Quem é ele, que vive pelas ruas, distribuindo simpatia?
Quem é ele, que dorme ao relento e, ainda assim, ri o tempo inteiro, exalando a alegria de quem acumula todos os bens terrenos?
Quem é ele que não vê preocupações? Que não sabe os nomes de quem encontra, de quem o aborda, mas dedica um “meu querido”, “minha querida”, sinceros a cada um que cumprimenta?
Quem é ele, que abandona o álcool, seu melhor amigo, para cuidar dos enfermos, conhecidos ou não, humanos ou não? Que recebe o que os solidários têm para oferecer, come quando dá, se aquece quando é possível, e ainda é feliz.
Quem é ele, que não tem bem para chamar de seu e o que adquire, divide com quem tem ainda menos?
Quem é ele, que não recebe amor humano, mas tem tanto dentro de si que ama cada animal como a um filho e, como filho, os cria para o mundo e não para si?
Quem é ele, sem teto, sem planos, sem futuro, que passa cantando e subtraindo os temores da violência constante dos “seres de bem” que nunca fizeram uma fração do bem que ele já fez?
Quem é ele, tão grato ao pouco que lhe dão, que reserva tempo para cuidar de jovens que um dia lhe deram pão, e colhe flores para quem lhe concedeu minutos de atenção?
Quem é aquele homem, jovem, magro, negro, faminto, com todos os motivos para se afundar na tristeza, mas que nunca mostrou uma fagulha de amargura? Que guarda pessoas no coração, sem cobrar aluguel e se preocupa sem pedir recompensas.
Ele é aquele habitante das ruas, malvisto, malvestido, invisível, de alma evoluída que ninguém vê, aquele repudiado, pré-definido, nunca conhecido, mas que está lá, fazendo pelos outros o que não fazem por ele.
*Texto registrado na Câmara Brasileira do Livro em 17/08/2019.