparece, se aparece, na sua escrita.
❝
Olá! Eu sou Alberto Busquets. Nascido em São Paulo/SP, moro em Natal/RN há mais de 30 anos, e nos últimos 10 anos fiquei entre Natal e Porto, Portugal. Atualmente, sou mais advogado e escritor. Exerci [e tenho eterna paixão] a função de professor universitário, e trabalhei como terapeuta esporadicamente na minha vida. Meus planos eram me mudar para Portugal em 2016-2017, mas sempre havia algo que me prendia no Brasil, e eu acabava dividindo o ano entre os países [sempre fugindo do calor]. Depois veio a pandemia… E alguns laços foram se estreitando mais por aqui. Sou advogado também em Portugal, mas vou deixar isso para planos futuros. Acho que nos meus escritos eu sempre transpiro humanidade. Gosto de observar o humano, e a interação do humano com a natureza, abordando os processos emocionais que temos. O que posso afirmar sem sombra de dúvidas, é que a poesia é terapêutica, e me amparou em momentos bem difíceis.
Nos conte um pouco sobre sua obra O Mar que Navega o Barco.
O Mar que Navega o Barco nasceu de uma vontade [já de um tempinho] de juntar em um livro alguns poemas preferidos. Ao organizá-los, percebi que havia um viés bem claro atravessando a obra: uma jornada, principalmente interna, sobre autoconhecimento, autocuidado e autoacolhimento. De repente, os poemas que escrevi soltos tinham encontrado uma unidade, uma identidade poética que os complementavam, uns nos outros.
E ainda tive a felicidade de receber o Prêmio Literunico Fagner Mera de Poesia 2026 com ele, o que foi uma honra imensa!
Como foi estar na Bienal de São Paulo este ano com o Literunico?
Foi um sonho! O Eder e a Eliz são amigos mais que queridos. Nós nos encontramos por acaso, em uma rede social, juntamente com outros amigos muito amados. Eu testemunhei com orgulho o crescimento do Literunico nos últimos dois [quase três] anos.
❝
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Especial Literunico
Torço demais pelo sucesso, porque sei que merecem! Então, no final, estar lá com eles foi algo muito especial.
De onde vem a sua inspiração, como funciona sua mente até o momento de realmente pôr as palavras no papel?
Acho que minha inspiração vem do caos. Minha mente é elétrica, não dá trégua. Sempre trabalhando, pensando, analisando algum detalhe… ou me punindo por coisas que fiz há 20 anos! Minha inspiração é o respiro, o momento de silêncio no barulho, que me permite organizar brevemente as ideias para pô-las no papel [ou na tela].
Você tem um ritual específico quando decide escrever uma história?
❝
Acho que não há um ritual bem elaborado… Mas sempre há a necessidade de silêncio [ou ruídos brancos], e um pouquinho de solitude para conseguir concatenar o que vai saindo. Gosto de me ver [apesar de saber que muita gente não gosta disso] como um “autor-jardineiro”. Não planejo muito à frente, salvo um vago esqueleto de história, e alguns passos. Vou plantando personagens e situações, e desenvolvendo/vendo brotar. Ao menos é a maneira de escrita que mais gosto. Estou com um livro pronto de contos e poemas feito dessa maneira, que devo lançar no ano que vem, inclusive.
❝
Para quem você escreve, quem são seus leitores?
Acho que primeiramente escrevo para mim. É minha terapia particular, no fim das contas. E fico muito feliz quando pessoas se identificam com meus textos. Normalmente, meus leitores são muito sensíveis, neurodivergentes [como eu], que precisam se enxergar com mais carinho.
Por que você escreve, Alberto?
A resposta fácil seria “porque eu sinto demais”. Sinto, observo, e quero criar beleza. Porque isso também é uma forma de ressignificar sentimentos pesados… E aí tem a segunda parte da resposta: também escrevo para me conhecer melhor, e para transformar em arte o que já passei na vida, quem sabe incentivando outras pessoas a fazerem o mesmo.
Gostaria que você comentasse algum texto lido nas edições passadas da entrelinhas e que você gostaria de indicar para quem está lendo sua entrevista.
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Especial Literunico
Particularmente [já que é minha área], adorei a curadoria de poemas do último número da tevista! Estilos bem diversificados, uma leitura que refresca a gente! Sobretudo “Cacos”, e “Louco Ator”, que estão mais próximos da maneira que escrevo.
Por fim, quero convidar você a participar com um texto nesta edição. O tema é Travessia. Aceita?
Eu tenho um poema que cabe direitinho:
Que a chuva caia traia no teto que chova em prantos cantos incertos em tom de lamento tento de perto vencer apatia.
Travessia.
Que a chuva espalhe entalhe na terra O gotejo vivo crivo em espera desperte sementes
dormentes há eras e vença apatia.
Travessia.
Que a chuva aperte acerte o instante descobrindo mágoas deságua rompante transforma a luta refuta o constante vencendo a apatia.
❝
Travessia.
Alberto Knobbe Busquets nasceu em 26 de Janeiro de 1978, em São Paulo/SP. Atualmente vive entre Natal/RN e Portugal. É advogado, professor, terapeuta, escritor e poeta. Aprendeu que pode transformar o mundo ao seu redor através da poesia, levando sensibilidade, otimismo e beleza ao leitor que também queira uma vida mais leve e significativa.
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PÕE NA ESTANTE PÕE NA ESTANTE
Até o outro lado da Lua
Por Thais Bastos
Lídia aprendeu da pior forma, que confiar em homens é um erro. Reservada e cética, ela faz de tudo para manter as pessoas à distância. Já Eduardo é a personificação de tudo o que ela detesta: mulherengo, sempre cheio de piadinhas e amigo de todo mundo. Exatamente o tipo de cara que Lídia evita a todo custo. [...] às vezes, o amor nasce justamente onde menos se espera. E o ódio? Pode ser só desejo reprimido. Clique aqui e saiba mais.
Entrei num app e me apaixonei
Por Adriana Simone
Paty, uma mulher 40+ que vive uma relação tóxica de muitos anos, resgata o amor proprio e conta para a melhor amiga que está pronta para um novo amor.
A amiga a coloca num aplicativo de namoro e Paty começa viver grandes emoções conhecendo pessoas até um evento surpreendente num match. Ao conhecer novas pessoas, tem humor e drama. Ah! É um romance sáfico! Clique aqui e saiba mais.
EMBOTANDO FINS
Por Ceginara
Em três vidas passadas, eles deram adeus. Desta vez, ela se recusa a aceitar o fim.
Entre a frieza dos monitores da UTI Neonatal e o calor de um amor testado através dos séculos, Clara e Heitor descobrem que os desfechos anteriores foram apenas ensaios. Nesta nova chance, não importam as incertezas e os temores do que enfrentarão, porque...
Desta vez, eles ficam juntos. Clique aqui e saiba mais.
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Especial Literunico
Cynthia D. Jonas
❞
Sou escritora, roteirista e publicitária. [...] escrevo principalmente suspense, gênero pelo qual sou apaixonada tanto como autora quanto como leitora.
Antes de tudo, por favor, se apresente para nós!. Aqui na entrelinhas além dos colegas escritores, temos muitos leitores também.
que precisava entender melhor como uma narrativa se sustentava. Parei de escrever e fui estudar estrutura narrativa. Foi só então que o livro finalmente saiu. Com A Armadilha, meu romance mais recente, o processo foi quase o oposto. Eu já tinha escrito alguns capítulos quando decidi parar e usar aquela ideia durante meu curso de formação em roteiro. No fim, o roteiro acabou vindo primeiro e, depois, adaptei a trama para a literatura. Apesar de serem linguagens muito diferentes, eu já sabia o que queria contar e, principalmente, tinha um domínio de estrutura que não tinha quando comecei meu primeiro livro. Isso fez com que o processo fluísse muito mais rápido. Escrevi A Armadilha em cerca de três meses. Quando olho para esses dois livros, vejo também a minha própria evolução como escritora. O primeiro me obrigou a aprender como construir uma narrativa. No mais recente, eu já podia usar tudo o que aprendi ao longo do caminho para contá-la.
Sou Cynthia D. Jonas, escritora, roteirista e publicitária. Meu primeiro livro publicado foi O Segredo de Ivy Collins, uma fantasia, e depois vieram Segredos Submersos, finalista do VII Prêmio Aberst de Literatura, A Maldição da Ilha dos Pescadores e, mais recentemente, A Armadilha. Hoje escrevo principalmente suspense, gênero pelo qual sou apaixonada tanto como autora quanto como leitora. Gosto de histórias com muito mistério, personagens femininas fortes e, principalmente, segredos. Nos meus livros sempre alguém tem algo a esconder.
Nos conte um pouco sobre sua obra mais antiga e a mais recente. Tem como comparar as duas?
Meu primeiro livro, O Segredo de Ivy Collins, foi, de longe, o que mais demorei para escrever. Fiquei anos com aquela ideia. Começava, parava, retomava e a história simplesmente não avançava. Até que percebi que pre-
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Nos meus livros sempre alguém tem algo a esconder. ❞
Vi que você é roteirista também, isso se reflete nas suas obras?
Com certeza. Literatura e roteiro são linguagens muito diferentes, mas estudar roteiro mudou bastante a minha forma de construir narrativas. Hoje penso muito em ritmo, viradas e na função de cada cena. Também tenho uma escrita bastante visual. Quando estou escrevendo, normalmente enxergo a cena acontecendo, o ambiente, os movimentos dos personagens, quase como se estivesse assistindo àquilo. Acho que o roteiro potencializou ainda mais essa característica. Ao mesmo tempo, a literatura me dá uma liberdade que o roteiro não dá, principalmente para entrar na cabeça dos personagens, explorar sensações, pensamentos e contradições. Gosto muito das duas linguagens e acho que uma acaba alimentando a outra.
Sobre o exercício da escrita, de onde vem a sua inspiração, suas referências, como funciona sua mente até o momento de realmente pôr as palavras no papel?
Minha inspiração vem de todo lugar. Pode ser uma notícia, uma viagem, uma conversa, uma imagem ou
simplesmente uma pergunta que surge do nada, quase sempre começando com um “e se?”. A partir daí, minha cabeça começa a criar possibilidades e, quando percebo, já tem uma trama se formando.
❞
Também sou muito influenciada pelo que leio e assisto, mas coloco bastante das minhas próprias experiências e crenças no que escrevo. Não costumo partir de uma referência específica. Normalmente, várias coisas que fui acumulando acabam se misturando até virar algo novo.
Antes de começar a escrever de verdade, penso bastante no que quero contar. Preciso conhecer pelo menos o conflito principal, meus personagens e ter alguma noção de onde quero chegar. Depois, muita coisa aparece durante a escrita. É uma mistura de planejamento com espaço para ser surpreendida pelo próprio processo.
E por que suspense? Como foi parar nesse gênero? Morro de medo de ler suas histórias, só me lembro de personagens como Jack Stripador, Jason da Serra Elétrica e mesmo Olhos Famintos [esse eu adoro].
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Primeiro preciso tranquilizá-la: pode ler meus livros! Tem até romance. Mesmo em A Maldição da Ilha dos Pecadores, o mais sangrento deles, não exagero no massacre, sempre prefiro o terror psicológico. Eu gosto muito mais de provocar tensão e curiosidade do que medo. O que me fascina no suspense é aquela sensação de precisar descobrir o que está acontecendo, desconfiar dos personagens, criar teorias e chegar ao ponto em que você diz “só mais um capítulo” e, quando percebe, já passou da hora de dormir. Na verdade, acho que nunca “fui parar” no suspense. Ele sempre esteve no que escrevo. O Segredo de Ivy Collins, meu primeiro livro, é uma fantasia sombria, na vibe das histórias de vampiros, mas já tem muito mistério. É o tipo de narrativa que sempre gostei de ler, assistir e escrever. Adoro brincar com o leitor, entregar uma informação aqui, esconder outra ali e fazer com que ele participe tentando montar o quebra-cabeça. Para mim, essa é uma das partes mais divertidas de escrever.
E entre os colegas, a maioria é homem ou você encontra várias mulheres que também escrevem o mesmo gênero? De verdade, eu tenho essa dúvida!
Durante muito tempo gêneros como suspense, thriller, terror e romance policial foram predominantemente
O que me fascina no suspense é aquela sensação de precisar descobrir o que está acontecendo, desconfiar dos personagens, criar teorias e chegar ao ponto em que você diz “só mais um capítulo” e, quando percebe, já passou da hora de dormir.❞
masculinos, mas isso mudou bastante. Hoje temos autoras incríveis. Eu acho bem interessante a forma como as mulheres contam esse tipo de narrativa. São outros olhares, outras experiências e novas maneiras de explorar temas que sempre estiveram presentes nesses gêneros. Na minha experiência, tanto nos eventos quanto no meio literário, encontro cada vez mais mulheres escrevendo essas obras, e também muitas mulheres lendo.
Você tem um ritual específico quando decide escrever uma história?
Não tenho um ritual específico, mas preciso de paz para escrever. Como também sou publicitária e mãe, quando estou trabalhando em um livro novo, muitas vezes acordo às cinco da manhã. Assim, quando a casa desperta, já consegui escrever bastante. Costumo reler o capítulo anterior para entrar novamente na trama e estou sempre anotando ideias
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no celular ou em cadernos. A música é minha gasolina, muitas cenas nascem enquanto escuto uma canção, e não é à toa que todas as minhas histórias têm uma playlist. Mas, na hora de transformar essas cenas em palavras, prefiro o silêncio.
❞
Já sobre seu processo criativo, você se vê como qual tipo de escritor?
Acho que hoje eu me definiria como uma plantser, termo usado para quem fica no meio do caminho entre o escritor que planeja tudo e aquele que descobre a história enquanto escreve.
❞
Por natureza, sou uma escritora intuitiva, com mil ideias ao mesmo tempo. Comecei escrevendo contos sem maiores planejamentos. Quando passei para narrativas longas precisei estudar estrutura e descobri uma coisa que pode parecer contraditória: para mim, planejar foi libertador. A estrutura não prende minha criatividade, ela me dá um caminho para que eu não me perca nela. Hoje preciso saber para onde a trama está indo, mas o caminho até lá continua muito aberto. Personagens ganham vida, surgem ideias inesperadas e, muitas vezes, percebo durante a escrita que existe uma solução muito
melhor do que aquela que planejei. Preciso de um mapa, mas dificilmente termino a viagem seguindo exatamente a rota que tracei.
Para quem você escreve?
Escrevo para quem gosta de mergulhar em um livro e esquecer por algumas horas o mundo do lado de fora. Para o leitor que se envolve, cria teorias, se apega aos personagens e continua pensando neles depois que termina a leitura. Também gosto de deixar alguma coisa nas entrelinhas. Mesmo quando estou contando uma trama mais sombria, quero que exista algo além da narrativa, uma reflexão, uma transformação, alguma coisa que o leitor possa levar consigo. A espiritualidade aparece bastante no que escrevo, assim como personagens que precisam encontrar forças dentro de si. Tenho muitos leitores homens, mas acredito que exista uma conexão especial com as mulheres, talvez porque minhas protagonistas sejam, em sua maioria, mulheres que atravessam situações difíceis e descobrem a própria força no processo. No fim, escrevo para quem aceita entrar nesse universo comigo e, quem sabe, sair dele um pouquinho diferente.
Por que você escreve, Cynthia?
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Especial Literunico
❞
Escrevo desde criança, mas acho que minha trajetória como escritora começou de verdade com uma promessa. Meu pai era escritor e, no leito de morte, fiz uma promessa a ele de que escreveria um livro. Era um sonho dele me ver escritora. De alguma forma, ele me enxergou assim antes que eu mesma conseguisse me enxergar. Talvez por isso a morte seja um tema tão recorrente no que escrevo. Tenho dificuldade em lidar com ela na vida real e percebo que falar sobre luto, perdas e até sobre o sobrenatural é também uma maneira de encarar meus próprios medos e fantasmas em um lugar seguro, que é a ficção. Mas, se a morte aparece muito, o amor também. Sou romântica por natureza e sempre encontro um jeito de colocar uma pitada de romance nas minhas tramas. Escrever me permite criar outros mundos, viver outras vidas e experimentar, por meio dos personagens, sentimentos que também são meus. Começou com uma promessa. Hoje, a escrita é meu refúgio e não consigo mais imaginar minha vida sem escrever. ❞
Compre A Armadilha clicando aqui.
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❞
Especial Literunico
O que você anda lendo e assistindo? Nos indique um título de livro e filme, série ou documentário.
No momento estou lendo Desconhecido, do Riley Sager, que é um autor que adoro. Ainda não terminei, então não posso dar um veredito, mas estou gostando bastante. Também comecei a assistir a série turca Conheço Você, é um suspense que aborda, entre outras coisas, a maternidade. E, aproveitando o tema, recomendo All Her Fault, que também traz a maternidade para o centro de uma trama de suspense e foi uma das séries de que mais gostei no ano passado. Agora, confesso que estou especialmente ansiosa pelas estreias de outubro. Quero muito assistir à nova adaptação de Carrie, de Stephen King, comandada por Mike Flanagan, um dos meus diretores favoritos da vida, e Crystal Lake, série que volta ao universo de Sexta-Feira 13 para contar os acontecimentos anteriores ao filme original. Outubro promete!
Saiba mais sobre a autora clicando aqui.
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PÕE NA ESTANTE PÕE NA ESTANTE
Os Quatro Elementos da Natureza e a Princesa da Terra
Por Samantha Kiremitdjian
Em Etherea, um mundo mágico regido pelos quatro elementos, a harmonia está ameaçada. Mabi, a Princesa da Terra, deve restaurar a paz entre os reinos elementais. O Rei do Fogo descobre uma antiga profecia e propõe uma competição repleta de aventuras. Com a ajuda de seus amigos, Mabi enfrenta desafios para salvar Etherea das garras do maligno Rei Djinn. Clique aqui e saiba mais.
Raízes Plantadas do Outro Lado do Oceano
Por Roberto Jubran Jr
Ao chegar ao Brasil, a dura realidade das fazendas de café: um sistema de trabalho opressor, violências veladas e promessas de liberdade que se revelam ilusões. No entanto, é nesse solo hostil que começam a florescer laços de amizade, solidariedade e fé, impulsionados por personagens marcantes como o ex- escravizado Antônio e sua esposa Francisca. Um romance histórico que resgata a saga dos imigrantes italianos no Brasil do final do século XIX, entrelaçando amor, coragem e resistência em um cenário marcado pela transição do trabalho escravo para o colonato. Clique aqui e saiba mais.
O Códice de Aurora
Por B. Leopoldo
Beatrice Ricci sobrevive a um acidente que deveria ter encerrado sua história. Mas, ao despertar, uma sequência de coincidências a conduz ao Instituto Asclépio, um hospital reservado à elite e cercado por perguntas que ninguém parece disposto a responder. Entre segredos, vidas que parecem se reencontrar e escolhas que atravessam o tempo, Beatrice terá de descobrir o que realmente a liga àquela história, e por que algumas verdades são perigosas demais para permanecerem esquecidas. Clique aqui e saiba mais.
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PÕE NA ESTANTE PÕE NA ESTANTE
La Belle de Jour
Por Marina Odo
A vida de um casal passa por uma transformação arrebatadora e excitante com a presença de Camille. Quem vive ou já viveu um casamento com filho conhece os altos e baixos. Traição ainda não era uma pauta, mas é quase que inevitável que uma das pessoas que compõem um casal acabe se interessando por outra pessoa em algum momento. Lidar com essa situação é que requer jogo de cintura ou raciocínio lógico ou maturidade. Ou dá para jogar tudo para o alto também. Clique aqui e saiba mais.
Jaguari
Por Jenny Rugeroni
Vencedor do prêmio da Academia Pernambucana de Letras, Jaguari reúne dezesseis contos que traçam perfis de mulheres de várias idades, condições sociais e níveis de instrução, moradoras de pequenas cidades ou zonas rurais de São Paulo e Minas Gerais, abordando temas como amadurecimento, conflitos familiares, dificuldades financeiras, machismo estrutural, assédio moral, alcoolismo, abuso sexual e outros traumas. Clique aqui e saiba mais.
AARYA A DANÇA DOS LOBOS
Por Adriana Montteiro
Aarya Kazarian passou a vida ouvindo o que deveria ser. Aos quarenta e poucos anos, resolve fazer um balanço da própria vida, tentando entender onde errou. Cigana e loba, carrega duas heranças que nunca conseguiu conciliar. Nas ruas, nos cafés e nos museus de uma São Paulo real, o sobrenatural faz parte da vida. Para Aarya, ele também exige atravessar rituais que põem à prova seu corpo e suas duas naturezas. Cada avanço a aproxima do poder que passou a vida tentando alcançar. E também de quem pretende usá-la, custe a ela o que custar. Clique aqui e saiba mais.
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Viktor Bernardo Pinheiro
❞
IG @oviktorbernardo
❞
Precisa editar seu livro?
#revisão;
#preparação;
#leitura sensível [transmasculina,
assexual e arromântico]; e
#texto alternativo para imagens
relacionadas a livros [como capa,
ilustrações e imagens de marketing,
como postagens etc].
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Conto
A Criação de Adão, Michelangelo

Por Diego Campos
Conto
O Último Trem das Seis
Às seis da tarde, o trem ainda não havia chegado. O atraso de dois minutos se tornara tão comum que ninguém mais reclamava. Era como se o horário oficial já previsse aqueles cento e vinte segundos de espera. À minha direita, um homem de terno escuro carregava no rosto um cansaço antigo. À esquerda, um grupo de jovens conversava sem entusiasmo, repetindo as mesmas piadas de todos os dias. Eu permanecia ali, entre desconhecidos, esperando o trem das seis. Havia dias em que eu imaginava que aquela poderia ser a última vez que veria algum deles. Mas o amanhã sempre desmentia meus pensamentos. Um a um, reapareciam na mesma plataforma, no mesmo horário, esperando o mesmo atraso, como atores presos à mesma cena, sem jamais conhecer o restante do elenco. Às vezes, eu me pegava pensando nisso. Chegava a me incomodar.
— Por que isso me interessa tanto? —
perguntava a mim mesmo. — Não faz
sentido. Passei tanto tempo
observando cada rosto naquela
plataforma que jamais imaginei que
alguém pudesse estar me observando
também. Foi então que uma moça, que eu nunca havia visto naquela plataforma, aproximou-se de mim.
— Você pega esse trem todos os dias? Assenti com a cabeça. Ela sorriu de leve.
— Engraçado... acho que nunca tinha
reparado em você. Uma tensão tomou conta de mim. Como aquilo era possível? Todos pareciam concentrados demais na própria rotina. Cansados demais para reparar em um estranho entre tantos outros. Então, por que ela havia reparado em mim? A bolsa dela era diferente das que eu costumava ver. Alguns livros escapavam pela abertura do zíper, e, entre eles, havia folhas dobradas. Percebendo meu olhar curioso, ela retirou uma delas e me entregou. Na folha havia apenas um poema:
❝Disseram que cada um deveria seguir o próprio caminho.
Esqueceram de dizer que os caminhos
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Conto
sempre se cruzam.
E que ninguém atravessa a vida inteiramente sozinho.❞
Aquele poema ficou preso em meus pensamentos. Não era apenas pelas palavras, mas pela sensação estranha de que ele havia encontrado algo em mim que eu ainda não conseguia nomear. Por um instante, pensei em como alguns encontros parecem acontecer no momento exato. Como se certas pessoas surgissem não para permanecer, mas para nos lembrar de algo que havíamos esquecido. Olhei ao redor com mais atenção. Pela primeira vez, não enxerguei apenas rostos cansados ou pessoas seguindo a mesma rotina. Percebi histórias. Percebi que eu realmente não estava sozinho, mas não da maneira que o poema dizia. Não era sobre estar cercado de pessoas. Era sobre perceber que, por trás de cada rosto desconhecido, existia alguém carregando suas próprias dúvidas, medos e esperanças.
Foi então que notei a moça encostada na parede da plataforma. Ela me observava em silêncio, com um pequeno sorriso no rosto. Por um instante, tive a estranha sensação de que ela sabia exatamente o que passava pela minha cabeça. Logo, algumas gotas de chuva começaram a cair sobre minha blusa. Por alguns segundos, deixei de ouvir os ruídos da plataforma. O atraso, o trem e até mesmo a presença daquela moça pareciam ter desaparecido. Minha atenção ficou presa às pequenas gotas que percorriam o tecido, como se cada uma carregasse uma história própria. A chuva sempre me pareceu uma lembrança de que nada permanece igual para sempre. Tudo passa, tudo muda, tudo encontra um novo ciclo. Foi então que ouvi o som do trem se aproximando. As luzes atravessaram a chuva e, por um instante, parecia que os vagões cortavam cada gota no ar antes de chegar à plataforma. A porta se abriu diante de mim. Fiquei parado por alguns segundos, olhando para dentro. E se aquela porta me levasse ao mesmo lugar de sempre? E se, dessa vez, ela me levasse para algum lugar que eu nunca conheci? Olhei para trás mais uma vez, procurando por ela entre as pessoas que ainda permaneciam na platafor-
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Conto
Mas a moça havia desaparecido. Por alguns instantes, pensei que talvez nunca mais a visse. Ainda assim, algo daquela presença permaneceu comigo. Sua voz continuava ecoando em minha mente, assim como as palavras daquele poema que agora pareciam ter outro significado. Talvez alguns encontros não aconteçam para permanecer. Talvez aconteçam apenas para abrir uma porta que sempre esteve diante de nós. Talvez fosse a hora de seguir em frente. Ou talvez eu pudesse recuar, entrar naquele mesmo trem e continuar sendo exatamente quem eu sempre fui, repetindo os mesmos dias, os mesmos caminhos e os mesmos pensamentos. Mas uma pergunta insistia em permanecer: Eu deveria me tornar algo que nunca fui ou continuar sendo aquilo que sempre aceitei ser? As lembranças começaram a surgir como imagens antigas. Antes daquela plataforma, antes daquela rotina, existia uma criança que eu quase não reconhecia mais. Lembrei-me de quando era pequeno e acreditava que o mundo era muito maior do que aquilo que meus olhos conseguiam alcançar. Eu queria
conhecer lugares, pessoas e histórias. Eu acreditava que cada desconhecido carregava um universo inteiro dentro de si. Com o tempo, fui aprendendo a apenas seguir. As perguntas foram ficando menores. Os sonhos foram sendo guardados em lugares onde eu raramente voltava. E talvez o mais assustador não fosse ter mudado. Talvez fosse perceber que eu havia me acostumado. Mas, ainda assim, havia algo dentro de mim que permanecia vivo. Eu ainda queria ser aquilo que sonhava quando era criança. Tornar- me alguém capaz de compreender o mundo, alguém que carregasse livros não apenas nas mãos, mas também nas ideias. Talvez um dia eu pudesse lecionar. Não apenas ensinar palavras ou fórmulas, mas despertar perguntas em outras pessoas. Em um mundo que tantas vezes parecia correr sem pensar, talvez fosse possível lembrar que ainda somos feitos de sonhos, dúvidas e escolhas. Foi então que percebi: Eu não precisava me transformar em alguém completamente diferente. Eu precisava reencontrar quem eu havia deixado para trás.
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Conto
Talvez meu caminho não fosse apenas seguir os mesmos trilhos todos os dias. Talvez fosse construir algo novo com aquilo que sempre esteve dentro de mim. Um revolucionário das palavras. Alguém que transforma pensamentos, que escreve, que questiona e que nunca deixa morrer a curiosidade daquela criança que um dia acreditou que o mundo poderia ser maior.
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Por Jefferson Virgílio
#PraCegoVer
Quase sem saber, pude vislumbrar um momento futuro. Não comprei bilhetes ou me movimentei no espaço. Então, não sei se viajei. E não paguei por isso, apenas permaneci de olhos cerrados, deitado em posição desconfortável. Me consumiu preparações psicológicas, sociais e intelectuais por anos até o fenômeno se manifestar. Tive de ficar longe de terapeutas, vivendo numa sociedade que é distante da minha e investindo uma década em leituras na ciência que fala sobre cultura enquanto é incapaz de a conceituar. Descontadas as horas laborais e o tempo diário do lazer e do prazer, sobraram poucas horas neste dia, que foram utilizadas em transferências até o momentâneo sentido. Me recordo de segundos no local e de metros no tempo. Ao concluir o primeiro passo, instintivo, surjo em frente à loja que comercializa produtos antigos numa avenida com pouco fluxo de gente ou veículos. Não identifico sons ou movimentos, seja de pessoas, atividades ou de veículos. Logo, não era uma fictícia metrópole futurista cosmopolita e tampouco um polo industrial em franca decadência umas décadas após
Conto
outra guerra sustentável. As cores são poucas e previsíveis, expiradas de clássicos cinematográficos. Ao procurar algo no ar vislumbro a intervenção ativista, que na hora aparece como letreiro simples, pois não sabia quando estava. Esteticamente é similar com os outdoors de tempos modernos, porém dotada de recursos tecnológicos sofisticados. Uma projeção suspensa, escrita, com tipologia padrão, Times ou Arial. Próximo da mal-dita holografia. É difícil etnografar o tanto [alguém dirá tão pouco] que observo, mas a mensagem se reproduz em língua inglesa. A primeira frase me é revelada fixa, integralmente em fundo branco opaco e com fonte preta, não precisamente nestas palavras:
❝Today we can buy original art pieces from the year 1050 for 60 bucks.❞
Seriam as peças produzidas há exatos mil anos atrás? Então estive em 2050? Ou atualizaram o erro de Willard F. Libby, que em 1949 decide que o presente será eternamente o ano de 1950? Creio que não saberemos por enquanto. Há então uma transição pa-
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Conto
ra a primeira parte da segunda oração, com o texto deslizando em movimento para a esquerda, facilitando-forçando a leitura:
❝Or buy the latest Le Monde Diplomatique❞.
Tive a impressão que não tardará até que a versão digital do jornal custará o mesmo que uma peça de arte antiga, indicada ali com os seus mil anos de existência. Aquilo que hoje, ou no passado, pode ter sido considerado arte já não terá este reconhecimento ou nem mesmo o esforço ou valor de seu saque. Mas assim como Jaider Esbell nos lembra que a arte contemporânea indígena não é o mesmo que arte indígena contemporânea, é possível que a compreensão no futuro das artes feitas de seu passado seja distinta da contemplação no passado das artes feitas em seu futuro. O que chamamos de arte parece até estar disposta para uma não-venda em um mercado de quinquilharias numa rua já sem sinais de qualquer urbanidade. Ao chegar ao final da mensagem, logo após a vírgula, as variações estéticas e de movimentação não se findam, o texto altera para cores douradas, com efeitos 3D, apresentando fundo e sombra, e após um movimento de
rotação horizontal completo em 180 graus, vai revelando uma palavra por vez, do trecho ❝and have nine hours of entertainment❞. Então permanece girando em seu próprio eixo verticalmente uma imagem genérica de engrenagem funcionando. Ou seja, aquilo que na altura for o mais alienante possível será tido como lazer, extinguindo o prazer da leitura. E ainda estaremos atualizados sobre o que o órgão orwelliano nos diz que é verdade. A onipresença de língua inglesa também me fez refletir imediatamente sobre, rememorando previsões das distopias com uma língua hegemônica, li o inglês, mesmo com os receios de muitos de que haja imposição de 中文. No passado sei que Ελληνικά e یسراف, el español, a latina, além de ةيبرعلا já atuaram como motores de expansões linguicidas. Ainda que muito pareça patológico, percebo algo de positivo sobre-vivendo. E não sendo positivo como proposto por Augusto Comte. Há outra forma de arte que re-existe, se apropriando de tecnologias, tanto i-materiais da holografia, como as i-deontológicas, ao quase obrigar uma leitura crítica, quiçá emancipadora, que é mantida além dos limites internos da caverna de Platão. Infelizmente não consigo continuar a caminhada.
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Desperto atordoado no retorno, tendo a percepção de achar algo que não concebi que pudesse existir. Tento em vão consumir tempo para buscar entender o que vivenciei. E outro tanto até decidir tentar de-escrever a meta-alegoria. Poderia incluir um punhado de notas de rodapé, seja para tornar nítido que a hashtag no título não legitima ou incentiva o capacitismo, seja para trazer as referências necessárias que auxiliem o novíssimo padre baloeiro que se opõe ao uso de um equipamento básico de GPS para navegar com segurança e com ciência por ares desconhecidos. Mas se René Magritte pôde propor que ❝Ceci n'est pas une pipe❞, deve ser legítimo deixar claro que isto tampouco pode ser uma obra de arte. Não sendo uma arte, especialmente conceitual, é merecido esclarecer do que se trata sem rodeios: se trata da transcrição de uma profecia. Uma profecia crônica.
Maíra Silva Gualberto
Está disponível para quaisquer projetos culturais ou artísticos, nas funções de roteirista, designer, ilustradora e editora, com experiência desde 2018.
Contato: estrela.ms9@gmail.com IG @Maíra.artes Behance clique aqui.
Conto
São José-SC IG @virgiliojefferson
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Entrevista entrelinhas
Antes de ser uma escritora que coloca, de fato, as histórias no papel, eu era apenas uma sonhadora de mundos silenciosos. ❝
Raquel Pacífico
A ideia inicial para a história do Ravi veio de um lugar inesperado: assistindo a uma entrevista do influenciador Felca com o Renato Cariani. Naquele bate-papo, ele falou com muita franqueza e vulnerabilidade sobre a sua relação com o álcool e como o vício era, para ele, uma espécie de fuga. Aquela conversa me tocou profundamente e me fez pensar em como o alcoolismo na juventude é um tema, muitas vezes, silencioso e pouco abordado. Para construir o universo ao redor disso, recorri às minhas próprias memórias da adolescência. Resgatei aquela intensidade típica da idade, as paixões avassaladoras, o desejo de consertar o mundo e a sensação de que tudo é urgente. O processo de escrita foi intenso e muito intuitivo; como passei a vida inteira criando histórias na minha mente, quando finalmente sentei para escrever, os personagens e seus dilemas psicológicos fluíram de forma muito natural. Foi um processo de constante lapidação para garantir que esses temas densos fossem entregues com a leveza e o acolhimento que os jovens leitores merecem.
.
Quem é a escritora Raquel Pacífico?
Eu sou dentista de formação e profissão. Um caminho que escolhi pelas responsabilidades da vida, pela busca de estabilidade financeira e pelas obrigações que todos nós enfrentamos ao crescer. E, durante muito tempo, vivi nesse mundo prático dos deveres. Mas, nos bastidores da minha mente, meu mundo era feito de ideias, livros e enredos que eu criava e guardava só para mim. Foi apenas há pouco mais de um ano que me permiti ser escritora também. Quando a vida profissional se estabilizou e as cobranças externas permitiram, aquele sonho antigo que estava adormecido pôde, finalmente, aflorar. Hoje, posso dizer que sou uma escritora dedicada e sensível, com foco em narrativas que exploram os afetos e as relações humanas.
É sua obra de estreia, certo? De onde veio a ideia e como foi o processo de escrita?
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Entrevista entrelinhas
Falando sobre o futuro, já podemos esperar algo novo?
Com certeza! Agora que as portas da escrita se abriram, minha mente não para de criar. Atualmente, estou mergulhada no desenvolvimento de dois projetos bem diferentes entre si, mas que carregam a mesma busca por dilemas humanos profundos. O primeiro é uma narrativa medieval focada na história de uma forasteira. Nela, vou abordar a caça às bruxas e a perseguição às mulheres para discutir algo muito atual: o poder avassalador do boato e de como uma mentira, a famosa Fake News de hoje, pode destruir vidas, contrapondo essa escuridão com a força do amor verdadeiro e da amizade. O segundo projeto acompanha Eloise, uma mulher que enfrenta o pior pesadelo de uma mãe: o desaparecimento de sua filha. Esse trauma a força a reviver o sumiço misterioso da própria irmã no passado, tecendo uma trama intensa sobre culpa, vingança e redenção. São histórias que estão ganhando corpo e que, em breve, espero poder compartilhar com os leitores!
atento ao cotidiano, das conversas que escuto, dos filmes que consumo e da forma como as pessoas reagem à dor e ao afeto. Minha mente funciona como um arquivo: vou guardando impressões, músicas e sentimentos até que tudo se transforme em um enredo. Sobre rituais, a minha realidade dita as minhas regras. Como a rotina na odontologia é extremamente corrida e exige muito de mim, meu verdadeiro “ritual” diário é simplesmente sentar na cadeira e escrever onde e quando for possível. Escrevo entre o atendimento de um paciente e outro, nas pausas do almoço e, principalmente, à noite, se estou bastante focada. A verdade mesmo é que a disciplina precisa vencer a falta de tempo. Mas, para ser bem sincera, ainda estou ajustando essa parte [risos]!
Sobre o exercício da escrita, de onde vem a sua inspiração, suas referências, como funciona sua mente até o momento de realmente pôr as palavras no papel? Você tem um ritual específico quando decide escrever uma história?
Minha inspiração vem de um olhar
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Entrevista entrelinhas
Deixo o ritual mais sinestésico guardado exclusivamente para as cenas de grande impacto dramático ou emocional. Para essas cenas, eu preciso me isolar para conseguir dar o tom exato da atmosfera.
❝
Então, eu coloco para tocar a música que combina perfeitamente com a aesthetic do livro e, principalmente, com a energia do casal. É a trilha sonora que me ajuda a sintonizar a emoção correta para transportá-la para o papel. Também uso aromaterapia para aguçar a criatividade. Óleo essencial de alecrim é perfeito para isso.
Como é sua rotina de escrita?
Se eu disser que tenho uma rotina engessada, com horários fixos e metas diárias de palavras, estarei mentindo. A verdade é que eu não tenho uma rotina de escrita estruturada; eu escrevo quando dá. Conciliar a odontologia com a literatura exige que eu seja oportunista com o relógio. Meu processo acontece nos intervalos que a vida real me permite: uma ideia que surge entre um atendimento e outro e é anotada às pressas no celular, um parágrafo desenvolvido no fim de semana ou algumas páginas escritas na madrugada, quando o silêncio da casa ajuda a concentrar.
Aprendi que esperar pelo “momento perfeito” ou por uma rotina idealizada só me faria adiar histórias. Então, meu método virou esse: se há uma brecha no tempo e uma história na cabeça, é ali que a escrita acontece.
Falando sobre seu processo criativo, você se vê como qual tipo de escritora?
Eu me vejo como uma escritora essencialmente sensível e orientada pelo propósito. Não encaro os livros e as histórias apenas como entretenimento ou um passatempo passageiro; acredito piamente no poder que as palavras têm de transformar pessoas, mudando a forma como elas enxergam a si mesmas e o mundo ao redor. Por conta disso, tenho um cuidado quase cirúrgico com tudo o que escrevo. Nós somos responsáveis por aquilo que colocamos no mundo, e eu levo essa responsabilidade muito a sério na hora de escolher a mensagem que quero deixar registrada. Sou uma defensora convicta dos finais felizes. Quero usar a minha literatura para levar esperança, mostrando que existem pessoas de bem e que é possível enfrentar as nossas sombras mais densas para nos tornarmos versões melhores, mais dignas e prontas para viver em um mundo bom. Escrevo para curar, tanto a mim quanto a quem me lê.
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Entrevista entrelinhas
No fim das contas, o que realmente faz você escrever, Raquel?
No fim das contas, o que realmente me faz sentar diante do computador é o desejo inabalável de levar uma mensagem de esperança. Eu acredito que nós só mudamos de verdade quando aprendemos, e a literatura nos dá a chance única de aprender com as histórias e as dores alheias. Quando lemos, somos convidados a nos colocar em várias perspectivas diferentes, a calçar os sapatos de personagens que talvez nunca encontraríamos na vida real. Mesmo sendo ficção, a leitura nos ensina a ter
empatia.
A literatura existe exatamente para isso: para expandir os limites do nosso próprio coração e causar empatia através das vidas que inventamos. É essa ponte invisível de conexão humana que me move.
Você fala para um público específico, tem preferência ou se mantém livre nesse sentido?
Eu comecei escrevendo para o público adolescente porque, inicialmente, meu grande objetivo era participar do Prêmio Kindle de Literatura Jovem. Foi esse desafio que me instigou a olhar para o universo juvenil e estruturar minha primeira história sob essa ótica. Mas, no fundo, eu não tenho uma preferência engessada ou um público- alvo específico para o resto da minha
carreira. Eu me mantenho muito livre nesse sentido. O que dita o meu processo criativo é a força da ideia e a mensagem humana que está por trás dela. Prova disso são os meus novos projetos, que já transitam pelo drama histórico medieval e pelo suspense psicológico adulto. Escrevo sobre sentimentos, e sentimentos não têm idade; quero que os meus livros possam tocar qualquer pessoa que esteja disposta a se conectar com uma história sincera.
Obra de estreia da autora; por @maktubliteraria_
E como leitora, quem você sempre indica por onde vai?
Como leitora, meu gosto é bastante criterioso; sou do tipo que precisa ser capturada pelo ritmo e pela beleza das palavras desde a primeira página. Se há uma autora que indico por onde vou, é a Mary Stewart, especialmente pela trilogia de Merlin, começando por A
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Entrevista entrelinhas
Caverna de Cristal. Lembro que foi a primeira vez que me apaixonei de verdade por um estilo de escrita, pela forma como ela constrói a atmosfera e a poesia histórica. Outra grande paixão clássica é F. Scott Fitzgerald, pela melancolia elegante e a precisão de seus textos. No cenário nacional contemporâneo, tenho indicado muito a Aline Bei, pela genialidade da escrita em versos e profundidade psicológica, e a Socorro Acioli, pelo lirismo meio místico e a força da identidade nordestina. E ultimamente estou priorizando a leitura de autores independentes. Agora que vivo na pele as dificuldades da literatura independente, eu sempre que posso indico livros desses autores incríveis que não tem o reconhecimento merecido. Busco sempre leituras que fujam de fórmulas puramente comerciais ou da exploração gratuita da violência e de fetiches sombrios. Para mim, a grande literatura é aquela que edifica, que foca na complexidade humana e deixa uma marca duradoura na nossa forma de ver o mundo.
Que tipo de leitora é você: aquela que lê 100 livros por ano ou do time “leio devagar, leio o que gosto, leio menos obras, mas leio!”? Comente um pouco.
Sou totalmente do time “leio devagar, leio o que gosto, leio menos obras, mas leio!”. Eu leio em um ritmo mais lento e tento ao máximo não largar uma
leitura, embora seja muito difícil uma obra me prender de verdade. Este ano, por exemplo, li 24 livros. Apesar de querer ler mais, tenho muita dificuldade para encontrar com facilidade histórias que realmente me encantem. Descobri, ao longo da minha jornada literária, que sou uma leitora que se move muito mais pela escrita, pela voz e pelo jeito de escrever do autor do que pela história em si. Se a forma como as palavras são colocadas no papel não tiver uma beleza ou uma sensibilidade que me toque, o enredo sozinho não consegue me segurar. Para mim, a literatura é sobre a experiência com a palavra.
Qual livro você está lendo atualmente e qual filme ou série ou documentário você viu recentemente e gostaria de nos indicar? Não importa o gênero nem tema!
Atualmente, estou lendo Oração para Desaparecer, da Socorro Acioli, um livro que me encanta profundamente pelo lirismo e pela forma mágica com que ela trabalha a identidade e o mistério na escrita.
Imagem: internet
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Entrevista entrelinhas
Já nas telas, assisti recentemente e indico o filme Bugonia, do diretor Yorgos Lanthimos, lançado no ano passado. É uma obra genial e perturbadora que acompanha dois homens obcecados por teorias da conspiração que sequestram uma grande empresária, crentes de que ela é uma alienígena. O longa opera de um jeito muito louco e instigante, que nos tira do lugar comum e provoca uma reflexão profunda sobre as nossas próprias percepções: ele nos faz questionar até que ponto o que juramos ser a verdade absoluta não passa de uma projeção da nossa própria mente.
Imagem: divulgação/internet
Para finalizar, duas perguntas:
1- O que as pessoas do mundo real [fora dos eventos e das páginas ficcionais] não sabem?
As pessoas do mundo real, que convivem comigo no dia a dia ou que me conhecem casualmente, não fazem ideia da “outra pessoa” que há em mim. Elas me veem ali, focada na rotina prática da odontologia, mas não
sabem que, nos bastidores da minha mente, eu lidero um universo inteiro. Quem me vê na calmaria da rotina profissional mal imagina como a minha mente é movimentada, inquieta e constantemente cheia de enredos, diálogos e desfechos que estão sendo arquitetados em tempo integral. Elas não sabem das conversas que tenho mentalmente com os meus personagens entre o atendimento de um paciente e outro, nem do esforço invisível e solitário que é construir um livro do absoluto zero. É uma intensidade que fica em silêncio, às vezes por meses, anos até, antes de finalmente ganhar o papel.
2- Conte para a gente, sem mentira!, quanto da sua biblioteca pessoal você leu e quanto está na “fila de leitura”?
Confesso, sem mentiras: tenho muitos livros não lidos na minha estante! Como eu leio devagar, gosto de saborear cada página. Hoje em dia, eu não leio apenas como uma leitora comum, mas sim com o olhar minucioso de uma escritora. Eu analiso a estrutura, reflito sobre as reviravoltas da história e me deleito profundamente na escolha de palavras do autor. Essa lentidão e esse cuidado fazem com que o meu ritmo de leitura não consiga acompanhar o volume de livros novos que chegam à minha estante. O resultado é que estou sempre com uma fila de leitura gigantesca e acumulando mais histórias do que dou conta de ler, mas encaro isso com muita leveza e bom humor. Afinal, para
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Entrevista entrelinhas
para quem ama literatura, uma estante cheia de promessas de novas histórias é sempre um lugar feliz [risos]!
FIM.
Tá, mas e a Bienal, hein?
Como foi estar na Bienal de São Paulo este ano com o Literunico? Foi sua estreia, certo? Comente o que puder!
Estar na Bienal Internacional do Livro de São Paulo este ano foi uma experiência simplesmente indescritível. Foi a minha primeira vez no maior palco da nossa literatura, um lugar vibrante onde o amor pelos livros ganha forma e nos cerca por todos os lados. Poder vivenciar isso e ter a oportunidade de falar cara a cara com os leitores sobre a Duda e o Ravi foi de uma felicidade imensa. Eu sou suspeita para falar, mas acredito com todo o meu coração na força de As Palavras Que Eu Não Disse; eu sei que essa história tem uma mensagem bonita para deixar no mundo e ver o público se conectando com ela foi emocionante. Tudo isso só foi possível graças à [editora] Literunico. Só tenho a agradecer ao Eder e à Eliz por acreditarem em mim e por terem me dado a chance de viver a Bienal como autora. Através deles, também pude conhecer e me conectar com muitos outros escritores. A comunidade de autores independentes no Brasil é extremamente forte e a Literunico faz um trabalho brilhante em nos dar voz, suporte e espaço para crescermos juntos.
Imagens: arquivo pessoal da autora/divulgação
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Por Marco Simões
Tonho
O sol já ia baixo quando cheguei ao calçadão de Copacabana. O mar tinha aquela cor de fim de tarde que não é azul nem cinza, e o cheiro de sal se misturava com o de milho assado do carrinho na esquina.
Foi ali que o vi.
Um menino sentado no banco de pedra, ainda ofegante, a camisa grudada num corpo magro demais para os dez anos — daquele jeito franzino de quem passou mais tempo de cama de hospital do que de rua, mais tempo sem fome do que com ela. Olhava para o campo de areia, onde os outros meninos continuavam o jogo sem ele.
Sentei ao lado dele. Não perguntei se podia.
— Saiu do jogo cedo — eu disse, mais afirmação que pergunta.
Ele me olhou de lado, desconfiado, do jeito que menino de dez anos olha para estranho que se mete onde não foi chamado.
— Cansei.
— Não é só cansaço. Eu conheço esse tipo de falta de ar.
Ele não respondeu, mas parou de fingir que olhava o jogo.
Conto
Imagem de Chanwit Whanset por Pixabay
— Sibila quando você respira fundo — continuei. — De noite, faz aquele som de gaita velha no peito.
Ele arregalou os olhos.
— Como o senhor sabe disso?
Não respondi direito. Só disse:
— Quantas vezes você já ficou internado?
— Muitas. Desde que eu nasci, quase.
— Eu também.
Ficamos calados um tempo. O carrinho de milho tocava a sineta ao longe.
Uma mulher gritava o nome de algum filho que não vinha.
— O médico falou alguma coisa pra sua família? — perguntei, já sabendo a resposta, mas precisando ouvi-la da boca dele.
O menino baixou os olhos para a areia grudada nos pés.
— Falou que eu não vou passar dos dez anos.
— Eu sei.
— Como o senhor pode saber?
Não respondi de novo. Em vez disso, contei uma coisa que nunca tinha con-
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Conto
tado a ninguém daquele jeito, sem enfeite, sem pressa.
— Eu tive uma tia. Chamava Ilka. Mulher inteligente, respeitada por todo mundo, mesmo os que não entendiam direito aquele jeito dela de enxergar coisa que os outros não viam. Um dia, bem aqui, nessa areia, ela me perguntou: ❝E aí?❞ Eu falei: ❝E aí o quê?❞ Ela disse: ❝O médico falou que você não vai passar dos dez anos. O que você escolheu?❞ Eu não entendi. ❝Como assim, escolhi?❞ E ela: ❝A vida é uma escolha, menino. Você escolhe viver ou não viver.❞
O menino tinha parado de respirar fundo, como se tivesse medo de perder alguma palavra.
— Eu falei que queria viver. Ela falou: ❝Então vive. Não deixa a doença tomar conta de você. Vive em função da sua felicidade, dos seus sonhos, não da sua doença.❞Perguntei o que eu queria fazer naquele momento. Eu disse que queria jogar bola com os meninos ali na praia. Ela falou: ❝Então vai.❞ Eu disse que tava com falta de ar, que se eu morresse... E ela virou pra mim e falou uma coisa que eu levei a vida inteira comigo.
O menino esperou. Eu também esperei, só para sentir de novo o peso daquelas palavras antes de dizê-las.
— Ela falou: ❝Se você morrer, eu vou ficar super feliz. Porque você vai ter
morrido fazendo aquilo que você queria. Você não desistiu.❞ Silêncio.
O menino olhava para mim agora sem desconfiança nenhuma, só espanto.
— Ela se chamava Ilka?
— Chamava.
— A minha tia também chama Ilka.
Não respondi. Deixei o vento levar aquilo pro mar.
— Ela falou isso pra mim semana passada — disse o menino, quase sem voz. — Palavra por palavra.
O menino levantou a barra da camisa e limpou o suor do rosto com ela, do jeito apressado de quem nem pensa no gesto. Foi o tempo suficiente. Vi a cicatriz grande no abdômen, a mesma que eu conhecia melhor do que conhecia o próprio rosto no espelho — marca de operação que tinha mexido no corpo inteiro, de um menino que passou o primeiro ano e dois meses de vida mais dentro de hospital do que fora dele.
— Eu sei — falei.
Não expliquei mais nada. Tem coisa que explicação estraga.
Levantei, sentindo os joelhos que não são mais os de quem corre atrás de bola. O menino continuava sentado, olhando pra mim como quem tenta guardar um rosto que sabe que vai es-
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quecer.
— Vai ter muita noite difícil ainda — falei. — Vai ter hospital, vai ter gente falando que não vai dar certo. Vai ter um dia, lá na frente, que o coração vai falhar de repente. Vai ter noite que a respiração vai parar — mais de uma vez. Mas bota isso na cabeça e nunca esquece: eu posso, eu quero, eu consigo. Faça por merecer.
Ele assentiu, sério do jeito que só criança que já sofreu demais sabe ser séria.
Comecei a andar. O mar batia manso. Ao longe, os outros meninos gritavam gol.
Foi então que a vi vindo em minha direção pelo calçadão — mais jovem do que eu a guardava na memória, o vestido claro batendo nas pernas, os olhos já com aquele jeito de enxergar mais do que os outros enxergavam.
Tia Ilka.
Ela parou de andar por um instante. Me olhou.
Não foi um olhar de quem reconhece um rosto. Foi outra coisa — como se ela estivesse vendo, por trás de mim, alguma coisa que só ela sabia ler.
Eu balancei a cabeça, devagar, na direção dela. Não um cumprimento. Um agradecimento.
Ela não sorriu. Só balançou a cabeça de volta, do mesmo jeito, como quem
Conto
aceita um obrigado que ainda não tinha sido dado — ou que já esperava havia muito tempo.
Continuamos, cada um seu caminho.
Não cheguei a sair do calçadão quando ouvi a voz dela atrás de mim, agora dirigida ao menino:
— Tonho, vamos pra casa?
Continuei andando. O vento levou o resto pro mar.
Não olhei para trás. Não precisava.
Maraú-BA IG @marcosimoes2025
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Conto Por Edson Briato
Parada de ônibus no município de Novo Hamburgo-RS. Foto tirada em 20/09/26. Foto: Acervo do autor A Viagem que A Gente Perdeu
Há um silêncio esquisito nas esquinas de hoje. Um tipo de mofo invisível que vai comendo os cantos do que a gente viveu. Outro dia passei por uma estrutura de ferro enferrujada, metade acrílico trincado, metade poeira acumulada de anos. Um lugar esquecido no acostamento. Nem sei se ainda dá para chamar aquilo de ponto de ônibus, porque para ❝parar❞ alguma coisa é preciso ter chão firme, e aquilo ali parece desabar a qualquer sopro mais forte de vento. Fiquei olhando. E por um segundo, a ferrugem sumiu.
Lembrei de quando a vida era mais devagar e os ônibus pareciam gigantes de metal vindo ao longe, sacudindo a poeira da estrada. Lembrei da mão da minha mãe apertando a minha, fria da manhã de inverno. A gente não olhava para telas; a gente olhava para o horizonte, esperando aquela cor familiar surgir na curva. Ir ❝ao centro❞ não era uma tarefa burocrática, era uma expedição. O ponto de ônibus era o portal, uma sala de espera mágica onde todo mundo compartilhava a mesma expectativa silenciosa. Tinha uma poesia bonita em estar ali, parado no tempo, vendo a pequena cidade parecer enorme aos olhos de uma criança. Hoje as pessoas passam apressadas, encolhidas em seus fones, sem reparar na ruína dos lugares que já abrigaram tantos abraços de chegada e acenos de despedida. Ficou tudo tão funcional, tão descartável.
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Conto
Deixaram os nossos pontos caírem, e com eles, deixaram cair também um pedaço da nossa paciência para o caminho. Dizem que colocar verso em abrigo de ônibus é bobagem, vandalismo ou até um crime contra a ordem da cidade. Mas absurdos mesmo são esse cimento frio e o esquecimento. Se a gente não puder encontrar um pouco de poesia enquanto espera a vida passar, então, a gente já perdeu a viagem faz tempo.
Novo Hamburgo-RS IG @esperaspoeticas
MPB com Clarice Ravena
Cantora e compositora Salvador e Região Metropolitana Conheça a artista clicando aqui. IG @clariceravena Contato para shows 73 98246-9941
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Conto Por Eduardo Reghim
Imagem: Pexels Anderson Nikon
A VERDADE VOS LIBERTARÁ
Certo dia, um homem vai ao supermercado com sua família. Chegando lá em seu Fiat Pálio 2008, cor verde, decidiu não entrar no estabelecimento com sua mulher e filho. Alegando cansaço físico e mental. Passados alguns minutos, aquele pai de família estava a refletir no silêncio do seu auto, observando o belo ocaso no limiar da cidade, quando: — Senhor, desculpe lhe importunar, mas... — Não, eu não tenho nada para você. Havia certo desconforto naquele pai de família, afinal o andarilho estava fétido, além de apresentar uma aparência grotesca. — Já disse que não, vai perturbar outro! O clima ficara tenso pela insistência do andarilho em fazer seu pedido habitual. Talvez pelos gestos furiosos do sujeito bem vestido e mal-humorado, aquele senhorzinho decidiu desistir da empreitada, retirando-se cabisbaixo. O maltrapilho de barbas longas e envelhecidas já estava a certa distância, caminhando com sua dificuldade corriqueira. — Senhor, espere. A voz amena do jovem pai de família ostentava certo arrependimento. A aparência daquele senhor o fazia recordar de seu avô, e isso o comoveu. — Não é muito, mas espero que dê para saciar seu vício. — Jovem, eu lhe agradeço, mas cuidado ao julgar um livro pela capa, nem tudo é o que parece ser.
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Conto
Seguiu seu caminho após retrucar a ironia daquele que lhe auxiliara. O bom vocabulário daquele invisível chamou a atenção do homem, que afinal se apresentou: — Augusto, me chamo Augusto. — Sagrado, venerável, digno de respeito. — Como é? O velho sorriu com os olhos ante a dúvida de Augusto. Prosseguiu um tanto altivo: — Do latim AUGUSTUS, era um título concedido a Otávio, o primeiro imperador romano, acho que em 27 a.C. Acariciou o próprio queixo e completou: — Elevado, este é um dos significados de seu nome. Passar bem e, mais uma vez, receba minha gratidão por saciar o vício de um velho ninguém. Augusto enrubesceu, gaguejou e, sem perceber, tocou o ombro do velho, notando que a blusa do pobre coitado estava desfiando de forma preocupante. — Caramba! Quem é você? — Um velho ninguém, já lhe disse. Voltou o rosto e seguiu em direção contrária. — Não! Espere, perdoe-me. Se tiver um tempo, vamos conversar um pouco? O velho soltou uma gargalhada desconcertante: — Tempo eu tenho de sobra, mas, em paralelo, a areia da ampulheta já está praticamente contada. Fitou de maneira firme a Augusto: — Tudo bem, Augusto, o que deseja saber? Desconcertado mais uma vez, Augusto titubeia, mas logo se ajeita: — Jogar conversa fora, só isso. Mas confesso que fiquei impressionado e também curioso. — Claro que ficou. Como pode um andarilho ter algum conhecimento, cultura, não é mesmo? Augusto engoliu seco: — Acho que julguei o livro pela capa. Ambos soltaram risos exacerbados. O velho contou de sua vida, da família que um dia teve, de quando lecionava história num colégio particular, do cãozinho que deixara no passado; entretanto, não quis revelar o próprio nome, algo parecia o impedir. — Olha, me deixou impressionado, mas como um homem que tinha tudo permite-se viver nessa situação? O velho exibiu um sorriso irônico e, ao mesmo tempo, inquisitivo. — Quer dizer, me perdoe, não é da minha conta — tentou consertar a indelicadeza o jovem Augusto. O velho ergueu a mão direita, como a sinalizar para Augusto encerrar a fala: — Nem eu sei mais.
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Conto
Risos, silêncio, olhares que dialogam. — Mas você não deseja voltar aos seus, retomar sua vida, libertar-se? — Libertar-me? Augusto coçou o queixo, gesticulou de forma desordenada: — Sim! Dessa condição subumana, das privações que essa vida lhe oferece, voltar à sua vida real. O velho o convidou para ir até a calçada: — Observe — ordenou o velho, soberano. Augusto questionou com seus belos olhos verdes, a cor da esperança. — O que é real? Me mostre. Augusto nada disse, mas observou uma jovem correndo com uniformes de treino, dois jovens com a cara grudada no celular exibindo sorrisos imbecis, outro homem mais ou menos de sua idade desfilando num carro de alto valor e duas senhoras os arrebatando com olhares acusatórios. — Um corpo bonito, um eletrônico insosso e caro, roupas e carro de grife e a posição social que lhe permite julgar aquele que está fora do padrão. Essa é a liberdade que está me oferecendo, alegando que é melhor do que a vida que eu vivo? — Não é? O velho ficou cabisbaixo: — Aí você acorda de seu berço esplêndido e percebe que suas garantias não lhe servem de nada. Tudo o que você julga essencial pode evaporar de um minuto para o outro. Tocou o ombro esquerdo de Augusto: — Hoje você é um homem de respeito, de bem; amanhã ninguém lhe quer por perto, pois você já não serve aos interesses de seu patrão, da sua mulher ou de seus filhos. Você se torna a pedra no caminho. ❝No meio do caminho havia uma pedra, havia uma pedra no meio do caminho❞. Uma lágrima furtiva realizou um salto kamikaze dos olhos cansados de um homem desiludido. — E aqui, o que tem para você? O velho inflou os pulmões e saciou a curiosidade de Augusto: — Enquanto você dorme o sono dos justos, eu observo o maior espetáculo do planeta, todos os dias saúdo Guaraci, o deus sol. Você precisa acordar pela manhã, calçar seu sapato velho e surrado, vestir sua roupa bonita, que ninguém lembra da cor ao cruzar contigo pelas ruas e se apresentar religiosamente num mesmo horário no lugar onde trabalha há mais de três décadas, até que um dia se aposente e se frustre por não poder lá voltar; eu acordo a hora que bem entendo, vou para onde quero e retorno quando e se desejar; hoje estou aqui, amanhã não importa. Você precisa de remédios para conter a ansiedade provocada pelos boletos, eu só preciso de um prato de comida e um cobertor. Augusto refletiu, fitou o velho:
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Conto
— Jamais trocaria de lugar contigo. — Nem eu. O velho, num gesto impensado, abraçou Augusto, que, apesar do asco e da surpresa, retribuiu. Por um momento, Augusto se desfez de sua casca social e se viu em igualdade àquele maltrapilho. Augusto não sabia explicar sua reação. O velho exibiu um último sorriso, dessa vez amistoso e até meigo e, enquanto se distanciava de Augusto, bradou como Dom Pedro a invocar a independência do Brasil: — E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará! Naquela noite, Augusto dormiu ao relento no alpendre de sua casa, à espera do espetáculo de Guaraci.
Nota do autor: o andarilho, que nunca mais vi nesta vida e que talvez possa nem estar mais entre nós, enquanto desaparecia de minha vista, disse que seu apelido era Noca. Noca foi quem inspirou Stefano, de meu primeiro livro: O andarilho.
Varginha-MG IG @eduardoreghim
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Conto Por L. Nocturne
E se...
Início [ou reinício] — Eu queria construir um futuro com você, ter uma vida onde o dinheiro e a realidade batendo na nossa cara não nos afetasse pois teríamos estabilidade, financeira e mental, queria te amar de uma forma saudável, calma, termos paz. É isso que eu queria. E sei que você não sente a mesma coisa, eu vou ficar aqui vivendo minha vida, te eternizando nos meus livros, poemas e músicas, e simplesmente não farei nada, muito menos te forçarei. Eu sou uma louca apaixonada por você, te amo há anos, mas não sou e nem quero ser egoísta. Ouvir a voz dela depois de anos sem a ver, era como ver um fantasma, algo me fez sentir um aperto e meu coração acelerou. — Sim, mas já acabou. Eu te amei, mas acabou. — Disse decidida. Olhei seu olhar e eles pareciam ter dor, respirei fundo e me mantive segura da minha decisão. — Tudo bem, eu já estou acostumada. Aquela palavra parecia vir como uma facada em meu peito, quis chorar, gritar, mas desliguei.
*** Acordei de uma vez em minha cama e senti braços em volta do meu corpo,
Conto
Marabá-PA IG @l.nocturne__
achei por um segundo que poderia ser ela. Mas me enganei assim que não percebi seu cheiro de perfume amadeirado e doce ao mesmo tempo. Era só um doce. Virei meu rosto e vi um dos meus encontros dormindo abraçada em mim. Suspirei fundo e me desvencilhei dos braços dela, indo para o banho. A água caindo em meu corpo me faz revisitar memórias, não as que vivi ontem, mas dela. Seu toque que me fazia perder a noção do que era dia ou noite naquele momento, seus beijos calorosos e apaixonados, algo nela me deixava inebriada. Meu corpo esquentou na água em temperatura ambiente e de repente senti um toque. Me virei achando que era ela mas era o a outra mulher novamente, ela parecia bem feliz em me ver agora, nua, banhando, e com um olhar carregado pela luxúria. — Bom dia. — Disse rouca pelo sono da manhã e eu respondi com um aceno. — Você estava bem animada ontem. — Estava nervosa, isso sim. — Falei pegando meu sabonete íntimo e usei ele para limpar qualquer resíduo. – Mas depois das cervejas fiquei mais calma.
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Conto
— Sim, eu tinha percebido. — Ela se aproximou para me beijar e eu deixei. — Quando nos veremos novamente? Esqueci de dizer para ela que eu iria viajar para a cidade que cresci essa tarde e que estava indo a trabalho para viver lá. Sorri nervosa e olhei para ela. — Sinceramente, serei gentil. — Iniciei o diálogo. — Eu vou para outra cidade, então não verei você novamente. — Tudo bem, eu entendo. — Ela disse simples e após terminar seu banho andou até a porta. — Mas se caso vier um dia, estarei aqui. Ri com sua sugestão e terminei meu longo banho. Fui aprovada como procuradora municipal, após ser nomeada entrarei em posse, e estou me despedindo pela última vez da cidade. Como ainda não assinei, vai dar tempo suficiente para mudança e já escolhi o apartamento perfeito. Não era enorme nem muito luxuoso, mas tinha bastante espaço, um passo importante para mim que planejo, após um longo tempo de trabalho, comprar minha casa. Contém uma sala de estar, cozinha americana e dois quartos. É o que dá com o custo do caução, aluguel e o lado bom é que não preciso pagar água. Nossa, esse assunto já começa a me dar dor de cabeça. Mas é o que se espera quando se trata de vida adulta, porém com
um toque de vida juvenil claro. Ando até minha gata e lhe dei ração a vendo se aproximar faceira e começar a comer, Selina parece mais calma considerando a enorme bagunça que ela fez em casa assim que minha visitante veio comigo do meu encontro. — Você envergonhou a mamãe, acredita? — A gata não parecia ligar para minhas palavras, estava bem ocupada, mastigando e engolindo a ração. — Mas está tudo bem, mamãe te ama. Arrumei a caixa de transporte que consegui comprar para ela e quando a vi terminando, a deixei brincando com o brinquedo de bolinha. Assim que arrumei a cama e retirei as colchas, ouvi a buzina e fui até o lado de fora. Era o caminhão. — Samantha Ferreira? — O homem perguntou, tentando confirmar. — Eu mesma. — Abri mais o portão e minha gata que estava ocupada no brinquedo ficou arisca. — A cama está lá e tem também essas últimas caixas. Podem entrar. Os dois desceram e assim que entraram levaram o colchão e depois a base da cama de casal, as últimas caixas foram levadas depois e eu disse a localização certa e disse que estarei lá dentro de 2 horas de viagem. — Vai ter alguém lá para esperar? — o senhor que dirige a pergunta e de
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Conto
repente só pude lembrar de uma pessoa que me ajudaria nisso. Balancei a cabeça e disse que sim. — Minhas tias, não conseguirei estar em contato pois estarei na estrada, mas aqui. — Entrego o número. — O número delas para quando chegarem lá. Ele somente concordou e entrou no caminhão. — Espero que nada dê errado. [....] A parte mais cansativa de uma mudança? A mudança. Nunca vi algo que cansa tanto quanto arrumar tudo e tirar da caixa as coisas. Estava desde que cheguei até agora de noite tirando tudo. Pelo menos está tudo aqui. Minhas tias até me ajudaram no começo, mas conforme foi ficando tarde, precisaram ir embora. Tirei a foto que tinha dos meus pais e eu quando tinha 4 anos e sorri de saudade. Eles eram tão jovens e pareciam felizes. Infelizmente meus pais se foram quando eu era criança. Não pude crescer com a vivência deles então quem me criou foi minha avó e minhas tias. Eu sou o legado que ele deixou de acordo com elas. Admito que elas fizeram de tudo para eu não me sentir abandonada, uma criança órfã. Ela concordava. Ah ela... Sempre tentava me fazer sentir bem. Mas por que me deixava tão mal na mesma
proporção? Pare Samantha, você já não tem mais nada com ela. Não tem por que remoer o passado! Caí na cama após o banho totalmente cansada, estava exausta pela mudança e já verifiquei se minha comida não estragou, que por sorte não. Estava navegando pela rede social, e pensei em todas as possibilidades novas que poderiam acontecer agora que estou na cidade de Parê. Jarapainga era bem difícil de viver e ter oportunidades. Aqui já consegui passar no concurso, foi difícil após 2 anos estudando após a formação, mas consegui. A vida dos meus amigos pareciam estar andando muito, alguns conseguindo sucesso, outros casados e com filhos. Minha psicóloga disse para não me pressionar, eu estou seguindo meu ritmo. ❝Mas por que sinto que estou atrasada?❞ Devo estar me sentindo pressionada. ❝Mas por quem?❞ Eu mesma talvez. Esse longo monólogo interior foi o suficiente para me fazer parar em uma foto específica. Não uma foto qualquer Não uma pessoa qualquer. É ela. Uma foto que eu curti em um dos meus perfis, aparecendo inclusive a minha curtida nela. Ah.. Emma. ❝Como ela deve estar?❞ Será que conseguiu ir em frente com
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os planos mirabolantes dela? Não falo com ela há 7 anos. ❝Vou procurar o perfil dela onde tem as fotos mais atualizadas.❞ Estava procurando e assim que achei estava trancado, não me atrevo a pedir para seguir. Seria muito humilhante. Volto para o antigo perfil dela. Observo a foto e a última que tinha. ❝Ela está.. tão linda.❞ Meu dedo deslizou para curtir e me desesperei assim que saiu curtida. — DROGA! — Falo desesperada e sem querer espanto a Selina. — Desculpa filha, mamãe fez um acidente. Penso por um tempo e tiro a curtida. — E agora o que eu faço? — Repenso assim que tiro a curtida. — Não vai fazer a curtida desaparecer, droga já foi. Giro pela cama e entro no direct dela, mordo os lábios em nervosismo e vejo ela ficar online 1 minuto depois. — Ah não, deve ter visto. — Me controlo para não gritar de raiva e me levanto abruptamente. — Calma Sam, mantenha o resto de dignidade que ainda tem. Assim que falo penso em algo e começo a pôr em prática.
Me: Oi, tudo bem? Estava vendo o insta e como estou na cidade, pensei
Conto
em simplesmente te ver, já faz anos. Seria bom a gente conversar.
Fui mexer em outras coisas do Instagram e senti mesmo assim meu coração acelerar ao ponto de querer sair pela boca. Uma notificação me chamou atenção.
Em: Oi, no shopping, sábado. Me: Amanhã para mim está ótimo também. Em: Está bem. Até lá, às 14.
Meu coração saltava, parecia que eu mesma não conseguia acreditar no que eu fiz. ❝É só uma conversa calma entre duas amigas, vai ser algo normal e calmo.❞ Tentei me convencer e assim que me acalmei me levantei e fui fazer meu jantar. ❝Como será que ela deve estar?❞ Provavelmente mais velha, ela deve estar aos 30 anos já. Lembro que ela é de 2001, aparentemente aos 32 já que passou do dia 10. ❝Como eu lembro do dia do aniversário dela após esses 7 anos?❞ Ah, não vou elaborar minha memória nesse momento, vou fazer meu jantar e ir dormir. [....] Escolher a melhor roupa sempre parece difícil para mim, não porque
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Conto
quero agradar alguém, mas porque quero me agradar. Quero estar belíssima. — Uma saia xadrez? — Me pergunto enquanto separava as roupas e vejo uma que minha avó deu para mim. — Vai ser essa. Pego ela e uma blusa preta que entra em contraste com ela. Eu sempre tive conflitos com meu corpo, me achava fora demais dos padrões que são considerados para as mulheres, mas eu não nego que gosto da acentuação de minha coxa, pernas e quadris, me acho bonita por esses detalhes e tento valorizar os outros inclusive meu rosto e cabelo, que são os que mais gosto. Já ela não, ela sempre viu meus olhos como algo especial e que era a parte essencial da minha beleza. Me arrumei após o banho demorado que fiz para limpar o cabelo que já estava sujo pela mudança e fui pedir um moto uber para ir ao shopping. Assim que o rapaz chegou, ele me deu o capacete e eu subi na garupa. A cidade estava exatamente como me lembrava, e como eu visitava em torno desses anos. Os carros, pelo contrário, estão cada vez mais movimentados, temo que possa haver um acidente. Um em específico me chamou atenção, era bonito. O rapaz parou a moto e observei de lado o carro, uma mistura moderna e
clássica, e assim que o sinal ficou verde vi o carro dar partida e ir embora. Vi a marca e deduzi que era BMW, ignorei no restante da viagem até o shopping e assim que cheguei paguei o rapaz e entrei. Senti minhas mãos suarem e uma vibração na minha bolsa me chama a atenção para a realidade.
Em: L4.
Me: Tô indo.
Entrei no shopping e fui subindo de escada rolante até o piso L4 e conforme ia de piso em piso, procurava rostos conhecidos, como se tivesse mais alguém no meio. Tentei lembrar de algum lugar no L4 que ela pudesse estar e assim que pisei os pés, fui em direção até a praça de alimentação do piso, olhei em volta da praça, ela não estava lá. Peguei o celular e assim que pensei em mandar mensagem, seu cheiro invadiu meu olfato. — Oi. — Sua voz parecia rouca, diferente da voz jovial que tinha aos 24. Me virei e assim que a olhei senti uma sensação de estranheza e familiaridade. De todas as formas. Era ela.
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Por Michelle Louise Paranhos
PASSAS AO RUM
Conto
Aos dez anos, a distância se mede de um jeito diferente. Não importavam as centenas de quilômetros que separavam nossa casa no Rio de Janeiro do paraíso das águas termais em Goiás; a viagem de verdade acontecia dentro daquela Kombi valente. Cada subida da estrada deserta, cada lombada natural do asfalto que nos fazia flutuar no banco, era o ensaio geral para o que nos esperava em Caldas Novas. Era um parque de diversões particular. Quando as luzes da cidade piscaram ao longe, o cansaço sumiu num estalo. Meu pai seguiu direto para o hotel enquanto a tarde se despedia. No banco de trás, eu e minha irmã mais nova já estávamos cansadas demais para brincar de ❝fusca azul❞. A mais velha resmungou com azedume porque teve que pausar a música no headphone que estalava sem parar. Para o desespero dos meus pais, houve um probleminha com a nossa reserva. De repente, estávamos de mala e cuia, presos dentro da Kombi, sem lugar para passar a noite. Nos indicaram uma pousadinha de uma estrela, duas com muita boa vontade. Adivinha? Sem vagas.
Conto
— Parece aquele desenho do Pica-Pau, né, mãe? — comentei. — Aquele que ele procura vaga e só dizem ❝não há vagas! Sem vagas! Nenhuma vaga!❞ Minha mãe e minha irmã mais velha combinaram o mesmo olhar sério para mim. Minha irmãzinha, animada, gritou da janela: — Eu vi, eu vi! Permitiram que entrássemos para jantar e usar o banheiro. Mas a noite foi mesmo na Kombi. Mamãe rebateu os bancos e a gente dormiu ali. Meus pais ficaram ❝bastante confortáveis❞ na frente, no do motorista e no do carona. Eu achei o máximo. Não entendi por que acordaram reclamando de dor nas costas. Na manhã seguinte, era hora de aproveitar as águas termais. Afinal, era para isso que tínhamos viajado. Mas sem reserva no hotel, sem piscina. Foi minha mãe quem resolveu. Com a mesma criatividade e flexibilidade que, quarenta anos depois, me permite olhar para uma página em branco e criar ali um conto, uma crônica ou um romance.
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Conto
Ela descobriu um córrego. Quase uma vala mequetrefe, com umas quedinhas d'água desmilinguídas Mas para os meus dez anos e os três da minha irmã, foi uma verdadeira aventura. A mais velha se recusou a entrar e ficou de muxoxo na beira do riacho. Melhor para nós. Chapinhamos na água quente com o bônus de peixinhos beliscando nossos pés. No fim da tarde, hora de sair da água, para nossa decepção. Decepção resolvida com sorvete. O sorveteiro já tinha uma fila de crianças. Na minha frente, uma menina da minha idade. — Quero de baunilha. O que você vai querer? — Ela me disse, como se já fôssemos íntimas. Como sempre, fiquei na dúvida. Coisa de libriana. — Então, garotinha, o que você quer? — foi a vez do sorveteiro perguntar. Diante do meu olhar perdido, ele sugeriu :— Quer passas ao rum? Balancei a cabeça que sim. Hoje imagino que ele sugeriu aquele sabor por ser o menos escolhido pelas crianças. Tanto melhor: virou meu sabor preferido. Até hoje não preciso dividir com quase ninguém. Depois do sorvete, voltamos juntas para o riacho. E não nos separamos mais. Ela, mineira. Eu, morando no Rio. Problema resolvido com papéis
de carta voando para cá e para lá pelos Correios. Passei a colecionar papéis de carta só para ter sempre um novo para mandar para ela. Enviava envelopes cheios de folhas de presente, broches para mochila — que hoje têm nome chique de bottons. Presentinhos. Até que viajei para Minas. Tinha 14 anos e foi minha primeira viagem sozinha. Depois ela veio para o Rio e fomos para a praia. Ali surgiu uma amizade que durou anos a fio. Há alguns anos recebi pelo correio o convite de casamento dela. O tempo passou e foi esgarçando aquela amizade até então estreita. Até o ano passado, quando a reencontrei na rede social. Ela viu a divulgação de um dos meus livros e mandou: — É você? Uma frase simples, mas que mudou tudo.
Como diria Buzz Lightyear, em Toy Story: para o infinito e além.
Seropédica-RJ IG @michellelouise.paranhos Facebook @ligadossete
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Conto
Por Tanise Sutil
Mais Cinco Minutos
Quando voltei à cidadezinha onde nasci, quase nada mais estava no lugar. Casas desapareceram, imóveis foram demolidos. A locadora deu lugar a uma loja de assistência técnica; as farmácias, onde antes mal se via a cor da fachada que desbotava ao passar dos dias, tinham letreiros simétricos com a mesma estética; consultórios que pareciam até clandestinos de tão camuflados entre as lojas se transformaram em clínicas sofisticadas. Senti falta das livrarias, dos sebos. Ninguém mais se interessava por livros, tudo virou bares cheios de pessoas absortas em seus dispositivos eletrônicos. O pingado servido na lanchonete virou um café superfaturado servido em um copo de papelão estampado com uma carinha feliz. Não havia mais nenhuma carroça chacoalhando pela larga rua empoeirada, apenas carros esportivos desfilando no asfalto. Transformaram a vendinha da esquina de casa num salão de beleza com paredes de porcelanato. O terreno da esquina de baixo, no qual existia apenas uma casinha que mais parecia uma choupana, tinha um casarão igual aos das novelas que antigamente assistíamos em família. Estacionei meu carro em frente à casa da minha infância. Até ela estava diferente. A placa de ❝vende-se❞ pregada no portão anunciava um produto novo para mim. Abri o portãozinho enferrujado e entrei. O jardim pare-
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Conto
cia menor tomado pelo matagal. Na infância, aquele trajeto era uma verdadeira expedição e eu era uma fada entrando em um reino mágico. Todos os tipos de seres viam-me passar, traziam-me guirlandas, flores e outros presentes valiosos. Naquele instante eu era apenas uma mulher cansada correndo contra o tempo. Eu até poderia ser uma fada, mas para isso teria que pedir ajuda às substâncias mágicas. Abri a porta da frente, os vidros parcialmente quebrados tremeram com o empurrão. Poeira dançava sob a luz do sol que entrava comigo e o chão quase sumia debaixo da sujeira. Caminhei pelos cômodos, menores do que eu me lembrava. No meu quarto, vi a menina mirrada lendo uma revista da Turma da Mônica na cama de cima do beliche, enquanto na de baixo, minha irmã adolescente escrevia em seu diário com uma das canetas em gel com aroma de fruta. No canto oposto, sobre a cômoda, o rádio toca um dos maiores hits da época. Uma música internacional que não fazemos ideia do que a mulher está falando, mas decoramos o único verso que sabíamos o que significava: ❝Don’t cry, don’t cry, don’t cry…❞ ❝Garotas grandes não choram❞. Demorei um pouco para descobrir o que a cantora dizia. Engraçado como a vida é. Hoje sou uma garota grande e às vezes tudo que quero fazer é chorar. Na cozinha, minha mãe na pia reclamava da louça que nunca tinha fim e meu pai na mesa com sua latinha de cerveja ouvia em um radinho de pilha suas músicas sertanejas, relembrando os seus tempos de menino. Saí pela porta dos fundos e andei até o quintal. Bob, nosso pequinês velhinho, deitado à sombra da laranjeira, suspira como quem está num sono que nunca vai ser interrompido por pesadelos. Nos fundos, minha bicicleta rosa encostada aguardava-me para um passeio. Sentei-me no chão ao lado da árvore. Tentei acreditar na ideia de que a árvore foi quem ficou menor e não eu que cresci rápido demais. De olhos fechados, ouço o ganido do meu companheiro de quatro patas. Pela janela da cozinha, minha mãe me chama para o café e quando entro meu pai está comentando abismado sobre algo que viu na televisão. Senti o cheiro bom do café, das laranjas maduras, do pão caseiro recém saído do forno. Então, abro os olhos. Silêncio. Não havia nenhum cachorro, nenhuma voz, nem café coado nem pão caseiro. Apenas o vento passando nos galhos secos da laranjeira. Ali eu entendi que não tinha voltado para a casa, tinha chegado em um lugar desconhecido. Levantei-me e voltei para o carro. Pensei em todas as vezes em que desejei crescer, ir embora, conhecer o mundo. Outrora, o futuro parecia promissor. Eu não sabia o tamanho da renúncia que o crescer trazia. queria ter sabido antes que crescer significava
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Conto
ver tudo desaparecer. Olhei novamente para a casa. A menina que eu fui ainda estava ali por detrás daquelas paredes. Meus pais ainda faziam suas coisas, minha irmã ainda estava descobrindo a vida e me ensinando o que podia. O cãozinho ainda aguardava ração e afago. Tudo continuava vivo, tudo estava no lugar. Com o coração apertado, pedi ao universo mais cinco minutos daquilo. Porém, o tempo não nos devolve nada, ele apenas nos permite revisitar onde estivemos e quem fomos. A vida não nos traz o tempo de volta. E isso é motivo suficiente para garotas grandes, assim como eu, quererem chorar.
Ipaussu-SP IG @tanisutil
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Tema: experiências extra-sensoriais
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Conto Por Elton Belmiro
Memórias
O sol da tarde entrava em feixes pela cortina que escondia a janela. Desde o começo da manhã ela estava naquele quarto onde guardava tantas coisas sem uso. Leocádia se sentou na banqueta e massageou suas pernas que doíam. Olhou para tudo aquilo, não aguentava mais tantos objetos à sua volta sendo empacotados e etiquetados. Ana ajudava a carregar as caixas para cima e para baixo na casa, a colocar as coisas onde deveriam e a preparar tudo para o carregamento quando o dia da mudança chegasse. Desde que Ana começou a morar ali, tudo foi mais fácil para Leocádia. A neta avisava quando era dia de ir ao médico, montava a lista do que comprar, entre outras coisas. Foi dela a ideia de se mudarem para uma casa menor e térrea. Custava para Leocádia deixar aquela casa, todas as lembranças que persistiam estavam ligadas àquele lugar. Se estivesse ali, Osvaldo não teria permitido essa mudança. Porém, Ana falou que a escada era perigosa e fez a avó se lembrar do escorregão que teve.
Leocádia olhou o relógio de pulso; estava quase na hora de ir preparar a janta para si e para Ana. Ela chegaria talvez de madrugada. Deixaria o prato
preparado dentro do micro-ondas. Porém, havia muito ainda a se fazer naquele quarto. Pensou consigo mesma que seria mais rápido caso Ana tivesse ficado, entretanto, ela teve um compromisso naquela tarde com o namorado. Como era o nome dele? Levou a mão na testa ao tentar puxar da memória o nome, talvez fosse André, ou Paulo. Ana namorou um Vinicius, disso conseguia se lembrar.
Na época, Leocádia gostava daquele menino, o considerava um rapaz adorável que dirigia um carro grande, silencioso e sempre levava as duas para uma praça. Ele deu de presente para Ana um par de brincos em formato de passarinhos e uma pulseira ou seria uma correntinha. Leocádia não tinha mais certeza do que era, porém poderia afirmar que raramente via a neta sem aquelas jóias. Se cansou de ver Ana dizer para todo mundo que eram o seu tesouro. Leocádia estava na cozinha quando a neta surgiu pela porta de forma brusca e sem dizer nada. Subiu as escadas pisando alto, com o som do salto de suas botas batendo forte contra os degraus. Horas depois ela apareceu na cozinha perguntando para a avó se poderia fazer um chá de camomila.
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Leocádia viu os olhos da neta inchados e vermelhos; dirigiu seu olhar para as orelhas, depois para o pulso. Perguntou dos presentes; Ana disse que perdeu ambos sem desviar o olhar da xícara de chá chinesa.
— O Paulo vai vir aqui hoje? — Leocádia perguntou para a neta. — É Vinicius, vó — girou a xícara em sua mão. — E por favor, não fala mais dele. Leocádia precisava deixar as lembranças para lá e terminar o que começou dias antes.
Abriu mais uma caixa de papelão. Pegou dessa vez os livros de receitas que foram presentes de sua irmã. Os organizou com cuidado, acima deles colocou um travesseiro para proteger as porcelanas chinesas que seriam postas ali. Era um aparelho de chá completo que nunca usou e nem soube ao certo por que comprou. Mas a cerâmica esmaltada, as folhas verdes pintadas à mão nas peças eram tão bonitas, tão vivas que nunca desbotaram. Leocádia segurava um dos bules entre as mãos quando a memória irrompeu em sua mente. Ela estava de férias com Osvaldo. Visitaram uma cidade que Leocádia já não poderia dizer qual era. Isso a irritava muito e fazia sua cabeça doer, entretanto, o calor, a poeira, os cheiros de temperos e ervas impregnavam o ar daquele
Conto
mercado a céu aberto. Entraram em uma loja com um letreiro grande que prometia as peças mais bonitas e mais exuberantes do mundo. Nunca esqueceria aquelas letras em vermelho, onduladas e ornamentadas. Andou entre os corredores abarrotados de itens que pouco chamavam sua atenção. As peças estavam colocadas em uma bandeja de latão em uma mesa enfeitada com um pano vermelho. Brigaram no preço por insistência de seu marido. Talvez tenham discutido também se de fato aquelas peças eram realmente chinesas. O vendedor jurou por sua mãe que assim o eram. Sentiu uma lágrima surgir em seu olho ao se lembrar daquele dia. Enxugou com as costas da mão e pensou em quantas vezes poderia ter feito chá com aquele jogo de peças; poderia ter feito de camomila, erva- cidreira, qualquer coisa. Enquanto ajeitava o item dentro da caixa, ouviu um barulho metálico dentro do bule. Leocádia abriu a tampa e olhou na parte interna, havia uma aranha morta e ressecada no fundo e fios de teia, porém o objeto que fez o som brilhou de maneira tímida. Uma correntinha de prata descansava ao lado da carcaça ressequida, ambas esquecidas. Ela virou o bule derrubando logo em seguida a correntinha em sua mão. Era pesada
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Conto
com elos se entrelaçando de forma contínua. A correntinha estava opaca devido ao tempo que estava escondida e esquecida. Lamentou-se pela situação em que a jóia se encontrava, acreditava que objetos deixados de lado ficavam tristes, tal como aquele jogo de chá nunca usado. Precisava polir e limpar; deixar assim seria uma falta de zelo que ela própria não poderia deixar acontecer.
Desceu as escadas de sua casa. Uma mão no corrimão e a outra segurando a correntinha com força. Enquanto ia de um degrau a outro com cuidado para não escorregar, se perguntava de onde veio essa corrente. Primeiro pensou em Osvaldo que lhe deu um presente na noite de núpcias. Poderia ter sido um anel ou um brinco, não se recordava. Entretanto havia recebido algo naquela noite pelas mãos de seu marido. Poderia também ter sido durante aquela viagem em que compraram o aparelho de chá, só poderia ter sido naquele dia no mercado. Havia prataria na loja. Leocádia passou uns bons minutos olhando as jóias, se enamorou de um colar banhado a ouro e com rubis falsos, o homem que vendia ficou ofendido ao ser confrontado sobre a falsidade do objeto. A segunda possibilidade que Leocádia pensou era ser o presente de Ana que havia desaparecido. A neta disse que perdeu
a pulseira, ou era uma correntinha. Mais uma vez tentou se lembrar até a cabeça começar a doer. Deixou a dúvida para lá, Ana disse que perdeu, era tudo o que precisava saber.
No caminho até a cozinha passou pelo corredor. Na parede havia muitos retratos, alguns antigos e amarelados e outros mais novos. Parou um pouco mais à frente olhando uma foto de seu casamento. Se casaram em uma tarde de sábado, parecia que o vento naquele dia estava horrível, jurava para todos que a sua grinalda saiu voando em algum momento, porém não havia mais ninguém para confirmar isso. Olhou para a sua mão e viu a correntinha. Como poderia ter se esquecido do que iria fazer?
Chegou à cozinha. Procurou uma vasilha nos armários e encontrou uma de porcelana que usava para tomar sopa às vezes. Colocou água para esquentar em uma chaleira e esperou o tempo para as primeiras bolhas começarem a surgir no fundo. Enquanto esperava, girava a corrente na mão, tal como uma freira teria feito com o seu rosário. Ainda desejava saber de onde surgiu aquela corrente. A foto do casamento na parede disparou sua memória, trazendo à tona lembranças de sua noite de núpcias. Era quase certeza que foi no quarto de hotel que recebeu aquela correntinha. Reconstituir o dia era a única coisa a
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se fazer nesse caso. A festa aconteceu, dançaram, tomaram champanhe e depois foram para um hotel. Osvaldo estava em seu terno azul escuro, ou talvez era o caqui que ele sempre usava na missa. Não gostava dessa dúvida, nem sabia quando ela surgiu. Entretanto, de seu vestido ela se lembrava, principalmente porque havia guardado anteriormente junto com outras roupas. O hotel onde passariam a noite de núpcias era um prédio alto à beira de um rio grande, largo o suficiente para quase não ver a outra margem. O nome do rio lhe fugiu, ou onde iriam passar a noite poderia ser à beira de um mar, não faria mais diferença naquele ponto. Porém a imensidão negra à sua frente, a cidade do outro lado brilhando, os barcos indo e vindo dominavam a sua visão. Ela sentou- se em uma cadeira na janela cruzando os braços no alpendre. Seu marido estava mais atrás fechando a porta. Ouviu o barulho do trinco e logo depois o som de uma mala sendo aberta. Osvaldo tocou seu ombro fazendo-a olhar para trás. Ela se virou, suas mãos suavam um pouco, viu que ele estava segurando uma pequena caixa preta e pediu para ela abri-la. Leocádia esperava outra coisa naquele momento, mesmo tremendo de leve levantou a tampa devagar; a corrente que estava ali brilhou na luz
Conto
do abajur.
As primeiras bolhas começaram a subir na chaleira. Leocádia foi até a prateleira e pegou papel alumínio, rasgou alguns pedaços e colocou no fundo da tigela; adicionou uma colher de bicarbonato de sódio e despejou a água, logo em seguida deitou a correntinha ali dentro.
Não demorou para que a cor opaca e escurecida fosse dando lugar ao brilho e à beleza original da correntinha. Leocádia observou, não sabia como aquilo funcionava, mas ficava sempre abismada quando seu marido fazia isso com anéis e outras jóias que possuíam. Leocádia pegou a correntinha e a secou em um pano de prato. Percebeu algo que não havia visto antes, uma plaquinha com algumas frases escritas. Leu e releu aquelas palavras grafadas na prata.
❝Ana. Amor da minha vida. Vinicius 2015❞. Segurou a jóia por algum tempo. Sorriu de leve e levou a mão na testa. Depositou sobre o tampo da mesa para voltar ao quarto, haveria ainda muita coisa para empacotar. Repetia para si mesma enquanto subia as escadas ❝Ana. Amor da minha vida. Vinicius 2015…❞
Apucarana-PR IG @elton_belmiro
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Imagem: Hiroshima; Pinterest
Conto Por Edimar Silva
O Fim do Mundo
No meu caminho para o trabalho sempre encontrava um senhor de barba longa, chapéu surrado, segurando uma placa que dizia ❝o fim está próximo❞. Todos os dias ele estava lá, no mesmo lugar, com a mesma placa, independente do clima. Repetia, calmamente, frases decoradas sobre como o mundo estava prestes a acabar. Sua voz calma, mansa, era convidativa, mas eu nunca havia visto ninguém se aproximar dele para dar-lhe ouvidos. O dia de hoje amanheceu chovendo — uma tempestade como há tempos eu não via. Passei pelo costumeiro lugar e avistei, escondido da chuva, o tal senhor. Com uma capa de chuva amarela já gasta, rasgada e suja, ele tentava passar sua mensagem para os poucos transeuntes que por ali perambulavam. Eu olhei para ele e notei que ele me fitava. Aproximei-me dele e, assustado, ele tentou recuar. Deixei claro que não iria fazer nenhum tipo de mal, que havia decidido pedir um táxi e que daria o meu guarda-chuva que ele pudesse se proteger melhor. Um sorriso tentou se desenhar naquela face castigada pelo tempo. Com certa hesitação, ele começou a se mover para vir de encontro a mim, tentando me agradecer. Mas as palavras dificilmente podiam ser ouvidas. Ele tinha tanta certeza do que falava ao dizer que o mundo estava perto do fim, mas, em contrapartida, tinha enorme dificuldade em agradecer por um gesto de carinho. Talvez a última vez que o ve-
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Conto
lho homem recebeu um ato gentil tivesse sido há tanto tempo que ele sequer sabia como dizer um simples ❝obrigado❞. Pedi que me contasse a história dele enquanto eu esperava meu táxi. Ele, meio amedrontado, me disse que não tinha muito para contar. Não era casado, não tinha filhos, não tinha lar. Havia perdido sua casa num incêndio e não conseguia encontrar emprego, até que teve um momento de ❝iluminação❞ [foi a palavra que ele utilizou], quando ele descobriu que o mundo estava para acabar. Eu, então, indaguei, querendo saber como o mundo acabaria. O senhor, então, abaixou a cabeça e começou a chorar. Pertinho do ponto de ônibus, ali onde ele ficava, notei que havia uma lata com algumas notas de dinheiro. Eu jamais havia percebido que ele, além de alertar as pessoas para o ❝fim do mundo❞, estava de alguma forma, pedindo ajuda. Naquele momento me senti mal por nunca ter dado tanta importância àquele sofrido senhor, tão simpático e sincero.
Meu táxi havia chegado. Coloquei minha mão no ombro dele e falei que as coisas melhorariam com o passar do tempo. Ele tentou sorrir, mas não conseguiu. Deixei alguns trocados na latinha dele e acenei, despedindo-me dele, enquanto entrava no carro. Saí do trabalho no finalzinho da tarde e a chuva já havia parado. Resolvi voltar para casa a pé mesmo. Comprei uma marmita e segui pela rua de sempre, com o coração cheio de alegria por ajudar alguém que precisava.
No entanto, me surpreendi ao perceber que a latinha de dinheiro estava caída ao lado do ponto de ônibus. O guarda-chuva que eu havia dado para o velho senhor estava armado, de cabeça para baixo, no meio da calçada, mas não encontrei o homem. Entrei na loja que ficava ali e perguntei para a dona se ela sabia o que havia acontecido. A mulher me disse que o homem havia sido encontrado desacordado no início da tarde. Provavelmente havia sofrido um infarto. O corpo havia sido recolhido e alguém saqueou o pouco dinheiro que ele tinha arrecadado até aquela hora. Estranharam, no entanto, que ele havia morrido com um sorriso no rosto — talvez por ter acertado a previsão: o fim estava, realmente, próximo.
Castro-PR IG @e.di.mar
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Traga sua história para o mundo com a entrelinhas.
FOLHETIM 2027
Sua história publicada aqui na
Revista Independente te vejo nas entrelinhas em 4 edições.
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Ensaio
Ensaio
PENSAMENTO INDEPENDENTE
Luz à Vida Por João Batista de Souza, Salvador-BA Professor e escritor sjoaobat85@gmail.com
Historicamente, pela própria atribulação no dia a dia, somos levados a não parar para refletir sobre nós mesmos e como estamos conduzindo a nossa vida. Em silêncio, achamos que o tempo é curto e ilusoriamente sentimos que o tempo não para e por isso, também não devemos parar para pensar. E mais importante, parar para sentir a nós mesmos, o outro e o mundo!
Ainda bem que na atualidade estamos iniciando a dar importância ao conhecimento filosófico e também valorizar a cultura e a arte como movimentos humanos importantes para a prática social. Concordamos com Ferreira Gullar quando disse: “a arte existe porque a vida não basta”. Quanto à filosofia, cada vez mais a presença de filósofos acontece nos meios midiáticos com maior frequência do que no século XX, quando a filosofia era percebida, preconceituosamente, como prática de loucos ou no mínimo, de quem vivia fora da realidade.
Há mais de vinte séculos, Platão, o grande filósofo grego, ao apresentar o mito da caverna, onde prisioneiros tentavam compreender os seus medos e necessidades, além de ignorarem que eram sombras deles mesmos, estabeleceu ricos referenciais de reflexão para a espécie humana. Dentre eles, O Mito da Caverna e O Banquete. Os prisioneiros da caverna, tontos e atribulados, também confundiam suas sombras com fantasmas ou seres que não conheciam ou compreendiam. E a luz na abertura da caverna trazia vislumbres de alegria, mas também representava conhecimentos perturbadores.
Esse quadro trazido pelo mito da caverna de Platão representa nós mesmos, o nosso templo corporal com nossas dúvidas, conhecimento de algo que pode ser passageiro e volúvel, mas sobretudo nosso corpo como templo de desafios, projetos e novas realizações. No mundo contemporâneo, muito do mito da caverna de Platão ainda persiste em nós e na sociedade. Nesse contexto, relacionando o quadro trazido por Platão é que precisamos também compreender o anúncio, pela Organização Mundial da Saúde [OMS], da solidão como epidemia mundial, a partir da realidade vivida em grande parte das regiões da Terra. Segundo a OMS, uma a cada seis pessoas no mundo sofre de solidão.
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Ensaio
seis pessoas no mundo sofre de solidão. A solidão ao mesmo tempo que representa um sentimento necessário para reflexão, conhecimento de nós, do outro e do mundo, de repente tornou-se um pesadelo que pode nos distanciar de nós mesmos, dos nossos projetos de vida e realização. Mas a pergunta que se deve fazer nessa hora é: porque não aproveitar o sentimento de solidão para nos fortalecermos individualmente e nos aliarmos a movimentos sociais para construir um planeta melhor, tornar pessoas melhores e um mundo mais humanizado?...
Ainda há tempo para isso, apesar de, às vezes, parecer que tudo está perdido. O que nos falta depende muito do coletivo e todo coletivo se inicia e reforça com os propósitos de cada sujeito! O processo mais promissor para a formação humana é a educação com a participação de toda a sociedade. Há um ditado africano que diz: “Para educar uma criança não basta a ação dos pais é preciso a aldeia inteira”. Do nosso ponto de vista, isso vale para todos, não apenas para as crianças. Precisamos da sociedade inteira! O Mito da Caverna abriu espaço e discussão a respeito da espiritualidade quando Platão afirmou que o que somos resulta do que aprendemos em existências anteriores. Tudo o que a filosofia milenar nos trouxe até aqui, serve para nos organizarmos individual e socialmente. E o que mais nos dá conforto é que a filosofia se relaciona com a história, com as demais campos de conhecimento, com o sujeito, com a arte e com a vida.
O que somos resulta do corpo e do espírito. Aqui entra o outro texto de Platão, O Banquete. Para nós, o banquete maior é o vivido com e pelo amor a nós mesmos e ao outro. Não por acaso Platão em seu texto, o Banquete, escolheu Eros, um dos deuses que representam o amor, para trazer reflexões que lidam até hoje, com o erótico e com o espírito. As manifestações existentes em nós como filhos de Eros foram uma das bases para Sigmund Freud [1856-1939] desenvolver sua teoria psicanalítica a partir da concepção de que somos seres de desejo e a libido como base de nossa realização.
Na atualidade, não deixamos de vivenciar os sentimentos trazidos por Platão, mesmo tendo se passado mais de dois milênios de suas reflexões. O desafio profundo e que sempre acompanhou a espécie humana é valorizar o que escutamos de nós mesmos e do outro. Esse é o ponto de partida e de chegada que precisamos utilizar para produzirmos a nós mesmos, participarmos da cultura e da sociedade. Cultura é o existir em essência, é movimento, luz, cor, arte, elaboração e reelaboração psíquica.
Para buscarmos ser pessoas melhores, mais humanizadas e um planeta melhor compreendido como nossa única casa comum, precisamos reconhecer que ainda há tempo para construirmos tudo isso, apesar de parecer que tudo está perdido. O que nos falta são movimentos mais coletivos que se iniciam, reiteramos, com o propósito de cada um dos sujeitos. Portanto, mãos à obra!
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Ensaio
A base da organização social é muito importante ser compreendida dentro do movimento social e histórico em si. Na contemporaneidade, precisamos ficar atentos e trabalhar desde a infância à velhice, da educação formal aos movimentos sociais organizados, com esse propósito. Uma atuação que envolva a participação da família, da escola e da mídia em geral, no sentido de superar os desafios que são muitos. Precisamos redimensionar o atendimento aos anseios populares e sociais mais básicos, para uma maioria representada pelo cidadão comum, as etnias, as representações de gênero, dentre outras.
É nesse contexto que se insere a busca de compreensão, de transformação e superação das bases que geraram a modernidade líquida tão denunciada por Zygmunt Bauman [1925-2017], em toda a sua obra, e também a busca da religação dos saberes e utilização de novos métodos de transformação entre sociedade e espiritualidade, anunciadas por Edgar Morin [1921-2026] em sua teoria do pensamento complexo.
A partir dessa nova realidade social e histórica, a religião não pode ser compreendida tomando-se por base o fundamentalismo ou a comprometida mistura de busca de compreensão das relações com a transcendência, pelo capital e as bases de poder pautado na excludência. Ao contrário, as contradições inerentes à evolução social e humana da nossa espécie precisam ser enfrentadas com zelo e perseverança, porque é urgente compreender e disseminar que a história não acabou. Ela apenas está à espera de novas atitudes e estratégias de busca de superação de alguns de seus movimentos.
Não estamos desejando nada absurdo. Mas precisamos, pelo menos, do necessário para sobreviver. Por outro lado, buscar saber que a vida não se resume a fortunas e a sofisticação. Tem a ver com simplicidade e possibilidades de viver com dignidade.
Necessitamos compreender e reescrever os caminhos da existência, inclusive em sentido amplo, envolvendo a natureza. A existência é só uma passagem cheia de ilusões e armadilhas. Se não nos dermos conta disso, ficaremos presos a frivolidades que sempre nos acompanharão em processo de autodestruição e destruição de valores morais e éticos tão importantes para a convivência humana. Com egoísmo, não ajudaremos no processo de recuperação da Terra, pelo contrário, contribuiremos para a dificuldade de caminhar em novas trilhas.
Valorizemos o fato de lutar para construirmos novas trilhas, sempre! Somos registros universais que procuram se afirmar pela razão, mas não somos só isso. Talvez sejamos cópias de algo que não sabemos. Talvez sejamos o projeto de um grande arquiteto em sua criação inacabada! O fato é que pouco sabemos como fomos originados, quem somos e para onde estamos indo. Mesmo assim, feliz-
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Ensaio
mente passamos a compreender que viver é uma experiência fantástica e incomum. Nenhum fenômeno universal tem a beleza que tem a vida! Precisamos reconhecer isto e lutar pelo que ela representa. Se observarmos a vida e seus movimentos históricos, filosóficos ou qualquer campo de conhecimento, vamos concluir que a vida é um mistério insondável. As civilizações anteriores e posteriores à Era Cristã constatam isto. Tanto tempo vivemos e fazemos história e a espécie humana ainda não compreendeu que nada somos além do que realizamos para o bem comum. Tudo que temos, socialmente falando, nada significa para nós mesmos, pois nosso patrimônio material não levamos conosco quando deixarmos a Terra.
O nosso verdadeiro patrimônio é o que deixamos para a coletividade ao construirmos bens comuns. Se conseguirmos passar essa ideia para nossos descendentes diretos, estaremos realizando um serviço incalculável para o bem da humanidade. O ter é uma ilusão do Ego que se desenvolve com o sentimento de posse. Na verdade, nada temos e pouco seremos se condicionarmos o ser ao ter. O que somos, pouco ou nada tem a ver com o que temos. A consciência é um dos únicos patrimônios que nos engrandece. Ser é uma busca eterna e incessante que nos acompanhará por toda a eternidade.
É preciso uma base para aguentar a solidão relacionada à valorização do ter. A base para enfrentar a solidão de qualquer natureza está no relacionamento consigo mesmo, com o outro e com o mundo. Essa base precisa ser fundada e mantida no amor em permanência constante...
Devemos praticar o amor. O dia a dia, a conversa, a troca de ideias mesmo que contrárias, para a manutenção do sentimento de presença são fundamentais. Sentir-se só é uma trama psíquica muito poderosa. Por isso, precisa ser encarada com zelo e fortes ações que possam vencer o estado de abandono que nos toma, de forma traiçoeira e quase definidora de nossas decisões.
Estado de solidão pode causar o impedimento de muitos sentimentos e emoções. E talvez, o impedimento de divisão, compartilhamento, viver com alegria, são momentos que podem ter registros para sempre. Um anticorpo combatente da solidão é o encontro consigo mesmo, com o outro e com situações que nos tragam para o reconhecimento de que a vida é a melhor experiência universal que pode se dar conta de si mesma e de que vale a pena!
Como o passar da vida torna-se valioso o exemplo de que tudo passa e se transforma em lembrança. O grandioso é que temos oportunidade de experienciar. O fato de estarmos vivos é e deve ser motivo de celebração. O que vier pode e será resolvido. A vida é isso, um processo permanente do vir a ser. Isso basta, isso vale a pena! Portanto, precisamos vencer o orgulho, senso de derrota, sentimento de abandono ou de isolamento social.
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Ensaio
Preciso e posso ajudar e quando for necessário, pedir ajuda, demonstrar que posso transformar o pulsar do viver em exercício de fraternidade onde serei sujeito e objeto. Isso me tornará exemplo de vontade e de reconciliação com o maior projeto que o universo nos apresenta: VIVER! O grande poeta Vinicius de Morais nos brindou com
❞ ❝
a tristeza é sempre uma esperança de que um dia não será mais triste não.
A vida nos ensina que precisamos aprender a ser fortes e a lidar com nossas fragilidades. Por que não buscar ser sem qualificações? Conviver é a experiência que pode nos levar a viver em plenitude, basta que busquemos atuar sem cobrança excessiva ao outro e a nós mesmos. Essa é uma forma de darmos tempo para que o aprendizado possa acontecer. E quando desconfiarmos de que não estamos sendo capazes de resolver nossos conflitos, resta-nos a opção de pedir ajuda a especialistas no assunto.
Hoje, terapia é uma necessidade! E o que não falta são psicólogos, psicanalistas, terapeutas individuais e familiares, dentre outros profissionais, para nos ajudarem nessa jornada de convivência. Ah! E tem mais, convivência é uma questão mundial, não é exclusividade de ninguém. Portanto, sejamos fortes e enfrentemos esse desafio que faz parte da vida!
O processo de aprimoramento da existência pode se dar pelo exercício de vários recursos que lhes são inerentes. Mas a arte é o maior deles, pois nos oferece o canto, a poesia, o exercício com a imagem através do desenho, da pintura, da escultura, a dança, a imaginação no teatro, na literatura e outras manifestações que nos fazem bem ao corpo e ao espírito. A arte é a atividade humana que lida com as sensações, sentimentos e projeções de enriquecimento da vida!
Estamos mergulhados na era das narrativas que oferece plena condição para mitos. É histórica a preocupação de algumas pessoas ficarem em busca de se tornarem mitos. A busca do performar a todo momento pode alienar e também destruir pelo distanciamento e pela incompreensão da realidade. É muito interessante o estudo de Yuval Harari [2018], em 21 lições para o século 21. Para apresentar nossas ultimas considerações, escolhemos a vigésima lição que o autor intitula de ❝Sentido – A vida não é uma história❞.
Na esplêndida análise do sentido da vida, na vigésima lição, Harari escreve: ❝perguntaram a um homem idoso e sábio, o que tinha aprendido sobre o sentido da vida. ❛Bem❜, ele respondeu, ❛aprendi que estou aqui na Terra para ajudar outras pessoas. O que ainda não descobri é porque as outras pessoas estão aqui.❞ [Harari, 2018, p. 344].
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Ensaio
O Banquete e o Amor Platônico: a busca pela verdade começa na morte da aparência e no renascer da verdade.
Por Otávio Segal de Araújo, Vitória-ES Professor e escritor sjoaobat85@gmail.com
❝A cada retorno de Perséfone ao Hades, a terra parece fertilizar para que brotem novas sementes. Ou seja, a visão de uma outra realidade, diferente — neste caso a morte — conforme Burkert [op. cit, p. 552], ‘não é um fim absoluto, é sim um novo início e simultaneamente um outro tipo de vida que é, em todo o caso, boa’. Neste caso, já evidenciamos a importância do retorno: a estabilidade da vida não traz melhorias e nem pioras. Mas, para que se brotem as sementes, é necessário descer para então voltar à vida: esta também é uma característica atribuída ao movimento de Eros. Victor Goldschmidt [1991, p. 51] afirma que estamos ‘adstritos, após visões imperfeitas incessantemente renovadas, a descensões parciais e que precisamos constantemente repetir’. Antecipamos que as subidas são essenciais em Eros, mas as descidas são também importantes, trazendo o aspecto da renovação.❞ GONÇALVES, Cristina Serrão. O Amor de Diotima no Banquete de Platão: Eros como intermediário. Anais de Filosofia Clássica, Vol. 18, n; 35, 2024. Poucas expressões filosóficas foram tão afastadas de sua origem quanto ❝amor platônico❞. No uso cotidiano, quando dizemos que alguém vive um amor desse tipo, normalmente nos referimos a um amor idealizado, distante do real, impossível de se realizar. É o amor por alguém que não podemos possuir, um sentimento que permanece no campo da imaginação porque não se concretiza. Há, nessa compreensão, uma ironia tamanha. Platão escreveu uma das obras mais importantes na história da filosofia sobre o amor, O Banquete, e aquilo que hoje se denomina de ❝amor platônico❞ é diferente daquilo que o filósofo demonstrou. O amor platônico não é o amor por uma pessoa ideal. É o amor pelo que está além da aparência. Como tudo em Platão reverbera no mundo das formas e no mundo sensível, não seria diferente com o amor. O amor platônico, em seu sentido mais profundo, é o amor pela verdade. Para compreender esse movimento, precisamos compreender a figura de Eros em O Banquete.
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Ensaio Platão não apresenta uma definição simples de Eros. O diálogo é construído justamente a partir da multiplicidade de discursos sobre o amor. Mas é na voz de Sócrates que são revelados os mistérios expostos por Diotima. A partir desse momento, saímos de uma exposição e entramos em um sentido filosófico para o texto. Diotima apresenta Eros como um Ser intermediário, entre o nosso mundo e o mundo dos Deuses. Em ascensão e descensão. Não é sábio, mas também não é ignorante. Algo que está sempre em desejo, Eros não possui o belo, ele o deseja. É nesse momento que Eros deixa de ser um sentimento por alguém e passa a ser compreendido como uma força que nos conduz. Essa mudança é fundamental, porque, para Platão, o problema não é simplesmente descobrir quem amamos. É justamente essa condição intermediária que permite compreender sua natureza. Eros deseja o que não possui, essa falta significa movimento e esse movimento é o movimento filosófico de ascensão à verdade. Assim como Perséfone busca flores e encontra-se com o belo, o ser humano encontra no desejo pelo corpo o seu amor pela beleza. Nesse sentido, Eros é um dáimon, um intermediário entre o mundo sensível e o mundo das formas, responsável por criar um movimento no real que permite ao ser humano alcançar a filosofia. Quem sabe que não sabe, procura saber. Quem percebe que não possui, deseja possuir. Quem reconhece a beleza faz uma das perguntas platônicas mais fundamentais: ❝O que é a beleza?❞. A palavra philosophia carrega esse sentido. Philo, que significa amor; sophia, que significa sabedoria. A filosofia pressupõe Eros, pressupõe a falta, pressupõe o desejo por saber, aceitando que não sabemos e somos ignorantes. Existe, portanto, uma relação profunda entre amar e conhecer, ambos nascem da ausência e do movimento de desejo e busca. Para compreender esse movimento de ascensão filosófica, é necessário compreender ❝a escada do amor ❞. Em um primeiro degrau, sentimos atração por um corpo ou pessoa específica. No segundo degrau, percebe-se que a beleza física é a mesma em muitos corpos. Após esses primeiros sentimentos, chegamos ao terceiro degrau, onde passamos a valorizar as virtudes morais e o caráter da pessoa acima da estética física. Nesse movimento, em ascensão, encontram-se o quinto e sexto degrau, os mais elevados na ❝escada do amor❞. O quinto degrau, encantamo-nos com o conhecimento puro e as formas de saber. No sexto degrau, temos uma visão intuitiva da forma da beleza – eterna, imutável e perfeita.
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Ensaio
Esse movimento é um movimento de morte e renascimento. É o movimento de abandono do que acreditamos conhecer e sentir, ascendendo para um novo mundo. Eros nos apresenta a forma de conhecimento filosófico, a forma do Belo verdadeiro, muito além de um amor idealizado ou algo inalcançável. Apresenta um mundo onde o corpo se conecta com a beleza, onde o particular se conecta com o universal. Ou seja, é mais correto dizer que o amor platônico é o amor que procura a verdade, a bondade e a beleza. No vocabulário do senso comum, ideal muitas vezes, significa algo imaginário e inexistente. Quando dizemos que alguém idealizou uma pessoa, queremos dizer que esse amor não se realiza na realidade. O ideal em Platão tem uma dimensão filosófica de ❝real verdadeiro❞. Ao contrário do que se pensa, idealizar em Platão não é fugir da realidade, é buscar o ideal que nos faz questionar para além do mundo sensível, para além das aparências. Platão não ensina a fugir da realidade, ele ensina a ultrapassar a primeira aparência da realidade. Fazendo um paralelo com o movimento de Perséfone para que surja um novo mundo, melhor que o anterior, Platão ensina a morrer. E tendo Eros como guia, renascer em um novo mundo. O belo particular pode nos conduzir à reflexão sobre a beleza. Uma experiência pode despertar uma investigação sobre justiça. O desejo pode, enfim, ultrapassar seu objeto inicial e tornar-se busca por compreensão. É nesse sentido que Eros se aproxima da filosofia, o filósofo e Eros partem de uma inquietação e esse movimento nos coloca em direção ao conhecimento verdadeiro. Contrapondo a definição do senso comum de ❝amor platônico❞ como um amor ideal não realizado, percebemos que, em seu sentido filosófico, significa deixar- se conduzir pela beleza física e sensível até o belo verdadeiro e, portanto, à verdade.
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Por Douglas Sacramento
Fiando & Desfiando
Fiando & Desfiando
REVISITANDO COSTURAS ANTIGAS: ENTRE CLÁSSICOS E AFETIVIDADES
Por Douglas Sacramento, Salvador-BA Professor, pesquisador e crítico literário douglas.ariston.18@gmail.com
Dedicado aos estudantes de LETA25 [ILUFBA/2026.2]
Muito imbricado com uma disciplina que estou lecionando no Instituto de Letras da UFBA, LETA25 – O Cânone Literário Brasileiro, na qual se discute o processo de canonização de alguns autores e suas obras e também se faz um estudo aprofundado sobre alguns conceitos importantes para entender esse cenário, um deles é a categoria ❝clássico❞.
infância, quando adentra o escritório do seu pai e encontra, sobre a mesa, uma estátua de Dom Quixote e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Ela questiona ao pai quem são aquelas personagens, e ele vai à sua biblioteca e puxa um calhamaço, dizendo que aquelas estátuas são protagonistas das aventuras contidas naquele grande livro. A partir daquele momento, o pai, antes de dormir, contava de forma adaptada a história do livro, afinal, sua fiel leitora era Ana Maria Machado criança.
Numa das preparações para a aula, revisitei minhas primeiras leituras de alguns clássicos, que fiz ainda na adolescência ou no início da fase adulta. Esse exercício fiz também em sala de aula, junto com uma discussão teórica interessante, a partir de um texto muito afetivo e com carga teórica muito bem alinhavada de Ana Maria Machado. No texto em questão, que inicia o livro Como e por que ler os clássicos desde cedo [Objetiva, 2002], a autora começa com uma cena da sua
Com base nessa rememoração inicial de uma das principais escritoras em atividade no Brasil, revi minhas próprias costuras desse compilado de tecidos e linhas, de diferentes espessuras e agulhas, que formam um leitor. Lembro, com muita nostalgia, quando encontrei na minibiblioteca de minha mãe um exemplar de O Peque-
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Fiando & Desfiando
no Príncipe, do autor francês Antoine de Saint-Exupéry, uma edição datada de 1986. A odisseia da criança que reina em seu próprio planeta para entender a rosa e como, ao chegar à Terra, seu retorno se daria apenas com a morte, para um renascimento lá, me afetou. Lembro-me de, indignado, perguntar à minha mãe por que o Pequeno Príncipe precisava morrer; eu não aceitava. Minha mãe, usando o próprio livro, explicou que a morte é uma forma de transformação, para um novo lugar, o retorno ao planeta habitado.
Relendo o livro para escrever este texto, sintetizo, usando as palavras do próprio Pequeno Príncipe: ❝Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir❞[p. 89].
Relendo a passagem, percebo como é bonito o uso dos verbos no futuro, como se, de algum modo, uma previsão ou profecia se instaurasse na certeza de que a morte é transmutação. O Pequeno Príncipe acredita que a única saída deste planeta é morrer em carne, para voltar à sua rosa. É a partir desse exercício de sempre se atualizar em cada leitura e mostrar um diálogo constante com o novo que a própria Ana Maria Machado calca sua explicação sobre o clássico para as infâncias. Afinal, é possível apresentar os livros que compõem um cânone literário de forma mais palatável. A autora faz uso direto e muito assertivo de outro ensaio importante sobre o
tema do clássico na literatura, de Italo Calvino, ❝Por que ler os clássicos❞, e, numa das proposições que compõe o texto, há duas que chamam a atenção: a atualidade do clássico, sempre precisando ser relido, e a categorização do ❝meu clássico❞, que está relacionada ao sujeito e à maneira como o compõe – ao lê-lo, ele descobre um pouco de si mesmo e dos outros.
Dessa forma, percebo como o que me chamou a atenção na infância e ainda me chama a atenção em O Pequeno Príncipe é sua morte, mais precisamente sua morte para o renascimento em outro lugar. Revisitando esse lugar na minha tenra infância, reencontro os diálogos com minha mãe sobre o livro, nesse lugar do inconformismo com um final tão trágico para uma criança. Há toda uma conexão com os temas que me perpassam hoje e com a minha pesquisa: morte e pós-morte, sobre os quais faço um empreendimento de estudar e escrever.
Outro ponto importante é como a literatura é propulsora de rememoração. Como compreendo essa arte como documento de memória, para além de documentar e contranarrar — segurando a mão do conceito do intelectual indiano Homi K. Bhabha — a história e suas versões oficiais. Também coaduno com a relação entre a literatura e sua importância para a formação do leitor, uma diálogo que perpassa o coletivo e o individual. Fazer esse exercício é importante, mesmo no que tange a um
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Fiando & Desfiando
assunto tão espinhoso como o cânone e o que denominamos de clássico, ou o que o campo da literatura, com seus intelectuais, denomina de clássico.
Assim, relembro e rememoro esse lugar de afetação que a leitura, ainda na infância, me proporcionou. E que bom que podemos sempre retornar a esses livros que nos compuseram. Melhor ainda é pensar e ensinar uma disciplina que traz à tona toda uma subjetividade, que não é só minha: os estudantes também relataram suas afetações por livros ainda na juventude, de Rick Riordan a John Green, passando pelo romantismo brasileiro, como A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, e, no século XX, por Clarice Lispector. Uma rede intrincada, forte e colorida, com linhas de memória, nostalgias e literatura.
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Entrevista entrelinhas
Uiara Ashanti
www.narrativasintrospectivas.com.br IG @uiaraiashanti
Nos conte um pouco sobre sua obra mais antiga e a mais recente. Tem como comparar as duas?
A minha obra mais antiga é As Várias Fases de Um Amor, lançada em 2008. De lá para cá, lancei outros sete livros de diversos gêneros, que vão da poesia e literatura infantil à romantasia. Contudo, escolhi me consolidar no romance, e o meu último lançamento foi Metamorfose, em 2025. No momento, o único livro que tenho disponível para aquisição é o Degradê: Por Entre Contos e Textos Poéticos. Os demais estão em fase de elaboração estratégica.
Vejo que você tem bastante interesse em estar sempre estudando. Como isso se reflete nas suas obras?
A aquisição de conhecimento é a única herança que posso deixar para mim mesma e que ninguém poderá me tirar. Sou uma pessoa muito observadora e questionadora, por isso estou sempre me atualizando naquilo que faz sentido para mim. Busco constantemente o equilíbrio, pois, como diz o ditado, o excesso de teoria sem aplicação pode nos afastar da realidade, enquanto a falta de conhecimento nos mantém na ignorância. Sendo assim, sigo em
constante aprendizado e, no momento, estou cursando o Bacharelado em História. Por conta disso, meus personagens também acabam refletindo esse grande interesse pelos estudos, resultando em narrativas mais densas e com um apelo emocional mais apurado.
❞
Escritora, ensaísta e pesquisadora da memória e da narrativa. Graduada em Pedagogia e graduanda em História, atua na investigação de histórias apagadas, na literatura de ficção e não ficção e no desenvolvimento de estudos
sobre ancestralidade e identidade.
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Entrevista entrelinhas
[...] escrevo para organizar o meu caos, que é lindamente extraordinário.❞
Sobre o exercício da escrita, de onde vem a sua inspiração, suas referências, como funciona sua mente até o momento de realmente pôr as palavras no papel?
Sou divergente, não sigo regras e escrevo quando estou inspirada. Todos os meus textos exigem um tempo de maturação antes de serem publicados, pois não tenho pressa; considero-me uma escritora tradicional e silenciosa. Minhas principais referências são as relações, o comportamento humano e a psique.
Você tem um ritual específico quando decide escrever uma história? Qual a sua rotina de escrita?
Não tenho rituais, apenas deixo fluir. Tenho obrigações diárias que se tornam prioridades, mesmo que hoje eu viva das palavras.
Ainda no campo da sua escrita, sobre seu processo criativo, você se vê como qual tipo de escritor?
Eu oscilo entre o jardineiro e o construtor; depende da minha intenção e da proposta do texto.
Para quem você escreve?
Escrevo para a humanidade. Escrevo para provocar reflexão. Hoje, minha linha de pesquisa e projetos busca resgatar histórias que foram apagadas e questionar o que, por muitos anos, foi tido como verdade na construção social.
Por que você escreve, Uiara?
Escrevo porque acredito que sempre tenho algo a compartilhar que possa ser útil para a evolução humana; escrevo para organizar o meu caos, que é lindamente extraordinário.
Gostaria que você comentasse algum texto lido nas edições passadas da entrelinhas e que gostaria de indicar para quem está lendo sua entrevista.
É um projeto relevante e corajoso pelos temas que se propõe a debater. Acompanhei os conteúdos apresentados e percebo o cuidado com a difusão da arte nos dias de hoje. A minha indicação é: leiam mais narrativas negras, conheçam o outro lado da história.
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Resenha Literária
Stanley Kubrick LOOK Magazine NYC 7

Resenha Literária
entrelinhas O Sétimo Juramento, de Paulina Chiziane: entre a fé, as raízes e os mistérios dos antepassados
entrelinhas entrelinhas
O Sétimo Juramento é uma obra que mergulha em questões muito profundas da sociedade moçambicana e nos coloca diante de um conflito que, de uma forma ou de outra, ainda faz parte da nossa realidade: a relação entre a religião, as tradições, os hábitos e costumes e as crenças ancestrais. Chiziane não apresenta a tradição africana simplesmente como algo do passado, nem a religião como uma resposta absoluta para tudo.
Ela mostra um choque entre diferentes formas de compreender o mundo e, principalmente, entre aquilo que acreditamos que somos e aquilo que herdámos dos nossos antepassados. Vivemos numa sociedade onde muitas pessoas seguem religiões como o cristianismo, mas continuam ligadas, de alguma maneira, a costumes e crenças transmitidos pelos nossos antepassados. Às vezes existe uma tentativa de separar completamente essas duas coisas. Noutras situações, existe até vergonha ou medo de falar sobre determinadas práticas tradicionais. O Sétimo Juramento coloca essa contradição diante dos nossos olhos. A obra questiona o que acontece quando tentamos rejeitar as nossas raízes, mas, ao mesmo tempo, recorremos a elas quando precisamos de respostas ou de soluções para aquilo que não conseguimos controlar.
E isso fez-me pensar, porque existe uma curiosidade muito humana em relação aos mistérios dos nossos antepassados. Queremos saber quem fomos, de onde viemos, quais eram as crenças dos nossos avós e dos nossos ancestrais. Mas, ao
mesmo tempo, muitas vezes crescemos aprendendo que determinadas práticas são erradas, perigosas e incompatíveis com a religião que seguimos.
Então, onde termina a fé e começa a tradição? Será que podemos deixar completamente as nossas raízes apenas porque adotamos outra religião? Ou será que a nossa identidade é muito mais complexa do que isso? Paulina Chiziane não oferece respostas fáceis e acredito que essa seja uma das grandes qualidades do livro. Outra coisa que me chamou atenção foi a forma como a autora trabalha a hip
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Resenha Literária entrelinhas
hipocrisia. Há personagens que defendem determinados valores e princípios, mas cujas atitudes estão muito distantes daquilo que pregam e essa contradição não aparece apenas no campo religioso. Chiziane fala também de poder, dinheiro, ambição, relações familiares, desigualdade e desejo. A religião e a espiritualidade tornam-se parte de uma discussão muito maior sobre aquilo que somos capazes de fazer quando queremos alcançar alguma coisa.
As nossas raízes estão realmente no passado?
Uma das reflexões que levo desta leitura é sobre a dificuldade de separar o presente do passado. Os antepassados podem ter morrido, mas aquilo que deixaram continua vivo nos costumes, nas histórias, nas crenças e na maneira como muitas famílias compreendem determinadas situações. E, para mim, O Sétimo Juramento fala muito sobre isso: uma sociedade que tenta caminhar para a modernidade sem conseguir apagar completamente aquilo que veio antes. É uma questão especialmente interessante em Moçambique, onde diferentes tradições, religiões e culturas convivem e, muitas vezes, entram em conflito.
entrelinhas entrelinhas
É interessante perceber como, em determinados momentos, aquilo que é apresentado como fé pode estar misturado com medo, ambição e interesse pessoal. E talvez seja justamente aí que o livro se torna desconfortável. Porque não nos permite simplesmente apontar o dedo para os personagens e dizer: eles estão errados. Em vários momentos, somos levados a questionar comportamentos e contradições que também existem na nossa sociedade.
Imagem: reprodução; Paulina Chiziane
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Revista Independente te vejo nas entrelinhas
O Clube do Livro entrelinhas é voltado a uma lista de títulos com gêneros, sub-gêneros, autores e momentos literários diversos, e preza pela criação ou desenvolvimento do olhar amplo e crítico sobre diversos temas; podendo incluir: ficção & não- ficção, como biografia, artigo científico, reportagem, ensaio etc
Atenção: este clube não é alinhado politicamente à Direita, muito menos de Extrema-direita, porém você pode encontrar algum título destas linhas aqui.
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Anexe o comprovante de
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Um clube de leitura variada. Aqui tem um pouco de tudo; ou quase tudo. Inclusive, leitura pesada e desagradável de uma ou mais maneiras.
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A Cereja do Bolo
Por Cassandra Marjani
A Cereja do Bolo
IG @autoracerejahoax Escritora e graduanda de BI em Artes na UFBA, Salvador-BA
Me pego pensando constantemente no que descobriu a Universidade de Northwestern: a moda sempre retorna depois de 20 anos. E, é claro, reflito em até que ponto isso é uma verdade e até que ponto é apenas uma ideia que foi implantada no subconsciente coletivo através da própria pesquisa. Penso que a moda é um dos principais veículos para comunicar nostalgia. Eu gostaria de ter vivido nos anos 90 e no inicio dos anos 2000, apesar de que isso seria uma subsistência bem dificultosa. Uso muitas roupas que relembram esse momento, adoro batas, croppeds com calças duas vezes maiores, argolas e tudo o que tenho direito na enorme coleção de tendências dessa época.
Carrego na capinha do meu celular meu desenho favorito da infância: As meninas superpoderosas; ouço as músicas que me faziam chorar aos 14 anos apenas para sentir vergonha do
A Cereja do Bolo
Por Cassandra Marjani
que pensava naquela época, me perco em pensamentos sobre quem era aos 6… A nostalgia é a mais comum sensação que experiencio no meu dia a dia, e percebo que não sou a única…
No cinema, música, séries de TV, moda, teatro… Tudo está voltando ao passado. Preciso dizer que tudo que vou falar aqui é minha opinião e minhas impressões, então não leve como um fato. O Diabo Veste Prada 2, diversas continuações da Disney e até segunda parte de álbum… — ouçam Confessions II. Tudo está voltando ao passado, retomando o que já foi, reaproveitando aquilo que, para algumas gerações, é visto com saudade. É um saudosismo usado para conseguir o que move o mundo: o dinheiro.
[...] a moda sempre retorna depois de 20 anos. ❝
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A Cereja do Bolo
E a noção de nostalgia se tornou maior depois da pandemia [eu sei, palavra proibida]. Algo tão surreal e gigante que criou um marcador temporal definitivo, uma dobrinha no tecido do século 21. Tudo antes disso parece melhor, mais brilhante e mais interessante do que o que temos agora. O mundo precisava dançar, então, Beyoncé trouxe de volta o house dos anos 90; as pessoas queriam esquecer, então, a Globo decidiu começar a fazer remakes de novelas icônicas — Deus me mate agora —, jovens adultos sentem falta de serem adolescentes em 2020 a 2022, então, é óbvio que festas com bebida alcóolica e músicas nostálgicas são mais que populares… Sou cliente assídua, inclusive. Há um grande esquema para que essa nostalgia seja rentável, mesmo que, ou talvez porque, é uma questão coletiva. Nós todos gostaríamos de voltar no tempo, de certa forma. Vivemos uma dicotomia constante entre ansiar pelo futuro enquanto não conseguimos largar o passado. De forma alguma. Sendo sincera, eu sou um pouco obcecada pela nostalgia. Por isso, vejo Fleabag novamente todo ano; assisto De Repente 30 todo aniversário e sempre choro com Vienna do Billy Joel.
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A Cereja do Bolo
Nostalgia vem do grego e significa a dor de uma ferida antiga. É a dorzinha do peito que surge quando lembramos de algo que amamos muito, mas não faz mais parte da nossa vida e é cruel porque não importa o quanto você tente, você nunca vai conseguir sentir novamente o que um dia já foi, o sentimento não pode ser replicado… Então, qual a cereja do bolo da vez? Essa pergunta é difícil de responder. Acredito que não há uma cereja do bolo, mas dá para fazer uma cobertura bem gostosa. Apesar de dolorosa, a nostalgia é uma ótima oportunidade de se conectar com o que você já foi, refletir como você mudou e as partes de si que se mantém, apesar de tudo. Talvez a cereja do bolo seja perceber a nostalgia como parte do nosso processo como seres humanos, nunca conseguimos abandonar o que já passou. E só temos que lidar com isso.
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Antes do FIM
A CERIMÔNIA DOS DIREITOS PERDIDOS
Devido aos absurdos que estamos vendo acontecer diante dos nossos olhos, venho trazer alguns pensamentos. O mais assustador neste cenário moribundo em que vivemos, não é apenas o avanço de ideias que reproduzem os mecanismos do nazifascismo. É a facilidade com que elas encontram abrigo justamente entre aqueles que mais sofrerão suas consequências. A história já nos ensinou que o fascismo não precisa anunciar sua chegada com botas, uniformes ou saudações. Basta que o medo seja transformado em ódio, que a insatisfação encontre um inimigo conveniente e que a promessa de ordem pareça mais sedutora do que a própria liberdade [e a liberdade pode ter significados diferentes, acredite]*. Primeiro, escolhem-se os culpados. Depois, retiram-se seus direitos. E, quando a sociedade finalmente percebe que a perseguição não se limita aos primeiros escolhidos, as portas da democracia já podem estar fechadas. Há quem acredite que seus direitos estarão protegidos enquanto os direitos alheios forem destruídos. Que a censura será reservada apenas aos adversários. Que a violência jamais alcançará sua casa. Que a liberdade continuará existindo depois que todos os outros forem silenciados. Que ingenuidade perigosa! [ou perversa!]*
O autoritarismo não oferece proteção permanente aos seus admiradores. Oferece-lhes apenas a ilusão de que estarão entre os escolhidos. Então me conte: como você prefere perder sua liberdade? Pela força, pelo medo, pelo silêncio ou pelo confortável hábito de acreditar que nada disso lhe diz respeito? Teremos cadeiras disponíveis para acompanhar a cerimônia de corpo presente da democracia. Afinal, muitos ainda parecem dispostos a assistir à própria perda de direitos, desde que possam aplaudir a retirada dos direitos de alguém que aprenderam a odiar. E você, continuará aplaudindo quando chegar a sua vez, quando a vez do seu amigo gay chegar, quando a vez do preto com quem você convive chegar, ou quando algumas crianças forem torturadas, como foram em 1964-85? Você pode pensar que, por ser uma ❝pessoa de bem❞, não será atingido, contudo lembre-se que o ego nos faz cometer os piores erros e nenhuma sociedade estará salva nas mãos de quem professa aniquilar inimigos e principalmente quem professa fazer o mundo se tornar do deus que eles acreditam ser o certo. A história da humanidade está aí, para provar.
*Comentários da editora-chefe
Há quem acredite que seus direitos estarão protegidos enquanto os direitos alheios forem destruídos.
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FIM Dia da Nação: Rádio Pirata
Estamos aqui mais uma vez. A trasmissão de hoje é direto de algum lugar escondido entre nossas fileiras de resistência ao que se tornou real e palpável em nossos dias. Sim, meu amigo e minha amiga, estou falando, é claro, do esgoto que invadiu nossas ruas, escolas, e cadeiras que decidem como iremos morrer. É por isso que hoje teremos uma enquete simbólica: como você escolhe morrer? Na forca, no muro, no campo de minério, ou ainda, no choque? Lembrando que haverá transmissão ao vivo com algumas cadeiras disponíveis para assistir à cerimônia de corpo presente. O que você escolhe? Hoje também resolvemos trazer um apanhado geral de fim de ano, relembrando alguns fatos importantes que se tornaram a ❝nova realidade❞. Fato #1: inauguramos a primeira morte assistida do século 21 em terras latinas, aqui mesmo, no Brasil; Fato #2: manifestações neo-nazistas [os saudosos galinhas verdes] voltaram às ruas com apoio de 52% dos brasileiros; Fato #3: aprovação no senado [extinto e saudoso] da escala 7x0 com apoio de remuneração por hora trabalhada [realmente são muito boas]; Fato #4: nosso Estado tornou-se oficialmente uma nação de um único deus, e ele surpreende a capacidade de lógica e raciocínio, pois são 3 entidades em 1, louvado seja; Fato #5: com honras [e muitos aplausos, não podemos negar] o sufrágio feminino foi subtraído;
inclusive, espero que seus ouvidos não pertençam a uma mulher; Fato #6: nosso símbolo como nação foi atualizado [grandiosamente] para uma versão dualista ❝EUA & Brazil❞; Fato #7: bom, essa talvez vocês já não lembrem, mas tivemos uma importantíssima medida que fez nos livrarmos daqueles familiares 60+ e [principalmente] filhos defeituosos que nos faziam perder nosso tempo de vida, tudo isso graças aos cortes [lembro que não foi de uma vez] nas extintas aposentadorias e auxílios que nos enforcavam a todos, vamos ser sinceros, certo? Quem sente falta dos ancestrais próximos? Eu não. Eu poderia listar mais fatos, mas esses foram os que mais me chamaram atenção e deixo aqui como homenagem maior da Rádio Pirata para quem ainda estiver vivo e respirando. Talvez eu esteja falando sozinho [duvido, temos muitas foices e martelos, além de mascarados]. Lembrem-se: um dia fomos outra nação. Um dia escolhemos estar aqui e agora.
Nós não queremos ser resistência para sempre.
❝
Dep. Federal por PE Jones Manuel
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Fim Histórias Independentes
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2026
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